segunda-feira, 5 de agosto de 2013

1º dia de férias... é Christmas time...

Christmas time is here
Happiness and cheer
Fun for all
That children call
Their favorite time of year

Snowflakes in the air
Carols everywhere
Olden times
And ancient rhymes
Of love and dreams to share

Sleigh bells in the air
Beauty everywhere
Yuletide by the fireside
And joyful memories there

Christmas time is here
Families growing near
Oh that we could always see
Such spirit through the year

Sleigh bells in the air
Beauty everywhere
Yuletide by the fireside
And joyful memories there

Christmas time is here
Families growing near
Oh that we could always see
Such spirit through the year

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Estou aqui, seja o aqui onde for

Não é fácil haver uma pessoa que conjugue estas duas características: ser da nossa família e merecedor da nossa profunda amizade.
Normalmente as famílias não se escolhem e é uma lotaria gostarmos das pessoas. Não percebo porque é que o sangue cria obrigatoriamente laços que supõem sacrifícios para serem mantidos. Por outro lado, os maridos e mulheres dos nossos irmãos e irmãs, primos e primas, têm que lhes agradar  a eles e não a nós, os votos de matrimónio foram entre eles e nós só papámos o almoço se é que fomos convidados.
Grandes visitas, férias em família, almoçaradas e jantaradas, datas festivas, são situações que normalmente acabam em grande cansaço, porque tivemos que aturar - só o verbo... - este ou aquele com quem inventámos assunto, porque nada há em comum para desenvolver.
Felizmente há excepções! E uma dessas excepções - que eu adoro - está doente.
Soube a notícia quando secava o cabelo e só percebi que estava a queimar a mão quando a dor se tornou violenta. Foi a minha mãe que me contou e lembro-me que sustive a respiração para tentar chegar a um qualquer porto de abrigo, uma rocha, um bocado de madeira onde me apoiasse, mas de modo que ela não percebesse.
Com a queimadura, que ainda subsiste, continuei a secar o cabelo sem perceber de onde vinha a força para manter os braços elevados.
Como acredito no acreditar com uma confiança sem limites, sei que tudo vai acabar em bem, mas até lá, o caminho é cheio de buracos e pedregulhos que é preciso tirar da frente e ele tem que estar acompanhado. Ele e não só, a família dele também, pois sobre eles recairá a tarefa diária de tentar compor o percurso da forma que melhor lhe facilite a vida. É aí que entram os figurantes, eu incluída: ajudar sem imposições, dar disponibilidade sem pressões, estar presente de forma mais ou menos invisível.
Quero participar na escrita de todos os capítulos e chegar ao final percebendo que o drama afinal não era dramático, que foi apenas a linha da vida que se baralhou e decidiu dar umas curvas que não estavam nos nossos planos.
Há uns meses uma amiga soube que o diagnóstico de um tumor maligno tinha sido mal feito e afinal era benigno. Eu estava com ela na consulta quando a má notícia lhe foi dada e foi como levar com uma pá de aço na cabeça, doeu uma dor dolorosa insuportável, mas outros valores se levantavam e foi preciso continuar a respirar.
O contraditório criou-me uma felicidade milhões de vezes maior que a dor sentida inicialmente, prova que as coisas boas têm sempre mais força. Com este familiar vai acontecer o mesmo e daqui a tempos quando falarmos das quimio, radio e não sei quantas mais terapias vamos fazê-lo como se contássemos um pesadelo. Aí, diremos de forma infantil, mas feliz e confiante, já passou... 

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

O Sexo, a Cidade e a Amizade

As quatro raparigas de O Sexo e a Cidade são uma espécie de Beatles para uma geração diferente.
A idolatria e a veneração a que são votadas põe-me a pensar se algum dia lhes passou pela cabeça, ao criador, desde logo, que aquela marca tivesse a força que ganhou ou a influência que ainda tem. As próprias actrizes dificilmente descolam daquelas personagens e nem todos lhe sabem os nomes, mas conhecem de ginjeira a Carrie, a Samantha, a Miranda ou a Charlotte. Do Big, pois, nem se fala...
A nível da amizade tudo aquilo consubstancia um sonho que, como qualquer sonho, para ser sonho, nunca se pode realizar, caso contrário deixa de ser sonho. 
A amizade delas é posta à prova e sobrevive sempre, sempre. Zangam-se mas na hora H fazem as pazes. Precisam umas das outras, como um puzzle que fica inacabado mesmo que falte uma só pécinha. 
Já vivi quartetos que pensei serem de amizade onde as miúdas de Nova Iorque acabam por ser projectadas, mas que se desfizeram em pouco tempo. 
Um deles acabou ainda hoje estou para saber porquê, outro terminou devido a intrigas e mal entendidos; em Nova Iorque isso é ultrapassado mas em Portugal fica para sempre, não havendo lugar a esclarecimentos, conversas, essas coisas. Não saberemos falar? Queremos que nos ouçam, mas não gostamos de ouvir. 
O último quarteto acabou devido a outro mal entendido entre duas pessoas. Dou-me bem com ambas, assim como com a quarta pessoa e sinto uma tristeza enorme por haver falta de entendimento entre elas. Porém, ambas continuam a gostar da outra, pensam nela e preocupam-se, eu sou testemunha. 
Foi uma das grandes tristezas deste ano que agora acaba - Agosto é fim do ano - e apesar de ter promovido encontros e fomentado explicações, sinto sempre que poderia ter feito mais. 
Tal como a laranja vale mais que a soma dos gomos elas as duas juntas eram especiais. As cumplicidades ficaram, as conversas sobre todos os assuntos também, mas a três ou a duas, nunca mais a quatro.
Em O Sexo e a Cidade interessa-me sobretudo esta coisa da amizade, da preocupação, do tempo que despendem umas com as outras, sim, porque as relações em amaricano e em portuga não se passam da mesma forma, acho eu, pelo menos não vejo relacionamentos tão rapidamente consumados e tão rapidamente descartados ou, para além de surda, estarei cega?
Os pequenos almoços com amigas também não são regra por estas bandas; não sou fã de moda e gosto de fazer as minhas modas, tendo no mercado do Algueirão as avenidas fashion do mundo inteiro e sendo as compras ditadas pelo preço que me pedem; Manolos tenho dois: o meu ex-marido e o meu sobrinho, este último acumula um Maria, chique, chique, chique.
Mas aquela entrega mútua, aquela preocupação, o espaço que todas têm para debitar assunto e aconselhar as outras, as perguntas que fazem, porque se interessam, as agendas que são marcadas em função das ajudas que têm que dar umas às outras, tudo isso me causa inveja.
Não há assunto, probleminha sem tamanho, que não mereça o cuidado das outras e isso sim, completa-me. O Sexo e a Cidade pode ser sobre sexo numa cidade que nunca dorme - apropriado - mas é acima de tudo sobre amizade, a única coisa que é transversal do primeiro ao último episódio, aquilo que fica, aquilo que faz da série aquilo que tem sido, aquilo que importa.
Não há amizades assim. Os limites para as conversas são sempre visíveis, as fronteiras entre a preocupação e a metedice pairam no ar; não há entrega total. Devia haver? Acho que sim. Se não forem as amigas a dizerem-me as coisas difíceis quem será?
A manutenção de segredos é critério para uma amizade longa e duradoura entre duas ou mais pessoas? Não me parece. A partilha, essa sim, deve ser, não promovida, mas espontânea, natural, essencial, necessária. Falo da partilha de opiniões, de problemas, de dúvidas, não de pessoas, bem entendido.
Quando as pessoas se afastam e se mantêm afastadas é porque não sentem falta dos outros, ora essa falta da falta não será sinónimo que a amizade afinal não era o que parecia? Quando o afastamento consubstancia um aparente alívio é porque, não só alguém não sente a falta do outro, como estava farto. Há espaço para fartura na amizade? Será a amizade, afinal, um relacionamento com as características dos relacionamentos amorosos? A amizade tem limites? Se a amizade for verdadeira terá fim?
Sou aquilo que se chama uma medrosa em termos de relacionamentos amorosos, tenho medo de me magoar, medo de confusões, medo de ver outras escovas de dentes ao lado da minha, medo de perder espaço, medo. Mas na amizade sou uma mãos largas, de vistas largas, aceito tudo e acho que é na amizade que a sinceridade impera: quanto mais amiga sou mais digo tudo o que penso, mais me exponho, mais aceito que me digam seja o que for. Discuto, mas há sempre um terreiro enorme disponível para o concílio.
Não me choca que um par amoroso se desfaça, fico triste se gostava das pessoas, mas não fico abalada, porém, fico meia perdida se vejo amizades rasgadas, como livros mutilados. Para alcançar harmonia e equilíbrio até as amizades entre outras pessoas me fazem falta. As minhas então, preenchem-me mais que pão para a boca.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Beijos e televisão

A rapidez, a novidade, o imediatismo e a instantaneidade são características da sociedade actual. Tem tudo que ser para ontem. As teclas acelaram-nos a vida no telemóvel, no computador e em todo o tipo de equipamento ou gadget, às centenas, e que diariamente são substituídos por outros mais rápidos, lá está, com mais memória, com mais não sei o quê.
A televisão que não esperava por nós e nos obrigava a ir a correr para vermos determinado programa parece ser coisa da Idade da Pedra, agora gravamos tudo, várias coisas em simultâneo, paramos a emissão – nós!, nós paramos a emissão, o poder que isto dá é inacreditável! – andamos para trás no tempo sendo-nos permitido ver o que já deu, mediante o carregar numa ou noutra tecla.
Porém, os conteúdos não acompanham esta actualidade: em dois ou três dias de verificação em vários canais dou com a Ellen DeGeneres a fazer um programa especial para o Dia da Mãe, o Conan O’Brien espanta-se com um convidado que vai falar do Bosão de Higgs, a Guerra dos Tronos (Game of Thrones), Segurança Nacional (Homeland), o Sexo e a Cidade repetem e repetem e repetem, o Dexter mata quem já matou e quase conseguimos diagnosticar doenças raras de ver tanta vez o Dr. House. E não estou a falar da Tv Memória, como lhe chama o meu pai, (que também diz TotoMilhões, que é muito engraçado e consubstancia um dois em um).
Na programação infantil passa-se o mesmo: vejo os meus sobrinhos a saberem o que se vai passar porque estão a rever.
Assim, para além das gravações múltiplas, do andar para trás vários dias na programação, das repetições no próprio dia para diferentes gamas de tele-espectadores, os próprios canais ainda repetem – várias vezes – os programas como se quisessem antecipar os nossos desejos ou frustrações por não termos podido ver certa coisa, por nos termos esquecido de gravar, por não sabermos andar para trás no tempo. Frase estranha esta…
Bem sei que os direitos não se compram com feijões, mas enjoa um bocado. Que me perdoem o V. e a I. sempre atentos à dinâmica política e económica, mas eu vou vendo filmes, muitos deles dez e mais vezes, muitas vezes só uma deixa, uma fala, um beijo, uma paisagem.
Durante anos – no tempo dos vídeos que, para o Duarte por exemplo, é quando as galinhas tinham dentes – a Margarida emprestava uma cassete muito especial às amigas, cassete essa que rodava de mãos pois era preciso partilhar e aquilo tinha dado uma trabalheira a fazer: eram só beijos de cinema, uns a seguir aos outros, de filmes muito diferentes onde não havia nacionalidades porque o beijo é universal, assim como o olhar que o antecede.
Eram beijos franceses, beijos roubados, beijos pregados – o do Richard Gere na Julia Ormond em O Último Cavaleiro era desta categoria e sublime!, beijos desesperados, beijos de despedida, beijos de reencontro, beijos longos, beijos rápidos, beijos quentes, beijos ociosos. Uma pessoa derretia-se a ver a cassete e, como se não a tivéssemos já visto dezenas de vezes, quando lha entregava fazíamos uma sessão imediata em casa dela, eu já cheia de pena de me separar de tanto amor. Era lindo, tanto suspiro junto, e por muitos namorados que tivessem passado pelo sofá da Margarida, todos juntos não suspiraram tanto como nós a ver a cassete dos beijos. Os Cd’s e os DVS’s vieram dar cabo do amor e quando os leitores de vídeo se reformaram nunca mais sonhámos como naquela altura.
A cassete fazia de nós dependentes da televisão mas apenas como meio para chegar aos beijos. Apesar de gostar de uma ou outra série que passa actualmente – confesso que não me importo nada, antes pelo contrário, de (re)ver O Sexo e a Cidade – o filme da minha vida nunca foi transposto tecnologicamente, não se lhe pode aceder, penso que se perdeu, tendo apenas ficado o rasto na nossa memória. 
Isto era televisão... era repetido mil vezes, os filmes estavam todos misturados, a montagem era péssima, mas isso que interessava? O conteúdo fazia-nos flutuar, voar, sentir e sonhar. 

terça-feira, 30 de julho de 2013

10 Reasons why you should NOT marry a foreigner

Nos meus momentos mais louros sonho em casar com um estrangeiro com o objectivo de ter um nome impronunciável. Nada de julgamentos, cada um com as suas manias!
Enquanto vivo satisfeitíssima sem marido de parte nenhuma, tenho duas pessoas amigas casadas com estrangeiros, um português com uma brasileira e uma portuguesa com um letão e ambos me ocorreram quando li um artigo sobre as Dez razões para não casar com um estrangeiro, coisa que a mim me parece ser completamente disparatada. Para provar o disparate, aqui ficam as razões e os meus argumentos para que ninguém lhes faça caso.
  1. Há sempre quem esteja longe da família. A minha sugestão é que mudem para um país onde não tenham família, de todo.
  2. Perder as tradições festivas. De facto ia ser uma pena não estar no Marquês de Pombal quando o Benfica ou outro qualquer ganhasse o título. Além disso, se bem me lembro, já sugeri mudar de país, logo adaptemo-nos aos novos costumes.
  3. Mal-entendidos culturais. Em Roma faz-te romano, rir é o melhor remédio e podíamos seguir enumerando frases e ditados. Ponham a inteligência e o bom senso a funcionar e não cuspam no prato.
  4. E se nos divorciamos? Volta tudo à casa partida, como se tivessem sido umas férias longas, um período de emigração, uma experiência de onde se devem retirar e reter os elementos positivos. Quando se aceita um trabalho no estrangeiro vamos já a pensar no dia em que somos despedidos?
  5. Aprender a língua. Então uma coisa boa é transformada em algo negativo? Não sejam preguiçosos e sejam rápidos, mesmo que seja mandarim!
  6. Dá muito trabalho. Também passar a ferro e eu passo todas as semanas!
  7. Nunca se está completamente em casa. A casa é onde nós estamos, onde amamos e vivemos, logo, qualquer buraco do planeta pode ser a casa perfeita. Deixem-se de mariquices.
  8. Acabam as férias verdadeiras. Supostamente andarão sempre a ver a família, não é? Podem sempre convidá-la!
  9. As viagens de avião são caras. Pois são, mas são uma despesa ou um investimento? Além disso, isto é sobre casamento, e toda a gente sabe que isso é coisa que nem sempre dá prazer e obriga a sacrifícios.
  10. Uns avós estão sempre longe. Estão longe se o casalinho tiver filhos… certo?
Fora da dezena de razões vem uma última, destacada: quando morrer, onde será enterrado o cônjuge emigrante?
Eu percebo que a questão ocorra mas, mais uma vez, há que ser positivo: e que tal pensarem que daqui a uns anos será inventado o soro da imortalidade? Mesmo que não se descubra há que encarar a coisa de acordo com a tradição do local… podem ser daqueles que fazem danças em volta do caixão… que comem os mortos… que demoram 30 dias e 30 noites a fazer o velório… que os enterram na areia… que cantam e bebem uns copos valentes no enterro… sei lá… se nada lhes agradar, olhem, sempre se podem divorciar… 

Profissões deprimentes

A rádio menciona uma lista de profissões deprimentes, cuja autoria não retenho.
Em primeiro lugar estão os educadores de infância e os auxiliares em lares de terceira idade.
Concordo totalmente: a falta de reconhecimento dói p'ra caraças. 

Piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii

De um dia para o outro fiquei surda do ouvido direito. A surdez vem acompanhada com um zumbido e um barulho de fundo com qualquer coisa de metálico. Não dando dores, provoca um desconforto difícil de descrever, como se a loucura se tivesse mudado cá para dentro, qual concerto de metálica, qual quê. Este zumbido 24 horas por dia deixa qualquer um louco e vou reagindo da melhor forma possível, sem que, na grande maioria das vezes, as pessoas se apercebam da minha profunda infelicidade. Tenho sempre a música ligada para minimizar a coisa e adormeço de auscultadores nos ouvidos, caso contrário, podia jurar que estava dentro da antiga mira técnica!
Por outro lado, à medida que a situação se instala, provocou-me sentimentos de inferioridade e de superioridade, à vez. Os primeiros apoderam-se de mim quando vejo as pessoas a mexer os lábios como se quisessem fazer playback e se tivessem esquecido de ligar a música. A superioridade advinha do facto de, vá lá saber-se porquê, ouvir perfeitamente o que se diz… à distância: não ouço bem as pessoas que falam ao telefone ao meu lado, mas ouço perfeitamente o interlocutor lá do outro lado, gramo as conversas todas da vizinhança, nos cafés, nos transportes, sei o que os vizinhos estão a ver na televisão. No início teve graça, mas agora é um pesadelo, como se mil pessoas falassem comigo em simultâneo. Diariamente penso que se tivesse dores tomava uns analgésicos e aquilo passava, mas isto não. Nunca imaginei que pudesse ser tão incómodo, e não digo horrível porque me parece esquisito usar uma palavra tão forte com algo que nem se vê, mas apetece-me dizer. Quem me vê nem sonha o que estou a viver.
Interiorizo que eu é que estou surda, não os outros, e tento não falar aos berros. Ainda assim, a cozinha, que inundo diariamente com o rádio, está agora cheia que nem um ovo pois até a canalização, se tivesse voz activa, se queixaria. A televisão está no máximo e o Duarte diz que eu quero partilhar o que vejo e ouço com a rua toda.
Nunca mais gozei com o meu querido primo A. que, sendo surdo, fala com as pessoas com a cabeça ligeiramente à banda, para ouvir melhor, dando o flanco auditivo bom a quem conversa.
Isto demora há cerca de mês e meio e nunca fui tanta vez ao médico, com uma média de duas consultas por semana. Depois da medicação, veio o diagnóstico, isto só vai com uma intervençãozinha, coisa pouca, ainda assim, internamento, anestesia, essas coisas.
Isso está tudo muito certo mas, e o dinheiro?
Informo-me que terei que ir ao otorrino através de um pedido do médico de família, que não tenho. Depois terei que esperar a marcação da consulta que, quando vier, me leva a repetir os exames que ditarão a necessidade da cirurgia, cirurgia essa que tem uma lista de espera, como é óbvio. Como também é óbvio, quando me chamarem já eu estarei completamente surda e nem ouvirei!

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Lá fora

Os meus sobrinhos vivem numa barraquita com três andares. O primeiro conjuga a cozinha, a sala, uma casa de banho e um terraço, que dá pelo nome de pátio; no do meio ficam os quartos e duas casas de banho, no terceiro há um mega sótão, a que chamamos O Espaço, e que tem um escritório, uma sala, duas camas, biblioteca, zona de brincar, área para passar a ferro, entre outras valências.
A minha casa é parecida na medida em que também tem cozinha, casa de banho, e dois quartos, mas cabe tudo na sala deles.
Sempre que os miúdos me visitam – e vieram este fim-de-semana – digo-lhes que tenham atenção porque nos prédios normais, ao contrário do prédio deles, moram outras pessoas, aquilo a que se chama vizinho, e devemos ter em atenção para não fazermos muito barulho.
A minha sobrinha é uma ajudante maravilhosa – ele é mais técnico de televisão, ficando a mudar de canal indefinidamente, suponho que para confirmar que funcionam todos… - e ajudou-me nas compras, a arrumá-las, a estender roupa, a fazer mil coisas.
Ao fim do dia de ontem foram embora para casa dos avós, deixando-me sozinha e a fazer contas aos minutos que faltam para passar esta última semana de trabalho antes das férias, quando nos juntaremos.
Já sozinha dediquei-me a mais algumas, poucas, arrumações e estive a ver um filme. Depois do jantar, ainda de dia, decidi dar uma volta a pé e procurei uns chinelos que uso para este fim, quando a volta é curta. Procurei, procurei, procurei, mas não encontrei. Às tantas decidi telefonar-lhes a perguntar onde é que a garota tinha posto os chinelos, que me lembrava de lhe ter pedido para arrumar.
- Lá fora Quica, onde tu pediste que eu os pusesse.
- Mas lá fora já eu vi e não os encontro, estão lá os ténis, as sandálias, as botas, mas os chinelos não.
- Não Quica, lá fora não está nada disso, só lá ficaram os chinelos!
- Mas se eu estou aqui e estou a ver tudo isto de sapatos, como é que tu dizes que só cá ficaram os chinelos?
- Mas oh Quica, tu estás em que lá fora?
- O quê? Em que lá fora? Não percebo nada…
- Sim, tu só tens um lá fora que é depois da porta da rua, na escada, abre lá a porta que dá para a escada.
A meio desta frase já eu me dirigia para a porta, que abri. Ao cantinho, um por cima do outro, ao lado do tapete, estavam os chinelos. Baixei-me, apanhei-os e a rir continei a falar com ela:
 - Então tu puseste os chinelos na rua? Era na marquise do meu quarto!
- Quica, isso não é lá fora, é dentro! Eu bem te disse que tu só tens esse lá fora! Nós temos o pátio, as varandas e o hall de entrada por fora da porta, e eu perguntei duas vezes e tu disseste que sim, que era lá fora, por isso eu fiz o que tu pediste.
Despedimo-nos a rir, comigo a lembrar-me que esta é a miúda que, com quatro ou cinco anos, quando a professora disse que ela podia levar uma coisa em cada mão, ela corrigiu-a dizendo que podia levar mais pois para além das mãos, ela tinha dois debaixo dos braços…  

segunda-feira, 15 de julho de 2013

José Castelo Branco

Oito e pouco da manhã, café por baixo da minha casa, entro e dou os bons dias mas ninguém me ouve. Donos e três clientes esganiçam-se a falar mais alto que os outros mostrando repugnância e sobrolhos franzidos em uníssono. O dono faz-me sinal do fundo, ao lado da máquina do café, assinto com a cabeça, sim é café, cheio, explico eu com o polegar e indicador afastados.
Pouca vergonha, lata, gozo, mariquice, paneleirice até, eram palavras usadas na conversa que se desenvolvia com ares de escárnio, sem que eu percebesse quem era a desenvergonhada pessoa de quem falavam, até que alguém disse, isto devia ser proibido.
Mas que raio, o que é que devia ser proibido? O José Castelo Branco!
Num programa de televisão na noite anterior apresentou-se vestido de toureiro ou campino, as opiniões divergiam, mas a unanimidade conseguia-se quando concordavam no maluco, sem vergonha, estapafúrdio, inconsequente, bizarro, parvo, nojento, exibicionista, maricas.
Mas como é que a mulher atura aquilo? Mas como é que lhe dão tempo de antena? Mas como é que se permite uma coisa daquelas num canal de televisão?
Muitos mais mas comos irritaram-me tanto que, aproveitando uma deixa de uma senhora que se me dirigia, certa da minha concordância e talvez um pouco curiosa com o facto de ainda não me ter juntado ao coro, manifestei a minha total discordância. Arrependi-me no mesmo instante, pois claro, mas já era tarde.
Avancei devagar, voz moderada, defendendo a diferença, elogiando a coragem que nenhum de nós tem para fazer o que nos apetece, sempre tão preocupados com o que os outros dizem e pensam sobre nós. Acrescentei que não se pode comparar o incomparável, o casamento de José Castelo Branco com Betty Grafstein não se enquadra nos casamentos onde vamos ou dos quais ouvimos falar, é preciso um espírito muito aberto para não se usarem as medidas com que costumamos medir o mundo, medidas essas feitas pela média da pessoas, no caso pela moda - esta calhou que nem ginjas.
Porque razão tem tudo de ser igual? Porque exprimimos sentimentos negativos com a diferença? Porque é tão difícil gozarmos connosco próprios e tão fácil de o fazer com os outros? Não será isto uma certa forma de inveja? Alguém que faz o que lhe dá na real gana, será condenável ou é ousadia provocadora de ciúme? Inconfessável, é claro.
Eu percebo que os dois casais que ali estavam a comparar-se com JCB e BG, usavam a comparação de forma tão ridícula como eu ficaria a comandar um submarino, mas eu sei que a casaca e o chapéu de comandante me assentariam carregados de comicidade - sem falar da minha cara de pânico por não fazer a mais pequena ideia como devia agir - e eles acham perfeitamente natural fazerem a comparação e, como se não chegasse, ficarem convictos de que a normalidade é a regra, a sua normalidade, não a dos outros.
JCB, o ridículo, é também JCB, o livre. Pormos de lado os preconceitos dá-nos liberdade, liberdade essa que vem com preço, preço em forma de seta apontada a todo o lado, seta venenosa, veneno da inveja.
O divórcio de preconceitos pode dar uma calma que não se consegue nem com medicação, uma visão diferente do mundo, um coexistir pacífico onde a diversidade se pode passear à vontade.
A esta altura já vingava o silêncio no café mas eu ainda não tinha dito tudo e não saí sem dar a opinião completa, ou seja, lembrando-os que alguém precisa de dar alguma cor às vidas cinzentas da maioria das pessoas, arranjar-lhes assunto para comentarem; e como essa maioria não costuma interessar-se muito pela ciência - aproveitei para perguntar de rajada se sabiam quem era Ana Ferraz, não sabiam - como não se interessam muito por leitura, mas adoram conversar, sobre os outros é claro, e de preferência quando esses outros não podem responder, então deviam agradecer a JCB por proporcionar momentos tão inesquecíveis.
Não conheço JCB, nunca o vi sem ser na televisão, sei que é um ser excêntrico e divergente dos modelos aceites socialmente, que se está nas mais puras tintas para o que dele dizem, que não se molda nem à lei da bala, porque nem um bala abala a coragem que tem. Isto devia ser proibido? Não me parece...

O beijo

A minha sobrinha fez 9 anos no Domingo e tem andado numa tensão acumulada relativamente aos festejos do aniversário, num misto de criancice com pré-adolescência. Talvez criancice aqui seja um pleonasmo, mas vou deixar passar...
Desde há meses que pede para passar o dia de anos na praia, razão pela qual lhe ofereci uma noite na Pousada de Catalazete, caserna para seis, ela, quatro amigas e o sargento que deu pelo nome de Mãe. Eu, o irmão e o pai da aniversariante fomos dormir a minha casa, a quinze minutos daquela noite de campo. Ou de praia. Fiquei cheia de inveja, é claro, mas o tempo foge-me e fica para outra vez.
No sábado jantámos na Casa da Praia, em cima da praia de Carcavelos, onde a empregada do restaurante levou nota 20: sempre com um sorriso, e depois da garotada ter jantado à mesa, levou-lhes as sobremesas à areia, com eles refastelados nuns enormes pufes, com paciência para as colheres que caiam na areia e que eram imediatamente substituídas e uma simpatia sem limites. O comer era fabuloso? Nem por isso, mas era razoável, os preços muito em conta - os menus infantis na ordem dos cinco euros - e aquilo que verdadeiramente nos fica na memória, que nos faz voltar, que nos leva a recomendar o sítio, é a simpatia.
Não havia sol, logo, não vimos o pôr-do-sol, mas o tempo abafado criou ali condições espectaculares para se passarem duas horas em beleza.
O meu cunhado, acabado de chegar do Equador com um magnífico panamá modelo Santos Dumont, parecia um estrangeiro. Sentados à beira da passagem das pessoas veio um sujeito e dirigiu-se-lhe da seguinte forma:
- Please, give me a cigarette.
Ele olhou-o e respondeu-lhe em bom português, O quê? Não percebo.
Lá deu o cigarro ao homem e continuou a contar as suas mil aventuras pela América do Sul, Santiago, desta feita, só enquanto fez escala entre a Argentina e o Equador.
O Duarte ganhou um chapéu do mesmo modelo e eu um, em papel cartonado, branco com uma fita preta, de uma elegância enorme. Trouxe este com a combinação de o devolver à minha irmã a troco daquele com que ela ficou, pois não conseguimos eleger um para cada uma, de modo que vamos trocando.
A guerra dos cem anos durou 116, os russos celebram a revolução de Outubro em Novembro e, entre outras curiosidades, o panamá é feito no Equador, e tem uma forma completamente diferente daquele bocado de tecido em forma de penico a que, por estes lados, se chama panamá, e que as crianças usam.
Assim, está o meu frigorífico ainda mais enfeitado do que estava com novos ímanes, e eu tenho dois novos exemplares de chapéus, belíssimos.
Pena não haver sol... por falar em sol, no Domingo o sol continuou amuado e depois de um banho rápido em local aberto a banhos decidimos ir ao Parque do Alvito.
O Duarte tinha ficado com o nosso carro na noite anterior e ainda não tinha chegado; assim, fizemos duas viagens da praia ao parque, tendo seguido a minha irmã e três garotas, conduzidas pelo meu cunhado, enquanto eu fiquei com outros três, tendo aproveitado para dar às pernas durante aquele bocado.
O meu sobrinho, sempre ao meu lado, disse que gostava muito do meu saco - que a C. me trouxe de Viena há poucas semanas - e afirmou que tinham aquela imagem lá em casa. E que imagem é esta, quis eu saber?
- Não sei.
- Sabes sim, já falámos nisto várias vezes, é O Beijo. E quem a pintou?
- Não sei.
- Mau... hoje não sabes nada... é do Klimt. E onde podemos ver esta pintura?
- Essa sei Quica... está no quarto da mãe!

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Herdade dos Machados

Um dos serviços que presto aos utilizadores da biblioteca é o envio diário de resumos da legislação portuguesa e europeia. Não sou eu que a recolho, subscrevo um serviço que o faz e reenvio a informação, a maioria das vezes, mecanicamente, sem ler, sem lhe dar grande atenção. Há dois dias, décimos de segundo antes de fazer o envio, uma expressão tímida a meio do ecrã prendeu-me o olhar: Herdade dos Machados.
De acordo com o diploma legal, anulava-se uma portaria de 1975, que expropriava os proprietários e revertia-se a propriedade para os herdeiros.
Como num filme, fui sugada pelo tempo e aterrei no passado, a meio da Estrada Nacional 255-1, que liga a aldeia de Sobral da Adiça a Moura e passa a meio da Herdade dos Machados, num daqueles dias de calor alentejano, a caminho da piscina de Moura. O meu pai vai a conduzir, a minha mãe, a seu lado, quer fechar a janela para se proteger do vento, incrivelmente quente, nós protestamos no banco de trás.
Sabíamos exactamente quando entrávamos na Herdade pois a estrada era ladeada por dois enormes pilares que ostentavam a informação: Herdade dos Machados. Vários quilómetros depois passávamos pelas costas de dois pilares iguais; no entretanto o meu pai repetia que era a maior herdade de Portugal e as vinhas, ele abrandava a velocidade, olhem para isto, a maior vinha da Península Ibérica e, quase parado, não obstante as nossas reclamações, o olival, olhem o olival, o maior da Europa.
De grande em maior, com tanto recorde até além fronteiras, assim que passávamos os pilares, sentíamo-nos como se estivéssemos a atravessar um país estrangeiro, mas não um país qualquer, que de estrangeiro estávamos nós cansadinhas, com tanto passeio que já fizéramos ao Rosal de la Frontera, não, este era um estrangeiro diferente, um reino sem sombra de dúvida, uma espécie de califado, face à localização e à proximidade com o norte de África, e não era por acaso que em Moura, já ali, permanecia a lenda da Salúquia, a princesa moura, que se suicidou perante a armadilha que lhe montaram. Quando avistávamos as costas dos pilares que determinavam, naquele sentido, o fim da Herdade, a raia, voltávamos a Portugal.
A ordem da vinha, as estradinhas alinhadas, o verde glorioso no meio do dourado envolvente, era - e é - belo sem limites, e o meu pai conseguia fazer passar para dentro do carro em brasa aquele amor pela terra e por tudo quanto se relacionasse com ela ou com a natureza, não hesitando em fazer loucas travagens quando lhe parecia avistar um gaio, sorrindo totobolísticamente à visão de um melro, quase atirando o carro para a valeta, aquilo era uma águia, não era? Felizmente que ele próprio confirmava ou desmentia a sua própria questão porque com águias ou qualquer outra passarada nós éramos zeros à esquerda.
Numa ocasião, indo de comboio de Lisboa para Moura, a locomotiva avariou na Herdade, que tinha a sua própria estação de comboios, igreja e até estação de correios. Ora, uma coisa assim era digna de reverência, tão grande que se perdia de vista, dava a volta para além do horizonte, como se fosse a terra que Mufasa apresentou a Simba com as famosas palavras: Tudo o que tua vista alcança é o nosso reino.
No dia da avaria as pessoas saíram da carruagem - com bancos de sumaúma até Beja e de sumapau, de Beja a Moura - e ficaram ali a admirar a estação.
http://s149.photobucket.com/user/kioko_garcia/media/Machados.jpg.html
Curiosamente, aquilo não era bem uma linha, era um ramal (Ramal Moura-Pias) que nós não sentíamos como algo menor, antes pelo contrário, era um local eleito só para eleitos, nós e poucos outros, que tínhamos o privilégio de por ali andar.
Foi das avarias que mais gostei em toda a vida pois os Machados sempre me levantaram muita curiosidade e, para além da estrada onde passávamos, eu só ouvira dizer, nunca vira nada, como se algures dentro de mim uma voz mais ou menos sussurrante alvitrasse que tudo era uma treta, qual estação, nem de comboios nem de correios, qual quê, igreja?, a mais próxima é a de S. João Baptista em Moura, minha amiga crédula, acredita em tudo quanto ouve?
O facto de estar ali na estação provava que ela existia, logo, aquela grandeza da qual sempre ouvi falar também devia ser verdadeira, e a Herdade não diminuiu de tamanho com o meu crescimento, como acontecia a quase tudo: a rua da minha avó, por algum motivo se chamava Rua Longa, mas era muito mais longa quando eu era pequena, agora era como se tivesse reduzido; acontecia o mesmo com as distâncias entre a casa dos meus tios, o café, a casa da Rosa, da Maria Antónia, da Rosarinho, até a ponte era mais pequena, até o medo de subir ao andar de cima da casa dos meus tios era mais pequeno, até a vontade de andar sempre no meio da rua mesmo com calores dignos do Sahara era mais pequena. Só a Herdade dos Machados mantinha o mesmo tamanho, continuava a não conseguir ver-lhe o fim, os lados, a extrema.
Nunca lhe conheci donos, hereditários, usufrutuários, fosse quem fosse, o mais perto que estive da casa em si foi na estação, mas o processo de apropriação e manutenção de propriedade de algo que conscientemente não é nosso, é curioso: os Machados são meus na medida em que fazem parte das minhas memórias, coisa impossível de  perder. Mesmo com alzheimer não se perdem as memórias, apenas não lhes acedemos, penso que qualquer pessoa que veja filmes de ficção científica pode confirmar estas coisas básicas...
Ainda hoje, com 48 anos, quando passo na estrada pública que rasga a Herdade sinto um certo arrepio, volta a sensação de estar no estrangeiro, de não estar aqui. E se calhar não estou, porque cada vez que lá passo, volto ao passado. 

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Pitonisa

Quando a lua estiver na sétima casa, Júpiter alinhado com Marte, então a paz guiará os planetas e o amor orientará as estrelas, lá, lá, lá.... Aquarius... lá, lá lá...
A tradução é mais ou menos assim e em matéria de signos tem de haver sempre traduções.
As revistas cor-de-rosa que me vêm parar às mãos são avaliadas de acordo com os signos: se têm, são boas, se não têm, não tenho nada para ler.
Concluo que as características base de cada signo, por norma, adequam-se às pessoas que nasceram naquelas datas e sou fã de signos, embora não perceba muito sobre eles. Mais uma vez, preciso de tradução.
Gosto dos astrólogos porque, ao contrário dos médicos, gostam de genéricos e admiro as suas capacidades de escrita, sempre numa espécie de fio da navalha, para não haver comprometimentos mas sem falhar. Gostava de fazer carreira na área e para ver as minhas capacidades vou aqui tentar uma coisa inaudita, uma previsão já para amanhã: amanhã o dia vai nascer! Aguardemos.
Numa ocasião, na fila das finanças, a minha irmã tinha à sua frente três homens africanos. Chegada a sua vez a funcionária deu-lhes um formulário para preencher, sobre o qual colocaram algumas perguntas. A senhora informou então sobre os campos que eram comuns e os que deviam ser preenchidos com elementos de cada um: nome, morada, profissão, ...
Aqui, eles interromperam a funcionária para dizer que tinham todos a mesma profissão: eram astrólogos. A conversa que se seguiu calou o murmúrio da repartição de finanças; segundo a minha irmã, até o ar condicionado foi desligado para que não se perdesse pitada. Os contribuintes que bufavam contra a espera mudaram as feições, os funcionários andavam em câmara lenta com papéis na mão e olhos postos no trio.
Sempre tive pena de não ter assistido a esta espécie de mini congresso astrológico, aqui sim, os astros estavam alinhados na fila.
Hoje, mal dormida devido ao calor, de olhos semicerrados, que algo me diz se vão assim manter todo o dia,  apanho uma distinta publicação e leio o signo: números da sorte passados em catadupa, tenho que ver se me lembro de os usar no euromilhões, apresso-me nas dicas sobre o amor, eu amo mesmo é o Kilimanjaro, sobre o dinheiro mandam-me ter cuidado com os gastos supérfluos, olha, obrigadinha, grande novidade, até que vem a saúde, cuja informação diz: proteja-se do frio, ou pode ser surpreendido com uma constipação.
Ora até que enfim, uma novidade! Porém, continuo a precisar de tradutor: isto quer dizer que vem aí frio? É que eu morro de calor...
Perante tão estranha previsão, confirmo-a na internet para o mês de Julho de 2013, coloco o meu chapéu de Sherlock e decido investigar. Lupa na mão descubro exactamente a mesma previsão para Outubro de 2010. Bom, em Outubro já costuma haver constipações, sim. Ou deverei dizer, já houve? Como bom detective, confirmo os outros signos: coincidem todos com os de Outubro de 2010!
Acho inacreditável não ter lido nada sobre esta coisa fabulosa de a conjugação astral ser exactamente a mesma com dois anos e nove meses de diferença. Será que ninguém deu por isto, só eu?
Mas como se isto não fosse absolutamente extraordinário, descubro que já em Junho de 2013, sim, o mês passado, as previsões foram exactamente as mesmas, de acordo com o jornal Correio da Azambuja, números da sorte os mesmos, e tudo.
Por incrível que pareça em Agosto de 2012 as previsões eram exactissimamente as mesmas e aqui fico confusa novamente. Não é por nada em especial, é que em Agosto não costuma haver assim muitas constipações, que raio, isto não bate muito certo, deve ser dos ares condicionados, sempre ouvi dizer que eram perigosos.
A senhora Dr.ª Maria Helena Martins, na posse de tão explosiva informação, deveria ser obrigada a alertar para esta recorrência, no fundo, a confirmação da verdade histórica que a História se repete. A senhora deveria avisar políticos e economistas, meteorologistas e forças armadas pois repetindo-se a associação celeste muita coisa se podia evitar, antecipar e preparar devidamente.
Aqui fica a prova que a falta de atenção aos astrólogos e às suas previsões pode dar que pensar! Se fossem ouvidos e seguidas as suas orientações o mundo seria bem melhor, preparado que estava para se movimentar. Por exemplo, eu já tive várias ocasiões de jogar com os números da sorte que me calharam e nunca o fiz, porquê?, por falta de atenção obviamente, não por falta de a senhora mos ter indicado repetidas vezes!
A senhora astróloga informa que por apenas sessenta cêntimos podemos ligar para termos as respostas às nossas dúvidas. Ainda pensei em ligar mas depois lembrei-me que posso sempre ler as previsões dos anos anteriores e ficarei a saber o que o futuro me reserva. Se isto não é genial, não sei o que será.

Rom vai à praia

Eram cerca de cinquenta. Homens, mulheres e crianças, riam, saltavam, gritavam, arrepiavam-se. Corriam uns atrás dos outros, brincavam. De vez em quando paravam e ficavam a conversar aos grupos, a conversar alto e mais alto ainda quando chamavam alguma das crianças que se afastava sem se aperceber.
Eram cerca de cinquenta e toda a gente os olhava.
Toda a gente os olhava porque eram ciganos, toda a gente os olhava porque é raro verem-se ciganos a mergulhar na praia, toda a gente os olhava, essencialmente, porque estavam vestidos dos pés à cabeça.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Todos os erres devem ser bem pronunciados

Dans le port d'Amsterdam
Y a des marins qui chantent
Les rêves qui les hantent
Au large d'Amsterdam
Dans le port d'Amsterdam
Y a des marins qui dorment
Comme des oriflammes
Le long des berges mornes
Dans le port d'Amsterdam
Y a des marins qui meurent
Pleins de bière et de drames
Aux premières lueurs
Mais dans le port d'Amsterdam
Y a des marins qui naissent
Dans la chaleur épaisse
Des langueurs océanes

Dans le port d'Amsterdam
Y a des marins qui mangent
Sur des nappes trop blanches
Des poissons ruisselants
Ils vous montrent des dents
A croquer la fortune
A décroisser la lune
A bouffer des haubans
Et ça sent la morue
Jusque dans le coeur des frites
Que leurs grosses mains invitent
A revenir en plus
Puis se lèvent en riant
Dans un bruit de tempête
Referment leur braguette
Et sortent en rotant

Dans le port d'Amsterdam
Y a des marins qui dansent
En se frottant la panse
Sur la panse des femmes
Et ils tournent et ils dansent
Comme des soleils crachés
Dans le son déchiré
D'un accordéon rance
Ils se tordent le cou
Pour mieux s'entendre rire
Jusqu'à ce que tout à coup
L'accordéon expire
Alors le geste grave
Alors le regard fier
Ils ramènent leur batave
Jusqu'en pleine lumière

Dans le port d'Amsterdam
Y a des marins qui boivent
Et qui boivent et reboivent
Et qui reboivent encore
Ils boivent à la santé
Des putains d'Amsterdam
De Hambourg ou d'ailleurs
Enfin ils boivent aux dames
Qui leur donnent leur joli corps
Qui leur donnent leur vertu
Pour une pièce en or
Et quand ils ont bien bu
Se plantent le nez au ciel
Se mouchent dans les étoiles
Et ils pissent comme je pleure
Sur les femmes infidèles
Dans le port d'Amsterdam
Dans le port d'Amsterdam.

Madman

Sendo as aulas de inglês acima de tudo de conversação, o professor dá-nos os mais variados exercícios nos quais esgrimimos argumentos, normalmente organizados em grupos. Um dos últimos era o Madman, cujo enunciado era o seguinte:
Com um casamento falhado e um marido absorvido pelo trabalho, uma mulher insatisfeita arranja um amante. Numa das eternas ausências do marido ela, que vive numa ilha, vai encontrar-se com o amante, tendo que atravessar uma ponte, única forma de chegar ao outro lado. No regresso, ao pretender atravessar de novo a ponte, encontra um louco que a ameaça com a morte se ela insistir em passar. Assustada, procura um barqueiro que não a transporta pois ela não tem dinheiro. Volta a casa do amante que lhe nega o empréstimo. À beira do desespero procura um amigo que vive perto, conta-lhe a situação toda e pede-lhe o dinheiro para pagar ao barqueiro. Ele nega, alegando que sempre foi apaixonado por ela e, com despeito, não a ajuda. Sem outra solução a mulher aventura-se a passar a ponte e o louco mata-a. De quem é a culpa?
O louco é louco, não tem controlo nem conhecimento sobre as suas acções; o amante e o amigo não eram nem uma coisa nem outra, os amigos fazem tudo por nós e o amante - que desperdício de tão bela palavra - era um tipo que queria dar uma queca, ponto. O barqueiro estava a fazer o seu trabalho, assim como o marido. Conclusão, a culpa foi dela.
Dos quatro grupos todos acordámos sobre o culpado número um, mas o mesmo não aconteceu com a culpa repartida de todos os outros intervenientes.
O marido, esse sacana,esse inútil - os epítetos eram vários e todos em português - ocupava a segunda posição. Nada disso - argumentava o meu grupo - o amigo, esse falso, esse sim, arcava com a maior parte da culpa. Afinal, tudo se baseava num pressuposto errado: ela tinha-o como amigo, mas era gato por lebre.
O amante - não consigo deixar de pensar que esta palavra aqui não se adequa nadinha - antes de ser amante, era homem, um homem com a perspectiva de sexo logo, aluado, emparvecido.
E o banana do barqueiro? Não podia ter dado uma abébia? Não era banana, era só barqueiro.
Acções nossas com culpas alheias é o que mais há por aí. Estando o casamento falhado porque não o declararam oficialmente? Fácil, isto era só um exercício...

terça-feira, 2 de julho de 2013

Se

Depois de o meu sobrinho ter dado baile a alguns colegas meus na aula de inglês onde foi ter comigo na quarta-feira, fomos lanchar e comprar uns miminhos para levar para a Quinta da Bela-Vista.
Ele continuava sem saber onde ia e à hora de saída apanhámos o metro na linha do costume comigo a insistir, mas afinal onde pensas tu que nós vamos?
O metro ia cheio e mais cheio ficou quando mudámos de linha, muita calça de ganga, muito ténis, muita mochila. Ainda brinquei a perguntar para onde iria toda aquela gente, que aquilo não eram horas de praia, eram horas de ir para casa.
Quando saímos ele disse-me que achava que íamos a um sítio, melhor, corrigiu-se ele próprio, ele queria ir a um sítio, mas não podia ser, era bom demais, por isso não dizia. Lá insisti e ele disse, devagar, a medo, vamos ver os Bon Jovi.
A cara que fez a seguir foi inesquecível. Coração acelerado, que ele fez questão que eu sentisse com a mão dele a segurar a minha sobre o peito.
Espreitaram-lhe a mochila, avançámos no meio de milhares de pessoas, ele comeu um cachorro, comprámos águas e escolhemos um sítio para ficar.
Ouvi mais tarde que muita gente não gostou do concerto, que houve queixas da organização, que cantaram mal, que não cantaram o que as pessoas queriam.
É engraçado a diferença que faz a perspectiva: se tivessem levado um gaiato ao seu primeiro concerto, um concerto que ele queria muito ver, se ele estivesse feliz, feliz, feliz, se os tivesse enchido de beijos o tempo todo, se desse enormes gargalhadas quando eu trauteava as músicas e, sem saber as letras, atirava palavras ao calhas e ele dizia, Quica, os Bon Jovi enganaram-se!, se tivessem recebido abraços inesperados durante aquelas horas, se tivessem saído para a confusão da falta de transportes dispostos a andar o que fosse preciso em busca do avô Bento que nos foi buscar, se ouvissem palavras de alento quando ele próprio estava exausto, estamos quase a chegar, é só mais um bocadinho Quica, se...
Pois, eu percebo, são muitos ses... e eu tive-os todos. Foi ou não foi uma noite memorável?

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Eu

A minha beleza estonteante, o meu despenteado fashion, a falta de vergonha e a fúria com qualquer coisa que ninguém se lembra o que era. 

O pedido de casamento

Terminado o 12º ano candidatei-me à Universidade e fiquei logo colocada. Nos Açores...
O meu pai estava numa situação muito difícil, trabalhando mas sem receber há vários meses, e a nossa vida era tudo menos fácil.  Porém, tudo foi feito para que eu conseguisse, da parte dos meus pais e dos avós maternos, o avô Gualdino a deixar escapar umas lágrimas teimosas, mas quem é que manda aqui?
Eu, com 17 anos, já me via numa ilha no meio do oceano, onde nunca tinha ido, e que me parecia uma mistura da mítica Atlântida com ecos de um tal Woodstock, fosse isto o que fosse. Mas e o dinheiro? Viagens e estadias e almoços e jantares e livros e fotocópias e tanta coisa a pagar e nós sem cheta.
Foi preciso garantir a inscrição para não perder dois anos sem me candidatar novamente. O meu avô queria que eu fosse, eu queria ir, mas percebia que era impossível.
Assim, informei-me e fiquei a saber que era preciso passar uma procuração a alguém que iria à universidade inscrever-se em meu nome e pagar as propinas. Eu faltaria às aulas mas no ano seguinte podia candidatar-me de novo, tendo assim muito tempo para rezar por um lugar no continente.
Então e onde se fazem as procurações? Nesta altura eu já sabia o que eram mas não sabia onde se faziam. Ouvira falar delas a propósito das casamentos das minhas tias cujos maridos estavam em África e para mim, inicialmente, os casamentos eram por coração, evidentemente, pois era óbvio, casamento, amor, amor, coração, estava tudo explicado!
Fui de imediato a um notário e quando entreguei a identificação disseram-me que não a podia fazer por ser menor. Teve que ser o meu pai a fazê-la, em nome de um colega do nosso vizinho do lado - os nossos conhecimentos dos Açores eram só geográficos - com os tempos próprios da altura: fazer procuração, enviá-la por correio, ser recebida, ir à Universidade, enviar os papéis para nós, enfim, uma grande trabalheira, mas que se fez. O colega do vizinho, que nunca conhecemos, recebeu uns garrafões de azeite feito pelo meu avô e uns chouriços alentejanos, pois nós dificilmente pagámos os selos da carta.
O tempo corria e o início das aulas aproximava-se trazendo uma enorme tristeza que voava para cima dos meus ombros.
Um dia fui à faculdade fazer companhia a amigos e vi a parede da Reitoria cheia de papéis colados das mais diferentes formas. Eram mensagens deixadas por quem tinha ficado em Coimbra ou no Porto e queria vir para Lisboa e vice versa. Li-os ansiosa mas ninguém viera dos Açores pregar um papelucho para deixar a capital. Ainda assim, pensei que não tinha nada a perder e deixei lá o meu próprio papel: S. Miguel troca com Lisboa.
Dois ou três dias depois recebi no nosso belo telefone preto de disco um telefonema de um estrangeiro qualquer. Era obviamente engano. O estrangeiro voltou a ligar e no meio da estrangeirada disse qualquer coisa que soou ao meu nome. Já pronta a desligar, apurei o ouvido e sim, era mesmo verdade, o alemão ou lá o que era, disse mesmo o meu nome assim como outras palavras soltas em português: universidade, Açores, quero, Peixoto.
Estando eu tão calada de telefone ao ouvido o meu pai quis saber quem era e eu passei-lhe o telefone. Não é que o meu pai falasse outra língua além do português mas, vá lá saber-se como, entendeu: era alguém que tinha ficado em Lisboa e queria ir para S. Miguel!
Ao telefone estava o próprio, a ligar de um hotel no centro de Lisboa, passou a chamada à mãe, que continuou a conversa com o meu pai e hora e meia depois estávamos os quatro sentados no átrio do hotel, sorridentes e a combinar a transferência recíproca.
À excepção de um único apelido, o nome do rapaz era igual ao do Bocage, coisa que o meu pai fez imediatamente saber e que me levou a decorá-lo até hoje, apesar de ter ficado para sempre o Manel dos Açores.
A mãe do Manel dos Açores disse que ele ficaria instalado no hotel até tudo estar resolvido mas o meu pai, num excesso de boa vontade, disse que não, nem pensar, ele ficará lá em casa, seguido de um olhar que me silenciava, pois as perguntas já me saltavam da garganta: onde? Nós éramos cinco e os almoços eram aguados, não passávamos fome mas tudo era racionado.
Como foi dada a ordem para não se falar mais nisso, o Manel mudou-se lá para casa de armas e bagagens, tendo ficado no quarto da minha irmã que se juntou a mim e à N. A ideia era irmos ambos às aulas enquanto tudo não estivesse resolvido, altura em que ele iria para os Açores mas com a matéria debaixo do braço. A mim bastava-me continuar.
Nos primeiros dias fomos juntos mas ele começou a preguiçar e eu comecei a ir sozinha e a responder - e a explicar - porque dava pelo nome de Manuel Maria Barbosa Peixoto.
Eram risos só superados por um colega que se chamava Jesus Roque e a quem os amigos teimavam em interromper as aulas, metendo a cabeça pela porta e perguntando aos professores se podiam falar com o menino Jesus...
O Manel dos Açores vivia melhor que nós e não tardou a fartar-se dos almoços que a minha mãe deixava. Um dia levantou-se e torcendo o nariz ao espreitar a panela perguntou-me se não queria ir comer arroz de marisco. Eu nunca comera arroz de marisco na minha vida e noutra altura teria aceite a correr, mas disse imediatamente que não, que o meu almoço estava ali. Porém, fui convencida a fazer-lhe companhia e, já almoçada, fui com ele a um restaurante onde o vi comer um pouco de tudo o que havia na secção de mariscos, com vinho branco que também não provei. A vontade era enorme e fez-me implicar com ele as duas horas que ali estivemos. Naquele momento odiava-o e odiava-me a mim: por ter comido o guisado aguado, por não dar o braço a torcer, por o achar um ingrato. Ainda por cima ele era daquelas pessoas que mastigam cem vezes cada garfada e eu sorvia a comida, o que só serviu para embirrar ainda mais com ele, lento, pastelão, molenga.
Eu escondia dos meus pais estas atitudes dele, pensando que iam ficar magoados, e eles pagavam ao Manel em passeios a qualquer lugar onde ele quisesse ir, apesar dos fracos cobres com que vivíamos. Valia o facto de o meu pai ter poucas folgas, sempre a trabalhar em dois empregos, a nossa salvação, eu era menor não tinha carta de condução, logo só saíamos mesmo em dia de festa. Um destes dias o Manel disse que nunca fora ao Cristo-Rei. Ai não? Logo ali se organizou a excursão, os meus pais, nós as três e o namorado da N., ao todo sete pessoas no Ford Kadett encarnado comido pelo sol. Chegados aos pés do Cristo, ele subiu, com a N. e o namorado, que lhe pagou o bilhete. Nós manifestámos o nosso velho conhecimento do monumento e deixámo-nos ficar encostados ao carro.
Vistas as vistas, desceram e, passando Almada, o Manel viu uma placa a dizer Costa da Caparica, ficou eufórico com a proximidade e disse ter lá um grande amigo. O meu pai rumou então à Costa e, à entrada, já nas Terras da Costa, perguntou onde morava esse grande amigo. A resposta provocou um silêncio seguido de uma gargalhada geral:
- A morada não sei, mas ele tem uma mota encarnada, não deve ser difícil de encontrar.
O meu pai abrandou, parou o carro, virou-se para trás para o amontado de nós e perguntou-lhe se ele tinha ideia de quantas motas encarnadas existiam na Costa, se ele tinha noção do tamanho da vila, se alguma vez lá fora. Três nãos.
Virou-se para a frente e foi conduzindo devagar, Oh Manel, isto nem parece seu. Mostrámos-lhe o mar e regressámos a casa, cheios de rugas na roupa, a N. bem apertadinha junto do seu A., a minha irmã no banco da frente ao colo da minha mãe e eu de trombas ao lado do palerma do Manel.
A estadia do Manel na nossa casa durou quase três meses, com esporádicas idas à Universidade e muitas discussões pois ele estava sempre pronto para sair e eu também, mas não tinha dinheiro para o acompanhar e não aceitava nada dele.
A N. um dia convenceu-o que sabia cortar cabelo e ele deixou que ela o pusesse com um ar muito avant garde, ou pelo menos foi isso que lhe dissemos, jurando que a moda em Lisboa era exactamente aquela.
Tirando a questão do dinheiro que para os meus lados era leve que nem uma pluma, até nos entendíamos e, talvez por isso, depois do adeus e do regresso aos Açores, poucas semanas depois ele voltou a Lisboa, foi visitar-nos e perguntou-me se queria casar com ele. Disse que não tencionava ficar em S. Miguel, que o Canadá o esperava, terra de grandes oportunidades, onde tinha amigos ou família, já não me lembro.
Um ano antes, durante o 12º ano, assistira ao casamento de uma colega de turma que para mim funcionara como uma coisa quântica, tão abstracta que eu não conseguia entender. O Canadá, as oportunidades, o ir embora, era tudo fantástico mas, tal como numa equação, havia um elemento que eu desconhecia, que me causava profunda estranheza, que não encaixava: casamento.
Ele insurgiu-se, afirmou não estar a brincar e eu ouvia um homem falar pensando que alguém o trocara no caminho porque quem se tinha ido embora era um rapaz na medida em que eu era uma rapariga, e essa coisa de casar era para velhos, não para rapazes e raparigas, a não ser que fossem loucos ou, como no caso da Adelaide, que a sogra fosse psicótica e insistisse no casamento imediato alegando ter visões que lhe diziam que o filho morreria em breve e se não casasse já, ela nunca teria netos.
Canadá, sim. Oportunidades, sim, também. Casar, não.
O Manel dos Açores foi embora, solteiro, e nunca mais o vi, nem nada soube dele. Comecei a namorar com outro Manel, continental, com quem casei e tive um filho. A N. casou com o meu queridíssimo A., e assim se mantém, com dois filhos maravilhosos, cuja amizade prezo imenso.
Há dois ou três anos um antigo colega do liceu conseguiu localizar a turma inteira e organizou-se um jantar no qual adorei ter participado: uns gordos, outros magros, outros parvos iguais ao que eram, uma camaradagem que não adivinhei manter-se depois de tantos anos. Pusemos a escrita em dia com as novas moradas, com os filhos, com os estados civis de casados e divorciados, com uma excepção: a Adelaide era viúva pois o marido morrera tal e qual como a sogra sempre previra. 

terça-feira, 25 de junho de 2013

Misfit moms

Ontem vi o mais violento programa de televisão a que já assisti. Três adolescentes grávidas são acompanhadas por uma instituição que as acolhe durante a gravidez, gravidez essa que termina em adopção.
Duas delas já eram mães e a terceira engravidara quando se prostituía para arranjar dinheiro para a droga.
As três mostravam características opostas, uma reservada, outra dando uma certa abertura e outra ainda cujo comportamento denotava uma falha, se não mesmo um abismo. Não prescindia de fumar e de beber tequila, era cleptomaníaca e arranjava problemas com a polícia.
A passos mais ou menos largos decorrem nove meses com visitas ao médico, rotinas diárias, jantares e compras (e roubos). De permeio a instituição distribui às adolescentes perfis de casais que querem adoptar, perfis esses - dossiers com texto e fotografias - que elas analisam para escolherem quem vão ser os pais dos seus filhos. Assim, boas fotografias, pouco texto, mas conciso, e muita cor, são elementos decisivos num processo de adopção, onde a última palavra é dada pela mãe, num processo que me pareceu perverso.
Todo o percurso é uma montra de horrores.
Uma das miúdas grávidas, já mãe de uma criança com ano e meio, tinha de seu quatro malas: duas com pertences dela própria e duas com coisas da filha. O horror de ter que dar o filho ia crescendo ao longo das filmagens tendo sido a que demorou mais a assinar os papéis. No Estado em questão a documentação só pode ser assinada vinte e quatro horas depois do nascimento para que a mãe tenha a certeza (?) que quer seguir esse caminho.
A instituição marca encontros com casais ansiosos por serem pais que se deslocam dos quatro cantos dos Estados Unidos da América para conseguirem o seu bebé, bebé esse que tem mais hipóteses de lhe ser atribuído se a sua candidatura tiver agradado à grávida. Foram postos de lado casais com argumentos do tipo: vivem numa quinta; têm ar de agricultores; já têm filhos; não inspiram confiança; tem uma cara esquisita.
A montra de horrores mostrava também a ansiedade dos pais adoptantes, alguns dos quais já conheciam aquele percurso e nunca sabiam quando a grávida ia voltar atrás. Pode também acontecer o casal encontrar-se com a grávida, esta ir pensar e quando dá a resposta eles já optaram por outra criança, como quem escolhe outra universidade.
As grávidas são acompanhadas por um médico que lhes dá indicações apenas e só sobre a gravidez, não sobre a criança, pois sabe o seu destino, como se fossem conversas que ficam a meio, onde os cuidados têm fim e não são para sempre.
Os partos são filmados e na sala de partos está a mãe, o médico, um elemento da entidade acolhedora, os futuros pais (que podem não chegar a ser e cujas vinte e quatro horas seguintes são traumatizantes e inesquecíveis) e a equipa de filmagem.
Ao ritmo dos gritos e dos gemidos da parturiente a eventual futura mãe aperta a mão do eventual futuro pai e choram ambos.
Em paralelo com esta dinâmica dos infernos há um processo administrativo que contempla três vertentes possíveis: adopção aberta, fechada ou semi-aberta. A adopção aberta é aquela onde a mãe verdadeira continua a fazer parte da vida do filho, vê-o periodicamente, o casal adoptante compromete-se a dizer mais tarde à criança que a mãe foi muito corajosa e a falar sempre bem dela. A semi-berta prevê o envio de fotografias nos aniversários, Natal e momentos especiais e a fechada supõe um afastamento para sempre.
Uma das adolescentes exigiu que a criança nunca soubesse que era adoptada o que chocou os futuros pais que, não obstante, concordaram.
Em conclusão, vi todos aqueles dramas, verdadeiramente chocantes, e questionei-me sobre a polémica da adopção de crianças por casais homossexuais que, dizem alguns, são prejudiciais ao crescimento e boa formação das crianças e jovens. Face ao que vi, pergunto, serão? Confesso que não me parece.
A tristeza das crianças que ali deram à luz outras crianças, que acredito ser verdadeira e profunda, esconderia muita coisa que não foi transmitida, não digo que sejam más mães, não julgo - embora considere o processo em si um coisa arrepiante e não lhes veja capacidade de decisão, mas é só uma opinião. As crianças criadas em regimes abertos ou semi-abertos terão um crescimento e uma formação saudável? Afinal, quais destes são os meus pais, porque fui dado, serei um objecto, serei um cão ou um gato?
Concordo a duzentos por cento que a adopção é um caminho para muitas pessoas e, não tivesse encontrado oposição no meu marido, na altura teríamos adoptado uma criança, já depois do nosso filho nascer. A mesma percentagem vai para todas as mães que, não tendo condições ou não querem os filhos,  recorrem à adopção, mas as crianças devem ser entregues a quem as queira, para lá da opção sexual.
Quando uma das miúdas dizia que um casal tinha ar de campónio e por isso não os queria para pais da sua filha, podia estar a dizer que o casal tinha ar de gay. Havendo alguém que quer amar uma criança devemos impedi-la? Havendo alguém que quer assumir uma parte da responsabilidade do património universal que são as crianças devemos proibi-lo? 

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Esperança embrulhada e com laçarotes

Leio que o governo vai oferecer esperança. Não percebo, leio outra vez. E outra. Fico baralhada. Eu uso a esperança todos os dias, sem excepção, e agora, fico na dúvida se era de utilização livre e lembro-me do Zezé de O meu pé de laranja lima que um dia tirou uma flor de um jardim para oferecer à professora e só depois ficou a saber que as flores têm dono, não se podem arrancar.
Se calhar acontece o mesmo com a esperança, logo com a esperança da qual eu tenho usado e abusado...

Um questão de cor

- Bom dia, quero um isqueiro. Tem daqueles tipo Zippo?
 - Não, só há as coles que estão à mostla.
Esta conversa aconteceu hoje de manhã, numa mini loja chinesa. A moça era muito sorridente e eu, só para ter qualquer coisa de Zippo, nem que fosse uma letra, trouxe um azul.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

A Débora querr, querr...

No escurinho do cinema
Chupando drops de anis
Longe de qualquer problema
Perto de um final feliz...
Se a Deborah Kerr
Que o Gregory Peck
Não vou bancar o santinho
Não!
Minha garota é Mae West
Eu sou o Sheik Valentino..
Mas de repente o filme pifou
E a turma toda logo vaiou
Acenderam as luzes
Cruzes!
Que Flagra!
Que Flagra!
Rita Lee

LinkedIn

Faço parte desta rede e utilizo-a bastante. Entre várias situações foi através dela que conheci um investigador checo cujos trabalhos estão a ser publicados em Portugal e um deles será traduzido por mim brevemente. Através dela também, convidaram-me para dar um parecer sobre assuntos da minha especialidade, com consequências interessantes a nível profissional.
Porém, as solicitações são tantas que me sinto um pouco perdida.
Inscrita em vários fóruns, tento participar ao máximo e mesmo que não contribua activamente, mas faço por ler o que se escreve no âmbito dos meus interesses. Verifico com frequência que há ali opiniões que valem mais do que muitos dos artigos das bases de dados cuja assinatura me custa vários milhares de euros ao ano.
São anónimos, para mim, cuja experiência e vivência é partilhada e discutida seriamente, naquela praça pública. Não há medo que alguém nos roube a ideia, defeito de que padecem muitos investigadores que conheço, pretende-se partilhar e disseminar a prática e não cicatrizar uma folha de papel com tinta.
Nos vários cantos do mundo discute-se uma ideia, uma abordagem, um processo, um procedimento, uma tarefa.
O que acham? Farei melhor assim ou assado? Quem conhece isto ou aquilo? Já experimentaram esta novidade? Como resolveram este problema? Com que dificuldades se depararam quando vos aconteceu isto? Quando quiseram fazer aquilo qual a opção que tomaram?
A leitura, os comentários, as opiniões obrigam-nos a reflectir e até a antecipar problemas, a visualizá-los previamente, a acertar tarefas. Levam-nos a experimentar também, a encarar a diferença não como diferença, mas como um outro lado da nossa solução.
O LinkedIn é uma espécie de currículo DeGóis mas com provas dadas, em que a cada dia vamos dando e recebendo, uma ferramenta de trabalho incrível ao nível da crítica, da reflexão, da decisão. É um centro de partilha descontraído mas objectivo, focado, sem dispersão, com saliência só para a discussão em causa, sem perturbações. Permite-nos participar em qualquer debate em andamento ou criar um que julguemos justificável.
Ao longo de quase um ano de adesão, congratulo-me com a sua existência esperando que continue a ser tão útil como até agora, e só tenho pena de não conseguir aproveitar ao máximo as potencialidades que encerra pois há discussões tão interessantes que me apetecia prolongar o dia para as poder acompanhar. 

Toda a força será fraca se não estiver unida

Tenho acompanhado os acontecimentos no Brasil via amigos que vivem em São Paulo e no Rio e parece-me que o filho está a dar uma grande lição ao pai.
Não tenho os conhecimentos e a capacidade de análise invejável do meu querido V., que sistematiza as situações, compara-as, enquadra-as conceptualmente e deixa-me sempre a sentir como se fosse um daqueles bicharocos cuja extinção não aquece nem arrefece o equilíbrio da natureza, e seria até defendida pelo próprio David Attenborough, mas vejo que os brasileiros não desarmam ao contrário de nós.
Nós mostramo-nos de vez em quando e já chega, que isso de andar na rua é muito pouco chique e somos mais dados ao berro do que ao grito, afinal quem é um tal de Edvard Munch?
Eles não arredam pé, estão na rua e são ouvidos porque ninguém consegue dormir ao som de gritos.
Por cá parecemos personagens da Bela Adormecida. E o raio do príncipe que se demora tanto... Estará perto do Ipiranga?

Olhos nos olhos - análise do texto

Quando você me deixou, meu bem,
Me disse pra ser feliz e passar bem.
Quis morrer de ciúme, quase enlouqueci,
Mas depois, como era de costume, obedeci.
Quando você me quiser rever
Já vai me encontrar refeita, pode crer.
Olhos nos olhos,
Quero ver o que você faz
Ao sentir que sem você eu passo bem demais
E que venho até remoçando,
Me pego cantando, sem mais, nem por quê.
Tantas águas rolaram,
Quantos homens me amaram
Bem mais e melhor que você.
Quando talvez precisar de mim,
Cê sabe que a casa é sempre sua, venha sim.
Olhos nos olhos,
Quero ver o que você diz.
Quero ver como suporta me ver tão feliz
Chico Buarque
A análise deste poema resume-se numa pequena frase: o bold é lixado…

quinta-feira, 20 de junho de 2013

De carro

O primeiro carro do meu pai foi um Fiat 850. Lembro-me de lá entrar pela primeira vez, em terceira mão mas novo, tão novo que nos fazia luzir por dentro. Lembro-me da minha mãe, pavoa, a chegar à aldeia e a levar os pais a passear, o meu pai a prometer, e sempre a cumprir, que a partir de agora iríamos mais vezes, as máquinas a facilitarem o contacto entre as pessoas, a aproximá-las.
O meu pai, caso raro de amor extremo pela sogra e pelo sogro, amor esse recíproco, chegava a rumar à aldeia sozinho para ajudar na azeitona, mais um fim-de-semana para a apanha do melão, depois outro para desburricar as oliveiras e outro e outro e outro. Sogro e genro a darem-se como pai e filho, não porque a um faltasse pai nem a outro descendência masculina, mas porque as boas relações são boas e não é preciso mais explicações.
Se há coisas que me parecem impossíveis, mas sei serem verdadeiras porque as vivi, são as viagens ao Alentejo no Fiat 850 onde, numa ocasião, chegámos a ser nove pessoas.
Bancos duros que nem pedra, duas portas, crianças sentadas ao colo do passageiro da frente, gente amontoada no banco de trás, velocidade máxima perto da actual mínima, um dia inteiro para chegar a qualquer lado, estradas pobres e esburacadas, havia de tudo.
Mais tarde, por vários carros que fomos tendo, o meu pai teve uma carrinha só com três lugares à frente e caixa vazia que, a caminho de uma feira de Moura levou do Sobral da Adiça trinta e três pessoas, sem um único banco. À saída da aldeia os meus pais pararam para beber café e disseram que íamos à Feira; juntou-se um que também queria ir e mais outro, e outros que chamaram outros e eram precisamente trinta e três outros, contados à chegada a Moura à medida que iam saindo da viatura.
Hoje isto seria impossível e daria prisão perpétua algures na Tailândia, mas na altura era normal, assim como foi normal sentarmo-nos nas escadas da praça de touros a cantar, dando continuidade à cantoria que já tinha vindo arrepiando as folhas das videiras da vinha dos Machados e transformando os torrões em terra quase líquida com o afinado das vozes.
Actualmente escolhemos a estação de rádio, com um toque ou vários toques sucessivos e não rodando um botão, optamos por um CD, ligamos o telemóvel ou uma pen às colunas da aparelhagem do carro. Actualmente há sempre rede, conceito que na altura, no máximo, nos faria lembrar o Emiliano cujo pai era pescador.
A falta de cobertura do rádio e a existência de cassetes, mas esventradas com as figadais fitas todas enroladas, levava-nos a cantar: Quando Cheguei ao Barreiro à saída de Lisboa; Grândola Vila Morena, à beira de Grândola e muito antes de Vila Morena estar escrito na placa; Ó Beja Pois Tu Não Sabes, à vista de Beja; Ai Ai Ai Trigueirinha onde nos apetecesse; Lá Vai Serpa, Lá Vai Moura, à passagem por Serpa; Sobral da Adiça à entrada da aldeia e muitas outras.
A minha irmã e eu ainda gostamos imenso de cantar quando andamos de carro e fazemo-lo sempre que podemos, canções antigas, novas, infantis, tudo o que nos vem à memória. Sabemos que cantamos muito bem e para mim sempre foi um mistério porque nunca fizemos carreira musical, principalmente depois do dia em que fomos a um bar de karaoke e quando terminámos veio o dono e disse-nos que a conta estava paga com a condição de não voltarmos a abrir a boca… caso contrário ele convidar-nos-ia a sair do distinto estabelecimento. Era só uma opinião, o homem sabia aviar copos mas não tinha ouvido para a música, como é óbvio!
Este Verão esperam-nos os Picos da Europa. Cumpriremos os limites de velocidade, poremos os cintos de segurança e, apesar de sermos só quatro, até o Pelágio ressuscitará quando por lá passarmos a cantar. 

Crónica da realidade

Entro na Biblioteca vinda de uma reunião no exterior. À entrada sou abordada por uma senhora, aluna, que me pede ajuda:
- Pode dizer-me o que têm sobre reabilitação?
- Reabilitação em que área?
- Isso não sei, foi a professora Fulana que me mandou aqui à procura de livros sobre o assunto.
- Muito bem, mas é de que curso? Arquitectura, Psicologia, Direito?
- Eu?
- Sim, a senhora anda a tirar o quê?
- Enfermagem.
- Ok. Pode fazer pesquisa num destes computadores. Precisa de ajuda?
- Não, não percebeu: eu quero é livros, de computadores e internetes não percebo nada.
Depois de chamar alguém para dar um auxílio, vou para o gabinete decidida a nunca precisar de uma enfermeira.

Eu quero uma jóia com muitas pedras... de calçada portuguesa!

Quem me quiser encontrar a partir do próximo mês é na Rua Alexandre Herculano, na loja da Cartier.
Serei eu e as minhas colegas que ganham setecentos euros por mês.
Afinal as jóias valorizam imenso e nós temos a mania de gastar tudo em sítios tão brega e em coisas que simplesmente desaparecem, como por exemplo no supermercado a comprar comida.
Já lhes disse que comida toda a gente compra. Ou arranja, ou rouba. Agora, jóias, isso é outra conversa... quem é que é cliente da Cartier? Seremos nós!
O meu processo de convencimento passa por alegrar a relação delas com os maridos, filhos e vizinhança em geral, por exemplo. O meu próprio filho está farto e cansado das mesmas coisas e vai adorar uma mudança; matam-se dois coelhos com uma cajadada: como ele deixou de ir aos treinos está mais gordo, deixaremos de comer e ficaremos elegantérrimos, com a mais valia de eu andar a passear pedras diversas, quiçá diamantes, no metro e no elevador lá do prédio, arrastando um brilho que será venerado. A isto chama-se serviço social!
Além disso, haverá garantidamente uma brutal diferença na minha performance diária com o computador... já me imagino a escrever com safiras nos dedos e esmeraldas nos pulsos, que tilintarão ao ritmo do teclar, provocando um suave murmúrio tão chique que antecipadamente me sinto percorrer por uma onda de prazer.
Estou tão contente por terem escolhido um local onde passo todos os dias para abrir a loja, que ninguém imagina. Com a abertura da Cartier, a partir do mês que vem aquele cruzamento já não terá só a fantástica e super útil loja que lá abriu há tempos e está aberta 12 meses por ano: a Lapland Store, cuja conveniência é total e a oportunidade, principalmente agora nos meses de Verão, é enorme.
Os tipos da Lapland Store são espertíssimos e não perdem uma ocasião de negócio, razão pela qual colaram nas montras, cheias de neve e renas, uns papéis a dizer que tratam do IRS.
Se os da Cartier não quiserem perder clientela eu sugiro que montem algures num balcãozinho uma mini-loja do cidadão. Isto é marketing. Isto é visão. Isto é génio. Não precisam de me agradecer, eu gosto de ajudar.

Because we can

Ver a cara de alguém que é surpreendido com uma coisa boa é das melhores sensações do mundo.
Uma das pessoas cujo abraço me é essencial e a quem adoro fazer surpresas é ao meu sobrinho mais velho.
O dia que aterrámos em Roma e ele me apertou com uma força que eu desconhecia nele e me disse, Quica, eu gosto tanto, tanto, tanto de ti, ficou-me para sempre na memória como um daqueles momentos que vale uma vida.
O ano passado quando ele viu que íamos ficar num veleiro em vez de num quarto normal a dormir, deixou-o numa euforia que nenhuma droga consegue dar. Este ano sabe que estamos a planear ir aos Picos da Europa mas não sabe que vamos levar tendas de campismo. Mas eu sei que ele vai adorar.
O que eu também sei e ele também não sabe é que vai ter uma surpresa na próxima quarta-feira. 
Eu pago para alimentar este tem-te não caias das surpresas, tenho uma coisa para te dizer mas não posso, nem sabes o que te vai acontecer daqui a uns dias, se tu sonhasses daquilo que eu sei... 
Ele salta à minha volta a querer saber, abraça-me, quer comprar-me com tudo para que eu me descaia, mas nada feito. 
É bom dizer que este é o garoto de dez anos a quem um dia os pais ofereceram um passeio à Disney e, tendo jantado juntos na noite anterior, eu brinquei a dizer que ficava muito triste porque eles iam e eu ficava. Daqui resultou uma crise de choro da parte dele e a resolução de ficar comigo para que eu não ficasse sozinha. Lá lhe parámos o choro com dificuldade e a promessa que um dia iríamos juntos. 
A última prova de solidariedade total foi no ano passado no Gerês. Depois de uma caminhada de mais de vinte quilómetros e já com um dia inteiro de mergulhos, pedimos boleia de volta à Pousada. O carro que parou tinha três lugares vagos. Perfeito, à conta para a minha irmã e os dois miúdos. Ele recusou-se terminantemente a entrar no carro e disse que nunca me deixaria ali sozinha, acontecesse o que acontecesse. Franzi o sobrolho e mandei-o entrar no carro, disse-lhe que estou habituada a andar, que em nada nos encontraríamos, que fossem pedindo um gelado enorme, que esperassem por mim com uma garrafa de água fresca - que se tinha acabado e estávamos todos com sede. Nada resultou e ele ficou comigo tendo continuado a andar tropeçando nos próprios pés tal era o cansaço. Elas seguiram e eu acabei por pedir também boleia por incapacidade de o levar ao colo, mas contra a vontade dele. Ambos no banco de trás do carro, a sensação da cabeça dele encostada ao meu peito, numa entrega absoluta, foi única, como se consolidasse a ligação inexplicável que nos une. 
Agora ele vibra sempre que vê o anúncio dos Bon Jovi. Como no Natal tinha comprado um bilhete ao Duarte, que já fora no ano passado, e este ano vai de férias precisamente nesse dia, não vendi o nosso bilhete, mas antes comprámos outro.  Eu vou estar na primeira fila não tanto para ver a banda mas antes para ver o delírio do meu sobrinho que é oxigénio puro. 

There are nine million bicycles in Beijing

There are nine million bicycles in Beijing
That's a fact,
It's a thing we can't deny
Like the fact that I will love you till I die.

We are twelve billion light years from the edge,
That's a guess,
No-one can ever say it's true
But I know that I will always be with you.

I'm warmed by the fire of your love everyday
So don't call me a liar,
Just believe everything that I say

There are six billion people in the world
More or less
and it makes me feel quite small
But you're the one I love the most of all

We're high on the wire
With the world in our sight
And I'll never tire,
Of the love that you give me every night

There are nine million bicycles in Beijing
That's a Fact,
it's a thing we can't deny
Like the fact that I will love you till I die

And there are nine million bicycles in Beijing
And you know that I will love you till I die!

Katie Melua