segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Chamem a polícia!


A I. é enfermeira e felizmente que a enfermagem que pratica não recorre a tecnologias por aí além, caso contrário…
Há uns dias ligou o computador e apareceu-lhe uma mensagem de ecrã inteiro que a informava que o sistema tinha detectado caminhos menos próprios por onde ela tinha andado, nomeadamente pornografia e pedofilia. Sugeria-lhe a mensagem amiga que fosse à polícia ou, em alternativa, ao PayShop onde, mediante um pagamento de 100 euros, eles resolveriam a coisa.
À primeira, a I. desligou o computador e voltou a ligá-lo, mas lá estava a mensagem do polícia como quem diz, daqui não saio, daqui ninguém me tira!
À terceira resolveu dar o caso por encerrado e aceitou uma das sugestões que lhe eram transmitidas: foi à polícia!
Enquanto esperava que a atendessem veio cá fora atender um telefonema e eis senão quando, passa um colega, enfermeiro também que, vendo-a à porta da esquadra, quis saber o que tinha acontecido. A boa da I. contou-lhe, o colega riu-se e disse-lhe que aquilo era um vírus, e que o marido dela resolveria o assunto.
A I. foi para casa meia envergonhada por não lhe ter ocorrido tal coisa e ter ido incomodar a polícia por causa de um vírus.
Passado um bocado tocam à campainha: era a polícia a querer saber por que razão a senhora enfermeira se tinha ido embora e em que podiam ajudar. Os meios pequenos têm destas coisas maravilhosas…
Muito envergonhada lá explicou a razão da visita à esquadra e teve que levar com os risos do homem que lhe contou que, só ali, já tinham sido feitas quatro queixas sobre o assunto, reclamando os queixosos que tinham pago o que lhes era pedido e nada tinha acontecido! Ao menos ela foi à polícia em primeiro lugar, consolava-a o homem.
Claro que, quando nos contou, levou com uma sala inteira a rir e a perguntar-lhe se o polícia tinha tirado a pistola, se tinha atirado no vírus, entre outras parvoíces. 
Passada a vontade de rir, desejamos que a polícia apanhe esta malta!

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Casa um é para o que nasce


A nutricionista que me acompanha é simpática qb, não dá confianças mas reconheço-lhe profissionalismo; mais, vejo que por vezes faz um esforço para não perder a paciência, repetindo a necessidade de beber um litro e meio de água por dia – para mim é o mesmo que emborcar o Tejo! – tarefa que me custa cumprir mais que qualquer outra. Ponho-me no lugar dela, penso na quantidade de vezes que tem de dizer a mesma coisa e em como sou parva por não fazer o que devo. Ela não o diz, mas pensa-o e se a mim me irritam as pessoas parvas, porque não a irritariam a ela?
 (Intervalo para beber um gole…).
Já a couch chama-se Miss Simpatia. É uma daquelas pessoas que nascem para lidar com o público e em quem reconhecemos genuinidade em todos os sorrisos, boa disposição verdadeira, como quem trabalha por gosto e prazer e não está a fazer qualquer frete.
Mistura a manutenção da dieta com aspectos da vida pessoal, dela e meus, fazendo da consulta uma conversa de amigas, quase me atrevo a afirmar.
Passa-se meia hora numa leveza enorme e mesmo quando tem a mencionar aspectos menos bons fá-lo de forma positiva e alegre.
Não tenho dúvidas que há pessoas predestinadas a desempenhar determinadas funções e quando acontece a vida fazer coincidir a pessoa com a missão damos por nós a fazer eureka com os olhos. Ainda por cima, ela é uma mulher lindíssima o que abrilhanta ainda mais estas consultas.
Esta senhora devia estar na triagem dos centros de saúde e hospitais para uma conversa prévia com os doentes e se calhar metade deles voltava para casa são como um pêro. 

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Uma história da leitura ou descubra as diferenças


Todos sabemos que a objectividade é uma coisa muito subjectiva. Se mete amigos pelo meio, então, valham-nos os deuses de todos os Olimpos! Tenho uma amiga que pratica o expoente máximo desta máxima e perdoa os maiores crimes, àqueles que lhe são queridos, defendendo-os como uma leoa defende os filhos, e aponta a dedo uma falha numa unha dos que lhe são menos simpáticos. Temos várias discussões sobre o assunto, pois teimo numa justiça cega, independentemente dos protagonistas. Confesso que me custa dar o braço a torcer perante certas pessoas, mas faço-o e faço-o com um sorriso: é justo.
Porém, fui apanhada na curva com um dos meus heróis, através de um objecto que venero e nessa veneração – como em todas, de resto – existe uma cegueira inata que nos camufla a verdade.
Falo do livro Uma história da leitura de Alberto Manguel, do qual tenho duas edições, uma portuguesa da Presença e uma brasileira, da Companhia das Letras, ambas produzidas de maneira a fazer com que os leitores desistam da leitura.
Como é que nunca tinha reparado nisto? Pois…
Há dias o meu sobrinho descobriu a edição portuguesa numa estante lá de casa e começou a folhear o livro, já folheado, tantas e tantas vezes, letras gastas de tanta leitura.
Comecei a falar-lhe do autor e ele disse-me que o livro era muito difícil. Como assim? Porque tem muitas notas e os números das notas são os mesmos em cada capítulo e como estão no fim do livro organizadas também por capítulos é uma confusão.
E com esta atirou o livro para cima do sofá quase provocando um ataque cardíaco aqui na tia, pelo desprezo dado ao livro, pelo desrespeito dado ao autor e, acima de tudo, pela novidade que me estava a dar…

Confirmei o que ele dizia e fui buscar a outra edição, num misto de ansiedade e triunfo, com um sorriso de quem tem um segredo para revelar. Azar, estava na mesma.
As notas estão no final do livro, organizadas capítulo a capítulo, com a numeração repetida o que obriga a que tenhamos dois dedos metidos no livro durante a leitura, um para segurar a página em que vamos e outro para marcar as notas correspondentes àquele capítulo, o que nos faz andar 300 páginas para trás e para a frente a cada passo: cansativo, confuso, desencorajador e facilitador da desistência da leitura.
Ora, há livros e livros… e se a maldade que reside em mim daria uma gargalhada gélida ao ver semelhante coisa numa qualquer Mão do Diabo, fica gelada quando o mesmo se passa num livro de Manguel e, ainda por cima, com Uma história da leitura chega a ser irónico.
Quando fazemos um livro não devemos colocar-nos no papel do leitor? Sim, quando fazemos um livro, porque os livros são feitos pelos Editores, o seu conteúdo é que não.
As andanças a que a leitura deste livro obriga, - logo este, raios! – são de uma despesa que não se coaduna com os tempos que correm: é gasto de tempo, perda de concentração e de percepção.
Assim, aqui deixo o pedido para a colocação das notas em rodapé numa próxima edição, uma mudança com a qual ganhamos todos, aposto. Assim como se ganha quando o nome do autor está bem escrito… 


segunda-feira, 19 de novembro de 2012

A necessidade aguça o engenho


Tal como os miúdos – e graúdos – sorriem de satisfação quando anunciam que passaram de nível num qualquer jogo, também eu estou satisfeita com a minha última jogada: escadear o cabelo!
Já o tinha cortado em comprimento, já tinha feito a franja e ontem, de tesoura do peixe em punho, escadeei-o, numa operação delicada em frente ao espelho do forno embutido na parede e que fica à altura certa, o que dá imenso jeito pois o caixote do lixo mora mesmo ao lado.
Não havendo dinheiro há que procurar outras alternativas para se atingirem os objectivos e se, na verdade, o cabelo ficou ondulado como o mar em dia de tempestade, também é verdade que fiquei com um ar renovado, mais jovem – não sou eu que o digo – e moderno que, na cabeleireira, me teria custado no mínimo uns 30 euros, que não tenho.
Uma amiga manifesta-me a sua total incapacidade para fazer o mesmo, tal como arranjar e pintar as unhas. Digo-lhe que não o faz porque não quer, caso contrário, insistia e insistia e insistia até conseguir pois se a inteligência não se aprende, já as habilidades, sim, é uma questão de prática e até o maior pé de chumbo aprende a dançar graciosamente.
A mesma amiga conta-me com grande surpresa que o filho pintou o cabelo à mulher. Dou-lhe os parabéns e pergunto onde está a dúvida, ao que ela responde que não são trabalhos para mãos de homem… Para além do machismo da afirmação, relembro-a que se há tantos cabeleireiros homens, ou cozinheiros, por exemplo, porque não havia o filho dela de se sair bem? Basta querer… ou precisar, como eu. 

Um passo à frente


Sábado fiz uma caminhada curta e lenta, para os meus padrões. Já pelos padrões da pessoa que me acompanhava foi enorme, rápida e extenuante: caminhar com uma só perna tem destas coisas.
Demorámos duas horas certas a fazer o percurso que, sozinha, teria feito em 15 minutos. Mas se tivesse ido sozinha não tinha ficado a conhecer melhor uma verdadeira heroína, daquelas que vive paredes meias connosco e sobre quem desconhecemos os seus super-poderes.
Sempre considerei que as mães são Mulheres Maravilha – não deixo de sorrir porque as iniciais do meu nome são precisamente MM – capazes de tanto com tão pouco, magas do invisível, feiticeiras da vida. Esta mulher não é mãe mas é heroína, sem dúvida alguma: perdeu uma perna no dia que completava 18 anos, viu parte do corpo ser-lhe reconstruída e anda com a ajuda de uma prótese que lhe marca o compasso do coxear. Dona de uma força que poucas pessoas minhas conhecidas têm, senti um prazer enorme quando a ouvi repetir que me acha uma pessoa extraordinária. Eu? Nada disso, sou absolutamente normal. Não tenho metade da força dela, do empenho, da beleza daquela mulher cujos olhos estão projectados no futuro, no seu futuro, que quer partilhar com todos para que seja melhor para a comunidade.
Sim, fiquei fascinada. Fascino-me com os seres superiores, com as pessoas que me podem verdadeiramente ensinar, com aquelas que servem de exemplo, com as que estabelecem metas que eu penso que são inantigíveis e afinal basta querer para lá chegar.
Irrito-me um bocado com as pessoas que dizem que não são capazes de fazer isto ou aquilo… na verdade, não querem ou não precisam, caso contrário fá-lo-iam. Uma das protagonistas de Duas mulheres em Praga, de Juan José Millás, decide andar com o braço direito amarrado ao peito para descobrir a sua esquerdice, que é como quem diz até onde consegue chegar com o seu lado imperfeito, até onde o consegue aperfeiçoar? É pena só nos darmos a estes trabalhos de exploração de nós próprios quando não temos outra alternativa, em vez de o fazermos porque sim.
Estarão as pessoas com deficiências físicas mais bem preparadas para superar limites? Perante o caso da minha companheira de passeio, sim, de longe, o que se manifesta numa superioridade perante as pessoas ditas normais, mas uma superioridade tão grande que ainda nem me dei conta de toda a sua plenitude, sem mágoas de vida, sem grilhetas ao passado que lhe tirou a perna, mas com um enorme sorriso virado para o futuro e para as pessoas que a rodeiam.
O mundo precisa de mais pessoas como a I., disso não tenho dúvidas.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Disparate

Em dia de greve trago o carro que pessoa amiga me deixa pôr na garagem, já que me é impossível pagar estacionamentos na rua. Saio mais tarde para evitar longas filas de trânsito, aproveito para dar boleia a uma amiga que estuda à noite e que ainda vai à primeira aula. Espero por ela juntamente com outras duas amigas, na converseta.
Passam ambulâncias e carros da polícia, tantos que lhe perdemos a conta. Vão para a Assembleia da República, ficamos a saber mais tarde e as imagens - o que seria de nós sem imagens... - duras que nem pedras, só as vi em casa, sob a forma de calhau da calçada que chovia em cima dos polícias que, a páginas tantas, lá abriram os chapéus de chuva e deram com as varetas em cima de tudo e todos.
Mas ainda a caminho de casa, quase às dez da noite, a polícia que seguia numa carrinha ao meu lado viu-me responder ao meu filho, estou a chegar.
Luzes de discoteca a dançarem na viatura, megafone a debitar senhora condutora pare a viatura imediatamente, ordem que cumpri numa das faixas centrais da Av. da Liberdade.
Depois de parar pediram-me que encostasse o carro e dois jovens polícias pediram-me os documentos informando-me que aquilo era uma contra-ordenação grave. Nunca lhes tirei razão, alegando que o uso do telefone fora tão espontâneo que o tinha feito ao lado do carro da polícia, com o carro quase parado.
Inspeccionados os documentos, em ordem... ufa... disseram que podia seguir e que não voltasse a repetir o disparate.
Gostei da forma como actuaram, com firmeza mas sem sobranceria, com simpatia equilibrada com autoridade, com compreensão na medida certa da advertência. Por outro lado, os do Parlamento, mostraram paciência de santo... quantos de nós aguentavam aquela missa?

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Surpresa!

Adoro fazer surpresas... adoro...
No fim-de-semana passado estive em casa da minha irmã, movida por toneladas de saudades dos gaiatos.
Ela anda exausta com três miúdos, uma casa com três pisos e um marido que se ausenta em trabalho três vezes por mês.
Como não moramos perto não posso dar aquela mãozinha todos os fins-de-semana, mas lembrei-me de um amigo que viveu muitos anos na Alemanha e passava a vida a citar-me uma frase em alemão que, traduzida, dizia que é bom mudar de papel de parede, ou seja, é preciso sair de casa.
Foi então que me lembrei... de uma coisa...
Não disse nada, mas fiz o que tinha a fazer, telefonei, perguntei, marquei! Depois telefonei-lhe a ela e disse que tinha uma surpresa e que, como surpresa que é, não lha podia contar, mas que acreditasse em mim, ia adorar, ela e o meu cunhado, que dos miúdos trato eu: os mais velhos ficam comigo e o mais pequeno com os meus pais.
Assim, sábado de manhã nós três levantamo-nos bem cedo, agasalhamo-nos e vamos até..., pois, também é segredo...
Enquanto o casalinho descansa e namora num local de sonho de sexta à noite até domingo de manhã, nós vamos ter uma grande aventura no sábado, de manhã à noite!
Comentando a surpresa com as amigas dela, estas perguntaram-lhe se me podiam requisitar como irmã. As minhas próprias amigas, estas sim sabem de tudo, também me querem contratar. Lá vou arranjando teorias sobre a exclusividade enquanto me organizo mentalmente para o fim-de-semana.
Não sei quem vai gostar mais, se eles se... eu!

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Ai Roberto, devias ter vivido nos dias de hoje…


Estou amando loucamente
A namoradinha de um amigo meu
Sei que estou errado
Mas nem mesmo sei como isso aconteceu
Um dia sem querer olhei em seu olhar
E disfarcei até pra ninguém notar.
Não sei mais o que faço
Pra ninguém saber que estou gamado assim
Se os dois souberem
Nem mesmo sei o que eles vão pensar de mim
Eu sei que vou sofrer mas tenho que esquecer
O que é dos outros não se deve ter
Vou procurar alguém que não tenha ninguém
Pois comigo aconteceu
Gostar da namorada de um amigo meu.

Roberto Carlos

Qual a distância que vai do amor ao egoísmo?


Qual a distância que vai do amor ao egoísmo? Um longo caminho…
Amamos, queremos a presença daquela pessoa, queremos que ela esteja, mesmo que a não vejamos, mas que esteja bem, como se nesse bem-estar residisse um velar silencioso por nós, porque o amor é recíproco. Damos tudo para que essa pessoa tenha saúde, pagamos, matamos e esfolamos, numa demonstração de total inexistência de egoísmo. O objectivo é podermos sorrir e abraçarmo-nos mutuamente.
Mas, e se essa pessoa já tiver passado os oitenta anos, tiver um enorme historial de doenças, permanecer há anos numa cadeira de rodas acompanhada de Parkinson, estiver inconsciente e a ser medicada com morfina para as dores? Qual a distância que vai do amor ao egoísmo? Nenhuma, mesmo que seja nossa mãe.
Sou fria? Nestas coisas sou gelada, uma parente afastada do Marquês de Pombal quando dizia para se enterrarem os mortos e cuidar-se dos vivos.
Bem sei que falar é fácil, e que a objectividade é uma característica que não consta do universo emocional de filhos devotados e amigos, mas há uma sanidade mental que se vai perdendo, um desgaste que se torna cada vez maior e que compromete a vida dos vivos, arrastando-os para um abismo de onde vêm a morte, onde lhe tocam para a afastar, sem se aperceberem que ela não se vai embora só porque nós queremos, só porque a empurramos à força de novos tratamentos médicos, de novos especialistas e mais análises. 
Ela ali está, sem pressas, a rir-se para nós, a rir-se de nós e nós a teimarmos que levamos a melhor com ela, a insistirmos, a persistirmos, sem aceitarmos que a guerra já está ganha por ela e que no fundo apenas estamos a prolongar a agonia de outrem, daquela pessoa que amamos mas que não hesitamos em sujeitar a mais tratamentos, mais doses de morfina, mais períodos em coma.
Afinal, qual a distância que vai do amor ao egoísmo? A pergunta certa não é essa, mas sim, qual o caminho do amor ao egoísmo? E aqui, o facto de se fazer sempre escala na Esperança muda tudo.

Cinco euros e vinte cêntimos


Sai um peixe grelhado para o almoço de domingo!
O Duarte adora aquela manta de cebola, alho, pimento e coentros em cima do peixe e das batatas e eu, embora não seja grande apreciadora da cebola crua, como também.
Vá lá saber-se do que foi, talvez da acidez da cebola, não segurei nada no estômago desde domingo a seguir a ao almoço até ontem à noite.
Cólicas, dores imensas no corpo todo, não passei sem uma visita ao médico, que me receitou dois medicamentos comprados com ansiedade na farmácia ali ao lado.
Paguei os quase 8 euros e antes de receber a factura a senhora pede-me que assine a cópia, duas vezes: uma é a confirmar o levantamento dos medicamentos, a outra é sobre o Direito de Opção.
Estava doente e cheia de dores mas não estava a morrer e havendo um direito de opção eu quero saber o que é. Esclarece a farmacêutica que aquilo diz respeito aos genéricos, que eu podia ter optado por eles e não optei…
Ai não? Porque não me lembrei… mas a senhora devia tê-lo feito. Em quanto ficam os genéricos?
A conta de 7,85 euros passou para 2,65 euros, a diferença foi depositada através do meu multibanco – novidade para mim, não sabia que aquilo era possível – e mesmo meia esbranquiçada e sem forças não sai da farmácia sem dar um sermão à senhora, um sermão de cinco euros e vinte cêntimos!

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Defeito amigos areia às ondas


Com esta fórmula de pesquisa alguém chegou aqui. Sei quem é e ao que vem.
Sim, falo nos defeitos dos meus amigos, assim como falo nos meus: somos humanos, logo imperfeitos. Mas em fórmulas cartesianas nem todos sabem nadar. E em verdades, tão pouco. Confundem-se opiniões pessoais com verdades, coisa muito comum. Reconhecer os defeitos é parte do caminho para os mudar, para recomeçar, para melhorar. 
Não há deuses na Terra… e nós não vivemos no Olimpo.
Há verdades que não são universais, custe a quem custar, o que não quer dizer que alguma delas seja mentira. Mas isto é intrincado demais para certos génios, aos quais me rendo em gargalhadas montypythianas.
Assumirmos os nossos defeitos não é crime, é humanidade. Encará-los bem de frente é atitude de coragem que só alguns têm, embora muitos a apregoem porque gostam do efeito dos espelhos da Feira Popular que davam vontade de rir, e nesta suposta alegria escondem a vergonha e a pequenez e o ridículo e a hipocrisia e a falsa amizade.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Dragões de Ouro…? Não, é só palha!

Durão Barroso foi distinguido com o Dragão de Ouro de Honra. Tendo em conta que as deslocações do Presidente da Comissão Europeia envolvem uma logística complicada que, por sua vez, obriga a gastos imensos, adorava saber quem pagou todo este carrossel de vaidades. Alguma coisa me diz que quando for ver o meu saldo vou perceber que fui eu…
Miguel Relvas também lá estava de sorriso atarraxado, patrocinado, mais uma vez, por mim…
Fez ontem anos que se assinou o Tratado para se estabelecer a Constituição Europeia. O eterno Cherne comemorou a data com uns pontapés na vergonha, afastando-a, e Relvas, trinco da imoralidade, bateu palmas.
E o pior é que os Dragões deitam fogo pela boca… e não se vê aparecer um caçador…

Presa por ter cão e presa por não ter


No silêncio sussurrado da biblioteca avisam-me que um aluno se está a sentir mal. Trago-o para o meu gabinete com queixas de tonturas, má disposição geral, grande desconcentração e desorientação. Informo-o que vou chamar uma ambulância. Ao telefone vou respondendo às perguntas do 112: se lhe custa olhar a luz, o que comeu, há quantas horas, etc. Pedem que esperemos.
Peço ao aluno o contacto do pai ou mãe, de um irmão, da namorada, de alguém a quem comunique que ele não está bem. Ele recusa, alegando que os pais não podem atender o telefone durante o dia. É peremptório, não há mais alguém, eu que não me preocupe.
A voz estranha, meio arrastada, algumas frases que não terminam, palavras estranhamente repetidas, fazem-me dar a volta por outro lado e pedir ajuda na Secretaria para que nos facultem um contacto de um familiar. Um colega disponibiliza-se a dar o telefone do pai do aluno em questão.
Antes de ter tempo de lhe ligar, avisam-me que chegou a ambulância. Acompanho-os ao local onde está o rapaz. Fazem-lhe meia dúzia de perguntas e informam que o vão levar para o Hospital, face a um estado de desorientação total, de tal forma que permitem que uma de nós vá na ambulância.
Assim que saem a apitar e com as luzes a acender e a apagar ligo ao pai. Identifico-me e a meio da curta explicação de poucos segundos o pai começa a gritar comigo! Quem é que me mandou chamar uma ambulância? Porque não lhe liguei mais cedo?
A surpresa foi de tal ordem que a desorientação me apanhou também a mim, por alguns segundos. Lá me recompus, pedi-lhe calma e… nova explicação interrompida por mais uns gritos em que ameaçava que eu me iria arrepender de não ter tirado o telefone ao rapaz e lhe ter ligado imediatamente a ele!
Se com o primeiro grito me desorientei, com o segundo já não: falei mais alto dizendo-lhe que a pessoa em questão, que por acaso é filho dele, tem 21 anos e se não me quer facultar um número de telefone, está no seu direito. Tirar-lhe o telefone e procurar um contacto de um familiar, isso era se ele tivesse 8 ou 10 anos! Além disso, é nossa obrigação chamar profissionais de saúde quando alguém não se sente bem e o filho dele sentia-se muito mal! De negligência, eu não seria acusada! 
Não podia ficar mais espantada com o que me disse a seguir: se a ambulância ainda não saiu, ponha-se à frente dela e impeça-a de sair!
Isto foi dito em nova torrente de gritos. Pensei que não valeria a pena continuar e, falando mais alto, informei-o que o filho se dirigia ao Hospital de S. José, um resto de boa tarde!
Liguei para a minha colega que tinha acompanhado o rapaz, avisando-a que o pai ia a caminho (achava eu!) e que não era pêra doce.
Estavam a aguardar na sala de espera quando chega a descontrolada figura paternal. Calmo, normal, agradecido. Ficou com o filho e agradeceu, agradeceu, agradeceu!
Desconheço as razões de tal comportamento, completamente estapafúrdio.
Passada uma semana encontro o jovem e pergunto-lhe como está. Alegre e bem-disposto, agradece os cuidados, afirma que está bem, que foi excesso de estudo, aliado à necessidade de mudar as lentes dos óculos, muita preocupação com os testes, enfim, uma combinação explosiva. Diz que já me tinha procurado para me agradecer e… pedir desculpa pelo comportamento do pai. Enfim… 

domingo, 28 de outubro de 2012

Viva a Monarquia!

Apercebo-me que a palavra Inconstitucional é usada como nunca foi.
É o Juiz que quer ser presidente do Benfica, são as ordens profissionais que não querem que o Governo as controle, são os cortes nos subsídios, é o próprio Orçamento de Estado nas palavras de um ex-presidente.
Salvo melhor opinião devia usar-se um dicionário para se saber o que quer dizer, afinal, Inconstitucional.
Se significa o que eu acho que significa, e se se segue cantando e rindo, para que serve a Constituição? Alguém que saiba que me elucide, se faz favor.
A dita  inconstitucionalidade é assim tão difícil de 'ver'? É tipo agulha no palheiro? E quando a encontram, nem a reconhecem quando se picam? Porque não há acordo sobre ela?
Adorava perceber tudo isto. Por ora, como sou burra na matéria, sinto uma raiva difícil de controlar.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

A caminho do Funchal


Os voos low cost não têm lugar marcado, razão pela qual me sentei assim que vi o primeiro vago do lado da coxia. Terceira fila, lugar do meio ocupado por um homem com cerca de 50 anos. Assim que me sentei, agarrou no telefone e disse a alguém que se apressasse, que não podia guardar o lugar. Em menos de um minuto aparece uma trintona afogueada que me pede licença e passa para a janela.
Ele manifestou-lhe a ansiedade e disse-lhe que nunca mais podia trazer aquela quantidade de bagagem, que para além do preço a mais, era uma maçada depois terem que esperar pelas maletas. Disse-o com um tom que foi passando de incomodado para compreensivo, passou pela tolerância e foi terminar naquelas vozinhas abebezadas que se fazem quando queremos mimar alguém ou mostrar que não estamos zangados.
Apesar do espaço ser parco ele lá conseguiu por-se de perna cruzada, a dele por cima da perna dela e foi dizendo fosquices que a levaram a pedir que parasse, meia encarnada, ao que ele ripostou que ninguém ouvia. Contendo-me para não rir, deu-me vontade de lhe dizer que qualquer pessoa nos bancos à volta estava pronta para fazer revisão daquela matéria, de tão claro e audível ele tinha falado.
Enquanto os outros passageiros se acomodavam nos buracos vagos, ele destrocou a perna, agarrou no telefone e avisou um bacano que estava a chegar: avião (onde ele estava) rimava com amigão (o que o esperava no Funchal), com jantarão (o que iriam comer juntos), com abração (o que lhe enviava). Aproveitou também para lhe dizer, desviando-se ligeiramente da sua companheira e, obrigatoriamente, aproximando-se (ainda mais!) de mim que a gaja também ia.
Achei extraordinária a observação, o facto de ele pensar que não se ouvia, o facto de se estar nas tintas, enfim…
Terminado o telefonema ligou um portátil mas foi toca e foge pois a hospedeira espanholita pediu-lhe que não o fizesse. Ele cumpriu, contorceu-se novamente, cruzou a perna e foi depositá-la em cima da pernoca dela, muito nervosa por ir aterrar no Funchal, que tinha uma pista muito pequenina e era sítio perigoso. Mas qual perigo qual quê? Não estava ali ele? Isto era percurso que ele conhecia de cor e salteado e acalmou-a com beijinhos e abraços e carinhos, enquanto ela me controlava com o canto do olho e dizia olha as pessoas
Para a ajudar a descontrair começou a dissertar sobre o sítio onde iam jantar, que servia tanto comer que até te vais vomitar toda… Tive pena de não ter decorado o nome do restaurante para me lembrar de nunca lá ir, mas com tanta informação a ser debitada não tenho cabeça para tudo! A seguir falou-lhe do bacano que os esperava no aeroporto, que ele conhecia desde pequeno e avisou-a, passando à velocidade da luz de um tom ternurento para um de ameaça, que não lhe desse abébias, que ele conhecia-o bem e ele comia tudo o que lhe aparecia.
A esta hora já eu estava com a impressão do bilhete na mão, o primeiro papel que me apareceu quando meti a mão na mala, a escrever em código estas pérolas românticas.
Rabiscava eu à pressa, quando eles se endireitaram e calaram. Discretamente guardei o papel e o lápis no bolso do peito do blusão, a hospedeira pediu-me que metesse as pernas para dentro pois iam passar com o carro e adormeci. Acordei com a mesma senhora – bolas, esse carro demora a passar, hem? – a perguntar-me se tinha o cinto apertado pois íamos aterrar…
Esta coisa boa de dormir quando tenho sono, deitada, sentada, torta, de qualquer maneira, fez-me perder o resto da conversa entre o casalinho meu vizinho, embora tenha acordado a tempo de a ver muito nervosa com o aproximar da aterragem, tendo a rapariga batido palmas como se estivesse na primeira fila de um concerto dos Beatles, apesar de ele lhe dizer, já chega, já chega

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Ponto alto

Continua o Congresso dos Bibliotecários.
Hoje houve uma alocução muito especial e não descansei enquanto não tirei uma fotografia com o senhor em questão: Alberto Manguel. Chamaram-me saloia, eu ouvi e não quero saber. Terá moldura ao lado da fotografia que tirei com José Mindlin.
Não percebi, eu e muitos outros, porque razão Manguel falou apenas 15 minutos. Quando vi o programa pensei sinceramente que fosse um engano; não era. Como se pode ter uma pessoa destas 'à disposição' e deixá-lo falar uns míseros 15 minutinhos? Sem uma sessão de perguntas, de conversa, de debate, nada?
Todos os profissionais de informação que lá estavam, e éramos muitos, conhecem Manguel; não o conhecer equivale a sermos párocos que não conhecem o Papa, num mundo em que as estruturas de informação já não se limitam a catalogar, classificar e indexar, mas vão muito para além disso.
Toda a filosofia e pensamento sobre O Livro que este pensador, e grande leitor, nos proporciona é inesquecível em todas as vertentes.
Aqueles 15 minutos foram uma brisa quando tínhamos o próprio vento ao nosso alcance. A páginas tantas, ele próprio disse já só tenho uns minutos... Não sei se acontece com todos, mas sucede com muitas pessoas desta profissão, sentirmos que Manguel é um ídolo vivo. Tê-lo ali como entrada quando a sua suculência merecia um prato principal foi uma desilusão. Provavelmente seria sempre uma desilusão no sentido em que, mesmo que falasse horas, eu quereria mais e mais e mais, porque o considero inesgotável.
Ter o autor de O Dicionário de Lugares Imaginários ali a dois passos, a ouvir-lhe a voz, em vez de lhe ler as palavras, a falar da imaginação e das Clínicas da Alma, as bibliotecas, foi único.
Ter o autor de A História da Leitura a falar, de voz viva, em Borges, foi magnético.
Ter o autor de A Biblioteca à Noite a falar do papel dos bibliotecários enquanto criadores de Ordem foi deslumbrante.
A curta duração do momento, um certo desaproveitar daquele Deus dos livros,  fez-me pensar numa certa virtualidade da oração, virtualidade essa que hoje todas as bibliotecas se sentem no dever de acompanhar e seguir. Neste caso, impunha-se esquecer o virtual e abraçar aquele discurso bem real, deixando-o prolongar-se.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Bibliotecários de todo o mundo, uni-vos!

Decorre o 11º Congresso Nacional dos Bibliotecários, Arquivistas e Documentalistas e eu estou lá. Estou lá aos intervalos: venho bem cedo à Biblioteca para deixar tudo em andamento e esgueiro-me enfiando a identificação pelo pescoço. Esqueço-me dela quando saio a correr e ando com uma pendureza cor-de-laranja ao peito até que alguém me pergunta o que é aquilo. Volto ao fim do dia para adiantar trabalho, ver mails - não tenho telefone capaz disso - e demais correspondência.
Hoje assisti e um debate sobre a necessidade de se preservar a memória dos arquivos das Editoras: memórias, arquivos e editoras, os meus três nomes. Gostei bastante, principalmente por haver vozes discordantes; é bom não haver consenso em certas coisas, obriga-nos a reflectir mais e, supostamente, melhor, a defendermos a nossa dama com novos argumentos ou a darmos razão ao outro.
Não gostei dos participantes que falam o tempo todo em surdina pensando - se pensarem... - que ninguém os ouve e não se preocupam com o incómodo que causam em quem quer debater, perguntar e fazer aquela tão simples que se chama Ouvir.
Apesar da crise os auditórios da Gulbenkian estão cheios, ou se calhar é por causa dela, para se procurarem novas soluções, partilharem caminhos e projectos.
Na conferência inaugural reforçou-se que o futuro é hoje, e eu assino por baixo, mas esta assinatura tem de ser colectiva, tem de ser participada, tem de ser activa, tem de ser unida. Tem de ser verdadeira. Trabalhemos para isso.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Viagem inesperada

O metro não vai cheio mas eu não apanho lugar sentada. Atraco a mala bem no ombro, encaixo o saco com as panelas do almoço entre as pernas e puxo do livro. Ainda não tinha lido duas linhas quando me tocam no ombro, fazendo-me sinal para em sentar. Foi um rapaz com cerca de 30 anos que vejo ficar em pé.
Bem, pensei eu, agora já não sou confundida com uma grávida... por que raio me teria ele dado o lugar?
A trama do livro falou mais alto e embrenhei-me, esquecendo o meu benfeitor.
Duas ou três paragens adiante ele senta-se diante de mim. Fechei o livro e perguntei-lhe se me tinha dado o lugar só porque eu ia a ler. Atabalhoou palavras que não percebi e a seguir, em inglês, disse que não falava português. Sorri e repeti a pergunta em inglês, ao que ele respondeu com um Óbvio!
Expliquei-lhe que nunca tal me tinha acontecido e que estava muito sensibilizada: já era um grande aborrecimento dar o lugar a uma grávida, uma pessoa com um gaiato ao colo, um coxo ou um velho, para ainda se ter em consideração quem vai de livro aberto! Afinal, os leitores têm alternativa, ao contrário dos coxos ou dos velhos, e podem guardar o livro. Desta forma entram na alegre categoria de pessoas normais.
Ele riu-se e lá me contou que era siciliano, que era a primeira vez que vinha a Portugal e que já tinha estado no Porto, em Coimbra e guardara Lisboa para o fim. Contou também que lhe tinham falado muito de um tal Alentejo; confirmava eu que era belo e apetecível? Na minha opinião devia ficar mais um fim-de-semana para ir ver esse Alentejo?
Oh meu filho, a que porta vieste bater... pois se eu sou alentejana profunda!
Fechei definitivamente o livro nessa viagem e fomos a conversar, também sobre a Sicília onde nunca fui.
Quem diria que uma deslocação de metro tão calculada e repetida, se pode transformar numa viagem tão inesperada e simpática?

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Peço justiça!

A música portuguesa que no Verão inundou rádios, gargantas e vozes foi em jeito de convite, Anda Comigo Ver os Aviões.
Quer se gostasse ou não levávamos com ela e não havia quem não soubesse pelo menos parte da letra. Os meus sobrinhos passaram comigo um mês inteiro onde cantaram os Aviões até à exaustão e eu não podia deixar de amar cada vez que o rádio nos inundava com aquela melodia porque ele, sempre sentado atrás de mim, esticava-se para a frente pressionando o cinto de segurança e apertava-me os ombros quando vinha aquela parte mulher tu sabes o quanto eu te amo, o quanto eu gosto de ti...
E assim me emocionava vezes sem conta ao longo do dia, para além de outros momentos felizes que, com ele, aparecem com muita frequência, fruto de um relacionamento de 10 anos intensos, profundos, mágicos e inexplicáveis.
E isto não sabe o senhor professor que foi dar uma aula de substituição ao meu sobrinho, mal disposto e contrafeito, porque se soubesse nunca lhe teria batido. É que as más disposições do senhor professor são gotas de água comparadas com as minhas.
Bateu no meu sobrinho e na turma inteira e quando os gaiatos começaram a chorar disse-lhes que se calassem senão, apanhavam mais. Usou um objecto não identificado, tipo ponteiro mas com picos na ponta, com que lhes bateu repetidamente na cabeça.
Mas o senhor professor não é parvo... teve o cuidado de expulsar da sala uma aluna logo nos primeiros minutos, a única aluna cigana que estava presente. Tivesse ele tocado num cabelo da garota e a família dela estaria à porta de sua casa para lhe estender o tapete vermelho...
O senhor professor está habituado a lidar com alunos mais velhos e enfada-o ter que entreter garotos do 5º ano, garotos esses sem historial de más educações; achou o senhor professor por bem levar um vídeo do National Geographic em inglês sobre crostas solares para que os miúdos vissem... por coincidência o meu sobrinho adora o tema, e quase me atrevo a dizer que sabe mais do assunto que o próprio professor, tendo ficado feliz e surpreendido com a passagem do documentário. Mas o que se mostrou como uma aparente boa surpresa transformou-se num pesadelo. Os outros também estavam em êxtase... ao contrário. Aborrecidos, mas quietos, embora faladores, como já se provou por diferentes relatos das meninas crânio da sala, foram mandados calar à força de levarem pancadas na cabeça, imediatamente a seguir à única expulsão verificada na aula.
Tivessem os gaiatos partido a sala, ele era obrigado a chamar uma auxiliar. Nunca o fez. Um dos miúdos veio para casa cortado na sequência do tal objecto não identificado se ter partido, o que foi descrito pela turma como uma espécie de lâmpada fluorescente!
A aula acabou com metade da turma a chorar enquanto o senhor professor se passeava entre as carteiras e os miúdos punham os braços à volta da cabeça em jeito defensivo, com medo de levarem sem saberem porquê.
Defensora acérrima dos professores que tanto penam com comportamentos dignos de animais por parte de certos alunos, exijo justiça para com a atitude deste energúmeno que se diz professor.
Agora tem um inquérito às costas e se o inquérito não correr como deve ser vai ver o que é a minha veia cigana.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Siga a Revolução!


Estou a pensar mudar o meu CV e acrescentar-lhe os meus conhecimentos de cabeleireira. Cortei o cabelo novamente e ficou um luxo!
Antes que alguém pergunte e franza o cenho informo desde já que as pontas incertas são mesmo assim, é a moda da minha tesoura.
Ontem no jogo do Duarte já me tinham dito que parecia mais nova mas hoje não esperava tanto elogio… o que faz uma franja!
Uma franja e 57 centímetros a menos, entre peito, barriga, estômago, pernas e braços.
Sinto-me nova, renascida, revolucionada.
Tirando os barris de água que preciso beber, e que me custa, confesso, toda a mudança de vida está a ser muito mais fácil do que podia algum dia supor.
Como o dia inteiro, obrigo-me pois não tenho fome, e faço um disparate por semana, que na última quarta-feira assumiu a forma de gim tónico, na companhia de duas amigas.
Estou a adorar andar com roupa larga, novidade absoluta em mim. Aos poucos, a minha mãe e uma amiga, deusas da linha e da agulha, têm apertado uns calções e umas saias e têm trabalho que não mais acaba no meu armário.
Revisito roupa, cintos e até roupa interior colocada de lado por incompatibilidade de tamanhos, digamos assim. Lembro-me de meia dúzia de peças que dei, descoroçoada com a impossibilidade de as obrigar a servirem-me, e sinto uma certa pena.
As escadas passaram de pesadelos que me faziam arfar a boas amigas que galgo sem contemplações.
A minha família, amigos e colegas têm sido fundamentais em todo este processo, encorajando-me, dando todo o apoio possível e até mostrando uma certa inveja.
Um grande obrigada a todos!

Manhã de mar


Ontem de manhã o céu estava mesmo sem vontadinha de nada, mal amanhou-se de cinzento-escuro e deixou a chuva cabriolar um bocado em cima de uma mulher que caminhava de biquíni na praia, àgua até aos joelhos, que as ondas fazem bem à circulação, e música a entrar-lhe pelos ouvidos a dentro.
Com um podómetro pendurado no soutien verificou que fez quase seis quilómetros e, terminada a marcha, procurou um poiso firme e ali ficou a fazer exercícios de ginástica durante mais trinta minutos.
Os transeuntes rareavam à medida que a chuva engrossava mas lá iam passando apressados. Ela via-os a olharem-na e sorria de braços abertos à chuva.
Num movimento em que virou o torso para trás viu, num túnel que dá acesso à praia, meia dúzia de ciclistas, protegidos da água, a olhá-la.
Sentiu-se uma sereia, a única que não temia o mar, a chuva, o ar arrefecido. Sentiu-se dona daquela praia e de todas as praias onde chovia naquele momento e de onde as pessoas fugiam.
Foi uma manhã de mar que me soube a ginjas…

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Olha esta...

Com muitos quilos a menos sinto-me muito bem e não nego que os elogios me fazem sorrir. Não me canso tão depressa, faço caminhadas maiores e é um prazer verificar que muita roupa que não vestia há séculos me serve na perfeição.
Até me dizem que pareço mais nova. Brinco com o meu cunhado, muito mais novo que eu, que levou a minha mãe ao hospital há umas semanas e foi confundido DUAS vezes com o marido, tendo que explicar DUAS vezes que a senhora era sogra e não mulher dele...
Há uns dias andava uma aluna trajada de preto a vender sacos de gomas e, aproximando-se de mim e das amigas com quem estava, pediu-nos que comprássemos para ajudar uma qualquer festa que estavam a organizar. Disse-lhe que não, obrigada, mas não queria gomas. A rapariga não desarmou e insistiu, ao que eu procurei uma moeda na carteira decidida a contribuir. Quando lhe estiquei a moeda ela ofereceu-me o saquinho de gomas dizendo:
- Vá lá, leve o saco, pode dar as gomas aos seus netos...
Abri os olhos, as minhas amigas dobraram-se às gargalhadas e eu encolhi o braço dizendo que já não contribuía para nada. A rapariga desfez-se em desculpas mas eu guardei a moeda e disse-lhe que olhasse melhor da próxima vez...

sábado, 6 de outubro de 2012

Quem não se sente...

Quando agimos em função de um princípio achamos que estamos a agir bem. Mas quando todos agem ao contrário, instala-se a dúvida. Ultrapassada a dúvida, mas mantendo-se a acção alheia, instala-se uma certa confusão. Falo de uma das coisas mais sagradas da existência humana, a amizade.
Entendo a amizade como uma plataforma mais íntima que o amor. Por um amigo faço tudo, tudo, tudo, tudo. E neste tudo cabem coisas boas e coisas menos boas, como por exemplo chamar a atenção quando considero que é preciso chamar à atenção. Mas as pessoas não gostam de ser chamadas à atenção, acham que estamos a violar limites, que estamos a entrar onde não somos chamados, que lhes impomos certas coisas, como a nossa opinião, e isso pode ser fatal para a amizade, a amizade de algumas pessoas, não a minha, que aguenta tudo.
Frequentemente ocultamos coisas que nos causam desconforto: uma atitude infeliz do filho perfeito, um comportamento do marido/esposa que nos envergonha ou humilha, um quotidiano de embaraço com a chefia porque não temos aquela coragem que apregoamos, enfim, mil coisas.
Acho eu que os amigos, aquela ou aquele mais especial, servem também como fuga ou escape a tudo o que nos constrange, padres que nos ouvem em confissão e que nós ouvimos, pagando na mesma moeda. Não resolvemos nada, mas podemos ajudar-nos mutuamente, dando ideias, fazendo o outro rir, partilhando seja o que for, tornando assim mais leve qualquer tipo de problema.
Já tive a minha dose de desilusões na vida na sequência de considerar que certas pessoas eram minhas amigas e afinal não eram, com afastamentos, e até (mesmo as coisas mais dramáticas têm aspectos cómicos!) com reivindicações do género eu dei-te tudo!, quando esse tudo se consubstanciava em meia dúzia de bens materiais que a pessoa em questão trazia gratuitamente da sua empresa, em forma de amostra. Claro que se esqueceu do que eu lhe dei, nomeadamente em termos de tempo e disponibilidade com os seus próprios filhos, mas isso não vale nada…
Diz-se que quem não se sente não é filho de boa gente. E eu senti-me este fim-de-semana. Senti-me profundamente infeliz pela parte de uma pessoa que tem um estatuto tão alto na minha vida, que nem tem nome…
Penso que não posso fazer mais por essa pessoa e nem entro em pormenores… mas conclui que quando damos tudo os outros sentem que para darmos tanto é porque temos ainda um mundo para partilhar, sem nunca perceberem que podemos dar… tirando da nossa própria boca.
Nunca me queixo de doenças, dores, más-disposições, nada. Quando o faço é porque é grave, já passaram meses sobre a descoberta da coisa em questão e já tenho os resultados dos exames e análises que fiz em surdina. Partilho, com grande dificuldade, e sempre com aquela estúpida – eu sei! – preocupação de não preocupar… e no dia seguinte a pessoa esqueceu-se…
O que fazemos? Rimos ou choramos? Chamamos a atenção ou deixamos passar? Fingimos que está tudo bem ou mostramos que quem não se sente não é filho de boa gente?
Recordo-me de numa ocasião trabalhar com um colega que arrastava uma gripe há meses. Era activista dos direitos humanos e todos os dias nos dizia que havia milhares de pessoas bem piores que ele. Finalmente decidiu-se a ir ao médico e disse-lhe que se sentia tão mal que se estava nas tintas para os refugiados e para a guerra do Iraque (a primeira!). O médico disse-lhe que estava no seu direito sentir-se mal, até porque estava a raiar uma pneumonia… e que se esquecesse daquela e de outras guerras, pois se queria um dia assistir à paz tinha que tratar da saúde para lá chegar.
Sinto-me assim… digo-o com toda a honestidade, a precisar de esquecer os outros, de pensar em mim, mas em simultâneo, a querer que pensem em mim. Não preciso que me façam nada, apenas que não se esqueçam que sou uma pessoa.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Saudade


Preciso ligar para uma colega. Procuro o número na agenda do telefone carregando na letra inicial do nome pretendido. Os dois únicos nomes começados com aquela letra aparecem no pequeno ecran. Um é o dela, o outro, o de um amigo que se suicidou em Agosto. 
Leio-lhe o nome como se me fosse permitido falar-lhe, bastando carregar naquela tecla, fazer uma pequena pressão e ouvir o toque de chamada, toque que ele também ouvirá lá do outro lado.
Morbidamente, entro no Facebook como se transpusesse a entrada de um qualquer jardim das tabuletas. Sei que o encontrarei lá. 
Revejo-lhe o sorriso que não transporta qualquer dúvida sobre a vontade de viver que manifestava sempre. O porquê eterniza-se, acompanhado de saudades.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Livreiros vs Vendedores


Quem sabe o que quer vai à mercearia lá do bairro; quem não sabe vai à grande superfície, e alega que é por ter mais variedade. Nessa mercearia, a dona ajuda-nos a escolher a fruta e põe de lado a laranja podre, enquanto conversamos sobre as questões comuns que nos preocupam e rimos juntas; na grande superfície passamos como autómatos junto a todos os outros clientes e esticamos o braço quando uma máquina anuncia o número da nossa senha, depois de termos estado à espera, espera essa durante a qual fomos enchendo o carro com coisas que não precisamos.
Somos muita bons! Somos turistas no sítio onde vivemos: só lá vamos dormir, afirmamos não conhecer o vizinho do lado, mas não fazemos nada por isso.
Com os livros é a mesma coisa. Vamos à FNAC que tem tudo! E não é que tem mesmo? Até tem funcionários que nada percebem de livros! É maravilhoso! A capa regula o assunto: tem flores? É de horticultura, garantidamente, mesmo que seja sobre Desenho Científico!
A FNAC é aquela máquina! Não é tão bom ter uma máquina à nossa disposição? Mesmo que também nos trate como máquinas, mesmo que nos minta descaradamente afirmando que ‘a edição está esgotada’ quando não tem o livro em questão e desconhecendo que quem pergunta é o próprio Editor!
Dar primazia aos interesses do cidadão? Qué lá isso? A máquina funciona, não funciona? Atão prontos! Se tivermos cartão cliente da FNAC até há a possibilidade de nos tratarem pelo nome depois de lhe darem uma olhadela, como quem espreita a coleira do cão. Dois segundos depois já estão a chamar Gervário a um Rogério, mas também o que é um nome? Nem fomos nós que o escolhemos!
Quem quer informação vai à FNAC, quem quer conhecimento vai a uma Livraria, com um Livreiro atrás do balcão.
O que é um Livreiro? É um profissional dos livros, uma espécie em vias de extinção, que muitos nunca terão visto; fala com o cliente muito para além da conversação pré-programada dos vendedores das grandes superfícies, a quem uma pergunta mais técnica, elaborada ou profunda, deixa sem resposta. O leque de respostas dos vendedores destes locais abarcam duas grandes perguntas: O livro existe? Sim ou Não. Onde está? Ali.
Um Livreiro sabe sugerir, conhece o livro, alerta para outras edições, faz atendimento personalizado, deixando, em simultâneo, espaço para quem queira viajar na Livraria. Porquê? Porque trata cada cliente como uma pessoa única e distinta. Um Livreiro sorri. Um vendedor emite esgares. Um Livreiro faz tudo para agradar ao cliente. Um vendedor faz tudo para agradar à empresa para a qual trabalha. Um Livreiro dedica-se ao cliente e empenha-se para encontrar um livro. Um vendedor diz está esgotado e vira-se para o cliente seguinte na fila. Um Livreiro cultiva a nossa diferença. Um vendedor quer modelar-nos à forma previamente instituída.
Um vendedor é ideal para atender turistas: os poucos recursos de linguagem são comuns, não sabem bem o que querem e aceitam o que se lhes dá, ficam momentaneamente encantados com a quantidade, que até podem candidatar ao guiness que trazem na mão, vão embora e nunca mais se lembram que ali estiveram, vivendo todos maquinalmente felizes para sempre, como manda o guião das vendas.
E é assim que um turista vai à FNAC. 
Um cidadão vai à Livraria. Por exemplo à Pó dos Livros.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Estratégia musical


Uma grande amiga convidou-me para um evento de moda onde ela vai participar profissionalmente, mostrando o que tem para vender numa loja de bairro que ela conseguiu fazer passar do zero para um local incontornável naquela zona. Disse-me o dia e a hora e, caso eu estivesse interessada, disponibilizou-se para me comprar os bilhetes.
Suponho que deva ter ficado a pensar que sou mentirosa quando lhe disse que tenho o dinheiro contadinho até ao final do mês, que não tenho um euro para gastar nem para ir ao médico, que trago comer de casa e me permito beber dois cafés por dia, nada de revistas ou jornais, à excepção do maldito tabaco, cujo consumo vem encolhendo e é feito em casa. Lá deu a entender que eu não precisava de ser assim tão radical, que a vida está má e outros eteceteras que repetimos com toda a gente todos os dias. Ou seja, achou mesmo que eu exagerava e eu adorava ter exagerado…
Mas se vou ficar à espera que me contem como correu a coisa, que correrá magnificamente pois está lá ela, não tenho dúvidas, arranjei outra estratégia para me livrar de Leonard Cohen que vem a Portugal no próximo mês.
Nunca o vi ao vivo – não sou nada festivaleira nem concerteira – mas se há alguém que eu amava ver num concerto, é ele.
Não fui ver o preço dos bilhetes, nem vale a pena, mas tentei descobrir um qualquer concurso onde possa ganhar uma entrada. Não encontrei.
Resolvi então ligar-me ao youtube durante o dia inteiro, coisa que venho fazendo desde domingo, obrigando-me a cansar desta voz que é uma das minhas paixões eternas. Até agora ainda não consegui, mas quem entra aqui no gabinete repetidas vezes já me pergunta se isto é promessa.
Não desisto… pode ser que resulte.

Avó Zé


Ponho a máquina da roupa a lavar depois das dez da noite para usufruir da tarifa bi-horária. Estendo-a antes de me ir deitar, o que pode acontecer às onze da noite ou às três da manhã, depende do sono.
Independentemente da hora, sei que diante da minha janela vou encontrar uma luz acesa: a da avó Zé. Não conheço a senhora, não sei como se chama, nunca falei com ela, mas para mim, para a minha irmã, é a avó Zé.
Há duas avós Zé no meu círculo familiar. Nenhuma destas Marias Josés é minha, mas ambas me são chegadas e queridas. Uma é sogra da minha irmã e por via dos meus sobrinhos, também eu lhe chamo avó Zé. A outra é sogra da minha cunhada, dona de uma simpatia que lhe calhou por engano pois, como diria alguém que eu conheço, as sogras não são assim. A minha vizinha é uma versão da primeira avó Zé.
Estende a roupa dentro da marquise e alisa-a, alisa-a, alisa-a. De minuto a minuto debruça-se na varanda para confirmar se o vento não enrolou a roupa estendida na corda. Tudo é feito a sorrir e com gestos de carinho, inexplicáveis numa tarefa como aquela. Tem prazer no que faz, antecipa a carícia dirigida ao dono da roupa, ou ao momento em que ela própria a vai usar ou vestir. Imagino que assim seja porque já a vi com o marido, penso eu que seja marido, à janela. Calmos e serenos, ela apanha roupa e ele segreda-lhe ao ouvido fazendo-a rir, criando uma imagem de beleza ímpar e que podia servir de anúncio para qualquer coisa que quiséssemos terna e eterna. Agarro nas molas em câmara lenta para poder não desviar o olhar desta senhora que rarissimamente vejo parada.
Os vidros da marquise, sem cortinados, parecem não existir de tão limpos e transparentes, em constraste com os meus que carregam o rasto de todas as pingas de água que já caíram no mundo e cujo pó parece alapado, mesmo que os lave de vez em quando.
Também a minha avó Zé nunca tem tempo e está permanentemente atarefada! É capaz de ver um filme na televisão, em pé, pois está a meio de cinquenta e nove tarefas diferentes. Tal como a avó Zé minha vizinha, usa sempre uma bata dentro de casa, tem um penteado tipo peruca que lhe ocupa horas de manhã a ripar, lacar e aprontar, mas vale a pena pois fica como o Santo que podia correr e até mergulhar sem que um único cabelo se descoordene do penteado geral. Claro que nunca vi a minha vizinha pentear-se, ao contrário da avó Zé, a quem já presenciei várias vezes o ritual matinal. Mas se por vezes estendo a roupa de noite, também acontece fazê-lo de manhã bem cedo antes de sair e… lá está ela, penteadíssima, impecável, a tomar conta da roupa. Mantém um sorriso, unhas pintadas, cantarola qualquer coisa, adivinho-lhe uma noite feliz.
Já me ocorreu que é uma extraterrestre que não dorme! Pensei nisto porque a avó Zé, minha vizinha, fica por vezes à janela olhando o céu. Não de braços cruzados, como eu que a olho de esguelha, mas fascinada, fumando um cigarro, mas em posição de partida, como um escuteiro sempre alerta. E se um lençol que abana mais vigorosamente lhe chama logo a atenção e ela se debruça para o acariciar, também não desvia o olhar do horizonte azul escuro, onde as luzes da cidade escondem as luzes do universo. A luz da sua própria casa permite-me ver que sorri. Sorri sempre. Olhará com esperança de ver chegar alguém? 
Eu espreito à janela e tenho sempre esperança de a ver a ela, olho a varanda dela em primeiro lugar, sabe-me bem, mesmo que a não vislumbre, saber que mora ali uma mulher que tem sempre uma modinha nos lábios e que, não sei se o sabe, a partilha comigo. Sabe-me bem saber que ali tão perto há uma mulher, na casa dos 70 anos, que com gestos insuspeitos e banais me faz emocionar.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Coisas da vida


Dando continuidade ao plano de emagrecimento, vou duas vezes por semana aos tratamentos. Até agora perdi 13 quilos e não os quero reencontrar! O tratamento é tão relaxante que adormeci… a bem da verdade, devo juntar noites mal dormidas e uma inquietação geral que não me deixa descansar.
Mas se me babo de noite, ninguém tem nada a ver com isso, se ranjo os dentes e acordo o meu filho no quarto ao lado, tenho que procurar tratamento para o bruxismo, se ressono durante o tratamento de emagrecimento fico com a cara à banda de constrangimento…

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Cegueira global


A cega entra no Metro com um cão. O cão é afagado, mimado, elogiado, tentam até falar com ele.
Perante tanta mercê um passageiro comenta que não se devem fazer festas a um cão-guia. A envolvência reage de sobrolho franzido e lança inocentes porquês com reticências antes da interrogação. A cega diz baixinho que os cães estão a trabalhar e não devem ser desviados da sua missão. Fala devagar e de forma informativa. Percebe-se que os amantes de cães não gostam. Rosnam baixinho ladrares imperceptíveis na forma mas claros no tom. Ela também o sente e diz:
- É curioso que se dê sempre mais atenção ao cão que ao cego. Já vim sozinha várias vezes e nem sempre me encaminham para a porta, mas se vier com ele é diferente. É como se fosse ele a pessoa e eu o animal.
O homem que tinha sugerido a contenção de mimos ao cão continuou o racíocinio da mulher:
- É verdade minha senhora… as pessoas nem se cumprimentam, mas baixam-se e gastam o tempo que for necessário a fazes festinhas a um cão.
A mulher esboça um sorriso e diz:
- A mim até fingem que não me vêem… e a cega sou eu.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

O tempo dos esqueletos


A história de amor dos meus pais é digna de um filme. Estão casados há 47 anos e namoraram 8, um namoro repartido por cartas de amor e muitas visitas do meu pai à aldeia onde a miúda morava, aldeia fronteiriça e com um posto da Guarda Fiscal, sendo ele o filho mais novo do cabo da Guarda. Antes dele tinham nascido seis e, para além da prole, os pais acolhiam ainda uma avó.
O primeiro par de sapatos recebeu-os quando entrou na escola e era um de cada nação, nem sequer do mesmo número, coisa que nos levava a perguntar quem teria levado da loja um par errado e que não tinha reclamado a anormalidade. Os dele foram os últimos, razão porque não podia escolher outros.
Sendo o mais novo, ficava com tudo o que já tinha servido aos irmãos, ao contrário da minha mãe, filha mais nova do dono do talho da aldeia, a quem o pai adivinhava os desejos e satisfazia as ideias mais bizarras.
A carne que lhe sobrava a ela faltava-lhe a ele, em todas as medidas: o magricela que só tinha ossos cheirava a gordura com que o comer era feito enquanto a rapariga, com 90 quilos aos 11 anos, comia chouriço e presunto dos bons, feitos em casa.
A dieta a que se submeteu voluntariamente não excluiu a carninha mas deixou-a com cintura com vespa e com o epíteto da rapariga mais bonita da aldeia.
O pedido de namoro, ao pai da miúda, correu muito bem: o sogro deu-lhe uma sova e ele correu como um profissional das olimpíadas, dali para fora. Só muito mais tarde foi aceite mas, quando o foi, foi na qualidade de filho verdadeiro, desenvolvendo-se uma relação única entre sogro e genro.
Assim, o namoro do filho mais novo de uma família muito pobre, repositório de restos, com a filha mimada de uma família a que nada faltava, foi uma sucessão de inusitados acontecimentos; assim, ela esticava um braço e comia o que lhe apetecia e ele ia aos pássaros, apanhava-os, depenava-os e comia-os, assim como tudo o que apanhasse e lhe pudesse confortar a barriga; assim, ela comia um cacho de bananas sozinha, o que a levou a ter que ser assistida por um médico e a não comer bananas durante mais trinta anos, e ele também tinha que ser visto pelo médico por ter comido não sabia bem o quê, mas que o punha doente, cheio de diarreias e carregado de febres.
O pai dela oferecia carne e fruta a vizinhos com comboios de filhos, e recebia um Deus lhe pague de agradecimento; o pai dele fechava os olhos a contrabandistas que sabia terem rebanhos de filhos, à espera em casa, e cujas mulheres davam qualquer coisa de comer ao filho do Cabo da Guarda quando o viam, como agradecimento.
O homem mais rico da aldeia não podia ter um nome mais apropriado, Sr. Leão, e penso que era sobre uma filha sua que se contava uma história maravilhosa, segundo a qual ela se teria apaixonado perdidamente por um empregado do pai, de condição sócio-económica oposta à sua. Numa ocasião, e diante de todos os trabalhadores, ela ter-lhe-á lançado um desafio, dizendo:
- Vou fazer-te uma pergunta… se acertares, casas comigo. Branco é, galinha o pôs, o que é?
O rapaz, terrivelmente embaraçado e para não criar constrangimentos ao patrão, que assistia à cena, respondeu uma laranja, ao que a rapariga sorriu e disse:
- Acertaste! Agora casas comigo!
E casou, com o beneplácito do pai, cuja fortuna podia ser grande, mas que não era maior que o seu próprio romantismo e se havia alguém que podia ser romântico, era ele, pois uma taleiga de azeitonas e uma fatia de pão para se comer num dia inteiro de trabalho no campo, não dava espaço a romantismos.
Os relatos que sempre ouvi, na primeira pessoa da parte do meu pai e de terceiros, da parte da minha mãe, eram de coisas tão distantes que pareciam estórias e não histórias. Eram relatos do tempo das vacas magras, vacas essas que eu nunca vi, em termos estruturais.
Hoje soube que a mercearia ao lado da minha casa foi assaltada de novo: levaram todo o pão, garrafas de azeite, limparam a fruta, os legumes e as latas de feijão e grão. Porque seria?
Levantam-se os esqueletos dos tempos de grandes dificuldades que viviam nas memórias, e apresentam-se aos nossos olhos como num filme do velho Oeste, carcomidos e abandonados. E vacas gordas são desenhos de crianças, que tendem a exagerar o tamanho das coisas.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Lisboa Story Centre


Assisti hoje à inauguração deste novo espaço na Praça do Comércio. O ponto de encontro antes da visita foi o belíssimo torreão nascente da praça, restaurado e operacional - e que ouviu as vozes dos responsáveis pela nova atracção, Presidentes da Associação de Turismo de Lisboa e da Câmara Municipal – e em nada se parecia com o local escuro e obscuro que visitei por duas vezes há uns tempos atrás. Parabéns.
Identificado como um centro de interpretação, o Lisboa Story Centre leva-nos numa viagem no tempo, apoiada tecnologicamente, onde não falta uma experiência imersiva, que nos remete para o terramoto de 1755.
Durante uma hora e com auxílio de um áudio guia, disponível em dez idiomas e com uma versão infantil, percorrem-se os seis núcleos da exposição e damos o dia como ganho. 

Chamamento


Baku chama-me. Chama-me com tal força e intensidade que, sem nunca a ter visto, sinto-lhe a falta, dói-me a inexistência de contacto físico.
Olivier Rolin, que igualmente me desconhece, escreveu para mim, em forma de chamamento, em letra de grito, de apelo: Baku, últimos dias foi leitura de férias, como quem lê notícias de casa, e se as primeiras palavras fossem Querida Areia às Ondas, eu não estranharia.
Acompanho Olivier como um dos fantasmas do filme Asas do Desejo, porém, não estou morta, estou muito viva e com ânsia de Baku. Neste livro reencontro Ali e Nino de Kurban Said, como quem encara com as neves do Kilimanjaro quando vai ao Kilimanjaro. Volta a mim O Orientalista (obrigada V.!) que adorei.
Baku, últimos dias é literatura de viagens e o plural de viagens é dito com propriedade pois são muitas e múltiplas, simultâneas e em diferido, todas as que se encontram neste livro impecável, sem gralhas, com um papel belíssimo, perfeito espaçamento entre linhas, fonte adequada, margens a condizer: é um objecto de culto por dentro e por fora.
Que Azarbeijão é aquele de Baku nos dias de hoje, que nos remete para um ontem que está tão presente? Que mar é o Cáspio que lambe esta preciosidade persa? Quem é Baku no seu todo, que sinto como uma pessoa? Não sei… mas vou saber.
Edição da Sextante. Irrepreensível. 

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

À beira do nada

Excepcionalmente, hoje tomei o pequeno-almoço na pastelaria onde só costumo beber café. Eram oito da manhã, a televisão estava ligada e debitava desgraças atrás de desgraças, tantas e todas ensanguentadas, feridas de morte, lavadas em lume, esfrangalhadas por caninos, mostradas em écrans de loucura que me dão vómitos.
É um patamar diferente da loucura política que nos amachuca e espezinha, numa espécie de puzzle que se completa e complementa e que me faz lembrar À beira do fim (Make room, make room, no original) da colecção de Ficção Científica da Caminho de Bolso (com capa azul, que se distinguiam dos policiais que era pretos; foram dos poucos livros que ficaram com o meu ex-marido depois do divórcio).
O autor, Harry Harrison, (morreu há duas semanas) viu o seu livro dar origem a um clássico do cinema, Soylent Green, que projectava o futuro de 2022, longe de 1973 quando foi gravado (e mais ainda de 1966, quando foi escrito), mas próximo agora de 2012.
No livro, a crise demográfica é tão grande, a sobrepovoação do planeta é tão dramática, que se paga às pessoas para morrerem, não só para que desapareçam como também para, com os seus corpos, poderem alimentar o resto da população.
As pessoas que se engalfinham como autênticos cães enraivecidos, e os que teimam em manter cães que diariamente matam outras pessoas, não estranhariam viver num mundo onde o alimento fossemos nós.
Os que desenvolvem esforços para se acabarem com as touradas, espectáculos horríveis e sangrentos que têm de acabar para dar espaço na comunicação social, e na vida!, a outros espectáculos horríveis e sangrentos, mas com protagonistas humanos, também dão excelentes cidadãos desse mundo impensável.
Os maus tratos, as mortes, os danos perpétuos que compõem as paredes sólidas da casa da violência doméstica, e que são como a guerra na Síria, qualquer coisa que se passa algures e que não é nada connosco, nem dariam conta se vivessem em 2022 e fossem alimentados daquela forma.
Os que usam as curvas das estradas como nós corredios de cordas para suicídios colectivos, num acelerar que é sempre lento aos olhos dos condutores, também seriam eleitos.
Indignamo-nos com a desvalorização dos valores morais, mas o facto de não se gostar de alguém é motivo suficiente para lhe enfiar um balázio na testa. Que raio de gente somos nós?
Há muitos anos, ainda aluna da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, ao lado da porta desta instituição vi um homem novo sentado no chão com um cartaz que dizia Liberdade ao Incesto. O meu cérebro lá processou aquilo como um erro de leitura, voltei atrás, reli e confirmei a mensagem. Era mesmo assim. Pelos vistos aquilo vingou sem que me apercebesse e crescemos numa anormalidade a que não se dá importância, engolem-se os dias e nada mais.

Expectativa superada

Lembro-me da minha amiga L. me dizer repetidas vezes que um dos meus problemas eram as expectativas: com a perspectiva de um simples passeio eu colocava-as, segundo ela, na estratosfera e acabava por me decepcionar. Não penses tanto no assunto, não cries expectativas, caso contrário, quando voltares, não vens satisfeita.
Quando passei pela Pousada da Juventude de Vilarinho das Furnas, num Junho com nevoeiro e chuva, e decidi que iria lá de férias com os meus sobrinhos, não sabia que a estadia me traria momentos de tão intensa felicidade. Sabia que iria ser divertido, mas não me atrevia a sonhar que fosse tão maravilhoso como foi.
Coincindindo com as férias da minha irmã e com uma deslocação do meu cunhado ao Brasil, deixámos o elemento mais novo da família com os avós e fomos os quatro.
Ficámos num quarto com beliches, gaiatos em cima, manas em baixo, sem televisão, por opção, nem casa de banho, pela economia. Partilhámos a casa de banho e demos ocasionalmente com os olhos na televisão, depois do jantar, quando passávamos na sala de estar da Pousada, a caminho da varanda para grandes jogatanas de cartas e não só.
Jantávamos na Pousada, almoçávamos o que sobrava dos pequenos-almoços, pão, fruta e iogurtes, e mais qualquer coisa que íamos comprando, eu a tentar não fugir à dieta.
Do Campo do Gerês a Terras de Bouro, da vila do Gerês à Portela do Homem, de Torneiros, em Espanha, a trilhos romanos sem fronteiras, passando pelos locais de culto como a Pedra Bela ou as piscinas naturais, passou-se uma semana num ápice.
Em Torneiros só falta a torneira para água quente ou fria: a quente sai e mistura-se com a fresca água do rio, correndo numa cama ladeada de relva, com fundo de pedra, num cenário digno de filme. Meti a ponta do pé na água quente e a temperatura fez-me recuar, impossível juntar-me aquela meia dúzia de heróis, ou friorentos, que ali jaziam ferventes. Espectacular!
De noite jantava-se na Pousada e ficávamos por ali, a descansar da jornada diária. Jogávamos às cartas todas as noites, mas a brincadeira que punha os outros hóspedes a olhar para nós, sem dar atenção às modalidades olímpicas que se iam sucedendo na televisão lá dentro, era um jogo divertido mas que nos deixa com ar de idiota: os outros jogadores escolhem uma personagem para nós adivinharmos qual é e o nome é escrito num papel e colado na testa… com cuspo, pois claro! Assim, todas as noites estavam quatro palhaços na varanda com papelinhos colados nas testas a tentarem adivinhar quem eram, por entre pistas que vão sendo dadas, batota que vai sendo feita, enfim, se for para brincar, tudo se permite!
E tudo isto com uma vista de cortar a respiração diante de nós, que se ia escondendo à medida que o sol se ia pondo, inventando novos verdes e novos castanhos, num baile de luz e sombra, do qual sentíamos fazer parte e respirávamos maravilhados nessa partilha.
Uma das caminhadas foi inesquecível. Saindo da Pousada, passando por Campo do Gerês, em direcção à barragem de Vilarinho. Daí até ao caminho romano, pela Mata da Albergaria e daqui até às piscinas da Portela do Homem. Antes de meio, a minha sobrinha dava mostras de grande cansaço e a invisível artrite reumatóite da minha irmã ia moendo, em silêncio. Disse-lhes que iria pedir-lhes boleia ao primeiro carro que passasse e assim fiz. O carro de cinco lugares tinha três vagos e o casal aceitou imediatamente levá-los. O meu sobrinho endireitou as costas, apertou-me a mão, encostou-se a mim e disse umas palavras que me soaram a fórmula mágica:
- Não me obrigues que eu não vou… eu nunca te deixava aqui sozinha, nunca.
O aperto de mão era intenso, a convicção dele genuína e forte, o amor que nos une multiplicou-se e fez nascer fogo-de-artifício, ali, naquele instante.
Fizemos o caminho juntos a pé e quando chegámos à estrada alcatroada, a três quilómetros das piscinas, perguntei-lhe se queria que pedisse boleia, pois via-o muito cansado.
- Se tu viesses sozinha pedias boleia?
Neguei, sabendo que a caridade da mentira o ofenderia. E assim, fizemos o percurso todo a pé e chegámos junto das miúdas que nos esperavam para merecidos mergulhos, não sem antes termos de galgar pedras e troncos, numa descida alucinante e perigosa, até à água que sabia a mel.
O caminho de volta foi feito de boleia para elas e a pé para nós. Nos últimos dois quilómetros, ele tropeçava nos próprios pés, eu parava constantemente a puxá-lo e, sem lhe perguntar nada, pedi a um carro para parar.
Era um Volvo, branco por dentro e por fora, estofos em pele imaculada, acabados de nascer, diria eu se ali não estivéssemos. A nossa roupa suja, as nossas botas de caminhar, elas próprias uma pousada de terra e sujidade, as nossas mochilas cuja metade do peso era pó, contrastavam violentamente com a alvura do belo do banco traseiro onde íamos sentados, embora o carro transportasse apenas o condutor que, não obstante ir sozinho e ter dito imediatamente que sim ao nosso pedido, sugeriu o banco de trás pois o da frente vinha com sacos.
Assim, como se fossemos num táxi do céu, fizemos o último bocadinho e descemos à porta do Parque de Campismo de Campo do Gerês, local de destino do simpático senhor. Elas esperavam-nos um pouco adiante, de gelado na boca e água geladinha a escorrer-lhes pela garganta, na companhia das pessoas que lhes tinham dado boleia, e que aceitaram o café que a minha irmã lhes ofereceu.
Foi um dia mágico – I do, i do, i do believe in fairies! – e até podemos ter outros melhores, mas nunca um igual.