quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Pregos no Ego


O tio Chico Buarque deu-nos esta letra a que chamou Olhos nos Olhos. É linda e tendo em conta os versos que estão a bold podia chamar-se Pregos no Ego.

Quando você me deixou, meu bem,
Me disse pra ser feliz e passar bem.
Quis morrer de ciúme, quase enlouqueci,
Mas depois, como era de costume, obedeci.

Quando você me quiser rever
Já vai me encontrar refeita, pode crer.
Olhos nos olhos,
Quero ver o que você faz
Ao sentir que sem você eu passo bem demais

E que venho até remoçando,
Me pego cantando, sem mais, nem por quê.
Tantas águas rolaram,
Quantos homens me amaram
Bem mais e melhor que você.

Quando talvez precisar de mim,
Cê sabe que a casa é sempre sua, venha sim.
Olhos nos olhos,
Quero ver o que você diz.
Quero ver como suporta me ver tão feliz.

Saltemos!


Fruto de uma vida passada com muitas horas em pé, a que se junta uma alimentação bem portuguesa com tudo a que se tem direito no universo dos presuntos gordos e afins, falta de exercício físico e uma média de horas de sono muito aquém do recomendado, o meu pai tem uma colecção única de operações às artérias.
Se as primeiras se ficaram por banais limpezas, passou depois a desobstruções que obrigaram a outras logísticas, cujos sinais de trânsito interrompido nem se percebia se eram provisórios ou definitivos. Ah, o tabaco também não ajudou lá grande coisa, não sei porque me lembrei de repente, mas é verdade.
Quando as simples desobstruções não fizeram efeito, os cirurgiões optaram por umas quantas ligações directas, fazendo das pernas do meu pai uma espécie de patchwork arterial.
Consequentemente, da mesma forma que a minha mãe muda de óculos de sol, o meu pai muda de bengala. Não sendo o caso para brincadeira, temos que o levar o melhor possível, combatendo as angústias que se geram, o medo do desconhecido em forma de amputação de um pé, a perca da liberdade física como se conhece.
De entre os problemas de saúde há os chamados cromos doirados e um dos do meu pai é um AVC, vários até, mas um que se destacou pela intensidade e pelo rasto dos estragos.
Ora, agora dizem-nos que as obstruções se verificam num grau de 95%, daí a urgência de nova operação. Porém, o historial dos avc’s põe travão à urgência e pede exames complementares para se pesar o risco de um lado e do outro.
A minha mãe está presente na consulta e ouve o médico dizer que as possibilidades do meu pai ficar na mesa de operações são elevadas (sic). As palavras não foram brutas, de modo algum, apenas não se cozinharam e foram proferidas cruas. Nem lumes brandos, nem entaladelas.
O portão do hospital exala desânimo e as pedras da calçada parecem ter ímanes que nos dificultam o andar. Cumpre-me falar do mundo, de tudo e de nada, e faço-o com a ajuda do meu filho e de uma amiga que estava connosco.
Construo diques e uma barragem ou outra na conversa de modo a conduzi-la para saltos de para-quedas, um sonho que o meu pai tem desde sempre, que nunca concretizou e que se diz pronto para o fazer, independentemente das circunstâncias.
Falo num velho com oitenta e tal anos que o fez há meia dúzia de dias. Um velho de oitenta e tal anos! O meu pai tem setenta, é um gaiato.
Perante a ideia a minha mãe insurge-se contra as minhas loucuras. O meu pai alarga o sorriso como se pensasse em qualquer coisa que está na dimensão dos sonhos irrealizáveis e, de repente, lhe aparecesse à frente em carne e osso.
Pelo meu lado sinto o coração bater mais depressa. Nada é melhor que fazer os outros sorrir. Saltemos. 

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Cão danado


Django. O D é mudo. Assim repete o protagonista que distribui tiros mortais quando alguém não cumpre.
O rapaz Tarantino – cujo nome me lembra o meu avô que chamava tarantina ao cinto com que ameaçava os meus primos recém-chegados de Angola e que faziam as maiores tropelias – dirige cenas que podem ser confundidas com fontes luminosas, daquelas que esguicham água colorida, fazem efeitos diversos, mas com uma pequena diferença, ele usa sempre a mesma cor, encarnado-sangue.
Não tenho qualquer predilecção por Leonardo DiCaprio mas darei o braço a torcer pela verdade vista e já reformulei a minha opinião sobre aquele que me parece sempre criança e sem maturidade facial para a maior parte dos papéis que lhe dão. Leonardo é um eterno adolescente muito bonito que precisa de rugas e cicatrizes para ter mais credibilidade nos papéis que desempenha. Reconheço-lhe o esforço e a encarnação nos bonecos, mas depois vejo-lhe a cara e está tudo estragado. Bom, mas aqui revela-se e gostei imenso dele.
Samuel L. Jackson – que adoro – fez-me adorá-lo ainda mais. Perfeito na anormalidade histórica, pois para atingir aquela perfeição só encarnando a imperfeição do irracional, do anti natura, tão natural na época e naquelas paragens.
A justiça e a vingança, nem sempre pelos melhores meios e caminhos, mas faz-se. Faz-se até à distância e, como também aconteceu em Sacanas Sem Lei, queremos acreditar que os bons ganham, mesmo que tenham que morrer alguns.
Hans Landa – Waltz será sempre Landa, como Connery é James Bond, como Harrison Ford é Indiana Jones, como Brandon é o Padrinho – é um bocado de plasticina que ele próprio molda à sua vontade pondo pés de cabra e corpo de gigante, um olhar caleidoscópico, gestos que já lhe eram naturais antes de nascer, enfim, um poço de onde se tira tudo quanto se quer.
Amei a ingenuidade de Jamie Foxx. Forte desde a primeira imagem, não há uma passagem, uma transformação na personagem. Apenas nos é dado ver como ela evolui na exposição daquilo que é na essência. Mesmo agrilhoado já lá estava tudo.
E estava mesmo tudo, a música, os planos, a escolha do formato das letras, tudo nos remete para filmes dentro de filmes – Franco Nero mostra-se durante breves momentos! – como quem faz uma pergunta sobre a actualidade política e leva como resposta a história de Portugal a começar nos Afonsos, mas de forma resumida, sintética e altamente eficaz. Cada filme de Quentin Tarantino é uma viagem, mais que qualquer outro. 

Abaixo de zero


De entre todas as empresas que, aparentemente, se preocupam com a qualidade e querem aferi-la através de inquéritos junto dos utilizadores, a TMN leva a taça.
Com uma frequência inusitada ligam a querer saber imensa coisa e pedem que sejamos sintéticos, tão sintéticos quanto se pode ser dando respostas quantitativas.
Não há espaço para se especificar que o Sr. X fez um atendimento magistral, independentemente de ter resolvido ou não a nossa questão, ou que a Sr.ª Y é uma suricata cuja linguagem própria não é compreensível por humanos.
Assim, o atendimento tem de ter uma nota. Fazemos a média? Optamos por aquele que mais impacto nos causou? Somos radicais e consideramos que devemos priorizar o mau atendimento para que outros não tenham que levar com ele? Somos generosos e elevamos aquele que parecia estar a resolver um assunto da sua própria pessoa?
Explica-se então ao perguntador do inquérito que se deve diferenciar o atendimento em si da resolução do problema, pois são duas questões diversas. Sim, sim, mas que nota lhe atribui?
Respiramos fundo e respondemos com uma pergunta: Olhe, e já agora, o que fazem com estes inquéritos?
Parece que o seu verdadeiro propósito é arranjar emprego para várias pessoas que assim gastam o seu tempo, passando horas ao telefone com os clientes, apontando as respostas num longo rolo de papel que se desenrola numa ponta e se vai enrolando na outra, como uma informação real que é lida na praça pública por um escudeiro letrado para o povo analfabeto.
Ou então não. Como aquilo não serve para nada os colaboradores da empresa fazem as perguntas sim senhor, mas lá do outro lado desenham formas geométricas tortas num papel branco, cujos riscos vão carregando, fazem tricot (nós é que precisamos de uma mão para segurar o telefone, eles têm uma bandolete que lhes permite ouvir e que termina num mini microfone perto da boca), fazem puzzles de não sei quantas mil peças – que trocam uns com os outros quando chegam a um impasse – entre muitas outras coisas.
É preciso sempre repetir que o mau grado das respostas não se dirige às pessoas em particular e sim à empresa. Não têm formação e são formatados para dar respostas pré-concebidas entre balizas muito pequenas que, só excepcionalmente  agradam ao cliente e lhes resolvem os problemas. Bem, esta é a regra, por que também há alguns que confirmam cientificamente que o bom senso de vez quando tira férias. 

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Xitaca


Nos anos 80 a palavra Xitaca estava presente no dialecto que usávamos para nos expressar no liceu de Sintra. Não, não nos referíamos a uma pequena propriedade agrícola, mas antes ao poiso de (quase) todos os alunos da Escola de Santa Maria, mais do que na própria escola.
Estrategicamente colocada à saída da estação da Portela, ainda hoje se passa diante da porta da Xitaca para se chegar à escola.
A mesa do canto era a mais apreciada, mas qualquer uma servia. Quando combinávamos encontrarmo-nos e não se mencionava o sítio, já se sabia que era na Xitaca.
Bebia-se café e fumava-se. Um ou outro tomava o pequeno-almoço. O espaço apertado ficou saturado de fumo quando se começou a fumar Fortuna, face ao desaparecimento do tabaco português, nem sabíamos porquê, e cravar um cigarro tornou-se uma aventura na qual todos nos especializámos.
O Xitaca recebia toda a gente e o dia em que as mesas faltavam, por estavam ocupadas por desconhecidos, era terrível, muito pior que os professores faltarem às aulas que, naquela altura, nós víamos como um dever que os setôres deviam assumir de vez em quando. Ali cabíamos todos pois bastava estar um conhecido para entrarem duas turmas em simultâneo. A esta distância, pergunto-me como nos aturavam pois chegávamos a encher a pastelaria apenas com a despesa de um ou dois cafés.
No Xitaca contava-se de tudo e foi sentada a uma mesa que ouvi uma colega planear um aborto como quem antecipa a festa da passagem de ano. O assunto era tabu, perigoso e aventuroso, antes de tudo o mais porque não tinha engravidado sozinha! As nossas imaginações voaram para mundos que nunca sonhámos existirem e ouvíamos atentos, alunas e alunos aplicados e prontos a fazer exame da matéria dada.
No Xitaca se faziam as melhores cábulas da escola que eram passadas a outros, que davam opinião e afirmavam que a letra era grande demais, não se via, não se percebia, estavam óptimas, tinham dado grande resultado ao fulano e ao beltrano e se o sicrano tinha tido negativa com elas era porque era mesmo burro.
A bem da verdade, as minhas notas acima do 17 e o facto de ser considerada por vários professores como a melhor aluna da turma em certas disciplinas, e da escola noutras, deixavam-me um bocado à margem destas dinâmicas. Eu queria participar em tudo, mas havia vezes que não sabia como. Mal ou bem lá me juntava à maralha e passava horas e dias no Xitaca a fazer nada.
Há dias organizou-se um jantar da rapaziada que morava lá no bairro onde vivemos 16 anos, na casa que me viu crescer durante mais tempo, onde a minha mãe passou a gravidez da minha irmã, de onde a N. saiu para casar, entre muitas, tantas, outras recordações. 
A organização foi via Facebook onde tenho uma página com um nome inventado, meia dúzia de amigos e que uso para dizer disparates em certos momentos. Ou seja, a lista dos presentes contava com uma figura artesanal, um pouco mítica até e que, durante o jantar, mereceu a confissão de alguns afirmando pensarem que era um homem.
O jantar correu num convívio espectacular, serviram-se memórias e recordações, alguns embaraços, a maior parte deles cómicos, muitas perguntas sobre irmãos faltosos, risadas sobre namoros de adolescência e penso que hoje todos nos congratulamos com o encontro embora nenhum se lembre do que comeu, sendo a comida o pretexto, mas a essência, o encontro em si, foi cinco estrelas.
Às tantas alguém se lembrou de um cromo da escola que quase todos frequentávamos, uma miúda gordinha que estava sempre meia deslocada, óculos graduados na ponta do nariz que deixava ver quando levantava a cabeça dos livros e de quem todos um dia se abeiraram a pedir ajuda para os testes.
Manifestando curiosidade sobre a pessoa levei uma canelada debaixo da mesa e fizeram-me sinal para me manter calada; a amiga que me sugeria silêncio segurava o riso num sorriso que queria rebentar e percebi que falavam de mim. Alguns lembravam-se do meu nome mas tinha passado despercebido à maioria, pois na lista das inscrições constava o meu alter-ego, e poucos associavam a identificação estapafúrdia com um nome real.
Foi desta forma que se repetiu uma cena passada há poucos meses quando se organizou um almoço entre antigos alunos de uma outra escola e eu era a única cujas histórias de chumbos que tinha para contar eram nos dentes. Tal como nessa altura também aqui fui levemente apontada como se tivesse uma aura de uma certa anormalidade e não pude deixar de me lembrar do meu sobrinho que, tendo 20 nas olimpíadas da matemática, ao receber os parabéns perguntou porque se fazia tanto alarido, acrescentando uma pergunta sem resposta: Não era suposto ter acertado em tudo?
Durante o jantar ainda houve quem se lembrasse de uma manifestação feita na escola para reclamar junto de um professor um merecido 20 que me tinha sido substituído na pauta por um 19. O professor alegava que não dava vintes e numa manifestação de solidariedade a minha turma foi em peso ao conselho directivo mostrar indignação pelo facto. Registou-se a situação e o 19 manteve-se.
Eu que era bem redondinha nesse dia estava inchada que nem um pavão e até me podiam ter baixado a nota ainda mais, mas já ninguém me tirava o facto de ter sido por minha causa que aquela malta toda se juntou, reclamou, gritou e uniu.
Vá lá saber-se porquê, não me recordava desse episódio e foi nessa lembrança que as lágrimas me caíram em cima do prato e fiquei verdadeiramente feliz por ali estar, como se fosse de manhãzinha e estivéssemos todos no Xitaca.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

A tragédia da rua do Arsenal


Este livro propõe uma viagem ao fim da vida da monarquia portuguesa, num momento em que as dificuldades respiratórias são já aflitivas, no seio de um quadro clínico alterado e sem cura.
Jean Pailler, escritor, historiador e tradutor, viveu a época da revolução de Abril na embaixada de França em Lisboa, tendo sido seduzido por Portugal, que retrata em livro por diversas ocasiões, para além de ser tradutor de génios da nossa literatura, como Eça de Queiróz.
A estória mistura-se com a história e advertem-nos para o facto de o enredo ser ficção e não fruto de investigação histórica.
Leve, muito leve, entretém mas não encanta, as ligações ao estrangeiro não convencem, a Carbonária passa para cá e para lá como dama em passeio, e a polémica sobre a bala que matou Buiça não ser de arma usada pelas forças policiais portuguesas da época é sugerida sem grandes explicações. São observações apenas, uma vez que o livro é mais dedicado ao romance entre o príncipe e a brasileira do que à política.
Por seu lado o trabalho do revisor Henrique Tavares e Castro não ajuda e permite que se verifiquem inúmeras gralhas, repetição de palavras e, por exemplo, na página 51 encontramos um embatese num muro e na 113 há uma imdemnização.
A tradução, da dupla Irene e Nuno Daun e Lorena, também podia ter tido algum cuidado, por exemplo, na confusão entre cognome e alcunha, na página 115 ou em fazer aparecer um valete na 119.
Sem certezas, ficam-me as dúvidas sobre os 45 minutos de Sintra a Lisboa feitos num automóvel em 1907. O rei fazia-se conduzir num Peugeot de 18 cavalos, que vinha lotado… bem, mandemos esta para trás das costas.
Por outro lado, uma das personagens é-nos apresentada como sendo riquíssima, mais até que o próprio rei de Portugal. Ora, na página 101 este mesmo homem, dono de fortunas colossais no Brasil, habituado às lides cortesãs apresenta-se diante da rainha com um fato alugado, razão pela qual lhe estava apertado…
Pergunto-me a mim própria por que razão estas coisas me fazem desinteressar da leitura e não encontro resposta, mas o certo é que me fazem perder o interesse, principalmente se a narrativa se me apresentar com cariz histórico, mesmo que ma anunciem fictícia.
Estes pormenores, para alguns, não têm qualquer importância e os valores do todo levantam-se mais alto; para mim funcionam como grãos na engrenagem da leitura e espantam-me como me espantaria se numa descrição sobre australopitecos um deles perguntasse as horas a um transeunte.
A tragédia da rua do Arsenal, foi editado pela Planeta Manuscrito e li a edição de 2010. 

'Tás a ver?


Dizem os dentistas que os dentes são o que de mais importante temos no corpo: garantem uma ingestão de alimentos adequada, etc., etc. Os otorrinos não nos querem surdos, que isto de não escutar é uma desgraça; os ginecologistas avisam-nos dos imensos perigos que corremos se não os procurarmos com frequência e tal, e cada um na sua especialidade é o número um.
Porém, digam o que disserem, a visão é o que leva mais atenção, preocupação e dinheiro. Por isso mesmo, quando dois médicos me disseram que tinha uma miopia galopante, e vendo-me já numa lista de espera para a operação, com imensa dificuldade em conduzir de noite, em ler legendas na televisão e mais não sei quantas coisas, decidi a sorte de tentar ser operada na clínica espanhola onde o meu pai fizera o mesmo há uns anos, com resultados extremamente gratificantes desde o primeiro minuto.
O preço a pagar pela intervenção era menos de um terço do valor pedido aqui no rectângulo à beira mar plantado, tal como tinha acontecido com as cataratas do meu pai. Nem pensei duas vezes, fui na passada quinta-feira, para ser intervencionada na sexta.
Não contava eu com as tensões que sobem e descem a seu bel-prazer: a ocular estava alta, a arterial estava baixa, os senhores disseram que não operavam e sexta à noite já eu dormia em casa, desanimada e triste.
Nem o bom tempo de sábado me deixou mais bem-disposta e o cinzento de ontem deixou-me na cama mais tempo que o normal.
Ora, tempo não é coisa que se desperdice, há tão pouco!, Vamos lá comprar uns óculos, ficar na filinha pirilau para a operação e não perder tempo a pensar no assunto.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Desgraça


Desgraça é perturbador. Desgraça é profundo. Desgraça é marcante. Desgraça é desconfortável. Como qualquer desgraça, de resto.
Uma das melhores leituras dos últimos tempos, violento e determinado, cru. Desgraça tem um nome perfeito, melhor que racismo, que conflito, que violação, que culpa, que destruição, que vazio, que obsessão, porque Desgraça é tudo junto e muito mais.
A África do Sul aparece-nos negra, mais pelos conflitos do que pela pele. Franzimos o sobrolho ao protagonista mas temos pena dele; franzimos o sobrolho à teimosia da filha, mas também sentimos que faz o que está certo; franzimos o sobrolho perante a eutanásia dos animais mas acabamos por encolher os ombros.
No fim pensamos com todo o vigor e força da nossa perfeita estupidez: ufa, ainda bem que a África do Sul está lá tão longe!
Desgraça é um encontro com cada um de nós, cá bem no interior, uma reunião com o medo, um assomo a incompreensões, principalmente europeias que não conhecem as raízes da situação.
Devia ser obrigatório ler a Desgraça de J. M. Cootze, no fundo, a nossa desgraça, porque contém verdades que penetram até ao osso.
Lido em edição da Leya, publicado em 2011.
Depois da leitura, em discussão sobre o abismo onde a Desgraça nos leva, fiquei a saber que Steve Jacobs filmara a história com o poderoso John Malkovich como protagonista. Não vi, mas fiquei curiosa.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Pensamento positivo


Uma das memórias mais persistentes ao longo da minha vida é a de ir visitar o meu pai ao hospital. Perdemos a conta às operações, desde um simples arrancar de amígdalas até ao corte e costura das veias das pernas, um trabalho de patchwork cirúrgico, em cujo último acrescento fomos informados que já nada havia a fazer. A partir dali era cortar. Um pé.
Esta espada sempre pairou sobre as nossas cabeças como as nuvens altas que levam chuva mas vão descarregá-la noutros locais. Até um dia. Não se fala desse dia, não vale a pena, é ir vivendo 24 horas de cada vez e deixar o tempo passar.
Vai chegar uma altura em que a nuvem não se afasta e larga uma borrasca em cima de nós. Esse dia tem vindo a aproximar-se, sorrateiro, e agora manifestou-se oficialmente sob a forma de obrigação de nova operação, ainda em Janeiro.
Concientes das implicações, estamos em pânico. Damos força ao doente mas por dentro arrepiamo-nos até ao último osso e contemos a vontade de chorar.
Sabemos que há coisas piores mas neste momento esta é a pior de todas.
Imaginamos o amanhã com cadeiras de rodas, com próteses, com mudanças profundas numa dinâmica de vida que hoje é quase normal, fruto da utilização do carro. Pensamos num carro adaptado e no euromilhões para o conseguir.
Pensamos nas nossas próprias vidas e na revolução a que vão ser sujeitas se quisermos que o meu pai continue a fazer parte das saídas, que assista aos jogos de andebol do Duarte, aos de pólo aquático do meu sobrinho, que possa ir visitar amigos, ao café, de férias,…
A última semana foi desgastante para mim em termos de trabalho e esta notícia arredou-me da vontade de falar e até de escrever, como se meia dúzia de palavras tivessem o condão de nos paralisar os braços, as pernas, o pensamento, a vontade própria.
Faço um esforço para me concentrar em tudo sabendo que a minha condição de bibliotecária, e não de médica, não me fará dar ajuda substancial mas desajudarei, e muito, se ficar a moer o assunto.
Lembro-me do meu querido M., agora em Angola, e dos seus conselhos valiosos face a qualquer coisa sobre a qual nada podíamos fazer. Tento segui-los com pouco sucesso, mas com muito esforço e empenho: dispersar o pensamento, agarrarmo-nos a mil coisas e instituí-las como essenciais no nosso cérebro; aceitar dez trabalhos diferentes em simultâneo, estar com amigos e beber uns copos. Confesso que me apetece e muito… mas por ora entrego-me ao trabalho que, convenhamos, me tem ajudado bastante e nunca me agradou tanto uma onda assim como agora.
Pensamento positivo e esperança, convenço-me eu, rapariga sem fé pois, na verdade, quem tem fé não pode ter esperança. Mas isto são outros quinhentos para outro dia. Fiquemo-nos pelo pensamento positivo.

O dançarino


A jibóia gorda que é o metro está parada na estação inicial. 
A leitura absorve-me assim que abro o livro mas não é suficientemente forte para me afastar a atenção de um jovem que dança diante do vidro.
Ouve-se o pi que anuncia o movimento das carruagens e que me parece passar despercebido ao rapaz, que mantém uns auscultadores nas orelhas.
Ziguezagueando no meio do túnel a escuridão apodera-se do bicho e transforma os vidros em espelhos. O rapaz aproveita e observa o seu reflexo repetindo gestos que lhe devem ser facilitados pela música que ouve, baixa e não partilhada com os restantes passageiros.
Está absorto, sozinho e repete movimentos, inclina a anca, levanta os calcanhares, dobra os pulsos, vira a cabeça e volta a repetir, descontente e persistente.
A carruagem segue mais silenciosa que o costume, olhos postos no dançarino, imune aos curiosos. 
Com a entrada de mais e mais passageiros o palco diminui mas ele não desiste e continua a usar o vidro como espelho para se auto criticar na encenação que pratica.
Meia dúzia de estações mais adiante, e já só a simular movimentos de ombros, pescoço e cabeça, baixa-se graciosamente como se fosse fazer uma vénia. Apanhou a mochila e saiu deixando a carruagem muito mais pobre. 

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Andar sem parar


Fora as mariquices científicas, o dia tem 24 horas, 1440 minutos e 86400 segundos.
Tendo em conta que o meu despertador tocou às 8 da manhã e é uma da tarde e o pedómetro marca um quilómetro e quatrocentos metros e 2119 passos feitos, em 23 minutos, conclui-se que estive parada 277 minutos, dos quais muitos foram sentada!
Isto não pode ser e tem de mudar, recuso-me a dar pontos à cadeira, seja a verdinha diante da secretária, o banco do metro, a poltrona no gabinete do chefe diante da sua mesa, a de costas altas na mesa de reuniões ou o banco de trás do táxi.
A nossa natureza é andarilha, andámos nove meses no embalo no quentinho da barriga da mãe, mais uma série deles ao colo e é assim que nos sentimos bem. As mães africanas trazem as crianças às costas prolongando aquele baloiço como se não consentissem a separação dos filhos em idades tenrinhas.
Andar é natural e saudável e poucas coisas há que me fazem sentir tão bem. Com cerca de 15 quilos a menos, ando ainda mais e melhor e agora vem um médico dizer-me que ando demais e que devo parar.
Não acredito nisto e recuso que me esteja a acontecer. 
Já marquei consulta em Pandora com um especialista médico cuja fama passa planetas e apenas é acusado de deixar os doentes azuis, mas eu não sou racista e vou lá hoje à tarde, o que me dá tempo de sobra para regressar a tempo da consulta no Hospital de Santa Marta, marcada ontem, para dia 7 de Fevereiro. 
Tenho tempo para morrer e ressuscitar que ainda vou a horas de me sentar na sala de espera e ler o jornal de fio a pavio. 

A Guerra dos Hobbits ou dos Anéis ou isso


Há realizadores de cinema que parecem querer contrariar a tendência da sociedade actual, uma sociedade apressada, parecendo estar permanentemente atrasada, razão pela qual precisa de se despachar.
Computadores, telemóveis, ipad’s, iped’s, ipid’s, ipod’s e ipud’s, micro-ondas, carros, tudo tem de ser rápido que nem flechas. Não, as flechas são de outro tempo e muito lentas, rápidos que nem um processador XPTO, assim é que é.
Ninguém espera, porque isso era tarefa de antigamente, agora é já, imediatamente, ontem. O passado não interessa, o futuro, a bem da verdade, também não, o presente é tudo.
Se a saga da Guerra das Estrelas começou no fim e voltou ao princípio, com um interesse enorme dos fãs, o Senhor dos Anéis não se ia ficar atrás: chegou o Hobbit, que já todos conheciam mas ainda cá não estava,  uma espécie de D. Sebastião de quem já todos ouvimos falar, que viveu no passado, mas ainda há-de chegar.
Este andar para trás não é só um passo ou outro, são logo três de seguida, também à imagem da Guerra, com grandes viagens pelo meio, daí isto demorar três filmes. E se uns viajam pelo universo os outros não fazem a coisa por menos, pois a distância do Shire até à Lonely Mountain pode ser mais pequena que de Tatooine até Alderaan, mas os tipos são anões, caramba!
Gosto muito de Jedis, em especial aquele Qui-Gon Jinn, ai as tranças que eu lhe fazia naquele cabelo…, mas adoro um bom feiticeiro acima de tudo. Adoro eu e toda a gente, embora isto das feitiçarias não seja mais do que informática avançada, pois no fundo, no fundo uma varinha mágica não é mais do que um rato esbelto e sem fios.
O Gandalf, que não é nenhum nerd, precisa é de um guarda-roupa novo, não por usar saias, mas por as usar tão compridas, que aquilo não dá jeito nenhum para fugir e fugir é qualquer coisa que eles andam sempre a fazer. A mim não me espanta que fujam, que também eu fugiria daqueles orc’s e daquela gente, o que me impressiona é que nunca se cansam!
Se por mais não fosse, os Feiticeiros ganham a batalha com os Jedis por causa de um pormenor, e é nos pormenores que reside a diferença: usam chapéu, um chapéu à moda de Simon Templar cujo cabelo nunca saia do lugar, ou do Agent Smith, que garantidamente usava a mesma laca, pois pode ventar o vento e granizar o granizo, seja a tempestade épica ou estelar e o chapéu de Gandalf mantêm-se na sua cabeça, sem perigo de se perder, como ia acontecendo já um par de vezes a Indiana Jones.
Por falar em Indiana Jones, ele é Han Solo da Guerra – seis filmes seis, como anunciaria um bom cartaz tauromáquico – e Simon Templar é Bond – vinte e dois filmes vinte e dois – e Smith - três matrixes três - é Lord Elrond, ou seja, nós bem queremos heróis, mas isto é como na política, mudam os nomes, os cenários, mas os tipos são sempre os mesmos.
Entre Jedis e Feiticeiros há bicharocos de eleição: Chewbacca e Gollum, com evidente vitória de Chewie, não só pelo tamanho, mas essencialmente pela pelagem. Sméagol podia ter um anel mas o co-piloto do Falcão Milenário é super fashion e as suas palavras são uma verdadeira inspiração!

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

O mercado da Brandoa


É Domingo de manhã. Não tenho carro que me leve até à areia da praia e daí possa dar asas aos pés durante alguns quilómetros. Bem, o que não falta na cidade da Amadora são estradas e ruas e caminhos, por isso, vamos embora.
Dou por mim a andar em direcção à estação de metro e com o aproximar vejo gente com sacos e saquinhos e lembro-me: é dia de mercado da Brandoa.
Quando viemos morar para Lisboa ficámos na casa de um tio meu que estava em África; entretanto fomos vendo casas com sucessivas recusas peremptórias da minha mãe face às sugestões do meu pai:
Buraca! Qué lá isso? Com um nome desses nem dá para calçar saltos!
Porcalhota! Bento! Só podes estar a brincar…
Brandoa! Brandoa… vamos lá ver isso…
A viagem foi de comboio até à Amadora e dai de táxi – ou melhor, de táx… - para a Brandoa. Chegados lá, a senhora minha mãe põe um pé fora do táxi no meio do maior lamaçal de que há memória e perde um sapato, assim, sem mais nem menos, sapato que nunca se encontrou naquele mar de lama. Eu nem cheguei a sair do táxi.
E assim se riscou a Brandoa do mapa e ficámos nesse outro maravilhoso subúrbio que se chama Cacém.
Isto para dizer que associo Brandoa a lama e assim será durante os próximos cem anos, mesmo que lá passe de carro com muita frequência.
Sou habituée do mercado do Algueirão, pelo-me por uma boa feira e na Brandoa revivi Belleville. Quem diz que conhece Paris e nunca foi a Belleville não conhece nada, nadinha, zero!
Com um morro afavelado lá atrás, vizinho da estação de metro, a Brandoa pode meter medo a uns quantos, mas a mim, pelo menos o mercado, fascina-me: brancos e pretos e chineses e indianos e barracas de couratos paredes meias com os montes de roupa e fumo dos choriços assados ao lado de hortaliças lindas de comer e plásticos e meias e cuecas e tudo!
É neste mercado que mora o Fanan, o verdadeiro Fanan, aquele que aparecia num programa de televisão em frente de uma roulotte, com casaco de pura pele de crocodilo, rabinho de cavalo, bota bicuda a esconder a peúga branca.
Os Fanan’s deste mundo conhecem as cervejas por bejecas e enfardam bifanas enquanto o crucifixo lhes balança ao pescoço e o mindinho levantado ostenta um anel de ouro… ou isso; são reis e senhores nas suas enormes gargantas e, se fosse de Verão, ainda iam dar uma cacholada a Carcavelos.
Vi belos exemplares de ladies em fato de treino e sapatos que atestam a genuinidade do local, onde voltarei, como é óbvio. Não faltavam pechinchas, faltava-me a mim o carcanhol, caso contrário viria de lá envolta num casaco de pele de leopardo, calçada com uns Manolos. Não por causa da lisura da carteira mas pelo incómodo do transporte – a pé! – não comprei nenhum ramo de hortaliça, embora fossem de meter pelos olhos dentro.
Planeia-se já nova incursão, desta feita em excursão com amigas a reboque. Não posso falar muito se não ainda tenho mesmo que alugar um autocarro.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Razão de ser


Independentemente de aqui aparecerem textos novos todos os dias ou não, não se passa um dia sem que dê ao dedo. É uma coisa visceral, ler e escrever.
Já desisti de tentar editar seja o que for, e embora continue a escrever romances, guardo-os, como guardo as famosas botas que já correram mundo. Um dia ficarão para alguém que lhes dará o fim que entender e como escrevo como se fosse uma impressora das mais básicas, apenas de um dos lados, sempre se pode usar o outro lado como papel de rascunho.
Já esqueci as incitações dos amigos que me chagam para que edite a estória de Carmem, as colecções de mini contos, os livros infantis ou A rapariga que não gostava de livros com as capas dobradas, completo, do qual há por aqui vários capítulos.
Sobre esta matéria quero aproveitar para agradecer a todos os que me escrevem a pedir o final e informar que falta muita coisa pelo meio.
Porque se sente esta necessidade de partilha? De querer que outros estejam connosco nesta coisa que é escrever e ler? Neste casamento tão perfeito que até a perfeição o inveja?
A escrita é uma forma de dádiva, e não me refiro ao saber escrever, mas ao acto de dar aos outros. No meu caso, no deste blog em concreto, é uma necessidade de partilhar sim, mas também de rever o dia-a-dia, as relações entre as pessoas, de apanhar situações que me fazem rir, pensar e reflectir, reclamar, emocionar, recordar, e tudo em público, de forma aberta e partilhada.
Não deixo de me rir quando me dizem que o Areia às Ondas é um reality show com a diferença que não é em directo… Sim, é um diário que é lido aqui em Portugal, mas também em Macau e na Argentina, em Angola e no Brasil, na Noruega e nos Estados Unidos, em Israel e na Alemanha, na Dinamarca e na Coreia e, não sei dizer porquê, com imensas visitas originárias da Rússia.
Mencionei apenas os países que registam um maior número de pegadas neste areal, mas outros há, e que aqui não se leia qualquer desprezo, qualquer preferência da quantidade sobre a qualidade. Por exemplo, veio de Espanha a mensagem mais engraçada que já aqui recebi, da Venezuela um pedido para reproduzir textos, do Chile, ai o Chile, um dia vou ser tão feliz no Chile, um abraço enviado por que si, como dia o remetente.
Curiosamente, ou não, de Portugal vieram dois pedidos, dois, para retirar textos. Que não eram verdadeiros, que ofendiam, que devia ter cuidado com a prosa. Falo agora desde assunto pela primeira vez pois a importância que lhes dei foi nula e a única cosia que apaguei foi um comentário, de um amigo, que escreveu o meu nome e fez várias referências pessoais, desnecessárias na minha opinião, e assim lho comuniquei quando retirei o comentário.
Tem havido interacções directas com portugueses, que muito prazer me dão, desde logo com um certo ladrão de livros que se deu ao trabalho de vir a Lisboa conhecer-me; com um leitor a quem eu emprestei um livro meu – contra todas as minhas regras!; com autores de livros que leio; com pessoas simpáticas que me dão o prazer de enviar umas linhas – por exemplo a dizer Boas Festas.
De todos, realço uma visita quotidiana, uma amizade de muitos anos, uma pessoa que vive sempre comigo embora a sua natureza de cidadão de mundo, e o asco pelo Portugal que temos, o leve a constantes viagens por esse planeta fora, o V.
A todos agradeço o acompanhar neste percurso.

Amar ou odiar


Amar ou odiar
Ou tudo ou nada
O meio termo é que não pode ser
A alma tem de estar sobressaltada
Para o nosso barro sentir; viver
Não é uma Cruz que não se queira pesada
Metade de um prazer, não é um prazer!
E quem quiser a vida sossegada
Fuja da vida e deixe-se morrer!
Vive-se tanto mais quanto se sente
Todo o valor está no que sofremos
Amemos muito como odiamos já!
A verdade está sempre nos extremos
Pois é no sentimento que ela está.

Fausto Guedes Teixeira

Noite branca


Ontem à noite estava uma claridade inusitada. Fumando um cigarro à janela da cozinha vi pormenores do prédio em frente que nunca tinha visto em dias de sol. 
Chamei o meu filho que me disse que eu estava a alucinar.
A noite era branca, luminosa de tal forma que me deu medo. De quê? Nem sei, mas senti um arrepio de anormalidade.

Chico, grande abraço!


Já ouvi dizer que ser-se chic é ser um aristocrata da aparência. Há quem esteja chic de vez em quando – eu, raramente, mas já aconteceu – e há quem seja chic, de maneira inata. A minha prima Natércia é, definitivamente chic, mesmo que esteja de ressaca, com enormes olheiras e com o cabelo todo revolto. Nunca a vi assim mas acredito piamente que mesmo nessas condições ela mantenha um ar elegante, um porte distinto e um estar refinado.
Ora chic é uma palavra estrangeira que aportuguesada dá, obviamente, Chico! Provas disso são várias.
Comecemos por um dos mais famosos Chicos portugueses, o Chico do Cachené, que não só usa o dito cachené, um chapéu às três pancadas como remata com calções à marialva. Não será isto chic? E como não havia ele de por o bairro em alvoroço?
Outro Chico bem conhecido, o Chico Esperto, é ainda mais português que o anterior e não há alma lusa que não partilhe um pouco desta chiqueza. Adoro pensar num Chico Esperto de meia branca, anel no mindinho, crucifixo estampado no peito e amor de mãe expresso a azul num braço.
Outra prova irrefutável encontra-se no filme a Aldeia da Roupa Branca. Os aldeãos vibram com a chegada de um conhecido que vem da glamorosa cidade. E como se chama o filho da terra que vem visitá-los, bem vestido e garboso? Chico, pois claro! Gritam em uníssono Chegou o Chico, chegou o Chico!, que não podia ter outro nome, evidentemente. Qualquer outra das personagens não era digna de chegar de parte alguma: Jacinto, Luís, Zé ou Simão? Nenhum tem aquele dobrar de língua das duas consoantes que abrem o célebre nome, Jacinto é nome de aldeão, Luís é suave a mais da conta, esbate-se na boca, Zé é muito curto e Simão rima com cão!
Como se isto não bastasse, veja-se o caso de Chica da Silva: escrava alforriada e senhora da sociedade de Diamantina, com influência e poder. As perucas e roupas europeias, os modos, as casas, enfim tudo, eram de uma chiqueza que não poderiam pertencer a uma Maria qualquer e não é por acaso que se chamava Chica!
Mas as provas não ficam por aqui. Chico era o nome de uma moeda, de ouro, pois claro, no tempo dos cruzados. Alguém se lembraria de fazer uma moeda Manel ou Jaquim? Ah pois é, mas havia uma Chico!
E quem não se lembra do Chico Fininho? O Chico não caminhava, repare-se, gingava! E lá por se meter nas retretes não perde fineza, lá está, pois para além de ser fininho, é Chico e ser-se Chico é ser-se refinado.
E que dizer da lenda de Chico Rei? Rei! Nem Conde nem Marquês, Rei!
E como de pequenino se torce o pepino, onde é que as pessoas de bem compram os produtos para os seus bebés, onde? Na Chicco! Os dois cês não são por acaso, destinam-se a ensinar a criançada a dizer as sílabas de forma separada, a marcá-las bem. Quando crescem largam as fraldas e deixam cair um cê.
Conclusão, digam lá o que disserem ser-se Chico é a essência e a nobreza do chic!

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Mãe é mãe


A minha tia R. tinha um filho que desde cedo quis ser médico. E foi, escolheu a ortopedia como osso do ofício, para além de ser adepto do fê cê pê dos quintos costados e filiado no pê cê pê com todos os ossos.
As minhas férias no Norte marcaram-me essencialmente por causa dele, uma das pessoas mais incríveis que já conheci, sabendo de tudo o que há no mundo, grande viajante – não turista, viajante mesmo – dono de um humor único e de uma enorme boa disposição, maior que ele, e se era grande com os seus cento e não sei quantos quilos e um bom metro e noventa de altura.
Numa ocasião o T., já casado, com filhos, com consultório e a dar consultas no hospital, apanhou anginas. Os meus tios tinham-me levado a jantar em casa dele e a tia R. assim que o viu disse-lhe que estava doente, apalpou-lhe a garganta, diagnosticou uma enorme camada de papeira e mandou-o para a cama, com toda a experiência e conhecimento que detêm as mães donas de casa, como ela.
O T. rindo-se disse-lhe que não sabia que a mãe era médica, que agradecia a consulta, mas já estava medicado e não havia problema.
O jantar decorreu entre mil conversas, quem melhor do que ele para fazer de uma fatia de pão com manteiga um opíparo jantar onde se engoliam as palavras e se saboreavam as histórias que tinha sempre para contar. De vez em quando e a propósito de nada a mãe lembrava-o que estava com papeira e ele retorquía  sempre calmo, que eram anginas.
Ao fim da noite, fomo-nos embora e ela ainda lhe gritou lá de fora que se metesse na cama para curar a papeira.
Quis o azar que o T. morresse cedo de mais para nós que aqui estamos, mas isto é só um pormenor porque força daquela não morre nunca dentro do nosso peito.
A minha mãe anda numa de tia R. e discorda da dieta que a nutricionista me recomendou: pão? Onde é que já se viu?
Explico-lhe – pela enésima vez – que como mil vezes ao dia e que o pão é o ingrediente principal logo de manhã para dar saciedade e que volto a comê-lo a meio da tarde. Ela não concorda e apesar de eu ter muitos quilos a menos, ainda podia ter mais, segundo ela, se me deixasse de gulodices.
Pergunto-lhe, como o T., se ela é nutricionista e diz-me, com falsa calma, que não, eu bem sei que não, mas mesmo os médicos e nutricionistas não sabem tudo, como eu também sei e se não sei devia saber! Sim mãe…
A senhora minha mãe, que é a elegância – e a vaidade… - em forma de gente, pesava 89 quilos quando tinha a bonita idade de 11 anos… Fazendo jus ao provérbio era considerada a rapariga mais bonita da aldeia e qualquer um - o meu pai, amigos ou amigas de infância e adolescência são todos unânimes -  reage quando brincamos e dizemos que ela era a única rapariga da aldeia… Não, não, era mesmo linda, dizem em coro.
Era muito estouvada também e pensamos que era a dose de loucura que lhe dava o brilho que todos confundiam com beleza, mas não se insiste. Um dia achou que era gorda – a sério, mãe? – e fez uma dieta que a enfiou num vestido de noiva cuja cintura se agarra com as mãos, e lindo de morrer, diga-se de passagem.
Nunca mais foi gorda e vive infeliz e de mal com os quilos a mais das filhas, principalmente com os meus que eram muitos. Agora anda satisfeita mas quer mais e mais depressa e bem a vi conter-se quando provei os sonhos e as azevias e por isso me receita que não coma pão.
Minto-lhe e digo que já não como pão? Imponho-lhe a vontade da nutricionista? Sigo o seu conselho e retiro o pão?
Não quero fazer nada irreflectidamente e o melhor é pensar com calma nesse assunto, por exemplo, enquanto como uma açorda.

Mensagem de Natal


No dia de Natal levantei-me cedo, vim para Lisboa para que o Duarte passasse o dia com o pai e com a sua família. Tendo o dia livre já me tinha disponibilizado para trabalho voluntário e acabei por fazer visitas no hospital a pessoas que não conhecia. Duas delas nem se aperceberam que ali estava alguém, que lhes aconchegou a roupa, falou com elas e lhes fez companhia.
O que mais me custou, o que me fez peso, um peso do tamanho do mundo, foi os olhares dos familiares e amigos dos outros doentes, os que tinham família e amigos que os foram visitar: olhavam-me como se eu fosse marciana e olhavam as pessoas a quem eu fazia companhia como se… é difícil explicar e posso estar enganada, mas olhavam-nas como se tivessem peste, como se não ter alguém que as visite de mote próprio fosse uma coisa terrível, uma doença contagiosa mais contagiosa que qualquer doença catalogada nos canhenhos médicos.
Confesso que não foi fácil. Não foi fácil sentir a solidão ali tão sólida, no corpo fraco e quebradiço de velhas mulheres, transformadas em fantasmas vivos daquilo que foram.
Uma delas sorria não sei a quem. Eu não sei, mas tenho a certeza que ela dirigia o sorriso de forma directa, a alguém que amava e que, provavelmente, esperava encontrar. Não sei, mas sei que ela sabe e isso chega-me.
Hoje recebi uma retribuição.
Não sei porquê perde-se informação importante que cai na caixa de spam. Foi o caso de uma mensagem de Natal muito especial: era dirigida a mim, a mim mesma, com explicação da razão de alguém desconhecido me enviar uma mensagem de Natal.
Adorei, pois claro!
Menciona esta pessoa que na sequência da leitura de Presépios para todos os gostos lhe ocorreu escrever-me, ou seja, não foi uma mensagem automática; não o fez porque, não sabendo como ocupar o tempo, resolveu gastá-lo assim; não o fez porque se sentiu obrigado; não o fez porque calhou; não o fez porque toda a gente faz.
Fê-lo porque quis, porque sentiu vontade de, apesar de não me conhecer, me desejar Boas Festas.
Isto não é magnífico? Uma mensagem genuína de estranho para desconhecido, sem dívidas nem deveres! Não, não é uma maçada receber mensagens de Natal de quem não se conhece, é um privilégio se elas nos são dirigidas com todas as letras!
É uma surpresa, das boas, com a qual não contamos, é um presente. De Natal ou de outra qualquer altura, mas é um presente.
Lembremo-nos que o passado já não existe e quando existia, era presente; que o futuro ainda está para vir e quando isso acontecer será presente, ou seja o presente é aquilo que realmente temos, é uma dádiva e por isso sinónimo de prenda, de oferta, de oferenda.
E acontecendo recebermos mensagens assim são diamantes puros feitos de alegria, são rubis com emoções, são esmeraldas cor-de-rosa, a cor dos sonhos. Obrigada. Escreva sempre. 

I Gave My Kids a Terrible Present


Assisti a um vídeo no Youtube que me deixou com vontade de pregar umas estaladas bem assentes.
A ideia era ver como reagiam algumas crianças quando lhes davam presentes de Natal que nada tinham em comum com o presente típico para uma criança. Assim foram desembrulhadas duas enormes batatas, uma banana meia podre, um frasco de gomas vazio, um desodorizante, um rapaz recebeu uma Barbie e um outro, uma camisola com uma qualquer boneca estampada entre outros na mesma linha.
Fiquei estupefacta com as reacções e algo me diz que os organizadores da brincadeira não ficaram e estavam à espera daquele resultado.
Os gaiatos gritam e berram, clamam que odeiam os pais, querem bater-lhes, choram baba e ranho em ataques de raiva que parecem cães a ser atacados por dores inacreditáveis de tal forma choram e gritam.
As estaladas anunciadas nas primeiras linhas não eram para as crianças mas para os paizinhos que as fizeram assim. A nenhum miúdo ocorreu que podia ser uma partida, uma brincadeira, evidenciando uma anormalidade assustadora.
A expectativa gorada não se manifestou em tristeza ou desânimo, mas antes em raiva pura, em descontrolo total, em manifestações de ódio gritado com as veias do pescoço em riste, numa fúria que os assemelhava a búfalos picados. As prendas são desprezadas e atiradas para longe para mostrarem o seu descontentamento.
Quem são estas crianças? Quem são os pais destas crianças que os criaram como lobos esfaimados que, à vista de uma peça de carne que afinal não se revela comida, reagem como animais irracionais mordendo tudo em seu redor?
Igualmente tomava balanço e pregava uma morraças em alguns dos comentadores como por exemplo num que afirma não gostar de ver estas coisas pois não gosta de ver crianças a chorar. Outro diz que não chega tê-los trazido ao mundo como também têm que lhes destruir o Natal e nesta frase está tudo, como é óbvio: o Natal é receber, receber, receber, prendas, prendas, prendas, muitas, muitas, muitas…
Pai Natal… eu nunca te pedi nada e agora que o vou fazer agradeço penhoradamente que acedas ao meu pedido: passa-lhes com o trenó e com as renas por cima! Ah, e não te esqueças de todos os que se estão a rir!

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Garreia de cães


Por vezes esqueço-me do livro e não tenho outro remédio senão ir a olhar para as pessoas no Metro. Outras vezes levo o livro mas as pessoas falam de tal maneira que não tenho outro remédio senão ouvi-las. 
Eu ouço-as, as pessoas que vão ali nas redondezas ouvem-nas, a carruagem inteira as ouve, mas garanto que elas não se ouvem a elas próprias.
Qualquer um pensará que são surdas ou velhotas. Errado.
Há dias iam três senhoras, pela conversa professoras do primeiro ciclo, todas na casa dos trinta e tal anos e, literalmente, todas a falar ao mesmo tempo, sem esperar resposta e sem interrupção. Aquilo sim merecia ser filmado.
Às tantas percebi que não eram professoras, eram lunáticas fugidas de um hospício. Talvez já tivessem sido professoras ou talvez quisessem ter sido professoras, qualquer coisa do género, mas serem professoras, não podiam ser.
Uma atenção bem atenta e concentrada revelava que falavam da mesma coisa, da mesma escola, diziam os nomes dos mesmos miúdos e referiam-se aos pais desses miúdos, mas tudo ao mesmo tempo como se estivessem num concurso para ver quem falava mais e mais depressa.
Nesse dia eu levava um livro, que seguia fechado, e ia fascinada pelo trio professoral, cada qual com sua louca oração de sapiência, apressada e desprovida de sentido.
A coisa era de tal forma que de repente uma delas disse a outra que já tinham passado o Colégio Militar, estação onde a amiga devia ter saído. Ela calou-se uns milésimos de segundo, parecendo estar a processar a informação, voltou a encarrilar no solilóquio e nem deu resposta à outra que, por sua vez, fez a mesma coisa.
Duas ou três estações mais adiante saíram as três em permanentes e paralelos monólogos, virando a cara sucessivamente, como para dar a ideia que falavam umas para as outras, e o comboio continuou a sua marcha.
Um velhote que seguia sentado frente a mim olhou-me e disse:
- Livra, parecia uma garreia de cães!
Desatei a rir pela oportunidade da expressão mas também pela lembrança, pois era uma coisa que o meu avô dizia muitas vezes. 

Serviços de limpeza Faça Você Mesma


A limpeza e arrumação do mau vasto palacete são feitas por mim e pelo Duarte com uma ajuda da minha mãe. Não foi sempre assim, e tempos houve em que tinha uma empregada que passava a ferro e limpava a casa. As casas onde tenho morado ultimamente têm diminuído de tamanho, éramos três e agora só somos dois e, acima de tudo, não há dinheiro, pois se o houvesse, pagaria a alguém para fazer o que detesto: arrumações.
A primeira pessoa que contratei com este objectivo andou lá por casa o tempo que demorou até descobrirmos por que razão a conta do telefone era de vários contos de réis, quando nós nunca estávamos em casa.
Quando, finalmente, a Companhia nos enviou uma lista de números para os quais alguém ligava durante o dia, e durante hora e meia seguida!, verificou-se pertencerem todos à mesma aldeia de onde era a senhora, sendo muitos dos telefonemas para casa dos pais e vários outros para a restante família.
Para não haver confusões o dinheiro pago ao final do mês era sempre dado em mão e fui a casa dela, não pagar-lhe, mas pedir-lhe o que faltava face à factura do telefone que levava na mão. O marido da dita correu comigo aos gritos com um sortido de palavras pouco simpáticas, faltando-lhe apenas a espada em defesa, não sei se da sua amada ou da sua reduzida conta telefónica durante os meses que a esposa trabalhara na minha casa.
A segunda era a D. Maria e esteve connosco vários anos apesar de uma enorme incompatibilidade entre as mariquices que eu tinha em cima dos móveis e a sua própria natureza e hábitos: a D. Maria era uma pessoa do campo e limpava o pó olhando gulosa para o quintal que lhe dirigia um chamamento silencioso para que o fosse cavar. E ela ia com alguma frequência, fazendo a lida da casa em velocidade acelerada e tratando do quintal com esmero de mãe e muitos mimos.
Numa ocasião visitei o Teide e carreguei com umas pedras de 3700 metros acima do nível do mar até casa, que muito trabalho me deram a manter durante a viagem. Aterraram em cima da lareira durante uma semana e foram parar dentro da lareira assim que a D. Maria lhes pôs a vista em cima! Quando perguntei pelas pedras ela não sabia de nada, mas depois lembrou-se de qualquer coisa: sim, de facto estavam uns carvões em cima da pedra da lareira, com certeza fora o Duarte, que ainda era pequeno, que ali os pusera, mas eu que não me preocupasse que ela tinha limpo tudo... 
A D. Maria morava perto de mim, numa casa isolada com uma cerca de arame a toda a volta, arame que ninguém saltava a menos que quisesse travar amizade com a meia dúzia de cães que lá moravam também, todos de dente afiado e doidinhos por morderem alguma coisa ou alguém. À pala deles apanhei grandes molhas à espera que a D. Maria, o marido ou uma das filhas ouvissem a campainha, descobrissem as chaves, percorressem a distância até à porta e atravessassem a pradaria que ficava entre a casa propriamente dita e a cerca que punha os intrusos à distância, para lhe pagar.
Muitas das vezes, lá do alto de uma janela que abria para ver quem era, gritava-me que entrasse, que o portão estava no trinco. Entrar? Eu? Tá quieta!
A D. Maria era excelente pessoa mas fraca empregada e começou a acontecer vezes a mais da conta eu ter que limpar o que estava supostamente limpo; assim, com grande dificuldade face a tantos anos de relacionamento e aproveitando as queixas de cansaço dela, disse-lhe que prescindíamos dos seus serviços. Felizmente não houve dramas e com surpresa minha fiquei a saber que ela própria queria deixar o trabalho, mas não sabia como havia de me dizer.
Depois contratei uma senhora que era o oposto da D. Maria e recantos da casa houve que foram lavados e limpos pela primeira vez na vida. A casa andava um esplendor, as horas semanais eram pouquíssimas e pagas mais baratas que as da D. Maria. Um mistério.
Um dia cheguei mais cedo e a senhora ia a sair. Por mero acaso reparei que tinha acabado de passar uma camioneta e ofereci-me para lhe dar boleia pois a minha casa ficava afastada de tudo e qualquer pão tinha que ser comprado de carro. A senhora agradeceu disse que não era preciso pois ela ia e vinha sempre a pé. A pé? Mais uma razão para lhe dar boleia. Fui levá-la no meio de muitos agradecimentos e antes de a deixar em casa já tinha mentalmente decidido aumentá-la e pagar-lhe o passe da camioneta: demorei cerca de vinte minutos a chegar a casa dela e percebi que aquele percurso era feito a pé quatro vezes por semana, com chuva ou com sol.
Na semana seguinte deixei-lhe uma mensagem num papel, para não a constranger com conversa, dizendo que ali ficava um adiantamento em dinheiro para os bilhetes até ao fim do mês e que se fosse inteirar do valor do passe, que eu pagava. Nessa noite lá estava a mensagem e o dinheiro em cima da mesa da cozinha tal como os tinha deixado. Porque não os teria aceitado? Bom, falaria com ela no fim do mês. Assim, uma semana e meia depois cheguei mais cedo propositadamente e perguntei por que razão não aceitara a minha oferta. Qual oferta…?
Ela vira o dinheiro e a mensagem mas como não sabia ler nem lhe passou pela cabeça que fosse para ela.
Esclarecida a coisa, voltei a levá-la a casa onde a deixei feliz com um aumento inesperado e com dinheiro para andar de camioneta. Quem ficou infeliz fui eu quando, meses mais tarde, ela nos disse que se ia embora pois o marido arranjara emprego no Algarve, para onde se iam mudar. No último dia de trabalho fiz questão de estar em casa para me despedir dela. Quando cheguei toquei à campainha, ela abriu e chamou um homem que estava dentro de um carro parado à minha porta. Era o marido que vinha dar-se a conhecer e despedir-se também, agradecendo muito e manifestando pena em irem-se embora.
Depois veio uma senhora muito tímida que me disse que estava com muito azar uma vez que estivera poucas semanas nas duas últimas casa onde trabalhara: começava e o casal divorciava-se! Esteve três meses lá em casa comigo e não sei ao certo se ficou mais tempo ou não porque… sai de casa. Nunca deixei de me rir com esta coincidência e sempre imaginei que a senhora tinha começado a fazer terapia logo a seguir.
Depois de termos decidido viver juntos de novo, e depois de um interregno em casa dos meus pais, comprámos uma casa nossa e arranjámos outra empregada, a mais divertida de todas!
Ligava-me para o telemóvel de um telefone fixo e dizia:
- Já estou em sua casa, quer que passe a ferro ou que arrume a casa?
- Mas… tem a certeza que está em minha casa?
- Sim, por que pergunta?
- É que eu não tenho telefone fixo e aqui no visor aparece o número da sua casa…
A lata e as estratégias para aumentar as horas de trabalho não ficavam por aqui:
- Olhe, estou aqui no café por baixo da sua casa a beber um cafézinho antes de subir, quer que faça alguma coisa em especial?
Verificado o número de telefone era do café sim, mas de um ao lado da casa dela e não da minha.
Este namoro durou apenas mês e meio e terminou no dia que cheguei a casa e estava um monte de lixo à entrada da cozinha. Telefonei-lhe a saber se tinha havido uma qualquer urgência que a tivesse levado a sair de repente e fiquei a saber que não, apenas tinham acabado as horas combinadas e já não tivera tempo de apanhar o que varrera…
Face a esta resposta perguntei-lhe quando lhe devia e disse-lhe que o dinheiro estava disponível imediatamente. Ainda não tinha decorrido uma hora quando a filha tocou à campainha  tendo anunciado que viera buscar o dinheiro da mãe. Não lho dei e mandei o recado que apenas lho daria a ela própria e na frente de alguém. Não quis e acabou por me pedir que o entregasse à minha amiga que a tinha sugerido e em casa de quem também trabalhava, e ainda hoje trabalha, sem queixas nem reclamações, pois que queixas e reclamações se têm de alguém que até para o estrangeiro nos leva de férias?
A última, a derradeira, foi a Teresa, com quem ainda hoje tenho excelentes relações. A Teresa trabalha numa padaria, entra às quatro da manhã e sai à uma da tarde, tarde que tem livre e durante a qual tem várias casas para limpar. Trabalha que nem uma moira, sempre de sorriso na cara, mesmo com problemas, por vezes graves. 
Começou a ajudar-nos ainda eu era casada e depois ainda passou para outras duas casas onde estivemos  sendo que, na terceira, com imensa pena minha, tive que lhe dizer que não podia pagar-lhe. Ela percebeu, perdi uma empregada e ganhei uma amiga, uma simpatia de pessoa, brincalhona e sempre com uma palavra amável para dar. Visito-a bastantes vezes e vou à padaria só para a cumprimentar e receber um sorriso que sei ser generoso e amigo, puro.
Foi para a Teresa o meu primeiro pensamento quando pensei em contratar alguém para fazer uma limpeza específica lá em casa. O tecto da casa de banho e de uma parte da varanda estão a começar a bronzear-se de tal forma que, ali sim, se aplica uma frase que antigamente ouvia com frequência no fim do Verão, aplicada à minha pessoa e na sequência de bronzeados intensos: estás preta que nem um chouriço!
Pois que nem chouriços estão a começar a ficar aqueles que eram albinos e dando luta às tonturas e a um certo síndroma de Ménière ainda me empoleirei em cima de um escadote mas nada feito.
O Duarte também já pincelou os tectos com um esfregão com lixívia, tarefa onde levou negativa. 
A Teresa mora longe e perguntei à dona do café por baixo da minha casa se conhecia alguém que tivesse disponibilidade para me ajudar, já que durante tantas e tantas vezes que ali estou, a ouço dizer que vai ali toda a gente à procura de trabalho. Que ia saber, disse-me. Três semanas depois desistiu.
Indaguei junto das senhoras que fazem limpezas na empresa onde trabalho, se alguma estaria disponível,  explicando que será trabalho para uma manhã ou tarde, explicação um tanto enfiada pois tenho bom corpo para trabalhar e sinto-me um bocado anormal ao fazer o pedido. Nada. Uma tem uma neta de quem toma conta nas horas vagas, a outra mora do lado de lá do rio, a outra tem uma dor nas costas agora não pode, uma outra - que mora em Odivelas - acha que a Amadora fica muito longe. Ofereço-me para a ir buscar e levar, agradece e reforça o não, diz que não quer incomodar... 
Oh minha senhora, por quem é!, eu é que não a quero incomodar a si!
Isto é o que dá viver em alturas das chamadas vacas gordas! A bem da verdade eu é que não estou a ver bem a coisa e vou fazer como o homem que comprou um carro e passada uma semana foi devolvê-lo alegando que queria um novo pois aquele tinha os cinzeiros cheios. Não vou gastar tempo em limpezas e vou comprar uma casa nova!

Em pinturas


A meio do Verão passado fui coagida pela minha vaidade e curiosidade a usar gelinho nas unhas.
O cor-de-rosa encarniçado durou perfeito duas ou três semanas, mesmo a lavar a loiça e a fazer tudo com as mãos. O problema começou quando me fartei daquilo, tanto mais que, dado o crescimento das unhas, a cor vai avançando dando a ideia não que temos as unhas pintadas, mas que temos as pontas dos dedos cheias de sangue.
Tirar aquilo revelou-se um enorme desafio e passei as férias com manchas ou pintas, conforme o tamanho, nas unhas, que iam saindo à força de fazer pressão com as outras unhas. Aí em meados de Agosto aquela porcaria saiu toda e eu jurei que nunca mais faria semelhante coisa!
E não fiz… conscientemente…
Há dias comprei dois vernizes verdes com o propósito de fazer sessões de pintura de unhas com a minha sobrinha durante as mini férias de Natal. Quando fui pagar a senhora disse-me que quem levasse dois produtos tinha direito a um terceiro gratuito; voltei ao mostrador de vernizes e conclui que tinha as cores praticamente todas, tendo ficado indecisa. Acabei por aceitar a sugestão da senhora que me indicou um frasco com líquido transparente e cheio de minúsculas bolinhas encarnadas e azuis. Ela abriu o frasco e passou uma camada numa das suas unhas e achei aquilo encantador, com a certeza que a miúda ia adorar.
Porém, aquilo que já se sabe provou-se mais vez: a gaiata é mais esperta que eu e, inexplicavelmente, não quis usar o verniz das pintinhas coloridas. Para a convencer usei-o eu mas nem mesmo assim ela quis experimentar. Ainda lhe sugerir, oh ignorância, oh estupidez, que pintássemos as mãos como fazem no norte de África com henna, mas ela recusou.
Assim andei estes dias com as unhas pintadas às bolinhas e ontem à noite sentei-me diante da televisão com a caixa da manicura para apagar o ar festivo dos dedos, mas quem é que diz que as pintas me saem das unhas? Tal e qual como o gelinho do Verão estavam agarradas que nem lapas e nem com a lima se dignaram largar a unha.
Ok, não vão a bem, vão a mal! Usei um dos verdes escuros, três camadas bem dadas, grossas e luzidias e adeus pintas coloridas. Adeus, até nunca mais!