terça-feira, 26 de novembro de 2013

Tuba de Eustáquio

Os meus ouvidos estão sem reacção, amorfos, parvos. Eles não ouvem, e isso faz de mim surda. É injusto...
Continuando à espera de consultas e cirurgias e do pote de ouro no fim do arco-íris, já agora, defendo-me dos zumbidos de forma adolescente: ando sempre de auscultadores enfiados nos ouvidos a ouvir música aos berros.
Faz mal? A sério? A quem? A mim? A mim faz-me mal não ter uma solução definitiva para isto, a mim faz-me mal o zumbido permanente, a mim faz-me mal ter uma mira técnica dentro da cabeça.
No meio disto tudo, o grande problema que se coloca é a minha incapacidade para ler enquanto ouço música, que tem de ser alta para competir com o zumbido.
Assim, há muito que as viagens de metro não são de livro em riste e sim de cabeça a dar a dar ao som de muitas coisas, desde Bizet a Snoop Dogg, de Wagner a Michael Jackson, de Aznavour aos Gipsy Kings, dos Queen a Elis Regina, com muito batuque pelo meio.
Das letras para os instrumentos musicais, quem diria?

Natal? Qual Natal?

O que é que Nicolás Maduro é mais que eu? Se a Venezuela pode ter Natal em Novembro, eu posso não ter Natal. O presidente venezuelano quer recuperar a essência da expressão popular, O Natal é quando um homem quiser, e eu quero celebrar a realidade do momento actual.
Não encontro nada para celebrar e não consigo perceber onde foi a revista do Expresso, há umas duas semanas, buscar pessoas tão felizes e contentes, passando a imagem de um país em recuperação, com esperança e expectativas.
A bem da verdade, até nos campos de concentração nasceram crianças, naqueles antros de corrupção mental, no fim da linha da loucura deu-se o milagre da vida, mas isso não melhora a imagem daqueles sítios. Mostrar meia dúzia de sorridentes não tira a fotografia do país, velho e doente, da grande maioria exausta e desesperada.
Assim, instituo que não há Natal. Eu dou e reparto o ano inteiro, estou presente na vida da minha família e dos amigos que gostam verdadeiramente de mim, que se preocupam comigo, poucos, cada vez menos mas muito bons, sumo de amizade concentrada. Ajudo o meu filho e brinco com os meus sobrinhos o ano inteiro. Além disso, a cortisona fez-me engordar de novo e não posso comer bolos. Mesmo que pudesse, só se os comesse com os olhos que os euros não chegam para tanto.
As câmaras municipais continuam brilhantes a dar brilho às noites com uma iluminação absurda, fingimento supremo de que existe Natal. Esta equação da época natalícia igual a luzes a acender e a apagar, fechando os olhos a problemas que podiam ser ajudados a resolver com as verbas milionárias das luzinhas de Natal é inexplicável. Que os centros comerciais o façam desde o fim do Verão, ainda engulo: montam o engodo para não matar a sociedade de consumo, para manter uma réstia de felicidade nas pessoas, sabendo que a felicidade se atinge num corredor cheio de lojas. Mas as câmaras deviam pensar para além dessa felicidade, deviam pensar na existência das pessoas.
Ainda eu ia à praia e já se via neve e ouvia-se jingle bell cantado por gordos pais Natal. Ninguém se lembra de criar um Pai Natal esquelético a carregar umas renas mortas, só pele e osso? Fazia mais sentido...
Fazia mais sentido que alguém se lembrasse de inverter as coisas, que é como quem diz, colocá-las no seu lugar! Mas a tradição continua a ser o que era e há que manter a tradição, mesmo que para isso seja preciso sacrificar as pessoas.
Bem, as pessoas que é como quem diz, algumas pessoas... 

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Um chá faz sempre bem

Abro o word e selecciono new document. Procuro um template de cronograma. Procuro, procuro e não encontro.
Passam calendários com cavalinhos, convites para colorir, propostas para relatórios e etiquetas e envelopes e mais cinquenta coisas diferentes. Cronogramas nada. Parece-me tudo muito infantil, como se as propostas fossem para artes manuais, actividades caseiras, pouco profissional, até que, de repente... eh lá! O que é isto?
No meio das propostas de layouts para currículos está um para Boticário.
Abro-o por curiosidade e não vejo nada que o distinga de outro para qualquer profissão; decido passar a usar este modelo que me lembra uma bela caneca de chá, mal não fará e sempre reconforta.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Magnífico

O  Reitor da Universidade dos Açores está de parabéns pela medida tomada sobre a proibição do uso do correio electrónico em determinadas situações na Universidade. Proíba senhor reitor, proíba! É preciso focarmo-nos e, como diz o povo mas contraria a física, ganhar tempo e não perdê-lo.
Porém, levantam-se-me algumas dúvidas, desde logo faz falta um esclarecimento sobre se é uma posição a favor da tradição, estilo viva o papel, abaixo o e-mail.
Há que parabenizar também pelo facto de a Universidade não ter uma página no LinkedIn ou conteúdos no iTunes. Decisão inteligente e que talvez pudesse ser ainda mais assertiva pois há informações sobre uma pós-graduação em Análise de Dados e Gestão da Informação nesse antro que é o Facebook, bem como uma página de um Centro de Empreendedorismo e uma outra que apela à Aprendizagem ao longo da vida, mas como é para séniores, devem ter tido em consideração que os velhos têm muito tempo e até deram o contacto da reitoria. Ainda assim, proíba senhor reitor, proíba!
Na minha modesta opinião, devia a informação ser um pouco mais precisa: quando se diz que não se podem – e bem! – divulgar assuntos privados, pergunto: as férias serão assunto privado ou não? Pode continuar-se a usar aquela fórmula da mensagem de resposta automática Estou ausente por férias até dia tal ? Fica a sugestão para uma adenda.
Convenhamos que é muito aborrecido, por exemplo, receber informação sobre a recente maternidade ou paternidade dos docentes ou dos funcionários; o que temos nós a ver com estes assuntos? Só nos desviam das nossas tarefas, causando perturbações e, lá está, perda de tempo. Proíba senhor reitor, proíba!
Pior ainda, ouvi dizer que há casos de universidades e empresas várias que chegam a divulgar informação sobre falecimento de membros da família de colegas! Onde é que isto já se viu? É uma maçada para os familiares e tem que ser para nós também ? Então trabalha-se numa universidade ou numa agência funerária? Proíba senhor reitor, proíba!
Parabéns! Agora não é ao senhor reitor, é parabéns em geral; porque é que se usa o e-mail para enviar uma palavrinha de parabéns? Para ficar por escrito que o parabenizado está a envelhecer? Mais uma triste ideia…
Combinações de almoços, jantares, festejos vários… então mas o que é isto? Estamos aqui para conviver? O senhor reitor é que a sabe toda, proíba senhor reitor, proíba, coloque cada qual no seu canto, aliás, podendo dar uma sugestãozinha, eu lembraria que há por aí nove ilhas, logo, deve haver muita falta de wireless, e espalhar essa malandragem podia ser boa ideia, para além de reactivar o hábito perdido de escrever cartas, aumentando quiçá o quota dos CTT nos Açores.
Se formos honestos e a bem da verdade isso do espírito de equipa é um mito; então enquanto eu teclo pode estar outro a teclar comigo? Não! É impossível.
Por outro lado, os assuntos internos de Departamentos e/ou Serviços são isso mesmo, internos, primos dos privados, por alma de quem é que devem andar a circular nos corredores virtuais? Já nem falo da comunicação social, essa escória que produz escritos… ai, mas deixem-me dizer que apreciei imenso a utilização da palavra ‘escritos’, lembra-me a colocação dos papelinhos brancos colados aos vidros para alugar as casas, é tão típico, tão giro.
Proíba senhor reitor, proíba. Temos que nos consciencializar que a vida é feita de compartimentos estanques, viva a arrumação, não se quer misturas de espécie alguma e, verdade seja dita, até já chega de divulgação livre de conhecimento crítico. Aliás, quando se diz que uma universidade é o lugar por excelência para dizer e ouvir a verdade, isto é uma metáfora, nem sei quem a disse, mas foi alguém que estava a brincar, de certeza. Ou, a ser verdade, e para não arranjar confusões, deve-se arranjar uma verdade, uma só, que não levante dúvidas! Não, não, isto não é nenhum ismo, é só uma forma de dar ordem ao universo, de acabar com o caos.
Agora, quer os tais escritos da comunicação social, é mesmo gira esta palavrinha, os assuntos de natureza privada, cujos limites não sabemos bem quais são, é tipo mar e areia a que as ondas mudam constantemente a fronteira, os assuntos internos dos departamentos e dos serviços, aquilo que tudo junto é parte da vida da universidade, vão continuar a circular, isso vão, e fora da cadeia hierárquica estabelecida, cuja estipulação me lembrou o Sr. José de Todos os Nomes de Saramago. A rede de correios electrónicos pessoais vai ter uma nova vida, e aquela melianagem vai continuar a comunicar. O que fazer? Eu, assumindo o cargo de reitor, mandava fechar a internet! Ah, mas isso era já, era ontem! A menos que… a menos que eu pudesse ter acesso a essa correspondência.
Acho que o senhor reitor não devia ligar nada a quem anda para aí a dizer que isto é mal feito, que é censura, etc. Essa gente não está lá para ver como as coisas se passam, pois não? Então devem calar-se, não é?
Quem quer promover proximidades que se case, não vá trabalhar para uma universidade. Quem quer questionar que vá para polícia. Quem quer criticar escolha a arte, e tanto que haveria a dizer sobre o assunto, a dizer e a proibir! Quem quer fazer parte de um projecto constitua um grupo musical! Quem quer dizer o que lhe apeteça arranje um Speakers Corner! 
Uma universidade é outra coisa, é respeito, respeito é silêncio, como o que se guarda nas igrejas e nos cemitérios, como aquele que se impõe a partir de certa hora. Ai, estou a baralhar-me isso é nas prisões.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Margarida Repulsa Pinto

Os meus estudos em Medicina vão avançando aos poucos. Isto não é fácil...
Lembro-me das primeiras cadeiras como se fosse hoje: eram verdes escuras, de um material entre a pele e um tecido forte, rugoso, não sei onde a CP o foi desencantar.
Começava como qualquer bom aluno logo cedo, tosses e constipações, era o básico, mas também havia descrição de doenças, a que alguém mais abalizado atirava, então era sarampo? Não, era varicela. O essencial era ouvir com atenção.
Mais tarde passei pelos bancos dos barcos, que ainda não se chamavam Transtejo nem Soflusa, e descobri todo um novo mundo de doenças, como se as pessoas que viviam na margem sul sofressem de diferentes maleitas. Ele era lúpus, ele era zona - que eu também tive - e demais patologias.
Regressei a Lisboa e as matérias alargaram-se mas de forma especializada, as cadeiras do Metro substituídas por outras mais largas, outras cores, outros padrões, outras doenças, com especial incidência para as cancerosas, conselho de medicamentos vários onde não falta a sugestão de uso de produtos naturais que as farmácias levam-nos tudo.
Assim, depois de tantos anos de estudo vou abalançar-me a fazer o meu primeiro diagnóstico, começando por discordar de certas linhas da ciência médica: a Demência não afecta apenas os idosos.
Há pessoas cada vez mais novas a sofrerem da doença, que se caracteriza por ser neuro-degenerativa, provocar o declínio da actividade intelectual, diminuindo as capacidades sejam de trabalho, de relacionamento social e causando graves distúrbios na personalidade e no comportamento. Vejam-se dois casos recentes.
O primeiro é o da mulher que teve uma filha e a deixou no porta-bagagens do carro durante dois anos. Como foi dito por especialistas, à demência alia-se um quadro de malvadez, de dimensões épico-literárias, acrescento eu.
Esta situação não tem tratamento possível, a senhora deve ser condenada, não à morte, mas às paredes da sua loucura, encarcerada para sempre, sem visitas, sem livros, o nada e a solidão por companhia, nem os guardas lhe dirigiriam a palavra. Podia continuar a respirar, já não era mau.
O segundo caso, de demência na categoria de estupidez, apresenta perda de capacidades cognitivas, verificando-se em alguém que também sofre de dupla personalidade: a pessoa em questão pensa que é escritora, o que torna o caso muito grave.
Não é caso único e é altamente lesivo para a saúde pública que existam editoras que sejam cúmplices de pessoas assim, fazendo-as crer que são o que nunca foram.
A doença apresenta sinais depressivos e psicóticos, que derivam em alucinações e em delírios, constatando-se o uso inadequado do juízo; em simultâneo confere-se a existência de imbecilidade que se caracteriza por uma sujeição ao que lhe é sugestionado, com eventual criação de perigo para os outros, ou seja, quando alvitrado para a perversidade não mostra ter escrúpulos.
Há ainda demências com gradações que levam a criatura a pensar que é inteligente; até se podia sugerir a estes seres a consulta de manuais da especialidade para verem que não há aqui uma linha de invenção, nem um simples ramal, mas não vale a pena pois "O idiota completo, ou profundo, possui um desenvolvimento inferior ao de muitos animais inferiores tais como répteis, com quem podem ser comparados em relação à evolução e integridade do sistema nervoso".
A utilização de aspas deve-se ao facto de ser uma citação, ou seja, o que alguém, mesmo que fossemos nós próprios, já escreveu antes, e essas coisas devem ser assinaladas. No caso é da Wikipédia, para não complicar.
Em conclusão, verificando-se que as doenças têm nomes estrangeiros, por exemplo, Alzheimer, Parkinson, doença de Creutzfeldt-Jakob, com origem na chamada doença das vacas loucas, esta demência que descrevi, com elevados níveis de estupidez, de imbecilidade e idiotia podia ter um nome português, uma coisa que inspire o peso desta realidade, que transporte abominação e asco, que seja mesmo repelente, que não seja uma mera coincidência. Já agora que não induza à gordura, mas antes ao ralo, ao delgado, sim, pode ser ao intestino.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

SIG o DeGóis!

Os investigadores devem estar todos registados, seus cães de raças perigosas, na FCT, Financiamentos, Cunhas e Tal, desculpem, Fundação para a Ciência e a Tecnologia. Devem também ter um currículo oficial, fiz isto, aquilo e aqueloutro.
Há uns anos, na era do Ministro Gago, acho, à Universidade do Minho, acho, foi encomendado, acho, um sistema, acho, para que cada um fizesse o seu currículo, uniforme, disponível em plataforma bonita e arrumada. É o currículo DeGóis.
Damião de Góis - aquariano (isto sou eu a meter-me comigo) - deve estar de chapéu enfiado a procurar sem descanso uma forma de voltar para pedir encarecidamente - estou a vê-lo de mãos postas, casaco de abas largas a arrojar, um joelho no chão - mudem o nome a esta coisa, por vossa e por minha mercê.
É preciso um curso para preencher o CV DeGóis. Duas pessoas que tiverem feito a mesma coisa podem preenchê-lo de forma diferente, não porque não saibam ler, não porque tenham problemas de literacia, simplesmente porque o labirinto, as ambiguidades, as repetições, são demais.
O detalhe, o pormenor levam a catalogar o DeGóis no barroco, um barroco exagerado, não um rococó, mas um re-cocó.
Enfim, mais à frente na narrativa, e depois de, muito à portuguesa, se querer deixar a nossa marca, a nossa cicatriz, mas sem nos apercebermos que, por norma, o que deixamos é um rasto de destruição do que foi feito, mudam-se os governos, mudam-se as pessoas e destrói-se tudo o que foi construído, os novos é que são os Presidentes da Junta!, e começam de novo sem verem se havia algo a aproveitar, rodam as cadeiras e DeGóis, já foste, siga o FCT-SIG!
Mais fácil, de acesso restrito aos senhores da FCT e ao próprio, tem um visual amigável e uma liberdade de expressão enorme, inserido num movimento artístico a que se pode chamar À vontade, numa alusão à posição militar de descontracção, embora sem baldas, pernocas ligeiramente afastadas, mãos em descanso atrás das costas, tronco direito, onde cada um escreve o que quer, como lhe der na real gana. Quem tem bom senso, atina, quem não tem, enjorca!
Mas porque é que temos que preencher dois currículos, perguntam as pessoas. Não têm, e se tiverem é o FCT-SIG, mas esse não dá visibilidade alguma, esconde-os, senhores investigadores, coloca-nos num limbo só conhecido pelo Big Brother FCT, não dá oportunidade de alguém os contactar a convidá-los para integrarem outros projectos, mudar de trabalho ou coisa que o valha, e hoje em dia não se habita em casas, vive-se na rede e só existimos se estivermos ON. Se não estão ON,estão a dormir, a vida é um sonho e quando acordarem é de um pesadelo.
Mas, como enquanto há vida há esperança, lá se vai preenchendo o DeGóis e o SIG, um mais que outro, Everest que se sobe dando um passo a cada vinte golfadas sugadas de ar.
Com o Inverno à porta, em dias de chuva sem hipótese de pôr o nariz fora da porta, rezemos ao grande humanista que foi Damião,  pedindo-lhe inspiração para esta epopeia, mas atenção com as santas preces, pois até ele, cidadão do mundo, emigrado e regressado, autor de crónicas reais que não agradaram a gregos e tiranos, desculpem, troianos, acabou nos braços do Santo Ofício. Amén. 

Arrasador

Curiosa, a minha irmã. Quis saber do filho mais velho se já namorava. Eu não, mas há quem namore, respondeu ele. Quem, continuou ela a querer saber. Olha, o João e a Maria por exemplo. Ai sim?, mostrou-se admirada, Então e eles passeiam de mãos dadas? continuou ela perdida no tempo. Não, nada disso, não te esqueças que eles apenas têm em comum o facto de respirarem e tirarem negativas.

Hoje deu-me p'raqui

Albert Camus era Escorpião. Não sei se ele saberia, mas nós sabemos. A possibilidade de ele não saber coloca-se na perspectiva de não ligar a signos, nada mais. Porém, e a acreditar no que se diz do feitio dos Escorpiões, não admira que tenha escrito A Peste. Um Aquário não escreveria A Peste, atacava-a para o bem-estar da humanidade.
Mas os Escorpiões são assim, é da sua natureza como diz a anedota, séria, by the way. Veja-se o nosso Saramago, também Nobel, onde terá ele ido desencantar aquele título sádico - As intermitências da morte - morre, não morre, morre, não morre, tipo semáforo, que angústia e que paciência!, e se nestas intermitências estão as pessoas no cemitério, de roda do funeral, o tempo que se perde, e outros a quererem, eles também, morrer, e as pessoas com jantares e almoços para fazer, e filhos para irem buscar às escolas, e compras de supermercado à espera e tanta coisa parada.
Andre Gide, por seu turno, escreveu sobre Édipo, de onde se pode concluir que é um complexado, Odysseus Elytis, com um feitio do contra, levou a maldade bem longe escrevendo em grego!, e Gerhart Hauptmann deu-nos o quê? Os ratos! tal e qual, assim, tipo praga.
Mas não se pense que são só os homens, não; Nadine Gordimer escreveu Get a life que, como todos sabemos é expressão para deixa-me da mão, vai por onde vieste, não deixas saudades, e isso não é bonito nem fica bem, como um preto de cabeleira loura ou um branco de carapinha.
Selma Lagerlof, por outro lado, é uma plagiadora, que ainda por cima baralha tudo, e A lenda da rosa de natal é a prova disso! Não é lenda da rosa e sim Milagre das Rosas, e já desde o século XIII. Note-se o esforço feito para ocultar as provas da óbvia cópia!, e de Natal não é uma rosa, é uma árvore, informação também do domínio público.
Já um Aquário como Mo Yan, é um bem-disposto como se prova com o título Shifu, You'll do anything for a laugh.
Coetzee, tem um Summertime, cenas da vida da província, que nos induz para uma calma e tranquilidades desconhecidas dos Escorpiões.
O senhor Kenzaburo Oe, Nobel desde 1994, autor de Não matem o bebé, Um eco do céu ou Dias tranquilos, é o quê? Aquário, pois claro.
Já a senhora Toni Morrison, escreveu nada mais nada menos que... O Paraíso. É aquário tal como Derek Walcott, que coloriu a noite de esperança com In a green night.
E que dizer de Boris Pasternak, nobelizado desde 1958, que colocou o Dr. Jivago na nossa vida? O que se pode pedir mais?
Sinclair Lewis, outro Aquário, foi um visionário de tal forma que escreveu World So Wide, isto em 1951. Havia de ter sido World Wide Web, mas naquela altura ele usava caneta de tinta permanente, o título ficou um bocado esborratado e acabou assim, o que não lhe tira mérito.
Porém, de quem não sabemos o signo, mas eu apostava num Aquário, pois claro, é de Luís Vaz de Camões. Nem o ano da sua vinda ao mundo é certo, talvez em 1524, talvez. A dúvida sobre se Os Lusíadas foram uma encomenda também não está resolvida, mas eu apostava que sim dadas as condições de vida posteriores, miseráveis.
Quem não é Aquário nem Escorpião
É Dom Sebastião,
O encoberto,
O esperto,
Que fugiu para o deserto,
Portugal boquiaberto,
Para sempre, incerto.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

La fille du régiment

O Teatro de São Carlos é a única casa de espectáculos nacional com vocação para receber óperas.
Uma ópera não é um musical, mas antes a sintonia perfeita entre o teatro e a música, ou pelo menos assim a sinto desde a primeira vez, já vão quase trinta anos, quando vi La Traviata, no Coliseu de Lisboa.
Ontem fui à estreia de La fille du régiment, bilhetes ganhos através de um programa de rádio, expectativa de um lugarzinho ao pé dos dourados do tecto e, afinal, plateia central.
Convidei uma amiga que se foi estrear nestas andanças e que saiu a adorar. Fã de teatro, cinema, de música sinfónica e de escultura, andava à espreita de uma oportunidade que apareceu do céu.
Entrando num templo como é o São Carlos, e como me acontece nos castelos e palácios, nem preciso de fechar completamente os olhos para viajar no tempo, basta-me semicerrá-los e logo vejo o José Maria de monóculo com o amigo Ramalho. Ao contrário da noite de ontem, quente demais para a época em que estamos, faz frio, há mulheres que sorriem no meio de arminhos e Eça conta a Ramalho pormenores da sua viagem ao Oriente. Logo a seguir Gaetano Donizetti entra-nos pelos ouvidos.
Parece contraditório mas acabo por nunca me entregar completamente ao espectáculo pois tenho que me segurar para não me levantar a agitar os braços, tal a força que a conjugação da música com o cante têm em mim.
A sala estava cheia e Marie - Cristiana Oliveira - esteve melhor que Toino - Alessandro Luciano - e ambos muitíssimo bem acompanhados pelo Coro do São Carlos e pela Orquestra Sinfónica Portuguesa.
O estilo cómico da ópera levantou sorrisos e a mim ainda me levantou a sobrancelha quando no placard com a 'tradução' aparecia a promessa de fusilarem alguém...
Oh senhores ouvintes... apreciem o espectáculo e deixem-se de biolências.

De A Ilha do Tesouro para a sociedade de consumo

To the hesitating purchaser

If sailor tales to sailor tunes,
Storm and adventure, heat and cold,
If schooners, islands, and maroons,
And buccaneers, and buried gold,
And all the old romance, retold
Exactly in the ancient way,
Can please, as me they pleased of old,
The wiser youngsters of today:
—So be it, and fall on! If not,
If studious youth no longer crave,
His ancient appetites forgot,
Kingston, or Ballantyne the brave, 
Or Cooper of the wood and wave:
So be it, also! And may I
And all my pirates share the grave
Where these and their creations lie!
(Robert Louis Stevenson)

Uma aventura ao sábado de manhã

Saio de casa para ir ao supermercado e faço uma paragem técnica na pastelaria da esquina para beber um café. Fico uns minutos à conversa com a minha vizinha da lado, uma velhota querida, viúva mas apaixonada. Quando vou a entrar no carro lembro-me que me esqueci - esta frase é genial... - dos sacos em casa. Não gosto dos sacos dos supermercados, rasgam-se facilmente obrigando-nos a andar de rabo para o ar a apanhar o rasto de compras que fomos espalhando.
Subo ao meu quarto andar, entro em casa, viro à esquerda para alcançar a despensa onde estão os sacos mas estaco à porta da cozinha: na janela da dita baila uma perna humana.
Demoro uns segundos a processar a informação visual e, qual Miss Marple, avanço para deslindar o caso.
Abro a janela toda, que tinha deixado entreaberta, como quase sempre, e vejo um homem preso por uma corda e respectivo arnês com um minúsculo pincel a pintar o interior das protecções dos estendais.
Mas então... ninguém nos avisa que vêm fazer este serviço? Entabulo conversa e dou por mim a falar com um homem descalço - é-lhe mais fácil para se apoiar, segundo ele - a baloiçar ao nível de um quinto andar, ele em cima e eu em baixo, salve seja.
Para além de não termos sido avisados - há vários estendais com roupa, incluindo o meu - ele afirma que isso não é com ele, tanto mais que ele nem é funcionário da empresa (o quê?!), apenas foi substituir um amigo que lhe pediu (o quê?!).
Então, mas e o seguro? Qual seguro? Então, mas e a roupa nos estendais? As janelas estão abertas e eu atiro-a para dentro das cozinhas. Então, mas e... espera aí! Isto é conversa para o administrador do condomínio, não para o praticante de bungee jumping.
O senhor administrador não estava em casa e, depois de fechar a janela e os estores, que isto somos todos muito sérios até nos começarmos a rir, desci a avisei a vizinha que ainda estava de volta da meia de leite de máquina com uma torrada.
A senhora quis imediatamente ir a casa, certa que a janela da cozinha tinha ficado escancarada; pediu-me que fosse com ela e constatámos que a janela estava de facto aberta, o praticante de trabalhos radicais voltou a cumprimentar-me e disse à simpática velhinha que tinha entrada na cozinha e tirado um pano da louça, é que, sabe, explicava-se ele com naturalidade e legitimidade, o alumínio aqui da sua janela está muito desgastado e dá-me cabo dos pés. 
Eu esperava a todo o momento que aparecesse alguém a gritar Smile, you are on Candid Camera!, mas nada aconteceu, para além da minha vizinha ter resolvido imitar um peixe fora de água, a abrir e fechar a boca, virando a cabeça ora para mim, ora para a janela onde o homem se balançava.
Renovados e polidos pedidos de desculpa acompanharam o fecho da janela e do estore, a pobre mulher quase em apoplexia, eu furiosa com o administrador que, mais tarde, pediu desculpa ao prédio inteiro pelo esquecimento de avisar da intervenção nos estendais. Enfim, é um prédio português...

Uma história de amor

A magia das notícias sobre o estado do tráfego rodoviário tem sido menosprezada de uma forma inqualificável, e injusta, diga-se de passagem.
Descrevendo e realçando os pontos chave que impedem a livre circulação dos veículos, os radialistas produzem obras de arte espontâneas, lamentavelmente efémeras e para as quais se pede reconhecimento.
Os condicionamentos do trânsito consubstanciam a acção de um romance sobre rodas, que ora avança, ora recua, com inesperados e surpresas que até aos Nobel da Literatura escapam.
Somos informados sobre supressão de vias e voltamos atrás no tempo, suspirando como em Simplesmente Maria, a eterna rádio-novela portuguesa.
Os personagens são reconhecidos, o IC-19, sempre rebelde, a Ponte 25 de Abril que, não se percebe como, mas está sempre grávida de carros, a Calçada de Carriche, a quem muitos chamam a Calçada da Carris, os Cabos D'Ávila, onde já desde o Simplesmente Maria não há cabos nenhuns, a vaidosa A-5 que vem todos os dias de Cascais, mais rápida mas sem o fascínio da velhinha Marginal, outra protagonista desta novela.
Já no Porto temos a Via Panorâmica, linda e eternamente demorada em direcção ao Campo Alegre, a AEP, a VCI, quais agentes secretos, em busca da Sidónio Pais ou da altiva Faria Guimarães.
Na trama contam-se inúmeras supressões de vias - são personagens que são afastadas por um ou outro motivo mas que voltam em episódios posteriores - e executam-se trabalhos, sinónimo tantas vezes usado para designar a morte de alguém. Morte, crime, obstáculos, vidas em jogos, sinalizações várias são momentos a que já nos habituámos, mas que em nada se comparam ao ponto alto que são os acidentes: O trânsito está congestionado porque um ligeiro se envolveu com um pesado.
Isto é lindo... até o trânsito pára devido a um envolvimento, lembra os Montecchios e os Capuletos, amores proibidos entre brancos e pretos de famílias racistas, filhos mais novos de inimigos da Mafia envolvidos em escaldantes amores, aventuras de uma manhã, paixões intensas sob a chuva que cai miudinha em Lisboa, numa palavra, romance.
Espero ter contribuído para aguçar a curiosidade auditiva para subtilezas como os problemas técnicos que interditam a passagem de peões e viaturas na Ponte Móvel de Leixões, o que obriga a procurar outros caminhos e que surpresas quentes trarão esses outros caminhos só saberemos por experiência própria..., ou que se passe a ouvir com outros ouvidos a notícia sobre o acidente ao quilómetro dezoito entre Campo e Valongo, que provoca trânsito bastante demorado, qual namoro antigo, que se arrastava por décadas por entre paixão e desejo.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Mas quem é que manda aqui?

O meu corpo é um rebelde, um ser de convicções, um revolucionário.
Avisado - não sei por quem - que já não havia feriado dia um de Novembro, decidiu rebelar-se e dois dias antes acometeu-se de febres, de dores, de mal-estares, de tal forma que tive que ficar com ele em casa no último dia de Outubro. Enfrasquei-o em medicamentos contra as gripes e as constipações, obriguei-o a beber litros e litros de água e dia um, contra a vontade dele, levei-o até ao trabalho.
Por lá se arrastou, eu bem via que a vontade dele e nada eram a mesma coisa, mas não teve outro remédio.
Só para me aborrecer, no sábado impediu-me de fazer a caminhada e de ir ao mercado, logo agora que descobri uma cigana que vende roupa em segunda mão em excelente estado. Deste distinto estabelecimento veio o meu novo casaco Burberry, por uns meros cinco euros, tendo eu deixado apalavrada outra peça de roupa para este fim de semana, já com o ordenado na algibeira.
Mas não, lá ficámos em casa o dia todo, deitados a olhar a televisão, não a vê-la, ou a dormir. Ao fim do dia consegui arrancá-lo daquele marasmo, acenando-lhe com um vibrante passeio ao supermercado. O teimoso não queria ir, ainda fez uma birra enquanto o vestia e, mais uma vez, foi obrigado.
Tivemos uma longa conversa onde lhe expliquei que não era nenhuma máquina e que não se armasse em futurista a querer controlar-me. Espero ter deixado bem claro quem é que manda aqui, eu!

Eu juro, juro mesmo

Sendo a gasolineira do Jumbo a mais barata em toda a área metropolitana da minha casa, fiz-me à fila. Tempos houve em que não me apanhavam ali, à seca, mas, como dizia Camões, mudam-se os tempos, mudam-se as vontades.
Como calculava, havia fila, não era grande, mas cada bomba tinha cerca de cinco a seis carros à espera. Rapidamente me apercebi que tinha ficado na bicha dos maricas: ele era levantar de mangas de camisas, ele era casacos pelas costas, ele era óculos no alto da cabeça, ele era cem folhas de papel para evitar o contacto com a mangueira, como se fossem um preservativo, ele era luvas, ele era tudo, mas tudo para atrasar ainda mais a espera. Paciência.
Era de noite, embora fossem umas seis da tarde, quando chegou a minha vez. Senti-me como se me tivesse enganado e tivesse entrado na casa de banho dos homens: calções, casaco de capuz e ténis, meti combustível em três tempos, sem luvas nem pergaminhos, a desafiar com o olhar os condutores dos carros de trás, garantidamente maricas, eles e elas, já se tinha percebido, eu é que me tinha enganado na fila.
A pressa era tanta que só não entrei no carro em andamento porque tenho que lá estar dentro para o pôr a trabalhar. Olhei de esguelha para trás, bomba três, enquanto avançava lentamente para pagar, metendo ao mesmo tempo a mão no saco para tirar a carteira,... a carteira..., a mão não queria encontrava a carteira? Nada disso, a carteira ficara em casa. Com mil milhões de macacos, disse eu de mim para mim.
Chegada a minha vez expliquei que não tinha dinheiro, que me esquecera, que nunca tal me acontecera, que era a primeira vez, que apenas tinha os documentos do carro e o telemóvel, não, não tenho ninguém que me possa trazer o dinheiro, tenho que ser eu a ir buscá-lo. Mostrei os documentos enquanto o carro de trás fez sinal de luzes. De dentro da guarita apareceu um papel onde escreveram tudo e mais um par de botas sobre mim e de trás ouviu-se a buzina e um Então? aborrecido. Assinei o papel e prometi com toda a convicção voltar passados vinte minutos. A cancela levantou-se e eu avancei mas ainda ouvi uma reclamação sobre o tempo que demorei... glup...
Fui a casa, lá estava a carteira na mala que usara no dia anterior, voltei, parei o carro fora das filas, meti-me à frente de um veículo com um sinal de desculpe lá, é um minutinho, paguei, rasgaram o papel com a minha ficha mais completa que qualquer relatório policial, meti-me no carro outra vez e fui embora a jurar nunca mais gozar com os molengões. 

Último grito

Ontem vi um filme onde um cão ameaçava morder os pés de uma mulher que passava na rua. A dona do animal agarrou-o ao colo e acariciou-o, falando-lhe baixinho. Para o acalmar? Não. Para lhe segredar que o compreendia bem pois os sapatos da mulher eram da colecção do ano anterior.
Hoje não corro o risco de ter um cão a querer morder-me os calcanhares porque não trago sapatos da colecção do ano passado - era o que faltava! - trago uns acabados, mas acabadinhos mesmo, de sair da caixa de sapatos de Inverno, comprados numa feira de descontos, a Feira dos Stocks de Coruche, quando a minha irmã estava grávida da minha sobrinha e a minha sobrinha fez nove anos no último quatorze juillet, allons enfants de la patrie, já a mãe dela faz a quatorze mas de Agosto, numa clara e evidente lembrança da batalha de Aljubarrota, o filho mais novo viu a luz do dia a vinte e três de Novembro, o mesmo dia em que nasceu Billy the Kid, e o mais velho, adiantado, como sempre, nasceu a quatro de Outubro.
Os sapatos são tipo sapatos de mãe, com um saltinho elegante, nada de exageros, não porque não gostasse, mas porque não consigo, a pena é grande e é minha.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

A amizade é uma coisa muito bonita

Só nos faltava um cão. Éramos cinco, sempre juntas nas aulas e por vezes brincávamos que para sermos protagonistas dos famosos livros da Enid Blyton, só nos faltava um cão. A conversa era sempre a mesma: a seguir alguém dizia que o Tim, o cão do grupo, era um dos cinco, logo, uma de nós seria o cão! Negávamos, aceitávamos, tirávamos à sorte, qualquer coisa servia, pois não é fácil cinco mulheres darem-se bem como nós nos dávamos.
Passaram-se anos e hoje uma de nós vive no Algarve, outra no Funchal, outra no Fundão, uma no Cacém e eu na Amadora. Foram dois anos das nossas vidas - enquanto durou o curso de Ciências Documentais na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa - que nunca mais esquecemos e a prova disso é que nos continuamos a falar. Porém, o elemento do Fundão não era avistado há anos e ontem estivemos juntas na Gulbenkian.
Pareciam ter passado duas horas desde a última vez que nos víramos e percebi que sentia imensas saudades das gargalhadas dela.
À noite fiz inveja às outras por telefone: estive com a J. que mantém a mesma cara de miúda, o mesmo riso contagiante e alegre e temos mesmo que nos encontrar todas, mas encontrar mesmo, sem ser aquelas mentiras do costume, que temos mas nunca mais fazemos nada para viabilizar a coisa.
Com enorme expectativa combinámos ir ao Algarve a casa da M.
Tenho a certeza que vamos e até me arrepio de pensar no fim-de-semana de boa disposição que se criará. Tomara já que fosse hoje...

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Tanto e tão pouco

Jurgen Habermas é o cabeça de cartaz da Conferência Internacional de Educação promovida pela Gulbenkian, Os Livros e a Leitura: Desafios da Era Digital.
Cedo ainda, já eu lá estava e foi com dificuldade que encontrei lugar numa sala: para além do auditório reservado para o efeito, todos os espaços foram ocupados com os interessados na matéria e, claro, interessados em ouvir o grande pensador; cadeiras, escadas, chão, vãos de janelas, encostados à parede, qualquer sítio era bom.
Porém, o grande pensador - estatuto inegável - é alemão, todos sabíamos. Também todos calculariam que falaria em inglês, no surprise; também sem Überraschung verificou-se um forte sotaque alemão, mas, pelo menos para mim, a surpresa maior foi o facto de o senhor ser fanhoso e, aparentemente, estar constipado. Assim, uma voz com as debilidades naturais de oitenta e quatro anos, a falar uma língua estrangeira com marcadas cicatrizes da língua original, fortemente nasalada é igual a falta de passagem da mensagem, perceptibilidade zero.
O filósofo por quem eu ansiara mostrou-se-me ausente: a pessoa muito capaz de escrever, de pensar, reflectir, ponderar, pode até ser fisicamente capaz de ser entrevistado, de conversar, mas não de dar uma conferência, onde se afiguraram fantasmagóricas as partes visível e audível, no fundo, o contacto com quem o escutava.
Não se pode prescindir de certas cabeças, aquelas que parecem ter um exército de átomos sempre a renovar-se, produzindo visões e conceitos e abordagens e críticas, mas também não se devia pedir, nem aceitar, uma situação que roça o embaraço, uma pesca à linha de palavras, como quem sorve, mas não saboreia.
Em Outubro do ano passado, também na Gulbenkian, ouvi Alberto Manguel, durante quinze minutos. Na altura dei conta disso. Foi um inspirar, não chegou a ser respirar... tanto e tão pouco, agora reproduzido, noutra versão, outra desilusão.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Chuva, chuva, chuvinha...

Combino com o Duarte estar em casa antes das oito, hora a que ele tem de sair para chegar a horas ao treino. Esqueço-me das horas e saio do trabalho atrasada. Corro. Apanho o metro e não tenho outro remédio se não ir ao ritmo dele, parando nas estações, esperando as pessoas sair, entrar, fechar portas, arrancar devagar em cada estação, essas coisas.
Na paragem final, a minha estação, levanto-me bem antes da carruagem começar a diminuir a velocidade, tenho pressa. Assim que pára, diante da porta, sou a primeira a sair, e ao som da música que me habituei a ouvir com headphones, fruto do zumbido que nunca passou e para o qual não tenho verba para a operação, subo as escadas a correr, a correr continuo nas primeiras escadas rolantes, mais rápidas que as primeiras, subidas a poder de músculo, salto para as segundas, também rolantes, sempre a trautear a música, e dali salto para a rua.
Não me contive e FUCK... ouço-me a mim própria, vejo pessoas paradas a olharem-me. Os headphones caem. Dou um passo atrás, tiro o impermeável da mala, mas o mal está feito: estou irremediavelmente encharcada.
A pressa era tanta que nem dei conta que chovia a canivetes e saltei literalmente para a rua. Nada a fazer. Caminho para o carro, a cantarolar, com o impermeável pela cabeça, afinal, não devemos ter medo da mudança do tempo, apenas devemos aprender a dançar à chuva, não é assim?

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

CHULO

O email vem com o assunto em maiúsculas. CHULO.
Tal como nas imagens televisivas que engolimos com a sopa do jantar, de guerras, pobreza ou da miséria instalada, imagens e situações que já não transmitem novidade, que já se esgotaram, também a situação do senhor Jorge Viegas Vasconcelos da ERSE, aborrece-nos mas vai para o saco do nada.
Demitiu-se mas vai continuar a receber não sei quantos milhares, à pala da malta, mais um, são tantos que nem todas as equipas de futebol do mundo inteiro lhes conseguem ganhar.
Por vários motivos isto lembra-me Começar do Nada, de Konsalik, relido recentemente e do qual se extraem as duas seguintes passagens (com um pedido de desculpa pela imperfeição da digitalização):




Se os truques são os mesmos há séculos, porque nos deixamos entruquizar?

É do dia, só pode ser do dia

É do dia, só pode ser do dia, da chuva, do cinzento que me transmite esta tristeza profunda, não há-de ser de mais nada.
Não pode ser da surdez de quem eu precisava que me ouvisse, da insensibilidade de quem eu esperava que fosse sensível, da falta de preocupação de quem tinha obrigação de se preocupar, da cegueira de quem devia ter olho de falcão.
Escolho a música, escolho-a alegre e descontraída mas de repente já estou a ouvir melodias que cavam mais fundo nesta tristeza; desligo o rádio, forma de expressão para dizer que fecho o youtube, e daí a nada lá está ele a tocar novamente, como se a música fosse a última companhia, o derradeiro afago, um abraço compensador.
Acredito que o problema será meu, que nunca me mostro frágil e de repente é como se todas as fragilidades e fraquezas viessem ao cima, com a água da chuva, ficam a boiar diante de mim e não tenho forma de as afastar. Quando dou conta explodem à minha volta, trazendo lembranças e memórias, injustiças, falta de reconhecimento, infidelidades, esquecimentos, risos cínicos, e trabalho, muito trabalho, que uso da melhor forma possível para me afastar de tudo, até de mim. Afasto também as lágrimas cerrando os dentes, tanto, tanto que temo parti-los. 

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

É um bilhete para outra dimensão, se faz favor

Acabei de saber que os transportes vão fazer greve na semana que vem. Gostava de saber também o que ganharam com as greves já feitas.
Eu sei que é um direito, respeito-o e tudo isso, mas no direito à greve de uns está o prejuízo de milhões outros. Eu também sei que sou só uma desses milhões, mas, que diabo, posso aborrecer-me por ter que faltar ao trabalho e no fim do mês ver o meu já fantástico ordenado ser ainda mais fantástico, ou não? Não tenho condição para solidariedades destas. E se a tradição fosse peremptória e mostrasse grandes, vá lá médias, ok, concedo, mesmo pequenas conquistas, eu ainda compreendia, mas assim...
Além disso, e será a ignorância a falar, visto que a tenho em demasia, mas pode-se fazer greve por não se querer ser privatizado? Alguém terá isso em conta? Quem ouve essa voz? Pois se não ouvem as dos esfomeados, as dos alunos sem ensino, nem o eco da justiça, que tão longe anda que nem lhe ouvimos o sussurro, não ligam puto à inexistência de saudabilidade na saúde, fazem a caminha de lavado para que a corrupção se instale, se deite confortável, e vão ouvir a voz da greve? Alguém acredita nisto?
Quanto poupam as empresas de transportes com os favores que os empregados lhes fazem, fazendo greve de vez em quando? Há dias paguei três euros e vinte cinco por um bilhete de autocarro, porque havia greve de metro. Uma refeição completa no meu local de trabalho é de três euros e meio e eu trago almoço de casa todos os dias! A minha ruína passa pelas medidas do governo e também pelas greves dos transportes. 

O Inverno chegou aos transportes

Hoje inaugurei uma nova categoria de pessoas (isto soa mal...) a quem dar o lugar nos transportes (melhorou um pouco, acho eu). Velhos, grávidas, ossos partidos, a essas situações já se juntavam pessoas a ler - estando eu a ouvir música por exemplo - e hoje juntou-se uma senhora a fazer malha.
Ontem vi de relance um objecto que me suscitou imensa curiosidade, mas foi tão a correr que nem percebi o que era: havia uma coisa redonda, de plástico, pareceu-me, e uns novelos de lã coloridos, o que dava um resultado invejável. Mas esta visão foi já em pé, pronta para sair e a curiosidade morreu na saída do metro, quando me esqueci do assunto.
Hoje ia sentada a ouvir música quando vi entrar a moça, era aquela, garantidamente. Por sorte aproximou-se do local onde eu estava e levantei-me. Ela sentou-se logo, como se estivéssemos combinadas, e sacou da malha! Os meus planos funcionavam...
Com os dedos e uma agulha como a da imagem fazia crescer uma peça de roupa.
A velocidade dos dedos era invejável e eu já me imaginava a fazer concursos, ela a terminar uma camisola digna das terras altas da Escócia, para um qualquer imortal, dois metros de altura, cabelo comprido, e eu a meio de um cachecol para as bonecas da minha sobrinha.
Tal como na cozinha onde não consigo reproduzir as receitas, acrescentando-lhe sempre qualquer coisinha, também não deixei de pensar como ficaria se utilizasse linha, ráfia ou corda; só haverá coisas daquelas redondas? E para uma cortina ou coisa que o valha, como fazemos? Vou saber tudo o que há para saber no ramo dos plásticos redondos com bicos para se entrançar a lã e fazer peças várias e depois darei notícias. Não garanto que seja nesta vida.

Romeu e Márcia

A madrugada caminhava ainda ensonada, acabada de entrar ao serviço. O jovem sentia-se morrer por dentro, e se ela não o aceitasse de volta? Márcia, Márcia, Márcia, deixa-me voltar, gritava em palavras, em silêncios, em olhares, em lágrimas, em cartazes.
Não é preciso ser polícia para perceber que não é o interesse que move o nosso jovem, é o amor.
Tudo indica que Márcia não usa carro - não usa, não tem? não sabemos - vem de metro. À saída da estação do Marquês de Pombal, para a Alexandre Herculano, Romeu deixa uma mensagem:
Mas, terá Márcia mudado o percurso? Eventualmente perturbada com o fim do relacionamento, terá pedido boleia a alguém, evitará o metro? O melhor é prevenir:
Cem metros adiante, à porta da universidade e em local de difícil acesso, o que leva a supor ajuda, nova mensagem, pública, explícita, implorante: Eu preciso de ti, és a única pessoa que me faz feliz, adoro-te Márcia.
Com desconhecimento total da situação, mas confrontada com estes cartazes, nado em inveja. Lembro-me de Mr. Darcy, um eterno namorado de toda a gente, que o cinema fez sempre bonito, como se a beleza fosse ainda necessária naquele mar de romantismo, de seriedade, de carácter, de personalidade.
Imagino o sorriso de Márcia, o ciúme das amigas, a inveja dos amigos por falta de coragem para assim se declararem. Não quero imaginar o que terá feito Romeu para que Márcia o tenha deixado (?), hoje opto por um atitude de pleno amor, de romantismo sem limites, imaginando um qualquer mal entendido que já teve solução e neste momento sorriem ambos sabendo que serão felizes para sempre.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

José de Figueiredo

Há um largo à beira do Museu Nacional de Arte Antiga com o nome do seu primeiro director, José de Figueiredo.
Este homem foi um amante da arte e um caçador recolector de tudo quanto era arte portuguesa dispersa pela Europa. Não admira ter sido também o primeiro director da Academia Nacional de Belas-Artes, que instituiu um prémio com o seu nome, a atribuir a edições de destaque sobre arte e património.
Ontem foi a entrega deste prémio - a dois autores - bem como a entrega de outros prémios instituídos pela Academia: Aquisição-Pintura, a Graça Morais, e o prémio Gustavo Cordeiro Ramos foi para o (ausente) Domingos Loureiro.
Com o busto original da República a seu lado e D. Maria II, autora do decreto que criou a Academia, por trás de si, Graça Morais disse o que todos sabemos: ninguém quer saber e a Sr.ª Albuquerque terá os mesmos direitos jornalísticos, televisivos e comunicacionais do costume, a cultura é dispensável.
O mesmo tratamento de silêncio receberam os livros premiados, de Nuno Vassallo e Silva, Ourivesaria Portuguesa de Aparato, e de Miguel Figueira de Faria, como coordenador de uma equipa e também autor, Do Terreiro do Paço à Praça do Comércio: História de um Espaço Urbano.
Para além da Sr.ª Albuquerque e das brincadeiras de cirurgião que andam a fazer a Portugal, havia também a imbatível selecção portuguesa de futebol e o mundial, perseguido como um atraente pescoço por uma cambada de vampiros. Que espaço haveria para se falar de livros?

O meu silêncio

Tenho um trabalho para terminar e muitos outros na fila de espera. Levanto-me a meio da noite e chego às cinco e meia da manhã ao palácio onde passo os dias.
Eu sei, eu sei, sou uma triste, não tenho mais nada para fazer... ou não... ou gosto muito do que faço e estou a ralar-me para coisas como os horários, ou tenho ritmos diferentes, ou ninguém tem nada a ver com o que faço de noite.
O segurança está fora do portão. Estranho... É novo, não o conheço, nem ele a mim. Identifico-me, digo-lhe que confirme na lista que tem na sua secretária e peço-lhe a chave do meu serviço. Explica-me que o quadro da electricidade estourou, não há luz, ele apanhou um grande susto, pensou estarem a roubar a caixa multibanco, paredes meias com o seu gabinete.
Já ligou à EDP que só vem quando o electricista da empresa estiver presente pois o quadro tem fases de alta tensão. Pensei na Síria, mas não disse nada ao rapaz não fosse ele pensar que eu era uma terrorista.
É curioso como é impossível mandar nos pensamentos e nos cruzamentos que fazem, as ligações, os links, em linguagem moderna.
Movem-se como querem, com explicações imediatas, aparentes, sem explicações nem contextos plausíveis à primeira vista, muitas vezes, nem à segunda ou terceira.
Por isso não falei na Síria quando o rapazito contava o estouro do quadro eléctrico. 

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Descubra as diferenças

Uma querida amiga paulista enviou-me um presente. Não o recebi das mãos do portador pois ontem estive ausente, mas hoje admirei o saco, o laço do embrulho, a mensagem, reconhecível no redondinho da sua letra, que transporta carinho e simpatia.
Cada vez que um conterrâneo seu vem a Lisboa, ela presentei-me e mima-me, desta vez a excepção consistiu em eu não ter conhecido a pessoa que fez a gentileza, como ela própria diria.
Assim, logo pela manhã tive uma espécie de surpresa, o que me agradou imenso: lembrarem-se de nós é fantástico!
Querendo partilhar a alegria e a delicadeza do presente fui repartir a doçura com as minhas colegas. De dentro do saco retirei um embrulho magnífico e depositei em cima da mesa dois enormes doces de aspecto delicioso, afirmando por antecipação o quão bons deviam ser.
Elas olharam-me com ar estranho e eu, logo apressada, fui dizendo que um bocadinho só não lhes fazia mal, eu é que tenho que me conter, a cortisona não é compatível com estas coisas. Elas acentuaram o ar estranho e disseram-me que era uma pena partir os sabonetes ao meio ...

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Que susto!

Levantei-me com sono a mais da conta para quem se tinha deitado a horas razoáveis. Levantei-me sem fome, como se já tivesse comido. A mala e o saco da papelada que me acompanha - pediram-me a revisão de um livro - pesavam mais que ontem.
O dia profissional começou num local díspar do habitual, a viagem de metro incluiu as linhas azul e a verde, a estátua do marquês Sá da Bandeira parece-me ter um ar homossexual no qual nunca tinha reparado.
Dei o meu melhor numa reunião importante onde tinham pedido a minha presença, sentindo um incómodo enorme por estar sentada. A má disposição geral aumentava, a dificuldade em respirar e a dor no peito também. Há uns segundos que não posso reproduzir porque desmaiei.
O INEM, chamado por colegas, levou-me ao hospital: suspeita de enfarte.
Felizmente enganaram-se, assim o ditaram os exames que a pulseira laranja conseguiu que me fizessem a correr. Estou sã como um pêro, coração, pulmões, tenção arterial, análises. A única nota negativa foi no  batimento cardíaco, acusando-me de o ter preguiçoso! Lento, emendaram logo, sorrindo. Eu também sorri explicando que é sempre assim, digno de atleta de alta competição, e atirei ao acaso, 50? Foi por cima, eram 48.
Problemas musculares ou ataque de ansiedade - que não consigo explicar - foram causas possíveis apontadas pelo médico. Com um relaxante muscular e a recomendação de voltar se não me sentisse bem, mandou-me embora.
Tirei a tarde e expliquei às minhas colaboradoras que tudo isto fora uma manobra para andar de ambulância e poder dormir a sesta...
Sentindo ainda um ligeiro aperto no peito e nas costas, perto da hora de jantar estive em perfeitas condições de conversar com um colaborador da ZON para mudar de fornecedor. Há que procurar as melhores condições e os preços mais baixos, senão, é desistir que as coisas não estão fáceis. Mas como passo muito tempo em casa, vou fazer um esforço para manter esta companhia, evitando ter um enfarte de televisão.
Amanhã de manhã, como um bom soldado, estarei no meu posto. Foi só um susto...

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Takk

As saudades do V. são sempre muitas. Por isso foi com ansiedade que chegou esta semana, na qual ele prometera uma visita. Veio acompanhado por um amigo de quem já ouvira falar frequentes vezes, dono de loja de albarrábios, que o mesmo é dizer mago destas coisas dos livros.
A Praça do Comércio recebeu-nos com sol e a mesa no Martinho ao almoço com peixe grelhado para uns e favas para outro. E vinho. E excelente disposição. E conversa, a minha aos saltos, no meu estrangeirar, que se dane!
Senti imediata empatia com o norueguês e passei a adorá-lo quando percebi que idolatrava o V., tal como eu, suposição que ficou no ar ao almoço e foi confirmada ao jantar - fiz um intervalo de tarde para ir trabalhar...
D. José acolheu-me debaixo do seu cavalo enquanto os esperava ao fim do dia, com um jantar em Cacilhas debaixo de olho. Conhecedora exímia da cidade onde trabalho, encaminhei-os para a estação fluvial em direcção ao Barreiro. Estando as máquinas de venda de bilhetes out of service - todas! - fomos à bilheteira, onde percebi o engano. Saltámos para um autocarro, transporte que não apanhava há anos e que, curiosamente, hoje voltei a usar, face à greve do Metro, e fomos para o Cais do Sodré.
Não sei se por solidariedade com as outras máquinas, mas também aqui estas estavam out of service... sobrava uma e não dava troco, não aceitava pagamento com multibanco, lá se tiraram três bilhetes - um de cada vez! - e fiquei com as notas de crédito para levantamento posterior.
É tão bom termos as coisas mas nada funcionar, não é nada terceiro-mundista, fazem-se filas de gente na bilheteira, quem mete dez ou vinte euros na máquina e não pode recuperar a demasia reclama e insurge-se contra a máquina, são muito vivos e dinâmicos aqueles momentos...
Finalmente, chegamos a Cacilhas, o sol já não podia esperar mais por nós e tinha desaparecido deixando um rasto cor-de-laranja, ainda assim, impressionante, as gruas do porto a desenharem-se à contra-luz, espuma branca efémera a formar-se e desfazer-se enquanto outro cacilheiro passa por nós, imagem sempre memorável.
Caminhamos no Cais do Ginjal em direcção ao Atira-te ao Rio ainda com luz. Falamos, falamos, falamos, comigo a tropeçar na língua a cada passo, mas fascinada com o que o norueguês sente pelo V., aproveitando dois momentos em que se ausenta para rezarmos ao mesmo Deus, abrirmos os olhos de felicidade pelo amigo comum, comungarmos naquela amizade, elogiando mais que merecidamente quem não gosta de elogios, os dois com a certeza que um dia o V. será descoberto. Descoberto pela sua inteligência, pela sua enorme e inultrapassável capacidade de análise da vida, pela sua forma de escrever, pelo talento para cruzar conhecimento imprimindo-lhe mais valia, pela sua memória, da qual morro de inveja, assim como pelas línguas onde se espraia, que me faz ciumenta.
O V. é uma pessoa que me faz sentir segura só por estar ao lado dele, fico feliz por saber que não sou a única e por poder partilhar esta sensação com alguém que convive com os Invernos noruegueses, como se a amplitude térmica que ambos simbolizamos fosse a escala para a dimensão do V.: dos calores alentejanos aos gelos nórdicos, o V. é universal.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Parabéns a vocês!

A senhora minha mãe e o cavalheiro meu sobrinho fazem hoje 69 e 11 anos, respectivamente. Falo-lhes por telefone, rimos, brincamos, combinamos jantar, todos juntos, todos juntos, lá, lá, lá...
Ela encolhe os ombros sobre o ano a mais - eu não vejo mas sei que o está a fazer - ele diz que é exactamente igual a ontem e acrescenta:
- O teu dia é que podia ser diferente, se tu quisesses vir connosco ao Pavilhão do Conhecimento, passar a tarde no Dóing!
E quem disse que eu não queria? Mas não posso... ai que saudades dos 11 anos e que pena de não haver Pavilhão do Conhecimento na altura...

Há horas de sorte

Era uma vez uma mãe de família cujo vencimento ao fim do mês era o único sustento lá de casa; dois filhos pequenos e marido desempregado faziam-na tremer de receio por cada novo dia, e se alguém adoece, e se eu adoeço?, pensava ela.
Não obstante o peito apertado, ia todos os dias para o trabalho com um sorriso e era conhecida como pessoa que dava, sem pedir. Boa ouvinte, atenta com os outros, boa profissional, diziam as colegas.
Porém, a rapariga não fazia o que gostava, não aplicava o que estudara, todo o espaço era pouco para quem sonhava andar pelos campos, para quem tinha ambição de ver crescer o milho, de controlar as cheias do rio, de o desviar se necessário for, de acompanhar e cuidar dos animais, para quem tinha vocação de se ocupar da natureza viva.
Sem outro remédio, ia executando o que lhe pediam, entre papéis e computadores, sistemas informáticos que o ministério distribuiu e que deviam ser usados.
Assim, o tempo passava deitado numa rotina que nada previa que se alterasse, até que um dia...
Um dia chegou um cliente dos serviços onde a rapariga trabalhava e disse-lhe que a observava há algum tempo, que apreciava a sua maneira de ser, que sabia das suas habilitações e que lhe propunha ir trabalhar para a sua empresa.
O homem  era conhecido em toda a região como um proprietário agrícola abastado, pessoa calma e ponderada e um dos clientes mais estimados daquele serviço. A rapariga nem queria acreditar que a conversa era com ela e sentiu-se em plena disneyândia quando ele disse que lhe duplicava o ordenado e lhe dava um carro apropriado para andar no campo, que ela podia usar na sua vida particular.
É brincadeira, verdade? Não, é a sério. Papéis assinados, tudo tratado, alegria e felicidade transbordantes, a rapariga ainda nem acredita que lhe saiu a lotaria.
Num último acto de lealdade para com a empresa, na qual ainda ficará uns dias, assim foi acordado, e para com os restantes companheiros de trabalho, no dia que comunica formalmente a sua decisão de abandonar o lugar, pede para falar com o responsável máximo que lhe concede tempo do seu.
Imperturbável e com um grande equilíbrio de postura e de linguagem expõe os problemas do serviço com a maior clareza possível, problemas esses, alguns deles, não resolvidos por inércia superior, indiferença, receio de injustiçar amigos e compadres, cuja acção é prejudicial à empresa mas, cuja influência, a podia colocar ao lado do marido no desemprego, se ela, ou outro alguém, resolvesse pôr os pontos nos is, ainda que alegando o superior interesse da própria empresa.
Foi ouvida, pediram-se provas, foram entregues, a vida continua mas com outro rumo. Perante o óbvio escarrapachado diante dos olhos, não podia ser de outra forma.
Afinal, o bem existe e anda por aí. Parabéns e muitas felicidades R.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Convite

Uma amiga mostra-me um convite para uma festa no Lux, sabendo que me interessarei pelo convite em si, sabendo que não me interesso pela festa, o Lux também o deve saber porque não fui convidada. Acabando de escrever já vou ali chorar um bocadinho.
O convite é genial: um bocado de cartão, leve como uma pena, com locais para carregar, quais teclas disfarçadas, que contêm gravações: o que vai ser a festa, quem a apoia e patrocina o evento, música, um must!
Como ela adivinhava achei-o muito divertido, original e irresistível. Por vezes não é preciso muita imaginação e a tecnologia hoje em dia ajuda imenso. Gravei-o na memória.
Hoje, outra amiga - sou uma pobre, ninguém me convida directamente para nada, eu já ali vou chorar um bocadinho... -  reenviou-me um convite para a inauguração da exposição Deutscher Werkbund: 100 anos de Arquitetura e Design. 
Para além da dita inauguração ter sido dia 10 de Setembro, o convite vinha com um anexo que dizia: Convite para utilizadores com deficiência visual. E foi isto que me fez prestar-lhe atenção, as novidades aparecem aos molhos todos os dias, quero ser surpreendida, ora deixa cá ver.
E que vi eu? Um documento escrito no word, normalérrimo. A falha seria minha? Seria, com certeza.
Peço a um homem da informática que me esclareça, que me ilumine nesta treva da ignorância mas, ignorante ele também, não vê nada para além de um documento banal, em calibri 11, não justificado à direita, letra preta, fundo branco, tão igual a qualquer outro que fazemos todos os dias. 
A ignorância dele, manifestada de forma sorridente, contagiou-me e vamos viver ignorantes para sempre.
Fim.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

St. Elmo's Fire

O primoroso serviço de tradução de títulos de filmes que passam neste nosso Portugal sempre esteve de parabéns. O primeiro que me lembro de me ter provocado um arquear de sobrancelhas foi The grass is greener. Muito intenso, ficou muito melhor Ele, ela e o marido, afinal o que têm Cary Grant e Deborah Kerr a ver com a natureza? Nada, como é óbvio.
Entre outros, há um livro curioso sobre este assunto - Perdidos na Tradução, de Iuri Abreu - que nos levanta sorrisos, mesmo em dias de má disposição. Explica o autor que os títulos traduzidos pretendem fazer uma ligação entre o espectador e a trama do filme, como se dessem uma pista, obliterando por completo as segundas intenções dos autores, quantas vezes tão retorcidas, a que obrigariam o pobre espectador se tivesse que pensar porque raio foram dar aquele nome ao filme? Simplificar é a palavra de ordem.
Com a disseminação da língua inglesa começa a haver mais cuidados, há muitos que nem são traduzidos optando-se pela língua original. Ainda assim, temos um City Slickers que ficou conhecido com um mais que evidente A vida, o amor e as vacas ou um St. Elmo's Fire que se transformou obviamente em O primeiro dia do resto das nossas vidas.
Várias são as circunstâncias para fazerem do dia de hoje o primeiro do resto da minha vida e, tendo em conta que o fogo de santelmo era visto como benfazejo por uns e sinal de intranquilidade por outros, fico na expectativa. 

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Mudança de estação

Tanta tecnologia, tanto computador, tanto telefone, tanto equipamento, tanta coisa, mas as pessoas são sempre iguais.
Chove e escondem-se debaixo de collants, casacos siberianos, botas árticas, camisolas de malha e gola alta. Pluviosidade e temperatura são duas coisas diferentes, mas vá lá entender-se tão complexo mistério!
Podem perguntar-me o que tenho eu a ver com o assunto - de saias e pernas à mostra, meias nunca!
Tenho tudo a ver com o assunto: vou apertada no metro, empurrada por uma imitação de leopardo a três quartos, pisada por botas de cano alto, falta-me o ar que é sugado pelas penas de impermeáveis dignos de locais onde os donos nunca foram e se fossem nem quero imaginar o que vestiriam!
Estão as pessoas assim tão ansiosas pelo tempo invernoso? A chuva é ácida e há que proteger qualquer centímetro quadrado de pele? Sou só eu que tenho calor? Isto é uma reacção menopáusica?
Se este tempo tivesse um nome eu chamava-lhe Tempo Nova Iorquino, em homenagem à cidade onde se vê de tudo, onde tudo é permitido, onde ninguém estranha o estranho. Aqui, olham para mim nos transportes como se eu fosse um animal fugido do zoológico, como se fosse despida.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

São mariquices, mas são minhas!

Eu até não fiz grande alarido com o fim das férias, nem com o início do Outono, nem com a primeira chuva, mas não posso deixar de marcar este dia, como o primeiro, desde há vários meses, em que uso calças. E eu detesto calças.
A trovoada desorientou-me logo de manhã; primeiro, acordou-me com luzes a acender e a pagar e fazendo do quarto uma discoteca tardia - há músicas menos melodiosas - uma vez que durmo com os estores levantados. Depois empurrou-me para a secção de calças que a de calções não me pareceu apropriada, a de saias só tem exemplares curtos e já imaginava o vento a piscar-me o olho enquanto as levantava.
Não tendo senão sandaletes ali nas redondezas, vai de ténis, tanto mais que é sexta-feira, casual day.
Manga curta e - voz de tia - um corta-vento impermeável. Porém, a chuva era tanta que tive que ir desencantar um objecto com o qual tenho uma má relação: um chapéu-de-chuva.
Assim, sai para a rua nesta figurinha... com chapéu-de-chuva e ténis, coisas que não pegam, não fazem pandan. É claro que estou chata, irritada e mal disposta e não é pelos ténis, que não perco oportunidades de os usar mesmo no trabalho, mas o chapéu-de-chuva não vai com ténis, é uma afronta aos próprios ténis, lindos, maravilhosos, confortáveis, o chapéu-de-chuva, decididamente, não pega comigo. Hoje usei-o como quem toma um medicamento e amanhã espero estar melhor.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Mas estamos a brincar ou quê?

Manuel Almeida não gosta da palavra Bairro. Afirma ser um ninja e querer formar ninjas para combater o crime. O candidato mais mediático das eleições de Setembro de 2013 lembra o brasileiro Tiririca mas, por mais vontade de rir que nos dê, acaba por ser uma voz anónima que arranca de muita gente um, É parvo, é parvo, mas vai dizendo verdades... 
É o taxista que conhece aquele caso com que lidou ainda ontem, é o passageiro dos transportes que ainda há dias ficou prejudicado porque o autocarro não passou, é o cidadão a quem acontecem coisas concretas e pode dar exemplo disso, levando o particular à categoria de geral.
Faltando-lhe, entre outras coisas, a dimensão do global, os concorrentes entram em paranóia com o discurso inarticulado, mostrando desagrado com as acusações de Manuel Almeida, mas não adiantando muito mais, quase com pena dele, quem seria o juiz que o condenaria fosse pelo que fosse. Ainda assim, têm escrito nas testas Mas porque é que este gajo teve que se candidatar ao mesmo tempo que eu? Como se a dimensão extraterrestre de Manuel Almeida descredibilizasse qualquer pessoa envolvida.
A dimensão pessoal assumida em tudo verbaliza acusações de ladrões e corruptos; quem não as faz? Ideias como a de fazer auditorias sem aviso prévio são palavras comuns na boca de cidadãos comuns. Afinal onde está a surpresa?
O novo Tino de Rans distingue-se do original por uma raiva contida, um desafio instintivo contra uma vida que não terá sido fácil.  Procura palavras e sai-lhe especular a propósito de tudo e mais um par de botas, juntamente com mais uma história pessoal, cheia de pormenores, e eu disse, e ele disse, e depois eu disse e depois ele disse,...
Manuel Almeida é um português nato. Sabe que muita, muita, muita coisa está mal e quer que fiquem bem. Personagem digna dos Gato Fedorento contrariou a célebre tirada, Eles falam, falam, mas não fazem nada, fazendo alguma coisa: candidatando-se. E quer se queira, quer não, isso é muito importante.
Manuel Almeida lembra-nos a criação de Gil Vicente,  Joane, o parvo, do Auto da Barca do Inferno, o único que tem a audácia de injuriar o Diabo, o pobre de espírito, o inocente que, mal ou bem, se opõe ao poder.
Visto na televisão e na internet é espectáculo gratuito que ninguém perde, que todos condenam, mas a quem silenciosamente se acaba por dar uma certa razão. 

Cuisine du futur

Acelera-se-me o coração sabendo que os meus sobrinhos estão a caminho. O mais novo ao telefone diz Quica, Quica, Quica. É Domingo de manhã e dizem-me que vêm lanchar ajantaradamente, tenho tempo para uma surpresa.
Deixo o Duarte a tomar conta de uma panela de arroz e vou ao supermercado: pão, fiambre e queijo, uma carne fatiada, uma caixa de gelado e três garrafas, tão pequenas que não chegam a ter um gole de líquido. Será mais que suficiente.
Quando chegam, abrem-se as abas da mesa da cozinha, a única que existe lá em casa, e ela põe os pratos, os talheres, os copos. Depois mando-a para a sala alegando que vou fazer um comer que vai provocar muito fumo. Fecha-se a porta e a cozinha transforma-se num laboratório de feitiçaria.
Suja-se a loiça toda, é preciso dividir o arroz em quatro porções iguais, juntar-lhe mais uma gota de água e uma gota de líquido das pequenas garrafas, uma só gota de cada garrafa em cada um dos recipientes de arroz. Para cada porção uma taça, uma colher, um prato para levar à mesa o arco-íris: há arroz amarelo-ovo, arroz verde, arroz encarnado e arroz azul.
Chamados a comer, doidos por batatas frita palha nem a olham, olhar esbugalhado preso no arroz colorido.
Percebem que é corante, o sabor é o mesmo mas as variedades - branco, verde, azul, encarnado e amarelo - são magia pura  para engolir.
No fim, alguém se lembra que devíamos ter tirado uma fotografia e a minha irmã diz-me que, em termos de técnica, os meus comeres são a concretização do desastre, mas qualquer chef adorava ter-me a trabalhar com ele, não para ajudar na nouvelle cuisine, mas para lhe apresentar a cuisine du futur

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

As aparências iludem

Decorria animada a conversa com amigos diante de um café, em local bem longe da moda, quando a porta do estabelecimento se abre de rompante. Um vento quente espalhou-se pelas mesas enquanto um homem de cara encarnada estica um braço apontando para a cave do local e diz, afogueado, Por ali! Imediatamente a seguir entram quatro polícias em passo apressado.
O café ficou em silêncio. Por trás do balcão o dono parou de limpar copos. Os olhares de todas as pessoas acompanharam os polícias até desaparecerem escada abaixo num tropel. Os espíritos dos presentes anteciparam mil cenários sobre actividades ilícitas por baixo dos nossos pés. Alguns, que ainda comiam, afastaram os pratos. Os que seguravam em copos e chávenas, pousaram-nos.
Passada a surpresa inicial o dono, ansioso, nervoso, deu uma corridinha saindo do balcão e com o olhar inquiriu o homem que esticara o braço, sem verbalizar nada, e sem nada ser preciso dizer da parte fosse de quem fosse que já ali estava. Então, o homem que esticara o braço, que dissera Por ali!, que usara um tom acusatório, que indicara, que apontara, que quase desvendara, deu a única resposta que ninguém esperava:
- Queriam saber onde são as casas de banho e querem jantar, eu disse-lhes que isto estava quase a fechar. 

Sonhar e rezar, sempre

Antes de sair o vigilante da noite e entrar a colega da portaria que assegurará o serviço de dia vou tomar o segundo pequeno-almoço. Ainda não são oito da manhã, o pátio deixa ver cada pedra da calçada portuguesa que a luz do sol vai aquecer dentro de horas. A sombra e o silêncio misturam-se.
Quando regresso passa das oito e o pátio está cheio de figuras humanas semelhantes a corvos. Os que vestem roupa normal tendem a afastar-se dos doutores, receosos que as praxes comecem com a alvorada.
Sou abordada três vezes, sobre a localização do auditório um e dois e sobre o bar o que me demora uns minutos a chegar à Biblioteca. Aqui, uma das colegas da limpeza é nova no serviço, começou em Agosto, nunca viu a chegada dos caloiros, o pátio cheio de risos e de esperanças, como se o sol, que ainda mal nasceu, aqui vivesse.
O primeiro dia de aulas sempre teve uma mística que me faz flutuar.
Na primária sonhava acordada rezando para que chegasse depressa. No liceu sonhava acordada rezando para que chegasse depressa. Na faculdade sonhava acordada rezando para que chegasse depressa.
Hoje levantei-me às quatro e meia e comecei a trabalhar uma hora depois, não tive tempo nem de sonhar nem de rezar, mas revejo-me em cada novo aluno repetindo as mesmas sensações ano após ano, dando o que tenho e o que sei, sentindo que sou parte da máquina que existe para contribuir para o sucesso de cada um.
Se durante uma vida eu sonhei e rezei para que chegasse o primeiro dia de aulas, depois de começarem sonho e rezo para que seja um Bom Ano. 

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Inho, inho, inho

Não sou fã de inhos ou inhas e uso-os normalmente com segundas intenções. Entre muitos, tantos, demasiados, o que mais me repele é o coitadinho/a. Ainda assim, há inhos e inhos, a começar  pelas palavras que efectivamente terminam assim.
Dizem que é um sufixo derivacional do grau diminutivo e só isto me faz pensar duas coisas: primeiro, como é que se pode gostar disto? Segundo, como é que a criançada vai amar o português? Seja como for o seu uso pressupõe uma manifestação de afectividade, ainda que a intenção seja outra e daqui ao desprezo é um pulinho.
Um bom livro, por mais pequeno que seja, nunca, mas nunca será um livrinho. Já um velho pode ser um velhinho, isto se gostarmos dele e, em idade avançada, quando são mudados para os lares, não saem de casa e sim da sua casinha. Cunhados quase todos podem ser, mas cunhadinho têm as invejosas e cunhadinha os expectantes.
Curiosamente, os outros dizem mentiras e nós, uma mentirinha, tão santinhos que somos. Da mesma forma, prestamos ajuda mas os outros só nos deram uma ajudinha, com frequência, uma mãozinha. As crianças estão doentinhas, os adultos doentes e embora progridam só afirmam estar melhorzinhos.
Não há alguém que, nem por só vez, não tenha andado devagarinho, mas não devia ir a caminho de uma rapidinha...
Ninguém quer um homenzinho, mas todos bebemos vinho, temos um vizinho, por vezes gordo que nem um toucinho.
Por me lembrar gente mafiosa não gosto da palavra padrinho e engalinho com uns certos focinhos. Nunca verbalizo a palavra golfinho e, juntamente com os meus sobrinhos, temos uma palavra de substituição... que não vou dizer qual é, faz parte dos códigos secretos!
Por falar em sobrinhos, os meus pintaínhos, gosto de lobinhos, que eu preferia a lobitos quando eles andavam nos escuteiros e as fardas os deixavam tão engraçadinhos...
Para terminar, e só desta vez, só desta... aqui ficam uns beijinhos.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Vai correr bem...

A voz tão simpática é de alguém da Maternidade Alfredo da Costa. Diz-me que a minha amiga está neste momento a ser operada. Não deixo de pensar na calma e suavidade da sua voz, seda pura, em contraste com o nervosismo da minha amiga, cuja operação tem sido adiada há anos, a pedido dela.
Tem medo. Medo das anestesias, medo dos hospitais, das facas e dos bisturis.
Mas chega a uma altura em que os médicos põem o ar sério, tipo mãe de criança pequena quando nos chama pelos dois nomes, e não há volta a dar, tem de ser.
Eu não tenho medo de operações, confio, acredito. Ainda assim, já liguei tantas vezes que dei por mim a pensar se a suavidade vocal da senhora seria normal ou era de propósito para mim. A bem da verdade, eu não tenho medo mas é das minhas operações.

Cartier

Fico a saber que o rei D. Carlos declarou a Cartier como Fornecedora Oficial do Reino. Fico a saber logo à saída do metro quando, meia gingona ao som de Sway pela voz de Dean Martin que me invade via auscultadores, paro repentinamente certa de me ter enganado na estação de metropolitano: escapou-me o Marquês de Pombal? Olha, saí em Hollywood!
A red carpet foi reinventada e está ao alto, do telhado para o chão, num encarnado forte, vivo, um encarnado... red carpet!
Fico a saber que trezentos convidados se vão aninhar no nº 240 da avenida da Liberdade e cá fora, encarnados misturam-se com dourados, onde (ontem?) havia um quiosque.
A agitação é muita e, com Sway nos ouvidos, não resisto a tirar uma fotografia, basta semicerrar os olhos para ter a certeza que estou na entrega dos Óscares, quase que atropelo um holofote, esbarro num senhor de fato e sinto-me despenhar da sandalete abaixo, logo hoje que trouxe uns saltinhos, sapato novo de pano velho, cortada a parte de trás são outros, fica tipo soca, deve ser por isso que ninguém me fala, não me reconhecem com calçado tão brega. Bolas, onde terei metido o convite?

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Alzheimer, sem dó nem piedade

Encho-me de pavor com a descrição de como é que a minha interlocutora arranjou as nódoas negras que tem no braço. Foi a mãe, a quem o alzheimer deixou violenta e que não admite que lhe toquem com um dedo.
Encontramo-nos no centro de saúde e tenho ideia que conheço aquela cara, mas não sei de onde. A cara meia conhecida sorri-me e avança para mim, cumprimenta-me, pergunta-me pelos meus, elogia o meu bronzeado, compara-o com a alvura da sua pele. Aos poucos reconheço-a, há meia dúzia de meses era mais nova uma dúzia de anos.
A linha recta descendente que a doença da mãe tomou levou-ao aquele limite. Conta-me que os banhos e a higiene diária são feitos com grandes doses de sedação, de outra maneira não deixa que lhe toquem. Conta-me que grita com toda a gente, com o marido com quem vive, com ela, filha, com os netos, e já deixou de gritar com os vizinhos e outra família porque eles deixaram de lá ir a casa.
Está no centro de saúde a pedir receitas para medicamentos que ponham a mãe a dormir para que possam tomar conta dela, para que a protejam de si mesma.
A vida é mesmo irónica, sacana, cabra. Obriga-nos a passar por estas coisas, por estes infernos em vida; sob o nome de cuidados paliativos, e porque amamos aquela pessoa, matam-se famílias inteiras aos poucos, devagar, lentamente aplicam-se-lhe torturas, físicas e psicológicas. Mas será aquela pessoa que se ama? Ou a pessoa que viveu naquele corpo? Aquela nem nos conhece, nem sabe quem somos, não reconhece a vida que se partilhou, nem sabe que em tempos teve dores de parto para dar à luz os filhos a quem agora atira as jarras que vai encontrando no caminho.
A quem temos que fazer uma petição para deixarmos de estar doentes e passarmos a morrer uns anos mais cedo? A Deus não pode ser, ele que tudo vê, mantêm-se sossegado, já sossegado estava quando o filho foi crucificado, porque havia de interceder por nós?
Aquela mulher, bem mais jovem que eu e que parecia mais velha que a minha mãe, que carregava a tristeza, o desânimo, a frustração, a impotência, continua a viver, ou a fingir que vive, porque o papel que lhe coube em sorte não é vida, é o de trave, trave que suporta, que sustenta, que segura, que permanece, que aguenta. Até um dia, até ao dia em que o pensamento, que inconscientemente foi ficando vazio para dar espaço ao nada que não deixa o tique-taque do pensar avançar, estiver completamente branco e estéril.
Enquanto fala, ouço a respiração desta mulher calma, habituada, a contrastar com a minha, acelerada. Vendo bem as coisas não era a minha respiração, era o meu medo. 

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Vida depois da morte

As minhas sessões de cinema estão confinadas ao ecrã de televisão lá da sala. Nem sinto bem ser cinema, falta-lhe o tamanho da imagem, a luz ou a falta dela na sala o que permite usufruir da luminosidade do filme, o tal escurinho do cinema, como diz a Rita Lee, até o sair da sala, de barriga cheia, a sonhar, ou mesmo cheia de desapontamento.
Se tivesse sido no cinema, ontem traria o desapontamento. Vi Os Irmãos Grimm com um Matt Damon que não reconheci e prefiro esquecer - parado, de braços levemente arqueados ao longo do corpo que parecia atarracado - e um Heath Ledger que lembrarei sempre, só por ser ele.
O mundo de fantasia que o nome dos irmãos transporta - e que tem alguma ironia se pensarmos no seu nome em inglês com menos um M - é mais do que livre para ser usado e explorado, cada estória uma nascente de imaginação, pontos de partida e chegada a misturarem-se, na ilusão tudo se permite, efeitos especiais e tecnologias a nadar como peixe na água, todo o esplendor do seu protagonismo aqui em relevo.
Porém, ocorreu-me também que são as tecnologias que fazem a magia de nos trazer, de manter, Heath Ledger ali, vivinho da silva.
Durante muito tempo confiou-se no traço do pintor ou no escopro do escultor para manterem vivos rostos de gente famosa, reis e imperadores, rainhas, protegidas e endinheirados; depois a fotografia trouxe a verdade, sem enganos, sem jeitinhos para embelezar, sem aumentar tamanhos ou diminuir gorduras, a que os pincéis sempre se entregavam. Ali estavam eles, parados, um instante irrepetível da eternidade na nossa mão. Depois pôs-se tudo a andar com os Lumière e o passado ganhou vida, repete-se, leva-nos, vem até nós, deixa-nos voltar atrás, espiolhar.
Heath Ledger é apenas um de muitos que já não se deixam filmar mas que continuam a estar presentes, a tecnologia a garantir a vida depois da morte, para nosso espanto e prazer. E vê-lo é sempre um espanto e um enorme prazer...

Pantaleão e as Visitadoras

Imagino Mario Vargas Llosa a rir à gargalhada quando se inteirou da história que o levou a escrever sobre o Serviço de Visitadoras, criado e mantido por Pantaleão Pantoja, capitão do exército peruano. Imagino-o a correr para o papel e a caneta. Imagino-o a sentar-se e a parar de rir. Imagino-o a imaginar cada uma das personagens, a pensá-las, a entrar-lhes no corpo e na alma,  que isto é maneira de falar, não literalmente, apesar do tema não creio que deva ser lida à letra. Imagino que para Vargas Llosa, Pantaleão e as Visitadoras foi uma orgia!
Explico-me para não ser mal interpretada.
Nesta narrativa há o oito e o oitenta, a ingenuidade de Pocha e a experiência de Chuchupe, a fome de prazer dos soldados e a abstémia dos irmãos da Arca, a beleza da Brasileira e a natureza da Mamuda, a mudança do vento nas opiniões de Sinchi e dos generais, e Pantoja, Panta, Pantita, quase santo, livre de vícios e obrigado a viver no meio deles, a mentir à família, a enganar-se a si próprio, a mudar, a ir dos oito aos oitenta.
Quando afirmo que Vargas Llosa pensou em cada personagem e lhes entrou no corpo e na alma, tenho provas disso: os discursos que se cruzam, aparentemente fora da lógica, mas com mais lógica que tudo o resto, ou não falássemos nós e pensássemos em simultâneo, que em simultâneo falam as pessoas, principalmente se estiverem em diferentes contextos e locais, que mundo de mudos teríamos se cada vez que um falasse em Iquitos todos os outros em Iquitos e em Lima e em Lisboa e em todas as partes se calassem?
Com este discurso o autor não nos presenteia com um livro e sim com a realidade, que se cruza, que se mescla, que se ultrapassa, que se contradiz, que se revela (não consigo deixar de me lembrar de vários autores que deviam ler estes textos vezes sem conta para aprenderem alguma coisa sobre o que é escrever, José Rodrigues dos Santos seria um bom candidato).
Assim, Vargas Llosa dá-nos a totalidade das envolvências ao mesmo tempo, como se carregasse as personagens ao colo em simultâneo, uma espécie de Árvore das Mãos de Ruth Rendell, mas com pessoas e um autor.
A forma como o autor nos leva a movimentar dentro da narrativa é única, flutuamos pela selva, pela Amazónia, em Iquitos, damos toda a atenção aos relatórios militares, escutamos atentamente as emissões radiofónicas, assustamo-nos com o Doido no hidrovião e, pelo menos eu, revolto-me com o revisor do livro. Lamentavelmente não fixei o nome deste profissional do erro e da gralha, e o livro, emprestado, foi devolvido.
O Irmão Fransisco é mencionado dezenas e dezenas de vezes ao longo das páginas e há um tal de Irmão Francisco que aparece uma ou duas vezes...
Continuo a espantar-me - já não devia... - com as fichas técnicas que anunciam tradutores e revisores e depois há mais gralhas que gotas de água no mar. Quanto terão pago ao homem? O que dirá a sua consciência? Terá consciência?
Não apontei as gralhas e é raro ler até ao fim um livro com tanto buraco, que me obriga a tanta paragem que parece uma prova de obstáculos, mas Pantaleão falou mais alto.
Pantaleão e as Visitadoras, lido em edição da D. Quixote, a precisar de revisão urgentemente.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Vida social

Apesar de tanta tecnologia que nos rodeia, de tanto telefone, de tanto correio electrónico – receptível até dentro de água! – as pessoas têm muita saudade umas das outras.
Neste pós-férias multiplicam-se as marcações para jantares de antigos alunos, combatentes, colegas, o que for; sucedem-se os telefonemas a combinar encontros, para comentar as fotos das férias já vistas e partilhadas no Facebook ou em qualquer outra rede social, descarregadas a cada passo durante a ausência.
A minha vida social é fraquita mas em Setembro atinge um pico que se repetirá no Natal, quando as saudades parecem voltar à carga, sem apelo nem agravo.
A coisa é de tal forma que fui convidada para três jantares no mesmo dia! Os convites vêm via Facebook e, reparando não ser a única naquela circunstância, liguei a uns amigos perguntando qual deles iam aceitar, por me ser grata a sua companhia e costumarmos ficar juntos. Fiquei banzada com a resposta: Vamos pelo menos a dois! Jantamos num, comemos a sobremesa noutro e se a malta for a qualquer sítio no terceiro encontro, nós ainda aparecemos lá.
Ri-me, não me ocorrendo mais nada para responder. Será a vida social deles ainda mais insignificante que a minha, tendo que se aproveitar todos estes convites? O que aproveitam em cada um? Não era suposto irmos para conversar? Estarão as redes sociais a ocupar tanto espaço, mas tanto mesmo que, mesmo presentes, somos notados pela ausência? Já cá esteve, deve estar a chegar, talvez venha… mas se lhe quiseres falar apanha-o no Face
Terão as conversas a mesma profundidade das mensagens que se debitam, a maior parte das vezes copiadas, nas redes sociais? A partilha é efectiva?
Um dos grupos que agora se planeia encontrar é constituído por pessoas que frequentaram a mesma escola secundária; um dos elementos, rapaz muito respeitado na altura, é agora alvo de chacota – simpática, mas chacota – por não ter Facebook. As primeiras vezes em que nos reunimos ele afirmou afirmativamente a sua negação em pertencer a redes sociais. O que terá pesado para agora o encontrar, alegre e dinâmico, a mandar piadas, a partilhar fotos e a anunciar o seu estado de espírito diário? Terá percebido que sem o Face perdia a sua antiga aura? Sentiu-se obrigado a arranjar este aliado?
Por outro lado, no primeiro fim-de-semana de Setembro organizou-se um encontro dos soldados que fizeram tropa em Beja, nos idos de 66. O meu pai, convidado, não pode comparecer, com imensa pena dele. Falando com os organizadores da coisa mencionou o Facebook alegando que era via através da qual podia ver depois as fotos que tirassem. Lá do outro lado perguntaram Ai tu tens isso?
Dias depois o meu pai recebeu no Facebook algumas imagens do jantar. Primeiro não percebeu quem era aquela gente que o contactava, depois fez-se luz: eram filhos e netos dos que tinham estado no convívio que, segundo consta, foi memorável, muitas recordações, muita conversa, muita vida.