terça-feira, 29 de outubro de 2013

A amizade é uma coisa muito bonita

Só nos faltava um cão. Éramos cinco, sempre juntas nas aulas e por vezes brincávamos que para sermos protagonistas dos famosos livros da Enid Blyton, só nos faltava um cão. A conversa era sempre a mesma: a seguir alguém dizia que o Tim, o cão do grupo, era um dos cinco, logo, uma de nós seria o cão! Negávamos, aceitávamos, tirávamos à sorte, qualquer coisa servia, pois não é fácil cinco mulheres darem-se bem como nós nos dávamos.
Passaram-se anos e hoje uma de nós vive no Algarve, outra no Funchal, outra no Fundão, uma no Cacém e eu na Amadora. Foram dois anos das nossas vidas - enquanto durou o curso de Ciências Documentais na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa - que nunca mais esquecemos e a prova disso é que nos continuamos a falar. Porém, o elemento do Fundão não era avistado há anos e ontem estivemos juntas na Gulbenkian.
Pareciam ter passado duas horas desde a última vez que nos víramos e percebi que sentia imensas saudades das gargalhadas dela.
À noite fiz inveja às outras por telefone: estive com a J. que mantém a mesma cara de miúda, o mesmo riso contagiante e alegre e temos mesmo que nos encontrar todas, mas encontrar mesmo, sem ser aquelas mentiras do costume, que temos mas nunca mais fazemos nada para viabilizar a coisa.
Com enorme expectativa combinámos ir ao Algarve a casa da M.
Tenho a certeza que vamos e até me arrepio de pensar no fim-de-semana de boa disposição que se criará. Tomara já que fosse hoje...

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Tanto e tão pouco

Jurgen Habermas é o cabeça de cartaz da Conferência Internacional de Educação promovida pela Gulbenkian, Os Livros e a Leitura: Desafios da Era Digital.
Cedo ainda, já eu lá estava e foi com dificuldade que encontrei lugar numa sala: para além do auditório reservado para o efeito, todos os espaços foram ocupados com os interessados na matéria e, claro, interessados em ouvir o grande pensador; cadeiras, escadas, chão, vãos de janelas, encostados à parede, qualquer sítio era bom.
Porém, o grande pensador - estatuto inegável - é alemão, todos sabíamos. Também todos calculariam que falaria em inglês, no surprise; também sem Überraschung verificou-se um forte sotaque alemão, mas, pelo menos para mim, a surpresa maior foi o facto de o senhor ser fanhoso e, aparentemente, estar constipado. Assim, uma voz com as debilidades naturais de oitenta e quatro anos, a falar uma língua estrangeira com marcadas cicatrizes da língua original, fortemente nasalada é igual a falta de passagem da mensagem, perceptibilidade zero.
O filósofo por quem eu ansiara mostrou-se-me ausente: a pessoa muito capaz de escrever, de pensar, reflectir, ponderar, pode até ser fisicamente capaz de ser entrevistado, de conversar, mas não de dar uma conferência, onde se afiguraram fantasmagóricas as partes visível e audível, no fundo, o contacto com quem o escutava.
Não se pode prescindir de certas cabeças, aquelas que parecem ter um exército de átomos sempre a renovar-se, produzindo visões e conceitos e abordagens e críticas, mas também não se devia pedir, nem aceitar, uma situação que roça o embaraço, uma pesca à linha de palavras, como quem sorve, mas não saboreia.
Em Outubro do ano passado, também na Gulbenkian, ouvi Alberto Manguel, durante quinze minutos. Na altura dei conta disso. Foi um inspirar, não chegou a ser respirar... tanto e tão pouco, agora reproduzido, noutra versão, outra desilusão.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Chuva, chuva, chuvinha...

Combino com o Duarte estar em casa antes das oito, hora a que ele tem de sair para chegar a horas ao treino. Esqueço-me das horas e saio do trabalho atrasada. Corro. Apanho o metro e não tenho outro remédio se não ir ao ritmo dele, parando nas estações, esperando as pessoas sair, entrar, fechar portas, arrancar devagar em cada estação, essas coisas.
Na paragem final, a minha estação, levanto-me bem antes da carruagem começar a diminuir a velocidade, tenho pressa. Assim que pára, diante da porta, sou a primeira a sair, e ao som da música que me habituei a ouvir com headphones, fruto do zumbido que nunca passou e para o qual não tenho verba para a operação, subo as escadas a correr, a correr continuo nas primeiras escadas rolantes, mais rápidas que as primeiras, subidas a poder de músculo, salto para as segundas, também rolantes, sempre a trautear a música, e dali salto para a rua.
Não me contive e FUCK... ouço-me a mim própria, vejo pessoas paradas a olharem-me. Os headphones caem. Dou um passo atrás, tiro o impermeável da mala, mas o mal está feito: estou irremediavelmente encharcada.
A pressa era tanta que nem dei conta que chovia a canivetes e saltei literalmente para a rua. Nada a fazer. Caminho para o carro, a cantarolar, com o impermeável pela cabeça, afinal, não devemos ter medo da mudança do tempo, apenas devemos aprender a dançar à chuva, não é assim?

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

CHULO

O email vem com o assunto em maiúsculas. CHULO.
Tal como nas imagens televisivas que engolimos com a sopa do jantar, de guerras, pobreza ou da miséria instalada, imagens e situações que já não transmitem novidade, que já se esgotaram, também a situação do senhor Jorge Viegas Vasconcelos da ERSE, aborrece-nos mas vai para o saco do nada.
Demitiu-se mas vai continuar a receber não sei quantos milhares, à pala da malta, mais um, são tantos que nem todas as equipas de futebol do mundo inteiro lhes conseguem ganhar.
Por vários motivos isto lembra-me Começar do Nada, de Konsalik, relido recentemente e do qual se extraem as duas seguintes passagens (com um pedido de desculpa pela imperfeição da digitalização):




Se os truques são os mesmos há séculos, porque nos deixamos entruquizar?

É do dia, só pode ser do dia

É do dia, só pode ser do dia, da chuva, do cinzento que me transmite esta tristeza profunda, não há-de ser de mais nada.
Não pode ser da surdez de quem eu precisava que me ouvisse, da insensibilidade de quem eu esperava que fosse sensível, da falta de preocupação de quem tinha obrigação de se preocupar, da cegueira de quem devia ter olho de falcão.
Escolho a música, escolho-a alegre e descontraída mas de repente já estou a ouvir melodias que cavam mais fundo nesta tristeza; desligo o rádio, forma de expressão para dizer que fecho o youtube, e daí a nada lá está ele a tocar novamente, como se a música fosse a última companhia, o derradeiro afago, um abraço compensador.
Acredito que o problema será meu, que nunca me mostro frágil e de repente é como se todas as fragilidades e fraquezas viessem ao cima, com a água da chuva, ficam a boiar diante de mim e não tenho forma de as afastar. Quando dou conta explodem à minha volta, trazendo lembranças e memórias, injustiças, falta de reconhecimento, infidelidades, esquecimentos, risos cínicos, e trabalho, muito trabalho, que uso da melhor forma possível para me afastar de tudo, até de mim. Afasto também as lágrimas cerrando os dentes, tanto, tanto que temo parti-los. 

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

É um bilhete para outra dimensão, se faz favor

Acabei de saber que os transportes vão fazer greve na semana que vem. Gostava de saber também o que ganharam com as greves já feitas.
Eu sei que é um direito, respeito-o e tudo isso, mas no direito à greve de uns está o prejuízo de milhões outros. Eu também sei que sou só uma desses milhões, mas, que diabo, posso aborrecer-me por ter que faltar ao trabalho e no fim do mês ver o meu já fantástico ordenado ser ainda mais fantástico, ou não? Não tenho condição para solidariedades destas. E se a tradição fosse peremptória e mostrasse grandes, vá lá médias, ok, concedo, mesmo pequenas conquistas, eu ainda compreendia, mas assim...
Além disso, e será a ignorância a falar, visto que a tenho em demasia, mas pode-se fazer greve por não se querer ser privatizado? Alguém terá isso em conta? Quem ouve essa voz? Pois se não ouvem as dos esfomeados, as dos alunos sem ensino, nem o eco da justiça, que tão longe anda que nem lhe ouvimos o sussurro, não ligam puto à inexistência de saudabilidade na saúde, fazem a caminha de lavado para que a corrupção se instale, se deite confortável, e vão ouvir a voz da greve? Alguém acredita nisto?
Quanto poupam as empresas de transportes com os favores que os empregados lhes fazem, fazendo greve de vez em quando? Há dias paguei três euros e vinte cinco por um bilhete de autocarro, porque havia greve de metro. Uma refeição completa no meu local de trabalho é de três euros e meio e eu trago almoço de casa todos os dias! A minha ruína passa pelas medidas do governo e também pelas greves dos transportes. 

O Inverno chegou aos transportes

Hoje inaugurei uma nova categoria de pessoas (isto soa mal...) a quem dar o lugar nos transportes (melhorou um pouco, acho eu). Velhos, grávidas, ossos partidos, a essas situações já se juntavam pessoas a ler - estando eu a ouvir música por exemplo - e hoje juntou-se uma senhora a fazer malha.
Ontem vi de relance um objecto que me suscitou imensa curiosidade, mas foi tão a correr que nem percebi o que era: havia uma coisa redonda, de plástico, pareceu-me, e uns novelos de lã coloridos, o que dava um resultado invejável. Mas esta visão foi já em pé, pronta para sair e a curiosidade morreu na saída do metro, quando me esqueci do assunto.
Hoje ia sentada a ouvir música quando vi entrar a moça, era aquela, garantidamente. Por sorte aproximou-se do local onde eu estava e levantei-me. Ela sentou-se logo, como se estivéssemos combinadas, e sacou da malha! Os meus planos funcionavam...
Com os dedos e uma agulha como a da imagem fazia crescer uma peça de roupa.
A velocidade dos dedos era invejável e eu já me imaginava a fazer concursos, ela a terminar uma camisola digna das terras altas da Escócia, para um qualquer imortal, dois metros de altura, cabelo comprido, e eu a meio de um cachecol para as bonecas da minha sobrinha.
Tal como na cozinha onde não consigo reproduzir as receitas, acrescentando-lhe sempre qualquer coisinha, também não deixei de pensar como ficaria se utilizasse linha, ráfia ou corda; só haverá coisas daquelas redondas? E para uma cortina ou coisa que o valha, como fazemos? Vou saber tudo o que há para saber no ramo dos plásticos redondos com bicos para se entrançar a lã e fazer peças várias e depois darei notícias. Não garanto que seja nesta vida.

Romeu e Márcia

A madrugada caminhava ainda ensonada, acabada de entrar ao serviço. O jovem sentia-se morrer por dentro, e se ela não o aceitasse de volta? Márcia, Márcia, Márcia, deixa-me voltar, gritava em palavras, em silêncios, em olhares, em lágrimas, em cartazes.
Não é preciso ser polícia para perceber que não é o interesse que move o nosso jovem, é o amor.
Tudo indica que Márcia não usa carro - não usa, não tem? não sabemos - vem de metro. À saída da estação do Marquês de Pombal, para a Alexandre Herculano, Romeu deixa uma mensagem:
Mas, terá Márcia mudado o percurso? Eventualmente perturbada com o fim do relacionamento, terá pedido boleia a alguém, evitará o metro? O melhor é prevenir:
Cem metros adiante, à porta da universidade e em local de difícil acesso, o que leva a supor ajuda, nova mensagem, pública, explícita, implorante: Eu preciso de ti, és a única pessoa que me faz feliz, adoro-te Márcia.
Com desconhecimento total da situação, mas confrontada com estes cartazes, nado em inveja. Lembro-me de Mr. Darcy, um eterno namorado de toda a gente, que o cinema fez sempre bonito, como se a beleza fosse ainda necessária naquele mar de romantismo, de seriedade, de carácter, de personalidade.
Imagino o sorriso de Márcia, o ciúme das amigas, a inveja dos amigos por falta de coragem para assim se declararem. Não quero imaginar o que terá feito Romeu para que Márcia o tenha deixado (?), hoje opto por um atitude de pleno amor, de romantismo sem limites, imaginando um qualquer mal entendido que já teve solução e neste momento sorriem ambos sabendo que serão felizes para sempre.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

José de Figueiredo

Há um largo à beira do Museu Nacional de Arte Antiga com o nome do seu primeiro director, José de Figueiredo.
Este homem foi um amante da arte e um caçador recolector de tudo quanto era arte portuguesa dispersa pela Europa. Não admira ter sido também o primeiro director da Academia Nacional de Belas-Artes, que instituiu um prémio com o seu nome, a atribuir a edições de destaque sobre arte e património.
Ontem foi a entrega deste prémio - a dois autores - bem como a entrega de outros prémios instituídos pela Academia: Aquisição-Pintura, a Graça Morais, e o prémio Gustavo Cordeiro Ramos foi para o (ausente) Domingos Loureiro.
Com o busto original da República a seu lado e D. Maria II, autora do decreto que criou a Academia, por trás de si, Graça Morais disse o que todos sabemos: ninguém quer saber e a Sr.ª Albuquerque terá os mesmos direitos jornalísticos, televisivos e comunicacionais do costume, a cultura é dispensável.
O mesmo tratamento de silêncio receberam os livros premiados, de Nuno Vassallo e Silva, Ourivesaria Portuguesa de Aparato, e de Miguel Figueira de Faria, como coordenador de uma equipa e também autor, Do Terreiro do Paço à Praça do Comércio: História de um Espaço Urbano.
Para além da Sr.ª Albuquerque e das brincadeiras de cirurgião que andam a fazer a Portugal, havia também a imbatível selecção portuguesa de futebol e o mundial, perseguido como um atraente pescoço por uma cambada de vampiros. Que espaço haveria para se falar de livros?

O meu silêncio

Tenho um trabalho para terminar e muitos outros na fila de espera. Levanto-me a meio da noite e chego às cinco e meia da manhã ao palácio onde passo os dias.
Eu sei, eu sei, sou uma triste, não tenho mais nada para fazer... ou não... ou gosto muito do que faço e estou a ralar-me para coisas como os horários, ou tenho ritmos diferentes, ou ninguém tem nada a ver com o que faço de noite.
O segurança está fora do portão. Estranho... É novo, não o conheço, nem ele a mim. Identifico-me, digo-lhe que confirme na lista que tem na sua secretária e peço-lhe a chave do meu serviço. Explica-me que o quadro da electricidade estourou, não há luz, ele apanhou um grande susto, pensou estarem a roubar a caixa multibanco, paredes meias com o seu gabinete.
Já ligou à EDP que só vem quando o electricista da empresa estiver presente pois o quadro tem fases de alta tensão. Pensei na Síria, mas não disse nada ao rapaz não fosse ele pensar que eu era uma terrorista.
É curioso como é impossível mandar nos pensamentos e nos cruzamentos que fazem, as ligações, os links, em linguagem moderna.
Movem-se como querem, com explicações imediatas, aparentes, sem explicações nem contextos plausíveis à primeira vista, muitas vezes, nem à segunda ou terceira.
Por isso não falei na Síria quando o rapazito contava o estouro do quadro eléctrico. 

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Descubra as diferenças

Uma querida amiga paulista enviou-me um presente. Não o recebi das mãos do portador pois ontem estive ausente, mas hoje admirei o saco, o laço do embrulho, a mensagem, reconhecível no redondinho da sua letra, que transporta carinho e simpatia.
Cada vez que um conterrâneo seu vem a Lisboa, ela presentei-me e mima-me, desta vez a excepção consistiu em eu não ter conhecido a pessoa que fez a gentileza, como ela própria diria.
Assim, logo pela manhã tive uma espécie de surpresa, o que me agradou imenso: lembrarem-se de nós é fantástico!
Querendo partilhar a alegria e a delicadeza do presente fui repartir a doçura com as minhas colegas. De dentro do saco retirei um embrulho magnífico e depositei em cima da mesa dois enormes doces de aspecto delicioso, afirmando por antecipação o quão bons deviam ser.
Elas olharam-me com ar estranho e eu, logo apressada, fui dizendo que um bocadinho só não lhes fazia mal, eu é que tenho que me conter, a cortisona não é compatível com estas coisas. Elas acentuaram o ar estranho e disseram-me que era uma pena partir os sabonetes ao meio ...

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Que susto!

Levantei-me com sono a mais da conta para quem se tinha deitado a horas razoáveis. Levantei-me sem fome, como se já tivesse comido. A mala e o saco da papelada que me acompanha - pediram-me a revisão de um livro - pesavam mais que ontem.
O dia profissional começou num local díspar do habitual, a viagem de metro incluiu as linhas azul e a verde, a estátua do marquês Sá da Bandeira parece-me ter um ar homossexual no qual nunca tinha reparado.
Dei o meu melhor numa reunião importante onde tinham pedido a minha presença, sentindo um incómodo enorme por estar sentada. A má disposição geral aumentava, a dificuldade em respirar e a dor no peito também. Há uns segundos que não posso reproduzir porque desmaiei.
O INEM, chamado por colegas, levou-me ao hospital: suspeita de enfarte.
Felizmente enganaram-se, assim o ditaram os exames que a pulseira laranja conseguiu que me fizessem a correr. Estou sã como um pêro, coração, pulmões, tenção arterial, análises. A única nota negativa foi no  batimento cardíaco, acusando-me de o ter preguiçoso! Lento, emendaram logo, sorrindo. Eu também sorri explicando que é sempre assim, digno de atleta de alta competição, e atirei ao acaso, 50? Foi por cima, eram 48.
Problemas musculares ou ataque de ansiedade - que não consigo explicar - foram causas possíveis apontadas pelo médico. Com um relaxante muscular e a recomendação de voltar se não me sentisse bem, mandou-me embora.
Tirei a tarde e expliquei às minhas colaboradoras que tudo isto fora uma manobra para andar de ambulância e poder dormir a sesta...
Sentindo ainda um ligeiro aperto no peito e nas costas, perto da hora de jantar estive em perfeitas condições de conversar com um colaborador da ZON para mudar de fornecedor. Há que procurar as melhores condições e os preços mais baixos, senão, é desistir que as coisas não estão fáceis. Mas como passo muito tempo em casa, vou fazer um esforço para manter esta companhia, evitando ter um enfarte de televisão.
Amanhã de manhã, como um bom soldado, estarei no meu posto. Foi só um susto...

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Takk

As saudades do V. são sempre muitas. Por isso foi com ansiedade que chegou esta semana, na qual ele prometera uma visita. Veio acompanhado por um amigo de quem já ouvira falar frequentes vezes, dono de loja de albarrábios, que o mesmo é dizer mago destas coisas dos livros.
A Praça do Comércio recebeu-nos com sol e a mesa no Martinho ao almoço com peixe grelhado para uns e favas para outro. E vinho. E excelente disposição. E conversa, a minha aos saltos, no meu estrangeirar, que se dane!
Senti imediata empatia com o norueguês e passei a adorá-lo quando percebi que idolatrava o V., tal como eu, suposição que ficou no ar ao almoço e foi confirmada ao jantar - fiz um intervalo de tarde para ir trabalhar...
D. José acolheu-me debaixo do seu cavalo enquanto os esperava ao fim do dia, com um jantar em Cacilhas debaixo de olho. Conhecedora exímia da cidade onde trabalho, encaminhei-os para a estação fluvial em direcção ao Barreiro. Estando as máquinas de venda de bilhetes out of service - todas! - fomos à bilheteira, onde percebi o engano. Saltámos para um autocarro, transporte que não apanhava há anos e que, curiosamente, hoje voltei a usar, face à greve do Metro, e fomos para o Cais do Sodré.
Não sei se por solidariedade com as outras máquinas, mas também aqui estas estavam out of service... sobrava uma e não dava troco, não aceitava pagamento com multibanco, lá se tiraram três bilhetes - um de cada vez! - e fiquei com as notas de crédito para levantamento posterior.
É tão bom termos as coisas mas nada funcionar, não é nada terceiro-mundista, fazem-se filas de gente na bilheteira, quem mete dez ou vinte euros na máquina e não pode recuperar a demasia reclama e insurge-se contra a máquina, são muito vivos e dinâmicos aqueles momentos...
Finalmente, chegamos a Cacilhas, o sol já não podia esperar mais por nós e tinha desaparecido deixando um rasto cor-de-laranja, ainda assim, impressionante, as gruas do porto a desenharem-se à contra-luz, espuma branca efémera a formar-se e desfazer-se enquanto outro cacilheiro passa por nós, imagem sempre memorável.
Caminhamos no Cais do Ginjal em direcção ao Atira-te ao Rio ainda com luz. Falamos, falamos, falamos, comigo a tropeçar na língua a cada passo, mas fascinada com o que o norueguês sente pelo V., aproveitando dois momentos em que se ausenta para rezarmos ao mesmo Deus, abrirmos os olhos de felicidade pelo amigo comum, comungarmos naquela amizade, elogiando mais que merecidamente quem não gosta de elogios, os dois com a certeza que um dia o V. será descoberto. Descoberto pela sua inteligência, pela sua enorme e inultrapassável capacidade de análise da vida, pela sua forma de escrever, pelo talento para cruzar conhecimento imprimindo-lhe mais valia, pela sua memória, da qual morro de inveja, assim como pelas línguas onde se espraia, que me faz ciumenta.
O V. é uma pessoa que me faz sentir segura só por estar ao lado dele, fico feliz por saber que não sou a única e por poder partilhar esta sensação com alguém que convive com os Invernos noruegueses, como se a amplitude térmica que ambos simbolizamos fosse a escala para a dimensão do V.: dos calores alentejanos aos gelos nórdicos, o V. é universal.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Parabéns a vocês!

A senhora minha mãe e o cavalheiro meu sobrinho fazem hoje 69 e 11 anos, respectivamente. Falo-lhes por telefone, rimos, brincamos, combinamos jantar, todos juntos, todos juntos, lá, lá, lá...
Ela encolhe os ombros sobre o ano a mais - eu não vejo mas sei que o está a fazer - ele diz que é exactamente igual a ontem e acrescenta:
- O teu dia é que podia ser diferente, se tu quisesses vir connosco ao Pavilhão do Conhecimento, passar a tarde no Dóing!
E quem disse que eu não queria? Mas não posso... ai que saudades dos 11 anos e que pena de não haver Pavilhão do Conhecimento na altura...

Há horas de sorte

Era uma vez uma mãe de família cujo vencimento ao fim do mês era o único sustento lá de casa; dois filhos pequenos e marido desempregado faziam-na tremer de receio por cada novo dia, e se alguém adoece, e se eu adoeço?, pensava ela.
Não obstante o peito apertado, ia todos os dias para o trabalho com um sorriso e era conhecida como pessoa que dava, sem pedir. Boa ouvinte, atenta com os outros, boa profissional, diziam as colegas.
Porém, a rapariga não fazia o que gostava, não aplicava o que estudara, todo o espaço era pouco para quem sonhava andar pelos campos, para quem tinha ambição de ver crescer o milho, de controlar as cheias do rio, de o desviar se necessário for, de acompanhar e cuidar dos animais, para quem tinha vocação de se ocupar da natureza viva.
Sem outro remédio, ia executando o que lhe pediam, entre papéis e computadores, sistemas informáticos que o ministério distribuiu e que deviam ser usados.
Assim, o tempo passava deitado numa rotina que nada previa que se alterasse, até que um dia...
Um dia chegou um cliente dos serviços onde a rapariga trabalhava e disse-lhe que a observava há algum tempo, que apreciava a sua maneira de ser, que sabia das suas habilitações e que lhe propunha ir trabalhar para a sua empresa.
O homem  era conhecido em toda a região como um proprietário agrícola abastado, pessoa calma e ponderada e um dos clientes mais estimados daquele serviço. A rapariga nem queria acreditar que a conversa era com ela e sentiu-se em plena disneyândia quando ele disse que lhe duplicava o ordenado e lhe dava um carro apropriado para andar no campo, que ela podia usar na sua vida particular.
É brincadeira, verdade? Não, é a sério. Papéis assinados, tudo tratado, alegria e felicidade transbordantes, a rapariga ainda nem acredita que lhe saiu a lotaria.
Num último acto de lealdade para com a empresa, na qual ainda ficará uns dias, assim foi acordado, e para com os restantes companheiros de trabalho, no dia que comunica formalmente a sua decisão de abandonar o lugar, pede para falar com o responsável máximo que lhe concede tempo do seu.
Imperturbável e com um grande equilíbrio de postura e de linguagem expõe os problemas do serviço com a maior clareza possível, problemas esses, alguns deles, não resolvidos por inércia superior, indiferença, receio de injustiçar amigos e compadres, cuja acção é prejudicial à empresa mas, cuja influência, a podia colocar ao lado do marido no desemprego, se ela, ou outro alguém, resolvesse pôr os pontos nos is, ainda que alegando o superior interesse da própria empresa.
Foi ouvida, pediram-se provas, foram entregues, a vida continua mas com outro rumo. Perante o óbvio escarrapachado diante dos olhos, não podia ser de outra forma.
Afinal, o bem existe e anda por aí. Parabéns e muitas felicidades R.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Convite

Uma amiga mostra-me um convite para uma festa no Lux, sabendo que me interessarei pelo convite em si, sabendo que não me interesso pela festa, o Lux também o deve saber porque não fui convidada. Acabando de escrever já vou ali chorar um bocadinho.
O convite é genial: um bocado de cartão, leve como uma pena, com locais para carregar, quais teclas disfarçadas, que contêm gravações: o que vai ser a festa, quem a apoia e patrocina o evento, música, um must!
Como ela adivinhava achei-o muito divertido, original e irresistível. Por vezes não é preciso muita imaginação e a tecnologia hoje em dia ajuda imenso. Gravei-o na memória.
Hoje, outra amiga - sou uma pobre, ninguém me convida directamente para nada, eu já ali vou chorar um bocadinho... -  reenviou-me um convite para a inauguração da exposição Deutscher Werkbund: 100 anos de Arquitetura e Design. 
Para além da dita inauguração ter sido dia 10 de Setembro, o convite vinha com um anexo que dizia: Convite para utilizadores com deficiência visual. E foi isto que me fez prestar-lhe atenção, as novidades aparecem aos molhos todos os dias, quero ser surpreendida, ora deixa cá ver.
E que vi eu? Um documento escrito no word, normalérrimo. A falha seria minha? Seria, com certeza.
Peço a um homem da informática que me esclareça, que me ilumine nesta treva da ignorância mas, ignorante ele também, não vê nada para além de um documento banal, em calibri 11, não justificado à direita, letra preta, fundo branco, tão igual a qualquer outro que fazemos todos os dias. 
A ignorância dele, manifestada de forma sorridente, contagiou-me e vamos viver ignorantes para sempre.
Fim.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

St. Elmo's Fire

O primoroso serviço de tradução de títulos de filmes que passam neste nosso Portugal sempre esteve de parabéns. O primeiro que me lembro de me ter provocado um arquear de sobrancelhas foi The grass is greener. Muito intenso, ficou muito melhor Ele, ela e o marido, afinal o que têm Cary Grant e Deborah Kerr a ver com a natureza? Nada, como é óbvio.
Entre outros, há um livro curioso sobre este assunto - Perdidos na Tradução, de Iuri Abreu - que nos levanta sorrisos, mesmo em dias de má disposição. Explica o autor que os títulos traduzidos pretendem fazer uma ligação entre o espectador e a trama do filme, como se dessem uma pista, obliterando por completo as segundas intenções dos autores, quantas vezes tão retorcidas, a que obrigariam o pobre espectador se tivesse que pensar porque raio foram dar aquele nome ao filme? Simplificar é a palavra de ordem.
Com a disseminação da língua inglesa começa a haver mais cuidados, há muitos que nem são traduzidos optando-se pela língua original. Ainda assim, temos um City Slickers que ficou conhecido com um mais que evidente A vida, o amor e as vacas ou um St. Elmo's Fire que se transformou obviamente em O primeiro dia do resto das nossas vidas.
Várias são as circunstâncias para fazerem do dia de hoje o primeiro do resto da minha vida e, tendo em conta que o fogo de santelmo era visto como benfazejo por uns e sinal de intranquilidade por outros, fico na expectativa. 

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Mudança de estação

Tanta tecnologia, tanto computador, tanto telefone, tanto equipamento, tanta coisa, mas as pessoas são sempre iguais.
Chove e escondem-se debaixo de collants, casacos siberianos, botas árticas, camisolas de malha e gola alta. Pluviosidade e temperatura são duas coisas diferentes, mas vá lá entender-se tão complexo mistério!
Podem perguntar-me o que tenho eu a ver com o assunto - de saias e pernas à mostra, meias nunca!
Tenho tudo a ver com o assunto: vou apertada no metro, empurrada por uma imitação de leopardo a três quartos, pisada por botas de cano alto, falta-me o ar que é sugado pelas penas de impermeáveis dignos de locais onde os donos nunca foram e se fossem nem quero imaginar o que vestiriam!
Estão as pessoas assim tão ansiosas pelo tempo invernoso? A chuva é ácida e há que proteger qualquer centímetro quadrado de pele? Sou só eu que tenho calor? Isto é uma reacção menopáusica?
Se este tempo tivesse um nome eu chamava-lhe Tempo Nova Iorquino, em homenagem à cidade onde se vê de tudo, onde tudo é permitido, onde ninguém estranha o estranho. Aqui, olham para mim nos transportes como se eu fosse um animal fugido do zoológico, como se fosse despida.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

São mariquices, mas são minhas!

Eu até não fiz grande alarido com o fim das férias, nem com o início do Outono, nem com a primeira chuva, mas não posso deixar de marcar este dia, como o primeiro, desde há vários meses, em que uso calças. E eu detesto calças.
A trovoada desorientou-me logo de manhã; primeiro, acordou-me com luzes a acender e a pagar e fazendo do quarto uma discoteca tardia - há músicas menos melodiosas - uma vez que durmo com os estores levantados. Depois empurrou-me para a secção de calças que a de calções não me pareceu apropriada, a de saias só tem exemplares curtos e já imaginava o vento a piscar-me o olho enquanto as levantava.
Não tendo senão sandaletes ali nas redondezas, vai de ténis, tanto mais que é sexta-feira, casual day.
Manga curta e - voz de tia - um corta-vento impermeável. Porém, a chuva era tanta que tive que ir desencantar um objecto com o qual tenho uma má relação: um chapéu-de-chuva.
Assim, sai para a rua nesta figurinha... com chapéu-de-chuva e ténis, coisas que não pegam, não fazem pandan. É claro que estou chata, irritada e mal disposta e não é pelos ténis, que não perco oportunidades de os usar mesmo no trabalho, mas o chapéu-de-chuva não vai com ténis, é uma afronta aos próprios ténis, lindos, maravilhosos, confortáveis, o chapéu-de-chuva, decididamente, não pega comigo. Hoje usei-o como quem toma um medicamento e amanhã espero estar melhor.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Mas estamos a brincar ou quê?

Manuel Almeida não gosta da palavra Bairro. Afirma ser um ninja e querer formar ninjas para combater o crime. O candidato mais mediático das eleições de Setembro de 2013 lembra o brasileiro Tiririca mas, por mais vontade de rir que nos dê, acaba por ser uma voz anónima que arranca de muita gente um, É parvo, é parvo, mas vai dizendo verdades... 
É o taxista que conhece aquele caso com que lidou ainda ontem, é o passageiro dos transportes que ainda há dias ficou prejudicado porque o autocarro não passou, é o cidadão a quem acontecem coisas concretas e pode dar exemplo disso, levando o particular à categoria de geral.
Faltando-lhe, entre outras coisas, a dimensão do global, os concorrentes entram em paranóia com o discurso inarticulado, mostrando desagrado com as acusações de Manuel Almeida, mas não adiantando muito mais, quase com pena dele, quem seria o juiz que o condenaria fosse pelo que fosse. Ainda assim, têm escrito nas testas Mas porque é que este gajo teve que se candidatar ao mesmo tempo que eu? Como se a dimensão extraterrestre de Manuel Almeida descredibilizasse qualquer pessoa envolvida.
A dimensão pessoal assumida em tudo verbaliza acusações de ladrões e corruptos; quem não as faz? Ideias como a de fazer auditorias sem aviso prévio são palavras comuns na boca de cidadãos comuns. Afinal onde está a surpresa?
O novo Tino de Rans distingue-se do original por uma raiva contida, um desafio instintivo contra uma vida que não terá sido fácil.  Procura palavras e sai-lhe especular a propósito de tudo e mais um par de botas, juntamente com mais uma história pessoal, cheia de pormenores, e eu disse, e ele disse, e depois eu disse e depois ele disse,...
Manuel Almeida é um português nato. Sabe que muita, muita, muita coisa está mal e quer que fiquem bem. Personagem digna dos Gato Fedorento contrariou a célebre tirada, Eles falam, falam, mas não fazem nada, fazendo alguma coisa: candidatando-se. E quer se queira, quer não, isso é muito importante.
Manuel Almeida lembra-nos a criação de Gil Vicente,  Joane, o parvo, do Auto da Barca do Inferno, o único que tem a audácia de injuriar o Diabo, o pobre de espírito, o inocente que, mal ou bem, se opõe ao poder.
Visto na televisão e na internet é espectáculo gratuito que ninguém perde, que todos condenam, mas a quem silenciosamente se acaba por dar uma certa razão. 

Cuisine du futur

Acelera-se-me o coração sabendo que os meus sobrinhos estão a caminho. O mais novo ao telefone diz Quica, Quica, Quica. É Domingo de manhã e dizem-me que vêm lanchar ajantaradamente, tenho tempo para uma surpresa.
Deixo o Duarte a tomar conta de uma panela de arroz e vou ao supermercado: pão, fiambre e queijo, uma carne fatiada, uma caixa de gelado e três garrafas, tão pequenas que não chegam a ter um gole de líquido. Será mais que suficiente.
Quando chegam, abrem-se as abas da mesa da cozinha, a única que existe lá em casa, e ela põe os pratos, os talheres, os copos. Depois mando-a para a sala alegando que vou fazer um comer que vai provocar muito fumo. Fecha-se a porta e a cozinha transforma-se num laboratório de feitiçaria.
Suja-se a loiça toda, é preciso dividir o arroz em quatro porções iguais, juntar-lhe mais uma gota de água e uma gota de líquido das pequenas garrafas, uma só gota de cada garrafa em cada um dos recipientes de arroz. Para cada porção uma taça, uma colher, um prato para levar à mesa o arco-íris: há arroz amarelo-ovo, arroz verde, arroz encarnado e arroz azul.
Chamados a comer, doidos por batatas frita palha nem a olham, olhar esbugalhado preso no arroz colorido.
Percebem que é corante, o sabor é o mesmo mas as variedades - branco, verde, azul, encarnado e amarelo - são magia pura  para engolir.
No fim, alguém se lembra que devíamos ter tirado uma fotografia e a minha irmã diz-me que, em termos de técnica, os meus comeres são a concretização do desastre, mas qualquer chef adorava ter-me a trabalhar com ele, não para ajudar na nouvelle cuisine, mas para lhe apresentar a cuisine du futur

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

As aparências iludem

Decorria animada a conversa com amigos diante de um café, em local bem longe da moda, quando a porta do estabelecimento se abre de rompante. Um vento quente espalhou-se pelas mesas enquanto um homem de cara encarnada estica um braço apontando para a cave do local e diz, afogueado, Por ali! Imediatamente a seguir entram quatro polícias em passo apressado.
O café ficou em silêncio. Por trás do balcão o dono parou de limpar copos. Os olhares de todas as pessoas acompanharam os polícias até desaparecerem escada abaixo num tropel. Os espíritos dos presentes anteciparam mil cenários sobre actividades ilícitas por baixo dos nossos pés. Alguns, que ainda comiam, afastaram os pratos. Os que seguravam em copos e chávenas, pousaram-nos.
Passada a surpresa inicial o dono, ansioso, nervoso, deu uma corridinha saindo do balcão e com o olhar inquiriu o homem que esticara o braço, sem verbalizar nada, e sem nada ser preciso dizer da parte fosse de quem fosse que já ali estava. Então, o homem que esticara o braço, que dissera Por ali!, que usara um tom acusatório, que indicara, que apontara, que quase desvendara, deu a única resposta que ninguém esperava:
- Queriam saber onde são as casas de banho e querem jantar, eu disse-lhes que isto estava quase a fechar. 

Sonhar e rezar, sempre

Antes de sair o vigilante da noite e entrar a colega da portaria que assegurará o serviço de dia vou tomar o segundo pequeno-almoço. Ainda não são oito da manhã, o pátio deixa ver cada pedra da calçada portuguesa que a luz do sol vai aquecer dentro de horas. A sombra e o silêncio misturam-se.
Quando regresso passa das oito e o pátio está cheio de figuras humanas semelhantes a corvos. Os que vestem roupa normal tendem a afastar-se dos doutores, receosos que as praxes comecem com a alvorada.
Sou abordada três vezes, sobre a localização do auditório um e dois e sobre o bar o que me demora uns minutos a chegar à Biblioteca. Aqui, uma das colegas da limpeza é nova no serviço, começou em Agosto, nunca viu a chegada dos caloiros, o pátio cheio de risos e de esperanças, como se o sol, que ainda mal nasceu, aqui vivesse.
O primeiro dia de aulas sempre teve uma mística que me faz flutuar.
Na primária sonhava acordada rezando para que chegasse depressa. No liceu sonhava acordada rezando para que chegasse depressa. Na faculdade sonhava acordada rezando para que chegasse depressa.
Hoje levantei-me às quatro e meia e comecei a trabalhar uma hora depois, não tive tempo nem de sonhar nem de rezar, mas revejo-me em cada novo aluno repetindo as mesmas sensações ano após ano, dando o que tenho e o que sei, sentindo que sou parte da máquina que existe para contribuir para o sucesso de cada um.
Se durante uma vida eu sonhei e rezei para que chegasse o primeiro dia de aulas, depois de começarem sonho e rezo para que seja um Bom Ano. 

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Inho, inho, inho

Não sou fã de inhos ou inhas e uso-os normalmente com segundas intenções. Entre muitos, tantos, demasiados, o que mais me repele é o coitadinho/a. Ainda assim, há inhos e inhos, a começar  pelas palavras que efectivamente terminam assim.
Dizem que é um sufixo derivacional do grau diminutivo e só isto me faz pensar duas coisas: primeiro, como é que se pode gostar disto? Segundo, como é que a criançada vai amar o português? Seja como for o seu uso pressupõe uma manifestação de afectividade, ainda que a intenção seja outra e daqui ao desprezo é um pulinho.
Um bom livro, por mais pequeno que seja, nunca, mas nunca será um livrinho. Já um velho pode ser um velhinho, isto se gostarmos dele e, em idade avançada, quando são mudados para os lares, não saem de casa e sim da sua casinha. Cunhados quase todos podem ser, mas cunhadinho têm as invejosas e cunhadinha os expectantes.
Curiosamente, os outros dizem mentiras e nós, uma mentirinha, tão santinhos que somos. Da mesma forma, prestamos ajuda mas os outros só nos deram uma ajudinha, com frequência, uma mãozinha. As crianças estão doentinhas, os adultos doentes e embora progridam só afirmam estar melhorzinhos.
Não há alguém que, nem por só vez, não tenha andado devagarinho, mas não devia ir a caminho de uma rapidinha...
Ninguém quer um homenzinho, mas todos bebemos vinho, temos um vizinho, por vezes gordo que nem um toucinho.
Por me lembrar gente mafiosa não gosto da palavra padrinho e engalinho com uns certos focinhos. Nunca verbalizo a palavra golfinho e, juntamente com os meus sobrinhos, temos uma palavra de substituição... que não vou dizer qual é, faz parte dos códigos secretos!
Por falar em sobrinhos, os meus pintaínhos, gosto de lobinhos, que eu preferia a lobitos quando eles andavam nos escuteiros e as fardas os deixavam tão engraçadinhos...
Para terminar, e só desta vez, só desta... aqui ficam uns beijinhos.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Vai correr bem...

A voz tão simpática é de alguém da Maternidade Alfredo da Costa. Diz-me que a minha amiga está neste momento a ser operada. Não deixo de pensar na calma e suavidade da sua voz, seda pura, em contraste com o nervosismo da minha amiga, cuja operação tem sido adiada há anos, a pedido dela.
Tem medo. Medo das anestesias, medo dos hospitais, das facas e dos bisturis.
Mas chega a uma altura em que os médicos põem o ar sério, tipo mãe de criança pequena quando nos chama pelos dois nomes, e não há volta a dar, tem de ser.
Eu não tenho medo de operações, confio, acredito. Ainda assim, já liguei tantas vezes que dei por mim a pensar se a suavidade vocal da senhora seria normal ou era de propósito para mim. A bem da verdade, eu não tenho medo mas é das minhas operações.

Cartier

Fico a saber que o rei D. Carlos declarou a Cartier como Fornecedora Oficial do Reino. Fico a saber logo à saída do metro quando, meia gingona ao som de Sway pela voz de Dean Martin que me invade via auscultadores, paro repentinamente certa de me ter enganado na estação de metropolitano: escapou-me o Marquês de Pombal? Olha, saí em Hollywood!
A red carpet foi reinventada e está ao alto, do telhado para o chão, num encarnado forte, vivo, um encarnado... red carpet!
Fico a saber que trezentos convidados se vão aninhar no nº 240 da avenida da Liberdade e cá fora, encarnados misturam-se com dourados, onde (ontem?) havia um quiosque.
A agitação é muita e, com Sway nos ouvidos, não resisto a tirar uma fotografia, basta semicerrar os olhos para ter a certeza que estou na entrega dos Óscares, quase que atropelo um holofote, esbarro num senhor de fato e sinto-me despenhar da sandalete abaixo, logo hoje que trouxe uns saltinhos, sapato novo de pano velho, cortada a parte de trás são outros, fica tipo soca, deve ser por isso que ninguém me fala, não me reconhecem com calçado tão brega. Bolas, onde terei metido o convite?

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Alzheimer, sem dó nem piedade

Encho-me de pavor com a descrição de como é que a minha interlocutora arranjou as nódoas negras que tem no braço. Foi a mãe, a quem o alzheimer deixou violenta e que não admite que lhe toquem com um dedo.
Encontramo-nos no centro de saúde e tenho ideia que conheço aquela cara, mas não sei de onde. A cara meia conhecida sorri-me e avança para mim, cumprimenta-me, pergunta-me pelos meus, elogia o meu bronzeado, compara-o com a alvura da sua pele. Aos poucos reconheço-a, há meia dúzia de meses era mais nova uma dúzia de anos.
A linha recta descendente que a doença da mãe tomou levou-ao aquele limite. Conta-me que os banhos e a higiene diária são feitos com grandes doses de sedação, de outra maneira não deixa que lhe toquem. Conta-me que grita com toda a gente, com o marido com quem vive, com ela, filha, com os netos, e já deixou de gritar com os vizinhos e outra família porque eles deixaram de lá ir a casa.
Está no centro de saúde a pedir receitas para medicamentos que ponham a mãe a dormir para que possam tomar conta dela, para que a protejam de si mesma.
A vida é mesmo irónica, sacana, cabra. Obriga-nos a passar por estas coisas, por estes infernos em vida; sob o nome de cuidados paliativos, e porque amamos aquela pessoa, matam-se famílias inteiras aos poucos, devagar, lentamente aplicam-se-lhe torturas, físicas e psicológicas. Mas será aquela pessoa que se ama? Ou a pessoa que viveu naquele corpo? Aquela nem nos conhece, nem sabe quem somos, não reconhece a vida que se partilhou, nem sabe que em tempos teve dores de parto para dar à luz os filhos a quem agora atira as jarras que vai encontrando no caminho.
A quem temos que fazer uma petição para deixarmos de estar doentes e passarmos a morrer uns anos mais cedo? A Deus não pode ser, ele que tudo vê, mantêm-se sossegado, já sossegado estava quando o filho foi crucificado, porque havia de interceder por nós?
Aquela mulher, bem mais jovem que eu e que parecia mais velha que a minha mãe, que carregava a tristeza, o desânimo, a frustração, a impotência, continua a viver, ou a fingir que vive, porque o papel que lhe coube em sorte não é vida, é o de trave, trave que suporta, que sustenta, que segura, que permanece, que aguenta. Até um dia, até ao dia em que o pensamento, que inconscientemente foi ficando vazio para dar espaço ao nada que não deixa o tique-taque do pensar avançar, estiver completamente branco e estéril.
Enquanto fala, ouço a respiração desta mulher calma, habituada, a contrastar com a minha, acelerada. Vendo bem as coisas não era a minha respiração, era o meu medo. 

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Vida depois da morte

As minhas sessões de cinema estão confinadas ao ecrã de televisão lá da sala. Nem sinto bem ser cinema, falta-lhe o tamanho da imagem, a luz ou a falta dela na sala o que permite usufruir da luminosidade do filme, o tal escurinho do cinema, como diz a Rita Lee, até o sair da sala, de barriga cheia, a sonhar, ou mesmo cheia de desapontamento.
Se tivesse sido no cinema, ontem traria o desapontamento. Vi Os Irmãos Grimm com um Matt Damon que não reconheci e prefiro esquecer - parado, de braços levemente arqueados ao longo do corpo que parecia atarracado - e um Heath Ledger que lembrarei sempre, só por ser ele.
O mundo de fantasia que o nome dos irmãos transporta - e que tem alguma ironia se pensarmos no seu nome em inglês com menos um M - é mais do que livre para ser usado e explorado, cada estória uma nascente de imaginação, pontos de partida e chegada a misturarem-se, na ilusão tudo se permite, efeitos especiais e tecnologias a nadar como peixe na água, todo o esplendor do seu protagonismo aqui em relevo.
Porém, ocorreu-me também que são as tecnologias que fazem a magia de nos trazer, de manter, Heath Ledger ali, vivinho da silva.
Durante muito tempo confiou-se no traço do pintor ou no escopro do escultor para manterem vivos rostos de gente famosa, reis e imperadores, rainhas, protegidas e endinheirados; depois a fotografia trouxe a verdade, sem enganos, sem jeitinhos para embelezar, sem aumentar tamanhos ou diminuir gorduras, a que os pincéis sempre se entregavam. Ali estavam eles, parados, um instante irrepetível da eternidade na nossa mão. Depois pôs-se tudo a andar com os Lumière e o passado ganhou vida, repete-se, leva-nos, vem até nós, deixa-nos voltar atrás, espiolhar.
Heath Ledger é apenas um de muitos que já não se deixam filmar mas que continuam a estar presentes, a tecnologia a garantir a vida depois da morte, para nosso espanto e prazer. E vê-lo é sempre um espanto e um enorme prazer...

Pantaleão e as Visitadoras

Imagino Mario Vargas Llosa a rir à gargalhada quando se inteirou da história que o levou a escrever sobre o Serviço de Visitadoras, criado e mantido por Pantaleão Pantoja, capitão do exército peruano. Imagino-o a correr para o papel e a caneta. Imagino-o a sentar-se e a parar de rir. Imagino-o a imaginar cada uma das personagens, a pensá-las, a entrar-lhes no corpo e na alma,  que isto é maneira de falar, não literalmente, apesar do tema não creio que deva ser lida à letra. Imagino que para Vargas Llosa, Pantaleão e as Visitadoras foi uma orgia!
Explico-me para não ser mal interpretada.
Nesta narrativa há o oito e o oitenta, a ingenuidade de Pocha e a experiência de Chuchupe, a fome de prazer dos soldados e a abstémia dos irmãos da Arca, a beleza da Brasileira e a natureza da Mamuda, a mudança do vento nas opiniões de Sinchi e dos generais, e Pantoja, Panta, Pantita, quase santo, livre de vícios e obrigado a viver no meio deles, a mentir à família, a enganar-se a si próprio, a mudar, a ir dos oito aos oitenta.
Quando afirmo que Vargas Llosa pensou em cada personagem e lhes entrou no corpo e na alma, tenho provas disso: os discursos que se cruzam, aparentemente fora da lógica, mas com mais lógica que tudo o resto, ou não falássemos nós e pensássemos em simultâneo, que em simultâneo falam as pessoas, principalmente se estiverem em diferentes contextos e locais, que mundo de mudos teríamos se cada vez que um falasse em Iquitos todos os outros em Iquitos e em Lima e em Lisboa e em todas as partes se calassem?
Com este discurso o autor não nos presenteia com um livro e sim com a realidade, que se cruza, que se mescla, que se ultrapassa, que se contradiz, que se revela (não consigo deixar de me lembrar de vários autores que deviam ler estes textos vezes sem conta para aprenderem alguma coisa sobre o que é escrever, José Rodrigues dos Santos seria um bom candidato).
Assim, Vargas Llosa dá-nos a totalidade das envolvências ao mesmo tempo, como se carregasse as personagens ao colo em simultâneo, uma espécie de Árvore das Mãos de Ruth Rendell, mas com pessoas e um autor.
A forma como o autor nos leva a movimentar dentro da narrativa é única, flutuamos pela selva, pela Amazónia, em Iquitos, damos toda a atenção aos relatórios militares, escutamos atentamente as emissões radiofónicas, assustamo-nos com o Doido no hidrovião e, pelo menos eu, revolto-me com o revisor do livro. Lamentavelmente não fixei o nome deste profissional do erro e da gralha, e o livro, emprestado, foi devolvido.
O Irmão Fransisco é mencionado dezenas e dezenas de vezes ao longo das páginas e há um tal de Irmão Francisco que aparece uma ou duas vezes...
Continuo a espantar-me - já não devia... - com as fichas técnicas que anunciam tradutores e revisores e depois há mais gralhas que gotas de água no mar. Quanto terão pago ao homem? O que dirá a sua consciência? Terá consciência?
Não apontei as gralhas e é raro ler até ao fim um livro com tanto buraco, que me obriga a tanta paragem que parece uma prova de obstáculos, mas Pantaleão falou mais alto.
Pantaleão e as Visitadoras, lido em edição da D. Quixote, a precisar de revisão urgentemente.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Vida social

Apesar de tanta tecnologia que nos rodeia, de tanto telefone, de tanto correio electrónico – receptível até dentro de água! – as pessoas têm muita saudade umas das outras.
Neste pós-férias multiplicam-se as marcações para jantares de antigos alunos, combatentes, colegas, o que for; sucedem-se os telefonemas a combinar encontros, para comentar as fotos das férias já vistas e partilhadas no Facebook ou em qualquer outra rede social, descarregadas a cada passo durante a ausência.
A minha vida social é fraquita mas em Setembro atinge um pico que se repetirá no Natal, quando as saudades parecem voltar à carga, sem apelo nem agravo.
A coisa é de tal forma que fui convidada para três jantares no mesmo dia! Os convites vêm via Facebook e, reparando não ser a única naquela circunstância, liguei a uns amigos perguntando qual deles iam aceitar, por me ser grata a sua companhia e costumarmos ficar juntos. Fiquei banzada com a resposta: Vamos pelo menos a dois! Jantamos num, comemos a sobremesa noutro e se a malta for a qualquer sítio no terceiro encontro, nós ainda aparecemos lá.
Ri-me, não me ocorrendo mais nada para responder. Será a vida social deles ainda mais insignificante que a minha, tendo que se aproveitar todos estes convites? O que aproveitam em cada um? Não era suposto irmos para conversar? Estarão as redes sociais a ocupar tanto espaço, mas tanto mesmo que, mesmo presentes, somos notados pela ausência? Já cá esteve, deve estar a chegar, talvez venha… mas se lhe quiseres falar apanha-o no Face
Terão as conversas a mesma profundidade das mensagens que se debitam, a maior parte das vezes copiadas, nas redes sociais? A partilha é efectiva?
Um dos grupos que agora se planeia encontrar é constituído por pessoas que frequentaram a mesma escola secundária; um dos elementos, rapaz muito respeitado na altura, é agora alvo de chacota – simpática, mas chacota – por não ter Facebook. As primeiras vezes em que nos reunimos ele afirmou afirmativamente a sua negação em pertencer a redes sociais. O que terá pesado para agora o encontrar, alegre e dinâmico, a mandar piadas, a partilhar fotos e a anunciar o seu estado de espírito diário? Terá percebido que sem o Face perdia a sua antiga aura? Sentiu-se obrigado a arranjar este aliado?
Por outro lado, no primeiro fim-de-semana de Setembro organizou-se um encontro dos soldados que fizeram tropa em Beja, nos idos de 66. O meu pai, convidado, não pode comparecer, com imensa pena dele. Falando com os organizadores da coisa mencionou o Facebook alegando que era via através da qual podia ver depois as fotos que tirassem. Lá do outro lado perguntaram Ai tu tens isso?
Dias depois o meu pai recebeu no Facebook algumas imagens do jantar. Primeiro não percebeu quem era aquela gente que o contactava, depois fez-se luz: eram filhos e netos dos que tinham estado no convívio que, segundo consta, foi memorável, muitas recordações, muita conversa, muita vida.

Love is in the air

Os relacionamentos amorosos entre duas pessoas de idades muito diferentes estão no capítulo da desconfiança no manual de comportamentos da maior parte das sociedades. Um homem com um pé nos setenta e uma jovem pouco mais velha que Cristo quando morreu, são alvos de olhares, de comentários, de fraca aceitação social.
Ainda assim, as pessoas comentam, mas não se chocam, olham mas não condenam, sorriem à velocidade de pensamentos comuns sobre aquelas que acreditam ser as verdadeiras motivações de um e de outro, bastas vezes financeiras, da parte do elemento feminino da relação. O que vê ela nele? É pergunta que se repete, com interesse científico na resposta ou, com frequência, com alguma inveja?
Seja como for os exemplos andam por aí, o amor não é discriminatório, não escolhe idades, raças, credos políticos, clubistas, religiosos, acontece. Ao fim de algum tempo, habituamo-nos, esquecemos o assunto.
Mas… e se já tiverem passado setenta primaveras por ela e pouco mais de trinta por ele? Aí o caso muda radicalmente de figura! A velha é uma maluca, o rapaz é muito novinho para saber o que faz, coitado, em conclusão, a culpa é dela.
A culpa, esse fortíssimo peso da herança cristã, presente com todo o seu arcaboiço em qualquer acção da nossa vida, a culpa, que ganharia o primeiro prémio, fossem os sentimentos materializáveis.
Sabendo de um caso assim, interesso-me, quero saber pormenores, não por curiosidade mas por querer perceber onde vão buscar coragem para enfrentar a sociedade. No bolo que é a vida de cada um, a fatia da sociedade é muito mais pesada que a familiar ou qualquer outra. É a sociedade que dita as regras e seria a sociedade de uma vila tipicamente portuguesa, de tamanho médio, que torceria o nariz a um relacionamento de uma branca com um preto, a um relacionamento de duas mulheres, mas que condena de dedo em riste e definitivamente um casal em que a mulher tem mais que o dobro da idade do homem.
Ele, profissionalmente activo, vê uma multidão de adoradores das suas competências e desempenhos questionarem o que até aqui eram só certezas sobre a sua performance no trabalho; afinal, o seu relacionamento atípico cai numa certa amoralidade e, se ele tem aquela atitude, que outras igualmente fora dos cânones sociais – leia-se, condenáveis – será capaz de perpetrar?
Ela, profissionalmente não activa, sente na pele um afastamento das amizades que não querem dar-se com alguém que devia ter idade para ter juízo, e sentem, ainda que inconscientemente, que foram traídas, como é que ela foi capaz? eu nunca suspeitei de nada… pensava que ela era uma mulher normal… que desrespeito à memória do marido, Deus o tenha no céu em descanso…
O silêncio impõe-se nos restaurantes e cafés quando um deles entra. Há quem se ajeite na cadeira para ficar de costas, o empregado ao balcão rosna a querer saber o que querem. Os poucos que aparentam aceitar esta situação fazem-no para saber pormenores que, podendo, venderiam a todos os outros, cuja curiosidade imensa se esconde numa capa de nojo, doentiamente ansiosos por todos os detalhes e a sofrerem dores alheias, nem quero imaginar o que sentem os pais dele, e mesmo a família dela, que vergonha…
Grande, enorme diria mesmo, é a probabilidade de ela lhe ter feito qualquer coisa, introduzindo-se o elemento mágico para explicar a relação, sim, ela deve ter-lhe dado qualquer coisa a beber ou a comer, é definitivo, todos sabem, todos acreditam.
A ninguém ocorre sorrir ao pensar numa relação sexual activa, onde se glorifica o facto de, aos setenta, uma mulher ser tão ou mais poderosa que uma de trinta. Dá vómitos. Vómitos de inveja, não assumida, é claro. O escárnio é partilhado e quem se ponha de fora, também não é normal.
Conheci o casal. Ele parece ter muito mais idade, ela aparenta muito menos. Percebe-se que há uma comunhão rara de entendimento nas conversas, até no discordar são melodiosos e suaves, numa palavra, exemplares. Ele ganha o ordenado mínimo, ela recebe o mesmo de reforma.
Perguntam-me se concordo. Não há que concordar ou não. Perguntam-me o que sentiria se fosse com o meu filho. A bem da verdade, não sei responder. As pessoas são todas diferentes e é precisamente a necessidade premente da sociedade em catalogar, em arrumar em determinados sítios, em pôr em caixinhas pré-eleitas para cada situação que provoca a falta de abertura para situações diferentes, situações que não encaixam.
A nossa mente, pré-formatada, aceita o que conhece, o que é normal, o que é natural. Na biblioteca não conseguimos fazer um tratamento documental standard aos trabalhos de arquitectura: três dimensões, grandes, desformatados – cá está – e que nos dão uma trabalheira dos diabos. É tão mais fácil quando são de economia, de direito ou qualquer outra matéria, onde a catalogação, indexação e arquivo é quase automática. Mais do mesmo.
Na vida passa-se mais ou menos o mesmo.
Contam-me a reacção da filha dela, mais velha que o actual companheiro da mãe. Não gostou, mas aceitou, quer a felicidade da mãe mas, é honesta, avança que lhe é mais fácil por não viverem na mesma terra e apenas ser a mãe que a visita, ela, o marido e os filhos vão à pequena vila só quando o rei faz anos e nós não vivemos numa monarquia. Ama a mãe, mas não deixou de dar voz ao incómodo sentido.
Se o amor é lindo, a sua vivência pode ser horrível, carregada de sentimentos confusos – o assumir o sentimento já foi duro, assumir a relação um inferno, afinal, ela própria pertence ao grupo da culpa e confessa não saber o que teria feito e pensado há um ano atrás, se os protagonistas fossem outros.
Perguntaram-me o que faria se fosse eu. Pergunta difícil, confesso, à qual respondi com a verdade: não sei. Disse-lhes que vivessem um dia de cada vez.
A sociedade, a família, o trabalho, os diversos contextos onde vivemos e convivemos são feitos de moldes onde nos adaptamos, não eles a nós. As relações inter-raciais ou a homossexualidade ainda têm muito caminho a percorrer, porque ousaram pôr em causa este equilíbrio. 
A manutenção do respeito do caminho de vida, crescer, casar, ter filhos, por aí fora, é uma espécie de último bastião social, onde não se aceitam intérpretes que não possam seguir o caminho previamente alcatroado. Ainda assim, um homem velho pode dar filhos a uma mulher nova, mas uma mulher velha não serve para isso. Quereremos dizer, não serve para nada? 

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

For me, for me, formidable

A canção das férias, transportada no meu telefone e ouvida e cantada até à exaustão por mim, pela minha irmã e pelos gaiatos, sempre dedicada uns aos outros. A música é maravilhosa, o Charles Aznavour é maravilhoso, a brincadeira de línguas é maravilhosa.
Além do mais, para mim, foi treinar um francês no qual estou completamente à vontade para dizer Je ne parle pas français…Correndo o risco de ter erros... aqui fica.

You are the one for me
For me, for me, formidable
You are my love very
Very, very, veritable
Et je voudrais pouvoir un jour enfin te le dire,
Te l'crire,
Dans la langue de Shakespeare
My Daisy, Daisy,
Daisy, desirable
Je suis malheureux
D'avoir si peu
De mots
À t'offrir en cadeau
Darling I love you, love you
Darling I want you
Et puis c'est peu prs tout
You are the one for me
For me, for me, formidable
You are the one for me
For me, for me, formidable
But how can you see me,
See me, see me, si minable
Je ferais mieux d'aller choisir mon vocabulaire
Pour te plaire
Dans la langue de Molière
Toi, tes eyes, ton nose,
Tes lips adorables
Tu n'as pas compris
Tant pis
Ne t'en fais pas et..
Viens tombe dans mes bras
Darling I love you, love you
Darling I want you
Et puis le reste on s'en fout
You are the one for me
For me, for me, formidable
Je me demande meme
Pourquoi je t'aime
Toi qui te moque de moi et de tout
Avec ton air canaille,
Canaille, canaille,
How can I love you

Obrigadinha, sim?

Nos meus ouvidos mora um zumbido desde há alguns meses. Desconheço o que o levou a instalar-se e que tão boas condições encontrou – arrendamento zero… - que por aqui ficou.
Muitas consultas e tratamentos depois, o médico sugere uma intervenção cirúrgica. Falo com a companhia seguradora, enviam-se papéis de parte a parte, redigem-se relatórios, fazem-se e atendem-se telefonemas, até que a companhia, três meses depois, diz que sim, que autoriza – “… de acordo com os elementos disponíveis, encontra-se a cirurgia aprovada”.
Porém “… fica a cargo do cliente uma franquia de 2.500.00€, cujo valor é superior à presente despesa. Assim, deverá a Pessoa Segura liquidar a totalidade da despesa”.
Leio várias vezes a cartinha para perceber o que raio é que afinal aprovaram… 

A tioria do bigue bangue

Leonard, Penny, Sheldon, Wolowitz e Koothrappali são as figuras principais de uma série que adoro, The Big Bang Theory.
Faz-me rir, é inteligente, simples numa aparente complexidade e com actores de quem gosto bastante, longe de mediatismos das grandes estrelas.
Para não perder episódios gravo-os e vejo-os quando tenho tempo, por vezes dois e três de seguida, enquanto passo a ferro, sentindo-me uma super heroína que tem o disfarce de dona de casa mas na verdade é… não posso dizer, é ultra secreto.
Cada protagonista interpreta um estereótipo brilhante e de forma luminosa, com destaque para o obsessivo Sheldon, e parabéns ao guionista, não tanto pela imaginação, mas pela forma de captar cada detalhe de expressão corporal, cada pormenor da expressão linguística, cada momento de humor, que se movem numa cadeia onde até as repetições – Sheldon batendo à porta de Penny – não cansam e parecem renovar-se.
A cada novo episódio pergunto-me o que diria o Dr. Sheldon Cooper se soubesse que as legendas na tradução portuguesa são um desastre.
Para além de ser uma série com múltiplas referências a dinâmicas americanas – outras séries televisivas que não passam cá, nomes de produtos, etc. – cujo contexto é traduzido à letra, deixando o sentido muito a desejar, ontem fui brindada com a tradução de ‘light’ por ‘lite’. Todos os dias há uma destas e fico sempre a pensar nas crianças do primeiro ciclo que devem ter contratado para fazer aquele trabalho. 
É uma pena, mais uma para juntar a um grande colchão para o qual contribuem todas as estações de televisão. 

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

A caverna de Alibaba

Uma produtora francesa fez um documentário sobre o gigante capaz de produzir tudo, mas literalmente tudo, para o mundo inteiro e que dá pelo nome de China.
Passava eu a ferro a meio das férias quando, no descanso momentâneo do electrodoméstico, entre uma passa no cigarro e uma mudança de canal, apareceu esta pérola.
As equipas de filmagens acompanhavam dois ou três - não vi desde o princípio mas acho que foram deixando o melhor para o fim - representantes de empresas francesas em viagem de negócios pela China, visitando fábricas, falando com responsáveis, acertando compras em grande escala, sempre com um intérprete.
Logo aqui é curioso verificar que há tantos chineses a falar inglês, e francês, mas os europeus não falam chinês. Serão eles mais espertos que nós? O 'espertos' em vez de inteligentes ou capazes, foi propositado.
Com tanto metro quadrado que há para lá fico sempre com a ideia que, por mais séria que seja a intenção de quem planeia e concretiza estas imagens, será enganado sempre que os anfitriões queiram. Mostram imagens de fábricas que vão de complexos industriais como os conhecemos na Europa, até um andar num prédio de habitação. Com uma excepção breve, não se viam crianças a trabalhar e quase não se falou do assunto, ao contrário, por exemplo, dos tapetes no Norte de África onde a garotada é mostrada descaradamente e, magia, o ónus vem para cima de nós uma vez que, quando perguntamos porque são crianças a fazer aquele trabalho, nos dizem que nós gostamos mais do ponto apertado por mãos pequenas. Gostamos? Sempre a aprender.
Nesta visita a um país de alma comunista e espírito capitalista a equipa visitou uma cidade onde a comunidade se impõe: o responsável local do partido explicou bem a coisa. Bem... o que ele dizia não sei, o que era traduzido nas legendas em português era o que a intérprete traduzia do chinês. Seria uma boa intérprete? Lamentavelmente esqueciam-se de mostrar o certificado de habilitações da senhora com as respectivas notas.
Num supermercado da dita cidade chamava-se à atenção para as fardas das empregadas: uniformes do exército vermelho que, como é óbvio, não se haviam de deitar fora e foram aproveitados. As mesmas empregadas começavam o dia a cantar, alinhadas no que parecia ser um parque de estacionamento do supermercado. Ora, será que lá, como cá, se usa o provérbio de quem canta seus males espanta? A letra aludia à comunidade e em como é bom trabalhar para ela e deve ser mesmo bom pois uma boa maquia do ordenado vai directamente para os seus cofres.
Mostravam-se todos os cantos de uma casa, dada pela comunidade a uma trabalhadora, ligou-se até a televisão para que se visse o programa que estava no ar e realçou-se que todos podiam ver aquele programa. Magnífico, nem precisavam de comando de televisão, pois alguém solucionava essa questão, de uma só vez para toda a cidade. Cozinhas e lavagens de roupa comunitárias, casas para famílias inteiras - equivalentes a um quarto nas nossas medidas - e sempre com observações muito positivas dos utilizadores, de acordo com a tradução.
Um dos empresários procurava tinteiros reciclados e quando viu que todo o trabalho era feito manualmente sem luvas ou máscaras chamou a atenção do responsável para os perigos envolvidos naquelas tarefas. A resposta foi polida que nem uma prata em casa de membro da fidalguia, inconclusiva e eventuais alterações foram chutadas para o futuro. O empresário encolheu os ombros, a sua parte estava feita, o que podia fazer mais? Acusado de silêncio não podia ser.
Todo o documentário é objecto de reflexão, pleno de curiosidades e espantos como a própria China. Datang é a capital mundial das meias, uma cidade que se especializou nesta peça de vestuário e que tem um salão de apresentação com nove mil meias diferentes: de homens, mulheres, crianças e bebés, para animais de estimação, para todos os desportos e mais os que ainda não foram inventados, fabricados com mil tecidos e têxteis diferentes, de algodão, vidro, mousse, fibra, caxemira, seda e quejandos, pézinhos, curtas, até ao joelho, de meia perna, collants,  para passeio, para trabalho, para russos - bem quentes - para  europeus - anti-bacterianas, seja isto o que for - com dedos e sem dedos, para diferentes estações do ano, festivas, de Natal, aniversários, estampadas e lisas, ou coisas estranhas, pelo menos para mim, como por exemplo, peúgas do dedo do pé do laço de Terry, alguém que me explique o que é isto.
Abordou-se a mega empresa Alibaba, de quem a Yahoo tinha participações que voltaram recentemente à caverna por muitos milhões de dobrados em ouro, e mostraram-se imagens do maior centro comercial do mundo, uma coisinha com lojas na ordem da quase dezena de milhar, sendo cada uma delas a cara de uma fábrica e onde se tem uma pequena amostra do que as fábricas produzem e vendem.
Ali encontram-se pessoas de todo o mundo que compram tudo, até um guineense que foi à procura de artesanato típico da Guiné, estátuas em pau preto, em pau ferro, de todas as formas e dimensões, fruto do labor de pequenos artesãos, assim como também produtos de arte maconde, pura? Não, feitos por chineses. O entrevistador queria saber o que procurava o guineense em particular e ele dizia a verdade, tudo o que se pedir, eles fazem, barato e bom.
E contra isto, batatas? Não, só se for arroz chau-chau.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

De regresso

Um mês inteiro com chinelos de enfiar no dedo só podia dar nisto: no primeiro dia de trabalho tenho os pés em ferida e só fui de casa para o trabalho. Seria das sandálias? Do trabalho? Efeitos secundários desconhecidos de Setembro? Não sei, mas estou muito mal, tão mal, ai mas tão malzinha...
Para este tão grande desconforto contribuíram de certeza várias coisas: os cartazes das autárquicas, alguns dos quais com toques monárquicos, onde há uma auréola de quem parece abdicar em favor de outro alguém, mas empresta - aluga? - a cara e/ou o nome para mostrar apoio ao candidato, querendo mostrar que eu é que ainda sou o presidente da junta, seja a propaganda para a câmara, a assembleia ou a junta, e seja a junta a de freguesia ou a de bois.
Os meus pés também ficaram varados quando souberam que há um desporto que se chama Óquei e nem a cabeça lhes soube explicar a que acordo ortográfico se recorreu para esta mudança, mas provando que a informação que roda em rodapé - ai que giro, fui eu que inventei! - nos ecrãs dos canais de televisão é... expressiva; o que querem expressar, não sei.
Por outro lado, entrou em vias de extinção o budget para gasolina e tenho corrido seca e meca a pé, seca e meca como forma de expressão pois, embora a minha sobrinha ache que sou muçulmana, nunca fui a Meca nem a pé nem a cavalo.
Por outro lado ainda, na gloriosa manhã do terceiro dia de férias, a minha querida irmã perdeu a chave do carro na praia e ficámos apeados. Podia ter sido numa praia de rochas, podia ter sido numa praia de areia branca ou mesmo de grão grosso, mas não, foi numa de seixos negros, pequenos, aquadrazados, tal e qual como a forma da chave do carro e nem todos os visitantes juntos daquela praia de rabo para o ar a conseguiram encontrar, tendo ficado para sempre perdida nas ondas da praia de Illas e tendo-nos deixado com a roupinha que tínhamos no corpo. Conclusão, muito quilómetro se fez a pé naquelas paragens até que a chave suplente chegou de Portugal até àquele cantinho escondido onde estávamos.
O fim das férias foi, definitivamente, a razão maior para toda eu me queixar.

sábado, 31 de agosto de 2013

Fim de férias

Fim do mês, princípio do ano. Ano de trabalho, ano lectivo, ano de vida.
As férias são agora recordações e há que pintar toda uma parede para se começarem a fazer risquinhos até nova liberdade condicional.
Tudo está mais difícil, cansativo e velho, até eu.
Choro sempre no último dia de férias, sempre, não quero, mas choro, é-me superior. Entro em ressaca dentro de horas e procuro forças para me aguentar, rezando a todos os deuses que não enviem um inverno tão intenso como o passado.
Tento encontrar motivos de ânimo para todo um ano, mas no dia de hoje só me saem lágrimas. É amor. Está mais que provado, a minha incapacidade em amar não é geral, eu amo as férias e choro por elas.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Cervantes

Diálogo entre Babieca e Rocinante

B. ¿Cómo estáis, Rocinante, tan delgado?
R. Porque nunca se come, y se trabaja.
B. Pues, ¿qué es de la cebada y de la paja?
R. No me deja mi amo ni un bocado.

B. Andá, señor, que estáis muy mal criado,
pues vuestra lengua de asno al amo ultraja.
R. Asno se es de la cuna a la mortaja.
¿Queréislo ver? Miraldo enamorado.

B. ¿Es necedad amar? R. No es gran prudencia.
B. Metafísico estáis. R. Es que no como.
B. Quejaos del escudero. R. No es bastante.

¿Cómo me he de quejar en mi dolencia,
si el amo y escudero o mayordomo
son tan rocines como Rocinante?

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Arco Iris, de Mario Benedetti

A veces
por supuesto
usted sonríe
y no importa lo linda
o lo fea
lo vieja
o lo joven
lo mucho
o lo poco
que usted realmente
sea

sonríe
cual si fuese
una revelación
y su sonrisa anula
todas las anteriores
caducan al instante
sus rostros como máscaras
sus ojos duros
frágiles
como espejos en óvalo
su boca de morder
su mentón de capricho
sus pómulos fragantes
sus párpados
su miedo

sonríe
y usted nace
asume el mundo
mira
sin mirar
indefensa
desnuda
transparente

y a lo mejor
si la sonrisa viene
de muy
de muy adentro
usted puede llorar
sencillamente
sin desgarrarse
sin deseperarse
sin convocar la muerte
ni sentirse vacía

llorar
sólo llorar

entonces su sonrisa
si todavia existe
se vuelve un arco iris.

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Lament, Shelley.

O World! O Life! O Time!
On whose last steps I climb,
Trembling at that where I had stood before;
When will return the glory of your prime?
No more -Oh, never more!

Out of the day and night
A joy has taken flight:
Fresh spring, and summer, and winter hoar
Move my faint heart with grief, but with delight
No more - Oh, never more!

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Sed de ti. Neruda

Sed de ti me acosa en las noches hambrientas.
Trémula mano roja que hasta su vida se alza.
Ebria de sed, loca sed, sed de selva en sequía.
Sed de metal ardiendo, sed de raíces ávidas.

Por eso eres la sed y lo que ha de saciarla.
Cómo poder no amarte si he de amarte por eso.
Si ésa es la amarra cómo poder cortarla, cómo.
Cómo si hasta mis huesos tienen sed de tus huesos.
Sed de ti, guirnalda atroz y dulce.
Sed de ti que en las noches me muerde como un perro.
Los ojos tienen sed, para qué están tus ojos.

La boca tiene sed, para qué están tus besos.
El alma está incendiada de estas brasas que te aman.
El cuerpo incendio vivo que ha de quemar tu cuerpo.
De sed. Sed infinita. Sed que busca tu sed.
Y en ella se aniquila como el agua en el fuego.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Operário em construção. Amén Vinicius

E o Diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num momento de tempo todos os reinos do mundo. E disse-lhe o Diabo:
- Dar-te-ei todo este poder e a sua glória, porque a mim me foi entregue e dou-o a quem quero; portanto, se tu me adorares, tudo será teu.
E Jesus, respondendo, disse-lhe:
- Vai-te, Satanás; porque está escrito: adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás.
Lucas, cap. V, vs. 5-8.

Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.

De fato, como podia
Um operário em construção
Compreender por que um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia...
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse, eventualmente
Um operário em construção.

Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
- Garrafa, prato, facão -
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário,
Um operário em construção. 

Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem o fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.

Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento!
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.

Foi dentro da compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário.
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia
- Exercer a profissão -
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.

E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.

E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia sim
Começou a dizer não.

E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:
Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.

E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução.
Como era de se esperar
As bocas da delação
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão.
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação
- "Convençam-no" do contrário -
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isso sorria.

Dia seguinte, o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu, por destinado
Sua primeira agressão.
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!

Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras se seguiram
Muitas outras seguirão.
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.

Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário.
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
- Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher.
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.

Disse, e fitou o operário
Que olhava e que refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria.
O operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!

- Loucura! - gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
- Mentira! - disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.

E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão.

Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão.
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção.