segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Blue Jasmine

Deu-me que pensar o último filme do Woody Allen. Para além de me fazerem rir, dão-me sempre que pensar os filmes dele. Porém, desta vez, de forma diferente: como agir eticamente com uma família que tem uma ideia sobre um antepassado recente e estamos na posse de informação que afinal, ele não era assim, mas assado? Sendo que o assado, caindo na divulgação pública, deita abaixo um mito, atrevo-me a dizer?
Alguém que construiu e deu aos outros uma ideia sobre si, que a alcatroou com hábitos e comportamentos adquiridos por determinadas vias que, vai-se a ver, e não foi bem assim...
Como dizer à família? Como informar que aquela pessoa, que até já morreu, deixou-os acreditar que era um e afinal era outro? Como dizer que ele moldou, e moldou-se para o futuro, como uma pessoa diferente daquilo que era verdadeiramente?
Não sei, tenho um dilema atravessado na garganta.
Quando ao filme, se a Cate Blanchett não ganhar, será uma grande injustiça.

Os homens da minha vida

Ando numa paixão avassaladora com dois homens.
Um é arquitecto o outro dedica-se ao comércio. Ambos têm uma marca indelével na cidade de Lisboa, a qual abraçaram como local ímpar para viver.
Conheci-os por mero acaso, apresentados por conhecidos comuns e fiquei varada, primeiro com o arquitecto, depois com o comerciante.
Não me é possível eleger um, não sou capaz.
Passo dias, e noites, com cada um, à vez e frequentemente com os dois. Procuro saber tudo sobre eles e concluo que as suas vidas estão envoltas em mistério, plenas de pontos de interrogação.
Por mais que os questione, não obtenho respostas.
A maçonaria está presente na vida de ambos o que pode levar a algum secretismo nas vivências, mas eu não desisto, nem de um, nem de outro...
As minhas amigas, subtilmente, avisaram-me que ambos já morreram, que viveram, um no século passado e o outro há dois séculos atrás; e eu respondo-lhes que os vivos têm tanto interesse que apenas os mortos me fazem aproximar.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Vade retro Fangio!

Depois de inundações, cortes de luz e electrodomésticos avariados já merecia uma pausa. Fui a Vila Nova de Gaia com uns primos em romaria a outros primos.
Sendo tudo gente nada macambúzia adivinham-se muitas rugas num futuro próximo, foi um fim-de-semana de rir à gargalhada: um diz mata, os outros respondem esfola e é sempre num crescendo. Se o matar saudades sangrasse o Douro estaria encarnado e espesso.
Os primos, para além de descenderem de Carlos Magno, são artistas, pintores que esculpem materiais e, objectivo atingido, também a nossa cabeça, numa mescla onde não falta música, silenciosa mas bem presente.
A exposição das últimas obras, que só ganhou bem esse nome depois da nossa visita, foi acedida depois de uns bons quilómetros de carro conduzido, nem mais nem menos, pelo Fangio-Alonso que conseguia a proeza de passar pelos intervalos da chuva - não chovia, mas se chovesse, passaria - sem tocar em pessoas, carros ou edifícios, mas roçando-lhes a aura.
Do banco de trás as reclamações começaram subtis - não temos pressa... - foram ganhando uma consistência de contracções, os cintos de segurança, quais tubos de soro, prendiam-nos mas não nos amarravam e as três miúdas chocalhavam no banco de trás.
Os edifícios escuros das ruas estreitas do Porto corriam em direcção contrária à nossa e, imediatamente a seguir a uma reclamação sobre a impossibilidade de admirar a arquitectura, o nosso Fangio pára de repente e diz:
- Saiam!
Ninguém se mexeu e a dona do carro, que vinha nas traseiras com outra prima e comigo, deu pressa ao condutor, seu amigo de tão longa data que vem de outra vida, e artista também. A resposta repetiu-se:
- Saiam, depressa!
O meu primeiro pensamento foi de estupefacção: Estamos a ser postos na rua pelas reclamações? Não acredito nisto... Ainda assim, e porque a dona do carro já abria a porta do seu lado, achei por bem imitá-la e saímos todos, menos o motorista que não sabíamos quando voltaríamos a ver. Já eu pensava se teria dinheiro na carteira para apanhar um táxi de volta para casa quando a prima de Gaia sorria e explicava:
- Ele trouxe-nos a ver o Ângelo, que boa ideia...
Quem seria o Ângelo? Um primo? Mais um de tantos que temos e que eu desconhecia? Não... estávamos à porta da Cooperativa Árvore para vermos uma exposição, imperdível, de Ângelo de Sousa, onde não faltavam os famosos cavalos, que me lembram Altamira.
Ângelo de Sousa não dá muita vontade de rir mas nós ríamos à fartazana, como se quiséssemos esgotar as gargalhadas, ao revivermos o momento em que ele nos pusera fora do carro, sem mais explicações.
No regresso à viatura os agradecimentos multiplicavam-se, quais vénias, talvez o dobrar das cruzes o fizesse conduzir mais devagar dali para a frente. Não. Sentava-se ao volante e ficava possuído e guiados pela alma infernal lá fomos a Perafita, ver a Tia R., com quem eu passei tantas férias, ali, em todo o Minho, com especiais paragens no Gerês, tendo sido ela e o meu Tio, já falecido, que me mostraram tudo aquilo e me fizeram apaixonar para sempre por aquelas penhas, piscinas, serras, estradas e lugares. 

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Odeio o Inverno

Quando os meus avós morreram deixaram uma casa à minha mãe. Mais tarde ela quis vendê-la e eu comprei-a. Recuperada por dentro e por fora ficou um mimo num Verão que não esqueço.
Fizemos planos para um restauro total, com novas divisões no piso superior, entre outras mudanças, até que uma noite do Inverno imediatamente a seguir nos estragou os planos: as inundações lá na aldeia mataram uma pessoa, a água entrou em casa e atingiu dois metros e dez centímetros.
Deitámos tudo fora com as lágrimas a aumentar o caudal da Ribeira que passa no centro da aldeia, ao lado da nossa casa, ribeira essa que nos levou as portas da frente e das traseiras.
Impossível de esquecer, este episódio vem-me sempre à memória quando ouço falar em inundações e mais ainda quando a água me entra em casa.
Aconteceu no Domingo à noite durante o temporal que se abateu em Portugal: eu apanhava a água da cozinha e o meu filho a da sala; fiquei sem tapetes, cobertores ou panos da loiça. Móveis desviados para o centro da desmoralização, todo o tipo de roupa a ser usada para outros fins que não os apropriados, uma tristeza.
Às três e meia da manhã, depois de ter custado a pegar no sono, acorda-me um ping-ping que me fez correr na direcção do som: a cozinha estava de novo alagada, não havia janelas nem estores que sustivessem a água, nem esfregonas que a sugassem à velocidade que permitisse secar o chão.
Foi uma noite de malucos que me faz andar ainda a meio gás, ensonada. Para ajudar, ontem fiz uma mudança de uma biblioteca. Os meus braços sabem bem que uma sala cheia de troncos de madeira pesa menos que uma sala cheia de livros, e tendo respondido à chamada, hoje estão doridos da sova de caixas e pilhas de livros, do peso da sabedoria.
Seja como for, prefiro mil mudanças a um dia de chuva. A única coisa boa do Inverno é eu ter nascido durante a sua vigência, mas já lá vão quarenta e oito anos, já ninguém se lembra.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

A senhora sente-se bem?

Conta-me a minha irmã que foi às urgências médicas com dois dos meus sobrinhos. Quem tem muitos leva-os à dúzia, sai mais barato. Na sala de espera tem o mais pequeno ao colo e o mais velho sentado ao lado, escapou a garota do meio, e conversa baixinho com os dois, mimando-os, mentindo-lhes sobre o tempo de espera, está quase, vão ver que está quase...
Às tantas percebe uma frase que se repete, a senhora sente-se bem? a senhora sente-se bem?
Não vendo a quem se dirigia a pergunta, esticou o pescoço e viu uma senhora de idade avançada, sentada e apoiado em duas canadianas, literalmente a cair da cadeira. Sentou o mais pequeno com um rápido aviso ao mais velho, olha o teu irmão, e correu para a senhora, impedindo-a de cair no chão. A funcionária correu também detrás do balcão de atendimento, chamando por ajuda na direcção do interior do Centro de Saúde. Veio uma cadeira de rodas e a senhora foi levada para dentro.
Mais ninguém se mexeu, todos com a consciência tranquila e a pensarem, eu perguntei se ela se sentia bem... considerando que já tinham feito o seu trabalho.
Há duas noites saí tarde do trabalho, como de costume, diga-se de passagem, e cheguei à estação terminal do metro quase às nove horas. Não sendo hora de ponta, ainda há um número considerável de pessoas, todas a correr, a esbaterem com uma chuvada dos diabos lá fora.
No último lance de escadas está uma pessoa que não corre, nem se abriga da chuva que, com o vento, vem até ali. É uma mulher, está meia deitada meia sentada num degrau e está um homem muito idoso a lutar contra as articulações, obrigando-as a dobrarem-se para ajudar a mulher a levantar-se.
Pergunto o que aconteceu. A senhora caiu ali fora, diz o homem, e depois entrou aqui, desmaiou e rebolou pelas escadas.
Agacho-me e pergunto-lhe o que sente. Que estava bem, já tinha passado, foi uma tontura, está tudo bem, que a ajudasse a levantar que ia ao multibanco levantar dinheiro para apanhar um táxi.
Enquanto falava levantou-se e caiu-me nos braços desmaiada. Enquanto falava e desmaiava muitas pessoas passaram a um metro de nós, abrandaram e continuaram a subir. Nem uma palavra.
Estendi-a na escada, tirei o casaco, enrolei-o e coloquei-lho por baixo da cabeça, metendo a mão ao bolso para procurar o telefone.
Só nesse instante parou uma mulher, com um telefone na mão e disse, eu ligo, nem precisando de dizer para onde.
Tirei-lhe os óculos, todos partidos, e ela acordou, levantou-se ligeiramente e disse, eu estou bem, só preciso ir ao multibanco. 
Daria vontade de rir se não fosse triste. Perguntei-lhe o nome, de onde vinha, para onde ia. Chamo-me H., tenho 62 anos e fui visitar a minha irmã a Benfica. Então e como se chama a sua irmã? Chama-se M. e eu sorrio. A sério? Sabe que a minha irmã também se chama M.? Não chama nada, está a dizer isso para ser simpática... Nada disso, quer falar com ela?
Fez uma cara de estranheza como quem pensa, está bem, eu acredito, não preciso confirmar e disse, não... agarrei a deixa e respondi-lhe mas eu gostava de falar com a sua... sabe o número dela?
Sabia e falei com a irmã, ao mesmo tempo que a senhora ao meu lado me dizia que o INEM vinha a caminho, já eram dois, contando com a irmã. Continuei a conversar e fico a saber que vive sozinha, é divorciada e reformada. Penso que se houvesse um manual de instruções do governo para estas situações, provavelmente eu devia ter que proceder como todos os demais, passar, não fazer nada e esquecer, deixá-la morrer; afinal, trabalho para ela...
O INEM levou-a para dentro da ambulância e comprometi-me a esperar por aquela que tinha um nome igual ao da minha própria irmã e assim fiz. Fiquei em mangas de camisa, o casaco todo encharcado e sujo, à chuva, o vento não deixava existir lugares onde ela não chegava e também não me deixou acender um cigarro.
Da ambulância vem o bombeiro dizer-me que ela vai imediatamente para o hospital, que a irmã vai lá ter e, finalmente, vou para casa. Choro o caminho inteiro a imaginar a minha mãe ali, desmaiada a cair nas escadas e ninguém a ajudá-la. Sou tomada por uma raiva quase incontrolável e sinto que tenho que parar de conduzir. Paro mas as lágrimas continuam, brutas e muitas. Não sei bem quanto tempo passou quando volto a ligar o carro, completamente gelada e vou para casa.
Vou para casa, individualmente, mas colectivamente, para onde vamos? Em que bichos nos tornámos? E falo por mim também, cheia de vontade de bater em alguém, bater com força, convicta que só me satisfaria quando visse sangue. Quanto tempo falta para nos comermos literalmente uns aos outros? Continuamos a ser pessoas? De que género? Que cegueira nos afectou? Sim, cegueira, aquele foi um momento em que o Ensaio sobre a cegueira deixou de ser um livro e passou inteirinho para a realidade. 

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Cucurrucucú paloma

Caetano canta e o sangue arrepia-se.

Dicen que por las noches
No más se le iba en puro llorar
Dicen que no comia
No mas se le iba en puro tomar
Juran que el mismo cielo
Se extremecia al oir su llanto
Como sufria por ella
Que hasta en su muerte la fue llamando

Ay, ay, ay, ay, ay
Cantaba
Ay, ay, ay, ay, ay
Gemia
Ay, ay, ay, ay, ay
Cantaba
De pasión mortal moria
Que una paloma triste
Muy de mañana le vá a cantar
A la casita sola
Con sus puertitas de par en par
Juran que esa paloma
No és otra cosa mas que su alma
Que todavia la espera
A que regrese la desdichada
Cucurrucucú
Paloma
Cucurrucucú
No llores
Las piedras jamás
Paloma
Que van a saber
De amores

Alma de viajante

Pela forma como se me dirige por e-mail deve ser um grande amigo meu, embora não saiba quem é. Nessa qualidade sugere-me uma série de viagens a preços, pois claro, de amigo. Curiosa, vou espreitar...
Maurícias, Reunião, Zanzibar, Costa Rica, mas também uns vulgares Países Baixos ou Hungria, há de tudo, eventualmente para todos os gostos, mas não para todas as paciências.
Os preços baixos incluem estadia e deslocação e, escolhendo a Tailândia, tenho a possibilidade de lá chegar em trinta e três horas e regressar numas alucinantes cinquenta e cinco!
O local criteriosamente seleccionado para mim é adequado para quem procure calma, como eu - dizem eles e fico espantada como estranhos alegam conhecer-me! - e portanto, fique tranquila e descansada, as praias e o seu natural alarido, ficam longe de mim.
Verdade seja dita que terei a possibilidade de visitar inúmeros aeroportos, logo, conhecer imensa gente, fazer amizades, aumentar os meus amigos do Facebook e tirar fotografias em sítios inesperados.
Que mais pode pedir uma pessoa? Trotar infatigável pelo mundo, dizer olá e adeus numa corrida enquanto se entra e sai de aviões sem descanso, ir à Tailândia e não banhar os pés na praia.
Agora sou eu que lhes digo, Meus queridos amigos, façam um favor a vocês mesmos e mudem de estratégia! Já agora, pelo caminho apaguem a minha morada.

O que nós queremos... nem nós sabemos

No pequeno percurso entre casa e o metro venho a ouvir a Rádio Comercial.
A boa disposição daquela malta hoje brindou-nos com uma estatística - altamente científica! - sobre as diferentes preferências de profissão em homens e mulheres.
De acordo com o estudo, e de entre uma lista que contempla jornalistas, fotógrafas e web designers, os homens preferem as advogadas; já as meninas preferem os médicos e, algures na lista, vinham os desenhadores de móveis, ou algo parecido, o que levantou sobrancelhas de admiração.
O espanto é revelador de grande falta de coltura, de desconhecimento dos mitos de Nova Iorque e respectiva globalização, de verdadeira carência de informação.
Urge sentarem-se diante da televisão a ver todos os episódios de todas as séries de O sexo e a cidade.
Qual a profissão do belo Aidan Shaw, namorado de Carrie?  Aquela carinha laroca, o cabelo comprido e ar descontraído e despreocupado, sem horários, romântico, perfeito até ao enjoo... as mãos do homem, que nem plainas, a afagar, a mimar, a dar atenção aos detalhes, aos cantinhos... ai mãe...
Pessoal do programa da manhã da Rádio Comercial, o que as mulheres querem é um Marceneiro!

Holocausto, com H de horror

Ontem comemorou-se o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto. A 27 de Janeiro de 1945 abriram-se os portões do campo de concentração de Auschwitz, um cemitério de gente viva.
A memória - e agora que lidamos com um problema de memória selectiva por parte de um jovem na sociedade portuguesa... - tem de ser preservada, tem de nos ensinar o que não se pode repetir e estes avisos têm eles próprios de se multiplicar, nas comemorações, na literatura ou no cinema, ou em qualquer outra forma, mas reais.
Filmes como o aclamado A vida é bela são visões que amenizam a realidade, que, propositadamente ou não, suavizam o horror quando o horror não pode ser suavizado; são perspectivas que iludem como quem afirma que era possível enganá-los, era possível fugir, era possível vencer. Quem vá a Auschwitz sente o logro, o engano, a fraude de filmes como aqueles e percebe a resposta do historiador Robert Hughes quando lhe perguntaram qual a obra de arte adequada para lembrar as vítimas em Dachau, Os próprios fornos são perfeitos. Como é que a arte pode superar a eloquência daquele lugar?
Acabei de ler A bibliotecária de Auschwitz, de Antonio Iturbe, relato baseado numa história verídica, mas que coloca Auschwitz-Birkenau a alguma distância de Auschwitz-Birkenau de Primo Levi e muito longe do que nos invade quando entramos nas antigas instalações dos que eram consumidos com ziklon-b.
As descrições dos longos caracóis loiros onde enrolavam os dedos deixam-nos logo de sobreaviso, assim como os diálogos entre mães e filhas onde a etiqueta social é chamada a intervir. Embora o autor conte como conheceu a protagonista na qual a história se inspira, (quase) tudo nos parece encenado e a mim, encenações que envolvam a morte de milhões de pessoas, dão-me que pensar.
Tal como os muçulmanos têm a obrigação de ir pelo menos uma vez na vida em peregrinação a Meca, todos os cidadãos do mundo que se prezem deviam ir a Auschwitz, proclamar a religião do respeito, venerar a memória e aprender com ela.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Gosto disto...

Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso,
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos,
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.
Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho alacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que força através de tudo
num perpétuo movimento.
Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste ou capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa dos ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, paço de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão de átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.
Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que o homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.
António Gedeão, Pedra Filosofal

Dia de greve

Já não me lembro da frase que o homem do carrossel anunciava, outra volta, outra rodada, acho eu, mas sinto-me na mesma quando penso em mais um dia de greve do metro.
Uma ventania árctica faz-me pedir ao meu filho que me leve à estação de comboios para apanhar uma alternativa de transporte. Noutra altura qualquer teria ido a pé, mas hoje fazia um frio dos diabos e dei-me ao luxo de incomodar.
O comboio, dos novos com dois andares, vinha cheio mas não à pinha e, perfurando aquela massa que se deixa ficar junto à porta, consegui logo um lugar sentada. Ao meu lado seguia uma jovem de perna cruzada com um saco da Fnac que teimava em escorregar para cima de mim. Parecendo não ter reparado, tirei um auscultador, para a ouvir caso ela dissesse alguma coisa, e perguntei se podia segurar melhor no saco, como quem diz, toma lá conta das tuas coisas não mas atires para cima.
A rapariga teve azar e até tive pena dela, pois fez um ar ofendido e, enquanto perguntava se estava a incomodar assim tanto, descruzou as pernas e pregou um valente pontapé na passageira da frente que reagiu imediatamente com um agudo ai, levando a mão à perna. Neste gesto, naturalmente inclinou a cabeça e a atacante fez o mesmo em simultâneo para ver os estragos na perna alheia. Resultado, pregaram tamanha cabeçada que logo ali se gerou uma discussão, por entre risos, entre os quais o meu, inevitável, mas que me valeu um olhar penetrante e um está a rir-se do quê? a culpa é sua! Foi nesta altura que passei dos risinhos para um bom par de gargalhadas.

De castigo, já!

Todas as noites pico o ponto ao telefonar para os meus pais a saber como estão, como foi o dia, o que fizeram e não fizeram. Nos últimos dias tenho tido uma pontaria olímpica e ligo sempre quando estão a jantar. Por norma, encurta-se a conversa ou deixa-se para mais tarde. Não foi o que aconteceu na segunda-feira.
Assim que atenderam percebi que a sopa estava a ser consumida e informei que ligava mais tarde. Nada disso! Mais logo é que não que estamos a despacharmo-nos para irmos ver televisão. Televisão?
Durante anos, a senhora minha mãe caracterizou-se por detestar três coisas: bananas (consta que em pequena comeu um cacho de empreitada, razão pela qual nunca mais as pode ver à frente), iogurtes (tendo dedicado a vida às crianças e vivendo no seio de vários colégios infantis onde proliferavam os iogurtes, foi coisa que sempre lhe sempre lhe causou um certo asco) e futebol (mundo no qual conhecia o Eusébio e sabia que se jogava com uma bola).
Agora e desde há uns, poucos, anos, come iogurtes como se não houvesse amanhã, adora bananas e tem um fascínio por futebol inacreditável: vê os jogos, comenta-os, irrita-se quando o Sporting perde e venera o Cristiano Ronaldo.
Assim, naquela noite, eu tive a ousadia de ligar quando iam repetir as imagens da condecoração e, não só fui admoestada para me despachar, como fui convocada para me sentar igualmente diante da televisão, qual missa a que tinha que assistir.
Sendo minha mãe disse que sim e, a verdade, é que fazia intenção de cumprir mas, aquecido o jantar, fui sentar-me na sala e ligando a televisão estava esta sintonizada no canal História e passava uma reportagem sobre o Sudário de Turim, a Kaaba de Meca, a Pedra de Blarney Castel na Irlanda entre outros mistérios que a História vai construindo para nosso prazer e curiosidade.
Deixei-me ficar por ali, saltando de século em século, guiada por teorias variadas onde não faltavam extraterrestres, coisa maravilhosa e, escusado será dizer, nunca mais me lembrei do Cristiano.
E foi assim que no dia seguinte quando voltei a falar aos meus pais e me perguntaram se eu tinha gostado de ver a cerimónia, e depois de um quase qual cerimónia?, que conseguiu ser atalhado, eu respondi, mentindo, que sim, fora muito bonita.
Ora, como toda a gente sabe, apanha-se mais depressa um mentiroso que um coxo, e eu aguardo serenamente o meu castigo. 

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Dia de passeio

Na canção do Rui Veloso bebe-se a brisa marinha e aprecia-se a paisagem. Não pintei os lábios de vermelho nem passei meia hora ao espelho e daí, talvez, não tivesse apreciado paisagem alguma.
Comecei o dia com uma reunião na avenida de Berna e, desde a saída do metro até ao destino, foram uns bons vinte minutos: atravessar a Praça de Espanha a pé não é brinquedo.
Os semáforos descombinam para os peões, abre um e fecha o outro logo a seguir, abre este e fecha o seguinte.
O transeunte pára a cada passo, afastando-se do alcatrão o mais possível pois a água acumulada é lançada pelos rodados dos veículos, bate-nos nas pernas sem pedir licença e assim se avança, como numa dança, pára, afasta, passa, pára, afasta, passa.
Não sei se o mar estava em contestação, mas o céu estava em agonia, chovia e chovia e chovia.
Não houve inundações porque tendo eu feito o percurso a pé, sem chapéu-de-chuva, apanhei a água toda e trouxe-a comigo.

Síndroma de Kafka

A duração de uma vida é coisa muito relativa, morrem uns cedo demais, outros duram que nem sequóias, uns têm vidas longas em anos que se multiplicam a sobreviver, sem alegria ou doentes, outros têm vidas curtas porque só soubemos delas durante uns tempos.
Uma coisa é certa, por muitas vidas que se vivam nunca conhecemos as pessoas com quem lidamos durante anos, mães ou pais, maridos e mulheres, irmãos, amigos ou vizinhos fazem-nos jurar que aquela pessoa nunca terá aquela atitude ou chocarmo-nos quando sabemos que fulano matou ou roubou, no fundo que espoliou o nosso conhecimento, a nossa visão sobre essa pessoa.
Como as mudanças são fenómenos que, normalmente, ocorrem muito devagar, ocasionalmente quando damos conta, já o que era quadrado é redondo, o que era encarnado é cinzento.
Percebemos a mudança, temos essa certeza mas, terá ela ocorrido naquela pessoa ou em nós? Para tirarmos dúvidas, perguntamos a outros, principalmente a outros que estejam longe, que não nos vejam há algum tempo, àqueles que mais fácil e rapidamente dariam conta de qualquer alteração, aos que não estão contagiados pela proximidade.
A resposta é não, pareces igual, igualzinha, igualita, defendes as mesmas causas, mantens os mesmos gostos, continuas chata por não usares certas palavras e teres montes de manias, como a mania de escrever sobre a dromomania, a intensidade do teu abraço não esmoreceu, as tuas gargalhadas continuam saudáveis, a tua firmeza inabalável, a tua generosidade imbatível, a entrega aos outros, a mesma, o teu sentido crítico, ainda mais apurado.
Então, penso eu para mim, não fui eu que mudei e isso entristece-me porque se o tivesse sido, e sendo avisada, alertada, mudava novamente ou, pelo menos, fazia por isso, no mínimo, reconhecia que assim era. Tenho essa certeza porque já me aconteceu.
Quando alguém muda, e muda de tal forma que se transforma numa pessoa diferente, e mencionando nós essa mudança a pessoa recusa acreditar, recusa encarar as provas, evidentes, recusa parar para se ver a si próprio, recusa tudo, o que devemos fazer?
Dizem que nos devemos afastar das pessoas distímicas, mas eu, com um temperamento altamente hipertímico, sempre achei que tinha força para dar e vender, que conseguia ajudar espontaneamente ou quem me procurava no quotidiano, buscando um ombro, um conselho, um sorriso, porque tinha sempre uma janela para abrir, sempre uma energia para partilhar. E quando, a partir de certa altura, não aceitam? Quando nos ostracizam?
Sempre soube que havia pessoas que acreditam que o universo se move para agir contra elas, mas nunca tinha lidado com alguém assim.
Se chove é um aborrecimento, se faz calor, uma chatice, se os sapatos são velhos estão deformados, se são novos, fazem-me bolhas nos pés, de certeza que os transportes se vão atrasar, é garantido que o comer se vai queimar, o rádio só passa música que não presta para nada, toda a gente viu que eu só tinha três coisas e mesmo assim não me deram a vez na fila do supermercado, com tanto medicamento nas prateleiras da farmácia tinha que ser o meu a estar esgotado.
Confesso-me impotente para lidar com uma pessoa para quem tudo está mal e que, incapaz de se ouvir, afirma que não é assim. Quando se lhe reproduz a conversa, diz que estamos a mentir.
Confesso-me impotente para lidar com uma pessoa que não tem uma palavra, uma atitude positiva, que tudo o que faz é em esforço, por sacrifício. Quando se lhe menciona isto, diz que não é assim.
Confesso-me impotente para lidar com uma pessoa que não conheço, que tomou o lugar de outra que eu adorava, que idolatrava.
Confesso-me acima de tudo profundamente triste. Bem sei que há vidas complicadas, mas as dificuldades serão sinónimo de pormos os outros de lado? De esquecermos que existem?
A cada problema que tenho olho em redor e encontro de uma assentada vinte outras pessoas com problemas que fazem os meus parecer uma brincadeira: tenho essa consciência mas, ainda assim, estarei a ser egoísta quando me sinto rejeitada?
Ouço outras pessoas contarem como certas amizades se esfumaram, e como continuaram a viver sem elas, percebendo rapidamente que, afinal, não tinha valido a pena. Eu acho que valeu a pena, e muito.
Conheço duas pessoas cujas vidas davam filmes, ambos dramáticos, provocadores de nós na garganta, ira contra quem lhes fez tanto mal, fúria contra um destino cego que as colocou no mundo, não para viver, mas para sofrer. Dessas pessoas, apesar de dias seguidos de dias de sobrevivência pura, sempre recebi preocupações comigo, expressas em perguntas tão simples como um está tudo bem? Acredito que muitas foram as vezes em que verbalizaram a pergunta e as suas mentes estavam a mil à hora e distantes do local onde nos encontrávamos mas, sabendo que eu, ou outra pessoa, não estávamos bem, arranjavam espaço para os outros. Uma dessas pessoas é das mais sorridentes com quem já me cruzei, com uma auto-estima tão alta que nem se lhe vê o cume e não descansa enquanto a nossa unha partida não volta a crescer. É a pessoa mais corajosa que conheço.
Porque não somos todos assim? Porque não paramos para olhar em redor e descobrir o que olhamos todos os dias mas não vemos? Porque tem tudo que ser negro? Porque nos contentamos com a nossa visão? Porque nos satisfazemos com o nosso pensamento? Porque pomos de lado quem pensa de modo diferente?
Porque nos transformamos tanto? Haverá um síndroma de Kafka? Será irreversível? Pois se até Jacinto saiu do 202 e amou Tormes... tudo é possível; só espero que para ambos os lados, uma vez que a minha esperança se mantém. 

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Supercalifragilisticexpialidocious

Hoje vim no metro ao lado da Mary Poppins.
Entrou já de livro na mão, mão essa que também segurava uma caneta, enquanto a outra trazia a asa da mala, um chapéu-de-chuva e uns óculos.
Sentou-se a meu lado e começou a organizar-se, tendo pousado os óculos no nariz, corrente meia a balançar, meia deitada sobre o peito, mala no colo, chapéu-de-chuva encostado às pernas e livro de soduku em cima da mala.
A cada tremelique do metro, caia o chapéu, que ela se apressava a apanhar por meio de desculpas; a cada nova paragem e entrada de mais pessoas, caia o chapéu, que ela se apressava a apanhar, já entre desculpas e franzidos de sobrancelhas, como se alguém tivesse culpa dos bíblicos carregos que levava.
Quando o telefone tocou lá nos confins da mala, ela usou uma mão para segurar o livro, a caneta, os óculos e o chapéu, enquanto a outra esquadrinhava os quarteirões de carteiras, papéis, pacotes de lenços, maços de cigarros e eteceteras, cotovelos em riste, sem dar atenção a nada que a rodeava, até que o telefone deu à costa e, em simultâneo, o chapéu voltou a cair, e por cair entenda-se encostar-se a outras pessoas, pois não caia realmente no chão, não havia espaço para isso.
Foi atendida a chamada sem que se deixasse de preencher os quadrados do soduku, e o raio do chapéu, teimosamente continuava a roçar-se pelas pernas dos outros passageiros, e eu só pensava que a partida da família real para o Brasil no longínquo Novembro de 1807 não dera tanto trabalho nem incomodara tanta gente.

Quem não tem cão caça com gato

A capacidade de adaptação das pessoas é grande, não há dúvida. Embora afirmemos a sete pés que nós nunca isto ou sempre aquilo, confrontados com determinadas realidades mudamos os hábitos e os nunca e os sempre relativizam-se.
Até há uns tempos, filmes era na sala de cinema e alguns indiscutivelmente no dia da estreia; agora, tudo mudou. Primeira via-os na televisão ao gosto de quem escolhe a programação e agora o meu filho tratou de me dirigir a um antro de perdição na internet onde há de tudo para todos os gostos, inclusivamente as estreias, com uma semana ou menos de atraso.
Resultado, ando mais agarrada ao sofá que nunca, ajudada pelo zumbido nos ouvidos ao qual qualquer barulho é benéfico, porque o diminui. É rara a noite em que não vejo um filme, ou revejo.
Estava eu a dormitar com um dos últimos quando entrou o Duarte e, atirando-se para cima do sofá, perguntou se eu tinha parado o filme.
Não, meu filho, isto é uma obra do Manoel de Oliveira feita em Hollywood e quase só com africanos.
12 anos escravo é uma seca, com momentos tão parados como os ramos de uma oliveira em Agosto no Alentejo. Não encontrei profundidade de interpretação, nem a densidade que uma história daquelas merece, ou melhor, exige.
Os campos de algodão que dão sempre perspectivas fotográficas de cortar a respiração estão lá, mas sem exuberância visual, exuberância essa que faz falta pois acentua o dramatismo da escravatura negra.
Embora não se visse, sabemos que há uma câmara ali, em todo o filme, como se estivéssemos num documentário, e era suposto que nem nos lembrássemos dela. A forma como está realizado, o que se pediu aos actores e deles se aceitou foi pouco, muito pouco. Nada convence, parece um daqueles documentários policiais onde se reconstrói uma cena qualquer.
Ficou-me um amargo nos olhos, tanto mais que a segunda guerra mundial e a escravatura são dois temas que me atraem sempre e sobre os quais não gosto de ver abordagens superficiais. 

O jantar

As duas amigas sabiam que naquela noite a mãe de uma delas receberia visitas. Não era isso que as impedia de brincar, não obstante a anfitriã ter saído e deixado as duas a tomar conta do caldo de bacalhau com queijo fresco. Só tinham que esperar que levantasse fervura e, espetando uma batata e vendo que estava cozida, apagar o fogão ou deitar mais água se fosse caso disso. A mãe bem abriu os olhos e elevou a voz relembrando a missão, mas não foi por isso que qualquer delas memorizou melhor.
A visita era especial. Uma emigrante da aldeia tinha vindo de passeio com uma gravidez bem evidente; ao ouvir a vizinha dizer o que era o jantar, assomaram-se-lhe os desejos e logo ali se combinou tudo, nem havia dúvidas, não se falava mais do assunto.
Os doze ou treze anos das duas miúdas se, por um lado, eram idade mais que suficiente para tomar conta de uma casa naqueles anos cinquenta do século passado, por outro, eram algo preocupantes, principalmente se estivessem juntas.
Na bacia de metal com uma gota de água, colocada providencialmente à entrada das traseiras da casa para que se lavassem as mãos antes de entrar, como era hábito na aldeia, banhava uma falha de sabão, que era quanto bastava também para as ajudar a fazer balões e esquecer qualquer compromisso.
O brilho e a leveza das bolas de sabão não deixaram espaço para mais nada e só se voltaram a lembrar da panela quando ouviram a voz da dona da casa, que regressava. Correram ao fogão onde os espinafres e o bacalhau já se agarravam ao fundo.
Depressa, depressa, antes que ela chegue, água, é preciso água, água, água... e os olhos de ambas pousaram em simultâneo na bacia. Nem foi preciso dizer nada, uma afastou a cortina de tiras que impedia as moscas de entrar e a outra agarrou a bacia e atirou a água para dentro da panela, dando-lhe uma mexidela de meio segundo, tampa em cima, a tempo de porem uma cara tranquila e cumprimentarem a dona da casa que entrava com um bolo que encomendara na loja do senhor Chico.
Que sim, que estava tudo bem, então que fossem pôr a mesa e depressa, eles deviam estar a chegar.
A senhora ainda achou que os ovos e o queijo fresco provocavam uma espuma maior que o costume, mas não reagiu até que, servindo o tão ansiado caldo de bacalhau, a convidada cospe enojada a falha de sabão.
A cozinheira levantou-se estupefacta mas em três segundos percebeu tudo o que lhe era dito pelos olhos baixos da filha e a da amiga, caladas ambas como se estivessem na missa e a tentarem ser invisíveis.
A grávida, de boca lavada, evitou que a sessão de gritos fosse maior mas não conseguiu aparar o par de estaladas em cada uma, que na altura não se chamavam pais nem mães para se pregar uns açoites em garotos que comprovadamente tivessem feitos disparates.
A filha foi mandada para o quarto de castigo e a amiga foi levada a casa por uma orelha, onde o pai e a mãe estavam sempre à espera de qualquer coisa do género, conhecendo-lhe a energia e sabendo que era inventiva mas desastrada, bonita mas com muito excesso de peso, namoradeira mas fiel, já altura, ao filho do cabo da guarda.
Era assim a senhora minha mãe.

domingo, 19 de janeiro de 2014

Quem corre por gosto não cansa

É domingo e parei agora de trabalhar.
Levantei-me cedo, como gosto, e as oito e meia da manhã já me apanharam sentada à secretária, computador ligado, documentos abertos, para que, no caso, corrigisse umas provas tipográficas.
Recorrentemente lembro a minha letra insegura que escrevia no diário adolescente afirmando que era impossível alguém trabalhar mais do que eu tinha trabalhado, a estudar. Rio-me sempre, mas não deixo de pensar na verdade daquelas palavras, na altura, tão distante, hoje.
Ninguém me obriga a estar aqui, a vir, mas não sou capaz de não o fazer: tenho imenso trabalho, não atrasado, é só muito.
Há pessoas que dizem que não devia trabalhar assim tanto, e não devia, por motivos de saúde, sei que não descanso o suficiente, mas também me apontam por habituar mal a hierarquia, por estar sempre disponível, por não saber dizer não.
A bem da verdade, não sei dizer não lá muito bem, é certo, mas também é verdade, de hoje, de ontem e, provavelmente, de amanhã, que gosto de trabalhar.
Gosto, ou não tenho vida social? Gosto, ou não tenho um companheiro para me entreter? Gosto, ou o meu filho já tem vida própria e eu fico sem saber o que fazer? A resposta a tudo é sim, também, o que não invalida de gostar do que faço, principalmente agora, com um projecto novo entre mãos, que me delicia. A prová-lo está o facto de ter sido sempre voluntariosa e empenhada, mesmo quando era casada e o meu filho pequeno.
Claro que me sinto penalizada com o ordenado que recebo, que gostava que fosse bem maior, claro que sim, mas esse aspecto nunca me fez ficar em casa aos fins-de-semana quando tinha coisas urgentes para fazer, nunca me fez adiar fosse o que fosse, nunca me segurou.
Trabalho por brio, antes de ser por prazer ou por obrigação e sou condenada e apontada por isso. Honestamente penso que dou muito à empresa que me paga o vencimento ao fim do mês, mas reconheço que ela também faz por mim; da mesma forma sei que fui eu a dar o primeiro passo e vejo à minha volta muitas queixas, umas com razão e outras nem por isso.
Quando trabalhava na Câmara Municipal os meus colegas diziam-me, meios a sério, meios a brincar, que não podia ficar fora de horas pois a inspecção do trabalho podia aparecer de repente. Por entre os sorrisos da jocosidade ficava a mensagem, que eu não servisse de modelo para que alguém os obrigasse a trabalhar mais, horas de entrada e saída são coisas sérias e merecem respeito.
Hoje, as pessoas que olham primeiro para o relógio e depois para o trabalho que têm em mãos são as que se mostram incapazes de dar o tal primeiro passo. Desfiam o que a empresa não fez por elas e arremessam esses argumentos para não fazer mais que a sua obrigação. Mais uma vez, há quem lhe sobre razões para o fazer e quem não as tenha. Há pessoas que se esforçaram e empenharam durante anos e não conseguiram ver essas atitudes minimamente recompensadas, o que é injusto, sei do que falo pois trabalho com alguém assim. Percebo-as, e se em simultâneo o estado do país não permite que nos agarremos a certas coisas, por outro lado os baixos ordenados não deixam margens para grandes compreensões. Gostava imenso de ter uma solução, mas não tenho.
Ainda assim, penso que os que mantêm um emprego, um trabalho, deviam dar graças por isso e sentirem-se valorizados. Acredito nisto, mas logo me saltam ao espírito exemplos que o contrariam, exemplos de pessoas concretas, de vidas difíceis, que eu adorava resolver, mas não consigo.
O que consigo é adiantar trabalho, e por isso aqui estou, bem ou mal, não sei, mas estou e, com saúde, repetirei, como faço tanta vez. 

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Uma questão de mãos

O Centro Comercial Renovação, nome apropriado para qualquer coisa em Almada, foi a minha escolha de ocasião, precisando de uma cabeleireira com urgência, não me recordo da situação, mas sei que tinha pressa. Nunca lá tinha ido e nunca mais lá fui, aliás, só a premência do meu destino me fez ficar, ainda que muito mal disposta. E porquê? Naquele momento da lavagem da cabeça, que adoro e do qual tenho imensas saudades, a senhora que o estava a fazer, usava apenas uma mão. A outra repousava no bolso, preguiçosa, como lho fiz saber, sendo acompanhada por um pedido de desculpa da proprietária. 
Muitos anos depois, muito longe dali, em Saratov, perto do imponente Volga, diante do hotel decorria uma obra. Um dos trabalhadores encaixava umas pedras, como quem dispõe calçada portuguesa. Sentado no chão, pernas abertas, uma mão guardada no bolso do casaco, a outra dividida entre o martelar e o centrar as pedras, que se acumulavam num monte aos seus pés e era precisamente com um pé que ele arrastava cada pedra que precisava para junto da mão. Uma das pessoas que estava comigo argumentou que talvez só tivesse uma mão; outra pessoa apostou que não, que tinha as duas, que era apenas preguiça, e ganhou. No dia seguinte, ao sairmos em direcção à Universidade, lá estava ele, desta vez de pé, ambas as mãos em acção, uma acção à Ivan Danko, de Red Hot, naquilo que universalmente é conhecido como brincadeira parva, andar à pancada por que lhes apetece. A cena foi interrompida por um homem mais velho que deu ali dois gritos e eles, bem dispostos e a rir, lá meteram as quatro mãos nos bolsos.
Numa outra ocasião, em Lisboa, na plataforma do metro da estação Jardim Zoológico, num dia de chuva intensa, a água escorria por uma parede e colocava-se uma faixa de riscas encarnadas e brancas, desviando os passageiros que ali passassem, evitando quedas e similares. 
A colocação da faixa ocupava quatro pessoas, repito quatro pessoas! 
Uma atava a fita do lado esquerdo, junto de um cartaz de publicidade, enquanto outra segurava o rolo. 
O rolo foi esticado e a fita cortada pela pessoa que o segurava, enquanto um terceiro membro da equipa o atava ao corrimão da escada. 
Um quarto elemento, a uns metros de distância para obter uma visão alargada, levantava e baixava as mãos, qual maestro que orienta a orquestra, fita dois centímetros para cima, fita dois centímetros para baixo, mão espalmada virada para baixo sinal de está bem assim. A missão terminou com a equipa swat a contemplar a obra, satisfeitos e sorridentes. Foi hoje, e assim vai Portugal. 

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Hip Hip Hurray, Ebenezer Scrooge!

A crosta terrestre pode sofrer as rupturas que sofrer que nunca me preocuparei com ela, ou melhor, é uma preocupação relativa, ai sim? isso deve ser grave... digo eu emitindo um ai sim com ponto de interrogação no final que não diz nada, nem mostra curiosidade, interesse ou seja o que for, e terminando com um isso deve ser grave que calha bem mas que, igualmente, expressa zero, no máximo estupidez e ignorância.
Eu sei que sem crosta terrestre esta bolinha a que chamamos planeta era outra coisa qualquer, mas também sei que as eventuais rupturas não trarão qualquer ruptura à minha vida.
Assim, a decomposição, a desagregação, a erosão ou qualquer outro ão não me tiram o sono e as mudanças de clima só me dizem que chegou a altura de mudar a roupa do roupeiro de Verão para Inverno e vice versa passados uns meses.
Estaria doida se fosse solidária com o intemperismo! Convivemos e já chega! Eu nem o menciono e ele não me provocará durante a minha vida, curta, muito curta, comparada com a vida destes fenómenos.
Passa-se o mesmo com a pobreza: quando cá cheguei já cá estava e vai continuar a estar quando me for embora, por que devo ser solidária ou preocupar-me?
Mais ainda, a bem da verdade, nem sei bem do que estão a falar, como vou ser próxima ou activa junto de qualquer coisa que desconheço? Isto é como as máquinas, o melhor é não mexer nos botões para não estragarmos nada.
Por outro lado ainda, isto as coisas estão sempre a mudar e nunca se sabe, imaginem que a coisa é contagiosa? Vai uma pessoa ser solidária com quem tem menos ou precisa e pumba, de repente vê-se também a precisar e a ter menos.
Esta é a conclusão lógica: se partilho fico com menos, o melhor é guardar.
Vem esta reflexão digna de Nobel a propósito do estudo feito recentemente pela Universidade Católica e pelo Instituto Luso-Ilírio para o Desenvolvimento Humano que concluiu que os mais ricos e instruídos são menos solidários.
Não sei quanto pagaram pelo estudo mas eu ter-lhes-ia dito o mesmo de graça.
O facto de se conhecer na pele uma determinada necessidade alerta o nosso consciente, subconsciente e até as raízes capilares sobre os outros. E é bom não esquecermos que nós também somos os outros.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

O casamento mais rápido do mundo

Tendo decidido não comemorar o Natal, não escapo ao Ano Novo. Sou eu mesma que tomo a iniciativa de falar com algumas pessoas, desejando-lhes um bom ano e dando dois dedos de conversa.
Ontem repeti a chamada para a minha amiga HS que voltou a não me atender; sendo a segunda vez achei estranho e mandei um sms a reclamar dizendo que só lhe perdoava se ela estivesse acompanhada... e se estivesse eu queria saber tudo...
Hoje ligou-me a reclamar, ela também: então que mania é a minha de lhe telefonar quando ela está a dormir?
Apanhada de surpresa, acho até que abri os olhos, tentando recordar se estaria fora de mim e me teria dado para ligar às pessoas à meia-noite. Não, a minha certeza era absoluta pois rejo-me pelas convenções sociais que interditam telefonemas depois das dez da noite a menos que sejam urgências.
Dez da noite? Clama ela lá do outro lado, Não, tu ligaste eram nove e pouco mas eu é que me deito às nove horas.
De surpreendida passei a catatónica. Pensei que brincava mas ela falava sério e pensou que eu brincava quando lhe disse que às nove da noite estou eu muitos dias a trabalhar, na Biblioteca, entenda-se, não em casa!
Bom, lá adiantámos conversa, as mesmas perguntas repetidas mesmo que nos tenhamos visto dois dias antes, continuas sozinha, sim, e tu, também.
Rimos, não da nossa solidão, mas do disco riscado e eu atiro-lhe que no meu caso é mesmo dificuldade em encontrar alguém, já ela não dá tempo seja a quem for, a deitar-se às nove da noite.
Continuamos a rir e eu pergunto-lhe se quer juntar os trapinhos comigo, ela que sim, à falta de melhor, mas que eu me vá preparando que ela vai meter já os papéis do divórcio.
Do divórcio? protesto eu, pois se ainda nem nos juntámos!
Sim do divórcio, vou alegar falta de atenção da tua parte que trabalhas até às nove da noite...
E assim começou a acabou o meu casamento com uma mulher, a rir.

A minha nova paixão: António Zambujo

Algo estranho acontece

O nosso amor chega sempre ao fim
Tu velhinha com o teu ar ruim
E eu velhinho a sair porta fora
Mas de amanhã algo estranho acontece
Tu gaiata vens da catequese
E eu gaiato a correr da escola
Mesmo evitando tudo se repete
O encontrão, a queda, e a dor no pé que
O teu sorriso sempre me consola

No nosso amor tudo continua
O primeiro beijo e a luz da lua
O casamento e o sol de Janeiro
Vem a Joana, a Clara e o Martim
Surge a Pituxa, a Laica e o Bobi
E uma ruga a espreitar ao espelho
Com a artrite, a hérnia e a muleta
Tu confundes o nome da neta
E eu não sei onde pus o dinheiro

O nosso amor chega sempre aqui
Ao instante de eu olhar p’ra ti
Com ar de cordeirinho penitente
Mas nem te lembras bem o que é que eu fiz
E eu com isto também me esqueci
Mas contigo sinto-me contente
Penduro o sobretudo no cabide
Visto o pijama e junto-me a ti de
Sorriso meigo e atrevidamente

Ao teu pé frio, encosto o meu quentinho
E adormecendo lá digo baixinho
Eu vivia tudo novamente

Poema de Pedro da Silva Martins

Nova cor

A caminho de um chichi a meio da manhã, peço licença para passar no meio de um bando de alunas que ocupam todo o corredor.
Conversam sobre cortes de cabelo e apanho uma madeixa preciosa quando uma delas pergunta Mas ela é o quê? e a outra responde Ela? É tipo loira.

À letra

A propósito dos problemas de saúde do meu pai falo para a minha irmã.
Atende-me o meu sobrinho mais velho e ficamos à conversa.
Então, o que estão a fazer, pergunto eu, e ele responde, à letra:
- Eu estou a falar contigo, o Xavi está a ver televisão, a Pi está a ver se entende o que querem dizer os autores do livro de Português, a mãe está a olhar para umas panelas e o pai não sei porque está no Porto. 

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Cirque du Soleil

Ofereceram-me bilhetes para o Cirque du Soleil. A minha curiosidade era mais que muita, anos a ouvir falar, a ver imagens na televisão, vídeos no youtube. A prenda, ainda por cima de uma pessoa tão querida, veio mesmo a calhar.
Como boa família de ciganos organizámo-nos e fomos em romaria: os meus pais, os meus três sobrinhos e eu, sábado à noite, mau tempo já passado - os miúdos e eu ainda com a lembrança da chuvada da noite de ano novo, Avenida da Liberdade acima a pé, em direcção ao carro, parecíamos pintos, eu, que eles são mesmo de apelido do paizinho, mas sempre a rir e bem dispostos.
Levar o meu pai a qualquer sítio é um sarilho, mas impunha-se: completou 71 anos no dia seguinte - passado no hospital... - e o espectáculo era também prenda de anos.
Uns meros cinquenta metros que nem nos lembramos de percorrer, para ele equivalem a uma maratona. Deixei-os o mais próximo possível do MEO Arena, mas foi preciso fazer o corredor do Vasco da Gama, passar a rua e subir os degraus do ex-pavilhão Atlântico, uma tortura que aguenta com o auxílio da bengala e com a cara amarfanhada de dores contidas.
Durante o espectáculo até ele se esqueceu das dores, palmas e mais palmas, o Xavier, com apenas dois anos, de olhos esbugalhados, sentado nos meus joelhos, tão quieto que parecia uma estátua.
O gaiato já provou ser diferente: duas visitas a dentistas levantaram coros de espanto e admiração quando se senta, abre a boca e não mexe não respira, como nas radiografias. Apesar da sesta, assim que terminou, ele adormeceu encostado ao meu ombro fazendo-me reviver aquela sensação de posse, tão doce, quando eles são pequenos e pertencem-nos, quando se entregam com confiança.
Os outros dois saltitavam satisfeitos, pagaram o parque, faladores, o que é que gostaste mais?, eu foi dos que saltavam e pareciam andar nas paredes, e tu avó, e tu avô, e tu Quica?
Foi a última noite de uns dias juntos, sem grande coisa para fazer, como nesse sábado quando a chuva era tanta que só nos levou ao supermercado, viagem nunca adiada, mas que não impediu que ela e eu fizéssemos comer e doces, que ele me ajudasse com a roupa, sempre disponíveis, sempre donos de mim.
Durante o percurso para as compras comentei com eles que, há uns dias, passando por ali, exactamente aqui, neste sítio, vinha um carro em sentido contrário. Ele, o mais velho, sem perder uma oportunidade de exercitar o seu inglês, perguntou-me se eu tinha ligado para o nine, one, one a avisar do perigo. Ri-me e disse que sim, usando um sotaque nortenho, à Shrek como eles lhe chamam, e inglesando algumas palavras reproduzi a suposta conversa com os bombeiros de Nova-Iorque, e chegámos à conclusão que desde esse dia não se viam americanos na zona da Amadora ou Alfragide porque eles tinham emitido um alerta avisando os cidadãos americanos que andava um veículo em sentido contrário ao pé do Alegro.
Rimos todos e no ar sentia-se a essência do Natal, é Natal, é sempre Natal quando eles estão comigo e quando repetimos cúmplices, I do, I do, I do believe in fairies, há música no ar, balões coloridos sobem e misturam-se com as nuvens, chovem papelinhos com formas engraçadas e oferecemos as nossas gargalhadas uns aos outros, com um laço de seda.
Agora, só no Carnaval...

Revisitar o passado

A morte de um tio do meu ex-marido levou-me a falar com pessoas que prezo muito e com as quais não falava há imenso tempo. Por estupidez, é sempre por estupidez que se dão certos afastamentos, se calhar todos.
Nos últimos tempos vivi situações de afastamento de pessoas, no plural infelizmente, mas têm-me ensinado, e eu tenho aprendido, que não se prende ninguém. Assim, tenho evitado impor a minha presença, deixando um espaço que cada um ocupa como bem entende. Dizem que as acções ficam com quem as pratica e daqui estou tranquila em dois aspectos: tenho essa certeza e a consciência limpa.
Porém, há pessoas que passam por nós e deixam marca. Se a família consubstancia laços de ligação obrigatórios, os outros mantêm-se por opção.
Um desses casos é o de um primo do meu ex-marido, com quem sempre senti empatia, embora discutíssemos imensas vezes.
Ontem, ao telefone, encontrei-o diferente mas igual. Diferente por mais maduro, agora casado e com dois filhos, igual por perceber que mantém o espírito curioso, aguçado e diferenciado da maioria das pessoas, como eu gosto.
Fiquei muito feliz com a recepção que me fez, combinámos reaproximarmo-nos - quero conhecer-lhe a família, é claro - e deixámos aprazado um almoço, um jantar ou, como ele bem expressou, um pretexto para nos revermos e conversarmos.
Não me pareceu ver o miúdo convencido que encontrava amiúde quando o via, pelo contrário, pressenti um homem calmo, afectado pela morte do pai, é claro, e preocupado com a mãe.
Partilhei esses sentimentos, eu, que no dia anterior passei o dia no hospital com o meu pai, cada vez mais próximo de uma solução que nos gela o sangue, mas cujos dedos dos pés roxos deixam adivinhar.
Fico na expectativa de um encontro, não com uma pessoa de família, como sempre os considerei, embora nem sempre fosse recíproco, mas com um amigo que não vejo há tempos e do qual tenho saudades.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Capuletos e Montecchios

As férias passadas na aldeia deixam memórias impossíveis de apagar: os dias longos e abrasados do Alentejo profundo, o poço no quintal, as lavagens no tanque com a minha avó a zangar-se comigo por estar debaixo daquela calorina, a sombra que as videiras davam, o assobio levezinho do meu avô, o caramonho da minha avó, o café feito ao lume que escorria pela cafeteira, o cheiro a melão pela casa toda, a moeda que o meu avô sempre tinha para um gelado, os passeios e os mergulhos na ribeira de S. Pedro, as festas em honra de Nossa Senhora do Ó, as amigas, os segredos.
Inesquecível também era a aparição de uma pessoa de família, muito chegada por sangue mas de outro planeta por amizade.
A sua chegada era adorada pela criançada e era um martírio para mim, que ficava sempre de fora quando ele perguntava retoricamente quem queria ir à piscina de Moura. Eu bem esticava o braço mas a resposta invariavelmente era a mesma: o teu pai que te leve. E o meu pai levava, levava tão depressa que eu chegava lá primeiro que todos os outros, mas em último, porque o carro engraçado era o outro, onde iam todos, a rir, a brincar. Juntos.
Se era para ir a qualquer lado, o meu pai que me levasse, se era um doce, o meu pai que mo comprasse, fosse o que fosse, o meu pai que me fizesse ou me acontecesse. E o meu pai fazia e acontecia.
Não deixei de me lembrar destes episódios quando ontem proibiram uma garota de brincar com os meus sobrinhos, de visita os três ao trabalho dos grandes.
As acções ficam com quem as pratica mas quem não se sente não é filho de boa gente e eu senti, senti mágoa pela proibição de deixar uma criança brincar, conviver, rir em conjunto. Um adulto que age assim está a passar um cheque em branco para o seu próprio futuro, tal como as pessoas que me atormentaram em pequena têm hoje em comum com filhos e netos a distância, imposta por estes últimos.
Que mundo melhor é que apregoamos que queremos quando temos atitudes assim? 

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

A mendigar no Centro de Saúde

Depois de bater com o nariz na porta do Centro de Saúde da minha área de residência, procuro o alternativo. Estão em obras, diz um papel manhoso como a saúde dos portugueses, colado ao vidro da porta.
O outro Centro de Saúde tem uma maquineta de senhas à entrada, de onde retiro um papel. Faltam quatro pessoas, não é mau. Porém, as três estrelas do balcão de atendimento comentam o Natal, os acidentes, a chuva e não chamam ninguém. Na sala ninguém parece aborrecido ou espantado. Mas que raio...
Vou ao balcão perguntar se há algum problema. Não, não há qualquer problema, o que acontece é que os médicos que eventualmente têm vaga ainda não chegaram e são eles que dizem se atendem ou não atendem os doentes. Abano a cabeça como num arrepio e explico que não quero consulta para o dia e sim marcar para mais tarde. Dá no mesmo, diz a senhora com simpatia genuína, como eu não tenho médico de família tenho que esperar e pedir, mesmo que para mais tarde. Então e posso marcar por email? Pode sim senhora, ou por telefone, como queira.
Agradeço e saio, atrasada para o trabalho. Ao fim do dia envio o mail, nome, morada, número de utente, pedido de consulta. A resposta não se fez esperar: caixa do correio cheia...
Reenviei a mensagem no dia seguinte, a resposta repetiu-se, escusado será dizer que o telefone está sempre interrompido e lá terei que ir sentar-me na sala de espera, de mão estendida, rezando pela caridade de um qualquer médico.
Viva o sistema de saúde, viva!

Os cavalos também se abatem

Dizem que gostava muito de mim. 
Dizem que eu gostava muito dele. 
Dizem que eu lhe chamava um nome que não sabem reproduzir, como sempre se diz que as crianças pequenas chamam de forma diferente, como se inventassem novas palavras quando apenas tentam reproduzir o que ouvem e sai de forma distinta. 
Dizem que eu corria para ele e ele tinha imensa paciência comigo.
Dizem que está no hospital em coma depois de ter tido um acidente onde o carro embateu num cavalo e noutro carro. 
O cavalo, como o de Tróia, sem saber instalou a morte, a dor, o espanto, a solidão, o nada no interior daquelas famílias.
Mesmo sem me lembrar dele confesso uma tristeza por saber desta tragédia, maior que outras tragédias, porque a proximidade é factor de dor, como todos sabemos, mesmo que não nos lembremos. 

Janela virada para a eternidade

Dois artigos, ou serão três? para revistas, mais uma comunicação numa conferência, mais a organização de outra, mais indiferença de algumas pessoas que trabalham comigo, mais incompetência de outras, tudo somado perfaz muitas horas de trabalho.
Falo de mim, falo mas não me queixo, ando satisfeita e com vontade de trabalhar ainda mais.
Ganho o mesmo, financeiramente falando, recebo menos, muito menos, e não percebo como se gastaram 57 milhões de euros a mais no Natal do que no ano passado, mas isso é outra conversa.
Uma parte do trabalho que tenho em mãos implica pedir ajuda de minuto a minuto ao tio Google Maps, verificar moradas, visualizar prédios e de repente, olha, deixa cá ver o meu próprio prédio.
Lá está, num dia soalheiro, nem eu teria feito melhor e, surpresa das surpresas, o meu vizinho velhote, que morreu durante o Verão, está imortalizado espreitando à sua janela, como sempre. Espero que ninguém se lembre de actualizar aquilo e tirar novas imagens porque aquele senhor faz parte daquela rua, pertence-lhe. A nós pertence-nos a memória e cabe-nos sorrir ao vê-lo, ao reencontrá-lo nem que seja de forma virtual. 

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Avali(a)ção de professores

Terá sido de propósito?
Terá sido uma brincadeira acerca da avaliação que, deixando a desejar como (quase) todos afirmam, até o Público lhe deixou cair uma letra?
Terá a ervinha logo abaixo tido influência e alguém fumou o A?
Será um incentivo à poupança?
Será uma tentativa de legitimação das novas formas de escrita?

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Ser ou não ser

Para fazer um orçamento uso o site da TAP: quanto custa uma deslocação a...? Preencho os campos, ida e volta, cidade de partida, cidade de regresso e carrego no enter.
Enquanto uns minúsculos e invisíveis seres procuram a informação para ma plasmaram diante dos olhos, aparece uma mensagem:
Todas as tarifas incluem jornais e revistas gratuitos*

O * está um pouco mais abaixo e diz:
Este serviço está apenas disponível em alguns voos e tarifas TAP.

Pergunto, Dona TAP, em que ficamos?

Na voz do Zambujo é uma delícia

Eu já não sei
Se fiz bem ou se fiz mal
Em pôr um ponto final
Na minha paixão ardente
Eu já não sei
Porque quem sofre de amor
A cantar sofre melhor
As mágoas que o peito sente

Quando te vejo e em sonhos sigo os teus passos
Sinto o desejo de me lançar nos teus braços
Tenho vontade de te dizer frente a frente
Quanta saudade há do teu amor ausente
Num louco anseio, lembrando o que já chorei
Se te amo ou se te odeio
Eu já não sei

Eu já não sei
Sorrir como então sorria
Quando em lindos sonhos via
A tua adorada imagem
Eu já não sei
Se deva ou não deva querer-te
Pois quero às vezes esquecer-te
Quero, mas não tenho coragem

Até sempre Lawrence O'Toole

A maior benesse vinda do trabalho do meu pai eram os bilhetes de cinema de graça. Qual ordenado, qual quê? Os bilhetes, os bilhetes, esses sim, eram a melhor coisinha que ele trazia para casa, directamente para as minhas mãos. Os bilhetes em si eram reclamados na bilheteira mediante a apresentação de um talão rectangular, branco, com o nome do cinema, não do filme, inscrito a letras grandes: Condes, S. Jorge, Tivoli, Eden, Europa, Monumental, Alvalade, entre outros.
Sendo os bilhetes gratuitos e não havendo muitos pedidos, coisa que me causava grande estupefacção, mas satisfação em simultâneo, pois assim ninguém me faria concorrência, chegava a ver três filmes no mesmo dia, o que em plenos anos 70 era uma proeza.
Com uma linha de metro com meia dúzia de estações, sabia-lhe os horários - ou as expectativas deles - melhor que os maquinistas e corria de sala em sala, arfando até me sentar no escurinho do cinema. Fiz muitos amigos, pois claro, mas neste dia fui com os meus pais.
Comecei com a minha mãe numa sessão no S. Jorge a ver uma coisa leve, Os Canhões de Navarone. Ela ia como uma super-modelo, de lenço na cabeça, muito em moda na altura, óculos de sol estilo Madalena Iglésias e botas altas.
Quando o filme acabou o meu pai esperava-nos, saído do trabalho, e fomos em direcção ao Monumental, ver outro filme. Ela já não ia bem-disposta, que canseira, que exagero, dois filmes, mas onde é que isto já se viu, e eu, coitado do pai, tu viste mas ele não viu e este deve ser tão giro, eu nem sonhava o que ia ver, mas não fazia mal algum, era preciso ir.
Enquanto a minha mãe esperançava num filme romântico, ai estes canhões, tanta guerra, só guerra, quase não entram mulheres e uma das poucas logo tinha que fazer de muda, eu mentia garantindo que este agora era diferente, não tinha nada a ver. E não teve, pelo menos para mim, que da acção dos Canhões de Navarone lembro duas ou três coisas e de Lawrence da Arábia, lembro tudo, ou não o tivesse visto vezes sem conta pois desde aquele dia que exerce em mim um fascínio inexplicável.
O meu pai quis sair a meio, o lenço que ela levava na cabeça passou para o pescoço e daí para a mala, da mala para as mãos e para a testa, para limpar o suor que a fartura do filme lhe causava. E eu parecia uma boneca, sem ouvir nem falar, imóvel, a amar para sempre aquele homem, aquelas paisagens, aquele actor, aqueles países, aquela dinâmica e, porque não dizê-lo, aquelas roupas e até aqueles camelos.
Depois daquela tarde li, vi outros filmes, viajei pelos caminhos que ele percorreu, ouvi injuriá-lo, ouvi adorações em seu nome, arrebanhei tudo, como os fãs costumam fazer, sem acreditar nuns ou dando razão a outros, só ouvindo, que os mitos têm sempre dois lados.
As pessoas, agora que têm televisão e internet acreditam em tudo; a última dizia que morreu Peter O'Toole, como se alguém assim pudesse morrer...
A palavra Imortal tem poucas utilizações, e nesta pessoa é uma delas, nesta pessoa que para sempre será duas pessoas, que o mesmo é dizer, um mito.

Volta Bobby, estás perdoado

Tendo decidido saltar por cima deste Natal, aborreço-me ainda mais que o costume com a publicidade que passa na rádio. Em cada dez anúncios, onze mencionam o Natal, e mais umas promoções e mais uma oportunidade única, até parece que o mundo vai acabar logo a seguir ao Natal.
Com tanto que gosto de ouvir rádio, fui mudando de estação na esperança de haver uma que não mencionasse o Natal, mas qual quê?, ele são festas, espectáculos, acções de solidariedade, pedido de voluntários, é Natal nos canais de música clássica, de jazz, infantis, é Natal em... é lá... que é isto?
Intrigo-me pelo facto de há cinco minutos não ouvir dizer Natal nem bolas nem estrelas nem bolo-rei, nem passagem do ano e apuro o ouvido. Apuro o ouvido e o olhar como se um auxiliasse o outro diante do velho rádio leitor de cassetes, tão quieto mas tão capaz de fazer tanto barulho, os rádios são engraçados por esta dupla essência, pelo que têm de escondido, como vários outros equipamentos.
Bom, acho que instintivamente o meu corpo sabe que não vale a pena apurar o tacto ou o cheiro, que daqui também não sairá grande ajuda, aumentam os minutos sem que se ouça a palavra Natal, aliás, agora que estou bem atenta percebo que não dizem Natal ou qualquer outra palavra que eu perceba... estou no paraíso, estou a ouvir uma rádio indiana!
Lembro-me imediatamente do único filme indiano que vi na minha vida, algures à volta do 25 de Abril, directamente de uma Bollywood ainda em ascensão mas já prometedora e ao qual Quem quer ser bilionário? não deve nada, felizmente.
Senti uma saudade enorme dessa lembrança esbatida, de um tempo em que era tão feliz que até podia entrar no final de um filme indiano, talvez de Bobby, o tal que vi. Acabo a rir à gargalhada, sozinha, depois de um pesquisa no Youtube onde descubro as canções do filme assim como os óculos, simplesmente magníficos, de gigantes, do protagonista.
O programa de rádio, Swagatam, Som do Oriente, passa  na Rádio Orbital (em 101, 9 FM, grande Lisboa) aos Domingos das 10 às 14h, e para mim é uma boa alternativa sob vários aspectos: é uma forma diferente de fazer rádio, se ouvirmos muito e com atenção podemos até tentar perceber o que dizem, ficamos a saber novidades sobre as comunidades indianas em Portugal e, claro, muita música e bandas sonoras, verdadeiros convites para visitarmos lojas indianas aqui e ali, leitura de cartas de espectadores, envio de parabéns e todo um mundo de contacto directo com os ouvintes, assente nas melodias que vibram com o toque próprio da música indiana e, como se tudo isto não fosse suficiente, sem Natal.
Namasté!

Folhas caídas (não essas, outras...)

O Outono, qual cigarra preguiçosa, apercebeu-se de repente que estava de malas aviadas e que dia 21 de Dezembro estava a chegar. O trabalho não estava feito, nem tão pouco mais ou menos, e de repente bufou com força para cima de todas as árvores que se viram intimadas a deixar cair as folhas, todas ao mesmo tempo, em todas as terras. Resultado, as ruas, as estradas, os passeios, as sarjetas, os tejadilhos dos carros e, não é que eu tenha visto, mas a fé diz-me que sim, até em certos telhados há folhas castanhas espalhadas, sem ordem nem lei, perigo maior para os transeuntes e espectáculo garantido para mirones em locais estratégicos onde, de vez em quando, pumba, lá vai estoiro em forma de queda, como se o universo tivesse decidido que todos os que por ali passassem seriam acrobatas.
Consequentemente, nos últimos dias tenho andado mais devagar, bem mais devagar e embora veja as folhas a serem apanhadas, no dia seguinte são ainda mais, o que me leva a garantir que, se em algum local não fossem varridas, deixaríamos de ver certas árvores, afogadas em si próprias. Apesar de mórbida, a imagem apresenta-se-me linda e até romântica. 

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

O'lhó passarinho

Amigo de um amigo de um amigo, filho de pais filhos da terra natal dos meus pais, pelo apelido será primo ou parente caçula de um antigo namorado meu, agora é fotógrafo e somos amigos no Facebook, essa instituição.
Não sendo captador de momentos da vida das flores nem de gatos fofos, mas antes do espaço aberto da paisagem alentejana, gosto de ver as fotos que vai publicando e, ocasionalmente, até as comento, por me agradarem aqueles castanhos e os amarelos, os encarniçados a sobreelevarem-se sobre um pontual verde no estio.
Tem mérito o rapaz. Mérito como fotógrafo, que como pessoa não lho conheço, ou melhor, ontem fiquei com uma ideia, uma ideia fotográfica, daquelas que vão permanecer.
Aparentemente havia um concurso de fotografia a decorrer e era suposto que nós, os amigos, amigalhaços do peito, votássemos para eleger o vencedor. A propaganda eleitoral é muito original: passa por uma mensagem, pública ou particular, a pedir isso mesmo, Votem em mim! Por seu lado, o boletim de voto é um clique num endereço que o candidato nos envia, muito fácil.
Ontem, o meu querido amigo publicou uma mensagem a agradecer a todos quantos votaram nele. Teria sido um gesto bonito se ele não tivesse acrescentado meia dúzia de palmadas e um responso para todos aqueles que não votaram! Li duas vezes, que o meu raciocínio nem sempre é o melhor e achei que não tinha percebido, que tinha lido à pressa, o problema seria meu com certeza.
Desentorpeci os dedos e deixei uma mensagem de tristeza e de reclamação:  então e se não gostarmos das tuas fotografias? então e se quisermos votar noutras? então e se simplesmente não quisermos votar?
O rapaz não se fez rogado e usou o seu mais forte argumento, custa alguma coisa dar um clique? acrescentando Grandes amigos, o que vi logo que não era para mim pois, como ficou expresso ontem, só tenho 1,62m.
Mandei-lhe uma mensagem privada do tamanho dos dois Alentejos e das Beiras a explicar que lhe ficava muito mal aquela atitude, que não se podia votar em alguém só porque era nosso conhecido ou só porque nos pedia; retorque ele que é o que todos fazem, que se limitou a agir como todos agem, que quantos mais amigos se tem, mais hipóteses se tem de ganhar e, repetiu, custa alguma coisa dar um clique?
A mim custava-me manter a conversa e, depois de um Fica bem, desliguei o computador.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Dos concursos e dos castigos

Luís Almeida ficou conhecido por ter participado, e ganho, em inúmeros concursos de televisão. Eu participei em dois, ganhei um, mas perdi a conta aos concursos que ganhei fora do ecrã. O primeiro foi à Disney, a Paris, acabada de estrear, presente da Cerelac ou da Nestum, não me lembro, mas que no fundo veio da Nestlé, e o último foi um fim-de-semana no Hotel Palácio de Seteais, esse deslumbre, que ofereci à minha irmã.
Pelo meio ficam viagens e livros, sendo que nunca concorri a nada que não incluísse viagens, ou dinheiro para as fazer. A norma, na quase totalidade dos casos, passa por escrever textos ou frases a propósito de qualquer coisa, logo, não há aqui um factor sorte puro, daí talvez venha a explicação para o facto de nunca ter ganho o euromilhões...
Entre outras, ganhei viagens aos Açores, China, Itália, Espanha, Marrocos, destacado-se meia dúzia de visitas ao prémio inicial, a Disney, muito na moda durante alguns anos.
Agora muitos concursos passam por telefonar e, no telefonema certo, ganha-se qualquer coisa. Ora, como sorte, sorte, não tenho, embora os meus amigos e conhecidos passem a vida a mandar-me informação de concursos para que eu concorra - e os leve! - não tenho conseguido ganhar nada.
Que é feito dos textos que se escreviam e que se publicitavam depois para que todos os participantes pudessem ver quem e como se tinha ganho? Dão muito trabalho e não fazem entrar os milhares de eurozitos que se capitalizam com o negócio dos telefonemas.
Assim, inibida que está a minha participação em encontros profissionais devido à crise, e que em tempos idos me levaram da Grécia à Rússia, da Croácia ao Brasil, de Inglaterra à Alemanha, entre outros pontos, não tendo finanças para ir de férias além da Costa da Caparica, não tendo sorte ao jogo, nem aos amores, diga-se de passagem, resta-me ficar a apreciar este frio, comparando-o com o do Ártico, onde já estive, mas ansiando pelo calor do Sahara, que também já senti, logo, estou como o outro, recordar é viver...
Sugere-me este tema depois de ver o último número da revista Volta ao Mundo, da qual sou fã e que apresenta vários concursos, todos via telefonema. De quem não sou fã é da pessoa que vem na capa este mês, Isabel Stilwell. Não a conheço o suficiente para desgostar, mas garantidamente não sou fã, e o facto de vir na capa de uma revista que idolatro, desgosta-me, sim.
Este torcer o nariz a Isabel Stilwell vem de trás, de uma edição da revista Pais & Filhos, na qual era (é?) colaboradora, na altura em que eu lia a revista em questão, e a propósito de um texto que assinou sobre crianças que, se não me falha a memória, estavam no limite entre o irrequieto e o mal educado. A sugestão para que as aulas decorressem calmas sem a presença dos mais endiabrados, era dar-lhes um castigo. E foi precisamente isso que me levou a escrever-lhe insurgindo-me contra o castigo: mandá-los para a Biblioteca!
Bom, em primeiro lugar, desta vez a escrita não me deu prémio algum, pois não obtive resposta. Em segundo lugar, e consubstanciando o meu argumento para descredibilizar o castigo, senti-me horrorizada por pensar que alguém que estava ligada a uma revista daquela índole podia sequer equacionar a possibilidade de se ver uma Biblioteca como uma espécie de inferno...
A ligação entre Isabel Stilwell e as (minhas adoradas) bibliotecas como câmaras de tortura ficou-me sempre na memória e não a consigo desligar, assim como não consigo deixar de ficar triste de a ver na capa da Volta ao Mundo. Simplesmente, não pegam, mas esta é só a minha opinião, a opinião de alguém que, embora tenha ganho muitos concursos, ninguém conhece.
Ave, senhor engenheiro Luís Almeida e senhora doutora Isabel Stilwell!

Uma questão de altura

Eu não percebo como é que só tenho 1,62m... Dizem que deitar cedo e cedo erguer dá saúde e faz crescer e, mais uma vez, comecei a trabalhar ainda não eram seis da manhã. De saúde também não ando lá muito famosa, a menopausa anda a trabalhar ainda mais que eu e levanta-se ainda mais cedo!
Vá lá uma pessoa acreditar no que se diz...
Porém e ainda assim e contudo cantam cá mais uns centímetros que na altura da minha querida irmã que faz tudo para ser mais alta que eu. São dois ou três, mas são os suficientes para eu ser mais alta. Recorrentemente vem ela a querer meças, chega-te aqui, para mim, cheguem-se aqui, para o público do momento, ora digam lá quem é mais alta! A resposta tem sido coerente, com os dedos a apontarem, cansados, na mesma direcção, para mim.
Ontem foi dia de repetir a cena e o motivo encontrado para eu parecer mais alta foram os saltos dos meus ténis... rasos, tal como os dela. Eu bem coloquei a cabeça de modo a parecer mais baixa, encolhi os ombros, mas o resultado final é sempre o mesmo: ela tem esperança que eu mirre de umas medições para outras e eu, que gosto tanto dela, ainda lhe vou fazer a vontade. 

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Banda sonora

Aqui há uns anos a minha irmã fazia-me um enorme favor. Não era casada, não tinha três filhos, não vivia longe de mim e dava-me um mimo único: sabendo que eu gostava que a vida fosse como certos filmes, andava dois passos atrás de mim a trautear uma canção, qual banda sonora do meu quotidiano.
As pessoas andavam mais devagar, e chegavam a parar, para ver uma à frente com ar de felicidade e um sorriso cinematográfico e outra um pouco atrás a lálálázar qualquer coisa.
Nós não nos ralávamos e eu chegava a dar uns passos de dança ao som daquela música única.
Agora que ando sempre de auscultadores metidos nos ouvidos dou por mim aos saltinhos que a música exige, a subir degraus de dois em dois ou com passinhos de gueixa, conforme a lista musical indica.
A diversidade é muito grande, os géneros são os que que quiser, mas tenho saudades da banda sonora única no mundo, só minha, só para mim. Tenho saudades do passado, tenho saudades da minha irmã, como irmã. Eu sei, hoje estou egoísta.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

A minha Alexandretta

Quando Indiana Jones contou ao pai que tinha descoberto o túmulo de Sir Richard e a inscrição no escudo – Alexandretta – o pai exultou e a felicidade salpicou-me, como se eu também fizesse parte da descoberta.
Passados muitos anos, vivi este momento na primeira pessoa ao encontrar, não os restos mortais de um cruzado, mas um assento de óbito.
Os olhos saltaram-me das órbitas como se fosse uma personagem animada, reli e voltei a reler o manuscrito… não, não podia ser. Mas era.
Agarrei no telefone, com a pressa enganei-me no número, enquanto imprimia o papel que, fugindo a concentração, saiu em letra liliputiana.
A voz atendeu-me a muitos quilómetros de distância, bem-disposta e alegre, de repente a querer deter a brincadeira por perceber a ansiedade na minha própria voz.
Pedi que se sentasse e me ouvisse, afinal não é todos os dias que se descobre uma informação que os especialistas na matéria procuram há mais de duzentos anos.
Está a brincar comigo? Adivinhei a cara séria de quem não admite jocosidades com coisas destas. Mas eu não brincava e tinha provas, que enviei naquele instante por e-mail.
Do outro lado choraram quando receberam a mensagem. Um choro de alegria, de satisfação, de alívio pelo fim de uma jornada. Eu também chorei de alegria, por ter participado, por me terem dado essa honra.
Não fazendo investigação por profissão, dou apoio a inúmeros investigadores e auxilio-os naquilo que posso. Rejubilo com as suas conquistas, critico textos, sugiro alterações, do português, já se vê, que da matéria são os conhecimentos insuficientes. 
Porém, a proximidade com algumas pessoas fez crescer uma empatia e um interesse maiores que os do costume. Esse interesse, feito curiosidade, levou-me a percorrer caminhos cuja linha do horizonte se transformou na mais bela das paisagens, e desta vez não foi uma praia, e sim um assento de óbito. 
Oh, que morte abençoada...