terça-feira, 20 de julho de 2010

A caixa de cartão

A minha amiga I. foi de férias e trouxe-me, entre outras coisas, uma caixa de bolos, supostamente muito famosos. Nunca tinha ouvido falar deles e acho que o nome dos bolos é conhecido à semelhança do meu próprio nome no seio da minha família, que o mesmo é dizer, dentro de portas todos me conhecem, estranho seria o contrário. Porém, ela lá ouviu falar e resolveu trazê-los. Ora, felizmente, eu não sou muito dada à guloseima e dividi os doces por colegas de trabalho que os engoliam como se fossem vidreiros numa fábrica desconhecida e, de repente, se vissem a moldar por sopro em Murano! Disse-lhes que não precisavam de exagerar a qualificar o sabor dos bolinhos, e eles fizeram uma cara de relaxamento, engolindo as últimas migalhas.
Isto aconteceu ontem e o nome dos bolos não o guardei nem por dois minutos, o que pode levar a pensar que desprezei a oferta, que nem consumi.
Nada disso.
Guardei a caixa, de cartão grosso, azul celeste, com uma tampa bordada com uma borboleta e que vai ficar para sempre na minha gaveta dos brincos e demais acessórios de enfeitamento. Sempre que abrir a gaveta vou vê-la e lembrar os bolos e o meu desconhecimento da indústria pasteleira parisiense, mas acima de tudo, vou lembrar-me da I. que proporcionou aquela presença num local inacessível aos olhares alheios, mas diariamente rebuscada por mim, usada por mim.
Não aprecio presentes que se consomem, como bolos ou garrafas seja do que for, porque depois de consumidos, desaparece a lembrança da oferta, desaparece o rasto do gesto, desaparece a própria intenção, desaparece a memória.
No meio da minha eterna – e essa sim, famosa – desarrumação, há coisas que ninguém sabe o que são, mas eu sei, e sei de onde vieram, quem mas deu e em que circunstâncias foram parar lá a casa e ali, àquele sítio.
O pior é quando nos oferecem alguma coisa que não gostamos, por vezes, que detestamos mesmo! Cria-se um constrangimento e inventam-se desculpas a dizer que já temos, que nos deram um igualzinho, enfim, inventa-se. Na medida do possível, sou franca e tento dar a volta a dizer que noutra cor é que ficava bem e se não se importam que troque a oferta. Também tenho algumas coisas que foi impossível recusar ou trocar e por lá andam. Também já recebi presentes que voltei a embrulhar e voltei a oferecer, tentando não fazer como na história da gravata que foi oferecida a alguém que, não gostando dela, a guardou para a oferecer posteriormente, mas o tempo passou e tendo-se esquecido quem lha tinha oferecido, foi dá-la precisamente a essa pessoa, que logo a reconheceu...
Serve isto tudo para agradecer a caixinha de cartão, que tão bem fica na minha gaveta e que, independentemente do tamanho, cabe lá uma amizade gigantesca.

Cama de rede

A minha amiga L., em viagem de trabalho pelo Brasil, um certo dia antes dum jantar de cerimónia usou o serviço de cabeleireiro do hotel. Tinha andado o dia todo nas compras e de entre várias coisas, estava muito satisfeita com uma cama de rede que comprara, meia rendada, uma peça lindíssima. No cabeleireiro foi atendida por uma jovem cabeleireira simpaticíssima que lhe perguntou o que queria fazer, ela e uma colega que a acompanhava. Lá explicaram o que pretendiam, lavaram as cabeças e estava a L. relaxada na cadeira a levar com os primeiros vapores quentes do secador para tirar o excesso da água quando a cabeleireira lhe pergunta:
- Já fizeram amor aqui no Brasil?
Ora, a L. e a colega tinham estado a noite inteira a rir com a televisão bem alta para evitarem ouvir as manifestações de prazer do casal do quarto ao lado e ainda não estavam refeitas da noite de gargalhada, logo, quando ouviram a pergunta, desataram a rir até mais não poderem e responderam à cabeleireira que não. A jovem disse-lhes então que tinham que experimentar fazê-lo numa cama de rede. É claro que se lembraram logo da compra dessa tarde e tiveram novo ataque de riso, de tal forma grande que a cabeleireira pensou não poder continuar a trabalhar com clientes que não paravam quietas e se balançavam rindo à gargalhada.
Lá deram continuidade à conversa e ficaram a saber que a cabeleireira adorava camas de rede mas que, das suas experiências, só não gostava de as usar com americanos, que lhe causavam grandes frustrações porque eram muito grandes e não sabiam manter-se em cima da rede, caindo com frequência, o que, para a acção específica em si, até podia ser perigoso, sendo obviamente doloroso!
A L. e a colega não conseguiam parar de rir e ficaram assombradas quando a cabeleireira lhes contou com pormenores escaldantes como fazer amor numa cama de rede. Entretanto ia pondo ganchos que seguravam os longos cabelos da L. para secar as partes mais perto do pescoço e ia subindo com o secador à medida que o trabalho caminhava para o fim, puxando o cabelo com a escova, pondo mais um rolo, substituindo esta escova por aquela, mais apropriada a esta parte do cabelo, tufando um pouco em cima, alisando e enrolando nas pontas, tudo enquanto dava uma aula sapiente e descritiva, não só como fazer amor numa cama de rede, mas e principalmente, como se equilibrar na dita durante o acto!
Por fim, quando a profissional do cabelo se afastou em busca da laca final, a L. perdida de riso, voltou-se para a colega e pediu-lhe que lhe visse bem o cabelo e o que estava a cabeleireira a fazer, pois com toda aquela conversa temia que no fim, ao olhar-se ao espelho, tivesse uma qualquer arquitectura ousada e explícita no alto da cabeça!
A outra chorava e as lágrimas que lhe corriam pela cara não a deixavam ver nada, nem sequer abrir a boca.
E foi com estes ensinamentos que as duas saíram do cabeleireiro e se foram vestir para o jantar.
A cama de rede está na casa da L. mas consta que ainda não foi utilizada.

Amazónia humana

O metro vai cheio. Como o apanho na primeira estação vou sempre sentada. Umas paragens adiante com o entra e sai de passageiros, senta-se um rapaz ao meu lado com cerca de vinte e cinco anos. Reparo nele porque tem uma t-shirt igual a uma do meu filho, verde bandeira com umas letras no peito. O rapaz já vinha no metro há algum tempo mas só quando se sentou é que vi que as calças de ganga que trazia vestidas tinham uns rasgões nas pernas, tal como algumas do meu filho. Porém, a diferença que se fazia ver, era enorme: dos buracos nas calças saiam uns tufos enormes de pelos, negros, pontiagudos, muitos! Parecia que o rapaz tinha um canavial plantado na perna esquerda.
Não era só eu que lhe mirava as pernas, várias pessoas tinham os olhos colados na abertura – que provavelmente fez com que as calças fossem mais caras! – de onde saia aquele arbusto fulgurante. O rapaz levava uns auscultadores enormes na cabeça, que abanava ligeiramente ao som da música, que eu conseguia ouvir perfeitamente e parecia não dar conta que era o protagonista daquela viagem de metro, como se fosse ali uma árvore cujo ramo abanava diante dos olhares meios gozões, meios de surpresa.
A tomar como exemplo aquela singela abertura ele devia ser uma espécie de Amazónia humana, o que me lembrou um actor brasileiro conhecido pelo seu aspecto peludo, como se usasse um tapete de pelúcia de pelo comprido, a cobrir-lhe o corpo.
Se o meu companheiro de viagem fizesse a depilação devia perder uns dois ou três quilos, garantidamente!

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Mastercard

A publicidade do Mastercard é ridícula.
Há dois outdoors um com uma figura masculina e outro com uma feminina. O primeiro alude ao cabedal e tem um ginásio como pano de fundo; o segundo, com um avião a sorrir-nos, alude a férias, ao descanso e ao prazer. Ambos querem fazer-nos pensar na liberdade que nos é dada com o dito cartão e eu nem discutiria mais uma campanha de oferta de dinheiro fácil, não fosse a frase, magistral, que acompanha os dois cartazes: ‘Saber que há coisas que são só portuguesas não tem preço’.
Porquê? Como? Quando?
Aguardo uma explicação convincente.

Mãe, precisa-se!

Estou deitada na areia a ler. Levanto os olhos à passagem de três adultos que vêm da água e me salpicam.
Param a três metros de mim e uma das mulheres pergunta:
- A Rita? Onde está a Rita?
- Não sei, ela não tinha ficado aqui?
- Não! Ela foi atrás de ti para a água!
- Ai a minha filha, a minha filha!
Todas as pessoas ali ao redor se levantam e começam a olhar para todos os lados, na esperança de ver uma garota algures a chorar ou com ar de perdida, sinais prováveis de ser a Rita. Mas ninguém vê nada.
A mãe fica ao lado do chapéu de sol a chorar e a chamar pela filha e os outros dois, um homem e a uma mulher, avançam pela areia em direcção ao mar.
Só nesta altura me apercebo que debaixo do chapéu de sol dorme uma criança, com uma ano e tal, dois anos, ou seja, para além de não saberem da Rita, foram à água e deixaram uma criança SOZINHA a cerca de cem metros da água, encostada à parede da praia, o local mais longe da água. Cem metros que, para uma criança daquela idade, que acordasse e se visse sozinha, correspondiam a quilómetros quadrados de medo, de pânico e de choro.
Adiantando a descrição, passados cinco minutos, que confesso me pareceram a mim e a todos os que estavam a assistir àquele filme a cinco anos, lá vem a Rita, meia a chorar, com o homem atrás a dizer-lhe que não se devia afastar! A mãe, sentada na areia ao lado do gaiato que dormia, chora desalmadamente mas, quando vê a filha e se espera que a abrace, não o faz. Abraça-se à outra mulher, a chorar convulsivamente, deixando a criança ali a seu lado com medo, assustada e só. Quando largou os ombros da outra e se lhe secaram as lágrimas deu uma desanca na miúda porque tinha desaparecido.
Não aguentei mais e disse alto e bom som que não suporto pessoas estúpidas e fui à água.
Numa praia cheia de gente não se tira os olhos das crianças, não se espera que elas reajam como adultos porque não são. Somos nós que as perdemos e não as crianças que se perdem.
Aquela mãe centrou em si a angústia de sentir o desaparecimento da filha, mas não se regozijou por a encontrar, não a puxou para si, não a abraçou, não lhe disse o quanto a amava e o quão desesperada estava por a saber sozinha no meio de milhares de pessoas. Não, aquela mãe pensou nela própria e nada mais. Aquela mãe, que vai à água e deixa uma criança pequena abandonada debaixo dum chapéu de sol, longe da água, que perde outra filha, pode ter sido mãe duas vezes, talvez até mais, mas não é mãe do coração de nenhuma daquelas crianças.

Praia do Tamariz: de fugir!

Praia do Tamariz, sábado, depois do almoço.
Estou sentada na areia a olhar o mar. Passa um casal de adolescentes, ele branco ela preta. Passeiam de mãos dadas, pés dentro de água, partilham segredos que os fazem sorrir.
Passado um bocado vejo-os caminhar com a mesma cumplicidade, na direcção oposta.
Um grupo de cerca de 15 a 20 jovens, brancos e pretos, provoca o rapaz:
- A preta é boa, é?
A resposta veio com intenção de pôr um fim à conversa:
- Mete-te na tua vida!
Uns segundos depois o rapaz estava tapado por vários membros do grupo que se tinham levantado como molas e o obrigavam a dobrar enquanto lhe torciam os braços e o pescoço.
A rapariga chorava e gritava:
- Não, não, deixem-no!
Tentava meter os braços no meio daquela pequena multidão a puxar o namorado, sem sucesso, restando-lhe chorar e implorar que o largassem.
Uma mulher sentada a meu lado e igualmente a ver a cena alertou a polícia que estava em cima do paredão. Os agentes começaram a andar lentamente e um dos do grupo, que sempre se mantivera à parte da algazarra, aproximou-se dos amigos e disse com voz firme:
- Deixem-no! Isto está a ficar cheio de fruta e não quero sarilhos. Nós depois apanhamo-lo...
Foi uma ordem. E ordens são para cumprir. O mais impressionante de tudo é que a ordem foi dada por aquele que parecia ser o líder do grupo, sendo que era um gaiato que não tinha mais que 13 ou 14 anos.
Libertaram o rapaz que se agarrou ao pescoço magoado e continuou a andar com a rapariga que não sustinha as lágrimas.
Desapareceram do meu campo de visão em minutos.
A turba manteve-se.

Praia do Tamariz, sábado seguinte, depois de almoço.
Um grupo de adolescentes brancos e pretos gritam, dizem impropérios às toneladas uns aos outros, atiram areia a todos quantos ali estão, correm sem se preocuparem seja com quem for.
Estou deitada de barriga para baixo a ler e de repente ouço:
- Algema já esse!
Levanto os olhos e diante de mim estão seis agentes, dois deles com cães, e quatro adolescentes algemados, deitados no chão a lamber areia.
A aproximação foi tão rápida e subtil que ninguém deu conta de chegarem.
Um dos agentes questiona outro se esta a ver ‘o que falta’; o outro responde que sim, que está dentro de água mas que o está a ver.
Aproximam-se várias raparigas que vêm da água e perguntam aquilo que todos os que estão a assistir querem saber também:
- O que aconteceu?
- Estes indivíduos foram identificados por três rapazes que assaltaram no comboio hoje de manhã. Afastem-se, não mexam em nada porque temos que encontrar a arma branca que usaram para ameaçar durante o assalto.
As raparigas ainda tentaram aproximar-se do monte de toalhas, mochilas e roupa mas os agentes foram firmes e não permitiram.
Enquanto isso, o jovem branco que estava igualmente algemado foi tomado por um ataque inusitado de vontade de rir e, fazendo força com o pescoço para não ter a cara na areia, ria-se como se estivesse a ver um filme cómico. O gozo foi travado por um dos agentes que lhe perguntou com voz de trovão o que lhe dava vontade de rir, não obtendo resposta, mas fazendo com que a atitude provocatória terminasse.
Os agentes remexeram nas mochilas dos algemados e passados minutos levantaram-nos do chão e levaram-nos até a uma carrinha da polícia estacionada no paredão ao lado da areia, juntamente com os seus pertences.
Assim que viraram costas, uma das raparigas tornou-se um vulcão de impropérios, acusando-os de racismo e berrando literalmente os maiores disparates possíveis. Os pedidos das outras para que se calasse não obtiveram qualquer eco.
A praia estava sentada ou de pé, aguardando o desfecho e rezando em uníssono que alguém tivesse coragem de dar um sopapo na rapariga de forma a calá-la.
Só se silenciou quando dois dos agentes voltaram à areia para prender o elemento que tinha estado dentro de água e, aparentemente, não tinha dado conta do que se estava a passar. Aproximaram-se novamente do grupo e pediram repetidamente que lhes dissessem onde estava a arma branca e o telemóvel do suspeito. Ninguém sabia. os agentes perguntaram onde os tinham enterrado e o grupo, quase só raparigas, respondeu que não sabiam de nada. os agentes voltaram ao paredão e regressaram à areia com um dos rapazes algemados, que pediu ao grupo, em voz baixa, que dessem as suas coisas à polícia, numa atitude que foi interpretada pela assistência como de confissão. O grupo não se mexeu.
Levaram o rapaz novamente o que provocou nova ira do vulcão que despejou lava ardente pela praia inteira, num festival que devia estar a ser ouvido nas praias das imediações.
A maioria das pessoas começou a fechar os chapéus de sol, a sacudir a areia e a vestir-se. Eu fiz o mesmo.
Ontem, Domingo, fui para a praia de S. Pedro.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Eu: grávida e feliz!

Janeiro de 1994, Bruxelas.
Quis ir passar a passagem do ano em Londres mas o meu marido não quis. Passados dias convidou-me a acompanhá-lo a Bruxelas, onde estivéramos mas só de passagem.
Ele ficou os dias inteiros numa sala de formação do hotel, com um grupo de gente vinda de vários locais do mundo. Lembro-me duns mexicanos que, numa manhã em que começou a nevar, saltaram das suas cadeiras e foram buscar as máquinas fotográficas pois nunca tinham visto neve. A formação que esperasse, eu teria feito o mesmo!
Eu saia do hotel depois do pequeno almoço – soberbo, e eu já tomei pequenos almoços em muitos sítios, sei do que falo – e caminhava em Bruxelas ao sabor das curvas das ruas. Tomei imensos cafés e chocolates quentes, dentro dum frio imenso que combatia à força de sorrisos e vontade de conhecer mais esta rua e mais aquela, mas que acabavam sempre na praça central, como não podia deixar de ser.
Caminhava devagar e recolhia ao hotel cedo, primeiro porque ficava de noite perto das cinco da tarde, depois porque estava grávida.
Lembro-me de acariciar a barriga dentro de autocarros e conversar com o meu filho contando-lhe o que estava a ver e descrevendo praças e ruas e museus e fachadas de edifícios. Lembro-me de marcar encontro com ele em certos sítios dentro de vários anos. A marcação mantêm-se, embora ainda tenha que esperar, pois ele está na fase em que quer é sair com os amigos. Mas eu sei que não será em vão... eu sei e certezas de mãe, são coisas poderosas.
Encontrei esta fotografia quando arrumava a carteira, no meio de uma dezena de fotografias do meu filho. Gosto de pensar que esta é a sua primeira fotografia, quando os pais sorriam em simultâneo.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

vejo-me parada no tempo

em fotografias antigas

estou ali, estive ali

estou aqui, estarei ali, acolá

transpiro passado

para onde quer que vá

levo muitas vidas

mas acima de tudo

uma renovada ignorância

A malta quer é música!

Num estudo realizado no Centro de Investigação e Estudos de Sociologia (CIES), do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE), sobre a “Linha de Crédito para Estudantes do Ensino Superior com Garantia Mútua” e recentemente anunciado na comunicação social, afirma-se que entre finais de 2007 e Dezembro de 2009 foram pedidos mais de 128 milhões de euros para financiar cursos superiores. Ou seja, as pessoas pagam para providenciar a sua aprendizagem formal superior, para crescerem profissionalmente, para aumentar a sua auto-estima e caminharem num futuro munidas de ferramentas que consideram essenciais. Parece-me um bom investimento, controvérsias à parte sobre a gratuitidade do ensino.
Agora gostava de relacionar esta informação com uma realidade que se vive no calor de Verão em Portugal, num Portugal em crise, com elevados índices de desemprego, com famílias em precárias condições, com empresas a fechar e por aí adiante: os festivais de música!
Desconheço se há valores para quanto se gasta por ano em festivais de música. No site Festivais de Verão encontramos uma lista de 25 nomes de Festivais, alguns com tradição como o Super Bock, Super Rock, Optimus Alive ou Rock in Rio e locais como Paredes de Coura ou Zambujeira do Mar fazem parte obrigatória do trajecto de milhares de pessoas que não vivem sem estes espectáculos.
De acordo com o site os preços vão desde 5 euros a... 3500 euros! Estes são para os lugares VIP Deck do Sensation 2010, no pavilhão Atlântico. No fórum deste festival muitos eram os que se perguntavam se o preço era mesmo aquele e na página do Facebook do festival quando alguém perguntou se ainda havia bilhetes, a organização respondeu que sim, mas que os do Vip Deck estavam a esgotar.
Os 3500 euros contemplam “Mesas exclusivas no VIP Deck; Mesa para 10 pessoas com um serviço inesquecível que inclui: parqueamento automóvel; acesso ao interior do pavilhão por uma entrada exclusiva; encaminhamento por hospedeiras; permanência num espaço exclusivo construído para o efeito, com apenas 16 mesas e vista privilegiada para o espectáculo; 4 garrafas à escolha (champanhe; whisky; vodka ou gin) e ainda refrigerantes diversos.” Mesmo assim, são 350 euros por pessoa e por este preço eu iria querer o Elvis e o Sinatra a cantar para mim, acompanhados ao piano por Mozart e com originais de Beethoven!
Para além dos preços médios, que ultrapassam os 30 euros, ainda há que contar com deslocações, estadias, parqueamentos, alimentação e... copos!
Se pensarmos que no Rock in Rio de 2010 estiveram 329 mil almas, a 58 euros o bilhete, dá qualquer coisa como mais de 19 milhões de euros! Vamos juntar os outros festivais todos?
Não faço a mais pequena ideia de quanto é que o Prince ou os Natiruts levam por espectáculo, nem é isso que aqui está em causa, mas sim a quantidade de dinheiro que se gasta em espectáculos musicais durante o Verão e falo do gasto individual, de cada um. Pelo que me é dado a observar a grande maioria dos espectadores são jovens. Serão os mesmos que estão desempregados às pazadas e inscritos nos centros de emprego? Também são! E aqui reside o cerne do meu espanto. Eu trabalho (que nem uma maluquinha, a bem da verdade) e até gostava de ir ver um ou outro espectáculo mas não tenho capacidade financeira para o fazer.
Vão convencer-me que cada um dos espectadores vai poupando mês após mês ao longo do ano para pagar a parafernália de festas? Tentem...

terça-feira, 6 de julho de 2010

A revista Happy. Uma tristeza!

Comprei e li este fim de semana a revista Happy. Já a tinha folheado em consultórios e noutros locais de passagem, mas comprar e ler, de fio a pavio, foi a primeira vez.
Não vou repetir. É uma revista para mulheres, no pior dos sentidos. Para mulheres idiotas e, cúmulo, que gostam de ser idiotas, que fazem gala na sua idiotia, que a passeiam, que a mostram com um sorriso, com orgulho.
A Wikipédia vale o que vale mas, neste caso, vale mesmo a pena ler o que diz sobre a  revista :
“Happy Woman é uma revista portuguesa.
Surgiu em Março de 2006 através da editora Baleska Press.
Apresentando conceitos inovadores, a publicação ocupa primeiro lugar das revistas mensais femininas mais vendidas em Portugal.
Apresenta internamente sete eixos: Privado, Auto-Estima, A Dois, Alimentação, Júnior, Saúde e Check-Out. A revista descreve mensalmente o percurso da mulher moderna, cosmopolita, aspiracional, que sabe o que quer e que, certamente, quer mais da vida. Apresenta uma incidência bastante forte em temas sexuais, sendo estes o principal chamariz para a compra por impulso em banca. Fala bastante sobre moda, e publicita marcas de roupa, acessórios, perfumes, etc, mostrando o artigo e o devido preço. Incluiu também um voucher de 20% de desconto nos locais assinalados na revista.
Foi a revista que mais vendas mensais conseguiu nos ultimos 20 anos. Em Agosto de 2009, superou os 133.000 exemplares vendidos (resultados com o sumatório de vendas em banca, assinaturas e vendas em bloco). Em Dezembro de 2009 a Happy Woman vendia cerca de 97.000 exemplares e continua a cair nas vendas no inicio de 2010.
Apesar dos "15 minutos de fama", honra seja dada pois foi no segmento feminino a unica revista mensal a superar os 100.000 exemplares vendidos e introduzir o sistema de vouchers de desconto (hoje utilizado pela maioria das revistas do mesmo segmento) que originou uma legião de fãs deste sistema que na euforia do desconto compravam por vezes 10 revistas de uma só vez.”
Do texto anterior apenas acrescentei alguns espaços entre palavras, para permitir a leitura, de resto... sic. Assentos e herros são originais.
Porém, aquilo que considero a pérola do texto é o facto da revista ter sido a que mais vendas mensais conseguiu nos últimos 20 anos, quando tem apenas 4... Porque não desde o tempo do Império Romano? Sem querer ser muito má, talvez porque não saibam o que é o Império Romano (o presente do verbo ser é propositado).
Em busca da página da internet da revista encontrei vários blogs cuja leitura me teria poupado o dinheiro que paguei pelo exemplar da revista, uma vez que são todos unânimes. Aparentemente as compras são feitas por causa dos vales de desconto, aos quais se insiste em chamar voucher, que é muito mais fino. O uso de inglesismos é frequente – veja o título - talvez por isso o corrector ortográfico se baralhe e permita os erros que deambulam por ali.
Os artigos são assinados maioritariamente por uma jornalista: é a visão única da mesma pessoa sobre vários assuntos, todos sexualizados e tão depressa tratam as leitoras por tu como por você. As fotografias também não escapam e resumem-se a mulheres esqueléticas e anoréxicas.
As frases de abertura dos artigos pretendem ser lindas, marcantes, um prelúdio para a leitura subsequente que nos envolverá, mas algumas não têm sequer oditnes.
Vejamos a entrada da página 66, um mimo: “Não foi fácil. Mas no dicionário Happy nunca encontrei a palavra ‘desistir’. Depois de muita pesquisa, muitos e-mails e muitos telefonemas internacionais para cidades com fusos horários estranhos...”
Os dois primeiros períodos do texto anterior fazem um casamento daqueles que se conseguiria entre uma abóbora e um rato de computador. Mas a minha preferência vai para os ‘fusos horários estranhos’! Bem, haviam de ver os da Lua!
Na página 79 o primeiro parágrafo tem cinco interrogações no final de cinco frases. Acontece porém que nenhuma delas é uma interrogação, são todas afirmações. Mas esta explicação é fácil de se perceber: havia por ali uma gaveta cheia de pontuação e tiravam uma mão cheia de pontos de interrogação. Or should I say interrogation mark?
Adora misturar inglesismos e a lista é longa. Mostra resorts, spa’s, tem uma secção de summer kids, tem voucher’s, ensina a fazer kobe beef, tem receitas light, conta histórias onde se põe after sun nas costas e outras hot sobre erotic vacations, afirma que nude is trendy e mostra vários looks e sapatos urban high.
A Happy é tão cool!

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Herr Professor

Estive a ler um blog que está fechado ao público. O autor aconselhou-se com gente avisada, à excepção da minha pessoa, provando assim que não há regra sem excepção e, ao contrário do que a excepção lhe sugeriu, manteve o blog fechado.
Quem sou eu para opinar sobre a logística das ruas da internet, seus jardins e demais lugares? Apenas acho que aquela praça devia ser pública e quanto mais leio, mais confirmo a minha opinião e concluo que o autor é um grandíssimo tonto!
Pergunto-me frequentemente onde vai ele buscar aqueles livros e como os interioriza? Eu, que gosto de imaginar coisas, vejo-o com uma grande pança, não grávido, mas com uma misturadora na barriga onde ele vai pondo tudo aquilo que lhe apetece: leituras novas e antigas, aprendizagens, pensamentos, ideias, reflexões, fúrias, deleites, sensações e eu sei lá mais o quê!
Não há guerras naquela escrita. Ou seja, ele passa sem fronteiras duma critica feroz a um olhar meigo e carinhoso, como se fosse um shampoo daqueles de dois em um, mas do qual não queremos gastar nada e vamos olhando o frasco sem desperdiçar uma gota, guardando-o sempre para melhor ocasião.
Mas que raio, não concebo que aquilo seja escrito para meia dúzia de pessoas! Não me entra na cabeça! Volto sempre à ideia de praça e pergunto: e se fechassem a praça de Santa Maria Maior e não nos deixassem ver a Basílica com o mesmo nome? Porque razão estão as imagens rupestres de Foz Côa à mostra? Lembrar-se-á o autor da polémica que envolveu a questão da preservação e acesso público às pinturas? Não se regozija ele quando encontra leituras inesperadas, em locais inesperados?
Sinceramente não percebo a razão da clandestinidade. Que não tenha página no facebook, eu percebo, que não use o twitter, também, mas interditar o blog... não!
Estou oficialmente de birra com ele!

Crise: acidente, apuro, carência, escassez, falta, perigo, perturbação, etc., mas tudo negativo.

Uns amigos pediram-me ajuda para eu lhes marcar as férias via internet. Conheço os portais das viagens e faço isto com frequência: dizem-me quantos são, para onde gostavam de ir, quanto querem gastar e eu faço-lhes uma pequena selecção.
Estou de boca aberta com os resultados deste ano!
Os desejos dos primeiros interessados passavam por um combinado em Havana e Varadero e os segundos queriam ir ao Egipto, ambos durante a primeira quinzena de Agosto.
Porém, surpresa das surpresas, na data pretendida nem uns nem outros podem realizar a viagem. Porquê? Porque não há lugares! Estão esgotados!
Ontem no Jornal da noite dum canal qualquer ouvi a notícia que as taxas de preenchimento dos estabelecimentos hoteleiros do Algarve estão a 90% para Agosto, o que me parece muito bom para a indústria hoteleira.
Mas face a estas duas notícias pergunto: onde anda a carência, a falta, a escassez, ou seja, a Crise? Tendo em conta a minha vida, se calhar mudou-se lá para casa e só eu sei dela! Convive comigo, dorme comigo, está ali, tipo lapa, alojada na minha colmeia, sem manifestar querer ir-se embora, tomando conta de tudo, desde o frigorífico até ao combustível do carro.
Um local onde ela também não se mostra é nos festivais de música que pululam por Portugal: de norte a sul do país o Verão trás nomes sonantes, ou não, para nos deleitarem com as suas músicas, composições, interpretações, tudo a preços de chuva mas em altura de seca, e onde eu não vou, limitando-me a ver os cartazes que estão espalhados pela cidade, na televisão, nos jornais, nos transportes públicos e em mais mil sítios e sobre os quais ouvimos depois dizer que os números de espectadores foram enormes e as expectativas superadas.
Por outro lado ainda vejo os preços de roupa, calçado e acessórios anunciados em revistas e questiono-me sobre quem serão os compradores! Eu sou cliente fiel do mercado do Algueirão onde compro sandálias e sapatos (artigo do qual sou fanática, vá lá, para dar voz às minhas amigas...) a três euros o par e é por isso que tenho vários, está bem, muitos! Também compro nas lojas chinesas todo o tipo de chinesice uma vez que não consigo ir mais longe. Para além de roupa, da última vez que lá fui comprei  também um espremedor que se enfia na fruta e não ao contrário como habitualmente. É muito engraçado e fica mesmo bem dentro da gaveta dos talheres!
Quem me conhece sabe que não sou de me queixar e considero-me uma pessoa com pensamentos e atitudes muito positivas, mas vejo pessoas à minha volta com 600 e 700 euros de ordenados e tendo em conta que é a GRANDE maioria, fico sem resposta a várias perguntas: quem compra aquela roupa e aqueles sapatos? Quem vai ver os concertos? Quem vai de férias que até os aviões se enchem? Quem?
Será isto uma espécie de fenómeno tipo Gripe A? A Crise é a Gripe A mas com outro nome! Passamos da fobia de morrermos às pazadas com a gripe para a fobia com a crise; mas afinal onde está ela?
Em Maio de 2009 o director do Instituto de Higiene e Medicina Tropical, Jorge Torgal, no 3º Congresso sobre «Pandemias na era da globalização» afirmava que uma epidemia da gripe A em Portugal causaria dois a três milhões de infectados e 75 mil mortos. Desde há anos, com especial incidência nos últimos meses, que ouvimos falar da Crise mas, da mesma forma que a Gripe A só atacou algumas pessoas, a Crise segue o mesmo percurso.
Ora como, graças a Deus, não tive Gripe A, cabedou-me na sorte a Crise! E mais ainda, como este ano apenas uma pequena constipação me passou pelo corpo, agora, como uma espécie de compensação, num estranho mas verdadeiro equilíbrio, como uma retaliação da vida, a Crise instala-se de armas e bagagens lá em casa!
Ora porra! Desculpem lá, mas isto é demais!
A todos os que disserem que esta teoria não tem fundamento, uma vez que a Gripe A não matou o que se previa, nem às redondezas chegou e, assim, a Crise vai chegar a todos quantos não foram afectados pela gripe, eu pergunto: Então quem é que enche os aviões?
Não, há aqui outra coisa que não sei explicar, mas sei, de certeza garantida!, que a Crise está na minha casa.
Se alguém conhecer um bom exterminador de Crises, por favor, deixe-me aqui o contacto.

Vidas.

Outra vez o metro. Sempre o metro. À minha frente vai sentada uma mulher poderosa, com ombros bem maiores do que o banco. É preta e tem braços fortes como os de uma lutadora. Realço a cor da sua pele para evidenciar as nódoas negras que tem nos braços. São impressionantes e, a bem da verdade, nunca tinha visto uma pele negra com nódoas negras. Veste uma camisola de alças branca o que lhe marca ainda mais a cor e deixa ainda mais à mostra as marcas nos braços. Pergunto-me como as terá feito, ela, que é forte e robusta. Não vejo alguém a bater-lhe pois uma palmada dela leva por diante um homem, sem dúvida alguma. Como as terá feito? Nunca lhe vi os olhos porque foi a dormir o caminho todo.
Questiono-me sobre as vidas que se tocam nos transportes. Tocam-se sem se intrometerem umas nas outras, mas tocam-se, criando um labirinto de círculos entre os que se sentam lado a lado sem nunca se terem visto, os que se aninham no meio da multidão com mais intimidade do que, quantas vezes, se tem com maridos e mulheres.
Olhamo-nos mutuamente fingindo que não nos olhamos: uma mulher bonita, um vestido curto e uns joelhos à mostra, um homem sensual, uma mulher mal vestida, outra carregada de pulseiras e fios e anéis como uma árvore de Natal, outro alguém que fala ao telefone aos gritos, um jovem que ouve música como se a aparelhagem estivesse ligada para toda a carruagem dançar, uma criança a fazer birra, um pedinte cego, outro pedinte coxo, outro pedinte e outro e outro, um casal de estrangeiros que, de mapa na mão, olham as estações e comentam sobre quem vai à sua volta pensando não estar a ser compreendidos, um indiano com o seu magnífico turbante que consegue criar um espaço à sua volta pois todos se afastam dele, dois homens com ar profundamente cansado que falam em russo entre si, rindo e mostrando os dentes de ouro, duas adolescentes com os pelos púbicos à mostra, mulheres e homens sem características que os dissemelhem dos demais, metidos consigo, a pensar sabe-se lá em quê, provavelmente todos na mesma coisa.
Mas porque teria a mulher as nódoas negras, tão negras, nos braços? Apeteceu-me bater em alguém. Mas saí e deixei-a a dormir. Mas ela veio no meu pensamento. Comigo.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

A mosca das visitas

Sempre ouvi dizer que quando nos aparece uma mosca grande, gorda e barulhenta, não tardará que nos entrem visitas pela porta dentro.
Hoje de manhã cheguei ao trabalho e esvoaçava no meu gabinete o equivalente a um 747 das moscas, um verdadeiro Jumbo com asas!
Negra, gordíssima como se estivesse grávida de várias ninhadas de mosquinhas, isto se fosse uma mosca, pois se fosse um mosco era uma espécie de personificação da gula, como a personagem de Seven.
Chamei uma colega para me ajudar a expulsar a intrusa e, com dois sacos de plástico nas mãos, lá a mandámos sair. Porém, o rasto ficou, e com ele ficou também o sortilégio da mosca.
Passados poucos minutos chamaram-me para cumprimentar uma antiga colega, há anos que estava desaparecida das nossas vistas, mas logo hoje passou aqui e resolveu dar-se a ver, e aqui estava ela. Ainda o som dos beijos ressoava no ar do adeus e volte sempre, prazer em vê-las, entrava uma antiga aluna, fiel aos nossos serviços de prestadores de informação. Mais abraços e sorrisos e beijos e exclamações então por aqui e explicações e eteceteras.
Mais dez minutos de trabalho e entra o Chefe pelo meu gabinete adentro, que este não precisa de bater à porta, vai entrando. A sua presença por estas paragens é rara, raríssima. Vem acompanhado de dois estrangeiros que me apresenta, faz dois dedos de conversa e vai embora.
Isto tudo até à hora do almoço. Pergunto-me que influência exercerão as moscas no universo das visitas inesperadas? Sim, porque eu acredito que foi aquela mosca monstra que provocou este corropio! Para que conste!

O calendário é uma paleta de frio e calor

O calendário é uma paleta de frio e calor
A contenda do dia a penetrar a noite é um orgasmo colectivo de cor
A aurora é a sublime mortalha da noite e eu rendo-me a ela como a um tapete persa
O sol, prisioneiro do céu, mostra-se, maduro, logo pela manhã
Concentração de especiarias, só para saborear com o olhar e cheirar com a pele
O banco de jardim descansa, impetuosamente sossegado. Espera, tem tempo
Eu sou a sua primeira cliente.
A seguir virão laranjas, romãs, fruta doce e cigarros que deitam fumo vermelho de raiva
O banco de jardim esgota-se com o acto complacente do sentar

Vagueiam almas perdidas que se encontram algures

Vagueiam almas perdidas que se encontram algures
Pessoas passam apressadas
Pensam em coisas diferentes daquelas com que ocupam o tempo
Deixam-se seduzir pela sua própria imaginação
Que os leva onde a coragem os impede.
Encontram-se e desencontram-se
Fazem-se e desfazem-se
Contentando-se e insatisfazendo-se
Esperam que o momento surja,
Qual alquimia já madura tanto foi o tempo que já se esperou
Desconhecimento imenso de nós,
Medo do desejo anunciado, dádiva eterna do que se não tem.
Continuam a caminhar sobre terra, lama, areia, pântanos,
Sem se atreverem a voar, sem se atreverem a saltar,
Com medo da sensação de pairar sobre o ar que nos falta
Quando imaginamos a realização do que o desejo nos pede.
Ardente olhar de quem se satisfaz
Não sabendo e ignorando o que as suas próprias mãos
(Com vida adquirida naquele instante), vão resolver fazer:
Apertar, agarrar, abraçar, bater, ou simplesmente
Acenar e dizer adeus.

Leituras

Há dois ou três dias na I série do Diário da República foram publicados 30 diplomas. Vinte e cinco são sobre caça: anexam-se zonas de caça, renovam-se as transferências de gestão de zonas de caça, desanexam-se zonas de caça, concessionam-se zonas de caça, excluem-se terrenos de zonas de caça, criam-se novas zonas de caça.
Presumo que a equipa legisladora responsável por este assunto tenha reunido e despachado vinte e cinco questões duma assentada, que é como quem diz, só com um tiro.
Das muitas coisas curiosas que se encontram no DR ontem destacava-se a aprovação do regime jurídico do combate à infestação por térmitas.
O Decreto Legislativo Regional n.º 22/2010/A da Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores, em treze páginas de orientações, recomendações e alertas, proíbe a entrada de térmitas no território!
Li a proibição e imaginei uma pessoa a entrar num avião com duas ou três térmitas pela trela, a ser questionada pela autoridades sanitárias, ou outras quaisquer, sobre a tentativa de entrada ilegal em território açoriano e não pude deixar de me rir.
Por outro lado, imaginei um chuveiro gigante instalado nos vários aeroportos açorianos onde os passageiros têm que tomar duche antes de entrar nos aviões para garantir que não transportam qualquer bicharoco que se instale indevidamente em qualquer bolso ou algibeira. No caso das viagens por barco deixará de haver passadeiras que ajudam os passageiros a subir a bordo, tendo estes, a partir de agora, que chegar aos navios a nado, certificando-se assim que os ocupantes clandestinos ficam na água.
Não há leituras insípidas!

Lisboa, 25 de Junho de 2007

Para Diário de Notícias, Secção de Classificados

De acordo com o contacto telefónico feito anteriormente, junto envio um texto e uma fotografia, para serem publicados na secção de necrologia, nos moldes combinados, bem como o cheque para pagamento.

“A família de Camila Ribeiro agradece a todos quantos se dignaram fazer-nos companhia no passado dia 20 de Junho.
A Camila é uma força da natureza, um porto cujo pontão está sempre a tremer com forças invisíveis e sente os seus alicerces abalados permanentemente.
A Camila não morreu. Foi viajar.”

Miguel Freitas

Perspectivas

Mandaram-me esta fotografia como exemplo de coisa feia, má. Como exemplo de desarrumação, de desleixo. Como exemplo do exagero, do excesso.
Eu publico-a como exemplo daquilo que pode ser encontrado na minha casa.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

10 de Junho de 2007

Cachopa Camila
As livrarias de Oslo, como esta onde acabei de te comprar um postal e outras que ficam ao sabor do percurso que se tem que fazer num determinado dia, ou a que se vai de propósito, estão cheias de memórias, minhas (as lidas) ou de outros (as escritas). Aqui ou ali encontrei este ou aquele verso, uma história que me encantou, páginas apenas folheadas e depositadas depois em Santarém e que nunca mais li. A mais querida é a Libris, do outro lado da rua National Galeriet, onde se encontram um Van Gogh auto-retratado de pequeno formato, alguns dos mais obsessivos quadros de Edvard Munch e uma série de pinturas que retratam interiores, admiráveis, quentes, cheios de madeira e outros tempos, que se depositaram em tintas e telas. Na Libris, na Tanum e na Kvist encontrei muitos dos livros memoráveis que me distinguem os dias passados, como um marcador de página, que deixámos num capítulo ou num verso que merece ser revisitado.
Mas o encanto maior, o supra-sumo do encantamento, são os alfarrabistas que aqui se chamam antvikatiater. E há-os de todos os feitios e gostos. Têm em comum o testemunho comovente de uma cultura periférica que absorve o que se produz nos grandes centros do continente, e tenta aprender.
Desde os que, nas áreas chiques, se dedicam a lombadas de dourados, que ficam bem na estante que se quer decorar lá em casa, aos que se dedicam aos livros raros e históricos escritos em língua inacessível para mim, e de preço inacessível também, aos que têm livros amontoados segundo uma lógica que é impossível de decifrar. Estes são, para mim, os mais encantadores. Não só neles existe o prazer de encontrar o que se procura, como estão cheios de surpresas escondidas a que se acede por “escavação”! O supremo templo é o Oslo Ny antvikatiat. Fica perto de um maravilhoso parque concebido para as estátuas de Vingeland; o Vingeland Park. Dele te enviarei um postal, ou fotos. É o sítio por excelência das rosas, onde se encontram as mais belas rosas de Oslo. Até de Inverno, as hastes que despontam da neve conjugam bem com o filigranado do gelo que se recorta nas árvores caducifólicas de encontro ao céu cinzento e ao entrançado de corpos que dançam, amam, sustentam, correm, envelhecem ou olham a cidade de par em par.
Acede-se a este alfarrabista pelo meio das casas de madeira ajardinadas, ou de tijolo castanho avermelhado. Nas esquinas onde começam os prédios de três ou quatro andares encimados pelas cornijas tão típicas deste norte, está a porta de madeira descorada e vidro, com a tranqueta em forma de vírgula deitada. De cada lado, dando para uma e para a outra rua, duas janelas amplas onde os livros aparecem sem ordem. O que é um convite. Uma montra desarranjada que não quer convencer ninguém a comprar, que sabe ou está confiante, como que por modesto orgulho, que encerra tesouros que dispensam pregão. No interior, um distinto cavalheiro de linhas secas e roupas coçadas que se expressa correctamente em várias línguas, recebe-te com um sorriso e com deferência, sem pressas, mas com um olhar directo e curioso. Há sentimento imediato de que não te estará a vender o que quer que seja, mas a receber-te em sua casa como a um hóspede. Indica-te as secções se percebe que não és da casa, e desculpa-se e aos seus livros pela desarrumação como quem os desculpa por andarem de mão em mão qual canalha miúda e traquina. Na cave, encontram-se tesouros ao fundo da escada estreita de tábuas, em escaparates e caixas. Ternas edições da Galimard, de capa branca que contam tropelias de Sartre e Beauvoir, as palavras escritas em “Carnets de Drôle de Guerre”, “Paris c’était mon village”, poemas de Eluard e Rimbaud, coisas passadas de moda, livros de bolso, como este curioso “Abée Pierre” de Chateaubriand, o “processo” do Kafka da Everyman’s Library, “The short novels of Dostoievski, com introdução de Thomas Mann, da Dial de Nova Iorque de 1945. Encontram-se livros dispares em francês rubricados pelo mesmo homem, coleccionados por uma vida, e a que a família não soube dar melhor sorte do que vender por atacado. Encontra-se este “ Group Dynamics and Society” que o autor dedicou à mão com uma saudação amistosa “med venligst hilsen” ao seu amigo Odd, datado de Junho de 98 em Hvalstad, e que o mesmo conservou por estes longos anos (três) se não vendeu no mesmo dia.
Neste volume de Dostoievski, nas short novels, encontram-se as “notes from the underground”. Quando encontrei o sítio, pensei neste título. Recentemente ali o encontrei. Aquela loja é como a cartola de um mágico, até o título que lhe imaginei, ali se encontrava, prefaciado pelo punho de Mann. E tem, suprema felicidade, o olhar do velho nórdico, que faz a adição numa velha caixa registadora de manivela e me vai agradando com o bom gosto das escolhas. Às vezes tenho a sensação de que tem um secreto prazer em encomendar livros para aquele gentleman que vem de Portugal, como uma cegonha receosa empurra o filho do ninho para que conheça o azul de outros céus e para que siga o velho preceito de crescei e multiplicai-vos… às vezes tenho a vontade ou o secreto desejo de estar presente quando morresse, de lhe passar a mão pelo cabelo e pela testa, para lhe assegurar que os livros estão em boas mãos à beira do Tejo, em cabriolas com as tágides de um zarolho que dividiu a história em dez cantos e contou que dez anos serviu aquele pastor o pai de Raquel, serrana bela, mas não servia o pai, servia-a a ela… nunca lhe direi nada disso, é claro, e um dia destes não estará mais lá. Mas abençoados os homens de boa vontade.
Amiga, pergunto-me se a tua paciência chegará para albergar estas coisas. Não será impessoal tudo isto? Tenho uma dificuldade terrível com a linguagem, gostaria que fosse mais económica, precisa e rigorosa. Mas que não fosse fria e estéril como que emanada de labirintos de verve burocrática que, de tão codificada, parece que se dobra sobre si mesma, auto-suficiente, e nunca se consegue determinar se quer comunicar algo ou apenas ostentar o carácter impenetrável, como uma descomunal prisão que nos deixa fechados cá fora, mas que se ergue ameaçadora na nossa frente e ao mesmo tempo, que não fosse feita de termos da moda, esses cometas que atravessam a linguagem e monopolizam a atenção de todos, ofuscando as outras palavras. E especialmente que não fosse demarcada socialmente ou datada no tempo. Sempre achei as modas linguísticas, com que um grupo social se distingue, e deixa os seus contemporâneos de fora, numa demarcação do seu território, uma coisa tão abjecta e pouco higiénica, como o demarcar levado a cabo pelos cães que mijam nos candeeiros. Não queria, na escolha das palavras que uso, ser pretensioso, distante e superior ao meu tempo, ou abster-me de partilhar o linguajar e o destino dos que vivem ao meu lado. Mas gostava que as palavras dos outros que passaram de moda, os arcaísmos, e mesmo as palavras de todos os que não puderam falar fossem mais usadas, recuperadas, como monumentos góticos que enfeitam a cidade. Tens a mesma dificuldade? Isto faz algum sentido?
Bem, vou jantar e dormir um pouco
Quatrocentos beijos
V.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Impacienta-te

Impacienta-te.
Embriaga-te na nudez dos sentidos.
Crava as unhas na carne do tempo
Escreve a Deus.
Pede conselhos aos pés que estão ligados ao coração
Eles te encaminharão no sentido do mundo, dos outros, de nós
Ouve a música do desequilíbrio
Acredita nas fábulas do antigamente que ainda não passou
Recusa-te a visitar museus ocos
O objecto de arte sou eu, és tu, é ele, somos nós, sois vós, são eles
Ouve o musgo e a ráfia
Cheira o solstício
Sente os solilóquios alheios
No amanhecer de cada coração há sempre uma aurora boreal
Para a vermos só precisamos de fechar os olhos
Grita que estás faminto
Grita e agita-te como se sofresses de desejos primitivos
Usa o olhar como espada e como escudo
Liberta-te do cativeiro da imundície
Não descanses enquanto não fores tu
Parte-te e cola os despojos as vezes que forem necessárias
Se fores vítima de qualquer colapso é porque a poesia morreu
Espapaçado, só as lágrimas se aproveitarão
Pode ser que misturadas com lama, se molde o barro
E então, então não terás existido em vão

A morte, essa cabra!

Morreu o marido duma colega minha. Tinha 51 anos, praticava desporto, fazia uma vida saudável. Ele e ela, mais que marido e mulher, eram namorados, daqueles de fazer uma certa inveja.
Se a morte dum homem jovem é dramática, assume outros contornos quando sabemos que já lhes tinha morrido um filho e que, uma segunda gravidez tinha sido interrompida pelos desígnios do destino. Apesar de tudo, ela sorri diariamente, tem sempre uma palavra de simpatia e ajuda quem pode.
Haverá uma força superior que escolhe os fortes para os aspergir com tragédias ao longo da vida? Não há palavras, eu pelo menos custa-me a encontrá-las. O que se pode dizer a esta mulher? O quê? Não sei, emudeço perante a dor.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Olá vagabundo

Olá vagabundo
Isto pretende ser um suspiro, não uma resposta às tua missivas. Impossível seria, no espaço que tenho agora, tentar, sequer, responder, mas não consigo evitar e assim, rapidamente, em pensamentos soltos. Perguntas se o que escreves faz sentido. Não faz outra coisa! Quem te deu a ti, marinheiro vagabundo, autorização para em mim entrares e, ao abrigo da distância, talvez com medo da minha fúria, deitares cá para fora as minhas preocupações, as minhas reflexões, certo é que trabalhadas e mimadas pelas palavras que usas, deixa-me dizer que és um abusador, coitados dos dicionários que terão que conter ainda mais termos para te alimentarem o vício de usares todas as palavrinhas que lá estão, não esquecendo nenhuma e a todas tratas por igual e eu fico encantada por te ler.
Vibro com os nomes das terras que me mandas e que não consigo dizer, soletro como uma criança que não sabe ler ainda, mas faço-o com o prazer de alguém que avista um navio e vai conseguindo ler o nome gravado na proa e, de repente, já consegue ler tudo e é mesmo aquele que estava à espera e chegou e está ali… e… para além das reflexões sociais que terão a sua devida resposta, ai Deus como eu gosto desta arte epistolar e como me faz bem ser nela correspondida, mas dizia eu, para além das tuas preocupações, para que corro as livrarias em busca de alimento escrito por viajantes, com encadernações mais ou menos insinuantes e atractivas, para quê? Responde-me!
Tenho-te a ti! E sou uma pessoa sortuda, a encarnação do próprio Gastão! Repara, eu tenho um escritor de viagens que me escreve na primeira pessoa, para mim e em tempo útil, real, tenho um escritor que usa e abusa da linguagem e não se faz rogado com as palavras lindas e esquecidas da nossa pátria, que reflecte e faz julgamentos acertados no meu entender, que me faz descrições de sítios que me obrigam, ah, sagrada obrigação, a fechar os olhos e a marcar na agenda da minha vida uma viagem a esses lugares, sabendo que, quando for, me sentarei num qualquer banco onde, tempos atrás, um certo vagabundo se sentou também, aquecendo aquele lugar levando-me antes de ir, criando uma dimensão intemporal, transportando-me para sítios límbicos (sim, é mais uma palavra para o teu dicionário) mas que existem e eu estou aqui e lá, ah sim, estou lá, longe daqui, em Oslo, em Kiel, na cabeça de quem escreveu os poemas, de quem pensou o que me lês no jornal de antes de ontem mas que hoje não pode ser mais actual, quem sabe se amanhã não será ainda mais, porque existe uma ligação, um tracinho, como os que usamos em certas palavras, para ligar quem fala, a quem se dirige a conversa, entre quem escreve e quem lê e quando se consegue colocar o mundo de permeio, mas o mundo não é estático!, não, não é nenhuma fotografia, é algo em acção, que se mexe, como eu quase consigo ver as tuas linhas, em movimento e eu sou levada por esse movimento também, ai queria tanto fazer-me entender, mas não consigo e daqui não sairá nada, será que vais entender uma palavra no meio desta pressa urgente?
Sinto-me no meio do mundo ao ler-te, vagabundo marinheiro, escritor, pensador, homem e pessoa. Deve faltar aqui qualquer coisa, mas ainda bem, pois mesmo que não houvesse mil motivos para te escrever de novo, arranjaria um que podia ser continuar a chamar-te nomes.
Mais um beijo, mais um abraço, à laia de pregão, como antigamente se fazia nas feiras que, ao ler-te, sinto-me num carrossel, qual criança feliz…
Camila

PS1: A ideia das cinco vidas espalhadas pelos cinco continentes… soberba…
PS2: lembras-te de em tempos termos falado na questão de doar o corpo para o Instituto de Anatomia? Já fiz o meu documento e estou orgulhosa de, um dia, espero que daqui a 150 anos, poder contribuir para o progresso científico. O senhor Miguel Freitas, meu pai e a dona Augusta Freitas, minha mãe, não gostaram da ideia como calculas, daqui a algum tempo vou conseguir convencê-los a fazer o mesmo! Em nome da ciência!

Navegando

O barco anda de margem em margem
Navegando
Embalo-me no torpor da viagem
Navegando
Corta a água escura e fria
Navegando
O cheiro da espuma anestesia
Navegando
Vai cheio e pesado e cansado
Navegando
Volta vazio e leve e apressado
Navegando
Nunca fez outro percurso
Navegando
Quer morrer
Navegando

Se a vida nos rouba a vida, em que a usará?

Fim do dia. Entro no metro e sento-me. À minha frente vai uma senhora literalmente a dormir, deitada em cima da mulher do lado que se mexe ligeiramente, incomodada com a proximidade da outra.

A mulher tem uns cinquenta e qualquer coisa anos embora aparente ter mais, muito mais. Em tempos foi loura e um solavanco maior do metro fá-la abrir os olhos deixando-me ver que são azuis. O cansaço, pois é de cansaço que se trata, fá-la fechar os olhos novamente, os olhos e o corpo, que deixa cair em cima da companheira do lado.
Tem os braços vermelhos do cotovelo para baixo e brancos, quase alvos, debaixo da manga curta da camisa. O cabelo apanhado com um elástico, embora curto, juntamente com a vermelhidão dos braços e com as unhas cortadas rentes e uma cicatriz de queimadura levam-me a pensar que talvez seja cozinheira. Acabou o turno num qualquer hotel, está exausta e tenta por o sono em dia nas poucas estações que medeiam o local de trabalho e a sua casa, onde a esperam para fazer o jantar.
É uma mulher maltratada. Vê-se e sente-se. Maltratada pela vida, talvez também em casa. As rugas que vivem na sua cara e que são mais expressivas quando abre os olhos para ver em que estação parou o comboio mostram raiva e submissão.
Quem será o homem que com ela vive mas que com ela não convive? Ou a expressão devia ser ao contrário? Que vivência se esconde por detrás daqueles olhos outrora belos e agora sujos de cansaço?
Estava eu a ficar incomodada com os arremessos de ombro da companheira de banco da ‘minha cozinheira’ para que esta se endireitasse até que decidi tocar-lhe na perna e disse-lhe, com o meu melhor sorriso, que se se encostasse para o lado da janela conseguia dormir melhor. Olhou-me como se eu fosse um extraterrestre. Ficou direita e muda a olhar-me. Sorri levemente. Ela não disse nada e encostou-se de acordo com a minha sugestão. Porém, abria os olhos com mais frequência e olhava-me, tão simplesmente porque assim que os abria a minha cara estava diante da dela. Olhava-me com suspeita. De quê, não sei. Talvez desconfie, mas saber, não sei. Pensaria ela que era preciso uma desconhecida para lhe sugerir qualquer coisa, qualquer coisa que fosse, relacionada com o seu bem estar?
Reparei que as mãos de unhas curtas seguraram com mais força na mala velha e gasta que nem imitava pele, era plástico assumido. Ninguém acredita que outro alguém faça seja o que for voluntariamente, sem esperar pagamento e eu podia apenas querer que ela adormecesse para a roubar. Senti que ela tinha experiência disso, de ser roubada, especialmente pela vida.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Dinheiro: oferece-se!

Só hoje já apaguei quatro mensagens do telemóvel onde me oferecem mundos e fundos!
Uma operadora de telefones que até parece que me paga para eu gastar ainda mais;
Uma grande superfície que tem os preços mais baratos do universo, do planeta ou dum continente qualquer, agora não me lembro;
Um banco, cuja mensagem é tão grande que vem dividida em duas, com têáégês e tanes e mais não sei o quê;
Outro banco que me empresta uma quantidade MUITO considerável de dinheiro, sem me conhecer de lado algum (se eu precisasse e o fosse pedir emprestado, era um sarilho!).
Pior que a publicidade que me põem na caixa do correio e me deixa fula e danada, só estas mensagens onde imagino sempre alguém lá do lado de lá, a acenar com um maço de notas na mão, sorridente e dentes brancos, a aliciar-me, levantando ao de leve as sobrancelhas, chamando-me, tentando-me.
Mas que raio... eu não tenho dinheiro para pagar o que devo quanto mais para me meter em cavalarias! Mas a pressão é tão grande, tão insistente, tão teimosa que até chego a compreender quem cai na tentação.
A legalidade destas coisas deixa-me dúvida: eles poderão mesmo fazer isto, insistir de tal forma que nos metem o dinheiro na mão, connosco a dizer não, não, não, e depois vêm buscá-los a grossas prestações mensais? Não sei e acho que nunca saberei porque se me pusesse a esgravatar e descobrisse que não o podiam fazer, metia-os num barco sem fundo no alto mar, como costumava dizer o meu avô!

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Ourives do verniz

Dou uma corridinha e consigo entrar no metro no último instante antes de partir. Balançando-me no corredor como se estivesse bêbeda procuro um lugar, encontro-o e sento-me. À minha frente está uma rapariga com cerca de vinte anos vestida com um polar amarelo, hoje, onde as previsões apontam para trinta graus e eu, como todas as outras pessoas, estou de manga curta, à excepção das que estão de alças ou com menos ainda. E ela de polar. Estará doente? Não parece.
A minha estranheza perante a roupa da moça desapareceu completamente quando, casualmente, olhei as mãos da mulher que viajava ao meu lado. Nas pontas dos dedos, onde temos aquilo a que chamamos unhas, ela tinha um mural! Metade da unha era verde e a parte superior amarela. A fronteira era feita com uma linha dourada, precisa mas grossa e encorpada, com certeza de outro tipo de verniz, quiçá verniz para fronteiras. Em cima do amarelo estava depositado um coração azul, emoldurado a branco! Aquilo era uma obra de arte, ou melhor, dez obras de obras, talvez vinte obras de arte pois os sapatos eram fechados à frente e não deixavam ver nada, mas algo me diz que ao rés do chão havia também trabalho valente duma qualquer Dali das unhas, que aquilo não era obra duma qualquer esteticista e sim duma artista de gabarito.
A mim tinham que me pagar muito bem para andar com aquelas bandeiras nas unhas mas reconheço ali um trabalho de minúcia, um ofício de ourives do verniz difícil de fazer e cujo resultado final é artístico e chama a atenção. Rendo-me sempre perante quem é capaz de fazer aquilo que não sou, e sinto uma ponta de inveja, por vezes uma grande pontada, perante certos feitos que parecem tão fáceis nas mãos, nos pés ou na cabeça de outras pessoas. Admiro a agilidade, a destreza, a pontaria, a inteligência, e mais mil coisas onde fico, não em segundo lugar, mas nas quais nem sequer sou concorrente.
Sem saber quem pintou aquelas unhas, ou outras semelhantes, deixo aqui os parabéns pela mão firme com o minúsculo pincel, pela precisão e pelo trabalho. Se há pessoas que gostam e se sentem bem assim, que haja também quem as consiga satisfazer!

Lisboa, 8 de Junho de 2007

Vítor
Bom dia e hoje sim, digo-o com propriedade, pois o sol deixou-se de vergonhas e apareceu, espreguiçando-se e tocando nesta terra, abençoando-a.
O teu eclectismo é sempre uma incrível e agradável surpresa…
Numa das cartas que de ti recebi pedes-me o impossível… que faça luz no teu espírito… vejo a tua mente tão iluminada a reflectir, leio-te e é como se olhasse uma planície regada pelo sol… como vou eu iluminar-te o espírito?
Peço-te que não me cries tal embaraço, pois gosto de corresponder aos desejos dos meus amigos, mas a este teu sou incapaz.
As tuas reflexões vão para além do que pensas sobre o que foi dito… deves reler a tua descrição sobre o enquadramento das notícias: leva-nos dentro da tua mente estruturada que, para além de me contar o que pensa e o que lê, faz-me o quadro formal das próprias notícias, para que eu não só leia, mas para que VEJA, através dos teus olhos. O facto de eu conseguir captar o cheiro da terra, quando nela falas, é aqui compensado pela descrição do tipo do cabelo ou pela geometria do mármore, para além da sua coloração. Isto é espantoso, não perdes um pormenor (é pormenor!).
Dentro de muito pequenos limites, porém, quero dizer que não deixo de pensar que em instituições como uma Constituição, se se prestar atenção, encontram-se “coisas” cuja intenção de quem as escreveu, até foi boa, mas parafraseando as frases populares, de boas intenções está o inferno cheio… sendo a Constituição o que é, será “isto” do inferno? Não tenho dúvidas e Descartes que me perdoe por isso mas, por vezes, é o inferno do direito.
O Direito e a Justiça têm algo divino… acreditamos que existem e, embora esporadicamente surjam revelações desta verdade e, tal como a fé, nunca ninguém viu o Direito ou a Justiça… terão certamente casado e emigrado para parte incerta…
Agora…, serão filhos deles os direitos e justiças, que tantos existem? Mas ao contrário de tudo o resto, não é por se multiplicarem que agem em conformidade com o nome que têm e que nós, com a pressa, pensamos tratar-se do pai e da mãe, não corrompidos, universais, iguais a si mesmos, com as doses de tolerância que sempre têm que existir… mas cuja acção pelo que me é dado ver, tem mais a ver com vergonha, mas por vergonha de se ter vergonha, na vergonha não se fala e, os direitos e justiças continuam a nascer, arrogando-se cada um deles à herança do pai e da mãe que, lá onde vivem, parecem não querer transmitir a sua linguagem universal. Onde viverão? Porque se escondem? Ou serão os filhos que rejeitam os pais… ou será cada um de nós que quer alcandorar-se a ser Justiça e Direito e criamos justiças e direitos, sendo que este plural, que nos levaria, supostamente, à universalidade da expansão do conceito, é apenas um falso plural, para nos iludirmos, conscientemente tantas vezes, porque não queremos encarar a vergonha, e brincamos… por isso, Justiça e Direito se escrevem tantas vezes com letra pequena, coitada da letra pequena que não fez mal a ninguém…
… e quando deparamos com justiças e direitos em qualquer esquina, muitas vezes rezamos, porque a parcialidade anda de braço dado com estas coisas pequenas e plurais fingidos. Direito e Justiça são no singular porque Humanidade há só uma. Quando os buscamos dentro de nós, são com letra grande… o problema é quando os aplicamos… diminuem de tamanho, mesmo que se escrevam com letras enormes nos manuais de Direito e na Justiça que se faz, que raramente é cega, como só ela devia ser. Infelizmente, quantas vezes tem os olhos bem abertos para ver só o que quer, o que convém e encornar o Direito, fazendo-o esquerdo…
A Justiça não distingue estibordo de bombordo e desorienta o Direito, envolvendo-o em vendavais que são provocados por lobos que sopram para deitar abaixo qualquer tipo de edificação.
Onde nos levaria a continuação deste infantil pensamento? Não sei, mas pouca luz farei para te alumiar, vagabundo de línguas estrangeiras, dono do que não pode ser perdido e meu saudável companheiro epistolar.

Um abraço
Camila

segunda-feira, 14 de junho de 2010

A crise

Leio no jornal que os portugueses inibem-se de tomar medicamentos para poderem pagar bens supérfluos. Leio, mas não precisava de ler, já o sabia. A bem da verdade, quantas vezes faço disparates... Mas assim tão grandes... hum... deixa ver... não em lembro de ter feito!
Parece que também cortam no peixe e na carne, o que se compreende pois têm que pagar a conta da Internet! Ora os miúdos, principalmente os miúdos que são os que mais precisam das proteínas e daquilo tudo que a carne e o peixe transportam e que dizem, dizem, vá lá saber-se se é verdade!, não andam todos gordos e obesos? Então até lhes faz bem cortar na comida! Agora a internet e a TV por cabo isso não, senão ficam uns excluídos da sociedade de informação, uns pobres tecnológicos, uns desgraçados! Para além dos problemas sociais que causaria a inexistência de net e tv lá por casa, pois não se poderia dizer ao vizinho que se assistiu aos jogos do mundial a três dimensões ou que a pochete da patroa, uma imitação fantástica da marca x ou y, foi encomendada num site exclusivo na net!
Tudo condiz na perfeição com a conversa duma amiga na semana passada e que, enquanto funcionária duma agência de viagens me contou que as viagens a Cuba estão esgotadas em Julho e Agosto! As viagens para a populaça bem entendido, em charters com as pernas apertadinhas, mas mesmo assim com cada bilhete a custar três ordenados mínimos, mínimo dos mínimos. Mas vão a Cuba! Isso é que interessa pois a grande vantagem será depois ter conversa durante o ano e esticar a descrição dos sete dias durante os 365 que se seguem!
Mas afinal onde é que anda a Crise?
O Rock in Rio estava cheio, alinham-se já não sei quantos festivais de música e folclore por esse país fora, a programação do Pavilhão Atlântico recomenda-se e anunciam-se já eventos musicais para 2011. Conclusão, nós queremos é que nos dêem música!

A justiça sul-africana

Uns jornalistas portugueses foram assaltados na África do Sul. Três dias depois os meliantes foram condenados a penas de prisão de uma mão cheia de anos. Aqui fazia-me falta agora um cartonista para mostrar a minha cara com várias expressões: perplexa, surpreendida, arrepiada, temerosa, cautelosa e mais um sem fim de carantonhas que, mesmo que eu fosse linda, os cartonistas têm queda para deixar as pessoas com ar de pobres de espírito...
Será a justiça da África do Sul um exemplo a seguir por esse planeta? Devemos mandar já para lá uma comitiva do Ministério da Justiça para que aprendam tão rápidos e eficazes processos? E, já agora, não poderão ir também alguns polícias para fazer uma formação e ver como se prendem os criminosos rapidamente?
Eu não tinha planos para ir tão cedo à África do Sul, o que não quer dizer que não quisesse lá ir, antes pelo contrário, mas agora com esta notícia, tenho que pensar duas vezes, uma vez que sou acusada com frequência de ficar com isqueiros que não são meus e, nunca percebi porquê, as canetas das outras pessoas, colam-se-me às mãos. Ora como desconheço que pena há para estes crimes, mas como a justiça é tão rápida e tão pesada, receio não ter tempo sequer de acender um cigarrito, muito menos de escrever nem que seja só uma palavrinha, por exemplo: SOCORRO!

domingo, 13 de junho de 2010

Feitoria de Bruges, Março dos idos de 1540…

Olá minha caravela quinhentista…
A tua lucidez é tanta que pareces um espectador das tuas próprias emoções. Há momentos até em que parece frieza. Pareces saber tudo. Pareces até saber o que ainda não aconteceu mas, por qualquer contrato, talvez com o futuro, não o podes revelar antes do tempo.
As tuas expressões, para além da tua voz são dum miúdo. Para além disso, tens a maturidade dum adulto bem crescido, às vezes com a tristeza de vida duma longa caminhada com muitos obstáculos, difíceis de ultrapassar. Nas janelas de que falámos, que se abrem quando falas, nem em todos os parapeitos existem flores e isso dói-te. Marca-te e não consegues esquecer. Não sei porquê sinto que faltou contares-me um episódio qualquer importante da tua vida. Estás no teu direito, evidentemente, mas acho que faz falta ao puzzle. Será um canto, meu querido épico?
A donzela
Camila

sábado, 12 de junho de 2010

Parabéns às medidas do Governo

Passo a vida a dizer ao meu filho que tem de estudar. Agora, o Governo, num sussurro, diz-lhe que não precisa, pois passa de ano na mesma e terá um papelucho a dizer que tem X anos de escolaridade! Diz isto e aposto, aposto mesmo, que sorri!
Onde terão ido copiar esta ideia? Que lógica está por detrás desta intenção? Eu só consigo ver alguém a varrer para debaixo do sofá, nada mais.
A introdução do inglês no ensino básico, a informática ou as aulas de educação sexual, são pequenas plantas que darão fruto dentro de anos, espero eu que sejam frutos comestíveis e não aqueles de que ouvi falar, com muito bom aspecto mas venenosos. Apesar da dúvida, mantenho a esperança na apreensão de conhecimentos, competências, tudo conjugado com a minha grande expectativa, que a malta novinha enjoe as bebidas alcoólicas que consomem como se fosse Tang e, não é preciso ser um génio para saber, que lhes põe a moleirinha a funcionar ao contrário. Mas até lá há uma geração onde a imbecilidade reinará, onde a capacidade de decisão, por ser exercício difícil, é substituída por um já existente 'amanhã logo se vê', 'quem vier atrás que feche a porta', e desde que o futebol não acabe a vida continua tal como a conheciam. Que bom estar tudo no lugar!
E assim imagino as repartições de finanças, outros e todos os serviços públicos e demais privados, não a fazerem avenças com os antigos funcionários, mas a mantê-los pois a idade de reforma será tão avançada que há-de passar uma geração até irem para casa e só irão metidos numa caixa de madeira, vulgo caixão, e assim poderão ajudar aqueles a quem o Governo passou de classe, numa atitude que desclassifico e acho inqualificável. Talvez o grande segredo seja este: estamos à espera de uma geração actual, que se enquadre nas necessidades e nas dinâmicas sinérgicas que se pretendem e, como o Governo sabe que ainda vai demorar, mas em simultâneo não quer ficar atrás nas estatísticas, licencia a juventude. Ah, que bom, somos todos doutores...
As pequenas, médias, grandes e multinacionais empresas serão lideradas por primitivos que não sabem ler nem escrever e para fazer contas usam a calculadora do telemóvel, último modelo, pois claro. Estarão todos ligados em rede, como agora é moda e se deseja, na rede do msn, na rede dos futebóis, na cama de rede que os embala desde que nasceram porque nunca se esforçaram em nada na vida e o vento vai embalando, criando uma falsa imagem de movimento.
Os professores têm culpa disto tudo. Pois têm! Assim como os alunos e os pais dos alunos e os avós dos alunos e os vizinhos dos alunos e os amigos dos alunos. E com um paradigma como o de hoje, em que temos que ser estudantes a vida inteira, misturam-se as coisas: temos que ser estudantes sim, mas não no mesmo ano de escolaridade a vida inteira!! Progredir, esforçarmo-nos, sacrificarmo-nos em nome do futuro é ficção científica para a malta nova, algo que não existe pois houve e haverá sempre quem progrida por eles, quem se sacrifique por eles, quem se esforce por eles, quem chegue mais alto e mais longe e mais além por eles, como é o caso do Governo que lhes diz para ficarem a fazer aquilo que gostam, que descansem, que não queimem os miolos, e digo miolos e não neurónios pois estes estão em parte incerta e desconhecida, que ele, Governo, lhes dará aquilo que precisam na forma dum papel que lhes confere conhecimentos e os põe na soleira da porta de qualquer empresa para se sentarem na cadeira de contínuo ou de director geral, de chefe ou de subordinado, não interessa nada porque a malta será toda igual. Agora que penso nisto, pergunto-me: será esta a sociedade da igualdade?
Face aos alunos que (ainda) estudam alguma coisa qual é a mensagem que o Governo passa? Vocês são uns otários!! Podiam tar por aí a limpar paredes com os fundilhos das calças, podiam andar aí a namorar e tão na sala daulas a aturar setôres e setôras? Gandas anormais! Com medidas destas o Governo tem que falar assim.
Seja como for, agora tudo é secundário porque temos que estar atentos ao mundial do futebol que aviva as cores da bandeira e faz saltar o hino nacional fingidamente entoado porque poucos o sabem embora tenham uma ideia que é qualquer coisa dentro do nana nana na na, etc., etc.

Margem do Tejo, 6 de Junho de 2007

Minha janela virada p’ró mar… cem anos que eu viva, não hei-de esquecer-te…
Isso de eu ser uma gastadora é mentira e eu vou prová-lo aqui e agora!
Lembras-te do beijo que me enviaste ontem? Não o usei! Está guardado. Verdade seja dita que tive vontade. Mas não o fiz. Olhei para ele, mirei-o e remirei-o. Coloquei os cotovelos em cima da secretária do escritório e, com a companhia da Diana Krall, fiquei a admirá-lo. Ela até me disse have yourself a merry little christmas… enquanto me via observar o beijo. Um pouco mais tarde, impressionada com a minha persistência, ela disse também, christmas time is here e acrescentou um ponto de interrogação. Eu ia sorrindo e dizendo que sim, porque dizer yes é fácil e eu estava tão absorvida que não conseguia pensar em mais nada.
Um pouco mais tarde fui arrumar umas coisas e quem me aparece no meio duma montanha de roupa, meio escondido, quase com vergonha? Uma camisola azul escura que veio de Budapeste, onde o Klimt depositou O Beijo original para mim. Sim, o original, porquê? Eu tenho o original numa camisola…bem, vamos lá a ver esse ar de gozo e interrogação! Não tenho culpa que os museus mostrem cópias, nada tenho a ver com o assunto, não quero saber de museus…
Bem, mas não interessa. Quando vi O Beijo, lembrei-me do meu beijo que descansava algures pela casa, onde eu o tinha largado. O meu coração bateu com força e fez concorrência ao vento que teimava em entrar pelas janelas e imediatamente pensei: Porque não o gastei? Corri pela casa, descalça, por isso ando sempre com tosse, nada tem a ver com o tabaco e, de olhos bem abertos, de olfacto activo, com a sensibilidade à flor da pele, a saborear o ar e com os ouvidos alerta, não fosse escapar o som típico da concretização do que era meu e que eu deixara… onde mesmo? No escritório? Sim, tinha sido ali que eu o admirara pela última vez, enquanto a Diana me dizia I can’t give you any thing but love e quando eu lhe perguntei porque me dizia ela aquilo, ela não respondeu e continuou a cantar… gente do xoubizenesse, vá-se lá a saber o que pensam e porque o pensam e o que dizem e porque o dizem… até cheguei a colocar a hipótese de ela não estar a falar comigo. Mas só ali estava eu… quer dizer, eu e o meu beijo e com o meu beijo ninguém fala! É meu e eu não deixo. Pensando bem… vou gastá-lo, é melhor, por via das dúvidas… não vá alguém, à socapa, roubar-mo….
Quero lá saber que me chamem gastadora!
Fica sabendo: se voltares a enviar-me um beijo, gasto-o de imediato… mas devagarinho, docemente, sim porque um beijo de alguém que consegue cheirar bem depois de estar quase vinte e quatro horas acordado e em pé, é um beijo especial que sabe a primeiro beijo… escorrega através da boca e toma conta do corpo todo e faz-nos sentir no céu. Existirá o céu? Não sei… mas também não quero saber… existem beijos. E chega.

Um para ti
Camila

Um livro que vem de dentro

Um livro que vem de dentro. É assim Nenhum Olhar de José Luís Peixoto e a única pena que tenho é não o ter lido antes. É belíssimo e interior. Ao contrário daquilo que normalmente acontece, quando os livros entram em nós, este já vive nas pessoas, vem de dentro, dum dentro fundo e escondido. Um dentro vivido e ouvido e contado e recontado. Talvez isto aconteça comigo porque desde há muitos anos vivo o sol alentejano e reconheço as gretas da terra seca sempre ansiosa e nunca satisfeita. É terra insatisfeita, aquela, mas é terra de gente conformada, que aceita e se submete a si própria.
Em certas passagens Nenhum Olhar é uma canção, a letra duma canção triste e lendo, sinto a falta das notas de música ao lado, ou em cima, das palavras, que deviam talvez ser mais espaçadas para permitirem encaixar claves de sol, breves e semibreves, colcheias e semi colcheias, mínimas e semimínimas, fusas e semifusas e outras cujos nomes desconheço, mas que as deve haver, isso deve. Leio e ouço um roçagar musical pois é música aquilo que a natureza nos dá, embora nem sempre em sinfonia melódica ou harmónica, mas é música. Leio e sinto-me embalar por uma vida que foi e já não é, mas continua a ser, ou não fosse a eternidade eterna. Leio e conheço e reconheço os pensamentos, pensamentos escritos por um escritor mas pensados por gente viva que parece morrer ao nascer e por isso duvidamos.
Nenhum Olhar põe tudo dentro de nós, fazendo-nos descobrir que já lá estava, o tudo, dentro de nós. Por isso é descoberta de quem encontra uma nota no bolso dum casaco, mas uma nota que já não circula e no entanto, ali está ela, ao vivo e a cores, na nossa mão e reconhecemos-lhe o valor mas sabemos não ser aceite. Mas existe e está ali.
Nenhum Olhar é um livro ao contrário, de dentro para fora. De dentro do leitor para fora dos olhos do leitor, como se vomitássemos a vida abrasadora dos personagens e sentíssemos a azia da solidão, do silêncio, da vida.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Abertura da época balnear

Escrevo aos primeiros minutos do dia 1 de Junho, início da época balnear. Hoje é um dia mágico. Para mim, é o princípio do Verão, a mais saborosa das estações do ano.
Quando era criança o nosso primeiro dia de praia era dia 1 de Maio. Mesmo antes do 25 de Abril o meu pai, tipógrafo linotipista, tinha este dia de feriado. Calhasse a que dia calhasse, eu faltava à escola e a minha mãe metia um dia de férias e íamos à praia, abríamos essa janela que se mantinha aberta durante alguns meses, e que nos dava um alento que permanece até hoje.
A conjuntura política veio depois antecipar a inauguração do nosso Verão, que passou a ser dia 25 de Abril! Chovesse ou fizesse sol!
Na minha vida independente esta tradição manteve-se tendo sido trabalhada com muito esforço e carinho: praia o ano inteiro, caminhadas à beira mar, banho, banho completo, só a 25 de Abril. Adoro estar ali a inspirar sol e calor, sendo dos poucos sítios onde consigo estar quieta sem fazer nada. Bem, se levar um livro (ou dois!) será perfeito.
Há um exercício que gosto de fazer com os miúdos que é perguntar-lhes qual a lembrança mais antiga que têm. A minha lembrança mais antiga é sobre um par de botas, teria eu uns três anos, talvez menos, e sempre achei que seria por isso que tenho a paranóia que tenho com a minhas botas, que ficarão em herança para quem as merecer, de tal forma as tenho em consideração.
Mas uma das minhas lembranças mais antigas é sobre a praia: nós ficávamos na paragem da camioneta, que ficava ao lado duma azinhaga junto a um pequeno rio, no Cacém. Eu não me atreveria a passar na azinhaga sozinha dada a sua configuração, meia escura e sem se ver o fundo, o que me metia medo, mas ao mesmo tempo me atraía. Enquanto esperávamos pela camioneta que havia de dar a volta ao mundo antes de nos fazer aterrar no areal de Santo Amaro de Oeiras, eu fixava a azinhaga, numa atitude interior de contemplação e pensava que um dia a percorreria sem medo. Antes disso poder acontecer, foi ali construído um prédio que derrubou as minhas intenções de dominar o medo. Mas a espera da camioneta era já uma emoção na dinâmica da praia, antevendo-se um dia i n t e i r i n h o esparramada na areia a apanhar escaldões ou dentro de água a engolir pirolitos, mas em ambas as situações, enquanto a pele ficava castanha, tão castanha que durava dum ano para outro. Não havia protectores solares e sim bronzeadores para apressar a camada castanha e deixar os fatos de banho e biquinis todos manchados com nódoas que não saiam mas que eu nem via! Bronzaline era o rei dos bronzeadores, ajudando-nos a atingir os nossos objectivos assim que espalhávamos a mistela na pele deixando-a imediatamente com ar de quem tinha vindo do Sudão. Os escaldões eram tratados com pachos de algodão embebidos em álcool quando chegávamos a casa e eram apenas ossos do ofício, nada mais.
Eu que sempre fui generosa de peito, numa ocasião queimei-me de tal forma que tinha que dormir com um soutien apertado para que as mamas ficassem no sítio sem se mexer nem um milímetro; a coisa foi de tal maneira que a minha mãe levou-me à farmácia! Ora naquela altura ir à farmácia por causa duma coisa daquelas era como ir ao médico porque nos tínhamos engasgado, visita perfeitamente ridícula já que qualquer engasgo passa com uma valente palmada nas costas. O senhor da farmácia deu-nos uma pomada que pus nessa noite em quantidade generosa pois o dia seguinte era dia de ... praia! E à praia não se faltava.
Falava eu das minhas memórias mais antigas para dizer que recordo uma cena que se passou enquanto esperávamos a camioneta, mas em Santo Amaro de Oeiras, já de regresso. A paragem, onde as bichas (antigamente não havia filas, só bichas) se amontoavam e acotovelavam era no jardim, onde horas antes os veraneantes tinham feito piqueniques, e hoje há um McDonald. Depois de tantas horas debaixo dum sol abrasador, com um cansaço enorme vindo das cinco ou seis da manhã, hora a que se levantavam estes viajantes para empreender a dura jornada, depois de horas de camioneta para lá e na expectativa das mesmas horas de regresso, todos ansiavam por um lugar sentado, nem que fosse um por família e, assim, podiam ir trocando ao longo da viagem. Com ânimos quase sempre exaltados lá se punham uns engraçadinhos no fim da fila, embora eles afirmassem que estavam no início há horas, independentemente de ninguém os ter visto. Tenho presente uma destas cenas em que o meu pai fez valer a sua voz possante e deu dois berros a dois homens que queriam passar à frente. Foi secundado por outros que estavam igualmente na bicha há imenso tempo e já viam os seus lugares sentados ocupados por outros rabos que não os seus. De repente, os dois homens foram cercados por várias caras ameaçadoras de vários pais de família que não se inibiam nada em lhes dar um enxerto de porrada, aqui e agora, para depois descansarem nos seus lugares sentados. Lembro-me que tinha o coração a cem à hora e me passaram pela cabeça imagens do dia fantástico que estava a terminar e recordo-me perfeitamente de pensar, como é que era possível que um dia tão bom pudesse acabar assim, como? A bem da verdade, já não me lembro se viemos sentados ou em pé, mas cada vez que passo no jardim vejo o meu pai, novo e com bigode preto, a gritar em coro com mais dois ou três pais de outras crianças e lembro-me desse dia de praia em particular.
Fazendo uma análise, os dias de praia são talvez a acção repetida ao longo da vida de que mais me lembro em particular: os fins de tarde na Fonte da Telha foram soberbos, inesquecíveis e irrepetíveis. Coisas tão boas não se repetem, é isso que faz delas o que são e que as mantém no pódium uma vida inteira. Mas apesar de não se repetirem, podemos multiplicá-las e ter outras igualmente boas.
Haverá coisa melhor que um dia de praia?

sexta-feira, 28 de maio de 2010

O Benfica no Haiti

Em busca duma informação no site da ONU, mais propriamente do PNUD, na homepage, à entrada, antes de qualquer pesquisa, uma cara portuguesa conhecida. Quem? Luís Filipe Vieira e ao lado a informação que o Benfica visitara o Haiti: Portuguese champion Benfica Football Club visits UNDP projects in Haiti.
Habituada a frequentar este site e a ler relatórios sobre os programas de desenvolvimento humano, a extrair informação sobre os objectivos do milénio, a procurar números que sustentem relatórios que eu própria tenho que fazer, fiquei surpreendida com semelhantes visitantes. Porém, há que dar a mão à palmatória e perceber o peso dum clube de futebol.
Segundo o Guiness o Benfica é o clube do mundo com mais sócios activos, uma forma de dar a volta e de se posicionar quase em igualdade com o maior clube do mundo que não sei qual é, mas para o caso não interessa.
No seguimento dum jogo de estrelas organizado pelo Benfica, onde apuraram 767 mil dólares, a comitiva foi entregar o contributo ao Haiti.
Na página internet do Benfica não há menção a este facto. Não se percebe se por humildade da atitude ou por desconhecimento da propaganda que certamente lhe traria. Mas uma coisa é certa: o Programa de Desenvolvimento Humano das Nações Unidas não considerou despicienda a visita futebolística, caso contrário não lhes daria lugar de destaque daquela forma. É claro que a quantia apurada também é muito simpática e o que não faltam são embaixadores de boa vontade no mundo do futebol que podem propiciar actos desta natureza, envolvendo aqueles que ganham por mês tanto como as dívidas de alguns países. Há que aproveitar.
Ouvem-se notícias sobre certos jogadores que apoiam activamente o desenvolvimento de projectos nas suas terras natais, como Zidane. Mas são acções de pessoas que se disponibilizam para tal, não é o universo do futebol que se congrega para atingir semelhantes objectivos. Estamos mesmo dependentes da boa vontade...
Apesar de tudo, parabéns à atitude do Benfica que se mobilizou nesta acção.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

4 de Junho de 2007

Meu amigo
Não te desculpes de bateres sempre na mesma tecla: temos que bater sempre na mesma tecla, para ver se alguém OUVE!!!!!
As crianças sim, as crianças, mas porque será que tenho a sensação que, quando ouço falar nelas ( e escusado será dizer que concordo contigo a 100%!) parece-me ouvir palavras vãs da boca duma linda Miss Universo que adora crianças e anseia pela paz no mundo???
Claro que a nossa aposta, a nossa força, a nossa esperança, a nossa vida! tem que ser depositada nas nossas crianças! Qualquer criança é nossa! Entendo essa partilha como partilho contigo o ar que respiro! Não posso ser dona dele e não tenho o direito de o adulterar! As crianças são o oxigénio do nosso futuro, são o transporte que nos levará avante no tempo e no espaço. E somos nós, em casa, no mar da família que temos a obrigação de lhes mostrar os caminhos que há a percorrer para que elas escolham e façam as suas opções. Opções de futuro. (É curioso porque acabo de escrever esta expressão e associo-a a uma muito familiar nos meios bancários: opções de futuro...)
Eu mostro ao Duarte as pessoas que vivem na rua, chamo-lhe a atenção para os drogados, explico-lhe que há crianças que andam na escola pública e não têm o Sr. enfermeiro para lhes tratar das feridas quando se magoam depois de jogarem à bola! Não têm um quarto para elas, nem brinquedos...ou então têm brinquedos, mas não têm uma coisa que ele gosta muito... os pais ao pé dele para se deitarem no chão e jogarem jogos... há coisas que o Duarte não esquece... a noite em que cheguei muito tarde e o pai o deixou ficar acordado e escreveram papéis de boas vindas à mãe que estavam espalhados pelo chão em direcção ao quarto dele, onde cobertores repousavam escondidos por entre os lençóis, para que eu pensasse que eram eles que dormiam... e quando destapei a roupa... novo papelinho... lá fui para o meu quarto, onde novo monte de roupa se escondia e... novo papelinho... no meio da sala erguia-se uma tenda e eles estavam a dormir lá dentro, meios vestidos e absolutamente felizes! Lembro outra ocasião, cuja acção repetimos há dois anos... no primeiro dia de praia, metemos os pés no areal e largamos a correr em direcção á agua e mergulhamos vestidos! Ele fica doido de alegria e fala nisto durante todo o ano, como uma cumplicidade maior entre os pais e ele. Uma delícia que não faz mal a ninguém e apenas deixa alguns pais, que nos observam, a pensar que somos malucos... somos saudavelmente malucos, acho eu...
Ou então, no Alentejo, de galochas calçadas, irmos brincar para o riacho e, mesmo que chova, apanhamos "flores" para enfeitar a casa... e sempre, mas sempre, sempre, sempre, sempre... a conversar!
Em casa, de vez em quando, fingimos que não há luz e andamos com velas...jantamos, arrumamos a cozinha, lemos, contamos histórias, eu sei lá... às escuras as pessoas têm a tendência de se juntarem mais.
E mesmo assim, claro que acho que passamos pouco tempo juntos, permitisse Deus que estivéssemos ainda mais tempo juntos.
Já conversámos sobre a pedofilia, embora evite que ele veja imagens na televisão, pois são sempre propositadamente sensacionalistas.
Mas devo dizer-te que um dia destes, no final do ano passado, ele veio para casa com um murro na cara, mas com um sorriso... então contou-me, e eu confirmei mais tarde... iam jogar à bola e ninguém queria na sua equipa um garoto que usa um aparelho nos ouvidos... chamaram-lhe nomes, etc. e o Duarte defendeu-o... resultado, acabaram à tareia, mas chorei ao ouvir o meu filho dizer que os outros miúdos, com certeza não gostavam que lhes chamassem ranhosos, porque chamavam, então, surdo ao (não me lembro o nome)? A culpa não era dele por ser surdo!. Nesse dia adorei-o ainda mais!
Mas sinto que ainda podia fazer mais coisas e tenho sempre pena quando vou ouvir as palestras à escola, e há pais que se enfadam com o que ouvem e suspiram de alivio quando se termina... e nós achamos que fazemos tão pouco...
Por isso e muitas mais coisas... o investimento é neles que tem que ser feito e há tanta coisa contra nós... tudo compete connosco! A televisão, os amigos, o social...
É difícil competir com amigos que têm tudo... é difícil gerir certas amizades que, tu queres ver continuar a crescer, mas cujos padrões de orientação são diferentes, nos respectivos pais.
O meu marido é pacífico, mas eu desoriento-me com certas coisas. Isto para não falar dos telemóveis dados a crianças com 5 anos!!!!
Os nossos filhos vivem pensando que as "coisas" caem do céu! E quando crescem e se tornam adolescentes, revoltam-se ao descobrir que o pai natal não existe e a rena não vai deixar cair presentes em cima da cabeça deles e quando se tornam adultos agem da forma que lhes parece mais fácil para atingir os seus objectivos, como se fossem os únicos ocupantes do planeta e arredores e TUDO o resto fossem ...coisas, e não pessoas, como eles!
É contra isto que temos que agir e lutar... levá-los, a eles, a escolher e a negar o facilitismo que, mais tarde, se transformará em dificuldades a dobrar! Não vale a pena andar a olhar para o céu se esperamos ver um sujeito a voar com capa pelas costas e um S no peito... outros valores mais altos se levantam... porque será que tanta gente os quer derrubar???
Ajuda-me tu, amigo, a responder a esta pergunta e vai batendo na tecla as vezes que te apeteça... e serão poucas.

Recebe um beijo, ou dois ou três, adiantamento que te faço em nome do fim de semana!
Camila

sexta-feira, 21 de maio de 2010

O meu novo emprego!

Estou a pensar seriamente em despedir-me!
Sempre quis ir trabalhar para o estrangeiro e, talvez, tenha encontrado hoje essa possibilidade, na forma de anúncio a pedir um dentista para o Luxemburgo.
O Luxemburgo é um local óptimo, saudável, muito bem situado a meia dúzia de passos de vários países, o que para mim é indispensável pois sinto-me claustrofóbica em espaços pequenos e aquilo é tão pequeno que, numa ocasião em que lá fui, vimos a fronteira e passados minutos, indecisos se parávamos em terriolas rústicas e com aspecto meio alpino, com o assinalar dum campo de batalha da segunda guerra e dois dedos de conversa, quando fomos a ver e já estávamos na Alemanha. Foi uma operação limpa: entrar e sair! Uma autêntica volta de carrossel que anda tão depressa que nem apreciamos nada.
Lá voltámos para trás e, já na capital, dirigimo-nos a uma fila de ícones da sociedade da informação, que o mesmo é dizer, taxistas. Este profissional sabe tudo e tem opinião sobre as coisas menos plausíveis de se conversar, mas sobre isso debitarei discurso noutro dia. Assim, aproximámo-nos do primeiro da fila e puxámos pelo nosso francês sob a a forma inicial de si vu plé a perguntar qualquer coisa. Eis senão quando o ilustre motorista nos pergunta se somos portugueses e, face ao nosso assentimento, ele grita essa informação para todos os outros taxistas, que nos vieram cumprimentar como se nós fossemos o próprio Eusébio, figura sempre no coração de todos os emigrantes portugueses em França, no Luxemburgo, nas Ilhas Faroe ou noutro qualquer local remoto. Os taxistas eram todos portugueses e competiram entre si para nos aconselhar um restaurante onde se comia um belíssimo bacalhau com todos, bom vinho do Douro, azeite alentejano e até água do Luso! Ora eu que gosto de experimentar tudo o que de diferente existe em cada país não estava nada satisfeita com o rumo da conversa que já ia com explicações para se chegar à rua da dita casa de pasto.
Bem, mas o objectivo deste atalho era explicar que me sentirei em casa no Luxemburgo, mesmo que não queira...
E se a alguém lhe ocorrer avisar-me que não sou dentista, logo, que não posso candidatar-me ao emprego, esqueçam lá isso: o anúncio pede alguém que fale francês e inglês (eu!) e diz que será uma vantagem (sic) ter-se conhecimentos em ortodontia ou nos implantes (sic autrefois e again), logo não é obrigatório!
Assim sendo, au revoir!

quinta-feira, 20 de maio de 2010

2 de Junho de 2007

Meu caro rapagão

Ontem à noite liguei-te e atendeu uma senhora simpática que me disse que o número para o qual eu liguei não estava disponível e até repetiu a informação em inglês. Não o fez em francês porque, certamente, foi avisada por ti sobre este meu handicap e não consentiu que eu deixasse uma mensagem… aí não lhe reconheci muita simpatia mas, com certeza, ela estaria a pensar que eu desconheço o que são fusos horários, quem sabe se a acordei e, com franqueza te digo, nem me lembrei que aí onde estás seria noite avançada, quando aqui mal tinha começado…

A tonta da tua amiga
Camila

Um acidente em Perafita

Aquela coisa aborrecida que nos obriga a levantar todos os dias bem cedo e que se chama trabalho tem-me assoberbado na última semana. É isso e as dores de dentes.
Hoje quando me dirigia para apanhar o transporte que me conduz ao meu emprego ouvi uma notícia no rádio que me despertou a atenção: um acidente em Perafita!
Ora acidentes há-os todos os dias em Lisboa e esses, aparentemente, seriam os que me causariam alguma preocupação por via de me poderem complicar a vida; também me poderia preocupar com acidentes na margem sul do Tejo onde vivem várias colegas minhas, na linha de Cascais e Estoril para onde os meus pais foram à praia ou em Freixo de Espada de Cinta pela curiosidade que o nome sempre desperta. Mas não, o acidente foi em Perafita – onde se cortou o trânsito numa determinada artéria! – e foi este que me chamou à atenção.
Acontece que na minha família as mulheres são todas generosas, ou seja, mais para o gordo; elas dirão que são cheias, fortes, entroncadas, maciças! Mas a verdade é que são gordas, com as poucas excepções à regra, da qual eu não faço parte, como bem se sabe.
E o que tem o acidente em Perafita com a generosidade das formas das mulheres da minha família? Tudo, pois a minha Tia R. vive em Perafita! Embora não conduza veio-me logo à ideia ter sido ela a provocar o acidente, com a sua cintura (que tão bem conheço pois descendo dela) de mesa redonda, ligeiramente levantada atrás, como se fossemos peruas. E se ela ia a passar na rua, andando calmamente na passadeira e beio um destrambelhado ao bolante dum beículo que a fez boar bigorosamente numa biagem que mais parecia ser num abião? Sim, sim, Perafita fica perto de Matosinhos, mas isso não interessa nada agora... e se ela não ia na passadeira? Terá sido a culpada?
Por via das dúvidas conduzi mais devagar até chegar ao meu destino, com receio de poder contribuir para o aumento de notícias semelhantes que já visualizava (auditivamente, é claro!): “Sobrinha da mulher que causa acidente em Perafita – com corte de trânsito numa artéria! – causa acidente na Damaia por desconcentração ao saber do acidente da Tia. Isto é a globalização senhores ouvintes! É a globalização a funcionar: um acidente provoca outro a mais de 300 quilómetros graças à nossa rádio pois se não fossemos nós, nada disto teria acontecido!”
Minutos depois ouvir-se-ia: “Informações de última hora dizem-nos que afinal o acidente em Perafita – com corte de trânsito numa artéria! – não foi causado pela Tia da mulher que causou o acidente na Damaia; na verdade em Perafita não houve qualquer acidente, e a artéria foi cortada devido a obras. Mas a Tia da mulher que causou o acidente na Damaia ao saber da notícia da sobrinha que tinha causado um acidente por pensar que ela, a Tia, tinha provocado um acidente, ficou preocupadíssima e pediu-nos que emitíssemos uma mensagem: Filha, querida sobrinha, espero que estejas bem quando ouvires esta mensagem. Atão tu pensavas que eu tinha causado uma acidente? Atão tu não sabes que eu não conduzo? Atão onde foi que tiveste o acidente? Ouvi que foi na Damaia... a Damaia não era onde moravam muitos lá do Sobral? Atão se eram assim tantos ainda deve haver alguns e porque não procuras alguém que te ajude? Diz que és neta do Cabo da Guarda! Olha, tenho muitas saudades tuas, quando quiseres vir visitar-me já sabes, mas até é melhor que não venhas agora porque andam com obras aqui na rua e vê lá tu, até disseram na rádio que tinha sido um acidente com corte de trânsito numa artéria e que tinha sido eu, mas não fui e... ah, pois mas isso tu sabes, olha as melhoras e beijinhos da Tia R.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Bento XVI

É inevitável que fale da visita do Papa Bento XVI.
As multidões impressionam-me sempre. Multidões de pessoas e de dinheiro, pois os valores associados a esta visita não são nada despiciendos. A fé também se paga, dirão alguns. Não assisti à missa no Terreiro do Paço, ou na Praça do Comércio, como se preferir, mas acompanhei o percurso na televisão e graças à tecnologia, pude ver mais que muitos dos que estiveram na Praça.
Vi um conjunto de embarcações que embelezavam ainda mais o Tejo, entre os quais o navio escola Creoula, onde já tive a sorte de estar, que com as lindíssimas velas hasteadas tinha passado por mim, ainda de manhã. Achei que eram poucas embarcações...
Vi a multidão que agitava bandeiras, muitas crianças, ouvi dizer que pagaram para agitar bandeiras e vestirem camisolas, o que não confirmei. Achei pouca multidão, esperava mais...
Vi o novo chão do Terreiro do Paço de cima, que anseio por percorrer com calma, assim como a luz que banhava aquela sala de visitas de Lisboa e que nos deixava encantados, mesmo via televisão. Achei que nem nos melhores sonhos se podia ter pedido um ambiente melhor.
Vi muita gente ser entrevistada cujas respostas pareciam saídas dum concurso de Miss Universo, ansiosos por amor e esperança. Achei comum.
Vi um senhor com uma comitiva de nove pedintes, com ele dez, que quando questionado pela jornalista respondeu que pedia mas não sabia para quê, isso era com a Junta, de Santa Susana se não me falha a memória, a ele cabia-lhe só pedir. Achei demais.
Vi oferecerem uma camisola do Benfica e uma águia ao Papa e fiquei boquiaberta. De que país terceiro-mundista veio o gestor de protocolo desta visita que permitiu uma cena assim?
Mas como se isto fosse pouco, às oito da noite, enquanto a abertura do Telejornal era dominada pelo assunto do dia, a visita papal, em nota de rodapé informavam-se os portugueses que não tinham assistido àquele momento que o Benfica ofertara o Papa Bento XVI!
O Bispo de Roma, sempre sorridente e afável, recebeu a peça de roupa com os olhos bem abertos e uma expressão de surpresa, é claro, mas com simpatia, como lhe competia, mas os seus pensamentos, eram outros com certeza... Se por cada benfiquista convicto se espalhasse o tal amor e a tal esperança de que falavam os entrevistados e que, afinal, são as roupagens genéricas destas visitas, então estaríamos no caminho do Paraíso.