quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Arroz de pimenta

Não, não é uma receita, são apenas duas palavras usadas por Jorge Coimbra para substituir outras, meias asneirentas, no livro É assim não é, que acabo de ler. Jorge Coimbra é um gozão do caraças, e até devia dizer do ca**lho, porque o livro tem o sotaque do norte, com saca da escola e quarto de banho.
Escrevo e vejo a junção meias asneirentas e foge-me o pensamento para peúgas desbocadas, como se houvesse um PBX na minha cabeça que fez as ligações erradas. Bom, bate certo com o conteúdo do livro, cujo autor tem uma orquestra de... gente, sejamos generosos, a incliná-lo para certos pensamentos, certas musicalidades, certas coisas.
Visivelmente biográfico, o livro transporta-nos para tempos e terras longínquos, sempre com uma grande carga irónica e fazendo-nos frequentemente pensar que é connosco que fala, mera sobranceria nossa - ou não será? - e, num golpe rápido, estamos de volta ao hoje, esse hoje intemporal, e com o eventual pronome possessivo, nosso. O nosso hoje, o hoje de qualquer um de nós, que nos faz a soma de todos os dias que já vivemos, desde a altura em que nos limpavam o rabo até hoje, quando caminhamos para que nos limpem o rabo novamente. Isto se tivermos sorte.
Há toda uma viagem ao passado de há 60 anos, a ontem, ao momento presente, aos dias quentes do pós Abril de 74, ao trabalho invisível e nunca reconhecido da alfabetização - e que a mim me toca imenso, neta de um excepcional homem que aprendeu a ler e escrever em adulto - e essa viagem é feita pelos olhos do protagonista/autor que não se limita a espreitar lá para trás, mas antes segura a nossa mão e leva-nos, menino de escola, contando como foi, num caminho nunca cinzento, até porque muita da narrativa se passa em África, África que era branca e negra, mas nunca África mármore, porque as misturas tinham limites perfeitamente estabelecidos, e desses limites nos fala o livro, de um racismo que não existia pela simples razão que não era praticado por pretos e sim por brancos, logo, estava tudo bem...
Neste exercício de exorcismo com o passado, Jorge Coimbra partilha ocasionalmente a existência de um amor que o arrebatou, mais que a bengala que usa como se já fizesse parte dele, e que mantém. Quando fala da aluna, da jovem que se transformou em mulher, com quem casou, percebe-se um suavizar do toque das teclas que foram usadas para digitar as palavras, como se procurasse advérbios, cuja pronunciação estica o tempo, e faz durar mais o sentimento. Assim, não é com ternura, mas sim ternamente, que refere, sussurrando, os olhos, o cabelo ou a inteligência da mulher em causa. É uma ária de ópera que, a mim, me encanta por conseguir ser tão entoada, espraiando-se nos cinco sentidos.
Adoro provas de amor, adoro...
E se o conteúdo é um mega carrossel entre sítios tão díspares como os canais da cabeça do autor, Moçambique ou o Porto, que nos faz rir, reflectir, arrepender e viver, já o livro em si podia ter sido mais bem cuidado por parte da Chiado Editora.
Não percebo porque é que se continuam a cortar palavras quando temos a possibilidade técnica, ou tecnológica, ou como se queira, de construirmos linhas seguidas, sem tracinhos que dificultam e cortam a leitura, principalmente em casos como ca-
minhos-de-ferro.
Não podiam os caminhos ter seguido juntos? Tiveram que se cortar para multiplicar hífenes... vou deixar uma sugestão, e que tal caminhos tracinho de tracinho ferro? Ou ainda, português tracinho tracinho francês... sim, tracinho tracinho, porque estão lá dois: português--fran-
cês. Ou ainda um desajustado desajus-ta-
damente.
A revisora - na ficha técnica identificada como Margarida Maria - não devia confundir Ah com Ha, devia chapelizar os silêncios, não devia ter deixado passar um ? em lugar de um é,  devia ter visto que o lucro da Tourada é aos milhões, devia ter finalizado cada nota de rodapé com o respectivo sinal de ponto final, que devia ter poupado na contracapa que termina inexplicavelmente com um duplo ponto final, ou será com umas reticências mancas?
Por outro lado ainda, nada me impede de ir passear com uma camisa de dormir ou ir ao cinema de fato de mergulho. Nada me impede, mas vou ser alvo de olhares, risinhos e dedos apontados. Acontece o mesmo com a paginação que deixa artigos dependurados, palavras de uma só letra que ali se vê, sozinha, perdida e que nos faz perder a nós ainda mais quando aparece imediatamente a seguir a um ponto final...
Também inexplicavelmente o livro não se encontra à venda. Na Fnac informam que terá que ser encomendado ao editor, com um tempo de espera de uma a duas semanas, e com um preço de 14€, mais caro que na Wook, que com o desconto fica em 12,60€. Ora, uma a duas semanas é o tempo em que me chegam encomendas via Amazon, um pouco de todo o mundo, uma a duas semanas é tempo mais que suficiente para que eu pondere se afinal quero encomendar um livro ou uma estátua, uma a duas semanas é muito tempo, uma a duas semanas é desencorajante, principalmente num livro excelente para levar de férias. Os editores não deviam defender os seus autores...? Não me parece que neste caso isso aconteça.
E merecia, merecia mesmo muito.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Obscenidades

Há alturas no ano em que tenho três empregos, ou trabalhos, para quem acha que emprego é fazer os mínimos. Dou tudo por tudo e sinto-me verdadeiramente triste e frustrada por chegar a esta altura e verificar que tenho o suficiente para ir à praia mais próxima dia sim, dia não.
Fiz planos para ir ao Algarve uma semana, com despesas repartidas é claro mas, afinal, nem para isso dá.
Há gente que não me paga, há gente que nem põe a hipótese de me pagar e a culpa é inteiramente minha que não devia mexer um dedo para gastar um joule ou uma caloria em expectativas que não se concretizam. E eu sei que não se vão concretizar. Mas... quem sabe, talvez, ... e faço.
Sozinha e dentro de quatro paredes, sem um cêntimo para sair à rua, penso em Anne Frank: faz hoje anos que foi descoberta e presa.
PORRA! É obsceno que me queixe... mas que me custa, custa...
Custa-me trabalhar tanto e não ser compensada, custa-me não poder ter o mínimo que considero razoável, custa-me receber postais de vários locais onde não posso ir, custa-me ver tanta televisão, custa-me até ler, custa-me ver os meus planos mais básicos desfeitos, custa-me as pessoas afastarem-se de mim por não as poder acompanhar, custam-me certos silêncios, aparentemente incompreensíveis, aparentemente... mas depois lembro-me de uma 'amiga' que me disse que até era bom eu ter sempre roupa para passar a ferro, pois assim não me custava tanto a passar o tempo... e percebo que de facto deve haver muito (boa?) gente que se afasta porque talvez tenham receio que eu peça alguma coisa... Sim, eu adorava ir jantar fora - a última vez foi no Natal e porque me ofereceram - mas só posso ir se me ofereceres o jantar... Sim, eu adorava ir ao cinema, mas só posso ir se me convidares...
Será que têm receio que eu responda desta forma? Será que não me conhecem? Muitos serás se alinham numa fila, apenas com uma certeza... não sentem a minha falta, o que me deixa numa tristeza sem fim, porque não sei o que possa fazer mais por todos e por cada um que me rodeiam. Assim, concentro-me a pensar... Anne Frank, Anne Frank, Anne Frank, Anne Frank,...

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Coincidências

Na sala de espera da clínica aguardo que me chamem para fazer exames. Ouço o meu nome, dois nomes próprios e um apelido, o último. Fecho o livro, guardo-o e levanto-me. Adiante de mim levantara-se uma senhora, que atirou com a revista de um dos meses de Verão do ano passado para cima da mesinha onde estão mais dez semelhantes, ou mais atrasadas ainda, e prepara-se para seguir a funcionária.
Pergunto se pode repetir o nome de quem chamou, devo ter ouvido mal, a ansiedade fizera-me ouvir o meu nome. A funcionária repete os meus dois primeiros nomes e o meu último apelido, sorrio e antes de dar o impulso do primeiro passo em direcção a uma máquina torturadora que me esborracha as mamas, a senhora diz, para meu espanto: Sou eu.
Espera aí... também sou eu...
Ambas espantadas constatámos que tínhamos o nome igual, curiosamente não muito comum. 

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Na voz de Dean Martin... um mimo...

When Marimba Rhythms start to play
Dance with me, make me sway
Like a lazy ocean hugs the shore
Hold me close, sway me more

Like a flower bending in the breeze
Bend with me, sway with ease
When we dance you have a way with me
Stay with me, sway with me

Other dancers may be on the floor
Dear, but my eyes will see only you
Only you have the magic technique
When we sway I grow weak

I can hear the sounds of violins
Long before it begins
Make me thrill as only you know how
Sway me smooth, sway me now

Other dancers may be on the floor
Dear, but my eyes will see only you
Only you have the magic technique
When we sway I go weak

I can hear the sounds of violins
Long before it begins
Make me thrill as only you know how
Sway me smooth, sway me now
You know how
Sway me smooth, sway me now

Para ouvir e dançar aqui.

From Keats

Bright star, would I were stedfast as thou art
Not in lone splendour hung aloft the night
And watching, with eternal lids apart,
Like nature's patient, sleepless Eremite,
The moving waters at their priestlike task
Of pure ablution round earth's human shores,
Or gazing on the new soft-fallen mask
Of snow upon the mountains and the moors
No yet still stedfast, still unchangeable,
Pillow'd upon my fair love's ripening breast,
To feel for ever its soft fall and swell,
Awake for ever in a sweet unrest,
Still, still to hear her tender-taken breath,
And so live ever or else swoon to death. 

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Quadro de honra

Os meus sobrinhos estão no quadro de honra da nossa felicidade. Ela com um 4 a Música, ele a Trabalhos Oficinais, Educação Visual ou algo do género. De resto, nota máxima.
Os gaiatos só servem para pensar, não para fazer; darão dois péssimos ministros pois são excelentes alunos, ambos muito criticos do sistema e com uma capacidade, inusitada nas idades, para relacionar questões e perceber a multiplicidade de aspectos do quotidiano, no fundo, o desiquilíbrio da vida.
É claro que estralejamos de alegria com tão distintas notas, ufanamo-nos com uma carreirinha de cincos, temos a certeza que não davam seis, caso contrário, lá estariam.
Porém, há que dar os parabéns a mãe e pai, cuja atenção e dedicação contribui para estes sucessos. Não se trata de obrigar a fazer trabalhos de casa, eles fazem-nos sozinhos, espontaneamente. Trata-se de falar, de ler, de consumir informação, de discutir, de reflectir e, parecendo pouco, mas é talvez a fatia mais importante, trata-se de ouvir.
Por norma, são os filhos que ouvem os pais, mas o contrário é essencial, dar-lhes a palavra, não os acusar de dizer parvoíces, ouvi-los como pessoas que são.
Tenho imenso orgulho nestas duas pessoas tão especiais e acredito que estão ambos destinados a altos voos. Acredito porque eles manifestam a intenção, sem medo do futuro, de fronteiras, de línguas ou geografias, filhos do pai, um andarilho de meter inveja ao próprio Marco Polo.
Férias, venham elas que são muitíssimo merecidas!

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Fim-de-semana (em) cheio

Fim-de-semana alargado e de recarregamento de força e energia para as minhas amigas com um extra para mim: esquecer.
Fiquei melhor à força das brincadeiras delas e de um mar digno das Caraíbas, sol escaldante, areia fina, copos e muita gargalhada.
Tudo se passou no Alvor, palavra que alvoraça... mas concluo que um exorcismo precisa de confronto, de peito cheio, sem medos e foi isso que aconteceu, perceber o que quero acima de tudo e que se resume a conservar amizades.
Resume, mas não é coisa pouca, antes pelo contrário, é vital e imprescindível, depois de amizades desfeitas sem que eu tenha entendido bem como, há aquelas que me fariam sentir morrer se tal coisa acontecesse, por isso são precisas doses enormes de creme protector, para proteger e conservar, manter, cuidar, que o mesmo é dizer, esquecer certas coisas para guardar outras, mais valiosas.
Como a amizade, para sempre e mais quinze dias.
Ver o sol a despedir-se, sabendo que volta na manhã seguinte, bem cedo, passar a noite mais curta e o maior dia do ano em ambiente de praia, deixou-me bem disposta e confiante.
Curiosamente foi tudo diferente: não li uma página de qualquer livro, mas diverti-me imenso a ler revistas cor-de-rosa, leituras alto sobre os próximos episódios de novelas que nenhuma das três acompanha, mas que davam filmes cómicos com observações e, principalmente, com o facto de se ter instalado uma surdez colectiva provinda de tanto mergulho, fazendo que a alhos se respondessem bugalhos, originado ondas de gargalhadas e boa disposição que me elevaram a moral e me ajudaram a voltar ao meu eu.
Quem disse que a vida é uma maré acertou em cheio, há que esperar que suba e que desça, mas também podemos mudar a posição da toalha: desviar certos pensamentos, aceitar convites, estar disponível e não nos armarmos em Bela Infanta - eu que até desgosto de Almeida Garrett, por me ter desiludido quando percebi que As Viagens na Minha Terra foram feitas entre quatro paredes.
Vou deixar de tremer ao som da voz de Neptuno e vou ler mais revistas de Verão; parece simplório, mas será desafiante. 

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Urgentemente

Se Eugénio de Andrade diz...

É urgente o amor 
É urgente um barco no mar

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos, muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.

É urgente o amor, é urgente
permanecer. 

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Da ilusão

Estou confusa e baralhada.
Fui eu que não soube ler os sinais? 
Desaprendi a leitura do mapa da vida? 
Enganei-me na sinalética dos relacionamentos? 
Tão esperta para algumas coisas, tão burra para outras, diriam todas as pessoas que conheço.
Há alturas em que certos verbos parecem pertencer à categoria dos confettis, confiar, acreditar, esperar, essas coisas.
Qual fogo brando, ao qual apontaram um foco de calor, iluminei-me e agora sufoco no meu próprio incêndio, no qual acendo cigarros atrás uns dos outros. 
Isto passa.

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Cry me a river

Now you say you're lonely
You cry the long night through
Well, you can cry me a river
I cried a river over you

Now you say you're sorry
For being so untrue
Well, you can cry me a river
Cry me a river
I cried a river over you

You drove me, nearly drove me, out of my head
While you never shed a tear
Remember, I remember, all that you said
You told me love was too plebeian
Told me you were through with me and

Now you say you love me
Well, just to prove that you do
Come on and cry me a river
Cry me a river
I cried a river over you
I cried a river over you
I cried a river...over you...

Dói que se farta

Séculos, sinto que passarem séculos desde a última vez que aqui escrevi.
O trabalho tem sido tanto e tão intenso que não encontro uma sombra para me deitar, menos ainda espaço para teclar.
Hoje vim ao exorcismo, o nublado do dia a fazer jus ao cinzento da alma, depois do frio se ter apoderado de mim, esbranquiçando a pele já morena.
Sinto-me um fantasma, sou mas não sou, visível e invisível, deambulo.
Agarro-me a conquistas e sucessos profissionais dos últimos tempos, a sorrisos largos, a trabalho bem feito e quando dou ouvidos ao relógio de parede, a badalar que há vida para além do trabalho, e me convenço disso mesmo, verifico que foi uma ilusão de óptica.
Como sinto acima de tudo que a minha missão é ajudar os outros, concentro-me desesperadamente nessa tarefa, como alguém que levou um tiro mas continua a rastejar.
Dói que se farta, mas passa.
Tem que passar.
Vai passar.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Manifesto Norte Júnior - Que não se perca o Norte!

A História vive nas ruas e dá a cara nas fachadas dos prédios. Os homens que transformaram a imaginação em realidade são pais de um trabalho que se perpetua no tempo, ao ar livre, aguentando intempéries e todas as sortes.
As ruas de Lisboa têm várias cicatrizes NJ, que se manterão até que os poderes públicos e privados assim o consintam.
Frequentemente, esquecemo-nos que um prédio é uma edição de um só exemplar, irrepetível, e quando vai abaixo, entulha-se a História, da cidade, da arquitectura, do arquitecto, a nossa História.
Quem nos legitimou para apagar a História?
Os edifícios são irreproduzíveis e a memória não os consegue plagiar para que transportemos a riqueza acumulada de geração em geração.
Vivem entre nós pessoas magistrais, como Norte Júnior, temos o prazer de conviver com o seu trabalho, que faz História, admiramo-lo, aplaudimo-lo e deixamos que seja demolido!
Os interiores são obras de arte divinas, na medida em que funcionam como um corpo humano, com órgãos, tecidos, ossos. Os interiores projectados por Norte Júnior conjugam o calor das madeiras, a intemporalidade da pedra, a força do ferro, a estrutura do betão, a luz dos vitrais, a beleza da pintura, o delicado do estuque; têm o toque de Deus, como dizia van der Rohe, na profusão dos detalhes.
Não interessa, é demolido na mesma!
É o progresso, dizem. Mas o progresso não trouxe conhecimento técnico, e científico, e histórico, e tecnológico? O progresso não aumentou a visão de conjunto? E trouxe vontade…?
Insurgimo-nos contra a devastação do património na Síria, face à guerra: de que nos serve a paz se não existe bom senso?
Se o futuro não contiver as pagadas geodésicas do passado será um espaço vazio, pobre e infeliz.
Mantenha-se o edifício da Avenida da República, 55 e que não se perca o Norte!

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Eu gosto é do Verão...

Dizem que os fiordes são lindos de se verem. Acredito, mas nunca vi estas impressionantes formações naturais do planeta; também nunca vi o sol da meia-noite, embora já tenha andado pelas ruas à meia-noite sem ser necessário acender qualquer luz, no círculo polar ártico.
As línguas, tão saborosamente diferentes, como se fosse uma música nova que estamos a ouvir; a gastronomia, os costumes, a roupa, as casas, um tudo enorme de que me lembro nestes dias chuvosos em que não é sequer Inverno.
As dores de cabeça são frequentes neste ambiente quente e húmido, qual Macau à beira do Tejo que se deixa cair no mar.
Decididamente não gostaria de viver num local onde os dias são pequenos e a escuridão anda sempre a espreitar, numa espécie de brincadeira com um frio danado.
No entanto há quem viva nestes locais e adore. Penso também que, com a minha capacidade de adaptação, me adaptaria a qualquer sítio... desde que houvesse praia, penso logo a seguir...
Nada disso! Quero afastar este preconceito metereológico-geográfico e pensar que podia viver em qualquer local do mundo. Sim, eu sou capaz!
Quero acreditar nisto, mas olho pela janela, vejo a noite a aproximar-se às quatro da tarde e, instintivamente, entristeço. 

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Opilca, precisa-se!

O casaco verde alfaçado faz-me reparar na mulher que vai sentada um banco ao lado no metro. É giríssimo e fica mesmo bem em cima do vestido branco, leve, que transporta o Verão.
Só quando nos levantamos para sair na última paragem é que reparo que leva um braço ao peito, o que não a impede de desatar a correr pelas escadas acima, mala pendurada no braço bom, passar pelas cancelas e... estatelar-se ao comprido no chão.
A queda foi aparatosa, toda ela a escorregar um bom par de metros como se brincasse na neve, pernas no ar a deixar ver o fio dental e aquilo que parecia a Mata do Bussaco!
Os gritos eram genuínos, as lágrimas corriam-lhe pela cara, o braço queixava-se. A mão do braço bom no chão ajudou-a a levantar-se, tendo primeiro ficado de gatas, a saia do vestido em cima das costas.
Várias foram as pessoas que a ajudaram, todas sem conseguirem conter os lábios, que teimavam em abrir-se num sorriso, eu incluída.
Não há volta a dar, estas situações são sempre gregas, trágico-cómicas, tão dolorosas física como psicologicamente. 

Uma gargalhada com vinte anos

Uma desilusão no início de um fim-de-semana passado com uma pessoa muito especial.
Uma grande expectativa que não foi concretizada, mas que não abalou os dias que a M., o marido e o filho passaram na minha casa.
Quando se foram embora deixaram-me cansada... cansada de rir, cansada de conversar, cansada de boa-disposição... quem não gosta de estar assim cansada?
Anseio por lhe devolver a visita e voltarmos a rir juntas, coisa que fazemos há vinte anos.
Não é para qualquer um e eu sinto-me afortunada com esta amizade.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Zoom

Ontem à noite jantei fora de casa.
A caminho do restaurante para onde me convidaram, sem chuva, com o mar a ladear a estrada, os relâmpagos iluminavam-me o caminho.
Apesar de ligeiramente atrasada, desacelerei para poder captar aquele instante tão rápido do clarão reflectido na água, como se alguém no céu me estivesse a fotografar.
Estava tão feliz que devo ter ficado mesmo bem no retrato!

Depois da tempestade vem o Arco-íris

Somewhere over the rainbow
Way up high
And the dreams that you dreamed of
Once in a lullaby

Somewhere over the rainbow
Blue birds fly
And the dreams that you dreamed of
Dreams really do come true ooh oh

Someday I'll wish upon a star
Wake up where the clouds are far behind me
Where trouble melts like lemon drops
High above the chimney tops
That's where you'll find me

Oh, somewhere over the rainbow bluebirds fly
And the dream that you dare to,
Oh why, oh why can't I?

Well I see trees of green and red roses too,
I'll watch them bloom for me and you
And I think to myself
What a wonderful world

Well I see skies of blue
And I see clouds of white
And the brightness of day
I like the dark
And I think to myself
What a wonderful world

The colors of the rainbow so pretty in the sky
Are also on the faces of people passing by
I see friends shaking hands
Saying, "How do you do?"
They're really saying, I...I love you

I hear babies cry and I watch them grow,
They'll learn much more than we'll know
And I think to myself
What a wonderful world world

Someday I'll wish upon a star,
Wake up where the clouds are far behind me
Where trouble melts like lemon drops
High above the chimney top
That's where you'll find me

Oh, somewhere over the rainbow way up high
And the dream that you dare to, why, oh why can't I?
I?

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Viva o Facebook!

Chovem picaretas em Lisboa durante duas horas.
O local onde trabalho alaga-se e eu alugo um par de galochas, sabendo que não vou sair daqui tão cedo e na expectativa que, quando vá embora, a tormenta tenha levantado. São os riscos do empreendedorismo!
A luz falta, onde há minutos estava uma estrada há agora um novo rio, não lhe conheço o nome, mas é dos grandes, primo do Tejo, por aí.
Urge procurar informações sobre a cidade, para dar resposta a duas pessoas que se deviam encontrar hoje comigo e que vêm do outro lado de Lisboa. Peço a uma colega que me pesquise a coisa e me mande os resultados para o mail. Em cinco minutos sou inundada - para fazer padan - por links. Links das Notícias ao Minuto? Dos Bombeiros Sapadores de Lisboa? Da protecção civil? Da Câmara?
Não, todos do Facebook. Imagens e vídeos de todas as qualidades e feitios com um denominador comum: muita água a correr pelas ruas.
Com um sorriso e o pensamento que devia ter feito a pesquisa sozinha, lá entro no site dos Bombeiros e vejo a localização das quase duas dezenas de locais muito complicados com inundações e adio as reuniões para amanhã.
Conclusão, o facebook é grande!

Aquele senhor alemão

Tenho ouvido falar de certos grupos musicais que têm como característica entrarem em palco sempre de maneira diferente. Lembro-me deles a propósito da minha muito querida mãe, cujo ar é de moça, mas a idade e as doenças pesam nos actos, nos gestos e nas respostas.
Ligo-lhes todas as santas noites e, sabendo que não estão bem, também de manhã. É o caso, sábado foi passado pouco alegremente no hospital com o meu pai, já estamos habituados.
Como são surdos e ouvem televisão muito alto, quando o telefone toca, por norma, é ela que atende enquanto vai pedindo ao meu pai que baixe o som. É aqui que revela uma imaginação sem par, qual Salvador Martinha, qual César Mourão, qual Rui Unas, qual Sal.
É na linha de Sintra que vive uma senhora que atende o telefone sempre de maneira diferente e que, para pedir para baixar o som da televisão, já pediu ao meu pai, e eu a ouvir:
Baixa a torneira
Carrega no autoclismo
Põe isso mais claro
Põe a televisão menos ligada
Ontem foi particularmente cómico, quando a ouvi dizer:
Põe a televisão mais barata!
Ainda estamos numa fase em que o riso prevalece, e tentamos rir todos, ela incluída, pois dá conta dos disparates que diz.
Rezo para que esta fase se prolongue por muito, muito tempo...

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

A praga

Começo a pensar se não será uma praga que me rogaram...
Desde há uma semana que ando doente, tudo o que como vomito, já não posso ver canja nem ouvir histórias com pintaínhos.
Não sei quanto tempo duraram as pragas do Egipto, mas sinto-me solidária com aquela gente.
A uma semana com má disposição some-se canadas de água que vêm sem aviso e nos deixam com ar de bacalhaus demolhados, como diz Miguel Esteves Cardoso.
Sempre com calores - estou na menopausa desde que nasci - tomo duche de manhã ao levantar, quando chego a casa, antes de me deitar e, em algumas noites, a meio da noite. Temo pela conta da água, não sei se a conseguirei pagar.
Fiz a ruptura de ligamentos a 28 de Julho e tenho estado sempre com uma maleita qualquer. Espero que isto seja suficiente para pagar a conta das doenças nos próximos dez anos.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Óbvio, cara mãe!

O meu sobrinho mais novo, na sua voz de dois anos a caminho dos três, pergunta à mãe do que são os óculos que alguém lhe ofereceu e que ele usa, transformando a realidade um pouco mais escura.
A mãe semicerra os olhos e diz que são óculos de aventureiro!
Ele reclama e volta a perguntar de que são os óculos!
A mãe inicia um ciclo de possíveis respostas:
De plástico, de ver, de menino bonito, de príncipe, de...
Ele, já amuado e sempre a dizer não, esclarece:
- São óculos de sol!

Há modas que não passam de moda

Save the last dance for me

You can dance-every dance with the guy
Who gives you the eye,let him hold you tight
You can smile-every smile for the man
Who held your hand neath the pale moon light
But don't forget who's takin' you home
And in whose arms you're gonna be
So darlin' save the last dance for me

Oh I know that the music's fine
Like sparklin' wine, go and have your fun
Laugh and sing, but while we're apart
Don't give your heart to anyone
But don't forget who's takin' you home
And in whose arms you're gonna be
So darlin' save the last dance for me

Baby don't you know I love you so
Can't you feel it when we touch
I will never, never let you go
I love you oh so much

You can dance, go and carry on
Till the night is gone
And it's time to go
If he asks if you're all alone
Can he walk you home,you must tell him no
'Cause don't forget who's taking you home
And in whose arms you're gonna be
Save the last dance for me

Oh I know that the music's fine
Like sparklin' wine, go and have your fun
Laugh and sing, but while we're apart
Don't give your heart to anyone

And don't forget who's takin' you home
And in whose arms you're gonna be
So darling,save the last dance for me

So don't forget who's taking you home
Or in whose arms you're gonna be
So darling, Save the last dance for me

Oh baby won't you save the last dance for me
Oh baby won't you promise that you'll save,
The last dance for me
Save the last dance, the very last dance for me.

Autoria de Doc Pomus e Mort Shuman

Mikis Theodorakis

A inconfundível música de Zorba, o grego, foi escrita por este homem, que tem um currículo musical invejável.
A descobrir.

Projecto X

Detestando filmes de terror, vi um recentemente que me deixou com os cabelos em pé. São novas formas de terror que também paralisam e assustam à séria: a inexistência de limites por parte dos mais jovens.
O filme conta a história de três amigos que organizam uma festa na casa de um deles, mas com receio de não terem aderentes, massificam os convites.
Afinal aparecem os que foram convidados e outros tantos, a ausência dos pais é compensada pela presença de álcool e drogas, a casa acaba destruída e incendiada.
A facilidade com que se chega aqui é assustadora, pois qualquer miúdo de dez anos tem nas mãos os meios suficientes para reproduzir uma coisa assim.
Sugere-se vivamente a visualização do filme, para se perceber que a parvoíce não tem limites e qualquer um pode ser arrastado para dentro das suas consequências.

Bairro de lata

Num olhar mais atento percebe-se que é quarentona. 
Esbelta e muito bonita, elegante no vestir, com classe até, senta-se diante de mim, de telemóvel na mão a marcar um número.
A classe evapora-se quando começa a falar: partilha a conversa com todos os túneis do metro de Lisboa e perfura tímpanos das pessoas mais próximas. 
O conteúdo da conversa perfura mais que os tímpanos.
Fala com a filha a quem explica que não pode ir dormir a casa porque vai ser operada na manhã seguinte; fala com a mãe a quem pede que tome conta da filha, afiançando que vai correr tudo bem. Volta a falar com a filha de quem se despede como se fosse morrer. 
Depois de uma despedida longa, chorosa e ranhosa, lá desliga o telefone.
Volta a marcar um número no telefone e, de rajada, com um tom de voz mais baixo, diz que está livre até segunda-feira. Do outro lado devem ter perguntado pela filha pois ela nomeia a criança e diz que acabou de falar com ela e que a miúda só quer ficar com os avós... 
A mim só me dá vontade de lhe pregar um estalo.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Primeiro beijo

Por estar um dia mesmo bom para beijos...

Recebi o teu bilhete
Para ir ter ao jardim

A tua caixa de segredos
Queres abri-la para mim

E tu não vais fraquejar
Ninguém vai saber de nada
Juro não me vou gabar
A minha boca é sagrada

De estar mesmo atrás de ti
Ver-te da minha carteira
Sei de cor o teu cabelo
Sei o shampoo a que cheira

Já não como já não durmo
E eu caia se te minto
Haverá gente informada
Se é amor isto que eu sinto

Quero o meu primeiro beijo
Não quero ficar impune
E dizer-te cara a cara
Muito mais é o que nos une
Que aquilo que nos separa

Promete lá outro encontro
Foi tão fugaz que nem deu
Para ver como era o fogo
Que a tua boca prometeu

Pensava que a tua língua
Sabia a flor do jasmim
Sabe a chiclete de mentol
E eu gosto dela assim


Rui Veloso

Fim de Verão? Não...

Com o Verão agarrado às pernas desprezo a chuva e saio triunfante de casa, desconhecendo a greve do metro. A meio caminho volto para trás, alertada pelo noticiário, e encaminho-me para a estação dos comboios, que passam rápidos e muito mais vazios do que imaginava.
Na carruagem o calor é sufocante e o meu vestido cor-de-rosa impõe-se no meio de tanta roupa escura, invernosa. Os sapatos, cor-de-rosa também, mesmo no rés-do-chão de tudo quanto é acessório, brilham decadentemente.
É preciso fazer a avenida da Liberdade a pé, mas resolvo assustar-me com a chuva e deixo-me ficar num café do Rossio, como se fosse uma turista. As caras cinzentas de quem tenta chegar aos empregos contrastam com os narizes encarnados dos estrangeiros que, de chinelos, ali abundam.
Com o telemóvel vejo os números do euromilhões, decidida a fazer uma loucura caso tenha sido eleita: saio do café e paro o trânsito a dançar no meio da chuva! Virá a polícia, que me levará para a esquadra, e amanhã os jornais mencionarão uma louca que teve um ataque no centro de Lisboa e que ainda piorou a situação já caótica do tráfego. Verificada a total falta de correspondência, rio sozinha e decido que já chega de pieguice, vamos lá.
A chuva abrandou e faço a avenida encostada a lojas de vidros cristalinos onde nunca entrei, e não faço questão de entrar. Sinto o cabelo encaracolar, o mesmo cabelo que me levou a levantar mais cedo para o esticar com escova e secador, tão Cleópatra que saí de casa.
Qual pato de borracha a navegar na banheira, chego ao trabalho e troco os sapatos cor-de-rosa por uns pretos, rasos, fechados.
Os pés aquecem, o vestido seca, o cabelo insufla, os óculos limpam-se, o estado de espírito não foi afectado!

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Luto de Agosto

Ao telefone com um amigo conto-lhe que passei grande parte de Agosto com canadianas, sem poder andar. Ele comenta que, tendo passado uma situação semelhante – muitíssimo mais grave em termos do acidente – aproveitou para ler tudo o que podia durante o período em que esteve na cama.
Fiquei envergonhada pois não fiz o mesmo.  Casei-me com a preguiça de tal forma que passei horas a olhar para a televisão, mais a mudar de canal que a ver fosse o que fosse, e a afastar pensamentos.
A páginas tantas ocorreu-me uma palavra que fez todo o sentido para descrever o meu estado interior: luto.
Senti-me de luto, triste e desamparada, com umas férias que eram tudo menos férias, com o rasto de uma amizade que se desvaneceu, sem dinheiro e a esforçar-me para sorrir a todos os que me visitaram ou me falaram por telefone.
Com as despesas hospitalares, medicamentos e a perspectiva de um corte substancial no ordenado de Setembro, apenas fui à praia na última semana de Agosto, tendo elegido Caxias, por ser a mais próxima de casa, para onde fui do nascer ao pôr-do-sol.
Apropriadamente ou não, li Que importa a fúria do mar, de Ana Margarida de Carvalho e reli A pianista de Elfriede Jelinek, duas gotas de água no oceano.
No último dia de férias, já em período de descontos, pois era Domingo, decido ficar em casa a arrumar roupa e a fazer limpezas. O meu filho levanta-se cedo e opõe-se determinantemente a estes planos, argumentando que o último dia de férias não pode ser passado em casa; eu que me vestisse, pois iríamos juntos à praia e ele oferecia o almoço, num sítio que eu ia adorar.
Assim, conduzimos até à Ericeira onde estava um mar apiscinado, ao contrário do habitual com ondas, conversámos sobre mil assuntos e comemos uma sopa de peixe quase à hora do lanche, da qual ele engoliu três pratos e que prometi tentar reproduzir em casa.
O meu luto coloriu-se nesse dia, o melhor de todo o mês, Agosto redimiu-se. 

Que mais me irá acontecer?

Depois de umas férias azaradas, entro azamboada na primeira semana de trabalho. Tendo o ano 52 semanas, sendo quatro de férias, estou a riscar a quadragésima oitava. Ainda a propósito da maleita que me obrigou a andar de muletas, logo no primeiro dia de trabalho vou ao médico. Diz-me a simpática senhora que, tendo médico de família, tenho que o conservar e para isso há dois requisitos: ir ao médico pelo menos uma vez no ano e ter as vacinas em dia. Já mo tinham dito e já tinha espiolhado a casa e a papelada em busca do respectivo boletim, sem resultados. Assim, foi necessário levar as vacinas novamente. Uma injecçãozita de nada que eventualmente me vai deixar um altinho no braço. Siga!
A injecçãozita de nada revelou-se uma cabra: febre, um inchaço descomunal, dores insuportáveis. Numa semana cumpri a minha quota mínima de visita aos serviços médicos para uma década. Que nunca tinham visto nada assim, e que pusesse gelo, e tomasse paracetamóis e ipobrufenos e etc., que era uma reacção à vacina – olhe, obrigadinha…
A meio da semana realizou-se o jantar de aniversário do A., em homenagem não tanto aos seus 53 anos, mas mais à vitória sobre a doença que o atacou a ele e nos afligiu a todos. Arrastada, lá fui, com uma roupa que não pensei levar pois o braço não me cabia na manga, de inchado que estava. Nem lhe cantei os parabéns, com a febre a azucrinar-me cada célula e regressei a casa onde me mantive a maior parte da semana até isto acalmar, qual tornado que se intensificava dentro de mim.
Assim que levei a vacina perguntei à enfermeira se podia ir à praia, ao que ela respondeu que não havia qualquer contra-indicação. Ora, nem praia nem meia praia, ainda para mais, choveu todo o santo fim-de-semana.
O início da quadragésima sétima semana leva-me a perguntar, que mais me irá acontecer? Com o pensamento positivo que procuro sempre, penso de quanto será o prémio do euromilhões… 

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Todos os episódios de A Teoria do Big Bang depois...

... já só os vejo, não os processo. A bem da verdade vejo-os porque o meu sobrinho adora a série e quis ver tudo de fio a pavio.
Eu, qual lontra preguiçosa, olho para a televisão sem ver nada. Quero manter-me forte como uma rocha, mas sinto-me um penhasco que se desfaz com a tareia das ondas. Afasto os pensamentos que me lembram que não mereço estar aqui deitada enquanto Agosto se esvai rindo à gargalhada, mas começo a falhar.
Fui ao médico pedir alta e foi negada. Expliquei que não me posso dar ao luxo de receber metade do ordenado no fim do mês e comprometi-me a continuar deitada usando as férias, sem mencionar as loucuras que tenho feito ao sentar-me no sofá e omitindo algumas idas à casa de banho. Responderam-me que a responsabilidade é do doente mas também do médico que lhe dá baixa; se eu quisesse ir trabalhar, que fosse, se quisesse interromper o período de baixa que o médico tinha prescrito que o fizesse, mas...
Depois das despesas médicas, com um carro avariado, a perspectiva de apenas uma das peças chegar aos duzentos euros e com uma perna às costas - no pior dos sentidos - não sobra nem para meter uma moeda e fazer aparecer um sorriso.
Assim, mesmo sem ser vidente sei que as férias vão ser as melhores de sempre: é Verão, estou fechada em casa e sem um chavo. Se me conseguisse por em pé, saltava de alegria...

terça-feira, 29 de julho de 2014

Em parte certa

A bem da verdade não tenho estado em parte incerta.
Estava de férias há doze horas, tinha mergulhado um bom par de vezes na praia fluvial de Poço Corga, jantado no parque de campismo e estávamos sentados a jogar cartas e fazer brincadeiras quando, para dar um dica ao meu cunhado, a fim de que ele adivinhasse um nome, dei um salto. Assim que os pés tocaram no chão senti uma dor intensa numa perna, de tal forma que vomitei e fiquei encharcada em transpiração. Vários centros de saúde e dois hospitais depois, o diagnóstico confirma-se: ruptura nos ligamentos do gémeo.
Meia elástica, pomada e massagens, anti-inflamatório, repouso total e canadianas. Pelo menos uma semana sem por o pé no chão, talvez duas, e só depois começar a tentar, usando uns sapatos de cunha, eu, que só tenho sapatos rasos.
Foi assim que em vez de seguir para norte, regressei a casa e tenho mais que tempo para me pôr a par das novelas, portuguesas, brasileiras, mexicanas e as mais que vierem.
Já tinha andado de canadianas mas nunca com duas e impossibilitada de por um pé no chão; não é fácil e parece-me que vou cair a cada passo nas viagens que faço para a casa de banho e do quarto para a sala.
O destino, sabendo que não posso sair de casa, entendeu que era boa altura para avariar o carro.
A tristeza é pontuada por ataques de riso, tanto azar chega a ser ridículo, e ainda mais se me lembrar que a meio da noite, entre hospitais, ainda passámos numa operação stop, o meu cunhado a assoprar o balão e a explicar que tínhamos pressa.
O riso chega à gargalhada quando me lembro que, por volta das cinco da manhã, quando regressámos ao parque de campismo, o carro não pode entrar e tive que dormir sentada no banco.
Conclusão, ainda não gozei um dia de férias e já gastei o pouco que tinha entre médicos, medicamentos e mecânico. Como estou de baixa médica, o ordenado do mês que vem vai ser uma gota de água no oceano.
Anda uma pessoa à espera desta altura o ano todo e depois ganha esta lotaria.
Já imagino certas pessoas a pensarem sorridentemente tens o que mereces, mas centro-me a pensar que estou viva e, como sempre, há pessoas em situações muito piores.
Está na minha mão recuperar e vou fazer tudo para que seja à velocidade da luz: umas idas à praia aqui ao lado ninguém me tira; afinal, tenho um mês de férias para gozar.

Em parte incerta, 4


quarta-feira, 16 de julho de 2014

Frente e verso

"Só te posso escrever coisas insignificantes. Tudo o que te queria dizer já o disse. Faltas-me tu. Neste postal só posso nomear o teu nome. Todas as outras palavras que ficam por dizer não cabem aqui. São tantas. Isto é só um postal. Mais um. Nem água do mar ou a sombra de uma árvore aqui posso deixar. Para ti. Só aqui cabe o teu nome e o teu sorriso. Por isso optei por te enviar um postal e não dizer mais nada. Será só um postal para ti. E talvez ainda consiga espaço para acrescentar um beijo".

terça-feira, 15 de julho de 2014

Festa surpresa

Durante duas semanas mantivemos segredo sobre a festa de aniversário surpresa da minha sobrinha.
Os convites foram facilitados pelo facto de estarem de férias, as amigas não se encontram e o segredo manteve-se; o local, o Monte Macário, um oásis no grande oásis que é o Ribatejo, o lanche, tudo.
Chegámos ao Monte com a desculpa que íamos buscar o bolo para o dia seguinte e a minha irmã, em conversa com a proprietária, também ela cúmplice da brincadeira, nos últimos minutos, deitou tudo a perder... a gaiata ao lado dela a ouvir a conversa e ela a expôr os planos da guerra... dez minutos antes da surpresa... quando deu conta, já a garota sorria percebendo tudo.
Tirando isso, foi uma tarde de belíssima disposição com a miudagem toda dentro de água - eu incluída!
O Monte Macário é local de eleição para... tudo! Despedidas de solteiros, aniversários, dias e noites calmas, contacto com a natureza que inclui canoagem, andar a cavalo entre outras actividades, fruto de parcerias que têm com outras empresas. O melhor de tudo é poder-se partilhar - quem quiser - as refeições com os donos, cheios de histórias para contar e sempre com um sorriso amigável.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

A riqueza do Gana

Nunca pensei no Gana como um país rico, mas contra factos não há argumentos!
É um país rico, os seus milionários são todos de idade avançada e estão todos a morrer. Por sorte há um familiar deles que sabe o meu e-mail; como? Não sei e não quero saber, logo terei tempo para isso depois de agarrar a fortuna, ou melhor as fortunas, que estão à minha disposição.
A quantidade de mensagens que recebo é impressionante e atribuo o facto de me escreverem a um simples motivo: sabem que leio o correio todos os dias.
Por este andar não tarda serei rainha do Gana e assim que o for vou criar um novo hino:

Ó Gana, Ó que lindo Gana
Ó Gana lá no Mundial
A 26 desta semana
Vê o que fazes com Portugal

Vê o que fazes com Portugal
Que não sabe o que anda a fazer
Ó Gana, Ó que lindo Gana
Ó Gana, tu vais vencer?

Eu gosto muito de ver
Jogar e marcar golos
Não deve ser  difícil bater
Quem tem tantos torcicolos!

Não m'inveja de quem tem
D'ouro bolas e botas 
Tanto milhão não dá vintém
Apenas uma grande chacota

Ó Gana, Ó que lindo Gana
Ó Gana lá no Mundial
A 26 desta semana
Vê o que fazes com Portugal

terça-feira, 17 de junho de 2014

Preciso de ti

Enviei uma mensagem com a informação titular a um amigo.
Ele respondeu-me a querer saber se eu precisava de ajuda para carregar qualquer coisa. Respondi que não, carregar não, eu própria carrego o que for necessário, apenas preciso de matar saudades e a morte é coisa difícil de adiar.

Hare Krishna

Ontem ao fim do dia a avenida da Liberdade descia em mágoa e sofrimento. Ali desaguava o Parque Eduardo VII, cheio de surpresa, desapontamento, tristeza e frustação. Muitos acompanharam-me no metro, cachecóis ainda ao pescoço, caras encarnadas e verdes, narizes amarelos.
A plataforma cheia estava silenciosa e silenciosa seguiu a carruagem. A excepção eram dois homens indianos que conversavam, sobre o quê não sei, nem alegres nem tristes, aparentemente normais. As vozes e a indecifrável dinâmica línguística ouvia-se em todo o lado, como se fossem os únicos ocupantes da carruagem, eles próprios indiferentes a todos os outros.
Encontrei-lhes uma beleza inexplicável naquela indiferença, uma beleza invejável, como são todas. 

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Dia D

Faz hoje 10 anos, a meio da tarde, chovia torrencialmente em Caen.
Sei porque estava lá, com a chuva a misturar-se com as lágrimas que me escorriam pela cara, imparáveis.
Faz hoje dez anos, mesmo quando parava de chover mantinha-se um cinzento que nos acompanhou nas praias de Omaha, Utah, Gold, Sword e Juno.
Uma das viagens mais incríveis que já fiz, foi à Normandia, e ter lá passado o seis de Junho, foi uma inspiração.
No Memorial de Caen conversámos com um antigo soldado canadiano que nos disse saber que aquela era a sua última viagem à Europa, jovem com quase cem anos, até ele se admirava como ali estava. Ofereceu-me um pin com a bandeira do seu país e o momento em que os nossos dedos se tocaram, na troca do simbólico objecto, nunca desapareceu da minha memória, antes pelo contrário, adensa-se. Estava convencido que brevemente iria encontrar todos aqueles cujos nomes figuravam em placas nos cemitérios normandos, todos jovens como ele também fora, e voltaria a ser quando se reencontrassem.
A calma dele e da família que o acompanhava contrastava com a minha choradeira, que não conseguia parar, como se o meu campo de visão fosse uma tela por onde iam desfilando horrores, perpetrados por pessoas, pessoas como eu, afinal de contas, o que me desvairava pela pertença.
Hoje é um dia de comemoração que nunca passa sem que me lembre, que nunca passa sem que tenha vontade de chorar, que nunca passa sem raiva. Como foi possível?
A bem da verdade lembro-me todos os dias, pois tenho na cozinha, colada ao frigorífico, uma placa que trouxe de Omaha Beach, que indicava um caminho organizado naquele dia.
Nem a placa sonha que me indica a mim um caminho, diariamente, muito para além daquele para o qual foi criada.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Desorientação

Desenhados para navegar, para assustar, a mim encantam-me. Os barcos vikings, as lendas vikings, os vikings fascinam-me de uma maneira inexplicável. Sinto-me tatuada e enlevada por uma força mágica que me impele, que me conduz, que me desorienta.

Montmartre

Muro do Amor. Amo-te em 311 línguas. É pouco.

Água viva

Beijo

Sorrisos à solta na montanha

Ver com os olhos de Deus, como dizia a Karen von Blixen 

Camilo

terça-feira, 3 de junho de 2014

Waiting on the Shore... ou outra selfie.

Outra selfie


Irene Lisboa

Não sei que diga.
E a quem o dizer?
Não sei que pense.
Nada jamais soube.

Nem de mim, nem dos outros.
Nem do tempo, do céu e da terra, das coisas...
Seja do que for ou do que fosse.
Não sei que diga, não sei que pense.

Oiço os ralos queixosos, arrastados.
Ralos serão?
Horas da noite.
Noite começada ou adiantada, noite.
Como é bonito escrever!

Com este longo aparo, bonitas as letras e o gesto - o jeito.
Ao acaso, sem âncora, vago no tempo.
No tempo vago...
Ele vago e eu sem amparo.
Piam pássaros, trespassam o luto do espaço, este sereno luto das horas. Mortas!

E por mais não ter que relatar me cerro.
Expressão antiga, epistolar: me cerro.
Tão grato é o velho, inopinado e novo.
Me cerro!

Assim: uma das mãos no papel, dedos fincados,
solta a outra, de pena expectante.
Uma que agarra, a outra que espera...

Ó ilusão!
E tudo acabou, acaba.
Para quê a busca das coisas novas, à toa e à roda?

Silêncio.
Nem pássaros já, noite morta.
Me cerro.
Ó minha derradeira composição! Do não, do nem, do nada, da ausência e
solidão.

Da indiferença.
Quero eu que o seja! da indiferença ilimitada.
Noite vasta e contínua, caminha, caminha.
Alonga-te.
A ribeira acordou. 

Selfie


Pablo Neruda

...
Tú eras también una pequeña hoja
que temblaba en mi pecho.
El viento de la vida allí te puso.
En un principio no te vi: no supe
que ibas andando conmigo,hasta que tus raíces
horadaron mi pecho,
se unieron a los hilos de mi sangre,
hablaron por mi boca,
florecieron conmigo.
Así fue tu presencia inadvertida,
hoja o rama invisible
y se pobló de pronto
mi corazón de frutos y sonidos.
Habitaste la casa
que te esperaba oscura
y encendiste las lámparas entonces.
...

Fim-de-semana de dádiva

Deram-me um fim-de-semana.
O cansaço amainou, vencido pela boa disposição e pela amizade de quem me fez um polvo extraordinário e peixe assado para comer até morrer. Não há silêncio nesta relação, porque estamos sempre a falar as duas. O telefone não compensa e ao vivo e a cores parece que nos lembramos de tanta coisa que precisávamos de um fim-de-semana de seis meses. Isto se falássemos depressa, claro.
Serenei a ansiedade que anda sempre feita lapa às minhas costas e até tive vontade de chorar quando me vim embora.
Passámos em revista livros e filmes, receitas e memórias, histórias e famílias, projectos de passado, de presente e de futuro. Falámos de obcessões, de amores e paixões, das minhas descobertas de investigação, de como tenho alumiado recantos escondidos do meu coração e do medo que tenho de perceber o que me parece cada vez mais óbvio.

Grandes sonhos

Sonho com montanhas noites seguidas. Montanhas com neve, que dispenso, mas que pareço adorar no sonho; montanhas verdes, que escalo com o coração a rebentar; montanhas tão altas que do pico não se vê o chão. Mas sinto-me segura, sempre, porque sonho que um gigante sorridente me conduz.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Al Berto

visita-me enquanto não envelheço 
toma estas palavras cheias de medo e surpreende-me
com teu rosto de Modigliani suicidado

tenho uma varanda ampla cheia de malvas
e o marulhar das noites povoadas de peixes voadores

ver-me antes que a bruma contamine os alicerces
as pedras nacaradas deste vulcão a lava do desejo
subindo à boca sulfurosa dos espelhos

antes que desperte em mim o grito
dalguma terna Jeanne Hébuterne a paixão
derrama-se quando tua ausência se prende às veias
prontas a esvaziarem-se do rubro ouro

perco-te no sono das marítimas paisagens
estas feridas de barro e quartzo
os olhos escancarados para a infindável água

com teu sabor de açúcar queimado em redor da noite
sonhar perto do coração que não sabe como tocar-te 

Não consigo tirar isto da cabeça

Não te consigo tirar da cabeça.

Uma vez que seja

Tu que navegas ao sabor do vento 
Sem outra rota que o que se deseja 
Tu que tens por mapa o firmamento 
Vem descobrir-me uma vez que seja 
E diz-me das viagens que eu não faço 
Dos mundos cintilantes que antevejo 
E traz-me mares de mel no teu abraço 
Poeira de ouro velho no teu beijo 
De ti não espero amarras nem promessas 
É livre que te quero neste cais 
Até que um dia em mim não amanheças 
E te faças ao mar uma vez mais 
E mesmo nesta hora de perder-te 
Sabendo que a magia se desfez 
Terá valido a pena conhecer-te 
E deslumbrar-me ao menos uma vez!
Letra de Ana Vidal

E eu a pagar...

Há dias na televisão dizia uma reclusa:
Está-se bem de cana... come-se e bebe-se... é caminha, é banhinho, é tudo, aqui está-se muito bem.