segunda-feira, 23 de junho de 2014

A riqueza do Gana

Nunca pensei no Gana como um país rico, mas contra factos não há argumentos!
É um país rico, os seus milionários são todos de idade avançada e estão todos a morrer. Por sorte há um familiar deles que sabe o meu e-mail; como? Não sei e não quero saber, logo terei tempo para isso depois de agarrar a fortuna, ou melhor as fortunas, que estão à minha disposição.
A quantidade de mensagens que recebo é impressionante e atribuo o facto de me escreverem a um simples motivo: sabem que leio o correio todos os dias.
Por este andar não tarda serei rainha do Gana e assim que o for vou criar um novo hino:

Ó Gana, Ó que lindo Gana
Ó Gana lá no Mundial
A 26 desta semana
Vê o que fazes com Portugal

Vê o que fazes com Portugal
Que não sabe o que anda a fazer
Ó Gana, Ó que lindo Gana
Ó Gana, tu vais vencer?

Eu gosto muito de ver
Jogar e marcar golos
Não deve ser  difícil bater
Quem tem tantos torcicolos!

Não m'inveja de quem tem
D'ouro bolas e botas 
Tanto milhão não dá vintém
Apenas uma grande chacota

Ó Gana, Ó que lindo Gana
Ó Gana lá no Mundial
A 26 desta semana
Vê o que fazes com Portugal

terça-feira, 17 de junho de 2014

Preciso de ti

Enviei uma mensagem com a informação titular a um amigo.
Ele respondeu-me a querer saber se eu precisava de ajuda para carregar qualquer coisa. Respondi que não, carregar não, eu própria carrego o que for necessário, apenas preciso de matar saudades e a morte é coisa difícil de adiar.

Hare Krishna

Ontem ao fim do dia a avenida da Liberdade descia em mágoa e sofrimento. Ali desaguava o Parque Eduardo VII, cheio de surpresa, desapontamento, tristeza e frustação. Muitos acompanharam-me no metro, cachecóis ainda ao pescoço, caras encarnadas e verdes, narizes amarelos.
A plataforma cheia estava silenciosa e silenciosa seguiu a carruagem. A excepção eram dois homens indianos que conversavam, sobre o quê não sei, nem alegres nem tristes, aparentemente normais. As vozes e a indecifrável dinâmica línguística ouvia-se em todo o lado, como se fossem os únicos ocupantes da carruagem, eles próprios indiferentes a todos os outros.
Encontrei-lhes uma beleza inexplicável naquela indiferença, uma beleza invejável, como são todas. 

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Dia D

Faz hoje 10 anos, a meio da tarde, chovia torrencialmente em Caen.
Sei porque estava lá, com a chuva a misturar-se com as lágrimas que me escorriam pela cara, imparáveis.
Faz hoje dez anos, mesmo quando parava de chover mantinha-se um cinzento que nos acompanhou nas praias de Omaha, Utah, Gold, Sword e Juno.
Uma das viagens mais incríveis que já fiz, foi à Normandia, e ter lá passado o seis de Junho, foi uma inspiração.
No Memorial de Caen conversámos com um antigo soldado canadiano que nos disse saber que aquela era a sua última viagem à Europa, jovem com quase cem anos, até ele se admirava como ali estava. Ofereceu-me um pin com a bandeira do seu país e o momento em que os nossos dedos se tocaram, na troca do simbólico objecto, nunca desapareceu da minha memória, antes pelo contrário, adensa-se. Estava convencido que brevemente iria encontrar todos aqueles cujos nomes figuravam em placas nos cemitérios normandos, todos jovens como ele também fora, e voltaria a ser quando se reencontrassem.
A calma dele e da família que o acompanhava contrastava com a minha choradeira, que não conseguia parar, como se o meu campo de visão fosse uma tela por onde iam desfilando horrores, perpetrados por pessoas, pessoas como eu, afinal de contas, o que me desvairava pela pertença.
Hoje é um dia de comemoração que nunca passa sem que me lembre, que nunca passa sem que tenha vontade de chorar, que nunca passa sem raiva. Como foi possível?
A bem da verdade lembro-me todos os dias, pois tenho na cozinha, colada ao frigorífico, uma placa que trouxe de Omaha Beach, que indicava um caminho organizado naquele dia.
Nem a placa sonha que me indica a mim um caminho, diariamente, muito para além daquele para o qual foi criada.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Desorientação

Desenhados para navegar, para assustar, a mim encantam-me. Os barcos vikings, as lendas vikings, os vikings fascinam-me de uma maneira inexplicável. Sinto-me tatuada e enlevada por uma força mágica que me impele, que me conduz, que me desorienta.

Montmartre

Muro do Amor. Amo-te em 311 línguas. É pouco.

Água viva

Beijo

Sorrisos à solta na montanha

Ver com os olhos de Deus, como dizia a Karen von Blixen 

Camilo

terça-feira, 3 de junho de 2014

Waiting on the Shore... ou outra selfie.

Outra selfie


Irene Lisboa

Não sei que diga.
E a quem o dizer?
Não sei que pense.
Nada jamais soube.

Nem de mim, nem dos outros.
Nem do tempo, do céu e da terra, das coisas...
Seja do que for ou do que fosse.
Não sei que diga, não sei que pense.

Oiço os ralos queixosos, arrastados.
Ralos serão?
Horas da noite.
Noite começada ou adiantada, noite.
Como é bonito escrever!

Com este longo aparo, bonitas as letras e o gesto - o jeito.
Ao acaso, sem âncora, vago no tempo.
No tempo vago...
Ele vago e eu sem amparo.
Piam pássaros, trespassam o luto do espaço, este sereno luto das horas. Mortas!

E por mais não ter que relatar me cerro.
Expressão antiga, epistolar: me cerro.
Tão grato é o velho, inopinado e novo.
Me cerro!

Assim: uma das mãos no papel, dedos fincados,
solta a outra, de pena expectante.
Uma que agarra, a outra que espera...

Ó ilusão!
E tudo acabou, acaba.
Para quê a busca das coisas novas, à toa e à roda?

Silêncio.
Nem pássaros já, noite morta.
Me cerro.
Ó minha derradeira composição! Do não, do nem, do nada, da ausência e
solidão.

Da indiferença.
Quero eu que o seja! da indiferença ilimitada.
Noite vasta e contínua, caminha, caminha.
Alonga-te.
A ribeira acordou. 

Selfie


Pablo Neruda

...
Tú eras también una pequeña hoja
que temblaba en mi pecho.
El viento de la vida allí te puso.
En un principio no te vi: no supe
que ibas andando conmigo,hasta que tus raíces
horadaron mi pecho,
se unieron a los hilos de mi sangre,
hablaron por mi boca,
florecieron conmigo.
Así fue tu presencia inadvertida,
hoja o rama invisible
y se pobló de pronto
mi corazón de frutos y sonidos.
Habitaste la casa
que te esperaba oscura
y encendiste las lámparas entonces.
...

Fim-de-semana de dádiva

Deram-me um fim-de-semana.
O cansaço amainou, vencido pela boa disposição e pela amizade de quem me fez um polvo extraordinário e peixe assado para comer até morrer. Não há silêncio nesta relação, porque estamos sempre a falar as duas. O telefone não compensa e ao vivo e a cores parece que nos lembramos de tanta coisa que precisávamos de um fim-de-semana de seis meses. Isto se falássemos depressa, claro.
Serenei a ansiedade que anda sempre feita lapa às minhas costas e até tive vontade de chorar quando me vim embora.
Passámos em revista livros e filmes, receitas e memórias, histórias e famílias, projectos de passado, de presente e de futuro. Falámos de obcessões, de amores e paixões, das minhas descobertas de investigação, de como tenho alumiado recantos escondidos do meu coração e do medo que tenho de perceber o que me parece cada vez mais óbvio.

Grandes sonhos

Sonho com montanhas noites seguidas. Montanhas com neve, que dispenso, mas que pareço adorar no sonho; montanhas verdes, que escalo com o coração a rebentar; montanhas tão altas que do pico não se vê o chão. Mas sinto-me segura, sempre, porque sonho que um gigante sorridente me conduz.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Al Berto

visita-me enquanto não envelheço 
toma estas palavras cheias de medo e surpreende-me
com teu rosto de Modigliani suicidado

tenho uma varanda ampla cheia de malvas
e o marulhar das noites povoadas de peixes voadores

ver-me antes que a bruma contamine os alicerces
as pedras nacaradas deste vulcão a lava do desejo
subindo à boca sulfurosa dos espelhos

antes que desperte em mim o grito
dalguma terna Jeanne Hébuterne a paixão
derrama-se quando tua ausência se prende às veias
prontas a esvaziarem-se do rubro ouro

perco-te no sono das marítimas paisagens
estas feridas de barro e quartzo
os olhos escancarados para a infindável água

com teu sabor de açúcar queimado em redor da noite
sonhar perto do coração que não sabe como tocar-te 

Não consigo tirar isto da cabeça

Não te consigo tirar da cabeça.

Uma vez que seja

Tu que navegas ao sabor do vento 
Sem outra rota que o que se deseja 
Tu que tens por mapa o firmamento 
Vem descobrir-me uma vez que seja 
E diz-me das viagens que eu não faço 
Dos mundos cintilantes que antevejo 
E traz-me mares de mel no teu abraço 
Poeira de ouro velho no teu beijo 
De ti não espero amarras nem promessas 
É livre que te quero neste cais 
Até que um dia em mim não amanheças 
E te faças ao mar uma vez mais 
E mesmo nesta hora de perder-te 
Sabendo que a magia se desfez 
Terá valido a pena conhecer-te 
E deslumbrar-me ao menos uma vez!
Letra de Ana Vidal

E eu a pagar...

Há dias na televisão dizia uma reclusa:
Está-se bem de cana... come-se e bebe-se... é caminha, é banhinho, é tudo, aqui está-se muito bem.

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Estados de espírito e de corpo

Música na rua deixa-me carente.

No Polo Sul

Onde há uma Biblioteca nunca há frio.

Biblioteca Real da Dinamarca


A ressaca

Começo hoje a fazer uma formação que se prolongará até ao final de Junho. Sendo ao fim do dia, dois dias por semana, juntando-lhe uma ausência do próximo fim de semana, que será prolongado - Alô Tavira, tou chegando! - mais uns feriados e uns dias de férias e já me sinto a ressacar pela falta das minhas investigações académicas.
Como se fosse o vento que me envolvesse, uma ventania daquelas danadas que correm em todas as direcções, só ouço dizer Mas tu és doida! Quando não dizem doida, dizem maluca, mas são unânimes em apontarem-me um hospício para relaxar.
Sinto-me bem, plena e satisfeita. Leio como nunca li, textos vários, ensaios, teses, não livros propriamente ditos, e desta forma atraso possíveis doenças mentais, não deixando a cabeça por telenovelas alheias.
Adorava que os dias se prolongassem e que eu conseguisse dormir ainda menos. Digo que os arquivos deviam estar abertos fora de horas, de noite, como vemos nos filmes que há sempre bibliotecas abertas lá para as Américas a qualquer hora, em silêncio com candeeiros acesos por todo o lado. As pessoas que trabalham nos arquivos olham-me de lado e filiam-se em sindicatos temendo que a minha vontade seja levada à prática.
Ontem à noite organizei uma pilha de papelada para ler no comboio para o Algarve. Ao telefone com a minha amiga conto-lhe o que estou a fazer e ela repreende-me, lembrando-me que a vou visitar e que é suposto ter tempo para ela. Concedo e ponho os papéis de lado, procurando um livro para ler na viagem. Depois lembro-me da documentação do curso, em francês ainda por cima, e embora estivesse sozinha em casa, foi sorrateiramente que meti os papéis num saco, prontos para lire dans le train.

terça-feira, 27 de maio de 2014

Fúria do Açúcar

Contra tudo e contra todos que dizem já sentir saudades do Inverno - está tudo doido! - e sabendo que esgatanho a letra, aqui fica a essência, o que interessa, o que conta, o que vale. Até passo bem sem o patrocínio e pode ser uma praia do norte, mais fria, desde que seja praia e Verão.

Eu gosto é do Verão
De passearmos de prancha na mão.
Saltarmos e rirmos na praia
De nadar e apanhar um escaldão.
E ao fim do dia, bem abraçados
A ver o pôr-do-Sol
Patrocinados por uma bebida qualquer. 

A farmácia? É já ali, a 300 quilómetros

Um princípio de AVC levou-me a alta velocidade a meio da noite do meio da semana passada ao Alentejo.
O stress do meu tio levou-o a marcar o meu número por engano, querendo falar para outra sobrinha, distante duas ruas, e não para mim, distante trezentos quilómetros. Ele, com graves problemas cardíacos, e que sempre se viu tratado e apoiado pela mulher, agora via-a a ela em estado crítico. A baralhação dele resultou em diversos telefonemas para o 112, para a sobrinha próxima geograficamente e para uma das filhas, com cuidado para não alertar a outra, ausente no estrangeiro e sem necessidade de preocupar, e numa corrida debaixo de chuva em direcção ao Alentejo, quando eram horas de estarmos debaixo dos lençóis.
Detalhes à parte, no dia seguinte fomos à farmácia aviar os remédios e, qual não é o meu espanto, quando me dizem, a mim motorista, que vá a Espanha, já agora que fizesse o favor e aproveitasse para comprar mais uns medicamentos que, com o dinheiro que aqui se gasta num, lá compram-se dois.
Para além do avio na farmácia das pessoas, fomos também comprar medicamentos para os cães, esses, três vezes mais baratos que em Portugal.
Na farmácia tínhamos cinco pessoas à nossa frente, só uma era espanhola, os outros eram tugas como nós; enquanto esperávamos a minha prima foi-me indicando as prateleiras e apontando os preços dos medicamentos de venda livre, que me iam esbugalhando os olhos, tal era a diferença.
É claro que não vale a pena ir lá de propósito comprar uma caixa de aspirinas, mas vale bem a pena encomendar ou esperar para se lá ir. 

Cansaço auditivo

Se eu fosse de criar movimentos criava um das pessoas que mudam de estação de rádio por causa de anúncios estúpidos.
O bocado da manhã em que conduzo ouço, normalmente, a Rádio Comercial, sendo fã do Pedro, do Nuno e do Ricardo. Não antipatizando, de modo algum, com a Vanda nem com o Vasco, ainda assim, a sua gestão de carreiras dá-nos um banho de voz que enjoa.
Como a presença na rádio é feita com as vozes, e ambos são a voz de inúmeros anúncios, acabam por cansar. Se os anúncios forem parvos, então... mudo de estação.
Acontece agora com o anúncio da Top Atlântico, o Top dos Pop, cujas aliterações são excessivas, monótonas e chatas.
As campanhas publicitárias a que dá voz são várias, algumas em parceria com a Vanda, o que desgasta a pessoa e dilui o interesse em os ouvir noutras situações; às tantas não sabemos quem ouvimos, se é a Vanda radialista ou a senhora que comprou um fogão a lenha, se é o Vasco profissional de rádio, ou o Vasco amante de óculos de sol.
Bem sei que os euros são tentadores, e como!, mas lembrem-se das jazidas de petróleo... esgotam.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

terça-feira, 20 de maio de 2014

O português é uma língua muito traiçoeira

As empresas de publicidade esgatanham-se para inovar, mostrar uma criatividade nunca vista e ser o mais original possível. As campanhas da Bombril, de longevidade invejável, as da Sagres, iguais mas tão diferentes, são exemplos brilhantes que não esquecemos.
O novo operador de telemóveis e mais quinquilharia da qual não prescindimos deve ter contratado uma empresa da especialidade para o lançamento da marca. Porém, se o lançamento tivesse sido em Cabo Canaveral talvez tivesse mais eficácia.
Pergunto-me quanto tempo andaram às voltas para encontrar um nome. Um nome que se quer forte, sonante, único, que se distinga, que se interiorize, que nos fique na memória. Pergunto-me quem o validou... e aposto num arrependimento de proporções gigantescas.
O nome escolhido escreve-se de uma forma e lê-se de outra... e era a forma de escrita que se pretendia e não a da leitura. Nos, que se verbaliza nús, está cheio de boas intenções, até se vislumbra o abraço que se pretendia induzir, apertado, pois claro, a união, quiça a fraternidade. Mas não, não funciona assim.
Para além disso copiaram os pauzinhos da concorrência, igualitos, e pintaram-nos com as cores do arco-íris, esbatidas, em cima das quais puseram uma tigreza, cujas manchas mancham a leitura visual, criando uma nódoa. O Robocop e o cão voador até não funcionam mal, mas uma campanha destas dimensões não se pode ficar por aqui: provocar franzires de sobrancelhas pela falta de nexo. 

terça-feira, 13 de maio de 2014

Quem diria...

Volta e meia tiro uma garrafa de água de uma máquina automática instalada numa certa estação de metro. Ontem ao fim do dia, meti a moeda e nada, nem garrafa nem moeda.
Sem esperança alguma, mas não desistindo, liguei para o número inscrito num autocolante, sem nome, morada ou informação de qualquer espécie.
Sem estranheza fui atendida por um gravador, agora não podemos atender, e blá, blá, blá, deixe o seu contacto que lhe falaremos mais tarde. Deve ser, pensei eu incrédula mas, ainda assim, sem desistir, deixei nome e telefone.
Acabam de me ligar identificando-se e perguntando em que me podem ser úteis. Expliquei a situação e a senhora pede-me nome e morada para me devolverem o dinheiro. Digo-lhe que sei que gastarão muito mais que o valor da garrafa, e que a minha ida aos Correios levantar tão chorudo cheque me será igualmente incómoda, por isso, desta vez ficamos assim, e que não se esqueçam de mandar arranjar a máquina.
A senhora agradeceu, eu agradeci, será que vamos viver felizes para sempre? Isso não sei, mas sabe muito bem ver que as coisas funcionam.

Receita para abrandar, precisa-se. A sério?

De casa à estação de metro passo por oito semáforos. Eu que não gosto de jogos de computador nem de telemóvel, tenho aqui o meu jogo diário, matinal, verdadeiro.
O primeiro ainda não está verde, passa logo a  encarnado e, nesse fugaz instante, quem vira à direita como eu, ainda tem que dar passagem aos peões.
O segundo fica em frente a uma corporação de bombeiros que, volta a meia, face a qualquer urgência, fica encarnado uma eternidade, programada como medida de segurança para que as ambulâncias e demais vaituras possam sair sem problemas. Por isso, todos o passam mesmo em amarelo, nunca se sabe quando vai abrir...
O terceiro, o quarto e o quinto distam cinquenta metros uns dos outros e os carros parecem carrinhos de choque a andarem uns centímetros e a travarem uns em cima dos outros. A partir daqui passa a haver duas faixas mas os dois semáforos seguintes são controlados pelos peões, pelo que podem estar encarnados alternadamente ou em simultâneo e o desafio é passar os dois rapidamente.
O último, na reta final e já só com uma faixa novamente é o mais equilibrado de todos em termos de tempo de abertura.
Hoje, pela primeira vez, o primeiro estava verde e eu passei imediatamente, no segundo, terceiro, quarto, quinto, sexto e no sétimo aconteceu a mesma coisa. Parecia que alguém lhes mudava a cor à minha aproximação. A bem da verdade, o último também estava verde, mas abrandei um pouco, deixei cair o encarnado e fiquei ali a pensar como o início desta manhã se assemelha ao meu estado de espírito actual: verde, ininterrupto, rápido, fluído e, sem sombra de dúvida, com necessidade de abrandamento.
Os pedidos neste sentido vêm de todos os lados, temerosos que me aconteça alguma coisa.
Mas como se abranda numa fase em que tudo corre tão bem? Porque se há-de abrandar se aquilo que se devia perseguir era esta sensação de bem-estar e de plenitude?
Falta-te um namorado, ai falta, falta, dizem as vozes à minha volta. Será que falta? Seria eu mais feliz e preenchida do que me sinto agora, se tivesse alguém ao meu lado?
Só se fosse alguém com quem eu pudesse estar permanentemente a falar e a discutir estas minhas actuais... obsessões... vá lá, dou de barato que são obsessões, mas que me fazem feliz, isso fazem e muito. 

quarta-feira, 23 de abril de 2014

O cão e o corvo

Alexandre O'Neill deu-nos um Cão. É em forma de poema, mas é um Cão, o chamado melhor amigo do homem, às vezes tão amigo que se confunde com ele.
Um dos trabalhos de casa das férias do meu sobrinho mais velho é refazer o poema, com outro animal. 
Quinta-feira de Páscoa não trabalho de tarde e, à porta do Arquivo Histórico Militar onde esperamos que batam as duas da tarde para entrar, dou a minha contribuição para o poema, escolhendo o animal: o Corvo. 
O resto é dele. Rói-te O'Neill.

Corvo negro, Corvo preto
Corvo escuro como breu
Planador, andarilho
Corvo torto, Corvo morto,
Corvo de penas prateadas
Corvo veloz como o vento
De bico sempre presente
Corvo necrófago, Corvo espião
Corvo capitalista, mentiroso, aproveitador
A desfazer-se num grito
A refazer-se num piu.
Corvo ave, Corvo aqui
Corvo além e sempre Corvo.
Corvo sinal, símbolo de Lisboa
Corvo a debicar a presa
Presente em cada esquina
Corvo indiferente a cada dia.
Corvo elegante, o da Sofia.
Corvo de loiça de crá-crá apagado.
Corvo na mira da escorva
Vítima do caçador
Corvo, vigilante da noite.
Corvo nocturno, Corvo soturno
Corvo discreto, Corvo ausente, Corvo sombrio
Corvo de olhos que afectam
Corvo-feiticeiro
Sai depressa, ó Corvo, deste paradeiro.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Guardadores de papel

Pediram-me que reorganizasse os arquivos da instituição onde trabalho. Respirei fundo e entreguei-me à tarefa, mais uma no meio de tantas outras.
As posturas sobre o assunto vão do oito ao oitenta, com pessoas que percebem a importância dos arquivos e outros que estão prontos a eliminar tudo o que não foi produzido por si, passando por outros que guardam tudo, tudo, tudo.
Com os primeiros lida-se bem, com os últimos não há perigo, mas com quem assina a sua falta de profissionalismo com a indiferença sobre a documentação afecta ao seu serviço, é um problema.
Estas pessoas não têm noção do conjunto, da empresa como entidade que se prolonga no tempo, que vem do passado e que se quer projectar no futuro, não sabem o que é pertencer.
Por ser lado, os guardadores de papéis sentem-se seguros rodeados por dossiers e papelada. Como é que uma coisa tão frágil nos pode dar tanta segurança? E se os computadores falham? Perguntam-me com frequência, demonstrando uma falta de confiança nas máquinas que, em simultâneo e paradoxalmente, nos dominam e controlam.
Desde os tempos antigos, não da Grécia mas de quando eu trabalhava no arquivo em Almada, que vejo pastas identificadas com Diversos ou Vários e quando inquiro sobre o seu conteúdo a resposta é sempre a mesma: Não sei bem... Aberta a pastinha nascem papéis de todas as nações e o destino em noventa e nove por cento dos casos, é lixo, acompanhado da expressão, Não sei para que guardei isto

Que confusão!

Entro em casa e tenho um burro e uma vaca no meio da sala.
As flores que costumam estar à entrada, decoram o alto de um móvel e um par de sapatos e meio, de Verão, estão alinhados a meio da minha cama.
Há uma toalha pendurada na maçaneta da porta da cozinha e um pano da loiça descansa em cima do braço do sofá.
Num primeiro instante, nem largo a mala nem o casaco, algo no meu inconsciente me avisa que talvez o decorador ainda esteja dentro de casa. Depois lembro-me que os meus pais estiveram cá com o meu sobrinho mais novo.
O gaiato descobriu as peças do presépio e deixou-as à solta, descobriu o saco com sapatos e decidiu dar-lhes uso mesmo que o tempo ainda não convide e um telefonema de última hora avisou-os de chegada de visitas a sua casa, de modo que abalaram e deixaram tudo às três pancadas.
Ajudada por um gin ao fim da tarde, em homenagem à filha de uma amiga que conseguiu um super trabalho pago condignamente, fartei-me de rir ao telefone enquanto a minha mãe pedia desculpa pela desordem com que sairam.
Certifiquei-me que ele levara os animais da quinta em chocolate que eu lhe deixara na cozinha e acabei a noite a arrumar, mas bem disposta.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Horários de expediente

É horrível os horários de expediente serem todos iguais! A minha biblioteca, e outras, está aberta ao almoço e parte da noite, com horários adequados ao público utilizador. Porque não fazem o mesmo os serviços públicos?
Ando numa roda viva a tentar consultar arquivos que fecham duas horas no período do almoço, encerram às cinco da tarde e abrem às nove e meia, dez e, o horário mais estranho, às nove e quarenta da manhã.
Pior ainda, não tarda mudam para os horários de Verão: os raros que abrem ao sábado de manhã, encerram nesses dias, o horário de fecho ao fim do dia, antecipa-se.
Imagino que sejam todos pessoas com grande actividade familiar, muito calmas, sem stress e imenso tempo livre. Que bom para elas e que mau para mim, e não só.
Os arquivos são só para ociosos? Quem trabalha não pode concomitantemente estudar e pesquisar?
Não.

segunda-feira, 31 de março de 2014

O silêncio é de ouro

Um aluno procura-me para que o ajude a responder a uma proposta de emprego.
Explica-me que enviou o currículo, responderam positivamente e pediram-lhe mais uns detalhes. Está nervoso e ansioso e eu faço o melhor que posso que sei, como se fosse meu filho.
Faço muitas perguntas para juntos contruirmos uma frase que dê resposta ao que lhe pedem, de forma autêntica e real, mas que seja de leitura atractiva.
Ele agradece penhoradamente e eu sugiro enviar as respostas para o mail dele, para que depois as componha melhor ainda e as enderece à empresa. Quando lhe pergunto a morada electrónica ele dá-me uma mão cheia de vogais e consoantes sem talho nem maravalho.
Explico-lhe que deve arranjar outra morada, mais oficial, mais credível, uma morada que contenha, por exemplo, o seu nome e apelido, e que passará a usar para estas situações.
Quando chega a vez dele me explicar a mim que aquele é o seu apelido, engulo em seco e percebo que devia ter estado calada.
E viva a diferença!

Estado de espírito

O meu filho dormiu fora e levou o carro.
Levanto-me com o espírito de quem tem de ir a pé até ao Metro, num dia de chuva, muito cinzento. Rapidamente ultrapasso a má disposição, com a lembrança do que tenho para fazer.
Ilumina-se-me o sorriso de tal forma que percorro o caminho sem apanhar água, como se fosse um chapéu-de-chuva.
Porém, com a lembrança da temperatura da semana passada enfiei uma camisola de manga comprida que me fez suar as estopinhas; o andar à pressa e a temperatura do Metro não ajudaram, mas tive que esperar pelas nove horas, já em Lisboa, para me enfiar na loja chinesa mais próxima.
Sai de lá florida e de manga curta, tudo em desacordo com o tempo mas em acordo total com o meu estado de espírito primaveril, que ninguém me consegue tirar.

segunda-feira, 24 de março de 2014

Oh! Não!

Estou furiosa, mal disposta e irritada: acabei de ligar o ar condicionado... no quente.
Até o tempo está do contra. Já fui à praia, com banho e tudo, e agora volta a chuva e o frio.
Sexta-feira apanhei uma molha ao fim do dia e hoje não trouxe almoço o que quer dizer que vou ter que sair para comer. E apanhar com a chuva. Mesmo que não a apanhe em cima do corpo, sei que ela está lá fora, que se impõe, que existe, que tristeza.
A má disposição dissolve-se um pouco quando vou ver a caixa de correio, abandonada há muitos dias, por força do excesso de trabalho. Está lá um mimo do Dia da Mulher, mensagem linda que agradeço. Ainda assim, em dois minutos fico com vontade de bater em alguém novamente.
Desconheço as previsões do estado do tempo, mas tenho a certeza que o acompanharei tranquila ou irritada conforme faça sol ou chuva. 

quinta-feira, 20 de março de 2014

Torre do Tombo

Todos os dias corro para a Torre do Tombo em cima das seis da tarde. Os meus homens levam-me a fazer pesquisas em papéis que o tempo conserva como se tivessem sido escritos ontem.
Os dedos secam-me de tanto passar a folha e procurar aquele nome com que sonho. Ainda não o encontrei mas mantenho a certeza, mais que a esperança, que o vou encontrar.
Isto passa-se depois de um dia de trabalho intenso, e antes de ir para casa agarrar-me ao computador e continuar a pesquisar.
Ando numa fase intensa e prolifera de trabalho; ontem enviei um artigo para uma revista científica e já comecei a escrever outro. Na semana passada expliquei à médica que o tempo morto me incomoda: o metro que não vem, a máquina de café que demora cerca de vinte segundos a terminar a preparação de um copo, sem açúcar, o tempo que as pessoas demoram a atender o telefone. Não sei como, vou falando com ela e vai-me sacando informação, sobre os meus hábitos, o trabalho intenso, a inexistência de namorados, a entrega total ao trabalho que se mistura com o estudo; explico-lhe que a minha vocação é ser estudante, se eu pudesse não faria outra coisa. Ela diz que isto é uma forma de depressão e eu penso que as escolas médicas dão o diploma a qualquer um.
Tomara muita gente conseguir ver televisão, falar ao telefone e ir fazendo pesquisas na net ao mesmo tempo, como eu. Ela olha-me muito séria e eu já não conto que tenho um livro à ilharga para onde vou olhando.
Diz-me que tenho que parar, que abrandar. Explico que o único lugar onde estou sem a sensação de desperdiçar tempo, é na praia. Deito-me e fico ali, só isso. Mas isto de estiver de barriga para cima, pois a barriga para baixo obriga a um livro, uma revista, quanto mais não seja à leitura da informação que vem no frasco do protector solar.
Depois de uns minutos de conversa, à cautela, retiro cigarros ao número que lhe dou quando me pergunta quantos fumo, assim como retiro horas ao dia de trabalho. Se o que faço me deixa satisfeita e acabo o dia em cima da meia-noite, porque raio hei-de terminar antes?
Digo-lhe que fujo do senhor alemão como o diabo foge da cruz e que a única terapêutica é exercitar o cérebro. Falo-lhe da minha mãe, do meu avô, de outras pessoas que verdadeiramente me assustam. Explico-llhe que não tenho medo de nada, à excepção disto. Ela responde que para além do alemão, há outros senhores que podem tomar conta de nós se não tivermos cuidado.
Mau! Penso eu, então não devia ter um namorado?  Em que ficamos? Se começo a ter medo de todos os senhores que me podem rodear, então fico sozinha para sempre... o que não é má ideia, diga-se de passagem...
Concluo que não quero que me tirem a sensação de bem-estar que sinto, que até posso morrer amanhã, mas estarei plena de trabalho feito, bem feito, de procura, de não acomodação, de actividade, de vida. Nã... morrer, eu? Não é tão cedo. 

A culpa é minha

Os meus sobrinhos zangam-se. O mais velho diz que a culpa é da irmã, a criança do meio.
O mais novo ouve e começa a chorar. A mãe corre a intervir, Mas afinal o que se passa?
Falam todos ao mesmo tempo, ela levanta a voz para os calar e que fale um de cada vez.
Os mais velhos obedecem, o mais novo, com dois anos, continua a chorar. Ela dá-lhe atenção e pergunta porque chora. A resposta é óbvia:
- O Manel diz que a culpa é da Pi, mas eu quero a culpa...
E continua a chorar.
- Mãe, eu quero a culpa...
Os mais velhos riem enquanto ele implora à superior figura da mãe que, sendo mãe, tem o poder para dar e repartir.
- Mãe... [soluços] Eu quero a culpa...

terça-feira, 11 de março de 2014

A vida continua

A 8 de Março comemora-se o Dia Internacional da Mulher, mas eu prefiro vivê-lo como o dia da igualdade dos sexos, pois esse é o objectivo.
Trabalhava eu em Almada e todos os anos havia festa rija, almoço, espectáculo, prendas e flores para as trabalhadoras da autarquia. O dia coincidia com o aniversário da Paula, uma colega que não passava despercebida pelo físico mas, acima de tudo, pela presença de espírito. Literalmente enchia uma casa, e mais ainda com o aguçado das observações e a boa disposição, que podia mudar 180 graus e era um susto. Havia assim vários motivos de festa.
Um dia, a meio da alegria, o almoço já terminado, chamam-me ao telefone, coisa inusitada. Do lado de lá informam que o Avô Gualdino morreu.
O 8 de Março passou a ser o dia do aniversário da morte do Avô e a lembrança eterna da Paula que nos pregou a partida há uns anos e morreu também, levando com ela o mundo que ocupava, onde fazia a gentileza de nos deixar viver e partilhá-lo com ela, bem como muitos anos por viver.
Penso em tudo isto no dia anterior ao almoço com uma das mulheres mais fortes que conheço e cuja amizade vem de tempos imemoriais. Quando estou com ela celebro-a e é Dia da Mulher, da mulher mais forte e corajosa que conheço.
Entretanto vivi outras amizades que não eram tão resistentes e abandonaram-me. A este propósito, outra grande mulher com quem tenho o privilégio de conviver disse-me que o abandono de pessoas que eu adoro pode acontecer devido ao meu espírito crítico, incisivo para com as pessoas, as pessoas de quem mais gosto. Será? Sim, sim, garante ela, As pessoas não gostam da verdade, dificilmente a encaram, preferem a ilusão muitas mais vezes que as que tu imaginas! A tua racionalidade raia a frieza e isso magoa quem não está habituado, a ilusão é sempre macia e se há coisa que não fazes, é iludir.
 Disse-me também esta mulher que me deixe de chorar pelos cantos; digo-lhe que não conhece a pessoa por quem eu choro a ausência, se a conhecesse... ela termina a minha frase, Se eu a conhecesse dizia-lhe que é a maior parva do mundo, tem a tua amizade e despreza-a.
Esta amizade, que já foi mas já não é, era sempre a primeira a ligar-me neste dia da mulher sabendo que eu estava triste pelo aniversário da morte do meu Avô e pela lembrança da Paula e dizia-me A vida continua...
É isso mesmo, a vida continua, com imensa tristeza e perplexidade, mas continua.

segunda-feira, 10 de março de 2014

MNAz, para os amigos

Faço um intervalo na pesquisa virtual e vou ao Museu Nacional do Azulejo. Quero ver o século XIX e fico decepcionada com a parede, única, que ocupa.
Do 'meu' homem apenas uma trindade de trabalhos, atribuídos, ainda por cima, as certezas persigo-as eu, afanosamente.
Pergunto pelas outras peças, que são da colecção temporária, dizem, ai que pena, respondo eu.
A decepção passa depressa, ao ritmo da visita completa, maravilhosa.
Fico sempre invejosa e sensibilizada com gente que sobe montanhas, que esgravata o fundo do mar, que molda a pedra ou que pinta, no caso, azulejos.
No Museu há de tudo, desde contemporâneos até aos antigos, preciosistas, que sobrevivem aos séculos e à ganância.
Há peças que foram encontradas em obras, outras doadas, outras ainda recuperadas pela Polícia Judiciária. Todas carregam uma minúcia, um olhar do artista, uma visão excepcional, uma dádiva, generosidade do azulejador que permite que nós possamos ver o que ele viu, que assim ouvimos a História com os olhos.
Para além do Museu em si vale bem a deslocação pela envolvência, no Beato, vizinho da Madre de Deus, subindo um bocado e estamos na Feira da Ladra. Ruas justas, mostram o tempo algo esbatido, o passado meio desbotado, mas presente.
Depois de uma caminhada valente pela manhã, de um meio banho de mar - até à cintura, já não foi mau - e com este passeio pela tarde, cheguei a casa transportando um dia feliz.

sexta-feira, 7 de março de 2014

Luz de Almeida

Cumpre-me abrir com um aviso: isto não é uma apologia à revolta, ao terrorismo, nem sequer ao ser do contra. Alba, que não a de Lorca, mas que talvez pudesse ser, foi recentemente condenada por uma acção online que me fez pensar e muito.
Estou a ler, lentamente mas estou, uma edição de 1990 da Alfa, de autoria de José Brandão e que tem por título Carbonária: o exército secreto da República.
Não se percebe bem se as pessoas queriam de facto a República, mas percebe-se que queriam mudar: D. Carlos recebia um conto de réis de vencimento por dia e, juntamente com o resto da família real, arrombava o erário público em quinhentos e vinte contos anuais, muito superiores aos trezentos da família real norueguesa ou aos cento e vinte da dinamarquesa. Assim, não era de estranhar que se dissesse que por muito menos rolou no cadafalso a cabeça de Luís XVI.
A situação era de tal forma que Raul Brandão, a páginas 115 das suas Memórias, edição da Renascença Portuguesa de 1983, afirma que se ouvia dizer "Venha tudo, venha o pior, venha o diabo do inferno que nos livre disto".
O cérebro da Carbonária era Luz de Almeida, de quem já tinha ouvido falar, tal como do barbudo Buiça ou de Alfredo Costa; ora, diz o povo que quem diz a verdade não merece castigo e assim se passa comigo, que sorri ao saber da profissão de Luz de Almeida: bibliotecário.
A rede que conseguiu montar, diz-se que conhecia todos os primos carbonários, é invejável. Falo do ponto de vista profissional, é claro, nós bibliotecários somos muito da web, está bem de ver.
Que faria este homem na era das redes sociais? A sua discrição levá-lo-ia provavelmente a montar a rede, tal como fez, a usar a teia de conhecimentos e a planear o futuro, de forma a poder vislumbrar-se uma luz ao fundo do tunel. 

Em investigação

Muito trabalho e projectos de investigação à mistura fazem-me andar numa roda viva, em frente do computador mas também em arquivos: Torre do Tombo, Tribunal de Contas, Ministério das Finanças, Santa Casa, entre outros.
Tenho uma excelente professora nesta arte, que me faz sentir como se estivesse na instrução primária face aos conhecimentos dela nos arquivos e centros de documentação.
A bem da verdade, sempre frequentei estes locais mas sem o intuito da investigação; ora porque conhecia lá pessoas, ora porque ia como aia buscar ou trazer documentação. Sempre me interessei pela pesquisa já feita e nunca me vi a fazê-la.
O entusiasmo vem muito desta já experiente investigadora que, quando dou conta, ainda eu vou aqui e já ela vai para lá de além!
Um dia vou conseguir chegar-lhe aos calcanhares, até lá, agradeço-lhe muitíssimo.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Blue Jasmine

Deu-me que pensar o último filme do Woody Allen. Para além de me fazerem rir, dão-me sempre que pensar os filmes dele. Porém, desta vez, de forma diferente: como agir eticamente com uma família que tem uma ideia sobre um antepassado recente e estamos na posse de informação que afinal, ele não era assim, mas assado? Sendo que o assado, caindo na divulgação pública, deita abaixo um mito, atrevo-me a dizer?
Alguém que construiu e deu aos outros uma ideia sobre si, que a alcatroou com hábitos e comportamentos adquiridos por determinadas vias que, vai-se a ver, e não foi bem assim...
Como dizer à família? Como informar que aquela pessoa, que até já morreu, deixou-os acreditar que era um e afinal era outro? Como dizer que ele moldou, e moldou-se para o futuro, como uma pessoa diferente daquilo que era verdadeiramente?
Não sei, tenho um dilema atravessado na garganta.
Quando ao filme, se a Cate Blanchett não ganhar, será uma grande injustiça.

Os homens da minha vida

Ando numa paixão avassaladora com dois homens.
Um é arquitecto o outro dedica-se ao comércio. Ambos têm uma marca indelével na cidade de Lisboa, a qual abraçaram como local ímpar para viver.
Conheci-os por mero acaso, apresentados por conhecidos comuns e fiquei varada, primeiro com o arquitecto, depois com o comerciante.
Não me é possível eleger um, não sou capaz.
Passo dias, e noites, com cada um, à vez e frequentemente com os dois. Procuro saber tudo sobre eles e concluo que as suas vidas estão envoltas em mistério, plenas de pontos de interrogação.
Por mais que os questione, não obtenho respostas.
A maçonaria está presente na vida de ambos o que pode levar a algum secretismo nas vivências, mas eu não desisto, nem de um, nem de outro...
As minhas amigas, subtilmente, avisaram-me que ambos já morreram, que viveram, um no século passado e o outro há dois séculos atrás; e eu respondo-lhes que os vivos têm tanto interesse que apenas os mortos me fazem aproximar.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Vade retro Fangio!

Depois de inundações, cortes de luz e electrodomésticos avariados já merecia uma pausa. Fui a Vila Nova de Gaia com uns primos em romaria a outros primos.
Sendo tudo gente nada macambúzia adivinham-se muitas rugas num futuro próximo, foi um fim-de-semana de rir à gargalhada: um diz mata, os outros respondem esfola e é sempre num crescendo. Se o matar saudades sangrasse o Douro estaria encarnado e espesso.
Os primos, para além de descenderem de Carlos Magno, são artistas, pintores que esculpem materiais e, objectivo atingido, também a nossa cabeça, numa mescla onde não falta música, silenciosa mas bem presente.
A exposição das últimas obras, que só ganhou bem esse nome depois da nossa visita, foi acedida depois de uns bons quilómetros de carro conduzido, nem mais nem menos, pelo Fangio-Alonso que conseguia a proeza de passar pelos intervalos da chuva - não chovia, mas se chovesse, passaria - sem tocar em pessoas, carros ou edifícios, mas roçando-lhes a aura.
Do banco de trás as reclamações começaram subtis - não temos pressa... - foram ganhando uma consistência de contracções, os cintos de segurança, quais tubos de soro, prendiam-nos mas não nos amarravam e as três miúdas chocalhavam no banco de trás.
Os edifícios escuros das ruas estreitas do Porto corriam em direcção contrária à nossa e, imediatamente a seguir a uma reclamação sobre a impossibilidade de admirar a arquitectura, o nosso Fangio pára de repente e diz:
- Saiam!
Ninguém se mexeu e a dona do carro, que vinha nas traseiras com outra prima e comigo, deu pressa ao condutor, seu amigo de tão longa data que vem de outra vida, e artista também. A resposta repetiu-se:
- Saiam, depressa!
O meu primeiro pensamento foi de estupefacção: Estamos a ser postos na rua pelas reclamações? Não acredito nisto... Ainda assim, e porque a dona do carro já abria a porta do seu lado, achei por bem imitá-la e saímos todos, menos o motorista que não sabíamos quando voltaríamos a ver. Já eu pensava se teria dinheiro na carteira para apanhar um táxi de volta para casa quando a prima de Gaia sorria e explicava:
- Ele trouxe-nos a ver o Ângelo, que boa ideia...
Quem seria o Ângelo? Um primo? Mais um de tantos que temos e que eu desconhecia? Não... estávamos à porta da Cooperativa Árvore para vermos uma exposição, imperdível, de Ângelo de Sousa, onde não faltavam os famosos cavalos, que me lembram Altamira.
Ângelo de Sousa não dá muita vontade de rir mas nós ríamos à fartazana, como se quiséssemos esgotar as gargalhadas, ao revivermos o momento em que ele nos pusera fora do carro, sem mais explicações.
No regresso à viatura os agradecimentos multiplicavam-se, quais vénias, talvez o dobrar das cruzes o fizesse conduzir mais devagar dali para a frente. Não. Sentava-se ao volante e ficava possuído e guiados pela alma infernal lá fomos a Perafita, ver a Tia R., com quem eu passei tantas férias, ali, em todo o Minho, com especiais paragens no Gerês, tendo sido ela e o meu Tio, já falecido, que me mostraram tudo aquilo e me fizeram apaixonar para sempre por aquelas penhas, piscinas, serras, estradas e lugares. 

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Odeio o Inverno

Quando os meus avós morreram deixaram uma casa à minha mãe. Mais tarde ela quis vendê-la e eu comprei-a. Recuperada por dentro e por fora ficou um mimo num Verão que não esqueço.
Fizemos planos para um restauro total, com novas divisões no piso superior, entre outras mudanças, até que uma noite do Inverno imediatamente a seguir nos estragou os planos: as inundações lá na aldeia mataram uma pessoa, a água entrou em casa e atingiu dois metros e dez centímetros.
Deitámos tudo fora com as lágrimas a aumentar o caudal da Ribeira que passa no centro da aldeia, ao lado da nossa casa, ribeira essa que nos levou as portas da frente e das traseiras.
Impossível de esquecer, este episódio vem-me sempre à memória quando ouço falar em inundações e mais ainda quando a água me entra em casa.
Aconteceu no Domingo à noite durante o temporal que se abateu em Portugal: eu apanhava a água da cozinha e o meu filho a da sala; fiquei sem tapetes, cobertores ou panos da loiça. Móveis desviados para o centro da desmoralização, todo o tipo de roupa a ser usada para outros fins que não os apropriados, uma tristeza.
Às três e meia da manhã, depois de ter custado a pegar no sono, acorda-me um ping-ping que me fez correr na direcção do som: a cozinha estava de novo alagada, não havia janelas nem estores que sustivessem a água, nem esfregonas que a sugassem à velocidade que permitisse secar o chão.
Foi uma noite de malucos que me faz andar ainda a meio gás, ensonada. Para ajudar, ontem fiz uma mudança de uma biblioteca. Os meus braços sabem bem que uma sala cheia de troncos de madeira pesa menos que uma sala cheia de livros, e tendo respondido à chamada, hoje estão doridos da sova de caixas e pilhas de livros, do peso da sabedoria.
Seja como for, prefiro mil mudanças a um dia de chuva. A única coisa boa do Inverno é eu ter nascido durante a sua vigência, mas já lá vão quarenta e oito anos, já ninguém se lembra.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

A senhora sente-se bem?

Conta-me a minha irmã que foi às urgências médicas com dois dos meus sobrinhos. Quem tem muitos leva-os à dúzia, sai mais barato. Na sala de espera tem o mais pequeno ao colo e o mais velho sentado ao lado, escapou a garota do meio, e conversa baixinho com os dois, mimando-os, mentindo-lhes sobre o tempo de espera, está quase, vão ver que está quase...
Às tantas percebe uma frase que se repete, a senhora sente-se bem? a senhora sente-se bem?
Não vendo a quem se dirigia a pergunta, esticou o pescoço e viu uma senhora de idade avançada, sentada e apoiado em duas canadianas, literalmente a cair da cadeira. Sentou o mais pequeno com um rápido aviso ao mais velho, olha o teu irmão, e correu para a senhora, impedindo-a de cair no chão. A funcionária correu também detrás do balcão de atendimento, chamando por ajuda na direcção do interior do Centro de Saúde. Veio uma cadeira de rodas e a senhora foi levada para dentro.
Mais ninguém se mexeu, todos com a consciência tranquila e a pensarem, eu perguntei se ela se sentia bem... considerando que já tinham feito o seu trabalho.
Há duas noites saí tarde do trabalho, como de costume, diga-se de passagem, e cheguei à estação terminal do metro quase às nove horas. Não sendo hora de ponta, ainda há um número considerável de pessoas, todas a correr, a esbaterem com uma chuvada dos diabos lá fora.
No último lance de escadas está uma pessoa que não corre, nem se abriga da chuva que, com o vento, vem até ali. É uma mulher, está meia deitada meia sentada num degrau e está um homem muito idoso a lutar contra as articulações, obrigando-as a dobrarem-se para ajudar a mulher a levantar-se.
Pergunto o que aconteceu. A senhora caiu ali fora, diz o homem, e depois entrou aqui, desmaiou e rebolou pelas escadas.
Agacho-me e pergunto-lhe o que sente. Que estava bem, já tinha passado, foi uma tontura, está tudo bem, que a ajudasse a levantar que ia ao multibanco levantar dinheiro para apanhar um táxi.
Enquanto falava levantou-se e caiu-me nos braços desmaiada. Enquanto falava e desmaiava muitas pessoas passaram a um metro de nós, abrandaram e continuaram a subir. Nem uma palavra.
Estendi-a na escada, tirei o casaco, enrolei-o e coloquei-lho por baixo da cabeça, metendo a mão ao bolso para procurar o telefone.
Só nesse instante parou uma mulher, com um telefone na mão e disse, eu ligo, nem precisando de dizer para onde.
Tirei-lhe os óculos, todos partidos, e ela acordou, levantou-se ligeiramente e disse, eu estou bem, só preciso ir ao multibanco. 
Daria vontade de rir se não fosse triste. Perguntei-lhe o nome, de onde vinha, para onde ia. Chamo-me H., tenho 62 anos e fui visitar a minha irmã a Benfica. Então e como se chama a sua irmã? Chama-se M. e eu sorrio. A sério? Sabe que a minha irmã também se chama M.? Não chama nada, está a dizer isso para ser simpática... Nada disso, quer falar com ela?
Fez uma cara de estranheza como quem pensa, está bem, eu acredito, não preciso confirmar e disse, não... agarrei a deixa e respondi-lhe mas eu gostava de falar com a sua... sabe o número dela?
Sabia e falei com a irmã, ao mesmo tempo que a senhora ao meu lado me dizia que o INEM vinha a caminho, já eram dois, contando com a irmã. Continuei a conversar e fico a saber que vive sozinha, é divorciada e reformada. Penso que se houvesse um manual de instruções do governo para estas situações, provavelmente eu devia ter que proceder como todos os demais, passar, não fazer nada e esquecer, deixá-la morrer; afinal, trabalho para ela...
O INEM levou-a para dentro da ambulância e comprometi-me a esperar por aquela que tinha um nome igual ao da minha própria irmã e assim fiz. Fiquei em mangas de camisa, o casaco todo encharcado e sujo, à chuva, o vento não deixava existir lugares onde ela não chegava e também não me deixou acender um cigarro.
Da ambulância vem o bombeiro dizer-me que ela vai imediatamente para o hospital, que a irmã vai lá ter e, finalmente, vou para casa. Choro o caminho inteiro a imaginar a minha mãe ali, desmaiada a cair nas escadas e ninguém a ajudá-la. Sou tomada por uma raiva quase incontrolável e sinto que tenho que parar de conduzir. Paro mas as lágrimas continuam, brutas e muitas. Não sei bem quanto tempo passou quando volto a ligar o carro, completamente gelada e vou para casa.
Vou para casa, individualmente, mas colectivamente, para onde vamos? Em que bichos nos tornámos? E falo por mim também, cheia de vontade de bater em alguém, bater com força, convicta que só me satisfaria quando visse sangue. Quanto tempo falta para nos comermos literalmente uns aos outros? Continuamos a ser pessoas? De que género? Que cegueira nos afectou? Sim, cegueira, aquele foi um momento em que o Ensaio sobre a cegueira deixou de ser um livro e passou inteirinho para a realidade. 

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Cucurrucucú paloma

Caetano canta e o sangue arrepia-se.

Dicen que por las noches
No más se le iba en puro llorar
Dicen que no comia
No mas se le iba en puro tomar
Juran que el mismo cielo
Se extremecia al oir su llanto
Como sufria por ella
Que hasta en su muerte la fue llamando

Ay, ay, ay, ay, ay
Cantaba
Ay, ay, ay, ay, ay
Gemia
Ay, ay, ay, ay, ay
Cantaba
De pasión mortal moria
Que una paloma triste
Muy de mañana le vá a cantar
A la casita sola
Con sus puertitas de par en par
Juran que esa paloma
No és otra cosa mas que su alma
Que todavia la espera
A que regrese la desdichada
Cucurrucucú
Paloma
Cucurrucucú
No llores
Las piedras jamás
Paloma
Que van a saber
De amores

Alma de viajante

Pela forma como se me dirige por e-mail deve ser um grande amigo meu, embora não saiba quem é. Nessa qualidade sugere-me uma série de viagens a preços, pois claro, de amigo. Curiosa, vou espreitar...
Maurícias, Reunião, Zanzibar, Costa Rica, mas também uns vulgares Países Baixos ou Hungria, há de tudo, eventualmente para todos os gostos, mas não para todas as paciências.
Os preços baixos incluem estadia e deslocação e, escolhendo a Tailândia, tenho a possibilidade de lá chegar em trinta e três horas e regressar numas alucinantes cinquenta e cinco!
O local criteriosamente seleccionado para mim é adequado para quem procure calma, como eu - dizem eles e fico espantada como estranhos alegam conhecer-me! - e portanto, fique tranquila e descansada, as praias e o seu natural alarido, ficam longe de mim.
Verdade seja dita que terei a possibilidade de visitar inúmeros aeroportos, logo, conhecer imensa gente, fazer amizades, aumentar os meus amigos do Facebook e tirar fotografias em sítios inesperados.
Que mais pode pedir uma pessoa? Trotar infatigável pelo mundo, dizer olá e adeus numa corrida enquanto se entra e sai de aviões sem descanso, ir à Tailândia e não banhar os pés na praia.
Agora sou eu que lhes digo, Meus queridos amigos, façam um favor a vocês mesmos e mudem de estratégia! Já agora, pelo caminho apaguem a minha morada.

O que nós queremos... nem nós sabemos

No pequeno percurso entre casa e o metro venho a ouvir a Rádio Comercial.
A boa disposição daquela malta hoje brindou-nos com uma estatística - altamente científica! - sobre as diferentes preferências de profissão em homens e mulheres.
De acordo com o estudo, e de entre uma lista que contempla jornalistas, fotógrafas e web designers, os homens preferem as advogadas; já as meninas preferem os médicos e, algures na lista, vinham os desenhadores de móveis, ou algo parecido, o que levantou sobrancelhas de admiração.
O espanto é revelador de grande falta de coltura, de desconhecimento dos mitos de Nova Iorque e respectiva globalização, de verdadeira carência de informação.
Urge sentarem-se diante da televisão a ver todos os episódios de todas as séries de O sexo e a cidade.
Qual a profissão do belo Aidan Shaw, namorado de Carrie?  Aquela carinha laroca, o cabelo comprido e ar descontraído e despreocupado, sem horários, romântico, perfeito até ao enjoo... as mãos do homem, que nem plainas, a afagar, a mimar, a dar atenção aos detalhes, aos cantinhos... ai mãe...
Pessoal do programa da manhã da Rádio Comercial, o que as mulheres querem é um Marceneiro!

Holocausto, com H de horror

Ontem comemorou-se o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto. A 27 de Janeiro de 1945 abriram-se os portões do campo de concentração de Auschwitz, um cemitério de gente viva.
A memória - e agora que lidamos com um problema de memória selectiva por parte de um jovem na sociedade portuguesa... - tem de ser preservada, tem de nos ensinar o que não se pode repetir e estes avisos têm eles próprios de se multiplicar, nas comemorações, na literatura ou no cinema, ou em qualquer outra forma, mas reais.
Filmes como o aclamado A vida é bela são visões que amenizam a realidade, que, propositadamente ou não, suavizam o horror quando o horror não pode ser suavizado; são perspectivas que iludem como quem afirma que era possível enganá-los, era possível fugir, era possível vencer. Quem vá a Auschwitz sente o logro, o engano, a fraude de filmes como aqueles e percebe a resposta do historiador Robert Hughes quando lhe perguntaram qual a obra de arte adequada para lembrar as vítimas em Dachau, Os próprios fornos são perfeitos. Como é que a arte pode superar a eloquência daquele lugar?
Acabei de ler A bibliotecária de Auschwitz, de Antonio Iturbe, relato baseado numa história verídica, mas que coloca Auschwitz-Birkenau a alguma distância de Auschwitz-Birkenau de Primo Levi e muito longe do que nos invade quando entramos nas antigas instalações dos que eram consumidos com ziklon-b.
As descrições dos longos caracóis loiros onde enrolavam os dedos deixam-nos logo de sobreaviso, assim como os diálogos entre mães e filhas onde a etiqueta social é chamada a intervir. Embora o autor conte como conheceu a protagonista na qual a história se inspira, (quase) tudo nos parece encenado e a mim, encenações que envolvam a morte de milhões de pessoas, dão-me que pensar.
Tal como os muçulmanos têm a obrigação de ir pelo menos uma vez na vida em peregrinação a Meca, todos os cidadãos do mundo que se prezem deviam ir a Auschwitz, proclamar a religião do respeito, venerar a memória e aprender com ela.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Gosto disto...

Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso,
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos,
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.
Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho alacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que força através de tudo
num perpétuo movimento.
Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste ou capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa dos ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, paço de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão de átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.
Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que o homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.
António Gedeão, Pedra Filosofal

Dia de greve

Já não me lembro da frase que o homem do carrossel anunciava, outra volta, outra rodada, acho eu, mas sinto-me na mesma quando penso em mais um dia de greve do metro.
Uma ventania árctica faz-me pedir ao meu filho que me leve à estação de comboios para apanhar uma alternativa de transporte. Noutra altura qualquer teria ido a pé, mas hoje fazia um frio dos diabos e dei-me ao luxo de incomodar.
O comboio, dos novos com dois andares, vinha cheio mas não à pinha e, perfurando aquela massa que se deixa ficar junto à porta, consegui logo um lugar sentada. Ao meu lado seguia uma jovem de perna cruzada com um saco da Fnac que teimava em escorregar para cima de mim. Parecendo não ter reparado, tirei um auscultador, para a ouvir caso ela dissesse alguma coisa, e perguntei se podia segurar melhor no saco, como quem diz, toma lá conta das tuas coisas não mas atires para cima.
A rapariga teve azar e até tive pena dela, pois fez um ar ofendido e, enquanto perguntava se estava a incomodar assim tanto, descruzou as pernas e pregou um valente pontapé na passageira da frente que reagiu imediatamente com um agudo ai, levando a mão à perna. Neste gesto, naturalmente inclinou a cabeça e a atacante fez o mesmo em simultâneo para ver os estragos na perna alheia. Resultado, pregaram tamanha cabeçada que logo ali se gerou uma discussão, por entre risos, entre os quais o meu, inevitável, mas que me valeu um olhar penetrante e um está a rir-se do quê? a culpa é sua! Foi nesta altura que passei dos risinhos para um bom par de gargalhadas.

De castigo, já!

Todas as noites pico o ponto ao telefonar para os meus pais a saber como estão, como foi o dia, o que fizeram e não fizeram. Nos últimos dias tenho tido uma pontaria olímpica e ligo sempre quando estão a jantar. Por norma, encurta-se a conversa ou deixa-se para mais tarde. Não foi o que aconteceu na segunda-feira.
Assim que atenderam percebi que a sopa estava a ser consumida e informei que ligava mais tarde. Nada disso! Mais logo é que não que estamos a despacharmo-nos para irmos ver televisão. Televisão?
Durante anos, a senhora minha mãe caracterizou-se por detestar três coisas: bananas (consta que em pequena comeu um cacho de empreitada, razão pela qual nunca mais as pode ver à frente), iogurtes (tendo dedicado a vida às crianças e vivendo no seio de vários colégios infantis onde proliferavam os iogurtes, foi coisa que sempre lhe sempre lhe causou um certo asco) e futebol (mundo no qual conhecia o Eusébio e sabia que se jogava com uma bola).
Agora e desde há uns, poucos, anos, come iogurtes como se não houvesse amanhã, adora bananas e tem um fascínio por futebol inacreditável: vê os jogos, comenta-os, irrita-se quando o Sporting perde e venera o Cristiano Ronaldo.
Assim, naquela noite, eu tive a ousadia de ligar quando iam repetir as imagens da condecoração e, não só fui admoestada para me despachar, como fui convocada para me sentar igualmente diante da televisão, qual missa a que tinha que assistir.
Sendo minha mãe disse que sim e, a verdade, é que fazia intenção de cumprir mas, aquecido o jantar, fui sentar-me na sala e ligando a televisão estava esta sintonizada no canal História e passava uma reportagem sobre o Sudário de Turim, a Kaaba de Meca, a Pedra de Blarney Castel na Irlanda entre outros mistérios que a História vai construindo para nosso prazer e curiosidade.
Deixei-me ficar por ali, saltando de século em século, guiada por teorias variadas onde não faltavam extraterrestres, coisa maravilhosa e, escusado será dizer, nunca mais me lembrei do Cristiano.
E foi assim que no dia seguinte quando voltei a falar aos meus pais e me perguntaram se eu tinha gostado de ver a cerimónia, e depois de um quase qual cerimónia?, que conseguiu ser atalhado, eu respondi, mentindo, que sim, fora muito bonita.
Ora, como toda a gente sabe, apanha-se mais depressa um mentiroso que um coxo, e eu aguardo serenamente o meu castigo. 

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Dia de passeio

Na canção do Rui Veloso bebe-se a brisa marinha e aprecia-se a paisagem. Não pintei os lábios de vermelho nem passei meia hora ao espelho e daí, talvez, não tivesse apreciado paisagem alguma.
Comecei o dia com uma reunião na avenida de Berna e, desde a saída do metro até ao destino, foram uns bons vinte minutos: atravessar a Praça de Espanha a pé não é brinquedo.
Os semáforos descombinam para os peões, abre um e fecha o outro logo a seguir, abre este e fecha o seguinte.
O transeunte pára a cada passo, afastando-se do alcatrão o mais possível pois a água acumulada é lançada pelos rodados dos veículos, bate-nos nas pernas sem pedir licença e assim se avança, como numa dança, pára, afasta, passa, pára, afasta, passa.
Não sei se o mar estava em contestação, mas o céu estava em agonia, chovia e chovia e chovia.
Não houve inundações porque tendo eu feito o percurso a pé, sem chapéu-de-chuva, apanhei a água toda e trouxe-a comigo.

Síndroma de Kafka

A duração de uma vida é coisa muito relativa, morrem uns cedo demais, outros duram que nem sequóias, uns têm vidas longas em anos que se multiplicam a sobreviver, sem alegria ou doentes, outros têm vidas curtas porque só soubemos delas durante uns tempos.
Uma coisa é certa, por muitas vidas que se vivam nunca conhecemos as pessoas com quem lidamos durante anos, mães ou pais, maridos e mulheres, irmãos, amigos ou vizinhos fazem-nos jurar que aquela pessoa nunca terá aquela atitude ou chocarmo-nos quando sabemos que fulano matou ou roubou, no fundo que espoliou o nosso conhecimento, a nossa visão sobre essa pessoa.
Como as mudanças são fenómenos que, normalmente, ocorrem muito devagar, ocasionalmente quando damos conta, já o que era quadrado é redondo, o que era encarnado é cinzento.
Percebemos a mudança, temos essa certeza mas, terá ela ocorrido naquela pessoa ou em nós? Para tirarmos dúvidas, perguntamos a outros, principalmente a outros que estejam longe, que não nos vejam há algum tempo, àqueles que mais fácil e rapidamente dariam conta de qualquer alteração, aos que não estão contagiados pela proximidade.
A resposta é não, pareces igual, igualzinha, igualita, defendes as mesmas causas, mantens os mesmos gostos, continuas chata por não usares certas palavras e teres montes de manias, como a mania de escrever sobre a dromomania, a intensidade do teu abraço não esmoreceu, as tuas gargalhadas continuam saudáveis, a tua firmeza inabalável, a tua generosidade imbatível, a entrega aos outros, a mesma, o teu sentido crítico, ainda mais apurado.
Então, penso eu para mim, não fui eu que mudei e isso entristece-me porque se o tivesse sido, e sendo avisada, alertada, mudava novamente ou, pelo menos, fazia por isso, no mínimo, reconhecia que assim era. Tenho essa certeza porque já me aconteceu.
Quando alguém muda, e muda de tal forma que se transforma numa pessoa diferente, e mencionando nós essa mudança a pessoa recusa acreditar, recusa encarar as provas, evidentes, recusa parar para se ver a si próprio, recusa tudo, o que devemos fazer?
Dizem que nos devemos afastar das pessoas distímicas, mas eu, com um temperamento altamente hipertímico, sempre achei que tinha força para dar e vender, que conseguia ajudar espontaneamente ou quem me procurava no quotidiano, buscando um ombro, um conselho, um sorriso, porque tinha sempre uma janela para abrir, sempre uma energia para partilhar. E quando, a partir de certa altura, não aceitam? Quando nos ostracizam?
Sempre soube que havia pessoas que acreditam que o universo se move para agir contra elas, mas nunca tinha lidado com alguém assim.
Se chove é um aborrecimento, se faz calor, uma chatice, se os sapatos são velhos estão deformados, se são novos, fazem-me bolhas nos pés, de certeza que os transportes se vão atrasar, é garantido que o comer se vai queimar, o rádio só passa música que não presta para nada, toda a gente viu que eu só tinha três coisas e mesmo assim não me deram a vez na fila do supermercado, com tanto medicamento nas prateleiras da farmácia tinha que ser o meu a estar esgotado.
Confesso-me impotente para lidar com uma pessoa para quem tudo está mal e que, incapaz de se ouvir, afirma que não é assim. Quando se lhe reproduz a conversa, diz que estamos a mentir.
Confesso-me impotente para lidar com uma pessoa que não tem uma palavra, uma atitude positiva, que tudo o que faz é em esforço, por sacrifício. Quando se lhe menciona isto, diz que não é assim.
Confesso-me impotente para lidar com uma pessoa que não conheço, que tomou o lugar de outra que eu adorava, que idolatrava.
Confesso-me acima de tudo profundamente triste. Bem sei que há vidas complicadas, mas as dificuldades serão sinónimo de pormos os outros de lado? De esquecermos que existem?
A cada problema que tenho olho em redor e encontro de uma assentada vinte outras pessoas com problemas que fazem os meus parecer uma brincadeira: tenho essa consciência mas, ainda assim, estarei a ser egoísta quando me sinto rejeitada?
Ouço outras pessoas contarem como certas amizades se esfumaram, e como continuaram a viver sem elas, percebendo rapidamente que, afinal, não tinha valido a pena. Eu acho que valeu a pena, e muito.
Conheço duas pessoas cujas vidas davam filmes, ambos dramáticos, provocadores de nós na garganta, ira contra quem lhes fez tanto mal, fúria contra um destino cego que as colocou no mundo, não para viver, mas para sofrer. Dessas pessoas, apesar de dias seguidos de dias de sobrevivência pura, sempre recebi preocupações comigo, expressas em perguntas tão simples como um está tudo bem? Acredito que muitas foram as vezes em que verbalizaram a pergunta e as suas mentes estavam a mil à hora e distantes do local onde nos encontrávamos mas, sabendo que eu, ou outra pessoa, não estávamos bem, arranjavam espaço para os outros. Uma dessas pessoas é das mais sorridentes com quem já me cruzei, com uma auto-estima tão alta que nem se lhe vê o cume e não descansa enquanto a nossa unha partida não volta a crescer. É a pessoa mais corajosa que conheço.
Porque não somos todos assim? Porque não paramos para olhar em redor e descobrir o que olhamos todos os dias mas não vemos? Porque tem tudo que ser negro? Porque nos contentamos com a nossa visão? Porque nos satisfazemos com o nosso pensamento? Porque pomos de lado quem pensa de modo diferente?
Porque nos transformamos tanto? Haverá um síndroma de Kafka? Será irreversível? Pois se até Jacinto saiu do 202 e amou Tormes... tudo é possível; só espero que para ambos os lados, uma vez que a minha esperança se mantém.