segunda-feira, 13 de maio de 2013

Ai a minha cabeça


Lembro-me de uma vez dizer à minha avó que determinada peça de roupa não se passava a ferro daquela maneira. Assim que o disse, arrependi-me. Senti-a magoada e triste. Eu não sabia passar a ferro nem daquela maneira nem doutra, mas via a minha mãe a fazê-lo de outra forma e abri a boca para deixar sair asneira. Sempre amei profundamente a minha avó e o meu avô, e embora fosse muito pequena – não tinha seis anos, fui fazê-los a outra casa, por isso sei a idade que tinha – nunca mais me esqueci daquele episódio. Ela estava apenas a ajudar da maneira que sabia e mais nada.
Ao longo dos anos sempre que ia a casa deles no Alentejo, em pequena, na adolescência e já adulta, sempre fiz o maior número de coisas possível para a ajudar, ouvindo-a sobre a melhor maneira de o fazer, mesmo que não coincidisse com a minha opinião. Raras vezes os meus avós se aborreceram comigo e mesmo quando teimava lavar roupa no tanque debaixo de grandes calorinas, sorria com carinho verdadeiro para que ela não se zangasse comigo e me deixasse estar molhada das unhas dos pés até à raiz do cabelo.
Agora lembro-me disto a cada dia que passa por causa da minha mãe que continua a ir de vez em quando a minha casa ajudar-me com a roupa e as limpezas mas, já não sendo a cabeça o que era, os resultados são um pouco insólitos: em vez de estender a roupa lavada que está na máquina, põe-na a lavar outra vez; passa a ferro e pendura roupa com manchas; limpa o pó mas esquece-se de um móvel; guarda comida no forno e não no frigorífico, entre outras coisas.
Muitas vezes rimo-nos das coisas que ela faz, um riso espontâneo mas assustador, que nos faz antever o amanhã, um amanhã sem memória. Há dias saiu de casa com o telemóvel no bolso e precisando de fazer um telefonema carregava nas teclas mas não acontecia nada. Pediu ajuda ao meu pai que, não se aguentou, e desatou a rir: ela tinha levado o comando da televisão em vez do telefone. Já depois disso, enquanto fazia o jantar o meu pai via um programa de televisão sobre snooker; ela chamou-o para a mesa e ele foi mas não apagou a televisão; ela foi à sala desligá-la e, vendo a mesa de pano verde a ocupar todo o ecrã  perguntou-lhe se ia haver bola e quais eram as equipas… É claro que nós brincámos a dizer que era sem dúvida um problema de vista, pois tinha confundido uma mesa de snooker com um campo de futebol.
A minha mãe apercebe-se que a memória está a falhar, fica angustiada e repete ai, a minha cabeça.... Pede-nos que demos recados ao meu pai, cuja cabeça funciona como um relógio suíço, escreve tudo em papéis que ficam colados no frigorífico, embora se esqueça de ler esses papéis e a recente operação do meu pai deixou-a de rastos fisicamente. As deslocações a Lisboa, coisa banal para qualquer um, são aventuras para ela e apertos no coração para mim, que morro de medo que se perca.
Sinto-me aprisionada num campo de forças invisível como se fosse uma personagem do Espaço 1999 que tanto gostava de ver. Vejo fotografias com uma mulher determinada e um homem forte que conheço bem e não os encontro em parte alguma. Para onde foram?
A minha irmã vive longe e eu, por via da proximidade, tenho outra responsabilidade, outro olhar, como se estivesse sempre acordada como fazia nos primeiros dias de vida do Duarte, com medo que lhe acontecesse alguma coisa. Até a dormir me preocupo e dou por mim a pensar que não posso estar doente, senão, que será deles?
A idade fá-los teimosos, a ambos. Dou-lhe um desconto maior a ela, sei que não sabe, que não se lembra. Nos últimos anos de vida do meu avô, pai da minha mãe, as conversas decorriam em torno de uma realidade com décadas, mas como se aquilo tivesse acontecido ontem; a baralhação de tempos era inacreditável, acompanhá-lo em tantos calendários, era impossível. A minha avó chamava-o para almoçar, por exemplo, e ele teimava que tinha acabado de comer. Teimava também em ir ver terras que já não lhe pertenciam, que tinham sido vendidas, informação contra a qual ele se insurgia, pondo-se a caminho com a força de um homem do campo que leva tudo à frente e não admite obstáculos. Nesta fase já não tinha consciência que a memória estava irremediavelmente danificada, e eu pergunto-me quanto tempo falta para que a minha mãe esteja assim. Pergunto-me também, num sussurro, muito baixinho, quanto tempo falta para que eu esteja assim também.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Eu quero férias!

Apesar de não ter um chavo a única coisa que me dá alento é pensar nas férias. Que vão ser boas, que vão ser grandes, que vão ser longas, que vão ser tranquilizantes, que vão ser férias.
Cansada e adoentada, sem vontade de nada mas a esforçar-me para fazer tudo - estive em casa com um pé avariado e tiraram-me sete dias de ordenado, apesar de ter faltado só cinco, pois meteu um fim-de-semana pelo meio, e não me posso dar ao luxo de faltar um só dia - arrasto-me da cama para o trabalho e do trabalho para a cama, carregando as preocupações inerentes ao estado de saúde do meu pai, agudas neste momento, não obstante já estar em casa, e também da minha mãe, cujo amigo alemão a transtorna mais de dia para dia.
No trabalho estamos a passar um pico de intensidade enorme com as equipas de avaliação externas a visitarem-nos de quinze em quinze dias. Cada departamento é avaliado uma vez e os encontros com o pessoal não docente pressupõem a intervenção de um grupo de pessoas, que eu integro, que bota discurso durante uma hora, nada de mais. Porém, e aqui reside o fundamental, para cada visita das equipas de avaliação é preciso reunir a produção científica de cada departamento. E quem é que faz este trabalho? A Biblioteca. Assim, ainda não terminámos um e já estamos a lamber outra lista, a verificar existências, a recolher documentos, a armazená-los, a transportá-los para o local das reuniões, a organizá-los numa exposição que obedece a determinados critérios. Imediatamente a seguir é preciso fazer o percurso todo ao contrário e devolver a documentação aos seus respectivos lugares, ou seja, enquanto cada departamento descansa a seguir à sua avaliação, nós reiniciamos o processo.
Mas como se isto não chegasse ainda há a visita às instalações onde a Biblioteca é examinada in loco pelos elementos da equipa que fazem perguntas e querem ver tudo.
Em resumo, para a Biblioteca é um trabalho de maluquinhos e, apesar de já termos pedido que consultem o catálogo on line, verificando assim as existências, insistem em ver a produção isolada numa sala que, ainda por cima, fica longe da Biblioteca.
Eu quero férias, por favor!
Por inerência de funções assisti a um evento promovido por uma agência de viagens onde a Áurea iria actuar. Fui e vim carregada de sonhos em formato de catálogo, não vi a Áurea, adoentada que já estava não  aguentei mais de uma hora em pé, mas assoberbei a minha sede de férias. Ainda me ri com uma senhora que  me sugeriu vários destinos, pontaria das pontarias, todos já meus conhecidos. Quando lhe disse ela fez cara de quem não acreditava em mim, como se eu estivesse a armar-me aos cucos. Não me passou despercebido o seu olhar à minha roupa - havia dress code e eu não sabia - e algures pela cabeça passou-lhe a ideia que aquela pelintra mal vestida estava a inventar quando dizia que já tinha estado na Rússia e na China, no Sahara e na Jordânia, em vários países das Caraíbas entre outros locais. Confirmei esta sensação no dia seguinte quando uma conhecida minha da agência de viagens me telefonou a comentar uma conversa entre ela e a dita senhora, tendo ela confirmado os carimbos do meu passaporte. Foi só rir.
Mas eu continuo a querer férias, descanso, quero estar com os meus sobrinhos sem horas para fazer nada para podermos fazer tudo ao mesmo tempo, quero planear ir a um sítio e à última hora ir a outro, quero acordar cedo, adoro, para ter a perspectiva de um dia longo de mimos e de conversas. Quero um bocado de sossego. É pedir muito?

terça-feira, 7 de maio de 2013

Prova superada!

Das vezes em que fui submetida a cirurgias começava o dia com a expectativa das visitas. Quando elas chegavam eu rezava interiormente para que se fossem embora. Até aí achava que a expressão 'cansar os doentes' era um bocado vazia de conteúdo, hoje sei que não é assim.
Carótidas desobstruídas, doente com com bom ar, cá deste lado respira-se de alívio e pondera-se seriamente em desligar o telefone.
Ontem demorei horas a fazer o jantar e lembrei-me de Duas Mulheres em Praga, de Juan José Millás, penso que é este, no qual uma das personagens ata o braço direito para se forçar a fazer tudo com o esquerdo: eu ia mudando de braço e mão, mas usando um à vez pois estive horas ao telefone e ia desligando quando entrava outra chamada ou tocava outro telefone. Todos queriam saber notícias da operação e o meu telefone parecia uma central de informações médicas. Às tantas já respondia maquinalmente e os últimos dois telefonemas foram remetidos para hoje, atendidos que foram já na cama e só os atendi para que as pessoas em causa não lhes atendendo eu, fossem ligar à minha mãe.
Agradeço muitíssimo todos estes cuidados, como é óbvio, prova provada dos amigos dos meus pais, mas confesso um cansaço enorme.
Por outro lado, tinha já dezenas de telefonemas não atendidos ao longo do dia, na maioria de amigos já reformados que, querendo saber novidades, não se lembram que estou a trabalhar e que não posso estar ao telefone nas calmas. Assim, a um deles disse-lhe que lhe ligava logo, sendo o meu logo mentalmente ao fim do dia. Um quarto de hora depois estava ele a ligar novamente alegando que eu dissera logo e ainda não tinha telefonado.
Respiro fundo duas ou três vezes e digo estar muito ocupada. Mas ele só quer saber como está o meu pai. Está bem, digo eu, parva e ingénua. Onde é que duas palavras chegam numa situação destas? Ele quer saber a que horas entrou no hospital, a que horas devia ter sido operado e a que horas foi mesmo operado, qual a razão do atraso e mil outras coisas. Repito que não posso estar a falar, que estou a trabalhar e ele condescende não sem antes me arrancar uma promessa que telefonarei de novo. Logo. Sim, mas não logo logo, ao fim do dia. E atenção: o meu fim do dia é já de noite.
Concluindo, ontem estava mesmo cansada e já com uma ponta de irritação, mas hoje revejo tudo e tenho vontade de rir, principalmente lembrando um dos meus interlocutores que queria falar com a minha irmã ao telefone e me disse que lhe ligaria à hora do almoço, sabendo que almoçaria em casa. Sugeri que não o fizesse e que optasse pela noite, pois ao almoço é sempre tudo a correr. Ele respondeu-me incrédulo que mesmo que ela comesse batatas fritas com ovos estrelados sempre os demorava a fazer, a pôr a mesa, a comer e tudo isso. Imaginando a minha irmã a comer à pressa qualquer coisa já pronta tirada do microondas, sorri interiormente perante o abismo que existe entre duas verdades.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Não Vale Tudo


Parte da noite de Domingo é partilhada entre o cuidar das mãos e das unhas e ver o Vale Tudo. O Vale Tudo inclui ver César Mourão, delicioso e impagável, extraordinário; inclui também decorar brincadeiras que depois fazem as alegrias dos meus sobrinhos e que repetimos quando estamos juntos, com o avô a fazer de apresentador e todos os outros em jogo. Vale mesmo a pena, vale mesmo tudo.
Porém, ver o programa equivale também ver a plateia constantemente filmada e constatar que muitos dos que assistem in loco e em directo a um programa de televisão que acaba perto da uma da manhã, lá onde é filmado, são crianças de tenra idade.
Que pais são estes que levam criancinhas de colo para um espectáculo de domingo à noite que os leva a casa, e à cama, entre a uma e as duas da manhã, isto se não morarem longe do estúdio onde é gravado? Quem são os inconscientes? Quem são os que colocam o seu próprio bem-estar muito à frente do bem e dos níveis de qualidade mínimos dos seus filhos? Ficarão em casa na segunda-feira seguinte? Não há escolas, colégios ou infantários? São crianças e famílias escolhidas a dedo porque estão em casa?
Impressiona-me ver que os pais não pensam literalmente nos filhos e impressiona-me ver que a estação de televisão – SIC – permite que isto aconteça. Só por isto, pelo confronto obrigatório com imagens de garotos de olhos semicerrados e outros em excitação total, já não Vale Tudo. 

Dia do Pai

O Dia da Mãe foi essencialmente Dia do Pai.
Logo de manhã não houve missa como é costume com os meus pais, eu não fui à praia, não caminhei ao longo do paredão, não tranquilizei o espírito e cansei o corpo como é habitual. Deixámos o meu pai no Hospital de Santa Marta para ser operado às carótidas nas quais tem uma obstrução de 95%. É obra.
A minha mãe e eu a misturar tristeza e preocupação, ele habituado, mais uma, já lhe perdeu a conta, são para cima de cinquenta cirurgias.
Para entrar há que fazer um registo novo. As enfermeiras e enfermeiros, médicas e médicos vão passando e cumprimentando-o como se ele estivesse no átrio de um hotel onde tinha decidido passar umas noites. A enfermeira que lhe processa a entrada discute com ele problemas pessoais, pede opinião, fica feliz por ele lá estar para se aconselhar com ele, psicólogo, padre, médico também, amigo acima de tudo.
Assisto a tudo com os braços apoiados no balcão, somos só nós, é Domingo de manhã, até parece que abriram o Hospital para ele, para além do pessoal médico, mais ninguém. Intervenho apenas na parte em que a senhora pergunta quem é a pessoa de contacto e quer confirmar o telemóvel, sou eu, sim, é tudo igual ao da última vez.
Com receio que lhe roubem o telefone ele não quer ficar ligado ao mundo. Depois do almoço não lhe podemos dizer que o Duarte ganhou o jogo e marcou dois golos, que almoçámos em minha casa um almoço de Dia da Mãe com um puré de batata doce e pêra que eu vira alguém fazer na televisão na noite anterior e que estava mesmo bom. A meio da tarde não lhe podemos dizer que insistimos em ir lanchar a um sítio diferente com a minha mãe mas que ela não quis, angustiada, assim como não quis ficar a dormir na nossa casa. Já de noite não lhe pudemos dizer boa noite.
Hoje de manhã fui dizer-lhe bom dia esperando encontrá-lo a recuperar da anestesia. Estava composto com o fato da cirurgia, de azul cinema, com fome, mas aguardando que uma urgência que tinha chegado de madrugada se despachasse, para ser ele a dar a volta no carrossel da mesa de operações. As enfermeiras e demais pessoal deixaram-me falar com ele um minuto. Foi bom.
Agora faça o que fizer, estou na sala de espera e esperar é das coisas mais insuportáveis que há. Quando já sabemos o que nos espera, aguenta-se melhor, como por exemplo eu esperar sempre secretamente que o pai do meu filho me parabenize no Dia da Mãe, coisa que não acontece. O Duarte ofereceu-me um CD de música, entregue dois dias antes pois, sabendo que ia passar algumas horas a conduzir, decidiu entregá-lo de avanço para que o pudesse usufruir.
Em dia de cirurgia tudo o que faço tem um enorme risco associado, como se as minhas acções estivessem, eles próprias, na mesa de operações. Esperemos.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Então vá

Entro no metro na primeira estação. Entra também uma senhora ocupada com um telefonema. Despede-se com um então vá, beijinhos.
Doze estações e dezoito minutos depois chego ao destino. A senhora segue viagem, sempre a dizer então vá, beijinhos. Saio impressionada com a mais longa despedida de sempre, não tendo ela mostrado qualquer sinal de ansiedade, pressa ou impaciência.
Qual máquina repetiu mil vezes então vá, beijinhos, mil e uma, talvez, que eu ouvisse e acima disso garantidamente pois não a vi desligar.
Ainda a meio da viagem cresceu-me a curiosidade sobre a pessoa lá do outro lado, o que diria? Impedia-a de desligar? Gritava-lhe e ela tentava-a acalmar com um então vá e uns apaziguadores beijinhos? Não ouvia, era mouca? Seria esta estrangeira e a única coisa que sabia dizer em português era então vá, beijinhos?
Sem perceber as razões bem haja quem tem paciência.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Muito esclarecedor

No canal National Geographic ontem à noite deu um programa sobre o trabalho da polícia no aeroporto JFK em Nova Iorque. Deu para rir e para chorar.
Um dos equipamentos com que os agentes andam é um aparelho que detecta radiações. Apitando a maquineta aproxima-se o perigo normalmente na forma de plutónio ou urânio, coisas que as pessoas transportam, como quem leva uma miniatura da Torre Eiffel. O que é certo é que as maquinetas desataram a tocar que nem loucas. Os agentes passeavam-se no meio dos recém chegados passageiros e foi a loucura total ao pé de uma senhora. Revistada, nada foi encontrado. Alguém se lembrou de lhe perguntar se tinha feitos exames médicos recentemente. Bingo: uma ressonância magnética com contraste manteve-lhe doses de iodo no corpo suficientes para as máquinas darem por isso.
Um outro cavalheiro trazia uma mala onde ele próprio cabia, mas com um pormenorzinho: leve como uma pluma. Lá dentro bailavam quatro ou cinco peças de roupa, que cabiam perfeitamente em qualquer saco de qualquer supermercado, evitando ter que se passear com tudo aquilo de malão. Nestes casos, o melhor mesmo é analisar a mala. Bingo outra vez: a própria mala era 'feita' de heroína.
Por último, uma senhora ucraniana com cerca de setenta anos e sem saber uma palavra de inglês foi questionada pois da última vez que visitara os states ficara um mês a mais do que o visto lhe permitia. Porquê?
Bom, isso era fácil de explicar, tinha ficado doente e não podia viajar. E o que tinha estado a fazer durante um ano nos Estados Unidos? Ela? Ela estava a fazer turismo religioso! Visitara uma aldeia Amish durante um dia inteirinho, coisa que agora queria repetir.
Chego a ter inveja desta latosa.

Efeitos secundários

O meu torno-zelo (;) está muito melhor, praticamente bom. Porém, fiquei com estranhas dores de cabeça nos últimos dois dias. Lida a bula de um dos medicamentos, coloco-o imediatamente de lado: 'risco aumentado de ataque cardíaco e de acidente vascular cerebral', a que os senhores da Nycomed acrescentam: 'Como os demais medicamentos pode causar efeitos secundários, no entanto estes não se manifestam em todas as pessoas'. Olhem, obrigadinha, sim?
Para além dos apontados efeitos secundários há ainda a probabilidade de dores de cabeça - cá está - indigestão, dores abdominais, vómitos, diarreia, náuseas, tonturas, zumbidos, insónias, palpitações, conjuntivites, taquicardia, edema facial, edemas, rinite, perturbações da visão, síndroma de Stevens-Johnson, que é coisa tão mortífera e horrível que deixa todos os outros efeitos secundários - e são ainda muitos - num chinelo.
Agora pergunto, antecipando a questão que vou colocar ao senhor doutor na segunda-feira de manhã quando for à consulta de avaliação antes de retomar o trabalho: não há outro medicamento para entorses nos tornozelos? Tinha que ser mesmo este?
O objectivo era curar-me dos pés e deixar-me maluquinha da cabeça? Não percebo isto.
Para além dos efeitos secundários a lista de incompatibilidades com doenças conhecidas é enorme, mas ninguém me perguntou se era alérgica a isto ou àquilo ou se tomava outros medicamentos, que também aparecem na bula como incompatíveis. Acontecendo-me alguma coisa grave devido ao medicamento, o que acontecerá ao médico?
É nestes momentos que acredito em fantasmas e almas do outro mundo, percebeste amigo doutor?

Apanhada!

Da minha inteligência já falam os anais, os antigos como quem adivinha, e os actuais, como quem confirma. E não é para menos...
Tendo ficado em casa com o tornozelo avariado decidi não dizer aos meus pais para não os preocupar, e não os pôr a caminho cá de casa para se certificarem que estava deitada e dispostos a fazerem tudo.
Assim, garanti a cumplicidade do Duarte e da minha irmã, mantive as rotinas de contactos durante o dia, menti até com os dentes que me faltam afirmando estar a chegar a casa e cheguei a avançar com estados do tempo no centro de Lisboa, onde eu não tinha estado. Não me pareceu grave, tendo em conta o objectivo maior.
Porém, no Facebook deixei uma qualquer mensagem sobre andar a coxear que a senhora minha mãe ontem leu, bem como os comentários a desejarem melhoras, coisa com a qual ela ficou francamente aborrecida, mesmo com as minhas alegações que só queria minimizar-lhe as preocupações.
Uma maior proximidade física e uns anos a menos e teria apanhado um par de açoites! Então mente-se à mãe?

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Um dia diferente

A palavra 'tornozelo' transporta consigo uma carga negativa. Está mesmo a ver-se: tornozelo é para... Torcer! Pois claro. E foi exactamente o que eu fiz, obedecendo a uma obscura obrigação semântica-linguística, que o mesmo é dizer, não sabendo subir um degrau, coisa aparentemente tão simples e logo eu, com uma prática tão grande.
As escadas do palácio onde trabalho já me levaram os meniscos, mais tarde encalharam de novo com os meus joelhos e foi fisioterapia até dizer chega e agora, uma luxação num tornozelo.
A palavra 'luxação', por sua vez, faz lembrar luxúria, mas é coisa assim para o masoquista porque dói como o raio.
Conclusão, estou em casa de patinha levantada a papar novelas mexicanas, a ouvir a chuva e o toque-assobio do amolador. Pablo Neruda olha-me fixamente daqui da mesinha do lado, aguardando que eu o abrace com os olhos, com as mãos e o absorva. O Duarte entrou cedo nas aulas e tem jogo de treino em Setúbal, logo, estarei sozinha o dia inteiro. Ai Pablo, Pablo, anda cá que és meu!

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Da boa disposição


Boccaccio, Marquês de Sade, Fiódor Dostoievski, O. Henry, Jerome K. Jerome, Saki, P. G. Wodehouse, Enrique Jardiel Poncela, Ring Lardner, Dezső Kosztolányi, James Thurber, Boris Vian, Mario Benedetti, Woody Allen, Raymond Queneau e Alexandre O’Neill. O que tem toda esta gente em comum?
São deles os textos da Ficções, Revista de Contos de Humor, editada pela Visão nos idos de 1993, que descobri há uns dias e acabo agora de ler.
Dos dezasseis contos, onze são escritos na primeira pessoa o que me transporta aquela sensação irmanada de certa ilusão, eu sei, que alguns são verdadeiros. 
Não podem ser? É por isso que isto se chama Ficções? De certeza? Vamos perguntar aos autores, vamos? Pois, bem me parecia.
Será o humor mais fácil no eu? A proximidade que se cria num relato em primeira mão, que pressupõe o imediatismo do testemunho, cria maior credibilidade? O riso vem mais depressa porque imaginamos aquela figura como protagonista daquela topografia cómica? Não sei, mas que resulta, resulta e ler O’Neill a dizer que já explicou que não se chamava Aníbal e sim O’Neill e o interlocutor a insistir no Aníbal é delicioso.
A reunião de todos estes nomes, alguns dos quais desconhecidos para mim, foi propiciadora de excelentes momentos pois que cada um tem o seu compasso de leitura, e induz-nos a ler em ritmos diferentes, uma polca para Há lugar para dois do Marquês de Sade, uma ópera para as Confissões de um humorista de O. Henry, Jerome K. Jerome em step com o seu O custo da bondade, uma rumba para A sociedade de acidentes de Ukridge de P. G. Wodehouse, um fado para Um amor oculto de Enrique Jardiel Poncela, Ring Lardner em samba com Falta-me o ar!, um óbvio blues em O tradutor cleptómano de Dezső Kosztolányi, um inevitável jazz para Woody Allen e A puta de Mensa, entre outros estilos musicais.
Ler este pequeno volume no Metro dá-nos a sensação de mudar de roupa a cada estação, de beijar vários passageiros que entram e saem, todos bem-dispostos e galhardos.
Deixo aqui uma sugestão, sobre a qual quero depois os devidos direitos: se as bulas dos medicamentos, xanaxes e quejandos, forem substituídas por textos deste gabarito, ninguém precisará de engolir uma só drageia e povoam-se todos os lugares de leitura de imensas gargalhadas. 

O ataque da inveja


O Metro arranca com os lugares todos ocupados. No quarteto de bancos onde vou sou acompanhada de três mulheres. Lê-se. Uma Marta Müller, uma Cosmopolitan e um folheto que alerta para a chegada eminente do fim do mundo, com instruções sobre como o receber. A quarta mulher não lê. Vai sentada com ar de idiota a olhar as outras. Com o canto do olho rouba umas frases ao folheto do lado sobre a caridade religiosa. Vai cheia de inveja e teria trocado de bom grado pela Sentinela.
Eu sei porque a mulher não leitora era eu.
Quando cheguei à estação de destino não encontrei o passe. Revirei a mala e o saco do almoço e cheguei ao cartãozinho que faz abrir as portas do Metro e também ao livro que, afinal, não tinha ficado na secretária como eu pensava. 

quinta-feira, 4 de abril de 2013

De autor desconhecido, mas avisado


“A justiça é administrada por processos difíceis e por gente grosseira e não bem disposta, porque não são admitidos a magistrados os bons cidadãos, as pessoas competentes, imparciais, exemplares e justas, mas somente certos doutorzecos, na maior parte ignóbeis e desconhecidos que, como vêm a ter o freio nas mãos, querem antes fazer-se conhecer pelos males e pelas extorsões que praticam – parte voluntariamente, parte por não saberem mais – do que pela recta aplicação da justiça e que, quando acham (embora injustamente) ocasião aparente para maltratar alguma pessoa honrada, então parece que atingiram a glória e o trono, ainda que para a nobreza a justiça não corra igual. (…) 
Os oficiais e ministros da justiça são tantos que não vos entendem, todos orgulhosos, todos inchados, todos amigos de mostrar que podem, pelo que, se os não adulais, tendes os beleguins atrás. Em verdade se pode bem dizer (perdoem-me os Portugueses) ser aquela uma das partes do mundo onde podem os homens mais que as leis porque, consoante querem, assim as transformam. (…)
Os processos são em número infinito (…) As dilações, as suspeições, as sentenças ambíguas, as apelações e os testemunhos falsos são tantos que as leis acabam, por fim, por ficar tão sofismadas que da verdade e da mentira resulta uma embrulhada tal que a não desfaria Apolo.”


Retrato e reverso do reino de Portugal. In MARQUES, A. H. de Oliveira – Portugal quinhentista: ensaios: Lisboa: Quetzal, 1987, p. 127-245

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Do Livro do Desassossego


O silêncio que sai do som da chuva espalha-se, num crescendo de monotonia cinzenta, pela rua estreita que fito.
Estou dormindo desperto, de pé contra a vidraça, a que me encosto como a tudo. Procuro em mim que sensações são as que tenho perante este cair esfiado de água sombriamente luminosa que se destaca das fachadas sujas e, ainda mais, das janelas abertas. 
E não sei o que sinto, não sei o que quero sentir, não sei o que penso nem o que sou.

quinta-feira, 28 de março de 2013

Armelim de Jesus


Samuel Úria tem uma das mais belas canções que andam por aí nos rádios, rádios esses que se sentem orgulhosos de passar aquela letra, tenho a certeza.
Fala de um homem inteiro, Armelim de Jesus, e diz-nos que Armelim não tem fim, que há nomes tão fortes que a morte só leva emprestado. 
Canta-nos ao ouvido que era Armelim, tão recto que um fio-de-prumo fica embaraçado e garante que deixou essa grande pegada do seu coração.
Letra emocionante, música linda, estou apaixonada e não canso de Armelim de Jesus.

Das cores


O Inverno é Negro, o Verão Amarelo, a Primavera Arco-Íris e o Outono Castanho.
Que grande parvoíce!
Sou dona de todas as cores mesmo daquelas que a Robbialac faz só de encomenda.
As minhas calças amarelas de ontem – com uma camisola de riscas amarela, verde e preta, fatiota abrasileirada à qual só faltava uma estampagem a dizer Ordem e Progresso – foram escolhidas para combater o cinzento instalado por este Inverno teimoso que nem uma porta e para provocar a mariquinhas da Primavera que está mas não está, devia estar mas anda em parte incerta, irresponsável estação que não assume as suas obrigações e deixa que o Inverno se assolape, nem tendo sido necessário um golpe de estado, nem uma revolução para ficar com o que não é seu.
Detestando calças, com este tempo não tenho vestido outra coisa, mas uso-as de todas as cores: laranja, verde bandeira, encarnadas com cornucópias, azul forte, brancas, amarelas, de ganga azuis e azuis sem ser de ganga, de vários azuis.
A parte de cima é igualmente soalheira e agora que estou muito mais magra já me atrevo a uns estampados nas mamas ou na barriga, como hoje que ostento a Union Jack do pescoço à cintura.
Não prescindo de qualquer cor na roupa e face ao preto, cinzento, castanho, preto, cinzento, castanho e ainda, preto, cinzento e castanho que toda a gente usa, nos transportes ou na rua sinto-me uma bola de espelhos das discotecas no meio dos oficiais preto, cinzento e castanho.
Anseio pelo tempo das saias e calções já que agora só raramente os visto, pois implicam vestir collants, a peça de roupa mais mal enjorcada que já se criou. Quando os visto ando o dia inteiro apertada, transpirada, sufocada e aparento-me com Gru, o Mal Disposto.
Não tenho aquela peça indispensável em qualquer armário, por vezes em duplicado, com diferentes formatos: calças pretas. Tenho um casaco preto estilo Matrix que raramente uso pois a subir ou descer escadas faz-me parecer a rainha Vitória a segurar as saias. Se estiver nos meus melhores dias de despenteamento, até parece que uso coroa!
Irrita-me solenemente o ar de cemitério em que as pessoas se mantêm, não fazendo nada para contrariar este cinzentismo, do tempo e dos tempos em que vivemos.
Vestir uma roupa colorida não muda nada? Muda tudo, faz-me sentir uma ilha de boa disposição, salto à vista no espelho do lavatório da casa de banho entre três ou quatro pessoas a lavarem mãos, dá-me leveza e transporta-me para fora deste eterno Inverno. 

terça-feira, 26 de março de 2013

Como escrever um livro em uma semana


Nos últimos dias estive enclausurada à noite por vontade própria. Em conversa com uma amiga investigadora na área da História da Arte dizia ela que o plano de digitalização de obras gordas da nossa cultura, fomentado pela Biblioteca Nacional, era uma maravilha. Assim evitava ter que se deslocar e tinha várias obras à distância de um clique. Só era pena que, tendo acesso às imagens de cada página, não se pudesse pesquisar no conteúdo, como acontece com outros projectos de digitalização patrimonial por esse mundo.
Falou-me a seguir de um certo livrinho com o qual estava a trabalhar, que já o tinha impresso mas, de cada vez que precisava de consultar um determinado termo ou expressão, tinha que procurar no emaranhado de riscos que já fizera nas fotocópias.
Dando-me umas páginas a ler, dei por mim a rir com os conselhos do Autor e a forma da escrita.
Fui para casa e deitei-me ao trabalho. As últimas noites foram passadas a transcrever aquele belo e curioso texto. Dormi muito pouco mas aprendi muito o que, se mais fosse preciso, vem dar razão ao provérbio que sentencia que quem muito dorme pouco aprende.
Depois de muitas verificações, mais leituras, interrompidas pelas ambulâncias que fazem muito mais barulho quando passam a altas horas, mais correcções e ainda mais leituras, finalmente, o texto final, transcrito para linguagem actual, em pdf para ser pesquisável, ficou pronto.
Escrevi-lhe uma Introdução e inclui um capítulo sobre o Método utilizado, explicando as opções tomadas. Dediquei-o à CD, nem outra coisa se podia esperar. 
Fiquei mesmo feliz quando lhe vi a satisfação. Os agradecimentos dela não são maiores do que os meus, por me ter ajudado a descobrir novas leituras e me ter proporcionado esta viagem nocturna tão saborosa.

O bêbado e a equilibrista


Não, não é só o nome de uma canção da Elis Regina.
Ontem na plataforma do metro estava um bêbado tão bêbado que temi caísse à linha. Fui chamar um vigilante mas o metro chegou primeiro e o homem entrou, de mochila às costas, chapéu-de-chuva e uma garrafa de tinto na mesma mão.
Os lugares iam razoavelmente ocupados e várias pessoas seguiam em pé. Uma jovem de arma em punho, perdão, de telemóvel em riste tentava equilibrar-se e mandar mensagens escritas em simultâneo, o que a levava a estar aos solavancos para a frente e para trás.
O homem embriagado cantava e dizia repetidamente olá a toda a gente.
Caminhando muito devagar na carruagem, de repente, deu com os olhos na jovem cuja mensagem continuava a sair-lhe das pontas dos dedos.
O homem olhou a rapariga, esticou o pescoço, abriu muito os olhos, abriu os braços. Enquanto isto ela desengonçava-se alheia ao resto do mundo, com ar de quem está a salvar o planeta com um sms.
O bêbado, virou-se devagar para a parte da carruagem que levava mais pessoas e disse em voz arrastada, como quem conta um segredo:
- Eu trago a garrafa aqui à mostra, ela tem uma escondida, acreditem em mim.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Eu quero a Primavera!


Atingindo a idade de reforma uma amiga mudou-se de Lisboa para o Algarve. Estando a casa de praia já mobilada fez o enorme favor de distribuir os móveis da capital pelos amigos. Assim, vi-me com duas peças novas lá em casa, mais uma mobília de quarto para os meus pais e outra para a I. e uma máquina de lavar loiça para a minha irmã.
Este fim-de-semana não meti o nariz na rua e pintei um dos móveis, forrei as gavetas do outro com um papel primaveril onde os puxadores – todos diferentes – assentaram que nem uma luva. Forrei as gavetas do meu quarto com um tecido pelo qual me tinha apaixonado há meses e que andava a vaguear pelo armário, sem saber bem o que lhe fazer, mas morrendo de amores por ele.
Troquei o papel de parede que forrava a caixa do estore do quarto do Duarte, troquei-lhe os cortinados e fui desenterrar uma colcha velha que, tudo junto, fez um quarto novo.
Mesmo com luvas, colei os dedos várias vezes e usei litros de diluente. Dei cabo das unhas e das mãos que ficaram ásperas como as de um marinheiro.
Aproveitando o domingo soalheiro lavei cobertores e colchas e almofadas e tudo. Os quartos parecem outros, o ar renovou-se e a alma da casa está sorridente. 
Embora o tempo pareça parado e a Primavera que já devia ter chegado continue a ser uma esperança, dentro de mim ela está viva e respira.

quarta-feira, 13 de março de 2013

Uma excelente viagem


Não sei em que estação entrou mas quando a olhei vi uma senhora velha como o tempo. Sorri-lhe e disse-lhe, sente-se aqui. A rapariga ao meu lado, na coxia, levantou-se imediatamente e disse não ser necessário, que ela dava o lugar. A senhora sentou-se, baixinha, gordinha, com um lenço colorido na cabeça com ar de ser tão ou mais antigo que ela. Os pés balouçavam-lhe numa imagem de ternura profunda, tão profunda como o tempo que ela carregava. E foi com os pés a balouçar que ela me tocou no braço e agradeceu e tocou no braço da rapariga e voltou a agradecer. Não fizemos mais que a nossa obrigação, disse eu sorrindo e olhando a rapariga que concordou a sorrir também.
Já são 96 anos minha senhora, 96 anos minha menina, repetiu olhando a jovem. Sabe, eu vendi jornais e tabaco num quiosque na Baixa desde 1949 e agora, olhe, tenho boa cabeça e gosto de ir passear à Baixa.
Disse-lhe que fazia muito bem, dei-lhe os parabéns, eu, a rapariga, alguns outros companheiros de viagem, de tal forma que pouco faltou para receber 96 vezes parabéns, felicitações que ela recebeu sorrindo, apertando-me levemente o braço com uma mão com tantas rugas como uma preciosa peça de filigrana.
Ela com 96, eu com 48 e a jovem com cerca de 20, formávamos um triângulo de tempos sorrindo. Foi uma excelente viagem. 

Lasanha com molho de religião


Há muitos, muitos anos a minha irmã começou a chamar Piriquito ao namorado. Ainda antes de casarem já o Piriquito tinha um petit nom: Quico. Na mesma altura, pela boca da minha irmã, eu passei a ser Quica, nome pelo qual sou conhecida entre parte da família há quase 20 anos. Há amigos dos meus sobrinhos que me chamam Tia Quica e eles próprios dizem ter uma Tia, do lado do pai, e uma Quica, da parte da mãe.
Há desacordos ortográficos na forma de escrever este meu pseudónimo familiar: eu uso o Q e o C, a minha irmã facilita e simplifica e usa o mais internacional K. Ela manda-me um email, por exemplo, dirigido a Kika e eu respondo e assino Quica, tal como os postais que mando aos gaiatos com imagens divertidas e com mil beijinhos só para se aquecerem com a lembrança de mim.
Até agora não parecia haver alguma coisa que nos ajudasse a definir quem tem razão. Até agora…
A propósito da eleição papal a minha sobrinha perguntadora – se lhe der para saber da origem do universo e se a resposta vier por insistência, ela ficará a saber brevemente – quer saber das razões do papa ter desistido. A conversa decorre diante de um jantar de lasanha, com o paizinho algures na Tailândia e a mãezinha a acompanhar o jantar e a fazer de mãe, ou seja, com a mão em vinte coisas em simultâneo.
Ele logo esclarece que os Papas não desistem, resignam, que é a mesma coisa mas para Papas.
- Então porque é que ele… isso que tu disseste? – pergunta ela com uma gota de molho a espreitar pelo canto do lábio.
- Por estar muito cansado e achar que não consegue trabalhar como deve – respondeu ele do interior da sua ciência de 10 anos.
- Pois, mas o outro antes era muito velho e estava muito cansado de certeza e não desistiu ou isso que tu disseste e só foi embora quando morreu. Não foi mãe?
- Sim filha, mas este Santo Padre estava ainda mais cansado e não conseguia aguentar.
- Santo Padre? Mas ele é santo? – pergunta ela novamente.
- Sabes filha, costuma-se chamar Santo Padre aos Papas porque eles são o representante de Deus na terra, percebes? O Papa é a pessoa mais importante dos cristãos – diz a mãe sabendo que a conversa se vai alongar e desejando interiormente que o paizinho, que tem resposta para tudo, estivesse ali.
- Mãe – o ar dele é de condescendência - para os cristãos, não! Para os cristãos católicos, porque há cristãos que não são católicos.
- Sim, tens razão, para os cristãos católicos.
- Pois, mas eu não percebo porque é que este se foi embora – mantém ela.
- Olha, por falar em Papas, vocês sabem que o anterior, o João Paulo II, uma vez levou um tiro e a bala está na coroa de Nossa Senhora de Fátima? – a mãe tenta desviar a conversa para um universo policial.
- Levou um tiro? – a expressão dela é de espanto – E porquê? Quem lho deu?
- Acho que foi uma pessoa de outra religião, um…
- De outra religião? – a voz dela sai indignada como quem diz ‘existem mais?’ – Que religião?
Mãe e filho respondem ao mesmo tempo:
- Árabe.
- Muçulmana.
- Bem, em que ficamos? – reclama ela imediatamente.
- Na verdade chama-se Islamismo, mas no fundo quer tudo dizer o mesmo.
- Mas então há mais deuses? – pergunta ela estupefacta.
- Sim, há mais deuses e de vez em quando as pessoas de religiões diferentes zangam-se e este quis matar o Papa – a explicação é do filósofo júnior.
- Então há pessoas que não acreditam em Jesus e em Deus – conclui ela metendo mais uma garfada de lasanha na boca – Mãe, nós conhecemos alguém assim?
- Se calhar conhecemos, mas agora não me lembro de alguém.
- Já sei! – a mãe ouve esta exclamação e fica receosa do extâse da filha – Conhecemos a Quica! Ela não é religiosa, se calhar ela é muçulmana!
Mãe e filho riem-se e o filho adianta:
- Não, a Quica é cristã não católica, porque ela não vai à igreja nem essas coisas, mas ela vive numa comunidade cristã, percebes?
- Então a Quica acredita em Jesus? – quer ela saber.
- Filha, a Quica acredita em Jesus porque Jesus foi uma pessoa que viveu há muitos anos, como se fosse um… um… olha, um rei antigo, percebes? Há provas que ele existiu e a Quica sabe disso.
- E no pai de Jesus? No nosso Deus, ela acredita?
A mãe está exausta e decide facilitar:
- Sim, ela acredita em Deus.
- Hum… olha que acho que não, mas se tu dizes… - a conclusão é da minha sobrinha que não se cansa – E olha lá, como é que Jesus sabe que é filho de Deus?
O irmão dá uma ajuda à mãe mostrando os conhecimentos da catequese:
- Porque foi um anjo lá a casa dizer isso mesmo.
- Um anjo? Quer dizer, bateram à porta, quem é? Sou eu, o anjo, e venho dizer que tu não és filho do Senhor José mas sim filho de Deus? Foi assim? E eles acreditaram? O anjo podia estar a mentir!
- Mas se foi Deus que o mandou – o irmão está a ficar impaciente.
- Sim, Deus mandou-o, mas eles não sabiam! Como é que acreditaram? E quando ele falou a Maria disse o quê?
- Ai filha, sei lá o que disse a Maria…
- Mãe, sabes que a Maria esteve na Igreja da Misericórdia? – o entusiasmo é dele.
- Qual Igreja da Misericórida? – espanta-se a mãe.
- Esta aqui em Coruche!
Mãe e filha falam ao mesmo tempo:
- Não filho estás enganado, ela…
- A sério? Então Jesus também cá esteve! Pois, ele andou por todo o lado: Jerusálem, Belém e isso, só não sabia que tinha vindo a Coruche.
A mãe interrompeu-se a si própria para dar espaço às gargalhadas e finalmente disse:
- Não! Nem Maria nem Jesus estiveram aqui – e dirigindo-se ao filho – Porque dizes que Maria esteve na Igreja da Misericórdia?
- Mãe… - a voz é em tom baixo mas em modo superior – isto é uma forma de dizer porque todas as Marias simbolizam a Maria mãe de Jesus.
- Como assim? – pergunta a irmã novamente – Há muitas Marias!
- Não, não há, só há uma! As Fátimas e as outras são todas a mesma! – esclarece ele.
- É assim, mãe? – ela quer uma confirmação.
A mãe informa que as imagens nas igrejas simbolizam de facto uma só Maria e dá graças a todos os deuses por a lasanha se ter acabado. Manda-os para a sala onde ligam a televisão e se centram na divindade do canal Panda. A seguir telefona-me e decide-se finalmente que, face à suspeita de eu ser muçulmana e quiçá pertencer à Al-Qaeda, não posso ser uma americanizada Kika e sou mesmo Quica!

segunda-feira, 11 de março de 2013

Go César!


João Manzarra nasceu com o rabinho virado para a Lua. Tem uma vocação natural para agarrar as pessoas mesmo que lhes peça para telefonarem para um número de valor acrescentado, um sorriso espontâneo e extremamente simpático, um estar descontraído e será um apresentador nato em programas como Vale Tudo ou num renascido TV Rural.
Mas se ele é a cara de Vale Tudo, outros há que são ossos, músculos e demais tecidos, como Inês Castel-Branco, João Ricardo ou o cerebral Rui Unas, e outros ainda deviam participar em programas à experiência e serem convidados apenas a ficar a assistir. Custódia Gallego é uma boa actriz mas falta-lhe desenvoltura para um Vale Tudo, desenvoltura essa que ela pensa conseguir arranjar, ou superar, uma vez que tem consciência disso, através de piadas e meneios sem graça.
A eterna Floribela – ontem em traje de homenagem aos Irmãos Dalton – é despropositada e, numa atitude infantil, repete gestos e ditos sem perceber que uma piada gasta deixa de ser piada. Tem uma voz poderosa que ali não é usada e as competências que explora empobrecem o programa.
E se há uns melhores que outros, de longe, muito longe, e se João Manzarra é a cara do programa, há quem seja a alma, faça o que fizer, diga o que disser, sentado ou a representar, a dançar ou simplesmente a sorrir: César Mourão é engraçado, domina, não mostra ares de estrela e, no entanto, brilha mais que todos os outros juntos e isto sem guião ou com guiões pobres como franciscanos, como são os de Gosto Disto!
É natural e fluente na linguagem do mundo cómico e engraçado, dono de um dom mágico que muitos, tantos, perseguem e imitam, mas poucos atingem. César Mourão é daquelas pessoas que até a dormir deve ter graça e que, ao contrário, por exemplo de Marco Horácio, que é um comediante extraordinário quando veste as suas personagens, Mourão é-o inatamente.
Provavelmente falta-lhe o conhecimento do dicionário e a profundidade de um Ricardo Araújo Pereira ou, se calhar, um grupo homogéneo onde se potencie o todo para que se possa evidenciar.
Seja como for, já hoje ele se destaca e com uma aparente humildade que nos faz gostar ainda mais dele. 

sexta-feira, 8 de março de 2013

Dia da Mulher


Respeito com vénia as razões que levaram a esta comemoração e arrepio-me ao pensar nelas, tenho vertigens só de saber que a História se repete um pouco por todo o lado ainda hoje.
Mas só me lembrei que era Dia da Mulher quando um aluno me entrou no gabinete a pedir um chapéu-de-chuva emprestado e me parabenizou. Agradeci.
É Dia da Mulher para as novas e para as velhas, solteiras e casadas, mães, tias e irmãs. É Dia da Mulher para as vivas e para as mortas. A Paula faria ontem anos se fosse viva.
Lembro-me do dia que a conheci, de pele muito branca, mulher enorme em tamanho e em interioridade, dois anos mais velha que eu, a querer muito, muito, muito ser mãe, a natureza a contrariá-la, ela a teimar e a adoptar uma criança, mas afinal quem é que manda aqui?
Mulher de convicções, de pulso firme e grande cabeleira ondulada que se movia como uma montanha quando ela se ria. Pessoalmente nunca fui alvo da sua ira, mas assisti a vários confrontos e não são bons de lembrar pois se era a pessoa mais divertida do mundo quando estava bem-disposta, era terrível em dias maus.
Já naquela altura eu era apaixonada por baleias e andava sempre a dizer que queria ir aos Açores, mas não tinha dinheiro. Lembro-me que estávamos no café do António a almoçar, uma tasca espectacular, pelo dono, pelos empregados e pela frequência. Quando repeti a conversa das baleias a Paula olhou-me com seriedade coreografada e disse-me que não era preciso ir aos Açores pois no mês seguinte ela iria para o Algarve. Eu só tinha que ir também e esperar que ela vestisse o fato de banho preto para ver uma orca nas águas quentes de Lagos. Disse isto, levantou-se e começou a dar aos braços como se fossem barbatanas e a emitir sons esquisitos e terminou sentando-se e dizendo: Quem dá o que tem a mais não é obrigado. Rimos a bom rir com aquela espontaneidade tão típica dela.
Trabalhámos juntas na Câmara Municipal, que oferecia às mulheres um almoço seguido de espectáculo, todos os 8 de Março. Por norma a Paula, a Lena e eu ficávamos juntas e era rir até fartar. Num desses almoços chamaram-me ao telefone, coisa inusitada, quem teria tanta pressa, para quem seria eu tão urgente? O meu avô morrera, o meu amado avô Gualdino, morrera.
O meu cabelo vindo há poucas horas da cabeleireira esbateu, a minha roupa um pouco mais vistosa ensombrou-se, as gargalhadas transformaram-se em lágrimas e as minhas amigas acompanharam-me nesta imensa tristeza.
Anos mais tarde recordei com a Lena, e diante de uns bons copos, aqueles almoços do dia 8 de Março e a exuberância da Paula. Brindámos-lhe como se ela estivesse connosco. A bem da verdade, ainda está porque há pessoas que nunca desaparecem. 

Tack, Stieg Larsson


De empreitada li os três livros de Stieg Larsson, a trilogia Millenium. Adorei o primeiro, Os homens que odeiam as mulheres, gostei bastante dos outros, A rapariga que sonhava com uma lata de gasolina e um fósforo e A rainha no palácio das correntes de ar. A construção de Lisbeth Salander é extraordinária e Mikael Blomqvist é um precioso acessório.
A trilogia – de Editora Oceanos, Grupo Leya - está gralhada mas o enredo é tão bom que fui saltando sem demoras até ao fim. Livros difíceis de ler no Metro, por causa do volume e do peso, só lia à noite e, chegada à meta, não deixo de pôr um ponto de interrogação ao pensar no ataque cardíaco que deu ao autor. Que estranho.
A páginas tantas já os, para nós, bizarros nomes de povoações e pessoas me pareciam naturais e lia-os como estavam escritos sem engolir letras e sílabas como costumamos fazer quando os nomes são complicados.
Tudo assenta na perfeição, o mal extremo a enviuzar-se pela vida das pessoas normais e as pessoas que podiam ser normais a criarem mundos herméticos e cerrados onde nem o oxigénio entra.
Polícia contra polícia, jornalistas ciosos de verdade e justiça, a vingança a passear-se como quem se oferece e a ser agarrada e usada. E a dar prazer. E que prazer.
Depois da leitura decidi-me a ver os filmes. A surpresa foi total. Pela primeira vez senti que um filme fazia jus a um livro. A multiplicar por três.
Longe dos cabeleireiros de Hollywood há pessoas e não personagens. Pessoas completamente desconhecidas, na medida em que não lhes reconheço a cara fruto da minha ignorância sobre cinema sueco, mas conhecidas na medida em que já sabia tudo sobre elas com a leitura dos livros.
Não vi o filme com o belo Daniel Craig na pele de Blomqvist mas antes as versões suecas onde o jornalista é um tipo que já sofreu de bexigas e tem as marcas na cara, veste camisolas de mangas compridas meias tortas e fatos de treino sem qualquer estilo, bem ao estilo de uma pessoa com aquelas características. Não há cá as camisas brancas bem passadas a ferro que Craig usava no pouco que vi na apresentação do filme americano.
Erika Berger anda permanente e naturalmente despenteada e sem brilho mas com uma veracidade que não via há anos, ao contrário da sua colega americana que tem o verniz de Hollywood, cujo cheiro se sente a léguas. Erika mostra um pequeno pneu na cintura e umas cuecas de gola alta que lhe tapam a barriguinha maior do que os critérios de Hollywood algum dia permitiriam. É real, é verdadeira, é uma mulher e não uma boneca construída para aquela situação.
Todos os personagens têm defeitos, o que lhes dá uma credibilidade enorme. Mikael Blomqvist é muito namoradeiro e relaciona-se com meia dúzia de mulheres ao longo de toda a narrativa, mas as cenas de sexo não foram exploradas nos filmes, surgindo qb de forma natural e espontânea, ao longo de várias horas, que não se tornam longas, embora cada filme seja bem maior do que aquilo a que estamos habituados.
Lisbeth Salander é maravilhosa e o seu comportamento chega a causar inveja num mundo cobarde e cínico, hipócrita e desleal como este em que vivemos.
A caracterização da personagem é um espanto e está de tal modo bem-feita que se continua sempre a ver a pessoa por baixo da maquilhagem, do gel e da laca. Noomi Rapace é brilhante, extraordinária e usa o olhar para nos manter à distância num trabalho de interpretação único.
Livros cinco estrelas, filmes cinco estrelas, coisa rara, raríssima. 

Asseio sobre rodas


Domingo foi dia de sobrinhos. Ele entra no meu carro, imaculado, tapetes escovados, nem um grão de pó, trabalho do Duarte que não deixa cair uma migalha.
Senta-se, olha para tudo e diz:
- Vocês são tão asseados, o nosso carro parece um aterro sanitário.
Encosto ao passeio para me poder rir à vontade. 

Saga Chinesa 2

Algures na China profunda, ao fim de uma semana e no dia antes de embarcar para Banquecoque, via Xangai, o meu cunhado recebe uma chamada telefónica. Do outro lado expressam-se com clareza? Para ele aquilo é chinês. Para ele e para qualquer outra pessoa do mundo, porque é mesmo em chinês. Passa o telefone a um dos elementos chineses da comitiva: chegou a mala!
Mais vale tarde que nunca, nunca a lavandaria do hotel fora tão utilizada com as peças que comprara de emergência.
Sugiro-lhe que dê uma de Mr. Bean e ande com a mala ao colo nas próximas deslocações que ainda o vão levar à Tailândia e à Índia.
Nunca estive tão ansiosa pela chegada de um viajante, para ouvir de viva voz estas aventuras únicas, contadas com um jeito sobrenatural, polvilhadas de palavras escolhidas a dedo por um bom conhecedor do dicionário que, não tenho qualquer dúvida, todos os comediantes de Portugal e arredores, adorariam ter nas suas equipas.

terça-feira, 5 de março de 2013

Saga chinesa


Lembro-me de aterrar em Pequim e de ter dado corda aos instintos para perceber alguma coisa. Enquanto no aeroporto de São Paulo há uma pessoa a ajudar a apanhar táxis por uma questão de organização, em Pequim é por uma questão linguística polque poucos falam inglês, os sotaques são alevezados e a falta do l é telível.
Depois de nos desembaraçarmos de todos os que nos querem levar com preços abaixo do que está estipulado, e usam carros particulares que estão em parques de estacionamento que para se alcançarem nos obrigam a andar bem, não perdemos nada e tudo correu sobre rodas se bem que as rodas por vezes fossem quadradas e é preciso dar um empurrãozinho.
Aconteceu isso mesmo quando um táxi nos quis deixar no meio de um descampado apesar dos meus esforços em explicar que não, não era ali que ficávamos, era ali, e apontava o mapa. Vá lá saber-se porquê o taxista insistia que o meu ali, era ali, naquele local. Vi-me e desejei-me para me fazer entender e como queríamos ir para o hotel que ficava ao lado da estação central, imitei um comboio: u-u, pouca-terra, pouca-terra, u-u… O rosto do homem iluminou-se, começou a conduzir e deixou-nos sorridente à porta da estação onde, sorridentes, lhe pagámos e fomos embora.
Nem quero imaginar o que será perder uma mala no aeroporto de Pequim. Principalmente se tivermos lá chegado via Varsóvia, num voo da LOT, vindos de Schiphol na Holanda e se tivermos como destino uma cidade no interior da China a não sei quantos mil quilómetros da capital e não pudermos ficar ali à espera que a maleta chegue.
Melhor que isto só se não tivermos levado bagagem de mão com os mínimos de emergência e tivermos rasgado as únicas calças que temos, as que trazemos vestidas.
Não, não sou eu que sou mázinha, nem isto é o argumento de um filme cómico, são as verdadeiras aventuras do meu cunhado na China.
Lamento que estes desastres lhe tenham acontecido mas agradeço-lhe por umas boas gargalhadas, e como ainda só passaram três dos quinze dias que ele fica por lá, aguardo novos episódios da saga chinesa.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Monarcas, ministros e cientistas. Mecanismos de poder, governação e informação no Brasil colonial


O Brasil colonial no século XVIII é o denominador comum dos 15 artigos que ora se editam conjuntamente. Na introdução lê-se que “…há um pressuposto que estrutura esta selecção e que consiste na noção de conhecimento enquanto forma de poder”.
Sublinha-se a fertilidade do século XVIII na produção e disseminação de conhecimento bem como no desenvolvimento científico. Destaca-se a forma de organizar a informação e os arquivos que hoje são a plataforma base dos investigadores para nos darem a conhecer aquela realidade.
Concordamos com o final da Introdução quando afirma: “…olhar para o passado e relê-lo pode ser uma forma de ajudar a compreender o que somos e como as imagens que actualmente formamos podem ser melhor compreendidas se atendermos aos estereótipos que outrora fizemos”.
Está presente a análise dos relatos de viajantes que tanta curiosidade tinham sobre a imensidão e segredos do Brasil, bem como as viagens científicas e a divulgação cartográfica que se produziram na altura e hoje são fonte da mais rica água para obter informação.
Livro impecável de Ângela Domingues, editado em Novembro de 2012 pelo Centro de História de Além-Mar da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e pela Universidade dos Açores.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Balde de água fria


Depois da tempestade vem a bonança. Costuma ser assim. Mas também pode ser ao contrário.
Saímos do hospital em procissão, quais peregrinos agradecidos, a graça foi-nos concedida: o meu pai não será operado tão cedo. Chovem telefonemas que são atendidos com o mesmo sorriso de satisfação e a informação repete-se.
Passa uma semana e já nos habituámos a não reter a respirar com medo das notícias, pelo menos por ora navegamos sem perigo à vista.
A menos que telefonem a dizer que houve um engano, que uma análise mais centrada dos exames dite exactamente o contrário, que a coisa é muito mais grave do que parecia e afinal não há alternativa, é operar, com escassos pontos percentuais de probabilidades de não cortar.
Atendo o telefone a caminho de uma curta reunião. Deixo de sentir os braços e fico com tonturas. Um engano?
Sinto-me uma criança a quem tiraram o brinquedo preferido e penso imediatamente no euro-milhões; não, não precisa de ser aquela batelada de milhões, o necessário para uma cadeira de rodas chega.
Não, não chega, quero-o todo!
Quero comprar a mais sofisticada cadeira de rodas que já existiu, quero comprar uma prótese digna de um atleta olímpico, e um carro adaptado, o melhor que alguma marca de carros já construiu; quero comprar uma casa rasteira com jardim e com quintal, sem escadas; quero bilhetes em primeira classe no avião mais rápido do mundo para os levar a Roma, onde rezem o que lhes for na alma, e dali a Paris para que conheçam a cidade que lhes suscita curiosidade e onde nunca foram, num passeio que dure o tempo que lhes apetecer; quero comprar outra casa, lacustre de preferência, para que estejam na praia sempre que lhes apetecer e a minha mãe a decore como bem entender; quero comprar todos os bilhetes de teatro e cinema e dança e exposições e tudo em todo o mundo para que se deliciem com o que gostam; quero comprar todos os dicionários que existem no mundo e apagar a palavra Engano; quero que a operação corra bem.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Proposta para o Plano Nacional de Leitura


Em arrumações descubro um Rómulo de Carvalho perdido fora do sítio: O texto poético como documento social, editado em 1995 pela Fundação Calouste Gulbenkian.
Nas palavras prévias pode ler-se: “Pretende o autor, com a presente obra, erguer, aos olhos do leitor, a pessoa do poeta como um ser atento aos acontecimentos que o rodeiam, e envolvem, no ambiente social em que o poeta se movimenta. (…) Acrescentaremos apenas que, logo após o 25 de Abril, ainda na fase de exaltação que a revolução provocou, a poesia ‘veio para a rua’, conforme foi assim mesmo proclamado, dando voz às gargantas que se sentiam sufocadas com as restrições impostas pelo regime político anterior. Foi um desabafo incontido, irreprimível, dir-se-ia mais orgânico que mental. Ao desabafo seguiu-se o alheamento. Pela primeira vez na nossa História os poetas, enquanto tal, parecem alheados dos problemas sociais. Caberá aos sociólogos darem interpretação a tão estranho acontecimento”
Rómulo de Carvalho guia-nos por cerca de 400 páginas ao longo da História de Portugal, de onde se retiram dois ou três exemplos:

Sá de Miranda, (p. 102):
Homem de um só parecer,
De um só rosto e de uma fé,
De antes quebrar que volver,
Outra coisa pode ser
Mas de corte homem não é

Álvaro de Brito (p. 102):
Sem pena ou sem favor
Nem por graça divinal
Não pode bom servidor
Medrar neste Portugal

António Ribeiro Chiado (p. 102):
Vejo andar a justiça
Em mãos dos mais roubadores,
E vejo os julgadores
Casados com a cobiça

Gil Vicente, fala a Justiça (p. 103):
A justiça sou chamada,
Ando muito corcovada,
A vara tenho torcida
E a balança quebrada
………………………………………………….
Fazei-me estas mãos menores
Que não posso apanhar,
E que não posso escutar
Esses rogos de senhores
Que me fazem entortar

Gil Vicente, fala o Diabo (p. 111):
Toda a glória de viver
Das gentes é ter dinheiro,
E quem muito quiser ter
Cumpre-lhe de ser primeiro
O mais ruim que puder

Eduardo Fernandes (Esculápio), (p. 357):
Temos novas subvenções
E há muito quem aproveite
De mais uns magros tostões.

Mungiu-se a teta do leite
E saiu aos borbotões.

Mas o pior, ó meu Zé,
Ó meu tão dilecto amigo,
É que vais no volié.
Todos exploram contigo
Já pagas mais no café.

Quem diz café, diz carvão
Diz carnes e mercearias,
Diz toucinho, diz feijão,
Diz diversas porcarias,
Desde o vinho até ao pão.

E tu que, subvencionado,
Julgavas uma fortuna
No que tinham aumentado,
Ficas à divina, à tuna
E és um homem encravado.

Sabe pois, meu idiota,
Que isto nunca mais se ajeita.
Mangam contigo. É batota.
Dão-te três com a direita
Tiram-te dez com a canhota

Octávio de Medeiros (p.357):
São horas de expandir à pátria inteira
Que é preciso correr com os vendilhões
Que fazem do país uma esterqueira
De onde o carácter sorve as infecções!
São horas de acabar com a bandalheira
Fazendo quaisquer outras eleições
Correndo de uma vez com estes sicários
Mais daninhos que ratos nos armários.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Hi yo, Silver!


Havia um mascarado que andava sempre com o índio Tonto que não era nada tonto, antes pelo contrário. Em Espanha mudaram-lhe o nome para Toro para não dar azo a más interpretações e, em simultâneo, mostrar da força que se concentrava naquele que secundava o herói.
Agora temos um tonto que é mesmo tonto e parece um touro e que é apoiado por um bando de malfeitores num país em colapso, com mais desempregados que pedras da calçada, onde a saúde é só mais uma palavra no dicionário, a justiça é uma lembrança das acções do Zorro nos livros aos quadradinhos, com escândalos escandalosos escandalosamente silenciados, onde se pedem explicações ao Governo, aos membros do Governo, ao Primeiro-Ministro, aos políticos em geral, aos directores dos jornais, às administrações das empresas, aos bancos e não se obtêm respostas, e no dia em que não se deixa falar um tonto, aqui d’ el rei que se violou a liberdade de expressão.
Ou seja, em página repleta de erros aponta-se uma vírgula mal colocada.
Não percebo.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

A noite das mulheres cantoras


Lídia Jorge não mora na minha casa. Há vários anos tentei lê-la e não me seduziu, nem com murmúrios. Agora fiz outra aproximação por intermédio de um amigo que garantiu garantidamente garantido que iria gostar. Assim, assisti à A noite das mulheres cantoras.
Gisela Batista pavoneia-se ao longo das páginas como a miúda mais cool do liceu que todas já conhecemos, que invejávamos e de quem queríamos ser amigas. Nunca se menciona que Gisela andasse no liceu, mas a fotografia não engana. A Solange cabe em sorte ser aquela amiga, aquela sorte que nem se acredita ter. Na verdade Gisela quer ser como Solange, quer saber escrever, embora nunca o diga, e Solange sente-se no Olimpo só por estar ao lado de Gisela, de quem bebe as palavras, os gestos, como quem se diviniza por estar ao lado de um deus.
As irmãs Alcides são a essência, a estrutura vocal, e Madalena Micaia o Kilimanjaro, o cume.
A narrativa é a descrição das memórias de tempos ocorridos há mais de vinte anos, quando se sacrificou o Kilimanjaro sem que o sacríficio tivesse levantado grandes problemas de consciência: as luzes da ribalta foram mais fortes, o Coliseu falou mais alto, a fama quer-se ver ao longe, como se fossem olímpicas candidatas e não meras aspirantes a cantoras, fabricadas com o dinheiro do padrasto de Gisela.
Pelo meio, o amor. Pelas margens, o sexo.
Não é um livro sobre África, nem em África, mas África está mais presente do que se pode imaginar, pelos passados das protagonistas e pela African Lady.
Descreve-se um percurso partilhado onde a vida pessoal deixou de fazer sentido e a que existe vive-se às escondidas da maestrina, como chamam a Gisela, que conduz a própria existência das outras.
Até onde vamos por um objectivo luminoso, global? Que força tem a fama que arrasta danada e cegamente? Serão os mais novos mais cegos e os que os incentivam mais danados?
Gostei muito desta Lídia Jorge que nos leva em balanços pelo passado, mostra-nos figuras de caderneta, revela muitos pormenores sobre duas delas, e tudo sobre apenas uma, gostos e desgostos, medos e receios, arrependimentos e decisões. 
A partir de agora, quando vir Lídia Jorge, convidá-la-ei lá para casa.
A noite das mulheres cantoras, para ler a qualquer hora. D. Quixote, 2011.