quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Pensamento positivo


Uma das memórias mais persistentes ao longo da minha vida é a de ir visitar o meu pai ao hospital. Perdemos a conta às operações, desde um simples arrancar de amígdalas até ao corte e costura das veias das pernas, um trabalho de patchwork cirúrgico, em cujo último acrescento fomos informados que já nada havia a fazer. A partir dali era cortar. Um pé.
Esta espada sempre pairou sobre as nossas cabeças como as nuvens altas que levam chuva mas vão descarregá-la noutros locais. Até um dia. Não se fala desse dia, não vale a pena, é ir vivendo 24 horas de cada vez e deixar o tempo passar.
Vai chegar uma altura em que a nuvem não se afasta e larga uma borrasca em cima de nós. Esse dia tem vindo a aproximar-se, sorrateiro, e agora manifestou-se oficialmente sob a forma de obrigação de nova operação, ainda em Janeiro.
Concientes das implicações, estamos em pânico. Damos força ao doente mas por dentro arrepiamo-nos até ao último osso e contemos a vontade de chorar.
Sabemos que há coisas piores mas neste momento esta é a pior de todas.
Imaginamos o amanhã com cadeiras de rodas, com próteses, com mudanças profundas numa dinâmica de vida que hoje é quase normal, fruto da utilização do carro. Pensamos num carro adaptado e no euromilhões para o conseguir.
Pensamos nas nossas próprias vidas e na revolução a que vão ser sujeitas se quisermos que o meu pai continue a fazer parte das saídas, que assista aos jogos de andebol do Duarte, aos de pólo aquático do meu sobrinho, que possa ir visitar amigos, ao café, de férias,…
A última semana foi desgastante para mim em termos de trabalho e esta notícia arredou-me da vontade de falar e até de escrever, como se meia dúzia de palavras tivessem o condão de nos paralisar os braços, as pernas, o pensamento, a vontade própria.
Faço um esforço para me concentrar em tudo sabendo que a minha condição de bibliotecária, e não de médica, não me fará dar ajuda substancial mas desajudarei, e muito, se ficar a moer o assunto.
Lembro-me do meu querido M., agora em Angola, e dos seus conselhos valiosos face a qualquer coisa sobre a qual nada podíamos fazer. Tento segui-los com pouco sucesso, mas com muito esforço e empenho: dispersar o pensamento, agarrarmo-nos a mil coisas e instituí-las como essenciais no nosso cérebro; aceitar dez trabalhos diferentes em simultâneo, estar com amigos e beber uns copos. Confesso que me apetece e muito… mas por ora entrego-me ao trabalho que, convenhamos, me tem ajudado bastante e nunca me agradou tanto uma onda assim como agora.
Pensamento positivo e esperança, convenço-me eu, rapariga sem fé pois, na verdade, quem tem fé não pode ter esperança. Mas isto são outros quinhentos para outro dia. Fiquemo-nos pelo pensamento positivo.

O dançarino


A jibóia gorda que é o metro está parada na estação inicial. 
A leitura absorve-me assim que abro o livro mas não é suficientemente forte para me afastar a atenção de um jovem que dança diante do vidro.
Ouve-se o pi que anuncia o movimento das carruagens e que me parece passar despercebido ao rapaz, que mantém uns auscultadores nas orelhas.
Ziguezagueando no meio do túnel a escuridão apodera-se do bicho e transforma os vidros em espelhos. O rapaz aproveita e observa o seu reflexo repetindo gestos que lhe devem ser facilitados pela música que ouve, baixa e não partilhada com os restantes passageiros.
Está absorto, sozinho e repete movimentos, inclina a anca, levanta os calcanhares, dobra os pulsos, vira a cabeça e volta a repetir, descontente e persistente.
A carruagem segue mais silenciosa que o costume, olhos postos no dançarino, imune aos curiosos. 
Com a entrada de mais e mais passageiros o palco diminui mas ele não desiste e continua a usar o vidro como espelho para se auto criticar na encenação que pratica.
Meia dúzia de estações mais adiante, e já só a simular movimentos de ombros, pescoço e cabeça, baixa-se graciosamente como se fosse fazer uma vénia. Apanhou a mochila e saiu deixando a carruagem muito mais pobre. 

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Andar sem parar


Fora as mariquices científicas, o dia tem 24 horas, 1440 minutos e 86400 segundos.
Tendo em conta que o meu despertador tocou às 8 da manhã e é uma da tarde e o pedómetro marca um quilómetro e quatrocentos metros e 2119 passos feitos, em 23 minutos, conclui-se que estive parada 277 minutos, dos quais muitos foram sentada!
Isto não pode ser e tem de mudar, recuso-me a dar pontos à cadeira, seja a verdinha diante da secretária, o banco do metro, a poltrona no gabinete do chefe diante da sua mesa, a de costas altas na mesa de reuniões ou o banco de trás do táxi.
A nossa natureza é andarilha, andámos nove meses no embalo no quentinho da barriga da mãe, mais uma série deles ao colo e é assim que nos sentimos bem. As mães africanas trazem as crianças às costas prolongando aquele baloiço como se não consentissem a separação dos filhos em idades tenrinhas.
Andar é natural e saudável e poucas coisas há que me fazem sentir tão bem. Com cerca de 15 quilos a menos, ando ainda mais e melhor e agora vem um médico dizer-me que ando demais e que devo parar.
Não acredito nisto e recuso que me esteja a acontecer. 
Já marquei consulta em Pandora com um especialista médico cuja fama passa planetas e apenas é acusado de deixar os doentes azuis, mas eu não sou racista e vou lá hoje à tarde, o que me dá tempo de sobra para regressar a tempo da consulta no Hospital de Santa Marta, marcada ontem, para dia 7 de Fevereiro. 
Tenho tempo para morrer e ressuscitar que ainda vou a horas de me sentar na sala de espera e ler o jornal de fio a pavio. 

A Guerra dos Hobbits ou dos Anéis ou isso


Há realizadores de cinema que parecem querer contrariar a tendência da sociedade actual, uma sociedade apressada, parecendo estar permanentemente atrasada, razão pela qual precisa de se despachar.
Computadores, telemóveis, ipad’s, iped’s, ipid’s, ipod’s e ipud’s, micro-ondas, carros, tudo tem de ser rápido que nem flechas. Não, as flechas são de outro tempo e muito lentas, rápidos que nem um processador XPTO, assim é que é.
Ninguém espera, porque isso era tarefa de antigamente, agora é já, imediatamente, ontem. O passado não interessa, o futuro, a bem da verdade, também não, o presente é tudo.
Se a saga da Guerra das Estrelas começou no fim e voltou ao princípio, com um interesse enorme dos fãs, o Senhor dos Anéis não se ia ficar atrás: chegou o Hobbit, que já todos conheciam mas ainda cá não estava,  uma espécie de D. Sebastião de quem já todos ouvimos falar, que viveu no passado, mas ainda há-de chegar.
Este andar para trás não é só um passo ou outro, são logo três de seguida, também à imagem da Guerra, com grandes viagens pelo meio, daí isto demorar três filmes. E se uns viajam pelo universo os outros não fazem a coisa por menos, pois a distância do Shire até à Lonely Mountain pode ser mais pequena que de Tatooine até Alderaan, mas os tipos são anões, caramba!
Gosto muito de Jedis, em especial aquele Qui-Gon Jinn, ai as tranças que eu lhe fazia naquele cabelo…, mas adoro um bom feiticeiro acima de tudo. Adoro eu e toda a gente, embora isto das feitiçarias não seja mais do que informática avançada, pois no fundo, no fundo uma varinha mágica não é mais do que um rato esbelto e sem fios.
O Gandalf, que não é nenhum nerd, precisa é de um guarda-roupa novo, não por usar saias, mas por as usar tão compridas, que aquilo não dá jeito nenhum para fugir e fugir é qualquer coisa que eles andam sempre a fazer. A mim não me espanta que fujam, que também eu fugiria daqueles orc’s e daquela gente, o que me impressiona é que nunca se cansam!
Se por mais não fosse, os Feiticeiros ganham a batalha com os Jedis por causa de um pormenor, e é nos pormenores que reside a diferença: usam chapéu, um chapéu à moda de Simon Templar cujo cabelo nunca saia do lugar, ou do Agent Smith, que garantidamente usava a mesma laca, pois pode ventar o vento e granizar o granizo, seja a tempestade épica ou estelar e o chapéu de Gandalf mantêm-se na sua cabeça, sem perigo de se perder, como ia acontecendo já um par de vezes a Indiana Jones.
Por falar em Indiana Jones, ele é Han Solo da Guerra – seis filmes seis, como anunciaria um bom cartaz tauromáquico – e Simon Templar é Bond – vinte e dois filmes vinte e dois – e Smith - três matrixes três - é Lord Elrond, ou seja, nós bem queremos heróis, mas isto é como na política, mudam os nomes, os cenários, mas os tipos são sempre os mesmos.
Entre Jedis e Feiticeiros há bicharocos de eleição: Chewbacca e Gollum, com evidente vitória de Chewie, não só pelo tamanho, mas essencialmente pela pelagem. Sméagol podia ter um anel mas o co-piloto do Falcão Milenário é super fashion e as suas palavras são uma verdadeira inspiração!

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

O mercado da Brandoa


É Domingo de manhã. Não tenho carro que me leve até à areia da praia e daí possa dar asas aos pés durante alguns quilómetros. Bem, o que não falta na cidade da Amadora são estradas e ruas e caminhos, por isso, vamos embora.
Dou por mim a andar em direcção à estação de metro e com o aproximar vejo gente com sacos e saquinhos e lembro-me: é dia de mercado da Brandoa.
Quando viemos morar para Lisboa ficámos na casa de um tio meu que estava em África; entretanto fomos vendo casas com sucessivas recusas peremptórias da minha mãe face às sugestões do meu pai:
Buraca! Qué lá isso? Com um nome desses nem dá para calçar saltos!
Porcalhota! Bento! Só podes estar a brincar…
Brandoa! Brandoa… vamos lá ver isso…
A viagem foi de comboio até à Amadora e dai de táxi – ou melhor, de táx… - para a Brandoa. Chegados lá, a senhora minha mãe põe um pé fora do táxi no meio do maior lamaçal de que há memória e perde um sapato, assim, sem mais nem menos, sapato que nunca se encontrou naquele mar de lama. Eu nem cheguei a sair do táxi.
E assim se riscou a Brandoa do mapa e ficámos nesse outro maravilhoso subúrbio que se chama Cacém.
Isto para dizer que associo Brandoa a lama e assim será durante os próximos cem anos, mesmo que lá passe de carro com muita frequência.
Sou habituée do mercado do Algueirão, pelo-me por uma boa feira e na Brandoa revivi Belleville. Quem diz que conhece Paris e nunca foi a Belleville não conhece nada, nadinha, zero!
Com um morro afavelado lá atrás, vizinho da estação de metro, a Brandoa pode meter medo a uns quantos, mas a mim, pelo menos o mercado, fascina-me: brancos e pretos e chineses e indianos e barracas de couratos paredes meias com os montes de roupa e fumo dos choriços assados ao lado de hortaliças lindas de comer e plásticos e meias e cuecas e tudo!
É neste mercado que mora o Fanan, o verdadeiro Fanan, aquele que aparecia num programa de televisão em frente de uma roulotte, com casaco de pura pele de crocodilo, rabinho de cavalo, bota bicuda a esconder a peúga branca.
Os Fanan’s deste mundo conhecem as cervejas por bejecas e enfardam bifanas enquanto o crucifixo lhes balança ao pescoço e o mindinho levantado ostenta um anel de ouro… ou isso; são reis e senhores nas suas enormes gargantas e, se fosse de Verão, ainda iam dar uma cacholada a Carcavelos.
Vi belos exemplares de ladies em fato de treino e sapatos que atestam a genuinidade do local, onde voltarei, como é óbvio. Não faltavam pechinchas, faltava-me a mim o carcanhol, caso contrário viria de lá envolta num casaco de pele de leopardo, calçada com uns Manolos. Não por causa da lisura da carteira mas pelo incómodo do transporte – a pé! – não comprei nenhum ramo de hortaliça, embora fossem de meter pelos olhos dentro.
Planeia-se já nova incursão, desta feita em excursão com amigas a reboque. Não posso falar muito se não ainda tenho mesmo que alugar um autocarro.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Razão de ser


Independentemente de aqui aparecerem textos novos todos os dias ou não, não se passa um dia sem que dê ao dedo. É uma coisa visceral, ler e escrever.
Já desisti de tentar editar seja o que for, e embora continue a escrever romances, guardo-os, como guardo as famosas botas que já correram mundo. Um dia ficarão para alguém que lhes dará o fim que entender e como escrevo como se fosse uma impressora das mais básicas, apenas de um dos lados, sempre se pode usar o outro lado como papel de rascunho.
Já esqueci as incitações dos amigos que me chagam para que edite a estória de Carmem, as colecções de mini contos, os livros infantis ou A rapariga que não gostava de livros com as capas dobradas, completo, do qual há por aqui vários capítulos.
Sobre esta matéria quero aproveitar para agradecer a todos os que me escrevem a pedir o final e informar que falta muita coisa pelo meio.
Porque se sente esta necessidade de partilha? De querer que outros estejam connosco nesta coisa que é escrever e ler? Neste casamento tão perfeito que até a perfeição o inveja?
A escrita é uma forma de dádiva, e não me refiro ao saber escrever, mas ao acto de dar aos outros. No meu caso, no deste blog em concreto, é uma necessidade de partilhar sim, mas também de rever o dia-a-dia, as relações entre as pessoas, de apanhar situações que me fazem rir, pensar e reflectir, reclamar, emocionar, recordar, e tudo em público, de forma aberta e partilhada.
Não deixo de me rir quando me dizem que o Areia às Ondas é um reality show com a diferença que não é em directo… Sim, é um diário que é lido aqui em Portugal, mas também em Macau e na Argentina, em Angola e no Brasil, na Noruega e nos Estados Unidos, em Israel e na Alemanha, na Dinamarca e na Coreia e, não sei dizer porquê, com imensas visitas originárias da Rússia.
Mencionei apenas os países que registam um maior número de pegadas neste areal, mas outros há, e que aqui não se leia qualquer desprezo, qualquer preferência da quantidade sobre a qualidade. Por exemplo, veio de Espanha a mensagem mais engraçada que já aqui recebi, da Venezuela um pedido para reproduzir textos, do Chile, ai o Chile, um dia vou ser tão feliz no Chile, um abraço enviado por que si, como dia o remetente.
Curiosamente, ou não, de Portugal vieram dois pedidos, dois, para retirar textos. Que não eram verdadeiros, que ofendiam, que devia ter cuidado com a prosa. Falo agora desde assunto pela primeira vez pois a importância que lhes dei foi nula e a única cosia que apaguei foi um comentário, de um amigo, que escreveu o meu nome e fez várias referências pessoais, desnecessárias na minha opinião, e assim lho comuniquei quando retirei o comentário.
Tem havido interacções directas com portugueses, que muito prazer me dão, desde logo com um certo ladrão de livros que se deu ao trabalho de vir a Lisboa conhecer-me; com um leitor a quem eu emprestei um livro meu – contra todas as minhas regras!; com autores de livros que leio; com pessoas simpáticas que me dão o prazer de enviar umas linhas – por exemplo a dizer Boas Festas.
De todos, realço uma visita quotidiana, uma amizade de muitos anos, uma pessoa que vive sempre comigo embora a sua natureza de cidadão de mundo, e o asco pelo Portugal que temos, o leve a constantes viagens por esse planeta fora, o V.
A todos agradeço o acompanhar neste percurso.

Amar ou odiar


Amar ou odiar
Ou tudo ou nada
O meio termo é que não pode ser
A alma tem de estar sobressaltada
Para o nosso barro sentir; viver
Não é uma Cruz que não se queira pesada
Metade de um prazer, não é um prazer!
E quem quiser a vida sossegada
Fuja da vida e deixe-se morrer!
Vive-se tanto mais quanto se sente
Todo o valor está no que sofremos
Amemos muito como odiamos já!
A verdade está sempre nos extremos
Pois é no sentimento que ela está.

Fausto Guedes Teixeira

Noite branca


Ontem à noite estava uma claridade inusitada. Fumando um cigarro à janela da cozinha vi pormenores do prédio em frente que nunca tinha visto em dias de sol. 
Chamei o meu filho que me disse que eu estava a alucinar.
A noite era branca, luminosa de tal forma que me deu medo. De quê? Nem sei, mas senti um arrepio de anormalidade.

Chico, grande abraço!


Já ouvi dizer que ser-se chic é ser um aristocrata da aparência. Há quem esteja chic de vez em quando – eu, raramente, mas já aconteceu – e há quem seja chic, de maneira inata. A minha prima Natércia é, definitivamente chic, mesmo que esteja de ressaca, com enormes olheiras e com o cabelo todo revolto. Nunca a vi assim mas acredito piamente que mesmo nessas condições ela mantenha um ar elegante, um porte distinto e um estar refinado.
Ora chic é uma palavra estrangeira que aportuguesada dá, obviamente, Chico! Provas disso são várias.
Comecemos por um dos mais famosos Chicos portugueses, o Chico do Cachené, que não só usa o dito cachené, um chapéu às três pancadas como remata com calções à marialva. Não será isto chic? E como não havia ele de por o bairro em alvoroço?
Outro Chico bem conhecido, o Chico Esperto, é ainda mais português que o anterior e não há alma lusa que não partilhe um pouco desta chiqueza. Adoro pensar num Chico Esperto de meia branca, anel no mindinho, crucifixo estampado no peito e amor de mãe expresso a azul num braço.
Outra prova irrefutável encontra-se no filme a Aldeia da Roupa Branca. Os aldeãos vibram com a chegada de um conhecido que vem da glamorosa cidade. E como se chama o filho da terra que vem visitá-los, bem vestido e garboso? Chico, pois claro! Gritam em uníssono Chegou o Chico, chegou o Chico!, que não podia ter outro nome, evidentemente. Qualquer outra das personagens não era digna de chegar de parte alguma: Jacinto, Luís, Zé ou Simão? Nenhum tem aquele dobrar de língua das duas consoantes que abrem o célebre nome, Jacinto é nome de aldeão, Luís é suave a mais da conta, esbate-se na boca, Zé é muito curto e Simão rima com cão!
Como se isto não bastasse, veja-se o caso de Chica da Silva: escrava alforriada e senhora da sociedade de Diamantina, com influência e poder. As perucas e roupas europeias, os modos, as casas, enfim tudo, eram de uma chiqueza que não poderiam pertencer a uma Maria qualquer e não é por acaso que se chamava Chica!
Mas as provas não ficam por aqui. Chico era o nome de uma moeda, de ouro, pois claro, no tempo dos cruzados. Alguém se lembraria de fazer uma moeda Manel ou Jaquim? Ah pois é, mas havia uma Chico!
E quem não se lembra do Chico Fininho? O Chico não caminhava, repare-se, gingava! E lá por se meter nas retretes não perde fineza, lá está, pois para além de ser fininho, é Chico e ser-se Chico é ser-se refinado.
E que dizer da lenda de Chico Rei? Rei! Nem Conde nem Marquês, Rei!
E como de pequenino se torce o pepino, onde é que as pessoas de bem compram os produtos para os seus bebés, onde? Na Chicco! Os dois cês não são por acaso, destinam-se a ensinar a criançada a dizer as sílabas de forma separada, a marcá-las bem. Quando crescem largam as fraldas e deixam cair um cê.
Conclusão, digam lá o que disserem ser-se Chico é a essência e a nobreza do chic!

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Mãe é mãe


A minha tia R. tinha um filho que desde cedo quis ser médico. E foi, escolheu a ortopedia como osso do ofício, para além de ser adepto do fê cê pê dos quintos costados e filiado no pê cê pê com todos os ossos.
As minhas férias no Norte marcaram-me essencialmente por causa dele, uma das pessoas mais incríveis que já conheci, sabendo de tudo o que há no mundo, grande viajante – não turista, viajante mesmo – dono de um humor único e de uma enorme boa disposição, maior que ele, e se era grande com os seus cento e não sei quantos quilos e um bom metro e noventa de altura.
Numa ocasião o T., já casado, com filhos, com consultório e a dar consultas no hospital, apanhou anginas. Os meus tios tinham-me levado a jantar em casa dele e a tia R. assim que o viu disse-lhe que estava doente, apalpou-lhe a garganta, diagnosticou uma enorme camada de papeira e mandou-o para a cama, com toda a experiência e conhecimento que detêm as mães donas de casa, como ela.
O T. rindo-se disse-lhe que não sabia que a mãe era médica, que agradecia a consulta, mas já estava medicado e não havia problema.
O jantar decorreu entre mil conversas, quem melhor do que ele para fazer de uma fatia de pão com manteiga um opíparo jantar onde se engoliam as palavras e se saboreavam as histórias que tinha sempre para contar. De vez em quando e a propósito de nada a mãe lembrava-o que estava com papeira e ele retorquía  sempre calmo, que eram anginas.
Ao fim da noite, fomo-nos embora e ela ainda lhe gritou lá de fora que se metesse na cama para curar a papeira.
Quis o azar que o T. morresse cedo de mais para nós que aqui estamos, mas isto é só um pormenor porque força daquela não morre nunca dentro do nosso peito.
A minha mãe anda numa de tia R. e discorda da dieta que a nutricionista me recomendou: pão? Onde é que já se viu?
Explico-lhe – pela enésima vez – que como mil vezes ao dia e que o pão é o ingrediente principal logo de manhã para dar saciedade e que volto a comê-lo a meio da tarde. Ela não concorda e apesar de eu ter muitos quilos a menos, ainda podia ter mais, segundo ela, se me deixasse de gulodices.
Pergunto-lhe, como o T., se ela é nutricionista e diz-me, com falsa calma, que não, eu bem sei que não, mas mesmo os médicos e nutricionistas não sabem tudo, como eu também sei e se não sei devia saber! Sim mãe…
A senhora minha mãe, que é a elegância – e a vaidade… - em forma de gente, pesava 89 quilos quando tinha a bonita idade de 11 anos… Fazendo jus ao provérbio era considerada a rapariga mais bonita da aldeia e qualquer um - o meu pai, amigos ou amigas de infância e adolescência são todos unânimes -  reage quando brincamos e dizemos que ela era a única rapariga da aldeia… Não, não, era mesmo linda, dizem em coro.
Era muito estouvada também e pensamos que era a dose de loucura que lhe dava o brilho que todos confundiam com beleza, mas não se insiste. Um dia achou que era gorda – a sério, mãe? – e fez uma dieta que a enfiou num vestido de noiva cuja cintura se agarra com as mãos, e lindo de morrer, diga-se de passagem.
Nunca mais foi gorda e vive infeliz e de mal com os quilos a mais das filhas, principalmente com os meus que eram muitos. Agora anda satisfeita mas quer mais e mais depressa e bem a vi conter-se quando provei os sonhos e as azevias e por isso me receita que não coma pão.
Minto-lhe e digo que já não como pão? Imponho-lhe a vontade da nutricionista? Sigo o seu conselho e retiro o pão?
Não quero fazer nada irreflectidamente e o melhor é pensar com calma nesse assunto, por exemplo, enquanto como uma açorda.

Mensagem de Natal


No dia de Natal levantei-me cedo, vim para Lisboa para que o Duarte passasse o dia com o pai e com a sua família. Tendo o dia livre já me tinha disponibilizado para trabalho voluntário e acabei por fazer visitas no hospital a pessoas que não conhecia. Duas delas nem se aperceberam que ali estava alguém, que lhes aconchegou a roupa, falou com elas e lhes fez companhia.
O que mais me custou, o que me fez peso, um peso do tamanho do mundo, foi os olhares dos familiares e amigos dos outros doentes, os que tinham família e amigos que os foram visitar: olhavam-me como se eu fosse marciana e olhavam as pessoas a quem eu fazia companhia como se… é difícil explicar e posso estar enganada, mas olhavam-nas como se tivessem peste, como se não ter alguém que as visite de mote próprio fosse uma coisa terrível, uma doença contagiosa mais contagiosa que qualquer doença catalogada nos canhenhos médicos.
Confesso que não foi fácil. Não foi fácil sentir a solidão ali tão sólida, no corpo fraco e quebradiço de velhas mulheres, transformadas em fantasmas vivos daquilo que foram.
Uma delas sorria não sei a quem. Eu não sei, mas tenho a certeza que ela dirigia o sorriso de forma directa, a alguém que amava e que, provavelmente, esperava encontrar. Não sei, mas sei que ela sabe e isso chega-me.
Hoje recebi uma retribuição.
Não sei porquê perde-se informação importante que cai na caixa de spam. Foi o caso de uma mensagem de Natal muito especial: era dirigida a mim, a mim mesma, com explicação da razão de alguém desconhecido me enviar uma mensagem de Natal.
Adorei, pois claro!
Menciona esta pessoa que na sequência da leitura de Presépios para todos os gostos lhe ocorreu escrever-me, ou seja, não foi uma mensagem automática; não o fez porque, não sabendo como ocupar o tempo, resolveu gastá-lo assim; não o fez porque se sentiu obrigado; não o fez porque calhou; não o fez porque toda a gente faz.
Fê-lo porque quis, porque sentiu vontade de, apesar de não me conhecer, me desejar Boas Festas.
Isto não é magnífico? Uma mensagem genuína de estranho para desconhecido, sem dívidas nem deveres! Não, não é uma maçada receber mensagens de Natal de quem não se conhece, é um privilégio se elas nos são dirigidas com todas as letras!
É uma surpresa, das boas, com a qual não contamos, é um presente. De Natal ou de outra qualquer altura, mas é um presente.
Lembremo-nos que o passado já não existe e quando existia, era presente; que o futuro ainda está para vir e quando isso acontecer será presente, ou seja o presente é aquilo que realmente temos, é uma dádiva e por isso sinónimo de prenda, de oferta, de oferenda.
E acontecendo recebermos mensagens assim são diamantes puros feitos de alegria, são rubis com emoções, são esmeraldas cor-de-rosa, a cor dos sonhos. Obrigada. Escreva sempre. 

I Gave My Kids a Terrible Present


Assisti a um vídeo no Youtube que me deixou com vontade de pregar umas estaladas bem assentes.
A ideia era ver como reagiam algumas crianças quando lhes davam presentes de Natal que nada tinham em comum com o presente típico para uma criança. Assim foram desembrulhadas duas enormes batatas, uma banana meia podre, um frasco de gomas vazio, um desodorizante, um rapaz recebeu uma Barbie e um outro, uma camisola com uma qualquer boneca estampada entre outros na mesma linha.
Fiquei estupefacta com as reacções e algo me diz que os organizadores da brincadeira não ficaram e estavam à espera daquele resultado.
Os gaiatos gritam e berram, clamam que odeiam os pais, querem bater-lhes, choram baba e ranho em ataques de raiva que parecem cães a ser atacados por dores inacreditáveis de tal forma choram e gritam.
As estaladas anunciadas nas primeiras linhas não eram para as crianças mas para os paizinhos que as fizeram assim. A nenhum miúdo ocorreu que podia ser uma partida, uma brincadeira, evidenciando uma anormalidade assustadora.
A expectativa gorada não se manifestou em tristeza ou desânimo, mas antes em raiva pura, em descontrolo total, em manifestações de ódio gritado com as veias do pescoço em riste, numa fúria que os assemelhava a búfalos picados. As prendas são desprezadas e atiradas para longe para mostrarem o seu descontentamento.
Quem são estas crianças? Quem são os pais destas crianças que os criaram como lobos esfaimados que, à vista de uma peça de carne que afinal não se revela comida, reagem como animais irracionais mordendo tudo em seu redor?
Igualmente tomava balanço e pregava uma morraças em alguns dos comentadores como por exemplo num que afirma não gostar de ver estas coisas pois não gosta de ver crianças a chorar. Outro diz que não chega tê-los trazido ao mundo como também têm que lhes destruir o Natal e nesta frase está tudo, como é óbvio: o Natal é receber, receber, receber, prendas, prendas, prendas, muitas, muitas, muitas…
Pai Natal… eu nunca te pedi nada e agora que o vou fazer agradeço penhoradamente que acedas ao meu pedido: passa-lhes com o trenó e com as renas por cima! Ah, e não te esqueças de todos os que se estão a rir!

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Garreia de cães


Por vezes esqueço-me do livro e não tenho outro remédio senão ir a olhar para as pessoas no Metro. Outras vezes levo o livro mas as pessoas falam de tal maneira que não tenho outro remédio senão ouvi-las. 
Eu ouço-as, as pessoas que vão ali nas redondezas ouvem-nas, a carruagem inteira as ouve, mas garanto que elas não se ouvem a elas próprias.
Qualquer um pensará que são surdas ou velhotas. Errado.
Há dias iam três senhoras, pela conversa professoras do primeiro ciclo, todas na casa dos trinta e tal anos e, literalmente, todas a falar ao mesmo tempo, sem esperar resposta e sem interrupção. Aquilo sim merecia ser filmado.
Às tantas percebi que não eram professoras, eram lunáticas fugidas de um hospício. Talvez já tivessem sido professoras ou talvez quisessem ter sido professoras, qualquer coisa do género, mas serem professoras, não podiam ser.
Uma atenção bem atenta e concentrada revelava que falavam da mesma coisa, da mesma escola, diziam os nomes dos mesmos miúdos e referiam-se aos pais desses miúdos, mas tudo ao mesmo tempo como se estivessem num concurso para ver quem falava mais e mais depressa.
Nesse dia eu levava um livro, que seguia fechado, e ia fascinada pelo trio professoral, cada qual com sua louca oração de sapiência, apressada e desprovida de sentido.
A coisa era de tal forma que de repente uma delas disse a outra que já tinham passado o Colégio Militar, estação onde a amiga devia ter saído. Ela calou-se uns milésimos de segundo, parecendo estar a processar a informação, voltou a encarrilar no solilóquio e nem deu resposta à outra que, por sua vez, fez a mesma coisa.
Duas ou três estações mais adiante saíram as três em permanentes e paralelos monólogos, virando a cara sucessivamente, como para dar a ideia que falavam umas para as outras, e o comboio continuou a sua marcha.
Um velhote que seguia sentado frente a mim olhou-me e disse:
- Livra, parecia uma garreia de cães!
Desatei a rir pela oportunidade da expressão mas também pela lembrança, pois era uma coisa que o meu avô dizia muitas vezes. 

Serviços de limpeza Faça Você Mesma


A limpeza e arrumação do mau vasto palacete são feitas por mim e pelo Duarte com uma ajuda da minha mãe. Não foi sempre assim, e tempos houve em que tinha uma empregada que passava a ferro e limpava a casa. As casas onde tenho morado ultimamente têm diminuído de tamanho, éramos três e agora só somos dois e, acima de tudo, não há dinheiro, pois se o houvesse, pagaria a alguém para fazer o que detesto: arrumações.
A primeira pessoa que contratei com este objectivo andou lá por casa o tempo que demorou até descobrirmos por que razão a conta do telefone era de vários contos de réis, quando nós nunca estávamos em casa.
Quando, finalmente, a Companhia nos enviou uma lista de números para os quais alguém ligava durante o dia, e durante hora e meia seguida!, verificou-se pertencerem todos à mesma aldeia de onde era a senhora, sendo muitos dos telefonemas para casa dos pais e vários outros para a restante família.
Para não haver confusões o dinheiro pago ao final do mês era sempre dado em mão e fui a casa dela, não pagar-lhe, mas pedir-lhe o que faltava face à factura do telefone que levava na mão. O marido da dita correu comigo aos gritos com um sortido de palavras pouco simpáticas, faltando-lhe apenas a espada em defesa, não sei se da sua amada ou da sua reduzida conta telefónica durante os meses que a esposa trabalhara na minha casa.
A segunda era a D. Maria e esteve connosco vários anos apesar de uma enorme incompatibilidade entre as mariquices que eu tinha em cima dos móveis e a sua própria natureza e hábitos: a D. Maria era uma pessoa do campo e limpava o pó olhando gulosa para o quintal que lhe dirigia um chamamento silencioso para que o fosse cavar. E ela ia com alguma frequência, fazendo a lida da casa em velocidade acelerada e tratando do quintal com esmero de mãe e muitos mimos.
Numa ocasião visitei o Teide e carreguei com umas pedras de 3700 metros acima do nível do mar até casa, que muito trabalho me deram a manter durante a viagem. Aterraram em cima da lareira durante uma semana e foram parar dentro da lareira assim que a D. Maria lhes pôs a vista em cima! Quando perguntei pelas pedras ela não sabia de nada, mas depois lembrou-se de qualquer coisa: sim, de facto estavam uns carvões em cima da pedra da lareira, com certeza fora o Duarte, que ainda era pequeno, que ali os pusera, mas eu que não me preocupasse que ela tinha limpo tudo... 
A D. Maria morava perto de mim, numa casa isolada com uma cerca de arame a toda a volta, arame que ninguém saltava a menos que quisesse travar amizade com a meia dúzia de cães que lá moravam também, todos de dente afiado e doidinhos por morderem alguma coisa ou alguém. À pala deles apanhei grandes molhas à espera que a D. Maria, o marido ou uma das filhas ouvissem a campainha, descobrissem as chaves, percorressem a distância até à porta e atravessassem a pradaria que ficava entre a casa propriamente dita e a cerca que punha os intrusos à distância, para lhe pagar.
Muitas das vezes, lá do alto de uma janela que abria para ver quem era, gritava-me que entrasse, que o portão estava no trinco. Entrar? Eu? Tá quieta!
A D. Maria era excelente pessoa mas fraca empregada e começou a acontecer vezes a mais da conta eu ter que limpar o que estava supostamente limpo; assim, com grande dificuldade face a tantos anos de relacionamento e aproveitando as queixas de cansaço dela, disse-lhe que prescindíamos dos seus serviços. Felizmente não houve dramas e com surpresa minha fiquei a saber que ela própria queria deixar o trabalho, mas não sabia como havia de me dizer.
Depois contratei uma senhora que era o oposto da D. Maria e recantos da casa houve que foram lavados e limpos pela primeira vez na vida. A casa andava um esplendor, as horas semanais eram pouquíssimas e pagas mais baratas que as da D. Maria. Um mistério.
Um dia cheguei mais cedo e a senhora ia a sair. Por mero acaso reparei que tinha acabado de passar uma camioneta e ofereci-me para lhe dar boleia pois a minha casa ficava afastada de tudo e qualquer pão tinha que ser comprado de carro. A senhora agradeceu disse que não era preciso pois ela ia e vinha sempre a pé. A pé? Mais uma razão para lhe dar boleia. Fui levá-la no meio de muitos agradecimentos e antes de a deixar em casa já tinha mentalmente decidido aumentá-la e pagar-lhe o passe da camioneta: demorei cerca de vinte minutos a chegar a casa dela e percebi que aquele percurso era feito a pé quatro vezes por semana, com chuva ou com sol.
Na semana seguinte deixei-lhe uma mensagem num papel, para não a constranger com conversa, dizendo que ali ficava um adiantamento em dinheiro para os bilhetes até ao fim do mês e que se fosse inteirar do valor do passe, que eu pagava. Nessa noite lá estava a mensagem e o dinheiro em cima da mesa da cozinha tal como os tinha deixado. Porque não os teria aceitado? Bom, falaria com ela no fim do mês. Assim, uma semana e meia depois cheguei mais cedo propositadamente e perguntei por que razão não aceitara a minha oferta. Qual oferta…?
Ela vira o dinheiro e a mensagem mas como não sabia ler nem lhe passou pela cabeça que fosse para ela.
Esclarecida a coisa, voltei a levá-la a casa onde a deixei feliz com um aumento inesperado e com dinheiro para andar de camioneta. Quem ficou infeliz fui eu quando, meses mais tarde, ela nos disse que se ia embora pois o marido arranjara emprego no Algarve, para onde se iam mudar. No último dia de trabalho fiz questão de estar em casa para me despedir dela. Quando cheguei toquei à campainha, ela abriu e chamou um homem que estava dentro de um carro parado à minha porta. Era o marido que vinha dar-se a conhecer e despedir-se também, agradecendo muito e manifestando pena em irem-se embora.
Depois veio uma senhora muito tímida que me disse que estava com muito azar uma vez que estivera poucas semanas nas duas últimas casa onde trabalhara: começava e o casal divorciava-se! Esteve três meses lá em casa comigo e não sei ao certo se ficou mais tempo ou não porque… sai de casa. Nunca deixei de me rir com esta coincidência e sempre imaginei que a senhora tinha começado a fazer terapia logo a seguir.
Depois de termos decidido viver juntos de novo, e depois de um interregno em casa dos meus pais, comprámos uma casa nossa e arranjámos outra empregada, a mais divertida de todas!
Ligava-me para o telemóvel de um telefone fixo e dizia:
- Já estou em sua casa, quer que passe a ferro ou que arrume a casa?
- Mas… tem a certeza que está em minha casa?
- Sim, por que pergunta?
- É que eu não tenho telefone fixo e aqui no visor aparece o número da sua casa…
A lata e as estratégias para aumentar as horas de trabalho não ficavam por aqui:
- Olhe, estou aqui no café por baixo da sua casa a beber um cafézinho antes de subir, quer que faça alguma coisa em especial?
Verificado o número de telefone era do café sim, mas de um ao lado da casa dela e não da minha.
Este namoro durou apenas mês e meio e terminou no dia que cheguei a casa e estava um monte de lixo à entrada da cozinha. Telefonei-lhe a saber se tinha havido uma qualquer urgência que a tivesse levado a sair de repente e fiquei a saber que não, apenas tinham acabado as horas combinadas e já não tivera tempo de apanhar o que varrera…
Face a esta resposta perguntei-lhe quando lhe devia e disse-lhe que o dinheiro estava disponível imediatamente. Ainda não tinha decorrido uma hora quando a filha tocou à campainha  tendo anunciado que viera buscar o dinheiro da mãe. Não lho dei e mandei o recado que apenas lho daria a ela própria e na frente de alguém. Não quis e acabou por me pedir que o entregasse à minha amiga que a tinha sugerido e em casa de quem também trabalhava, e ainda hoje trabalha, sem queixas nem reclamações, pois que queixas e reclamações se têm de alguém que até para o estrangeiro nos leva de férias?
A última, a derradeira, foi a Teresa, com quem ainda hoje tenho excelentes relações. A Teresa trabalha numa padaria, entra às quatro da manhã e sai à uma da tarde, tarde que tem livre e durante a qual tem várias casas para limpar. Trabalha que nem uma moira, sempre de sorriso na cara, mesmo com problemas, por vezes graves. 
Começou a ajudar-nos ainda eu era casada e depois ainda passou para outras duas casas onde estivemos  sendo que, na terceira, com imensa pena minha, tive que lhe dizer que não podia pagar-lhe. Ela percebeu, perdi uma empregada e ganhei uma amiga, uma simpatia de pessoa, brincalhona e sempre com uma palavra amável para dar. Visito-a bastantes vezes e vou à padaria só para a cumprimentar e receber um sorriso que sei ser generoso e amigo, puro.
Foi para a Teresa o meu primeiro pensamento quando pensei em contratar alguém para fazer uma limpeza específica lá em casa. O tecto da casa de banho e de uma parte da varanda estão a começar a bronzear-se de tal forma que, ali sim, se aplica uma frase que antigamente ouvia com frequência no fim do Verão, aplicada à minha pessoa e na sequência de bronzeados intensos: estás preta que nem um chouriço!
Pois que nem chouriços estão a começar a ficar aqueles que eram albinos e dando luta às tonturas e a um certo síndroma de Ménière ainda me empoleirei em cima de um escadote mas nada feito.
O Duarte também já pincelou os tectos com um esfregão com lixívia, tarefa onde levou negativa. 
A Teresa mora longe e perguntei à dona do café por baixo da minha casa se conhecia alguém que tivesse disponibilidade para me ajudar, já que durante tantas e tantas vezes que ali estou, a ouço dizer que vai ali toda a gente à procura de trabalho. Que ia saber, disse-me. Três semanas depois desistiu.
Indaguei junto das senhoras que fazem limpezas na empresa onde trabalho, se alguma estaria disponível,  explicando que será trabalho para uma manhã ou tarde, explicação um tanto enfiada pois tenho bom corpo para trabalhar e sinto-me um bocado anormal ao fazer o pedido. Nada. Uma tem uma neta de quem toma conta nas horas vagas, a outra mora do lado de lá do rio, a outra tem uma dor nas costas agora não pode, uma outra - que mora em Odivelas - acha que a Amadora fica muito longe. Ofereço-me para a ir buscar e levar, agradece e reforça o não, diz que não quer incomodar... 
Oh minha senhora, por quem é!, eu é que não a quero incomodar a si!
Isto é o que dá viver em alturas das chamadas vacas gordas! A bem da verdade eu é que não estou a ver bem a coisa e vou fazer como o homem que comprou um carro e passada uma semana foi devolvê-lo alegando que queria um novo pois aquele tinha os cinzeiros cheios. Não vou gastar tempo em limpezas e vou comprar uma casa nova!

Em pinturas


A meio do Verão passado fui coagida pela minha vaidade e curiosidade a usar gelinho nas unhas.
O cor-de-rosa encarniçado durou perfeito duas ou três semanas, mesmo a lavar a loiça e a fazer tudo com as mãos. O problema começou quando me fartei daquilo, tanto mais que, dado o crescimento das unhas, a cor vai avançando dando a ideia não que temos as unhas pintadas, mas que temos as pontas dos dedos cheias de sangue.
Tirar aquilo revelou-se um enorme desafio e passei as férias com manchas ou pintas, conforme o tamanho, nas unhas, que iam saindo à força de fazer pressão com as outras unhas. Aí em meados de Agosto aquela porcaria saiu toda e eu jurei que nunca mais faria semelhante coisa!
E não fiz… conscientemente…
Há dias comprei dois vernizes verdes com o propósito de fazer sessões de pintura de unhas com a minha sobrinha durante as mini férias de Natal. Quando fui pagar a senhora disse-me que quem levasse dois produtos tinha direito a um terceiro gratuito; voltei ao mostrador de vernizes e conclui que tinha as cores praticamente todas, tendo ficado indecisa. Acabei por aceitar a sugestão da senhora que me indicou um frasco com líquido transparente e cheio de minúsculas bolinhas encarnadas e azuis. Ela abriu o frasco e passou uma camada numa das suas unhas e achei aquilo encantador, com a certeza que a miúda ia adorar.
Porém, aquilo que já se sabe provou-se mais vez: a gaiata é mais esperta que eu e, inexplicavelmente, não quis usar o verniz das pintinhas coloridas. Para a convencer usei-o eu mas nem mesmo assim ela quis experimentar. Ainda lhe sugerir, oh ignorância, oh estupidez, que pintássemos as mãos como fazem no norte de África com henna, mas ela recusou.
Assim andei estes dias com as unhas pintadas às bolinhas e ontem à noite sentei-me diante da televisão com a caixa da manicura para apagar o ar festivo dos dedos, mas quem é que diz que as pintas me saem das unhas? Tal e qual como o gelinho do Verão estavam agarradas que nem lapas e nem com a lima se dignaram largar a unha.
Ok, não vão a bem, vão a mal! Usei um dos verdes escuros, três camadas bem dadas, grossas e luzidias e adeus pintas coloridas. Adeus, até nunca mais!

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Robinas dos Bosques


A minha sobrinha e eu estamos vestidas como Robin dos Bosques e João Pequeno, que todos sabemos, era bem grande: com collants a fingir que são calças.
As dela são azuis escuras, as minhas um pouco mais claras e salpicadas com cristais swarovski, puros e verdadeiros, ou seja, as minhas pernas valem uma fortuna e sobre esta riqueza ambulante já nos rimos os três, eu e os meus patinhos, até dizer chega.
A melhor proposta dos gaiatos sobre as minhas valiosas calças sherwoodianas foi vender-me bem cara, guardar o dinheiro e, a seguir, raptar-me! Pergunto-me se eles terão visto Trinitá e as vendas sucessivas do cavalo…
As calças de ganga absolutamente banais que ele tem vestidas contrasta violentamente com o nosso glamour mas, afinal, as miúdas são assim… 

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

O Derby


Os meus conhecimentos de futebol resumem-se a saber que uma mão cheia de gente anda a correr atrás de uma bola para tentar marcar golo. Equipas, conheço-as de nome, pois é impossível não conhecer os três grandes, e não, não me refiro, a Pessoa, Eça ou Camilo, uma vez que os noticiários abrem com notícias da bola, as manchetes dos jornais mostram as caras de jogadores e treinadores e os programas de rádio vibram com a dinâmica do esférico.
Ontem fui ver o jogo entre o Sporting e o Benfica com duas amigas, ambas conhecedoras, cada uma a torcer por seu clube e eu ali, de árbitro. O local escolhido foi uma tasca maravilhosa cujos clientes davam para fazer um filme e que será objecto de um texto em altura oportuna.
Com um jarro de vinho e uns petiscos ocupámos a melhor mesa do distinto estabelecimento e posso dizer que adorei o jogo cujo resumo aqui deixo:
A menina sportinguista continha-se para não gritar, a benfiquista estava mais calma; a malta da mesa à minha frente também se dividia por preferências e um dos ocupantes, de brinco na orelha, era bem giraço – gosto de homens com brincos porque me fazem lembrar os piratas…
Marcaram-se alguns golos, mas eu só vi um porque o meu jogo continuava na esplanada da tasca onde uma família… diferente, digamos assim, jantava enquanto o elemento mais novo fazia os trabalhos de casa, ajudada pela mãe.
Perto do intervalo entrou um sem-abrigo, aparentemente já conhecido. Ao balcão alinhavam-se curiosos do jogo e que repartiam essa curiosidade com a sportinguista que estava na minha mesa, levando-me, em conjunto com a benfiquista, a grandes gargalhadas e chamadas de atenção, que passaram despercebidas pela equipa contrária. Não se marcou golo…
Ao intervalo foi tudo fumar lá fora.
A segunda parte decorreu ainda com mais animação, e percebi quem tinha ganho pela cara de tristeza da minha amiga sportinguista: foram os de encarnado!
Com pena de uma alma que estava ao balcão, em pé, com certeza com imensas dores nas pernas, convidei-o a sentar-se diante da minha triste amiga, que ele tentou animar lendo-lhe coisas maravilhosas na palma das mãos. Golo!
Não querendo ser mal-educado acabou por ler também as nossas linhas e disse-me o que eu já sabia: que sou uma pessoa sem interesse e não há nada de relevo na minha vida. A benfiquista teve mais sorte e ele lá vislumbrou duas ou três coisas positivas para lhe dizer, mas nada que se comparasse com a sorte e saúde em barda que previa para a sportinguista, ou seja, uma grande jogada, cheia de compaixão e boa disposição.
O jogo acabou com a benfiquista a entrar em casa, o nosso companheiro de ocasião a debandar e a sportinguista e eu a apanhar um táxi.
Foi um belo jogo!

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

'A nova ordem industrial no Estado Novo'


Conheci o mítico Rogério de Moura há vários anos por intermédio de amigos que eram autores na Editora que dirigia. Assistir a conversas entre Rogério de Moura e um dos meus amigos, ou com José-Augusto França, por exemplo, situação que também tive o privilégio de presenciar, era um fenómeno, uma viagem sem tempo nem espaço, projectada para o passado, reflectida no futuro, profundamente presente.
A determinada altura, a Editora onde eu própria trabalhava fez uma co-edição com os Livros Horizonte e foi na primeira pessoa que reuni com ele, que o vi trabalhar o que, com Rogério de Moura, era sinónimo de viver ou respirar.
Numa sala ampla, onde recordo a madeira como elemento muito presente, dispunham-se manuscritos de várias qualidade e feitios, bem como o temperamento do Editor que, parafraseando Coetzee, era a parte mais dura do seu corpo.
Semicerrava os olhos e exalava conhecimento, abria-os de curiosidade como um gaiato, não se limitava a ouvir, mas escutava bem para responder melhor. A este propósito, nunca os problemas de audição, de que sofria, se mostraram invasores das capacidades de apreciação do Editor.
Era impossível não respeitar Rogério de Moura, assim como era muito difícil, principalmente para alguém na minha área, não o invejar.
Há dias comprei um livro da sua editora e apanhei um baque. Quem conhecesse Rogério de Moura saberia que algo ia mal no reino da Dinamarca ao ver o livro, que nos apresenta uma outra Livros Horizonte, outra no sentido de vulgar, de denúncia da ausência do seu criador.
Tendo amigos e conhecidos ligados à CUF, sempre me interessei pela matéria nas suas mais variadas vertentes e, sempre que possível, acompanho o que se faz, o que se produz, o que se escreve. Assim, fui ao lançamento de A nova ordem industrial no Estado Novo: da fábrica ao território de Lisboa: 1933-1968 e comprei o livro.
A obra é o resultado de uma tese de doutoramento e a orientadora usou, abusou, violou, gastou à exaustão a palavra perseverança e toda a sua família, para se referir à sua orientanda, num discurso curto mas grosso de perseverações.
Ainda não o li, mas um livro é fonte de informação rica e variada mesmo sem ser lido de fio a pavio e, em duas penadas de vistoria, fico desanimada com várias coisas.
Na ficha técnica aparece uma tradutora! Assim se delineia a versão de mistério do livro: o que terá traduzido?
Não há notas de rodapé: a informação está alinhada no final do livro, de forma incómoda, com total prejuízo do leitor.
A bibliografia parece uma árvore de Natal… quer fazer-se tanto e depois sai um aglomerado de informação que, junto, perde o nexo, o norte, o sentido. A informação constante no livro pode ser preciosa para outros investigadores mas o código com que está apresentado, digno da CIA ou da Mossad, torna as referências bibliográficas, as pistas e os caminhos num labirinto difícil de percorrer.
Terá a autora querido alcandorar a sua obra à vastidão de uma enciclopédia? Se não quis, parece, e caiu no ridículo.
O capítulo das Fontes e Bibliografia tem divisões com critérios duplos imperceptíveis: de suporte e temática. Assim, por exemplo, temos uma secção de Periódicos e logo a seguir de Industrialização. Há uma secção de Indústrias, Implementação e Ideário e outra de Indústrias. Esta está ainda dividida, alfabeticamente por empresas. Ou seja, a árvore de Natal ganha consistência debaixo de tantas fitas e bolas.
Por falar em alfabeticamente… bem, se calhar é melhor saltar este aspecto…
Enfim, o carrossel do costume para os autores que querem mostrar, mostrar, mostrar, e não se centram em provar de forma clara e transparente os documentos a que recorreram e ponto final.
Com uma bibliografia tão pormenorizada, aparentemente, não faltaria nada, mas há notas a remeter para um autor e uma data, e quando, garimpando com vigor e paciência, dermos conta da referência na Bibliografia verifica-se que o dito autor tem mais que uma obra da mesma data. Em que ficamos, qual delas é?
Escrever livros não é difícil, fazer investigação também não, fazer investigação séria é um osso duro de roer e a falta de pormenor e rigor na Bibliografia é um dos aspectos que denunciam a falta de seriedade da investigação.
No final há um índice onomástico mas vários autores foram eliminados, esquecidos, obliterados, a começar pela própria autora do livro.
Depois não se encontram referências a quem é batido na CUF, verificando-se uma ausência por exemplo do biógrafo dos últimos senhores da CUF, Miguel Figueira de Faria.
Das fontes impressas da Fundação Calouste Gulbenkian só uma está identificada, as outras têm autor, um deles mal referenciado, e título, nada mais. Editoras e datas estão em branco; calhando, apareceram de geração espontânea.
As páginas das Fontes e Bibliografia são elas próprias uma fonte, um rio, um mar de disparidades, disparates que não deviam acontecer num trabalho de doutoramento.
Se cada um de nós começar a interpretar os sinais de trânsito à sua medida, se eu pintar de azul o sentido proibido que está numa das pontas da minha rua, muita confusão vai nascer, garantidamente.
As Bibliografias são mapas que devem ser precisos e fiáveis, mas há quem os codifique e este é um desses casos. Porém, a codificação de uma bibliografia pode acontecer propositadamente ou por desconhecimento, por desleixo e desleixo é a palavra certa para alguém que faz um doutoramento e desleixa tão importante parte do seu trabalho.
Não se percebe o critério da utilização de maiúsculas e minúsculas; não se percebem as vírgulas ou a falta delas – o que faz com que, entre muitos outros, Raquel Henriques da Silva apareça como RAQUEL HENRIQUES DA DIRC SILVA.
A falta de precisão leva a que títulos espanhóis estejam escritos em português (como por exemplo o de Sobrino Simal) e que se aportuguesem títulos franceses, como o de Michel Rautenberg.
Por outro lado, a páginas tantas a Bibliografia desdobra-se em Bibliografia Específica, onde têm lugar, novamente, secções como 5.2 -Indústria, implementação e ideário; 5.3 – Indústrias e 5.4 – Exposições industriais e outras; contudo a primeira secção é 5.1 – Artigos, e pergunta-se, é específica de quê?
AAVV, que remete para autores vários, já não se usa, e é recurso de ignorância ou facilitismo. A NP 405 indica que as obras com mais do que três autores devem entrar pelo primeiro, seguido da expressão [et. al] e não et. all, que parece querer inglesar a expressão original.
Nas notas usa-se o sistema Autor-data e na Bibliografia não, o que me leva de volta ao exemplo dos sinais de trânsito: quando vejo um 100 dentro de uma placa quererá dizer que não posso baixar a velocidade daquele limite?
No índice onomástico Le Corbusier entra no L mas na bibliografia entra em C…
Os Júniores entram por Júnior ignorando a regra do parentesco.
Fico-me por aqui. Guardarei a leitura do livro em si para quando se esbater a surpresa negativa que o primeiro embate me provocou. Mantenho a esperança de poder gostar da leitura, porque, como é sabido, é a última a morrer.
Deolinda Folgado - A nova ordem industrial no Estado Novo: da fábrica ao território de Lisboa: 1933-1968. Lisboa: Livros Horizonte, 2012.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Chamem a polícia!


A I. é enfermeira e felizmente que a enfermagem que pratica não recorre a tecnologias por aí além, caso contrário…
Há uns dias ligou o computador e apareceu-lhe uma mensagem de ecrã inteiro que a informava que o sistema tinha detectado caminhos menos próprios por onde ela tinha andado, nomeadamente pornografia e pedofilia. Sugeria-lhe a mensagem amiga que fosse à polícia ou, em alternativa, ao PayShop onde, mediante um pagamento de 100 euros, eles resolveriam a coisa.
À primeira, a I. desligou o computador e voltou a ligá-lo, mas lá estava a mensagem do polícia como quem diz, daqui não saio, daqui ninguém me tira!
À terceira resolveu dar o caso por encerrado e aceitou uma das sugestões que lhe eram transmitidas: foi à polícia!
Enquanto esperava que a atendessem veio cá fora atender um telefonema e eis senão quando, passa um colega, enfermeiro também que, vendo-a à porta da esquadra, quis saber o que tinha acontecido. A boa da I. contou-lhe, o colega riu-se e disse-lhe que aquilo era um vírus, e que o marido dela resolveria o assunto.
A I. foi para casa meia envergonhada por não lhe ter ocorrido tal coisa e ter ido incomodar a polícia por causa de um vírus.
Passado um bocado tocam à campainha: era a polícia a querer saber por que razão a senhora enfermeira se tinha ido embora e em que podiam ajudar. Os meios pequenos têm destas coisas maravilhosas…
Muito envergonhada lá explicou a razão da visita à esquadra e teve que levar com os risos do homem que lhe contou que, só ali, já tinham sido feitas quatro queixas sobre o assunto, reclamando os queixosos que tinham pago o que lhes era pedido e nada tinha acontecido! Ao menos ela foi à polícia em primeiro lugar, consolava-a o homem.
Claro que, quando nos contou, levou com uma sala inteira a rir e a perguntar-lhe se o polícia tinha tirado a pistola, se tinha atirado no vírus, entre outras parvoíces. 
Passada a vontade de rir, desejamos que a polícia apanhe esta malta!

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Casa um é para o que nasce


A nutricionista que me acompanha é simpática qb, não dá confianças mas reconheço-lhe profissionalismo; mais, vejo que por vezes faz um esforço para não perder a paciência, repetindo a necessidade de beber um litro e meio de água por dia – para mim é o mesmo que emborcar o Tejo! – tarefa que me custa cumprir mais que qualquer outra. Ponho-me no lugar dela, penso na quantidade de vezes que tem de dizer a mesma coisa e em como sou parva por não fazer o que devo. Ela não o diz, mas pensa-o e se a mim me irritam as pessoas parvas, porque não a irritariam a ela?
 (Intervalo para beber um gole…).
Já a couch chama-se Miss Simpatia. É uma daquelas pessoas que nascem para lidar com o público e em quem reconhecemos genuinidade em todos os sorrisos, boa disposição verdadeira, como quem trabalha por gosto e prazer e não está a fazer qualquer frete.
Mistura a manutenção da dieta com aspectos da vida pessoal, dela e meus, fazendo da consulta uma conversa de amigas, quase me atrevo a afirmar.
Passa-se meia hora numa leveza enorme e mesmo quando tem a mencionar aspectos menos bons fá-lo de forma positiva e alegre.
Não tenho dúvidas que há pessoas predestinadas a desempenhar determinadas funções e quando acontece a vida fazer coincidir a pessoa com a missão damos por nós a fazer eureka com os olhos. Ainda por cima, ela é uma mulher lindíssima o que abrilhanta ainda mais estas consultas.
Esta senhora devia estar na triagem dos centros de saúde e hospitais para uma conversa prévia com os doentes e se calhar metade deles voltava para casa são como um pêro. 

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Uma história da leitura ou descubra as diferenças


Todos sabemos que a objectividade é uma coisa muito subjectiva. Se mete amigos pelo meio, então, valham-nos os deuses de todos os Olimpos! Tenho uma amiga que pratica o expoente máximo desta máxima e perdoa os maiores crimes, àqueles que lhe são queridos, defendendo-os como uma leoa defende os filhos, e aponta a dedo uma falha numa unha dos que lhe são menos simpáticos. Temos várias discussões sobre o assunto, pois teimo numa justiça cega, independentemente dos protagonistas. Confesso que me custa dar o braço a torcer perante certas pessoas, mas faço-o e faço-o com um sorriso: é justo.
Porém, fui apanhada na curva com um dos meus heróis, através de um objecto que venero e nessa veneração – como em todas, de resto – existe uma cegueira inata que nos camufla a verdade.
Falo do livro Uma história da leitura de Alberto Manguel, do qual tenho duas edições, uma portuguesa da Presença e uma brasileira, da Companhia das Letras, ambas produzidas de maneira a fazer com que os leitores desistam da leitura.
Como é que nunca tinha reparado nisto? Pois…
Há dias o meu sobrinho descobriu a edição portuguesa numa estante lá de casa e começou a folhear o livro, já folheado, tantas e tantas vezes, letras gastas de tanta leitura.
Comecei a falar-lhe do autor e ele disse-me que o livro era muito difícil. Como assim? Porque tem muitas notas e os números das notas são os mesmos em cada capítulo e como estão no fim do livro organizadas também por capítulos é uma confusão.
E com esta atirou o livro para cima do sofá quase provocando um ataque cardíaco aqui na tia, pelo desprezo dado ao livro, pelo desrespeito dado ao autor e, acima de tudo, pela novidade que me estava a dar…

Confirmei o que ele dizia e fui buscar a outra edição, num misto de ansiedade e triunfo, com um sorriso de quem tem um segredo para revelar. Azar, estava na mesma.
As notas estão no final do livro, organizadas capítulo a capítulo, com a numeração repetida o que obriga a que tenhamos dois dedos metidos no livro durante a leitura, um para segurar a página em que vamos e outro para marcar as notas correspondentes àquele capítulo, o que nos faz andar 300 páginas para trás e para a frente a cada passo: cansativo, confuso, desencorajador e facilitador da desistência da leitura.
Ora, há livros e livros… e se a maldade que reside em mim daria uma gargalhada gélida ao ver semelhante coisa numa qualquer Mão do Diabo, fica gelada quando o mesmo se passa num livro de Manguel e, ainda por cima, com Uma história da leitura chega a ser irónico.
Quando fazemos um livro não devemos colocar-nos no papel do leitor? Sim, quando fazemos um livro, porque os livros são feitos pelos Editores, o seu conteúdo é que não.
As andanças a que a leitura deste livro obriga, - logo este, raios! – são de uma despesa que não se coaduna com os tempos que correm: é gasto de tempo, perda de concentração e de percepção.
Assim, aqui deixo o pedido para a colocação das notas em rodapé numa próxima edição, uma mudança com a qual ganhamos todos, aposto. Assim como se ganha quando o nome do autor está bem escrito… 


segunda-feira, 19 de novembro de 2012

A necessidade aguça o engenho


Tal como os miúdos – e graúdos – sorriem de satisfação quando anunciam que passaram de nível num qualquer jogo, também eu estou satisfeita com a minha última jogada: escadear o cabelo!
Já o tinha cortado em comprimento, já tinha feito a franja e ontem, de tesoura do peixe em punho, escadeei-o, numa operação delicada em frente ao espelho do forno embutido na parede e que fica à altura certa, o que dá imenso jeito pois o caixote do lixo mora mesmo ao lado.
Não havendo dinheiro há que procurar outras alternativas para se atingirem os objectivos e se, na verdade, o cabelo ficou ondulado como o mar em dia de tempestade, também é verdade que fiquei com um ar renovado, mais jovem – não sou eu que o digo – e moderno que, na cabeleireira, me teria custado no mínimo uns 30 euros, que não tenho.
Uma amiga manifesta-me a sua total incapacidade para fazer o mesmo, tal como arranjar e pintar as unhas. Digo-lhe que não o faz porque não quer, caso contrário, insistia e insistia e insistia até conseguir pois se a inteligência não se aprende, já as habilidades, sim, é uma questão de prática e até o maior pé de chumbo aprende a dançar graciosamente.
A mesma amiga conta-me com grande surpresa que o filho pintou o cabelo à mulher. Dou-lhe os parabéns e pergunto onde está a dúvida, ao que ela responde que não são trabalhos para mãos de homem… Para além do machismo da afirmação, relembro-a que se há tantos cabeleireiros homens, ou cozinheiros, por exemplo, porque não havia o filho dela de se sair bem? Basta querer… ou precisar, como eu. 

Um passo à frente


Sábado fiz uma caminhada curta e lenta, para os meus padrões. Já pelos padrões da pessoa que me acompanhava foi enorme, rápida e extenuante: caminhar com uma só perna tem destas coisas.
Demorámos duas horas certas a fazer o percurso que, sozinha, teria feito em 15 minutos. Mas se tivesse ido sozinha não tinha ficado a conhecer melhor uma verdadeira heroína, daquelas que vive paredes meias connosco e sobre quem desconhecemos os seus super-poderes.
Sempre considerei que as mães são Mulheres Maravilha – não deixo de sorrir porque as iniciais do meu nome são precisamente MM – capazes de tanto com tão pouco, magas do invisível, feiticeiras da vida. Esta mulher não é mãe mas é heroína, sem dúvida alguma: perdeu uma perna no dia que completava 18 anos, viu parte do corpo ser-lhe reconstruída e anda com a ajuda de uma prótese que lhe marca o compasso do coxear. Dona de uma força que poucas pessoas minhas conhecidas têm, senti um prazer enorme quando a ouvi repetir que me acha uma pessoa extraordinária. Eu? Nada disso, sou absolutamente normal. Não tenho metade da força dela, do empenho, da beleza daquela mulher cujos olhos estão projectados no futuro, no seu futuro, que quer partilhar com todos para que seja melhor para a comunidade.
Sim, fiquei fascinada. Fascino-me com os seres superiores, com as pessoas que me podem verdadeiramente ensinar, com aquelas que servem de exemplo, com as que estabelecem metas que eu penso que são inantigíveis e afinal basta querer para lá chegar.
Irrito-me um bocado com as pessoas que dizem que não são capazes de fazer isto ou aquilo… na verdade, não querem ou não precisam, caso contrário fá-lo-iam. Uma das protagonistas de Duas mulheres em Praga, de Juan José Millás, decide andar com o braço direito amarrado ao peito para descobrir a sua esquerdice, que é como quem diz até onde consegue chegar com o seu lado imperfeito, até onde o consegue aperfeiçoar? É pena só nos darmos a estes trabalhos de exploração de nós próprios quando não temos outra alternativa, em vez de o fazermos porque sim.
Estarão as pessoas com deficiências físicas mais bem preparadas para superar limites? Perante o caso da minha companheira de passeio, sim, de longe, o que se manifesta numa superioridade perante as pessoas ditas normais, mas uma superioridade tão grande que ainda nem me dei conta de toda a sua plenitude, sem mágoas de vida, sem grilhetas ao passado que lhe tirou a perna, mas com um enorme sorriso virado para o futuro e para as pessoas que a rodeiam.
O mundo precisa de mais pessoas como a I., disso não tenho dúvidas.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Disparate

Em dia de greve trago o carro que pessoa amiga me deixa pôr na garagem, já que me é impossível pagar estacionamentos na rua. Saio mais tarde para evitar longas filas de trânsito, aproveito para dar boleia a uma amiga que estuda à noite e que ainda vai à primeira aula. Espero por ela juntamente com outras duas amigas, na converseta.
Passam ambulâncias e carros da polícia, tantos que lhe perdemos a conta. Vão para a Assembleia da República, ficamos a saber mais tarde e as imagens - o que seria de nós sem imagens... - duras que nem pedras, só as vi em casa, sob a forma de calhau da calçada que chovia em cima dos polícias que, a páginas tantas, lá abriram os chapéus de chuva e deram com as varetas em cima de tudo e todos.
Mas ainda a caminho de casa, quase às dez da noite, a polícia que seguia numa carrinha ao meu lado viu-me responder ao meu filho, estou a chegar.
Luzes de discoteca a dançarem na viatura, megafone a debitar senhora condutora pare a viatura imediatamente, ordem que cumpri numa das faixas centrais da Av. da Liberdade.
Depois de parar pediram-me que encostasse o carro e dois jovens polícias pediram-me os documentos informando-me que aquilo era uma contra-ordenação grave. Nunca lhes tirei razão, alegando que o uso do telefone fora tão espontâneo que o tinha feito ao lado do carro da polícia, com o carro quase parado.
Inspeccionados os documentos, em ordem... ufa... disseram que podia seguir e que não voltasse a repetir o disparate.
Gostei da forma como actuaram, com firmeza mas sem sobranceria, com simpatia equilibrada com autoridade, com compreensão na medida certa da advertência. Por outro lado, os do Parlamento, mostraram paciência de santo... quantos de nós aguentavam aquela missa?

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Surpresa!

Adoro fazer surpresas... adoro...
No fim-de-semana passado estive em casa da minha irmã, movida por toneladas de saudades dos gaiatos.
Ela anda exausta com três miúdos, uma casa com três pisos e um marido que se ausenta em trabalho três vezes por mês.
Como não moramos perto não posso dar aquela mãozinha todos os fins-de-semana, mas lembrei-me de um amigo que viveu muitos anos na Alemanha e passava a vida a citar-me uma frase em alemão que, traduzida, dizia que é bom mudar de papel de parede, ou seja, é preciso sair de casa.
Foi então que me lembrei... de uma coisa...
Não disse nada, mas fiz o que tinha a fazer, telefonei, perguntei, marquei! Depois telefonei-lhe a ela e disse que tinha uma surpresa e que, como surpresa que é, não lha podia contar, mas que acreditasse em mim, ia adorar, ela e o meu cunhado, que dos miúdos trato eu: os mais velhos ficam comigo e o mais pequeno com os meus pais.
Assim, sábado de manhã nós três levantamo-nos bem cedo, agasalhamo-nos e vamos até..., pois, também é segredo...
Enquanto o casalinho descansa e namora num local de sonho de sexta à noite até domingo de manhã, nós vamos ter uma grande aventura no sábado, de manhã à noite!
Comentando a surpresa com as amigas dela, estas perguntaram-lhe se me podiam requisitar como irmã. As minhas próprias amigas, estas sim sabem de tudo, também me querem contratar. Lá vou arranjando teorias sobre a exclusividade enquanto me organizo mentalmente para o fim-de-semana.
Não sei quem vai gostar mais, se eles se... eu!

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Ai Roberto, devias ter vivido nos dias de hoje…


Estou amando loucamente
A namoradinha de um amigo meu
Sei que estou errado
Mas nem mesmo sei como isso aconteceu
Um dia sem querer olhei em seu olhar
E disfarcei até pra ninguém notar.
Não sei mais o que faço
Pra ninguém saber que estou gamado assim
Se os dois souberem
Nem mesmo sei o que eles vão pensar de mim
Eu sei que vou sofrer mas tenho que esquecer
O que é dos outros não se deve ter
Vou procurar alguém que não tenha ninguém
Pois comigo aconteceu
Gostar da namorada de um amigo meu.

Roberto Carlos

Qual a distância que vai do amor ao egoísmo?


Qual a distância que vai do amor ao egoísmo? Um longo caminho…
Amamos, queremos a presença daquela pessoa, queremos que ela esteja, mesmo que a não vejamos, mas que esteja bem, como se nesse bem-estar residisse um velar silencioso por nós, porque o amor é recíproco. Damos tudo para que essa pessoa tenha saúde, pagamos, matamos e esfolamos, numa demonstração de total inexistência de egoísmo. O objectivo é podermos sorrir e abraçarmo-nos mutuamente.
Mas, e se essa pessoa já tiver passado os oitenta anos, tiver um enorme historial de doenças, permanecer há anos numa cadeira de rodas acompanhada de Parkinson, estiver inconsciente e a ser medicada com morfina para as dores? Qual a distância que vai do amor ao egoísmo? Nenhuma, mesmo que seja nossa mãe.
Sou fria? Nestas coisas sou gelada, uma parente afastada do Marquês de Pombal quando dizia para se enterrarem os mortos e cuidar-se dos vivos.
Bem sei que falar é fácil, e que a objectividade é uma característica que não consta do universo emocional de filhos devotados e amigos, mas há uma sanidade mental que se vai perdendo, um desgaste que se torna cada vez maior e que compromete a vida dos vivos, arrastando-os para um abismo de onde vêm a morte, onde lhe tocam para a afastar, sem se aperceberem que ela não se vai embora só porque nós queremos, só porque a empurramos à força de novos tratamentos médicos, de novos especialistas e mais análises. 
Ela ali está, sem pressas, a rir-se para nós, a rir-se de nós e nós a teimarmos que levamos a melhor com ela, a insistirmos, a persistirmos, sem aceitarmos que a guerra já está ganha por ela e que no fundo apenas estamos a prolongar a agonia de outrem, daquela pessoa que amamos mas que não hesitamos em sujeitar a mais tratamentos, mais doses de morfina, mais períodos em coma.
Afinal, qual a distância que vai do amor ao egoísmo? A pergunta certa não é essa, mas sim, qual o caminho do amor ao egoísmo? E aqui, o facto de se fazer sempre escala na Esperança muda tudo.

Cinco euros e vinte cêntimos


Sai um peixe grelhado para o almoço de domingo!
O Duarte adora aquela manta de cebola, alho, pimento e coentros em cima do peixe e das batatas e eu, embora não seja grande apreciadora da cebola crua, como também.
Vá lá saber-se do que foi, talvez da acidez da cebola, não segurei nada no estômago desde domingo a seguir a ao almoço até ontem à noite.
Cólicas, dores imensas no corpo todo, não passei sem uma visita ao médico, que me receitou dois medicamentos comprados com ansiedade na farmácia ali ao lado.
Paguei os quase 8 euros e antes de receber a factura a senhora pede-me que assine a cópia, duas vezes: uma é a confirmar o levantamento dos medicamentos, a outra é sobre o Direito de Opção.
Estava doente e cheia de dores mas não estava a morrer e havendo um direito de opção eu quero saber o que é. Esclarece a farmacêutica que aquilo diz respeito aos genéricos, que eu podia ter optado por eles e não optei…
Ai não? Porque não me lembrei… mas a senhora devia tê-lo feito. Em quanto ficam os genéricos?
A conta de 7,85 euros passou para 2,65 euros, a diferença foi depositada através do meu multibanco – novidade para mim, não sabia que aquilo era possível – e mesmo meia esbranquiçada e sem forças não sai da farmácia sem dar um sermão à senhora, um sermão de cinco euros e vinte cêntimos!