quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Aqui sinto-me em casa

Abre o sol acompanhado de calor e começam os belos almoços de fotossíntese, no pátio do palácio onde trabalho. Quais lagartos, ali nos estiramos e de preferência em silêncio. De vez em quando uma diz qualquer coisa e todas concordamos pois dá muito menos trabalho do que discordar, que ninguém ouse fazer concorrência ao sol.
Regressada ao cubículo que me serve de gabinete tenho uma mala de palhinha em cima da secretária.
Aceno com ela para o balcão, a pergunta muda é entendida e a resposta vem em forma de dedo apontado para um aluno e uns gestos labiais impossíveis de perceber.
Aproximo-me e fico a saber que foi um aluno que resolveu oferecer uma a cada funcionária da Biblioteca, não, não é para agradecer, apeteceu-me, tenho levado tantos livros emprestados, as pessoas são tão simpáticas, têm sempre um sorriso, aqui sinto-me em casa, é apenas uma lembrança, nada mais.
Sorrio, já ganhei o dia. 

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Hitchdecepção

Perdi a conta às vezes em que troquei a perna, gesto que faço para acordar e manter-me atenta. Contei as pessoas que estavam nas filas à minha frente e ainda me aborreci mais pois é raro ter a companhia que tive e foi desaproveitada com uma sucessão de bocejos. Não trocámos cotoveladas, não nos rimos a bandeiras despregadas - como em Morte no Funeral - no final não tínhamos nada para conversar sobre o filme, a não ser que tinha sido decepcionante até dizer chega.
Anthony Hopkins é uma figura faça ele o que fizer, reencarne em quem reencarnar, maquilhado ou não. Helen Rainha Mirren faz-nos acreditar que estamos em directo sempre que a vemos actuar. A bela Scarlett fica sempre bem em qualquer lado, James d'Arcy criou arrepios como Anthony Perkins e Michael Wincott tem aquela voz que vale só por si.
Porém, funcionam como peças de puzzles diferentes, e não contribuem para um todo. Faltou ali muita coisa, aquilo não pega, não passa para a plateia, nunca nos esquecemos que estamos numa sala de cinema.
Altas expectativas, grandes desilusões, uma pena.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Eram rosas, eram?


Santos Silva passa a Franquelim, Franquelim passa a Relvas, Relvas fica com a bola, outra coisa não seria de esperar, passe-se a quem se passar Relvas está lá, já não são relvas, são ervas daninhas, senhor.
Acções de caridade é o que é, com o Senhor dos Passos pelo meio, precisamos de uma crucificação que a via-sacra vai longa. 
Matemos, esfolemos, sigamos o exemplo. 
Ai que bom, isto sim é viver em liberdade, sinto-a tão forte e apelativa, fazer o que me der na gana, hoje sou eu, amanhã mascaro-me, no dia seguinte mascaro quem eu bem me apetecer e viva o Carnaval, este, não o do Brasil, não o de Veneza, não qualquer outro, que têm data marcada e aqui não, é um Carnaval natalício, é quando um homem quiser, é fartar vilanagem.

Ler a Rebate


Em todos os telhados obliquamente preparados para receber a neve que nunca caí por essas aldeias, em toda a gama de azulejaria variada, em todos os Mercedes de capot brilhante, em todas as môts de todas as conversas pronunciadas as mais das vezes um pouco às avessas, em toda a generosidade e até na ostentação dos emigrantes emana um carinho difícil de explicar, sente-se.
Um regresso é sempre um regresso, mete saudades e sorrisos, acorda sentimentos, cria confrontos entre cá e lá, mostram-se manias novas, recordam-se hábitos adormecidos.
O Rebate é um regresso vivo, duro e cru, de tal forma que é de pouca dura. Ninguém aguenta.
Os meneios da linguagem fazem-nos ver as imagens descritas, os diálogos não dizem tudo mas expressam-se como olhos que captam e fazem de muitas palavras inúteis verbos. Não é preciso dizer tudo, este autor não precisa dizer tudo pois dizendo meio faz-nos chegar além de onde outros nos levariam se dissessem tudo.
As meias palavras carregadas de raiva, de inveja, de sorte alheia, nunca nossa. Nunca, caramba.
Imagino a dificuldade que será traduzir um livro assim, um livro que é mais que um livro, um relato da alma de uma aldeia, com passados e presentes, e futuros desejados de forma tão díspare do que se adivinham, com tanto de implícito como de conhecedor de realidades e palavras e reacções e gestos e, mais difícil ainda, meios-gestos e, ainda mais difícil, intenções, que bastam elas para que outros se mexam adivinhando, fazendo, desfazendo.
Não descansei até que cheguei à última página e se o livro em si é essência, as últimas páginas são como que uma bibliografia da alma do autor, uma mostra da recolha de sítios e lugares, de pessoas e situações.
Ao escrever assim, José Rentes de Carvalho dá-nos uma hipótese única, a de relermos como quem revive a vida verdadeira, como quem volta ao passado, sem hipótese de o mudar, mas de o voltar a sentir.
Ter um livro assim na prateleira é como ter um animal de estimação que tem uma vida própria tão intensa que receamos salte da estante sozinho, não precisamos de o olhar ou ler para saber que ri e se entristece, que nos faz companhia e emite um barulho mudo, chamando.
Para reler, agora sabendo da estalada que se leva ao consumir vida em estado puro.
Lido em edição da Quetzal, de 2012. 

Em segunda mão


Num dos filmes lamechas que eu adoro – grande história de amor, índios, ursos, cavalos, guerra, um veleiro, secundário é certo, mas está lá, e muitos olhos azuis, daqueles que são excepção, como os de Anthony Hopkins ou Aidan Quinn, e os verdes de Brad Pitt – há uma cena que não esqueço: matam-se uns tipos que mereciam mesmo desaparecer da face da terra e um índio dança em volta deles afirmando que adorava tirar-lhes o escalpe, mas não pode porque não foi ele que os matou.
Da mesma forma fartei-me de rir e fiquei com pena de não ter ouvido em primeira mão – expressão curiosa – a conversa que uma amiga ouviu hoje no metro.
Uma companheira de viagem veio o tempo todo ao telefone discutindo com outra os pormenores do aluguer de uma casa. Que não ficasse com aquela, que era cara demais, grande demais, não precisava de tanto, era só uma. Do outro lado, argumentavam e das respostas percebia-se que dizia que a cozinha estava equipada com móveis encastrados. Encastrados? Isso é exactamente o quê? Encastrados são todos os electrodomésticos, ora essa, o tambor da máquina de lavar está sempre encastrado no meio da máquina, o recipiente do detergente encastrado num dos cantos superiores, o congelador encastrado na parte de cima do frigorífico e por ai fora, então a outra não sabia que os electrodomésticos hoje em dia são todos stand by?

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Bom, bom, bom


Ontem foi um dia bom. Bom como poucos. Mesmo bom, muito bom. 
Tão bom que o vou guardar só para mim. 

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Recapitulemos


Algures no século passado andava eu em preparativos para o meu casamento quando chegou a altura da escolha do local do copo-d’água. De entre alguns restaurantes fixei um que nos recebeu com um disco humano: depois das palavras iniciais de cumprimentos e tal o dono do restaurante passou a descrever como se passavam ali os copos-d’água.
- Os convidados chegam, estacionam, saem dos carros, sobem as escadas, estão a ver?
Na verdade não estávamos e o meu pai perguntou se havia outro local de estacionamento, uma vez que na frente do restaurante alinhavam-se, quando muito, cinco ou seis carros.
- Sim temos, lá atrás há um espaço enorme. Ora recapitulemos: os convidados chegam, estacionam, saem dos carros, sobem as escadas, alinham-se lá em cima ao pé das mesas. Estão a acompanhar-me?
Adivinhando uma hora bem divertida o meu futuro marido respondeu que sim e eu perguntei se podíamos falar na sala lá de cima, onde eventualmente decorreria a festa.
- Sim, claro, subam, subam.
Enquanto subia não consegui reprimir uma gargalhada quando o homem disse:
- Ora recapitulemos: os convidados chegam, estacionam, saem do carros, sob…
- E quem não vem de carro?
Fui fulminada com olhares sorridentes que se continham para não rir abertamente e o senhor respondeu com ar sério:
- Minha senhora, isso já não é problema nosso, será do seu convidado que tem que arranjar boleia com alguém. Como calcula, sem ser de carro, é difícil chegar aqui. Em última análise têm de ser os senhores a tratar do assunto. Ora, onde é que eu ia? Recapitulemos: os convidados chegam, estacionam, saem dos carros, blá, blá blá…
Quando saímos de lá desatámos numa gargalhada pegada e entrámos no carro a repetir a sequência que o homem nos fizera decorar, como se fosse uma ladainha. Escolhemos outro local.
Ontem à noite na reunião de condomínio revivi aquele momento fazendo dois grandes esforços: não me rir e suster os bocejos.
O administrador do prédio, o sr. L.A. – que já deve ter ouvido falar em Los Angeles mas garantidamente pensa que é um filme do James Cameron – é homem para quarentas e tais, sensivelmente a minha idade, tem metade da minha estatura, está reformado não sei porquê, fala pelos cotovelos sendo a pessoa com maior capacidade de dispersão que conheço e eu conheço muita gente.
A única coisa que me mantinha acordada era a expectativa de falar com o V. que me ligou no início da reunião e a quem eu desliguei o telefone enviando-lhe uma mensagem a explicar onde estava e que falaríamos mais tarde.
O prédio tem 11 inquilinos, eu fui a quinta a chegar à arrecadação onde se fazem estes encontros maçónicos. Depois de mim apareceram mais três pessoas. Ele já lá estava, claro, sentado diante de uma mesa que me fez lembrar a mesa dos Nenucos da minha sobrinha e onde se alinhavam milimetricamente dois papéis soltos, um bloco, duas canetas, uma máquina de calcular e uma pasta castanha que deve ter pertencido a um espião dos anos 50, daquelas que alguém leva presa com uma algema, que se mantinha em equilíbrio meia fora meia dentro face ao reduzido tampo da mesa e ali ficou aberta, virada para ele, como se estivéssemos a jogar batalha naval, ele contra todos nós.
Quando entrei o Sr. L.A. explicou que tinha consigo dois orçamentos para a pintura e isolamento do prédio e passou a ler, depois de ter posto uns mini óculos na ponta do nariz afilado.
- Como vê vizinha, menos que isto não é possível e isto é muito urgente pois… Boa noite D. Beatriz.
Boas noites disparadas para todos os lados e o Sr. L.A., como se fosse uma cassete, faz rewind e repete o que me tinha dito que, por sua vez, já era uma repetição do que tinha dito aos que já lá estavam.
Se era crucial que todos fossemos à reunião, interiormente rezei para que não aparecesse mais ninguém, caso contrário já sabíamos que ele iria fazer aquilo que mais adora e com toda a legitimidade: ouvir-se a expor  dar a sua opinião sabendo que a maioria seguiria as palavras do líder, como se fossemos um grupo da Resistência e planeássemos um ataque cujo objectivo era salvar a Europa.
Mas isso não aconteceu e vieram mais duas pessoas: ele repetiu o acto de pôr os mini óculos, de pegar nos dois papéis, de ler sobre a pintura impermeabilizadora, de descrever o procedimento das camadas de tinta especial que acabará com a humidade, de explicar como se limparão os estendais, que ficarão como novos,etc., etc.
Acredito que tenha praticado ao espelho antes de ir para ali pois até os gestos aparentemente casuais se repetiam, um simples estender o braço como quem ajuda a perceber, o levantar da sobrancelha, o tira e põe os óculos de forma dramática.
Mais ainda, tendo os orçamentos a menção ao IVA mas não estando as contas feitas, a cada nova entrada de um vizinho, ele explicava e, usando a ponta da caneta, carregava nas minúsculas teclas da calculadora e chegava à quantia – sempre a mesma, calcule-se! – de 462 euros.
Quando chegou a D. Beatriz, logo a seguir a mim, e ele foi carregando nas teclas com a ponta da caneta, eu disse: são 462 euros. Ele terminou a conta na máquina, virou-se para mim e disse sorrindo para os outros:
- Aqui a nossa vizinha tem cabeça para os números! Está certíssimo!
Não aguentei. Não aguentei mesmo. Desatei numa risada, à qual todos se juntaram e até levei uma palmadinha no ombro, do jovem que vive no rés-do-chão, e uma piscadela de olho de outra vizinha. Ele sorriu também, um pouco contrafeito, não aborrecido, mas como se uma piada voadora tivesse ali passado e ele não a apanhasse.
Por entre muito bufar a cena repetiu-se a cada nova entrada como se estivéssemos num concurso para adivinhar as diferenças.
Depois de muita revisão da matéria, e de repetidos e sucessivos concordares com o orçamento, lá se deu por terminada a sessão de espiritismo e eu pude ir tagarelar com o V.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

O Retorno


Nos idos de 68 os meus pais vieram para Lisboa. Diziam eles, embora tivessem vindo para o Cacém, mas para os que ficaram, Lisboa ou Cacém, era a mesma coisa, calhando o Cacém era uma rua de Lisboa, uma parte da cidade, como a Coitada era uma parte da aldeia, nascida Coutada, mas mudada para Coitada na voz de todos e cada um, o que é uma palavra sem um i naquele Alentejo? Não era preciso dizer que era a Coitada do Sobral da Adiça, todos sabiam, mesmo que Safara também tivesse uma Coitada e Vale de Vargo outra e Ficalho outra e por esses caminhos muitas Coitadas houvessem.
Viemos para uma casa que era de uns tios que viviam em África, fosse África o que fosse, se calhar era uma rua ou um bairro lá de um outro Cacém. Mas ficava longe, muito longe, razão pela qual iam de barco e demoravam muitos dias. Era tão longe que um dos meus tios até foi de avião, juro, lembro-me de ouvir contar, os meus pais não iam mentir. Sim senhor, de avião.
O meu pai ainda meteu os papéis para ir para África mas não o chamaram. Se calhar era por causa de usar óculos que foi por causa de usar óculos que não o quiseram na Aviação, quando ele foi para a tropa e acabou por ser soldado normal, feito rádio-telegrafista lá pelos outros soldados e generais. Tinha uma máquina que ouvia tudo o que se dizia, tudo, mas não era ouvir com os ouvidos, era ouvir com códigos de pi pi pi, mas eram pi pi pis que ele percebia, por isso o tinham levado para ali, mesmo com óculos.
É claro que eu preferia ter ido para África do que ter ficado, apesar do meu pai ser rádio-telegrafista, palavra que gostava de ouvir, o éle a misturar-se com os érres, ainda hoje gosto.
Sentia até uma certa raiva por não termos ido e essa raiva transformava-se em inveja quando os meus primos vinham a Portugal. Inveja do que eu sonhava que eles lá tinham, ou melhor, do que eles lá eram. Tinham criados pretos, nós não tínhamos criados de cor alguma, eu comia pastilhas e eles mastigavam chuinga, o que para mim era muito para eles era maning, o Natal era aqui passado enrolados em camisolas de malha e eles na praia.
Praia e Natal, quem disse que o paraíso só se via nas imagens dos livros da catequese é porque, obviamente!, não conhecia Angola ou Moçambique como os meus primos conheciam. Mais, eles até tinham fotografias, a barriga enorme do meu tio cheia de areia, palmeiras lá atrás, uma preta a segurar ao colo o meu primo mais novo e o mais velho dentro de água, vê-se tudo na fotografia, a minha tia sentada na areia a sorrir, com um sorriso que só podia ser de Natal.
Penso que de tudo o que contavam era este aspecto que mais pesava na minha inveja. Aqui os meus primos eram uns vândalos que faziam perder a cabeça ao meu avô com tanta avaria e se ele já tinha tido que aceitar a cabeça da pacaça pendurada na sala, tipicamente alentejana, por cima do sofá, não tolerava certas brincadeiras, ai isso não.
Havia ainda outra coisa que eu não percebia – havia muitas, mas esta era recorrente: falavam em vir à metrópole, aqui na metrópole, a última vez que vieram à metrópole. Eles deviam estar enganados porque só os via no Cacém e no Sobral da Adiça e sempre que vinham nós estávamos com eles e nunca dei conta de irem à tal metrópole. Devia ser problema de linguagem, com certeza.
De repente apareceram por cá e ficaram para sempre. Havia lá uma guerra ou coisa parecida.
Nós mudámos de casa e eles estabeleceram-se na sua própria casa, cada qual em sua, pois ao todo eram dois tios, duas tias e quatro primos. Um dos casais teve um contentor cheio de coisas durante algum tempo ao pé do Tejo. Eu estava morta de curiosidade pelo contentor. Primeiro, o que seria um contentor? Segundo, pelo tamanho que diziam ter com certeza até leões lá estariam, não era em África que viviam? A minha tia não era apontada como tendo uma pontaria de invejar? Nem Deus sabia o que podia estar no tal de contentor.
O outro tio era enfermeiro razão pela qual foi o último a chegar, no último navio que veio de lá e vieram muitos e muitos aviões, parece que ao todo eram meio milhão de pessoas e se ele foi o último, foi o número quinhentos mil, que coincidência, ninguém é um número tão certo, os nossos bilhetes de identidade são uma mão cheia de números ao calhas, a licença de caça do tio Eduardo a mesma coisa, a carta de condução do meu pai a mesma coisa, o número da licença da mota do avô a mesma coisa e é a mesma coisa com toda a gente, à excepção do Tio G. que foi o número quinhentos mil, maning de giro.
Trouxeram a voz arrastada, com uma espécie de sotaque que era diferente do sotaque do Florival, o filho da vizinha da minha avó que estava na Suisse que, num processo contrário ao da Coitada, mais tarde se transformou em Suiça.
Traziam hábitos diferentes, roupas diferentes e queixavam-se muito do frio mesmo em dias onde não fazia frio. Mas lá não havia frio? Que coisa mais esquisita para as pessoas não saberem o que é!
Para além das palavras que eles trouxeram houve uma outra que ficou na boca de toda a gente, repetida até à exaustão: Retornados.
Não havia frase, conversa, telefonema, que eram raros, cartas ou jornais que não os mencionassem. Os vizinhos apontavam-nos com dedos e olhares sussurrantes, os ladrões de empregos que andaram lá a matar pretos e a fazer mulatinhos e agora estão aqui.
Quando o tio G. chegou nós sabíamos que ele vinha e fomos esperá-lo a Lisboa. Toda a minha atenção se centrou naquele barco e n o r m e onde ele tinha viajado. De tal forma que uns dias depois o meu pai convenceu-o a deixar-me acompanhá-los quando ele voltou ao navio para ir buscar uma coisa muito especial: a Milú, a pastor alemão arraçada de leão da Rodésia sobre a qual já aqui falei.
Eis que agora tudo me vem à ideia, que até nisto a leitura é boa, auxiliar de memória, não ao estilo do Hilário, mas como luz que se acende algures cá dentro da massa cinzenta.
O Retorno, de Dulce Maria Cardoso é emocionante e emocionado, vivo numa respiração que ainda resiste em cada re-olhar as fotografias, em cada lembrança, em cada partilha dos que viveram de alguma forma aqueles tempos.
A esperança e a desilusão, o passado quente, o presente gelado e o futuro mais incerto que nunca, completamente desconhecido, as personagens tão reais, a escrita tão fluída e verdadeira, que nas conversas e nos pensamentos não há parágrafos nem pontuação.
As boas intenções que enchem infernos estão ali todas, bem como as más, as assim-assim, as irreconhecíveis, tudo bem juntinho a perfazer um romance inesquecível, soberbo onde o desdém e a desconfiança convivem com a esperança de uns, as dúvidas de outros, misturando os caminhos de todos.
Conheci alguns Ruis de casacos brancos e mangas curtas demais e sempre achei que cada um deles valia um mundo que transbordava. Dulce Maria Cardoso provou-o neste livro magistral.
Livro sem gralhas, edição da Tinta-da-China, 2011.

Django, precisa-se.


O pai foi fiador do filho. O filho não pagou. O pai afinal, também não tinha como fazê-lo. Nova hipoteca à casa do fiador, a mulher a repetir em ladainha, em que ficamos sem a nossa casinha. Cala-te mulher, não agoires!
Mandam uma carta a dizer que o valor em dívida é de 24 mil euros. Depois mandam outra a dizer que houve um engano. A dívida é 50 mil euros. Desculpem lá, foi engano nosso. Como engano vosso? Dobram a dívida sem mais nem menos? Mas o que é isto? Isso já não sei, só sei que foi engano, os 50 mil é que estão certos. E vai de advogados, de mais bancos e avaliações, são apresentados a um executor de dívidas.
Os outros são apresentados a pessoas do jet set, ao chefe do filho, ao namorado da filha, nós somos apresentados a um executor de dívidas, ai homem, que ainda ficamos sem a nossa casinha. Cala-te mulher. A voz do homem a mandar calar a mulher já não é sentida, é uma ameaça medrosa, cheia de pavor. Terá ela razão?
O fiador tem outro filho. Menor de idade. Regressa da escola e vê um homem a colar um papel na porta. O homem já não cola o papel. Entrega-o ao menor dizendo que o dê ao pai e à mãe. O filho menor telefona ao pai, pai deixaram aqui um papel a dizer que a nossa casa está penhorada que temos um mês para sair, isto é o quê?
O pai não sabe o que dizer, não conta à mulher e dá instruções ao filho menor que se silencie sobre o assunto diante da mãe, chama o filho mais velho, ai meu deus e agora?
Juntos verificam que o papel fala em 104 mil euros de dívida. Correm ao banco, ao advogado, ao executor. Num mês passaram de 24 para 50 e agora para 104 mil euros? Mas está tudo doido ou quê?
A meio das andanças, sem vontade, lá atende um telefonema reconhecendo que o número é do seu trabalho. Sr. X, é só para avisar que recebemos uma ordem para lhe penhorar parte do ordenado.
Passam três dias.
Três dias em que não vai trabalhar para recolher certidões, ir a conservatórias, a mais advogados, falar com gestores bancários. Três dias em que tem que meter férias ou resignar-se a que lhos descontem do ordenado, que descontados estão já transportes para lá e para cá, noites sem dormir, dores de cabeça de proporções inimagináveis, palavras gastas, até parece que fala chinês e ninguém o entende.
Afinal foi engano. Desculpe lá, são mesmo os 24 mil, olhe a sorte que o senhor X tem.
Sorte tens tu porque o senhor X não tem uma pistola. Mas que alguém merecia um tiro nesses cornos, ai isso merecia. 

A minha tesoura não se chama Dalila


Namorava eu com o pai do Duarte quando ele foi para a tropa. Primeiro em Tavira e depois em Oeiras, a farda verde assentava-lhe que nem uma luva. Também podiam ser os meus olhos que estavam vesgos, não sei.
Dois ou três dias antes de se ir embora, apanhando o barco para o Barreiro e daí de comboio até ao Algarve, na companhia de dois amigos de longa data, assim ditou a sorte, disse-me que eu o ia ver como nunca o tinha visto e que ia ter uma surpresa.
Para quem não era rigorosamente nada dado a surpresas só podia ser qualquer coisa a que fosse obrigado e se ia para a tropa e eu o ia ver como nunca tinha visto, só podia ser uma rapadela de cabelo.
Estava um dia de sol quente quando ele tocou à campainha e eu confirmei pelo olho-de-boi que a máquina lhe tinha passado pela cabeça. Ao contrário dele, eu adorava – adoro – surpresas. Por isso, quando abri a porta o sorriso dele desfez-se: se a carecada dele era grande a minha era maior.
Tenho algumas fotografias minhas com ar de G. I. Jane, nunca mais voltei a cortá-lo daquela forma, mas já dei cortes valentes e sábado passado foi outra vez dia de corte radical.
As madeixas louras deixaram minúsculos filhotes perdidos nas ondas que permaneceram e vou entregar a colecção de ganchos, elásticos e badoletes à minha única herdeira destes materiais, a minha sobrinha.
A intratável cabeleira desapareceu na manhã seguinte a um - outro - enorme susto: há quem dê voltinhas de carrocel e há quem conheça e acompanhe as voltas dos avc’s.
O meu pai é veterano de avc’s e a proximidade da data fatal do exame que o vai levar à amputação descontrola-o completamente.
O que tem um corte de cabelo a ver com um avc ou uma amputação? Não, não é anedota, é a pura da realidade. Deixando que o espelho me olhe de forma diferente acredito que consigo aceitar qualquer mudança. Perco uma coisa pela qual me elogiam, especialmente nos dias de grande selvejaria que não domino, uma ponta para cada lado, ondas a mudarem de lugar como se tivessem vontade própria, e ganho tantas outras coisas. Desde logo uma poupança em shampoo e creme amaciador. O secador vai ter um uso residual. A minha sobrinha vai adorar a caixa cheia de apetrechos. Nunca vou ter madeixas na cara mesmo em dias de vento e um sem fim de outras coisas positivas.
Cá dentro não há mudanças. Ou talvez haja: corta-se de um lado para se fortalecer de outro, ao contrário de Sansão a minha força não reside no cabelo mas nas raízes que me garantem que a vida continuará o seu percurso.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Pregos no Ego


O tio Chico Buarque deu-nos esta letra a que chamou Olhos nos Olhos. É linda e tendo em conta os versos que estão a bold podia chamar-se Pregos no Ego.

Quando você me deixou, meu bem,
Me disse pra ser feliz e passar bem.
Quis morrer de ciúme, quase enlouqueci,
Mas depois, como era de costume, obedeci.

Quando você me quiser rever
Já vai me encontrar refeita, pode crer.
Olhos nos olhos,
Quero ver o que você faz
Ao sentir que sem você eu passo bem demais

E que venho até remoçando,
Me pego cantando, sem mais, nem por quê.
Tantas águas rolaram,
Quantos homens me amaram
Bem mais e melhor que você.

Quando talvez precisar de mim,
Cê sabe que a casa é sempre sua, venha sim.
Olhos nos olhos,
Quero ver o que você diz.
Quero ver como suporta me ver tão feliz.

Saltemos!


Fruto de uma vida passada com muitas horas em pé, a que se junta uma alimentação bem portuguesa com tudo a que se tem direito no universo dos presuntos gordos e afins, falta de exercício físico e uma média de horas de sono muito aquém do recomendado, o meu pai tem uma colecção única de operações às artérias.
Se as primeiras se ficaram por banais limpezas, passou depois a desobstruções que obrigaram a outras logísticas, cujos sinais de trânsito interrompido nem se percebia se eram provisórios ou definitivos. Ah, o tabaco também não ajudou lá grande coisa, não sei porque me lembrei de repente, mas é verdade.
Quando as simples desobstruções não fizeram efeito, os cirurgiões optaram por umas quantas ligações directas, fazendo das pernas do meu pai uma espécie de patchwork arterial.
Consequentemente, da mesma forma que a minha mãe muda de óculos de sol, o meu pai muda de bengala. Não sendo o caso para brincadeira, temos que o levar o melhor possível, combatendo as angústias que se geram, o medo do desconhecido em forma de amputação de um pé, a perca da liberdade física como se conhece.
De entre os problemas de saúde há os chamados cromos doirados e um dos do meu pai é um AVC, vários até, mas um que se destacou pela intensidade e pelo rasto dos estragos.
Ora, agora dizem-nos que as obstruções se verificam num grau de 95%, daí a urgência de nova operação. Porém, o historial dos avc’s põe travão à urgência e pede exames complementares para se pesar o risco de um lado e do outro.
A minha mãe está presente na consulta e ouve o médico dizer que as possibilidades do meu pai ficar na mesa de operações são elevadas (sic). As palavras não foram brutas, de modo algum, apenas não se cozinharam e foram proferidas cruas. Nem lumes brandos, nem entaladelas.
O portão do hospital exala desânimo e as pedras da calçada parecem ter ímanes que nos dificultam o andar. Cumpre-me falar do mundo, de tudo e de nada, e faço-o com a ajuda do meu filho e de uma amiga que estava connosco.
Construo diques e uma barragem ou outra na conversa de modo a conduzi-la para saltos de para-quedas, um sonho que o meu pai tem desde sempre, que nunca concretizou e que se diz pronto para o fazer, independentemente das circunstâncias.
Falo num velho com oitenta e tal anos que o fez há meia dúzia de dias. Um velho de oitenta e tal anos! O meu pai tem setenta, é um gaiato.
Perante a ideia a minha mãe insurge-se contra as minhas loucuras. O meu pai alarga o sorriso como se pensasse em qualquer coisa que está na dimensão dos sonhos irrealizáveis e, de repente, lhe aparecesse à frente em carne e osso.
Pelo meu lado sinto o coração bater mais depressa. Nada é melhor que fazer os outros sorrir. Saltemos. 

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Cão danado


Django. O D é mudo. Assim repete o protagonista que distribui tiros mortais quando alguém não cumpre.
O rapaz Tarantino – cujo nome me lembra o meu avô que chamava tarantina ao cinto com que ameaçava os meus primos recém-chegados de Angola e que faziam as maiores tropelias – dirige cenas que podem ser confundidas com fontes luminosas, daquelas que esguicham água colorida, fazem efeitos diversos, mas com uma pequena diferença, ele usa sempre a mesma cor, encarnado-sangue.
Não tenho qualquer predilecção por Leonardo DiCaprio mas darei o braço a torcer pela verdade vista e já reformulei a minha opinião sobre aquele que me parece sempre criança e sem maturidade facial para a maior parte dos papéis que lhe dão. Leonardo é um eterno adolescente muito bonito que precisa de rugas e cicatrizes para ter mais credibilidade nos papéis que desempenha. Reconheço-lhe o esforço e a encarnação nos bonecos, mas depois vejo-lhe a cara e está tudo estragado. Bom, mas aqui revela-se e gostei imenso dele.
Samuel L. Jackson – que adoro – fez-me adorá-lo ainda mais. Perfeito na anormalidade histórica, pois para atingir aquela perfeição só encarnando a imperfeição do irracional, do anti natura, tão natural na época e naquelas paragens.
A justiça e a vingança, nem sempre pelos melhores meios e caminhos, mas faz-se. Faz-se até à distância e, como também aconteceu em Sacanas Sem Lei, queremos acreditar que os bons ganham, mesmo que tenham que morrer alguns.
Hans Landa – Waltz será sempre Landa, como Connery é James Bond, como Harrison Ford é Indiana Jones, como Brandon é o Padrinho – é um bocado de plasticina que ele próprio molda à sua vontade pondo pés de cabra e corpo de gigante, um olhar caleidoscópico, gestos que já lhe eram naturais antes de nascer, enfim, um poço de onde se tira tudo quanto se quer.
Amei a ingenuidade de Jamie Foxx. Forte desde a primeira imagem, não há uma passagem, uma transformação na personagem. Apenas nos é dado ver como ela evolui na exposição daquilo que é na essência. Mesmo agrilhoado já lá estava tudo.
E estava mesmo tudo, a música, os planos, a escolha do formato das letras, tudo nos remete para filmes dentro de filmes – Franco Nero mostra-se durante breves momentos! – como quem faz uma pergunta sobre a actualidade política e leva como resposta a história de Portugal a começar nos Afonsos, mas de forma resumida, sintética e altamente eficaz. Cada filme de Quentin Tarantino é uma viagem, mais que qualquer outro. 

Abaixo de zero


De entre todas as empresas que, aparentemente, se preocupam com a qualidade e querem aferi-la através de inquéritos junto dos utilizadores, a TMN leva a taça.
Com uma frequência inusitada ligam a querer saber imensa coisa e pedem que sejamos sintéticos, tão sintéticos quanto se pode ser dando respostas quantitativas.
Não há espaço para se especificar que o Sr. X fez um atendimento magistral, independentemente de ter resolvido ou não a nossa questão, ou que a Sr.ª Y é uma suricata cuja linguagem própria não é compreensível por humanos.
Assim, o atendimento tem de ter uma nota. Fazemos a média? Optamos por aquele que mais impacto nos causou? Somos radicais e consideramos que devemos priorizar o mau atendimento para que outros não tenham que levar com ele? Somos generosos e elevamos aquele que parecia estar a resolver um assunto da sua própria pessoa?
Explica-se então ao perguntador do inquérito que se deve diferenciar o atendimento em si da resolução do problema, pois são duas questões diversas. Sim, sim, mas que nota lhe atribui?
Respiramos fundo e respondemos com uma pergunta: Olhe, e já agora, o que fazem com estes inquéritos?
Parece que o seu verdadeiro propósito é arranjar emprego para várias pessoas que assim gastam o seu tempo, passando horas ao telefone com os clientes, apontando as respostas num longo rolo de papel que se desenrola numa ponta e se vai enrolando na outra, como uma informação real que é lida na praça pública por um escudeiro letrado para o povo analfabeto.
Ou então não. Como aquilo não serve para nada os colaboradores da empresa fazem as perguntas sim senhor, mas lá do outro lado desenham formas geométricas tortas num papel branco, cujos riscos vão carregando, fazem tricot (nós é que precisamos de uma mão para segurar o telefone, eles têm uma bandolete que lhes permite ouvir e que termina num mini microfone perto da boca), fazem puzzles de não sei quantas mil peças – que trocam uns com os outros quando chegam a um impasse – entre muitas outras coisas.
É preciso sempre repetir que o mau grado das respostas não se dirige às pessoas em particular e sim à empresa. Não têm formação e são formatados para dar respostas pré-concebidas entre balizas muito pequenas que, só excepcionalmente  agradam ao cliente e lhes resolvem os problemas. Bem, esta é a regra, por que também há alguns que confirmam cientificamente que o bom senso de vez quando tira férias. 

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Xitaca


Nos anos 80 a palavra Xitaca estava presente no dialecto que usávamos para nos expressar no liceu de Sintra. Não, não nos referíamos a uma pequena propriedade agrícola, mas antes ao poiso de (quase) todos os alunos da Escola de Santa Maria, mais do que na própria escola.
Estrategicamente colocada à saída da estação da Portela, ainda hoje se passa diante da porta da Xitaca para se chegar à escola.
A mesa do canto era a mais apreciada, mas qualquer uma servia. Quando combinávamos encontrarmo-nos e não se mencionava o sítio, já se sabia que era na Xitaca.
Bebia-se café e fumava-se. Um ou outro tomava o pequeno-almoço. O espaço apertado ficou saturado de fumo quando se começou a fumar Fortuna, face ao desaparecimento do tabaco português, nem sabíamos porquê, e cravar um cigarro tornou-se uma aventura na qual todos nos especializámos.
O Xitaca recebia toda a gente e o dia em que as mesas faltavam, por estavam ocupadas por desconhecidos, era terrível, muito pior que os professores faltarem às aulas que, naquela altura, nós víamos como um dever que os setôres deviam assumir de vez em quando. Ali cabíamos todos pois bastava estar um conhecido para entrarem duas turmas em simultâneo. A esta distância, pergunto-me como nos aturavam pois chegávamos a encher a pastelaria apenas com a despesa de um ou dois cafés.
No Xitaca contava-se de tudo e foi sentada a uma mesa que ouvi uma colega planear um aborto como quem antecipa a festa da passagem de ano. O assunto era tabu, perigoso e aventuroso, antes de tudo o mais porque não tinha engravidado sozinha! As nossas imaginações voaram para mundos que nunca sonhámos existirem e ouvíamos atentos, alunas e alunos aplicados e prontos a fazer exame da matéria dada.
No Xitaca se faziam as melhores cábulas da escola que eram passadas a outros, que davam opinião e afirmavam que a letra era grande demais, não se via, não se percebia, estavam óptimas, tinham dado grande resultado ao fulano e ao beltrano e se o sicrano tinha tido negativa com elas era porque era mesmo burro.
A bem da verdade, as minhas notas acima do 17 e o facto de ser considerada por vários professores como a melhor aluna da turma em certas disciplinas, e da escola noutras, deixavam-me um bocado à margem destas dinâmicas. Eu queria participar em tudo, mas havia vezes que não sabia como. Mal ou bem lá me juntava à maralha e passava horas e dias no Xitaca a fazer nada.
Há dias organizou-se um jantar da rapaziada que morava lá no bairro onde vivemos 16 anos, na casa que me viu crescer durante mais tempo, onde a minha mãe passou a gravidez da minha irmã, de onde a N. saiu para casar, entre muitas, tantas, outras recordações. 
A organização foi via Facebook onde tenho uma página com um nome inventado, meia dúzia de amigos e que uso para dizer disparates em certos momentos. Ou seja, a lista dos presentes contava com uma figura artesanal, um pouco mítica até e que, durante o jantar, mereceu a confissão de alguns afirmando pensarem que era um homem.
O jantar correu num convívio espectacular, serviram-se memórias e recordações, alguns embaraços, a maior parte deles cómicos, muitas perguntas sobre irmãos faltosos, risadas sobre namoros de adolescência e penso que hoje todos nos congratulamos com o encontro embora nenhum se lembre do que comeu, sendo a comida o pretexto, mas a essência, o encontro em si, foi cinco estrelas.
Às tantas alguém se lembrou de um cromo da escola que quase todos frequentávamos, uma miúda gordinha que estava sempre meia deslocada, óculos graduados na ponta do nariz que deixava ver quando levantava a cabeça dos livros e de quem todos um dia se abeiraram a pedir ajuda para os testes.
Manifestando curiosidade sobre a pessoa levei uma canelada debaixo da mesa e fizeram-me sinal para me manter calada; a amiga que me sugeria silêncio segurava o riso num sorriso que queria rebentar e percebi que falavam de mim. Alguns lembravam-se do meu nome mas tinha passado despercebido à maioria, pois na lista das inscrições constava o meu alter-ego, e poucos associavam a identificação estapafúrdia com um nome real.
Foi desta forma que se repetiu uma cena passada há poucos meses quando se organizou um almoço entre antigos alunos de uma outra escola e eu era a única cujas histórias de chumbos que tinha para contar eram nos dentes. Tal como nessa altura também aqui fui levemente apontada como se tivesse uma aura de uma certa anormalidade e não pude deixar de me lembrar do meu sobrinho que, tendo 20 nas olimpíadas da matemática, ao receber os parabéns perguntou porque se fazia tanto alarido, acrescentando uma pergunta sem resposta: Não era suposto ter acertado em tudo?
Durante o jantar ainda houve quem se lembrasse de uma manifestação feita na escola para reclamar junto de um professor um merecido 20 que me tinha sido substituído na pauta por um 19. O professor alegava que não dava vintes e numa manifestação de solidariedade a minha turma foi em peso ao conselho directivo mostrar indignação pelo facto. Registou-se a situação e o 19 manteve-se.
Eu que era bem redondinha nesse dia estava inchada que nem um pavão e até me podiam ter baixado a nota ainda mais, mas já ninguém me tirava o facto de ter sido por minha causa que aquela malta toda se juntou, reclamou, gritou e uniu.
Vá lá saber-se porquê, não me recordava desse episódio e foi nessa lembrança que as lágrimas me caíram em cima do prato e fiquei verdadeiramente feliz por ali estar, como se fosse de manhãzinha e estivéssemos todos no Xitaca.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

A tragédia da rua do Arsenal


Este livro propõe uma viagem ao fim da vida da monarquia portuguesa, num momento em que as dificuldades respiratórias são já aflitivas, no seio de um quadro clínico alterado e sem cura.
Jean Pailler, escritor, historiador e tradutor, viveu a época da revolução de Abril na embaixada de França em Lisboa, tendo sido seduzido por Portugal, que retrata em livro por diversas ocasiões, para além de ser tradutor de génios da nossa literatura, como Eça de Queiróz.
A estória mistura-se com a história e advertem-nos para o facto de o enredo ser ficção e não fruto de investigação histórica.
Leve, muito leve, entretém mas não encanta, as ligações ao estrangeiro não convencem, a Carbonária passa para cá e para lá como dama em passeio, e a polémica sobre a bala que matou Buiça não ser de arma usada pelas forças policiais portuguesas da época é sugerida sem grandes explicações. São observações apenas, uma vez que o livro é mais dedicado ao romance entre o príncipe e a brasileira do que à política.
Por seu lado o trabalho do revisor Henrique Tavares e Castro não ajuda e permite que se verifiquem inúmeras gralhas, repetição de palavras e, por exemplo, na página 51 encontramos um embatese num muro e na 113 há uma imdemnização.
A tradução, da dupla Irene e Nuno Daun e Lorena, também podia ter tido algum cuidado, por exemplo, na confusão entre cognome e alcunha, na página 115 ou em fazer aparecer um valete na 119.
Sem certezas, ficam-me as dúvidas sobre os 45 minutos de Sintra a Lisboa feitos num automóvel em 1907. O rei fazia-se conduzir num Peugeot de 18 cavalos, que vinha lotado… bem, mandemos esta para trás das costas.
Por outro lado, uma das personagens é-nos apresentada como sendo riquíssima, mais até que o próprio rei de Portugal. Ora, na página 101 este mesmo homem, dono de fortunas colossais no Brasil, habituado às lides cortesãs apresenta-se diante da rainha com um fato alugado, razão pela qual lhe estava apertado…
Pergunto-me a mim própria por que razão estas coisas me fazem desinteressar da leitura e não encontro resposta, mas o certo é que me fazem perder o interesse, principalmente se a narrativa se me apresentar com cariz histórico, mesmo que ma anunciem fictícia.
Estes pormenores, para alguns, não têm qualquer importância e os valores do todo levantam-se mais alto; para mim funcionam como grãos na engrenagem da leitura e espantam-me como me espantaria se numa descrição sobre australopitecos um deles perguntasse as horas a um transeunte.
A tragédia da rua do Arsenal, foi editado pela Planeta Manuscrito e li a edição de 2010. 

'Tás a ver?


Dizem os dentistas que os dentes são o que de mais importante temos no corpo: garantem uma ingestão de alimentos adequada, etc., etc. Os otorrinos não nos querem surdos, que isto de não escutar é uma desgraça; os ginecologistas avisam-nos dos imensos perigos que corremos se não os procurarmos com frequência e tal, e cada um na sua especialidade é o número um.
Porém, digam o que disserem, a visão é o que leva mais atenção, preocupação e dinheiro. Por isso mesmo, quando dois médicos me disseram que tinha uma miopia galopante, e vendo-me já numa lista de espera para a operação, com imensa dificuldade em conduzir de noite, em ler legendas na televisão e mais não sei quantas coisas, decidi a sorte de tentar ser operada na clínica espanhola onde o meu pai fizera o mesmo há uns anos, com resultados extremamente gratificantes desde o primeiro minuto.
O preço a pagar pela intervenção era menos de um terço do valor pedido aqui no rectângulo à beira mar plantado, tal como tinha acontecido com as cataratas do meu pai. Nem pensei duas vezes, fui na passada quinta-feira, para ser intervencionada na sexta.
Não contava eu com as tensões que sobem e descem a seu bel-prazer: a ocular estava alta, a arterial estava baixa, os senhores disseram que não operavam e sexta à noite já eu dormia em casa, desanimada e triste.
Nem o bom tempo de sábado me deixou mais bem-disposta e o cinzento de ontem deixou-me na cama mais tempo que o normal.
Ora, tempo não é coisa que se desperdice, há tão pouco!, Vamos lá comprar uns óculos, ficar na filinha pirilau para a operação e não perder tempo a pensar no assunto.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Desgraça


Desgraça é perturbador. Desgraça é profundo. Desgraça é marcante. Desgraça é desconfortável. Como qualquer desgraça, de resto.
Uma das melhores leituras dos últimos tempos, violento e determinado, cru. Desgraça tem um nome perfeito, melhor que racismo, que conflito, que violação, que culpa, que destruição, que vazio, que obsessão, porque Desgraça é tudo junto e muito mais.
A África do Sul aparece-nos negra, mais pelos conflitos do que pela pele. Franzimos o sobrolho ao protagonista mas temos pena dele; franzimos o sobrolho à teimosia da filha, mas também sentimos que faz o que está certo; franzimos o sobrolho perante a eutanásia dos animais mas acabamos por encolher os ombros.
No fim pensamos com todo o vigor e força da nossa perfeita estupidez: ufa, ainda bem que a África do Sul está lá tão longe!
Desgraça é um encontro com cada um de nós, cá bem no interior, uma reunião com o medo, um assomo a incompreensões, principalmente europeias que não conhecem as raízes da situação.
Devia ser obrigatório ler a Desgraça de J. M. Cootze, no fundo, a nossa desgraça, porque contém verdades que penetram até ao osso.
Lido em edição da Leya, publicado em 2011.
Depois da leitura, em discussão sobre o abismo onde a Desgraça nos leva, fiquei a saber que Steve Jacobs filmara a história com o poderoso John Malkovich como protagonista. Não vi, mas fiquei curiosa.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Pensamento positivo


Uma das memórias mais persistentes ao longo da minha vida é a de ir visitar o meu pai ao hospital. Perdemos a conta às operações, desde um simples arrancar de amígdalas até ao corte e costura das veias das pernas, um trabalho de patchwork cirúrgico, em cujo último acrescento fomos informados que já nada havia a fazer. A partir dali era cortar. Um pé.
Esta espada sempre pairou sobre as nossas cabeças como as nuvens altas que levam chuva mas vão descarregá-la noutros locais. Até um dia. Não se fala desse dia, não vale a pena, é ir vivendo 24 horas de cada vez e deixar o tempo passar.
Vai chegar uma altura em que a nuvem não se afasta e larga uma borrasca em cima de nós. Esse dia tem vindo a aproximar-se, sorrateiro, e agora manifestou-se oficialmente sob a forma de obrigação de nova operação, ainda em Janeiro.
Concientes das implicações, estamos em pânico. Damos força ao doente mas por dentro arrepiamo-nos até ao último osso e contemos a vontade de chorar.
Sabemos que há coisas piores mas neste momento esta é a pior de todas.
Imaginamos o amanhã com cadeiras de rodas, com próteses, com mudanças profundas numa dinâmica de vida que hoje é quase normal, fruto da utilização do carro. Pensamos num carro adaptado e no euromilhões para o conseguir.
Pensamos nas nossas próprias vidas e na revolução a que vão ser sujeitas se quisermos que o meu pai continue a fazer parte das saídas, que assista aos jogos de andebol do Duarte, aos de pólo aquático do meu sobrinho, que possa ir visitar amigos, ao café, de férias,…
A última semana foi desgastante para mim em termos de trabalho e esta notícia arredou-me da vontade de falar e até de escrever, como se meia dúzia de palavras tivessem o condão de nos paralisar os braços, as pernas, o pensamento, a vontade própria.
Faço um esforço para me concentrar em tudo sabendo que a minha condição de bibliotecária, e não de médica, não me fará dar ajuda substancial mas desajudarei, e muito, se ficar a moer o assunto.
Lembro-me do meu querido M., agora em Angola, e dos seus conselhos valiosos face a qualquer coisa sobre a qual nada podíamos fazer. Tento segui-los com pouco sucesso, mas com muito esforço e empenho: dispersar o pensamento, agarrarmo-nos a mil coisas e instituí-las como essenciais no nosso cérebro; aceitar dez trabalhos diferentes em simultâneo, estar com amigos e beber uns copos. Confesso que me apetece e muito… mas por ora entrego-me ao trabalho que, convenhamos, me tem ajudado bastante e nunca me agradou tanto uma onda assim como agora.
Pensamento positivo e esperança, convenço-me eu, rapariga sem fé pois, na verdade, quem tem fé não pode ter esperança. Mas isto são outros quinhentos para outro dia. Fiquemo-nos pelo pensamento positivo.

O dançarino


A jibóia gorda que é o metro está parada na estação inicial. 
A leitura absorve-me assim que abro o livro mas não é suficientemente forte para me afastar a atenção de um jovem que dança diante do vidro.
Ouve-se o pi que anuncia o movimento das carruagens e que me parece passar despercebido ao rapaz, que mantém uns auscultadores nas orelhas.
Ziguezagueando no meio do túnel a escuridão apodera-se do bicho e transforma os vidros em espelhos. O rapaz aproveita e observa o seu reflexo repetindo gestos que lhe devem ser facilitados pela música que ouve, baixa e não partilhada com os restantes passageiros.
Está absorto, sozinho e repete movimentos, inclina a anca, levanta os calcanhares, dobra os pulsos, vira a cabeça e volta a repetir, descontente e persistente.
A carruagem segue mais silenciosa que o costume, olhos postos no dançarino, imune aos curiosos. 
Com a entrada de mais e mais passageiros o palco diminui mas ele não desiste e continua a usar o vidro como espelho para se auto criticar na encenação que pratica.
Meia dúzia de estações mais adiante, e já só a simular movimentos de ombros, pescoço e cabeça, baixa-se graciosamente como se fosse fazer uma vénia. Apanhou a mochila e saiu deixando a carruagem muito mais pobre. 

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Andar sem parar


Fora as mariquices científicas, o dia tem 24 horas, 1440 minutos e 86400 segundos.
Tendo em conta que o meu despertador tocou às 8 da manhã e é uma da tarde e o pedómetro marca um quilómetro e quatrocentos metros e 2119 passos feitos, em 23 minutos, conclui-se que estive parada 277 minutos, dos quais muitos foram sentada!
Isto não pode ser e tem de mudar, recuso-me a dar pontos à cadeira, seja a verdinha diante da secretária, o banco do metro, a poltrona no gabinete do chefe diante da sua mesa, a de costas altas na mesa de reuniões ou o banco de trás do táxi.
A nossa natureza é andarilha, andámos nove meses no embalo no quentinho da barriga da mãe, mais uma série deles ao colo e é assim que nos sentimos bem. As mães africanas trazem as crianças às costas prolongando aquele baloiço como se não consentissem a separação dos filhos em idades tenrinhas.
Andar é natural e saudável e poucas coisas há que me fazem sentir tão bem. Com cerca de 15 quilos a menos, ando ainda mais e melhor e agora vem um médico dizer-me que ando demais e que devo parar.
Não acredito nisto e recuso que me esteja a acontecer. 
Já marquei consulta em Pandora com um especialista médico cuja fama passa planetas e apenas é acusado de deixar os doentes azuis, mas eu não sou racista e vou lá hoje à tarde, o que me dá tempo de sobra para regressar a tempo da consulta no Hospital de Santa Marta, marcada ontem, para dia 7 de Fevereiro. 
Tenho tempo para morrer e ressuscitar que ainda vou a horas de me sentar na sala de espera e ler o jornal de fio a pavio. 

A Guerra dos Hobbits ou dos Anéis ou isso


Há realizadores de cinema que parecem querer contrariar a tendência da sociedade actual, uma sociedade apressada, parecendo estar permanentemente atrasada, razão pela qual precisa de se despachar.
Computadores, telemóveis, ipad’s, iped’s, ipid’s, ipod’s e ipud’s, micro-ondas, carros, tudo tem de ser rápido que nem flechas. Não, as flechas são de outro tempo e muito lentas, rápidos que nem um processador XPTO, assim é que é.
Ninguém espera, porque isso era tarefa de antigamente, agora é já, imediatamente, ontem. O passado não interessa, o futuro, a bem da verdade, também não, o presente é tudo.
Se a saga da Guerra das Estrelas começou no fim e voltou ao princípio, com um interesse enorme dos fãs, o Senhor dos Anéis não se ia ficar atrás: chegou o Hobbit, que já todos conheciam mas ainda cá não estava,  uma espécie de D. Sebastião de quem já todos ouvimos falar, que viveu no passado, mas ainda há-de chegar.
Este andar para trás não é só um passo ou outro, são logo três de seguida, também à imagem da Guerra, com grandes viagens pelo meio, daí isto demorar três filmes. E se uns viajam pelo universo os outros não fazem a coisa por menos, pois a distância do Shire até à Lonely Mountain pode ser mais pequena que de Tatooine até Alderaan, mas os tipos são anões, caramba!
Gosto muito de Jedis, em especial aquele Qui-Gon Jinn, ai as tranças que eu lhe fazia naquele cabelo…, mas adoro um bom feiticeiro acima de tudo. Adoro eu e toda a gente, embora isto das feitiçarias não seja mais do que informática avançada, pois no fundo, no fundo uma varinha mágica não é mais do que um rato esbelto e sem fios.
O Gandalf, que não é nenhum nerd, precisa é de um guarda-roupa novo, não por usar saias, mas por as usar tão compridas, que aquilo não dá jeito nenhum para fugir e fugir é qualquer coisa que eles andam sempre a fazer. A mim não me espanta que fujam, que também eu fugiria daqueles orc’s e daquela gente, o que me impressiona é que nunca se cansam!
Se por mais não fosse, os Feiticeiros ganham a batalha com os Jedis por causa de um pormenor, e é nos pormenores que reside a diferença: usam chapéu, um chapéu à moda de Simon Templar cujo cabelo nunca saia do lugar, ou do Agent Smith, que garantidamente usava a mesma laca, pois pode ventar o vento e granizar o granizo, seja a tempestade épica ou estelar e o chapéu de Gandalf mantêm-se na sua cabeça, sem perigo de se perder, como ia acontecendo já um par de vezes a Indiana Jones.
Por falar em Indiana Jones, ele é Han Solo da Guerra – seis filmes seis, como anunciaria um bom cartaz tauromáquico – e Simon Templar é Bond – vinte e dois filmes vinte e dois – e Smith - três matrixes três - é Lord Elrond, ou seja, nós bem queremos heróis, mas isto é como na política, mudam os nomes, os cenários, mas os tipos são sempre os mesmos.
Entre Jedis e Feiticeiros há bicharocos de eleição: Chewbacca e Gollum, com evidente vitória de Chewie, não só pelo tamanho, mas essencialmente pela pelagem. Sméagol podia ter um anel mas o co-piloto do Falcão Milenário é super fashion e as suas palavras são uma verdadeira inspiração!

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

O mercado da Brandoa


É Domingo de manhã. Não tenho carro que me leve até à areia da praia e daí possa dar asas aos pés durante alguns quilómetros. Bem, o que não falta na cidade da Amadora são estradas e ruas e caminhos, por isso, vamos embora.
Dou por mim a andar em direcção à estação de metro e com o aproximar vejo gente com sacos e saquinhos e lembro-me: é dia de mercado da Brandoa.
Quando viemos morar para Lisboa ficámos na casa de um tio meu que estava em África; entretanto fomos vendo casas com sucessivas recusas peremptórias da minha mãe face às sugestões do meu pai:
Buraca! Qué lá isso? Com um nome desses nem dá para calçar saltos!
Porcalhota! Bento! Só podes estar a brincar…
Brandoa! Brandoa… vamos lá ver isso…
A viagem foi de comboio até à Amadora e dai de táxi – ou melhor, de táx… - para a Brandoa. Chegados lá, a senhora minha mãe põe um pé fora do táxi no meio do maior lamaçal de que há memória e perde um sapato, assim, sem mais nem menos, sapato que nunca se encontrou naquele mar de lama. Eu nem cheguei a sair do táxi.
E assim se riscou a Brandoa do mapa e ficámos nesse outro maravilhoso subúrbio que se chama Cacém.
Isto para dizer que associo Brandoa a lama e assim será durante os próximos cem anos, mesmo que lá passe de carro com muita frequência.
Sou habituée do mercado do Algueirão, pelo-me por uma boa feira e na Brandoa revivi Belleville. Quem diz que conhece Paris e nunca foi a Belleville não conhece nada, nadinha, zero!
Com um morro afavelado lá atrás, vizinho da estação de metro, a Brandoa pode meter medo a uns quantos, mas a mim, pelo menos o mercado, fascina-me: brancos e pretos e chineses e indianos e barracas de couratos paredes meias com os montes de roupa e fumo dos choriços assados ao lado de hortaliças lindas de comer e plásticos e meias e cuecas e tudo!
É neste mercado que mora o Fanan, o verdadeiro Fanan, aquele que aparecia num programa de televisão em frente de uma roulotte, com casaco de pura pele de crocodilo, rabinho de cavalo, bota bicuda a esconder a peúga branca.
Os Fanan’s deste mundo conhecem as cervejas por bejecas e enfardam bifanas enquanto o crucifixo lhes balança ao pescoço e o mindinho levantado ostenta um anel de ouro… ou isso; são reis e senhores nas suas enormes gargantas e, se fosse de Verão, ainda iam dar uma cacholada a Carcavelos.
Vi belos exemplares de ladies em fato de treino e sapatos que atestam a genuinidade do local, onde voltarei, como é óbvio. Não faltavam pechinchas, faltava-me a mim o carcanhol, caso contrário viria de lá envolta num casaco de pele de leopardo, calçada com uns Manolos. Não por causa da lisura da carteira mas pelo incómodo do transporte – a pé! – não comprei nenhum ramo de hortaliça, embora fossem de meter pelos olhos dentro.
Planeia-se já nova incursão, desta feita em excursão com amigas a reboque. Não posso falar muito se não ainda tenho mesmo que alugar um autocarro.