quinta-feira, 28 de março de 2013

Armelim de Jesus


Samuel Úria tem uma das mais belas canções que andam por aí nos rádios, rádios esses que se sentem orgulhosos de passar aquela letra, tenho a certeza.
Fala de um homem inteiro, Armelim de Jesus, e diz-nos que Armelim não tem fim, que há nomes tão fortes que a morte só leva emprestado. 
Canta-nos ao ouvido que era Armelim, tão recto que um fio-de-prumo fica embaraçado e garante que deixou essa grande pegada do seu coração.
Letra emocionante, música linda, estou apaixonada e não canso de Armelim de Jesus.

Das cores


O Inverno é Negro, o Verão Amarelo, a Primavera Arco-Íris e o Outono Castanho.
Que grande parvoíce!
Sou dona de todas as cores mesmo daquelas que a Robbialac faz só de encomenda.
As minhas calças amarelas de ontem – com uma camisola de riscas amarela, verde e preta, fatiota abrasileirada à qual só faltava uma estampagem a dizer Ordem e Progresso – foram escolhidas para combater o cinzento instalado por este Inverno teimoso que nem uma porta e para provocar a mariquinhas da Primavera que está mas não está, devia estar mas anda em parte incerta, irresponsável estação que não assume as suas obrigações e deixa que o Inverno se assolape, nem tendo sido necessário um golpe de estado, nem uma revolução para ficar com o que não é seu.
Detestando calças, com este tempo não tenho vestido outra coisa, mas uso-as de todas as cores: laranja, verde bandeira, encarnadas com cornucópias, azul forte, brancas, amarelas, de ganga azuis e azuis sem ser de ganga, de vários azuis.
A parte de cima é igualmente soalheira e agora que estou muito mais magra já me atrevo a uns estampados nas mamas ou na barriga, como hoje que ostento a Union Jack do pescoço à cintura.
Não prescindo de qualquer cor na roupa e face ao preto, cinzento, castanho, preto, cinzento, castanho e ainda, preto, cinzento e castanho que toda a gente usa, nos transportes ou na rua sinto-me uma bola de espelhos das discotecas no meio dos oficiais preto, cinzento e castanho.
Anseio pelo tempo das saias e calções já que agora só raramente os visto, pois implicam vestir collants, a peça de roupa mais mal enjorcada que já se criou. Quando os visto ando o dia inteiro apertada, transpirada, sufocada e aparento-me com Gru, o Mal Disposto.
Não tenho aquela peça indispensável em qualquer armário, por vezes em duplicado, com diferentes formatos: calças pretas. Tenho um casaco preto estilo Matrix que raramente uso pois a subir ou descer escadas faz-me parecer a rainha Vitória a segurar as saias. Se estiver nos meus melhores dias de despenteamento, até parece que uso coroa!
Irrita-me solenemente o ar de cemitério em que as pessoas se mantêm, não fazendo nada para contrariar este cinzentismo, do tempo e dos tempos em que vivemos.
Vestir uma roupa colorida não muda nada? Muda tudo, faz-me sentir uma ilha de boa disposição, salto à vista no espelho do lavatório da casa de banho entre três ou quatro pessoas a lavarem mãos, dá-me leveza e transporta-me para fora deste eterno Inverno. 

terça-feira, 26 de março de 2013

Como escrever um livro em uma semana


Nos últimos dias estive enclausurada à noite por vontade própria. Em conversa com uma amiga investigadora na área da História da Arte dizia ela que o plano de digitalização de obras gordas da nossa cultura, fomentado pela Biblioteca Nacional, era uma maravilha. Assim evitava ter que se deslocar e tinha várias obras à distância de um clique. Só era pena que, tendo acesso às imagens de cada página, não se pudesse pesquisar no conteúdo, como acontece com outros projectos de digitalização patrimonial por esse mundo.
Falou-me a seguir de um certo livrinho com o qual estava a trabalhar, que já o tinha impresso mas, de cada vez que precisava de consultar um determinado termo ou expressão, tinha que procurar no emaranhado de riscos que já fizera nas fotocópias.
Dando-me umas páginas a ler, dei por mim a rir com os conselhos do Autor e a forma da escrita.
Fui para casa e deitei-me ao trabalho. As últimas noites foram passadas a transcrever aquele belo e curioso texto. Dormi muito pouco mas aprendi muito o que, se mais fosse preciso, vem dar razão ao provérbio que sentencia que quem muito dorme pouco aprende.
Depois de muitas verificações, mais leituras, interrompidas pelas ambulâncias que fazem muito mais barulho quando passam a altas horas, mais correcções e ainda mais leituras, finalmente, o texto final, transcrito para linguagem actual, em pdf para ser pesquisável, ficou pronto.
Escrevi-lhe uma Introdução e inclui um capítulo sobre o Método utilizado, explicando as opções tomadas. Dediquei-o à CD, nem outra coisa se podia esperar. 
Fiquei mesmo feliz quando lhe vi a satisfação. Os agradecimentos dela não são maiores do que os meus, por me ter ajudado a descobrir novas leituras e me ter proporcionado esta viagem nocturna tão saborosa.

O bêbado e a equilibrista


Não, não é só o nome de uma canção da Elis Regina.
Ontem na plataforma do metro estava um bêbado tão bêbado que temi caísse à linha. Fui chamar um vigilante mas o metro chegou primeiro e o homem entrou, de mochila às costas, chapéu-de-chuva e uma garrafa de tinto na mesma mão.
Os lugares iam razoavelmente ocupados e várias pessoas seguiam em pé. Uma jovem de arma em punho, perdão, de telemóvel em riste tentava equilibrar-se e mandar mensagens escritas em simultâneo, o que a levava a estar aos solavancos para a frente e para trás.
O homem embriagado cantava e dizia repetidamente olá a toda a gente.
Caminhando muito devagar na carruagem, de repente, deu com os olhos na jovem cuja mensagem continuava a sair-lhe das pontas dos dedos.
O homem olhou a rapariga, esticou o pescoço, abriu muito os olhos, abriu os braços. Enquanto isto ela desengonçava-se alheia ao resto do mundo, com ar de quem está a salvar o planeta com um sms.
O bêbado, virou-se devagar para a parte da carruagem que levava mais pessoas e disse em voz arrastada, como quem conta um segredo:
- Eu trago a garrafa aqui à mostra, ela tem uma escondida, acreditem em mim.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Eu quero a Primavera!


Atingindo a idade de reforma uma amiga mudou-se de Lisboa para o Algarve. Estando a casa de praia já mobilada fez o enorme favor de distribuir os móveis da capital pelos amigos. Assim, vi-me com duas peças novas lá em casa, mais uma mobília de quarto para os meus pais e outra para a I. e uma máquina de lavar loiça para a minha irmã.
Este fim-de-semana não meti o nariz na rua e pintei um dos móveis, forrei as gavetas do outro com um papel primaveril onde os puxadores – todos diferentes – assentaram que nem uma luva. Forrei as gavetas do meu quarto com um tecido pelo qual me tinha apaixonado há meses e que andava a vaguear pelo armário, sem saber bem o que lhe fazer, mas morrendo de amores por ele.
Troquei o papel de parede que forrava a caixa do estore do quarto do Duarte, troquei-lhe os cortinados e fui desenterrar uma colcha velha que, tudo junto, fez um quarto novo.
Mesmo com luvas, colei os dedos várias vezes e usei litros de diluente. Dei cabo das unhas e das mãos que ficaram ásperas como as de um marinheiro.
Aproveitando o domingo soalheiro lavei cobertores e colchas e almofadas e tudo. Os quartos parecem outros, o ar renovou-se e a alma da casa está sorridente. 
Embora o tempo pareça parado e a Primavera que já devia ter chegado continue a ser uma esperança, dentro de mim ela está viva e respira.

quarta-feira, 13 de março de 2013

Uma excelente viagem


Não sei em que estação entrou mas quando a olhei vi uma senhora velha como o tempo. Sorri-lhe e disse-lhe, sente-se aqui. A rapariga ao meu lado, na coxia, levantou-se imediatamente e disse não ser necessário, que ela dava o lugar. A senhora sentou-se, baixinha, gordinha, com um lenço colorido na cabeça com ar de ser tão ou mais antigo que ela. Os pés balouçavam-lhe numa imagem de ternura profunda, tão profunda como o tempo que ela carregava. E foi com os pés a balouçar que ela me tocou no braço e agradeceu e tocou no braço da rapariga e voltou a agradecer. Não fizemos mais que a nossa obrigação, disse eu sorrindo e olhando a rapariga que concordou a sorrir também.
Já são 96 anos minha senhora, 96 anos minha menina, repetiu olhando a jovem. Sabe, eu vendi jornais e tabaco num quiosque na Baixa desde 1949 e agora, olhe, tenho boa cabeça e gosto de ir passear à Baixa.
Disse-lhe que fazia muito bem, dei-lhe os parabéns, eu, a rapariga, alguns outros companheiros de viagem, de tal forma que pouco faltou para receber 96 vezes parabéns, felicitações que ela recebeu sorrindo, apertando-me levemente o braço com uma mão com tantas rugas como uma preciosa peça de filigrana.
Ela com 96, eu com 48 e a jovem com cerca de 20, formávamos um triângulo de tempos sorrindo. Foi uma excelente viagem. 

Lasanha com molho de religião


Há muitos, muitos anos a minha irmã começou a chamar Piriquito ao namorado. Ainda antes de casarem já o Piriquito tinha um petit nom: Quico. Na mesma altura, pela boca da minha irmã, eu passei a ser Quica, nome pelo qual sou conhecida entre parte da família há quase 20 anos. Há amigos dos meus sobrinhos que me chamam Tia Quica e eles próprios dizem ter uma Tia, do lado do pai, e uma Quica, da parte da mãe.
Há desacordos ortográficos na forma de escrever este meu pseudónimo familiar: eu uso o Q e o C, a minha irmã facilita e simplifica e usa o mais internacional K. Ela manda-me um email, por exemplo, dirigido a Kika e eu respondo e assino Quica, tal como os postais que mando aos gaiatos com imagens divertidas e com mil beijinhos só para se aquecerem com a lembrança de mim.
Até agora não parecia haver alguma coisa que nos ajudasse a definir quem tem razão. Até agora…
A propósito da eleição papal a minha sobrinha perguntadora – se lhe der para saber da origem do universo e se a resposta vier por insistência, ela ficará a saber brevemente – quer saber das razões do papa ter desistido. A conversa decorre diante de um jantar de lasanha, com o paizinho algures na Tailândia e a mãezinha a acompanhar o jantar e a fazer de mãe, ou seja, com a mão em vinte coisas em simultâneo.
Ele logo esclarece que os Papas não desistem, resignam, que é a mesma coisa mas para Papas.
- Então porque é que ele… isso que tu disseste? – pergunta ela com uma gota de molho a espreitar pelo canto do lábio.
- Por estar muito cansado e achar que não consegue trabalhar como deve – respondeu ele do interior da sua ciência de 10 anos.
- Pois, mas o outro antes era muito velho e estava muito cansado de certeza e não desistiu ou isso que tu disseste e só foi embora quando morreu. Não foi mãe?
- Sim filha, mas este Santo Padre estava ainda mais cansado e não conseguia aguentar.
- Santo Padre? Mas ele é santo? – pergunta ela novamente.
- Sabes filha, costuma-se chamar Santo Padre aos Papas porque eles são o representante de Deus na terra, percebes? O Papa é a pessoa mais importante dos cristãos – diz a mãe sabendo que a conversa se vai alongar e desejando interiormente que o paizinho, que tem resposta para tudo, estivesse ali.
- Mãe – o ar dele é de condescendência - para os cristãos, não! Para os cristãos católicos, porque há cristãos que não são católicos.
- Sim, tens razão, para os cristãos católicos.
- Pois, mas eu não percebo porque é que este se foi embora – mantém ela.
- Olha, por falar em Papas, vocês sabem que o anterior, o João Paulo II, uma vez levou um tiro e a bala está na coroa de Nossa Senhora de Fátima? – a mãe tenta desviar a conversa para um universo policial.
- Levou um tiro? – a expressão dela é de espanto – E porquê? Quem lho deu?
- Acho que foi uma pessoa de outra religião, um…
- De outra religião? – a voz dela sai indignada como quem diz ‘existem mais?’ – Que religião?
Mãe e filho respondem ao mesmo tempo:
- Árabe.
- Muçulmana.
- Bem, em que ficamos? – reclama ela imediatamente.
- Na verdade chama-se Islamismo, mas no fundo quer tudo dizer o mesmo.
- Mas então há mais deuses? – pergunta ela estupefacta.
- Sim, há mais deuses e de vez em quando as pessoas de religiões diferentes zangam-se e este quis matar o Papa – a explicação é do filósofo júnior.
- Então há pessoas que não acreditam em Jesus e em Deus – conclui ela metendo mais uma garfada de lasanha na boca – Mãe, nós conhecemos alguém assim?
- Se calhar conhecemos, mas agora não me lembro de alguém.
- Já sei! – a mãe ouve esta exclamação e fica receosa do extâse da filha – Conhecemos a Quica! Ela não é religiosa, se calhar ela é muçulmana!
Mãe e filho riem-se e o filho adianta:
- Não, a Quica é cristã não católica, porque ela não vai à igreja nem essas coisas, mas ela vive numa comunidade cristã, percebes?
- Então a Quica acredita em Jesus? – quer ela saber.
- Filha, a Quica acredita em Jesus porque Jesus foi uma pessoa que viveu há muitos anos, como se fosse um… um… olha, um rei antigo, percebes? Há provas que ele existiu e a Quica sabe disso.
- E no pai de Jesus? No nosso Deus, ela acredita?
A mãe está exausta e decide facilitar:
- Sim, ela acredita em Deus.
- Hum… olha que acho que não, mas se tu dizes… - a conclusão é da minha sobrinha que não se cansa – E olha lá, como é que Jesus sabe que é filho de Deus?
O irmão dá uma ajuda à mãe mostrando os conhecimentos da catequese:
- Porque foi um anjo lá a casa dizer isso mesmo.
- Um anjo? Quer dizer, bateram à porta, quem é? Sou eu, o anjo, e venho dizer que tu não és filho do Senhor José mas sim filho de Deus? Foi assim? E eles acreditaram? O anjo podia estar a mentir!
- Mas se foi Deus que o mandou – o irmão está a ficar impaciente.
- Sim, Deus mandou-o, mas eles não sabiam! Como é que acreditaram? E quando ele falou a Maria disse o quê?
- Ai filha, sei lá o que disse a Maria…
- Mãe, sabes que a Maria esteve na Igreja da Misericórdia? – o entusiasmo é dele.
- Qual Igreja da Misericórida? – espanta-se a mãe.
- Esta aqui em Coruche!
Mãe e filha falam ao mesmo tempo:
- Não filho estás enganado, ela…
- A sério? Então Jesus também cá esteve! Pois, ele andou por todo o lado: Jerusálem, Belém e isso, só não sabia que tinha vindo a Coruche.
A mãe interrompeu-se a si própria para dar espaço às gargalhadas e finalmente disse:
- Não! Nem Maria nem Jesus estiveram aqui – e dirigindo-se ao filho – Porque dizes que Maria esteve na Igreja da Misericórdia?
- Mãe… - a voz é em tom baixo mas em modo superior – isto é uma forma de dizer porque todas as Marias simbolizam a Maria mãe de Jesus.
- Como assim? – pergunta a irmã novamente – Há muitas Marias!
- Não, não há, só há uma! As Fátimas e as outras são todas a mesma! – esclarece ele.
- É assim, mãe? – ela quer uma confirmação.
A mãe informa que as imagens nas igrejas simbolizam de facto uma só Maria e dá graças a todos os deuses por a lasanha se ter acabado. Manda-os para a sala onde ligam a televisão e se centram na divindade do canal Panda. A seguir telefona-me e decide-se finalmente que, face à suspeita de eu ser muçulmana e quiçá pertencer à Al-Qaeda, não posso ser uma americanizada Kika e sou mesmo Quica!

segunda-feira, 11 de março de 2013

Go César!


João Manzarra nasceu com o rabinho virado para a Lua. Tem uma vocação natural para agarrar as pessoas mesmo que lhes peça para telefonarem para um número de valor acrescentado, um sorriso espontâneo e extremamente simpático, um estar descontraído e será um apresentador nato em programas como Vale Tudo ou num renascido TV Rural.
Mas se ele é a cara de Vale Tudo, outros há que são ossos, músculos e demais tecidos, como Inês Castel-Branco, João Ricardo ou o cerebral Rui Unas, e outros ainda deviam participar em programas à experiência e serem convidados apenas a ficar a assistir. Custódia Gallego é uma boa actriz mas falta-lhe desenvoltura para um Vale Tudo, desenvoltura essa que ela pensa conseguir arranjar, ou superar, uma vez que tem consciência disso, através de piadas e meneios sem graça.
A eterna Floribela – ontem em traje de homenagem aos Irmãos Dalton – é despropositada e, numa atitude infantil, repete gestos e ditos sem perceber que uma piada gasta deixa de ser piada. Tem uma voz poderosa que ali não é usada e as competências que explora empobrecem o programa.
E se há uns melhores que outros, de longe, muito longe, e se João Manzarra é a cara do programa, há quem seja a alma, faça o que fizer, diga o que disser, sentado ou a representar, a dançar ou simplesmente a sorrir: César Mourão é engraçado, domina, não mostra ares de estrela e, no entanto, brilha mais que todos os outros juntos e isto sem guião ou com guiões pobres como franciscanos, como são os de Gosto Disto!
É natural e fluente na linguagem do mundo cómico e engraçado, dono de um dom mágico que muitos, tantos, perseguem e imitam, mas poucos atingem. César Mourão é daquelas pessoas que até a dormir deve ter graça e que, ao contrário, por exemplo de Marco Horácio, que é um comediante extraordinário quando veste as suas personagens, Mourão é-o inatamente.
Provavelmente falta-lhe o conhecimento do dicionário e a profundidade de um Ricardo Araújo Pereira ou, se calhar, um grupo homogéneo onde se potencie o todo para que se possa evidenciar.
Seja como for, já hoje ele se destaca e com uma aparente humildade que nos faz gostar ainda mais dele. 

sexta-feira, 8 de março de 2013

Dia da Mulher


Respeito com vénia as razões que levaram a esta comemoração e arrepio-me ao pensar nelas, tenho vertigens só de saber que a História se repete um pouco por todo o lado ainda hoje.
Mas só me lembrei que era Dia da Mulher quando um aluno me entrou no gabinete a pedir um chapéu-de-chuva emprestado e me parabenizou. Agradeci.
É Dia da Mulher para as novas e para as velhas, solteiras e casadas, mães, tias e irmãs. É Dia da Mulher para as vivas e para as mortas. A Paula faria ontem anos se fosse viva.
Lembro-me do dia que a conheci, de pele muito branca, mulher enorme em tamanho e em interioridade, dois anos mais velha que eu, a querer muito, muito, muito ser mãe, a natureza a contrariá-la, ela a teimar e a adoptar uma criança, mas afinal quem é que manda aqui?
Mulher de convicções, de pulso firme e grande cabeleira ondulada que se movia como uma montanha quando ela se ria. Pessoalmente nunca fui alvo da sua ira, mas assisti a vários confrontos e não são bons de lembrar pois se era a pessoa mais divertida do mundo quando estava bem-disposta, era terrível em dias maus.
Já naquela altura eu era apaixonada por baleias e andava sempre a dizer que queria ir aos Açores, mas não tinha dinheiro. Lembro-me que estávamos no café do António a almoçar, uma tasca espectacular, pelo dono, pelos empregados e pela frequência. Quando repeti a conversa das baleias a Paula olhou-me com seriedade coreografada e disse-me que não era preciso ir aos Açores pois no mês seguinte ela iria para o Algarve. Eu só tinha que ir também e esperar que ela vestisse o fato de banho preto para ver uma orca nas águas quentes de Lagos. Disse isto, levantou-se e começou a dar aos braços como se fossem barbatanas e a emitir sons esquisitos e terminou sentando-se e dizendo: Quem dá o que tem a mais não é obrigado. Rimos a bom rir com aquela espontaneidade tão típica dela.
Trabalhámos juntas na Câmara Municipal, que oferecia às mulheres um almoço seguido de espectáculo, todos os 8 de Março. Por norma a Paula, a Lena e eu ficávamos juntas e era rir até fartar. Num desses almoços chamaram-me ao telefone, coisa inusitada, quem teria tanta pressa, para quem seria eu tão urgente? O meu avô morrera, o meu amado avô Gualdino, morrera.
O meu cabelo vindo há poucas horas da cabeleireira esbateu, a minha roupa um pouco mais vistosa ensombrou-se, as gargalhadas transformaram-se em lágrimas e as minhas amigas acompanharam-me nesta imensa tristeza.
Anos mais tarde recordei com a Lena, e diante de uns bons copos, aqueles almoços do dia 8 de Março e a exuberância da Paula. Brindámos-lhe como se ela estivesse connosco. A bem da verdade, ainda está porque há pessoas que nunca desaparecem. 

Tack, Stieg Larsson


De empreitada li os três livros de Stieg Larsson, a trilogia Millenium. Adorei o primeiro, Os homens que odeiam as mulheres, gostei bastante dos outros, A rapariga que sonhava com uma lata de gasolina e um fósforo e A rainha no palácio das correntes de ar. A construção de Lisbeth Salander é extraordinária e Mikael Blomqvist é um precioso acessório.
A trilogia – de Editora Oceanos, Grupo Leya - está gralhada mas o enredo é tão bom que fui saltando sem demoras até ao fim. Livros difíceis de ler no Metro, por causa do volume e do peso, só lia à noite e, chegada à meta, não deixo de pôr um ponto de interrogação ao pensar no ataque cardíaco que deu ao autor. Que estranho.
A páginas tantas já os, para nós, bizarros nomes de povoações e pessoas me pareciam naturais e lia-os como estavam escritos sem engolir letras e sílabas como costumamos fazer quando os nomes são complicados.
Tudo assenta na perfeição, o mal extremo a enviuzar-se pela vida das pessoas normais e as pessoas que podiam ser normais a criarem mundos herméticos e cerrados onde nem o oxigénio entra.
Polícia contra polícia, jornalistas ciosos de verdade e justiça, a vingança a passear-se como quem se oferece e a ser agarrada e usada. E a dar prazer. E que prazer.
Depois da leitura decidi-me a ver os filmes. A surpresa foi total. Pela primeira vez senti que um filme fazia jus a um livro. A multiplicar por três.
Longe dos cabeleireiros de Hollywood há pessoas e não personagens. Pessoas completamente desconhecidas, na medida em que não lhes reconheço a cara fruto da minha ignorância sobre cinema sueco, mas conhecidas na medida em que já sabia tudo sobre elas com a leitura dos livros.
Não vi o filme com o belo Daniel Craig na pele de Blomqvist mas antes as versões suecas onde o jornalista é um tipo que já sofreu de bexigas e tem as marcas na cara, veste camisolas de mangas compridas meias tortas e fatos de treino sem qualquer estilo, bem ao estilo de uma pessoa com aquelas características. Não há cá as camisas brancas bem passadas a ferro que Craig usava no pouco que vi na apresentação do filme americano.
Erika Berger anda permanente e naturalmente despenteada e sem brilho mas com uma veracidade que não via há anos, ao contrário da sua colega americana que tem o verniz de Hollywood, cujo cheiro se sente a léguas. Erika mostra um pequeno pneu na cintura e umas cuecas de gola alta que lhe tapam a barriguinha maior do que os critérios de Hollywood algum dia permitiriam. É real, é verdadeira, é uma mulher e não uma boneca construída para aquela situação.
Todos os personagens têm defeitos, o que lhes dá uma credibilidade enorme. Mikael Blomqvist é muito namoradeiro e relaciona-se com meia dúzia de mulheres ao longo de toda a narrativa, mas as cenas de sexo não foram exploradas nos filmes, surgindo qb de forma natural e espontânea, ao longo de várias horas, que não se tornam longas, embora cada filme seja bem maior do que aquilo a que estamos habituados.
Lisbeth Salander é maravilhosa e o seu comportamento chega a causar inveja num mundo cobarde e cínico, hipócrita e desleal como este em que vivemos.
A caracterização da personagem é um espanto e está de tal modo bem-feita que se continua sempre a ver a pessoa por baixo da maquilhagem, do gel e da laca. Noomi Rapace é brilhante, extraordinária e usa o olhar para nos manter à distância num trabalho de interpretação único.
Livros cinco estrelas, filmes cinco estrelas, coisa rara, raríssima. 

Asseio sobre rodas


Domingo foi dia de sobrinhos. Ele entra no meu carro, imaculado, tapetes escovados, nem um grão de pó, trabalho do Duarte que não deixa cair uma migalha.
Senta-se, olha para tudo e diz:
- Vocês são tão asseados, o nosso carro parece um aterro sanitário.
Encosto ao passeio para me poder rir à vontade. 

Saga Chinesa 2

Algures na China profunda, ao fim de uma semana e no dia antes de embarcar para Banquecoque, via Xangai, o meu cunhado recebe uma chamada telefónica. Do outro lado expressam-se com clareza? Para ele aquilo é chinês. Para ele e para qualquer outra pessoa do mundo, porque é mesmo em chinês. Passa o telefone a um dos elementos chineses da comitiva: chegou a mala!
Mais vale tarde que nunca, nunca a lavandaria do hotel fora tão utilizada com as peças que comprara de emergência.
Sugiro-lhe que dê uma de Mr. Bean e ande com a mala ao colo nas próximas deslocações que ainda o vão levar à Tailândia e à Índia.
Nunca estive tão ansiosa pela chegada de um viajante, para ouvir de viva voz estas aventuras únicas, contadas com um jeito sobrenatural, polvilhadas de palavras escolhidas a dedo por um bom conhecedor do dicionário que, não tenho qualquer dúvida, todos os comediantes de Portugal e arredores, adorariam ter nas suas equipas.

terça-feira, 5 de março de 2013

Saga chinesa


Lembro-me de aterrar em Pequim e de ter dado corda aos instintos para perceber alguma coisa. Enquanto no aeroporto de São Paulo há uma pessoa a ajudar a apanhar táxis por uma questão de organização, em Pequim é por uma questão linguística polque poucos falam inglês, os sotaques são alevezados e a falta do l é telível.
Depois de nos desembaraçarmos de todos os que nos querem levar com preços abaixo do que está estipulado, e usam carros particulares que estão em parques de estacionamento que para se alcançarem nos obrigam a andar bem, não perdemos nada e tudo correu sobre rodas se bem que as rodas por vezes fossem quadradas e é preciso dar um empurrãozinho.
Aconteceu isso mesmo quando um táxi nos quis deixar no meio de um descampado apesar dos meus esforços em explicar que não, não era ali que ficávamos, era ali, e apontava o mapa. Vá lá saber-se porquê o taxista insistia que o meu ali, era ali, naquele local. Vi-me e desejei-me para me fazer entender e como queríamos ir para o hotel que ficava ao lado da estação central, imitei um comboio: u-u, pouca-terra, pouca-terra, u-u… O rosto do homem iluminou-se, começou a conduzir e deixou-nos sorridente à porta da estação onde, sorridentes, lhe pagámos e fomos embora.
Nem quero imaginar o que será perder uma mala no aeroporto de Pequim. Principalmente se tivermos lá chegado via Varsóvia, num voo da LOT, vindos de Schiphol na Holanda e se tivermos como destino uma cidade no interior da China a não sei quantos mil quilómetros da capital e não pudermos ficar ali à espera que a maleta chegue.
Melhor que isto só se não tivermos levado bagagem de mão com os mínimos de emergência e tivermos rasgado as únicas calças que temos, as que trazemos vestidas.
Não, não sou eu que sou mázinha, nem isto é o argumento de um filme cómico, são as verdadeiras aventuras do meu cunhado na China.
Lamento que estes desastres lhe tenham acontecido mas agradeço-lhe por umas boas gargalhadas, e como ainda só passaram três dos quinze dias que ele fica por lá, aguardo novos episódios da saga chinesa.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Monarcas, ministros e cientistas. Mecanismos de poder, governação e informação no Brasil colonial


O Brasil colonial no século XVIII é o denominador comum dos 15 artigos que ora se editam conjuntamente. Na introdução lê-se que “…há um pressuposto que estrutura esta selecção e que consiste na noção de conhecimento enquanto forma de poder”.
Sublinha-se a fertilidade do século XVIII na produção e disseminação de conhecimento bem como no desenvolvimento científico. Destaca-se a forma de organizar a informação e os arquivos que hoje são a plataforma base dos investigadores para nos darem a conhecer aquela realidade.
Concordamos com o final da Introdução quando afirma: “…olhar para o passado e relê-lo pode ser uma forma de ajudar a compreender o que somos e como as imagens que actualmente formamos podem ser melhor compreendidas se atendermos aos estereótipos que outrora fizemos”.
Está presente a análise dos relatos de viajantes que tanta curiosidade tinham sobre a imensidão e segredos do Brasil, bem como as viagens científicas e a divulgação cartográfica que se produziram na altura e hoje são fonte da mais rica água para obter informação.
Livro impecável de Ângela Domingues, editado em Novembro de 2012 pelo Centro de História de Além-Mar da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e pela Universidade dos Açores.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Balde de água fria


Depois da tempestade vem a bonança. Costuma ser assim. Mas também pode ser ao contrário.
Saímos do hospital em procissão, quais peregrinos agradecidos, a graça foi-nos concedida: o meu pai não será operado tão cedo. Chovem telefonemas que são atendidos com o mesmo sorriso de satisfação e a informação repete-se.
Passa uma semana e já nos habituámos a não reter a respirar com medo das notícias, pelo menos por ora navegamos sem perigo à vista.
A menos que telefonem a dizer que houve um engano, que uma análise mais centrada dos exames dite exactamente o contrário, que a coisa é muito mais grave do que parecia e afinal não há alternativa, é operar, com escassos pontos percentuais de probabilidades de não cortar.
Atendo o telefone a caminho de uma curta reunião. Deixo de sentir os braços e fico com tonturas. Um engano?
Sinto-me uma criança a quem tiraram o brinquedo preferido e penso imediatamente no euro-milhões; não, não precisa de ser aquela batelada de milhões, o necessário para uma cadeira de rodas chega.
Não, não chega, quero-o todo!
Quero comprar a mais sofisticada cadeira de rodas que já existiu, quero comprar uma prótese digna de um atleta olímpico, e um carro adaptado, o melhor que alguma marca de carros já construiu; quero comprar uma casa rasteira com jardim e com quintal, sem escadas; quero bilhetes em primeira classe no avião mais rápido do mundo para os levar a Roma, onde rezem o que lhes for na alma, e dali a Paris para que conheçam a cidade que lhes suscita curiosidade e onde nunca foram, num passeio que dure o tempo que lhes apetecer; quero comprar outra casa, lacustre de preferência, para que estejam na praia sempre que lhes apetecer e a minha mãe a decore como bem entender; quero comprar todos os bilhetes de teatro e cinema e dança e exposições e tudo em todo o mundo para que se deliciem com o que gostam; quero comprar todos os dicionários que existem no mundo e apagar a palavra Engano; quero que a operação corra bem.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Proposta para o Plano Nacional de Leitura


Em arrumações descubro um Rómulo de Carvalho perdido fora do sítio: O texto poético como documento social, editado em 1995 pela Fundação Calouste Gulbenkian.
Nas palavras prévias pode ler-se: “Pretende o autor, com a presente obra, erguer, aos olhos do leitor, a pessoa do poeta como um ser atento aos acontecimentos que o rodeiam, e envolvem, no ambiente social em que o poeta se movimenta. (…) Acrescentaremos apenas que, logo após o 25 de Abril, ainda na fase de exaltação que a revolução provocou, a poesia ‘veio para a rua’, conforme foi assim mesmo proclamado, dando voz às gargantas que se sentiam sufocadas com as restrições impostas pelo regime político anterior. Foi um desabafo incontido, irreprimível, dir-se-ia mais orgânico que mental. Ao desabafo seguiu-se o alheamento. Pela primeira vez na nossa História os poetas, enquanto tal, parecem alheados dos problemas sociais. Caberá aos sociólogos darem interpretação a tão estranho acontecimento”
Rómulo de Carvalho guia-nos por cerca de 400 páginas ao longo da História de Portugal, de onde se retiram dois ou três exemplos:

Sá de Miranda, (p. 102):
Homem de um só parecer,
De um só rosto e de uma fé,
De antes quebrar que volver,
Outra coisa pode ser
Mas de corte homem não é

Álvaro de Brito (p. 102):
Sem pena ou sem favor
Nem por graça divinal
Não pode bom servidor
Medrar neste Portugal

António Ribeiro Chiado (p. 102):
Vejo andar a justiça
Em mãos dos mais roubadores,
E vejo os julgadores
Casados com a cobiça

Gil Vicente, fala a Justiça (p. 103):
A justiça sou chamada,
Ando muito corcovada,
A vara tenho torcida
E a balança quebrada
………………………………………………….
Fazei-me estas mãos menores
Que não posso apanhar,
E que não posso escutar
Esses rogos de senhores
Que me fazem entortar

Gil Vicente, fala o Diabo (p. 111):
Toda a glória de viver
Das gentes é ter dinheiro,
E quem muito quiser ter
Cumpre-lhe de ser primeiro
O mais ruim que puder

Eduardo Fernandes (Esculápio), (p. 357):
Temos novas subvenções
E há muito quem aproveite
De mais uns magros tostões.

Mungiu-se a teta do leite
E saiu aos borbotões.

Mas o pior, ó meu Zé,
Ó meu tão dilecto amigo,
É que vais no volié.
Todos exploram contigo
Já pagas mais no café.

Quem diz café, diz carvão
Diz carnes e mercearias,
Diz toucinho, diz feijão,
Diz diversas porcarias,
Desde o vinho até ao pão.

E tu que, subvencionado,
Julgavas uma fortuna
No que tinham aumentado,
Ficas à divina, à tuna
E és um homem encravado.

Sabe pois, meu idiota,
Que isto nunca mais se ajeita.
Mangam contigo. É batota.
Dão-te três com a direita
Tiram-te dez com a canhota

Octávio de Medeiros (p.357):
São horas de expandir à pátria inteira
Que é preciso correr com os vendilhões
Que fazem do país uma esterqueira
De onde o carácter sorve as infecções!
São horas de acabar com a bandalheira
Fazendo quaisquer outras eleições
Correndo de uma vez com estes sicários
Mais daninhos que ratos nos armários.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Hi yo, Silver!


Havia um mascarado que andava sempre com o índio Tonto que não era nada tonto, antes pelo contrário. Em Espanha mudaram-lhe o nome para Toro para não dar azo a más interpretações e, em simultâneo, mostrar da força que se concentrava naquele que secundava o herói.
Agora temos um tonto que é mesmo tonto e parece um touro e que é apoiado por um bando de malfeitores num país em colapso, com mais desempregados que pedras da calçada, onde a saúde é só mais uma palavra no dicionário, a justiça é uma lembrança das acções do Zorro nos livros aos quadradinhos, com escândalos escandalosos escandalosamente silenciados, onde se pedem explicações ao Governo, aos membros do Governo, ao Primeiro-Ministro, aos políticos em geral, aos directores dos jornais, às administrações das empresas, aos bancos e não se obtêm respostas, e no dia em que não se deixa falar um tonto, aqui d’ el rei que se violou a liberdade de expressão.
Ou seja, em página repleta de erros aponta-se uma vírgula mal colocada.
Não percebo.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

A noite das mulheres cantoras


Lídia Jorge não mora na minha casa. Há vários anos tentei lê-la e não me seduziu, nem com murmúrios. Agora fiz outra aproximação por intermédio de um amigo que garantiu garantidamente garantido que iria gostar. Assim, assisti à A noite das mulheres cantoras.
Gisela Batista pavoneia-se ao longo das páginas como a miúda mais cool do liceu que todas já conhecemos, que invejávamos e de quem queríamos ser amigas. Nunca se menciona que Gisela andasse no liceu, mas a fotografia não engana. A Solange cabe em sorte ser aquela amiga, aquela sorte que nem se acredita ter. Na verdade Gisela quer ser como Solange, quer saber escrever, embora nunca o diga, e Solange sente-se no Olimpo só por estar ao lado de Gisela, de quem bebe as palavras, os gestos, como quem se diviniza por estar ao lado de um deus.
As irmãs Alcides são a essência, a estrutura vocal, e Madalena Micaia o Kilimanjaro, o cume.
A narrativa é a descrição das memórias de tempos ocorridos há mais de vinte anos, quando se sacrificou o Kilimanjaro sem que o sacríficio tivesse levantado grandes problemas de consciência: as luzes da ribalta foram mais fortes, o Coliseu falou mais alto, a fama quer-se ver ao longe, como se fossem olímpicas candidatas e não meras aspirantes a cantoras, fabricadas com o dinheiro do padrasto de Gisela.
Pelo meio, o amor. Pelas margens, o sexo.
Não é um livro sobre África, nem em África, mas África está mais presente do que se pode imaginar, pelos passados das protagonistas e pela African Lady.
Descreve-se um percurso partilhado onde a vida pessoal deixou de fazer sentido e a que existe vive-se às escondidas da maestrina, como chamam a Gisela, que conduz a própria existência das outras.
Até onde vamos por um objectivo luminoso, global? Que força tem a fama que arrasta danada e cegamente? Serão os mais novos mais cegos e os que os incentivam mais danados?
Gostei muito desta Lídia Jorge que nos leva em balanços pelo passado, mostra-nos figuras de caderneta, revela muitos pormenores sobre duas delas, e tudo sobre apenas uma, gostos e desgostos, medos e receios, arrependimentos e decisões. 
A partir de agora, quando vir Lídia Jorge, convidá-la-ei lá para casa.
A noite das mulheres cantoras, para ler a qualquer hora. D. Quixote, 2011.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Das gralhas


Conduzo, passo por um buraco, dou um solavanco e continuo. Se for só um, a guinada no carro não será grande, o avanço far-se-á. O palavrão se não é dito, é pensado. Se forem vários, a condução diminui de velocidade, serei obrigada a ter mais atenção, a rodar o volante exageradamente para a esquerda para fugir aos buracos da direita e para a direita em vice-versa.
Quantos mais buracos, maior o arrependimento pela jornada, por que vim por aqui e não por ali?
Tive um primo que conduzia um veículo por todos os atalhos possíveis e imaginários. Quando lhe chamámos a atenção que as pernadas das árvores tendiam a querer entrar pela chapa e deixavam rasto arranhando a pintura ele respondia dizendo que nessas alturas só havia uma coisa a fazer: pôr a música mais alto para não ouvir o raspar do metal.
Sou perfeitamente capaz de o fazer a conduzir, mas não a ler. Uma gralha é um buraco. Cada gralha é um obstáculo e eu não sou rapariga de corridas muito menos com obstáculos, o defeito será meu.
O V. diz-me que presto atenção demasiada à forma. O olímpico estatuto que ele tem faz-me pensar nisto mas, tal como um gato foge da água, tal como um cão fareja um osso, tal como uma abelha procura uma flor, tal como o rio procura a foz, eu paro nas gralhas. Paro, e dobro o cantinho da página.
Ainda que os olhos continuem lendo linhas abaixo, a mão, normalmente a direita, perdeu concentração na leitura e desvia-se para levar os dedos ao bico da página dobrando-o. E eu leio com o corpo todo. Cada distracção é um afastar do objectivo, é um perder.
Leio com barulho, leio na multidão, leio com vento e com frio e com calor, leio a comer, leio na praia – ah, tanto que havia a dizer de cada grão de areia em cada livro que li na praia – leio em pé, sentada, deitada e torta, leio parada e a andar, mas em cada ler sou toda. Ler poesia a caminhar nas ondas que morrem na areia esvaindo-se em espuma branca pode ser uma experiência única. Bem sei que há quem já tivesse ido à lua e quem salte de elásticos do cimo das pontes, quem dê mergulhos em águas geladas, quem seja missionário, quem escale montanhas; eu cruzo as pernas diante do grande senhor da Terra, o mar, e leio com cada célula como se lêssemos juntos, eu a ler para ele com o devaneio que ele ruge para mim.
E assim, com frequência, se molham os ténis ou as botas ou a toalha. E eu rio-me da brincadeira, porque é uma brincadeira dele a ver se eu estou atenta à leitura. De vez em quando sou assaltada por uma gralha, que me salpica a vista e me assusta, que me perturba a leitura obrigando-me a parar momentaneamente.
Mas então tudo isso quer dizer que te julgas tão perfeita que dás conta de todas as gralhas, tão perfeita que não aceitas imperfeições, tão perfeita que não consegues continuar a ler quando encontras uma imperfeição?
A perfeição não existe e aquilo a que se referem como perfeição não é meu, é universal; a imperfeição sim, vive nas gralhas, é de quem as causou, e eu lamento cair nelas pois, ao contrário do buraco da estrada que se pode contornar, a gralha está ali, de boca aberta para me morder, velhaca, a desconcentrar-me, falsa, a impôr-se.
És uma exagerada e tudo o que é demais, não presta.
Serei. Vou juntar ‘exagerada com gralhas’ às minhas características. Ou deverei escrever ‘ezagerada com gralhas’? Foi uma coisa de nada, o z e x até são vizinhos no teclado e percebe-se o que quis dizer, verdade? Passa à frente, vá lá.
Pois não passo, vou a jogo e o jogo da consciência disse-me, por exemplo, para escrever a informar sobre a coisa mais bizarra que já vi dada a quantidade de gralhas: Os que sucumbem e os que se salvam, de Primo Levi. E informei a editora:
Escrevo com profunda indignação e revolta face à leitura de Os que sucumbem e os que se salvam: nunca tinha visto um livro com tanta gralha, tantas e tão absurdas, que se diriam propositadas.
O trabalho de tradução é pavoroso, a revisão, feita pelo tradutor, é inexistente.
José Colaço Barreiros inventa palavras que não existem na língua portuguesa – traversas, p. 171; tritol, p. 166; próvido, p. 60; mónada, p. 88; haloglota, p. 88, ou biarquia, p. 199.
A falta de correspondência entre singulares e plurais é de tal forma que se lhe perde a conta depois da centena; há uma falta violenta de vírgulas e um abuso extremo do sinal de pontuação dois pontos; há uma ausência inexplicável de pontos finais entre períodos e uma descoordenação no uso dos itálicos; verifica-se um desconhecimento do assinalar as notas de rodapé e identifica-se a cidade de Francforte e o Lago de Como, este último numa tradução integral do italiano. Há pontos finais no lugar de pontos de interrogação, o Estreito de Bering, estrangeira-se para Behring, abrem-se parêntesis que não se fecham.
“Um verso tão alemão e tão cheio de sentido que passou a provérbio, e que não pode ser traduzido para italiano senão através de uma desajeitada paráfrase: Nicht sein kann, was nicht sein darf. Isto não é uma desajeitada paráfrase, é o verso original (p. 164/165).
O livro de Jerome K. Jerome (em inglês Three Men in a Boat; em português Três homens num barco; em italiano Tre uomini in barca) passou a ser Três homens à deriva. Porquê? (P. 164)
Como se tudo isto não bastasse o tradutor/revisor faz o impensável: coloca texto seu no meio do texto do autor (p. 96, 152, 174 e 177), numa enorme falta de respeito pelo original, pelo seu próprio trabalho e pela profissão de tradutor, quando podia ter recorrido a notas de rodapé. Não o fez, o que resulta numa adulteração do texto.
Perante a gravidade do trabalho que está à disposição do público, uma editora séria mandaria recolher os exemplares em circulação com o pedido de entrega de todos os exemplares já vendidos, em anúncio público, a fim de que aos leitores pudesse ser posteriormente entregue um exemplar corrigido.
Este procedimento é vulgar em electrodomésticos, carros e outros bens de consumo; a alegação que não há questões de segurança em risco e que a vida humana não sairá prejudicada com a leitura de um livro com gralhas, até pode estar certa, mas não deixa de ser gato por lebre; não deixa de ser uma a expectativa, e outro, o resultado; não deixa de ser uma fraude; não deixa de ser um engano e um desrespeito pelo autor original e pelo leitor final.
De acordo com a legislação europeia a exoneração de responsabilidade do produtor só ocorre se este não for considerado responsável, provando que:
* Não colocou o produto em circulação;
* O defeito surgiu após a colocação em circulação do produto;
* O produto não foi fabricado para venda ou distribuição com um objectivo económico;
* O produto não foi nem fabricado nem distribuído no âmbito da sua actividade profissional;
* O defeito é devido à conformidade do produto com normas imperativas estabelecidas pelas autoridades públicas;
* Os conhecimentos técnicos no momento da colocação em circulação do produto eram insuficientes para identificar o defeito, podendo no entanto os Estados-Membros adoptar medidas derrogatórias nesta matéria;
 * O defeito de uma componente ocorreu durante o fabrico de um produto final.
 Estivesse o livro avariado, por falta de uma ou meia dúzia de páginas ou por ter cadernos virados ao contrário, e a situação não seria tão grave, talvez fosse imputável ao equipamento de impressão, por exemplo. Aqui, tal não se verifica. É erro humano: da tradução, da revisão, da edição, e deve ser corrigido.

A editora respondeu um mês depois e disse: Agradecemos imenso o seu e-mail e as observações nele contidas. Vamos avaliar o texto do livro em questão e, finda essa análise, que esperamos concluir em breve, tomaremos a decisão que mais correcta se afigurar, não excluindo, evidentemente, a possibilidade de retirar do mercado a presente edição.

Já lá vão seis meses. À referida presente edição acede-se pagando uma portagem de 15.90€, para se revelar ser uma estrada cheia de buracos. Passaram seis meses, Primo Levi e todos os seus leitores continuam a sucumbir, nada se salva e o meu desgosto por gralhas aumenta.
Também dou gralhas, como é óbvio, e cometo erros, ai tantos, mas penitencio-me e faço a correcção assim que me apercebo. Aproveito até para (re)agradecer a quem me envia e-mails fazendo estes avisos à minha navegação.
Podia escrever um tratado sobre gralhas e se soubesse que ganharia asas e voava daqui para bem longe, terminava-o já hoje. 
O meu pai, tipógrafo a vida inteira, lidou anos com as gralhas e perguntava-me porque se dava aos erros tipográficos o cognome de gralha e não de águia, perdiz, andorinha ou até mesmo pato? As gralhas nem são os pássaros mais barulhentos, mas são os mais persistentes e a persistência pode levar a verdades mentirosas.

Chamai-me Moby Dick


Herman Melville escreveu uma das mais famosas frases de abertura de um livro: Chamai-me Ismael.
É uma ordem e um pedido em simultâneo. Duas palavras que transportam firmeza e o pedido de um favor. Duas palavras que nos remetem de imediato para a imensidão e a vulnerabilidade do gigante odiado.
Porque se odeiam os gigantes? Por que se lhes tem medo e, no fundo, no fundo, anseia-se por ser um deles.
Ahab odeia Moby Dick e quem odeia é prisioneiro desse ódio que se agarra à pele como uma doença pútrida. Tão prisioneiro que só pode acabar morrendo vítima do seu próprio ódio.
A moral da história avisa-nos que as pessoas ambiciosas perdem aquilo que prezam, por exemplo, perdem-se a si próprias, isto se forem de facto pessoas e tiverem um pouco de amor-próprio no meio da inexistência de respeito e de vergonha.
Moby Dick cumpre o seu destino e mata-os a todos.

Nuno Amado conta-nos uma história de perda, uma história bela, belíssima chamada À Espera de Moby Dick.
Somos cada protagonista em diferentes momentos da nossa vida, nem que seja em anseio. Com uma escrita profunda, mas irónica e até cómica em certos pontos, acompanhamos segredos – alguns felizmente não revelados – que estão ali desenhados em cada página. Não, desenhados não, fotografados. Não, fotografados não, filmados, como se as letras fossem imagens em movimento que nos transportam para outros mundos, sejam eles países diferentes, mágoas dolorosas ou mentiras inventadas para melhor sobreviver.
Este é um daqueles livros onde a meio se diminui a velocidade da leitura e já anda por ali uma certa embirração com o autor que fez o livro tão pequeno; ler devagar é a única forma de prolongar a nossa estadia em tão comovente lugar. Podemos sempre voltar, relendo, viagem que farei garantidamente.
É um livro rodeado pelo mar e cheio de lágrimas onde entramos por especial favor. As cartas não são nossas nem nos são dirigidas mas temos o privilégio de as ler todas, espreitando cantos que aparentemente nos eram inacessíveis, beirais onde só os pássaros chegariam, grutas propriedade de peixes. Nada daquilo é nosso e no entanto somos nós, é o nosso segredo, a nossa dor, o nosso vazio.
Houvesse um plano de leitura obrigatório para cada cidadão e eu colocava este livro na lista, um dos primeiros. Num mundo perfeito instituía como pena do mais duro tribunal a proibição de o ler.
À Espera de Moby Dick, Oficina do Livro, 2012, sem gralhas.  

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Paciência de santo


Sucedem-se os exames médicos. Antigamente os senhores doutores eram poupados nas previsões como se antecipando chuva a gastassem. Agora não, dizem tudo e mais um par de botas, não há cá poupanças nas doenças e suas consequências, pão pão, queijo queijo. Assim, avizinhando-se um corte daqueles à moda antiga, a ansiedade cresce.
Terça de Carnaval foi um dia animadíssimo no Hospital de Santa Marta, aguardando que os exames finais se fizessem. Ontem foi dia de consulta para que o sôtor visse as imagens que lhe enviaremos para o computador. Mas o sôtor não viu, não por culpa dele, mas por que há sempre alguém pior que nós. Volte cá na quarta-feira senhor Bento, foi dito com tanto carinho que parecia meu irmão. 
O meu pai tem um sotaque que a maior das pessoas atribui à sua nacionalidade finlandesa, ucraniana, espanhola, eu sei lá, venham nacionalidades e qualquer uma serve. Ganhou esta característica bem como um ligeiro gaguejar com um AVC há uns anos. No hospital há pessoas que o preterem para perguntar qualquer coisa pois não se pergunta nada a um estrangeiro, como é óbvio. 
Ainda assim ele vai ajudando nas explicações, não, hoje não é dia do doutor Fulano dar consulta, ele está cá mas está no bloco, olhe minha senhora, esse assunto é no edifício ali do lado, entre no claustro, sabe, aquele jardinzinho, e vire à sua direita, sabe ler?, desculpe a pergunta, sim?, então assim que virar à direita vê logo a indicação da Radiologia. 
Nem todos agradecem e há quem se insurja violentamente sem perceber que nos estar num hospital é esperar, esperar o tempo que for preciso.
No dia dos exames tirou-se uma senha e sentámo-nos. Imediatamente a seguir apareceu outro cliente de Santa Marta, já conhecido, mas que nasceu em época de férias da paciência. Não tardou que o homem começasse a falar sozinho, que isto não pode ser, que não se despacham, que aquilo não é a vida dele, e que isto e que aquilo, e toda a gente a assoprar com a ladainha do homem.
Com infindável paciência o meu pai dirigiu-se ao homem e disse-lhe que ia no 2 e que lhe dava a senha 3. O homem aceitou imediatamente, com um obrigado entre dentes e calou-se. 
Verificado o novo número era o 4, o meu pai sorriu e disse baixinho:
- Não custa nada, pois não?

Aqui sinto-me em casa

Abre o sol acompanhado de calor e começam os belos almoços de fotossíntese, no pátio do palácio onde trabalho. Quais lagartos, ali nos estiramos e de preferência em silêncio. De vez em quando uma diz qualquer coisa e todas concordamos pois dá muito menos trabalho do que discordar, que ninguém ouse fazer concorrência ao sol.
Regressada ao cubículo que me serve de gabinete tenho uma mala de palhinha em cima da secretária.
Aceno com ela para o balcão, a pergunta muda é entendida e a resposta vem em forma de dedo apontado para um aluno e uns gestos labiais impossíveis de perceber.
Aproximo-me e fico a saber que foi um aluno que resolveu oferecer uma a cada funcionária da Biblioteca, não, não é para agradecer, apeteceu-me, tenho levado tantos livros emprestados, as pessoas são tão simpáticas, têm sempre um sorriso, aqui sinto-me em casa, é apenas uma lembrança, nada mais.
Sorrio, já ganhei o dia. 

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Hitchdecepção

Perdi a conta às vezes em que troquei a perna, gesto que faço para acordar e manter-me atenta. Contei as pessoas que estavam nas filas à minha frente e ainda me aborreci mais pois é raro ter a companhia que tive e foi desaproveitada com uma sucessão de bocejos. Não trocámos cotoveladas, não nos rimos a bandeiras despregadas - como em Morte no Funeral - no final não tínhamos nada para conversar sobre o filme, a não ser que tinha sido decepcionante até dizer chega.
Anthony Hopkins é uma figura faça ele o que fizer, reencarne em quem reencarnar, maquilhado ou não. Helen Rainha Mirren faz-nos acreditar que estamos em directo sempre que a vemos actuar. A bela Scarlett fica sempre bem em qualquer lado, James d'Arcy criou arrepios como Anthony Perkins e Michael Wincott tem aquela voz que vale só por si.
Porém, funcionam como peças de puzzles diferentes, e não contribuem para um todo. Faltou ali muita coisa, aquilo não pega, não passa para a plateia, nunca nos esquecemos que estamos numa sala de cinema.
Altas expectativas, grandes desilusões, uma pena.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Eram rosas, eram?


Santos Silva passa a Franquelim, Franquelim passa a Relvas, Relvas fica com a bola, outra coisa não seria de esperar, passe-se a quem se passar Relvas está lá, já não são relvas, são ervas daninhas, senhor.
Acções de caridade é o que é, com o Senhor dos Passos pelo meio, precisamos de uma crucificação que a via-sacra vai longa. 
Matemos, esfolemos, sigamos o exemplo. 
Ai que bom, isto sim é viver em liberdade, sinto-a tão forte e apelativa, fazer o que me der na gana, hoje sou eu, amanhã mascaro-me, no dia seguinte mascaro quem eu bem me apetecer e viva o Carnaval, este, não o do Brasil, não o de Veneza, não qualquer outro, que têm data marcada e aqui não, é um Carnaval natalício, é quando um homem quiser, é fartar vilanagem.