terça-feira, 31 de julho de 2012

A primeira sessão de couch

A primeira sessão de couch na clínica de emagrecimento correu muito bem. A minha auto-estima bem como o apoio da maioria das pessoas que me rodeia foram apelidados de fantásticos!
Expliquei que contei a toda a gente que interage comigo diariamente, à minha família e amigos, dos quais recebo elogios e apoio constante e fiquei meia aparvalhada ao saber que há pessoas que fazem o programa em segredo total... mulheres que escondem aos maridos, maridos que escondem às mulheres, pessoas que escondem aos amigos.
Como é possível seguir um regime alimentar diferente sem que a família se aperceba? Fiquei a saber que há os mais variados expedientes como por exemplo nunca comer com a família, comer antes, alegando que se tinha fome; ou fazer o regime durante o dia e 'saltar' à noite.
As sessões de couch são precisamente para dar apoio, fazer perceber a importância do regime, uma vez que há muitas pessoas com 50 ou 60 quilos a mais e a responsável deu a entender que, com frequência, é um trabalho difícil e, por vezes, ingrato pois as pessoas querem mas... não querem.
Há quem tenha vergonha de emagrecer pois isso seria dar a mão à palmatória, aceitando que afinal estavam gordos. Conclusão, a cabeça das pessoas é mesmo estranha.
Confesso que não percebo a razão de se esconder uma coisa que interfere com a saúde, desde logo, e que devia ser proclamada aos quatro ventos, como um degrau de um melhoramento que todos querem, a todos os níveis.
Para além das questões de saúde há a sensação, maravilhosa diga-se a propósito, de nos sentirmos melhor: não me canso tanto, deixei os pés inchados algures lá atrás, já vesti saias que não vesti no Verão passado, a cintura está mais fina, o pescoço parece mais estreito.
Embora tenha muita força de vontade mas sei que preciso da ajuda de todos, como por exemplo de colegas e amigas que se juntam a mim naquele dia especial do mês para nos fotografarmos juntas e irmos vendo a evolução.
A sessão de fotos foi há dias e enquanto eu sorria, olhando-me, uma delas já fazia um esgar, alegando estar mais gorda... rimo-nos todas e essa é a parte melhor...

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Desejar e querer


As pessoas que trabalham em cafés usam e abusam do verbo Desejar, o que me irrita solenemente.
Eu não desejo um copo de água! Quando muito, quero um copo de água, primeiro porque não estou propriamente no deserto e não estou a morrer à sede, segundo porque o copo de água não é um gajo todo jeitoso e muito menos um Kilimanjaro, esses sim, objecto de desejo.
Eu não desejo que me ponham a metade do pão com queijo dentro de um saquinho! Eu quero e chega!
O desejar e o querer são coisas diferentes, cujo imaginário pode ser consubstanciado em comparação com a roupa que vestimos no dia-a-dia: ando sempre vestida mas com simples saias ou calções e não com vestidos de balão ao estilo de Maria Antonieta ou fatos de couro pretos e justos, depende dos gostos, daquilo que se deseja.
A vulgarização do desejo em contexto de balcão é esquisita e soa estranha.
Deseja-se as férias, quer-se um café cheio ou uma italiana. Deseja-se uma pessoa, quer-se um pão com queijo e manteiga. Deseja-se um olhar, quer-se um sumo de laranja. Quando muito, deseja-se as melhoras de alguém, mas não um galão.
Por favor, parem de me perguntar se desejo seja o que for dentro de um café porque não desejo nadinha... a menos que mudem de empregado, e aí já podemos rever os verbos.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Quem não gostava de ouvir 'isto' de alguém?


Ne me quitte pas
Il faut oublier
Tout peut s'oublier
Qui s'enfuit déjà
Oublier le temps
Des malentendus
Et le temps perdu
À savoir comment
Oublier ces heures
Qui tuaient parfois
À coups de pourquoi
Le coeur du bonheure
Ne me quitte pas
Moi je t'offrirai
Des perles de pluie
Venues de pays
Où il ne pleut pas
Je creuserai la terre
Jusqu'après ma mort
Pour couvrir ton corps
D'or et de lumière
Je ferai un domaine
Où l'amour sera roi
Où l'amour sera loi
Où tu seras reine
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Je t'inventerai
Des mots insensés
Que tu comprendras
Je te parlerai
De ces amants là
Qui ont vu deux fois
Leurs coeurs s'embrasser
Je te raconterai
L'histoire de ce roi
Mort de n'avoir pas
Pu te rencontrer
Ne me quitte pas
On a vu souvent
Rejaillir le feu
De l'ancien volcan
Qu'on croyait trop vieux
Il est paraît-il
Des terres brûlées
Donnant plus de blé
Qu'un meilleur avril
Et quand vient le soir
Pour qu'un ciel flamboie
Le rouge et le noir
Ne s'épousent-ils pas
Ne me quite pas
Je ne veux plus pleurer
Je ne veux plus parler
Je me cacherai là
À te regarder
Danser et sourire
Et à t'écouter
Chanter et puis rire
Laisse-moi devenir
L'ombre de ton ombre
L'ombre de ta main
L'ombre de ton chien
Ne me quitte pas

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Rir para não chorar

Ri à brava, ri mesmo, ri com vontade, é que só podia rir, embora o assunto seja sério.
Nos noticiários passam de hora a hora a informação que foi feito um estudo que conclui que se vende tabaco a menores de 18 anos.
Pagaram para fazer este estudo? Espero que não... qualquer dos 10 milhões de habitantes diria o mesmo, mais até: uns diriam que sim, que o compram, encolhendo os ombros; outros diriam que sim, que o vendem, encolhendo os ombros; todos os outros diriam que sim, que já viram e sabem que é uma realidade. Encolhendo os ombros também...
Pago para ver um empregado, dono, seja o que for, de um café a pedir a identificação a alguém antes de vender álcool ou tabaco: as vendas estão más, os pais e mães fumam e bebem e a criancinha compra para consumo alheio, e se não têm 18 anos, até parecem!
E se se diz alguma coisa, como numa ocasião em que vi venderem o belo do copo do tinto logo de manhã a um homem em avançado estado de bebedeira àquela hora, ainda ouvimos: Meta-se na sua vida!

quarta-feira, 25 de julho de 2012

A vida é um tabuleiro de xadrez


A vida é um tabuleiro de xadrez onde assumimos o papel de diferentes peças.
Somos rei ou peão; dependendo da mão que nos arrasta; da alma que cativámos; do coração que conquistámos e do que fizemos com ele.

Mestrado, excertos do discurso de apresentação


Este trabalho é uma radiografia do casamento entre o meu percurso profissional e académico. Revela as teias e as redes que se foram criando ao longo de décadas, com pessoas, locais, tarefas e objetivos a atingir.
Revela também a aquilo a que Primo Levi chama a beleza das bifurcações, as escolhas que fazemos ao longo da vida, umas por opção nossa, outras ajudados pela envolvência, mas com a certeza que os caminhos são nossos e que temos capacidade de os construir e de os mudar.
Garantir o acesso à informação é a palavra-chave da minha missão e que se desdobra em distintas actividades, presencialmente ou à distância, adquirindo livros ou construindo repositórios.
A origem dos utilizadores, por via de Bolonha, dos programas Erasmus, de protocolos vários, da sua vontade, tem limites que coincidem com os do mundo conhecido, quer os que nos visitam pessoal ou virtualmente.
A missão é satisfazer e apoiar o utilizador, o cliente, o leitor, o user, o usuário, o utilizator, o utilisateur, seja quem for, em primeiro lugar.
Ajudá-lo significa antes de mais entendê-lo: perceber a sua língua, ensinar-lhe a minha também, mas conseguir atingir uma plataforma de entendimento para lhe poder prestar os serviços que pretende e precisa.
Assim, e concluindo, o núcleo da missão é construir, construir sempre, numa não satisfação permanente, porque há sempre alguém a quem atender, porque há novos e permanentes desafios, porque vivemos e trabalhamos para os outros.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

A massagem


Para além do regime alimentar – com óptimos resultados até agora – o meu plano de emagrecimento contempla sessões de exercícios que, até agora, têm sido fantásticos.
São de três espécies diferentes mas ainda só experimentei um deles, que consiste em meter-me num fato que, ligado a uma maquineta, vai sendo cheio de ar, num movimento que em tudo se assemelha a mil mãos a massajarem-me em simultâneo. 
Aquilo vai enchendo e esvaziando, como um bóia, proporcionando sensações tão agradáveis que me levam a fechar os olhos, quase adormecer e ficar sempre um pouco frustada quando acaba.
Na primeira vez, e vendo que ficava com os braços de fora, perguntei se podia ler enquanto estava ali deitada. Meia hora dá para muita página! A senhora disse que sim e mentalmente fiz um post it para não me esquecer do livro na sessão seguinte. Mas qual ler qual quê, se aquilo nos leva para o campo dos sonhos, nos faz esquecer tudo e nos proporciona momentos de leveza intensa?
Terminar um dia de trabalho com uma massagem daquele gabarito é restaurador de forças e renova-nos os pensamentos positivos. Estou ansiosa pela próxima sessão.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Ai Lurdes, Lurdes...


Ao meu lado no Metro senta-se um homem na casa dos 50 anos. Reparei nele e tirei-lhe a idade ao ouvir o telefone tocar, tocar e tocar, perceber que ele tinha o dito na mão, mas não atendia. 
Tentei concentrar-me na leitura mas o telefone voltou a tocar. Ele deu-lhe uma mirada rápida, mas suficiente para eu ver pelo canto do olho a palavra Lurdes, sinónimo que a Lurdes queria falar com ele. Mas, vá lá saber-se porquê, ele não queria falar com a Lurdes! E por isso desligou sem atender.
Baralhei-me na leitura, recomeçando umas linhas adiante de onde estava e voltei atrás, procurado de novo a concentração, mas… o telefone voltou a tocar e desta feita ele atendeu para dizer: Ouve! E nada mais, pois do outro lado solidificaram-se uns gritos que o fizeram afastar o telefone da orelha e desligar de novo.
Ora a Lurdes pode ter muitos defeitos mas desistente é coisa que não é e a prova provada ficou ali bem patente, naquele balancé, onde ela ligava e ele desligava, como se empurrassem um baloiço, à vez.
Fechei o livro e o casal que ia sentado diante de nós e começara a conversar no início da viagem, estava calado.
A Lurdes não se cansava e ao homem não lhe ocorria desligar aquilo. Meteu-o no bolso, o que abafou o barulho, mas não o calou, antes pelo contrário: numa das vezes em que tocou, talvez pela pressão de estar apertado, premiu-se a tecla que dá ok para atender e criou-se uma situação ridícula e cómica (para quem via, pois claro), com a Lurdes aos gritos, perfeitamente audíveis, de dentro do bolso das calças do homem, como se fosse uma liliputiana que ali vivesse.
Encarnado como um tomate, só aí o homem decidiu desligar o telefone. Confesso a minha curiosidade… que lhe quereria a Lurdes…? Devia ser assunto urgente...

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Sacrifícios? Façam-nos vocês! 2


Indignada com a situação relatada no post anterior, desabafo com a minha cunhada e partilhamos preocupações sobre o futuro dos jovens.
- Dos jovens?
A voz dela é irónica e explica-me então que a pressa se devia ao facto de já terem contactado o Centro de Emprego e todos os potenciais candidatos terem negado a proposta!
De entre as alegações finais destaca-se um que lhes respondeu que Agosto não é mês para se começar a trabalhar!
Como se diz na minha terra, puta qu’os pariu!

Sacrifícios? Façam-nos vocês!


A minha cunhada pede-me ajuda para, junto do Gabinete de Inserção Profissional da universidade onde trabalho, selecionar recém-licenciados em Gestão ou Economia para integrar uma equipa que irá proceder a candidaturas várias a projectos europeus.
Enviam-me seis currículos, cinco homens e uma mulher. Decido fazer um contacto telefónico antes e, mediante um resumo do que se pretende e do que se oferece – estágio profissional durante 9 meses, 600 euros líquidos mensais, subsídio de alimentação, eventual contrato adicional de mais 6 meses – percepcionar quem poderá ter mais capacidade de alinhar no projecto.
Dois dos supostos candidatos não atendem. Outros dois estão de férias fora de Lisboa e não podem vir – nem pense nisso, afirmou um deles quando lhe perguntei se estava disponível para uma entrevista amanhã.
O quinto, depois de me apresentar, de esclarecer os intentos do telefonema e dar as condições, ficou calado. Face ao silêncio, perguntei:
- Está interessado? Posso dar os seus contactos à empresa?
- Talvez…
- Talvez…?
- Tenho que cumprir um horário?
- Sim, é uma das condições.
- Então não obrigado, agradeço o contacto, mas horários não é comigo.
A sexta tentativa foi junto da senhora e, já sem esperança, ouvi-a responder que sim, que está interessada, que só precisa de saber o horário para eventualmente mudar uma aula de mestrado que está a terminar, e que espera que o facto de morar longe não seja um handicap, pois é cumpridora e zelosa dos compromissos que assume.
Não sei se é cumpridora ou não, pois não a conheço, mas da meia dúzia de recém-licenciados num país onde o desemprego é dramático foi a única a dizer sim. Não fosse haver dúvidas, ainda lhe perguntei:
- Percebe que terá que trabalhar agora, no Verão, que começa a 1 de Agosto?
- Sim, sim, tudo bem… sobra-me muito tempo para ir à praia e estudar, sem problemas.
Quanto aos outros, são artistas portugueses, bem conhecidos do público e que merecem grandes salvas de palmas, principalmente quando engrossarem manifestações na avenida da Liberdade a dizer que não há trabalho. Isto se a manifestação for no Inverno, vá lá, no Outono, caso contrário, manifestam-se mas é nas ondas do Algarve.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

'O dinheiro não tem a mínima importância, desde que se tenha muito'


As dores nas costas levaram-me a optar por andar sempre de mochila, preterindo as malas, ditas de senhora. 
Visualmente fico com um ar fora do comum, meio estrangeirado como já me disseram pois, mesmo de vestido ou com uns saltinhos de sapato, ligeiros, que nunca fui dada a agulhas, carrego a mochila às costas. A imagem é deselegante, mas preocupo-me tanto que continuo a andar com a mochila.
A dita tem uma bolsa onde ponho os cigarros, o passe, a carteira do dinheiro, as chaves do carro e de casa.
Ontem fui jantar com uma amiga que não via há alguns meses e quando chegámos ao restaurante verifiquei que a bolsa da mochila estava aberta e a carteira tinha desaparecido. Despejei tudo ali mesmo num desespero de cerca de 60 euros, mas nada. 
É claro que foi ela a pagar o jantar – um bitoque para ela e uma salada mista com um queijo fresco para mim! – e embora tivesse gostado de estar com ela e a conversa se tenha prolongado até perto da meia noite, nunca deixei de pensar no meu espólio perdido que devia sustentar-me até ao fim do mês.
Ela ia falando e contando as desventuras dos últimos meses, dignas de um filme dramático, e eu ia-me perguntando interiormente, comparado com isto, o que são 60 euros? 
Com este convencimento, pouco seguro diga-se de passagem e honestamente, lá fui para casa, onde marquei o despertador para bem cedo, pois tenho uma reunião importante dentro de minutos. 
Hoje de manhã cheguei concentrada e a relembrar leituras que me podem apoiar no encontro, que se quer de qualidade.
Entrei no escritório e desconcentrei-me maravilhosa e imediatamente ao ver a carteira em cima da mesa, no meio de uns papéis: com o rádio ligado dancei em volta da secretária uma dança que valeu sessenta e um euros e vinte cêntimos! Ufa…

terça-feira, 17 de julho de 2012

P de Pessoa e de Professor


Já não tenho a responsabilidade de fazer verificação de plágios em teses e dissertações, contudo, continuam a pedir-me para passar o meu olho clínico por inúmeros trabalhos. Perguntam-me como sei que aquela frase, aquela especificamente, é copiada.
A bem da verdade, não sei. É uma espécie de instinto de polícia que me faz seguir as pistas certas. Quase sempre, mas nem sempre.
Uma das coisas que me surpreende é o facto de os orientadores não se aperceberem de nada e deixarem passar as coisas mais caricatas. Não é suposto conhecerem os alunos e terem falado com eles? Se um cavalheiro não consegue articular três palavras seguidas é estranho que construa textos dignos do Nobel.
Na semana passada um professor pediu-me que fizesse a dita verificação de originalidade, mas só para saber de onde tinha sido feito o plágio, que tinha detectado logo à primeira leitura, argumentando que se o aluno não percebia nada daquela matéria, era suspeito ter um trabalho tão brilhante.
Pergunto: a atitude deste professor é assim tão única? Conhecer o aluno e saber se as suas capacidades o levaram até ali ou não? Parece óbvio? Mas não é…
A atitude deste professor destaca-se e isola-o, não porque saiba ver o que alunos escrevem, mas pela simples razão de conhecer os alunos. E de facto conhece-os, um a um, porque se dá ao trabalho de conversar com eles, de os ouvir, de os aconselhar, de lhes sugerir leituras, umas mais gerais, para todos, outras bem certeiras, de acordo com interesses específicos.
Por outro lado, conhece os autores que sugere, já os leu e releu, está atento a tudo quanto se produz no mundo dentro da sua área de estudo, lê em várias línguas e escreve também, produz conhecimento.
Esta plataforma múltipla, enquanto pessoa, faz dele um Professor, com maiúscula, não à moda antiga, como se costuma dizer, mas intemporal, como os Professores deviam ser.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Follow the leader


A minha sobrinha faz amanhã 8 anos e os pais vão levá-la à Isla Mágica a Sevilha, no fim-de-semana.
Ora, acontece que a tia, mestra desde ontem, também foi convidada, com o pretexto de fazer companhia, que os sobrinhos gostam muito dela, que há um lugar no carro, etc. Mas a verdade escondida é que se uma criança da família faz anos, há outra que merece um presente: eu!
Os miúdos vão adorar aquela macacada toda, tenho a certeza, ou não fosse eu o líder deles.
Já arregimentei a lista de comezainas que tenho que levar para não dar cabo da dieta – mais que ontem, ai nem me quero lembrar… - e só não vou andar com um ar invejoso o tempo todo porque serei a companhia preferida deles em carrosséis e quejandos. Posso comer as saladas, mas serão regadas a grandes doses de molho de adrenalina!

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Prova superada


Há alguns anos dava um programa na televisão que se assemelhava aos Jogos Sem Fronteiras e no final de cada desafio o apresentador gritava Prova Superada!
Pois é o que posso dizer hoje de mim própria, depois da apresentação das provas de Mestrado: Prova Superada!
Agora avanço em velocidade de cruzeiro para o doutoramento, o segundo, que o primeiro vai ficar a meio, pelo menos por agora.
Não houve mudança de interesses, apenas considero que neste momento posso ser mais útil numa área diferente. Fiquei vaidosa, é verdade, com a manifestação da importância atribuída ao trabalho que quero desenvolver futuramente.
Diz-se que somos um povo de invejosos em associação à última palavra do poema épico Os Lusíadas. Tive o cuidado de terminar o meu trabalho com a palavra útil. Dela quero extrair o que tenho para dar e partilhar. 

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Maldades


A propósito da minha nova forma de encarar a vida – leia-se projecto de emagrecimento - bem como a propósito de menções a grão, presunto e eteceteras, menciono aqui uma dura prova a que fui sujeita ontem: uma amiga estrangeira está cá de visita e convidou-me para almoçar. 
O menu foi terrivelmente desiquilibrado: ela comeu feijão branco com dobrada e outras carnes, que vinha deitado num molho com uma sensualidade tal que mexia com os nossos instintos mais primários. 
Umas rodelinhas de enchidos que lhe faziam companhia tinham todo o ar de marinheiros, daqueles das grandes aventuras no mar que só vivem nos livros, queimados e com mil sabores para partilhar. 
Percebia-se que o vinho dava ali um toque de especiaria rara, tornando a refeição um momento divino, a consumir até de olhos fechados, para que nada interferisse naquele prazer.
Eu comi uma salada mista. Com água!

segunda-feira, 9 de julho de 2012

A dieta


O peso do excesso de peso ganhou um peso muito pesado, razão pela qual entrei num programa – não de televisão! – para perder peso, inaugurando-se hoje uma nova secção, a da dieta.
Incentivada pelos resultados de colegas – uma que declarou abertamente o que estava a fazer e outra que nem por isso – fui a uma consulta. Gostei da abordagem, tive que me resignar ao preço – aqui pensei demoradamente no antes e no agora da minha colega – e estou super empenhada numa mudança de vida que não é fácil.
Eu, a super desregulamentada com as horas das refeições, comecei com post-it’s para me lembrar das horas, mas depois optei pelo telefone a despertar várias vezes ao dia: agora é fruta e duas bolachinhas, depois é pão com queijo magro, a seguir uma salada, depois mais uma fruta, agora não, que ainda não são horas, mais dez minutinhos, e por ai fora. E não é que estou a conseguir?
Ainda não me habituei ao papel onde tenho que escrever tudo o que como e a que horas, mas esforço-me para o preencher em condições. A dieta já leva duas semanas e hoje vesti uma saia que há um mês atrás só me servia nas orelhas.
Investi numa balança de cozinha que pesa até à grama e envergonha aquela que lá morava, uma excepcional prenda de Natal cor-de-laranja, uma barbie das balanças, linda mas sem utilidade, e agora peso tudo: a fruta, a carne, o peixe, o pão, até a salada (agora que falo nisto lembro-me que tenho que comprar pilhas, pois cada vez que quero usar a balança roubo as pilhas do comando da televisão…)
Amanhã farei o primeiro tratamento, aparentemente metida num fato que me darão e do qual não me posso esquecer cada vez que for à clínica. Tenho que por um post-it para isto…
Para além da saia preta, que já me serve outra vez, deixei de ter os pés aparentados com os pedestais das estátuas. Para as duas primeiras semanas, não está nada mal!

Ti No Ni Pum

Oito da manhã. A ambulância passa pelos, chamados, intervalos da chuva entre os carros, com a  sirene ligada. Todos se desviam talvez lembrando-se, como eu, das vezes em que outros se desviaram para a ambulância onde eu seguia poder passar, talvez tentando adivinhar quem vai lá dentro, uma grávida prestes a dar à luz, alguém que sofreu um acidente. Esta ia vazia em socorro de um eventual acidente cardíaco. 
Fiquei a saber porque à minha frente ia uma senhora que se desviou da ambulância colocando-se precisamente no seu caminho o que provocou um acidente. 
De janelas abertas ouvi o condutor falar pela rádio ou telefone, não percebi, e pedir, entre outras coisas, que enviassem um carro de substituição pois aquele ficaria ali.
Apesar de metade da estrada ter ficado condicionada, conseguia passar-se, mas como a coisa se deu em cima de uns semáforos houve tempo para ouvir a queixa da senhora, que tinha vislumbrado a faixa vazia e por ela tinha decidido acelerar, apesar de existir ali um traço contínuo, alegando com ar ofendido que a ambulância devia ter... apitado...
Toma lá que já almoçaste!

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Ai, o homem, o homem


O acidente nuclear de Fukushima foi provocado pelo homem. Em 2009 o avião da Air-France caiu por causa do homem. O aquecimento global é culpa do homem. E a extinção dos animais? Homem!
Podíamos continuar e a famosa única folha de Jack Kerouac não seria suficiente.
Parafraseando a célebre frase inscrita no Alqueva, Prendam o raio do homem, porra!

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Aprende que eu não duro sempre

Ouvi dizer que há enfermeiros a ganhar três euros e qualquer coisa à hora. Lembro-me logo do meu primo JC que é enfermeiro e sugiro-lhe, a ele e a quaisquer outros, que não reclamem!
Se ganham pouco, trabalhem mais horas; se trabalharem mais horas nem dão pelo tempo passar, não têm hipóteses de gastar dinheiro mal gasto, por exemplo a passear com os filhos, podem poupar alguma coisa que será bem usada nos folhos, cetins e sedas de um belíssimo caixão.
Pensa comigo JC: a vida é temporária, é curta, mas a eternidade..., bolas!, é eterna, e de que te vale comeres bem e vestires-te em condições os três dias que por aqui andas? 
Aproveita e tira os miúdos da escola - até porque depois podem licenciar-se num qualquer fim-de-semana se forem para a universidade certa - ensina-os a mentir e a aldrabar e quando forem adultos podem escolher uma profissão de jeito, na Política, é claro. 
Aqui ficam saudações da tua prima que, quando tinha possibilidades, usufruía da ajuda de uma pessoa para as tarefas domésticas a quem pagava, há anos, sete euros e meio à hora.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Acreditar é bom


Que se use o Acreditar até se gastar
Até ficar puído
Que se use para nos lembrarmos mais tarde
Que acreditámos
E gargalhemos por estar aqui

A cotchia


No sábado levei o meu visitante espanhol a visitar Aljubarrota pois numa conversa casual afirmara nunca ter ouvido falar de tal coisa.
Belas sardinhas almoçadas na Nazaré e uma passagem por Óbidos, fizeram um dia magnífico onde não faltou um mergulho nas águas nazarenas, pouco quentes e muito revoltas.
Embora fale muito bem português, tem sotaque cerrado e, de vez em quando, falta-lhe uma palavra ou outra, mas em geral percebe tudo.
Descíamos nós o ascensor para a praia na Nazaré quando a minha amiga C., que passou o dia connosco, decidiu dar o ar da sua graça em castelhano e lhe perguntou se gostava mais do lugar à janela ou na cotchia? O olhar interrogador do José teve que esperar uns bons minutos até me parar o ataque de riso e explicar que ela queria dizer pasillo, mas tinha espanholado a palavra portuguesa coxia.
A pobre da C. levou com cotchias o resto do dia, prolongado até Domingo, dia em que ele se foi embora, depois de uma espera de quatro horas no aeroporto de Lisboa onde, sem grandes explicações, lá o meteram num avião perto das oito da noite.
A C. tinha elogiado a TAP o fim-de-semana inteiro mas o José diz que TAP nunca mais, nem à janela nem na cotchia… 

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Alhos e bugalhos

Há muitos anos os meus pais aceitaram a ajuda do pai de um primo meu por afinidade para pintarem a casa de alto a abaixo. O Sr. Ribeiro era especialista na matéria e não deixava cair pingas no chão, coisa que a nós nos fascinava pois, em ocasiões anteriores, o chão, apesar de resguardado com tapetes velhos e jornais, ficava quase tão pintado como os tectos.
Lá nos dividimos entre 'pintores' e ajudantes e calhou a minha mãe ser ajudante do Sr. Ribeiro, que nascera em Baião e transportava com ele toda a cultura e tradição do Norte.
O Sr. Ribeiro era, e ainda é, muito conversador e dono de uma enorme simpatia, mas tinha um sotaque denso e cerrado. Lá do alto do escadote falava, falava, falava e a minha mãe dizia Sim, Sr. Ribeiro, Pois, Sr. Ribeiro e andava neste pingue-pongue, e o homem de pingue-pongue também, sobe e desce do escadote, até que Sr. Ribeiro foi pedir outro ajudante, alegando que a que lhe coubera em sorte não falava a língua dele e ele pedia isto e aquilo e ela que Sim, Sr. Ribeiro e que Pois, Sr. Ribeiro, mas nada de fazer o que ele pedia.
Lembrou-me este episódio a propósito da semana espanhola aqui na biblioteca, que está a terminar.
Quando estive na Universidade em Madrid falei sempre castelhano e agora combináramos que todas as conversações seriam em português, que o José domina bem, apesar do sotaque carregado. 
Pedi às pessoas com quem ele contactou durante estes dias que falassem devagar, pois se assim fosse ele entendia tudo. 
Porém, nem sempre assim aconteceu e a propósito de uma colega que fala à velocidade da luz, a que alia um leve sotaque nortenho, perguntou-me ele se ela era brasileira, pois não percebia metade do que dizia. Desatei a rir pois, há tempos, eu tinha estado com ela em S. Paulo, e tinham-me perguntado se ela era espanhola...
Com uma outra colega, que também fala depressa e com quem eu brinco amiúde, acusando-a de não ouvir o que se lhe pergunta, surgiu a seguinte conversa:
- Vais para França nas férias? Para que cidade?
- Vou na TAP, que não confio noutras companhias
Se tudo isto se passasse num estúdio de televisão eu era aquela pessoa contratada para dar gargalhadas... 

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Boa vizinhança

Depois de ter estado a fazer Erasmus na Universidad Complutense de Madrid, recebo agora um colega de lá, aqui na Biblioteca.
O conhecimento data desde essa altura tendo existido uma empatia mútua desde o primeiro dia. Burocracias assinadas, a permanência na Biblioteca tem sido diária e não há nada de especial a assinalar. 
Ontem disse-me que ia ver o jogo de futebol sozinho, no quarto do hotel, não sei se apelando à minha humanidade ou só para fazer conversa. 
Assim, combinámos assistir à partida juntos - eu percebo de futebol na medida em que sei quem são os jogadores giraços - e escolhemos um bar aqui perto onde, na companhia de uma amiga minha - igualmente sabedora de muita coisa, onde não se inclui o futebol - e no meio de umas tostas de tomate, frango e atum, diante de uma televisão de tamanho considerável, lá fomos assistindo à tortura da bola, consubstanciada em tanto pontapé que levou, de um lado e do outro. Aquilo era raiva ibérica, tudo a dar no esférico com quanta força tinham.
Escusado será dizer que o José era o único espanhol e que ouviu todo o tipo de impropérios dirigidos aos seus conterrâneos, coisa que não o afectou em nada e que não lhe tirou o sentido de humor e a vontade de rir. 
Pela minha parte discuti com a minha amiga os pormenores da equipa adversária sobre os quais tenho efectivo conhecimento, tendo o Iker e o Sérgio levado a palma. 
Com a minha única tatuagem, senti-me uma caloira, uma verdadeira noviça diante do Raul Meireles. 
Amei de paixão o cabelo do Ronaldo que me faz lembrar o de Roger Moore em O Santo: podia mergulhar, saltar de um penhasco, correr no meio de um tufão, mas não havia um cabelo em desalinho, nem um! 
Já o do Fábio Coentrão, visto de costas, é a cara chapada de uma galinha de pescoço pelado, assunto a que se deverá dar atenção, pois os cientistas descobriram que as galinhas da Transilvânia com esta característica são mutantes. Ora, ser mutante é uma maçada que nos manda para a ficção científica e a Transilvânia faz-nos lembrar aquele rapaz, o Vlad (não sei em que equipa jogava) mas consta que era um bocado violento.
Por outro lado, gosto imenso do Rolando que me recorda Roncesvales, Carlos Magno e toda uma elite nobre, aqui na vertente africana. 
Tive imensa pena de não ver jogar Rúben Micael para poder torcer por ele, repetindo uma das sete maravilhas do mundo em termos de casamento de nomes.
O meu amigo José assistia quase em silêncio não fosse ser denunciado como uma espécie de raposa no meio do galinheiro, e no final pagou a conta, por sugestão dele logo ao início: Paga quem ganhar. 
Viva a boa vizinhança.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Segredos aqui ao lado

Sábado foi um dia em cheio: oito horas de pé com uma garrafa de água por alimento, dirão alguns, mas se lhe juntarmos a visita ao Palácio Marquês de Pombal, de manhã, e à Real Quinta de Caxias de tarde, percebe-se que não passei fome alguma.
As visitas, previamente programadas, foram conduzidas por Rodrigo Dias e José Meco, de manhã, e Carlos Beloto e João Pancada Correia de tarde.
Não se dava conta das horas a passar, as palavras fluíam, a informação era basta, os locais maravilhosos. Os tectos do palácio são preciosidades raras que até agora têm sido contempladas pelos alunos do INA, lá instalado, e que já estão em processo de abandono das instalações.
A surpresa da manhã consistiu no facto de a sala destinada pelo INA a servir de biblioteca estar vazia: pela primeira vez em muitos anos pudemos ver as estátuas de Machado de Castro e as belíssimas fontes italianas em mármore de Carrara. A tarde reservava-nos igualmente um momento único: a cascata de Caxias a funcionar em pleno, introduzindo o elemento sonoro naquela arquitectura de jardins, a frescura, o movimento sempre belo da água.
Aos quatro anfitriões nada pode ser apontado: os enquadramentos gerais, o salientar de pormenores  invisíveis ou desconhecidos, a mostra da prática de uma investigação séria e comprometida, com assinatura.
O passado, o presente e o futuro estavam ali de carne e osso, de onde viemos, onde estamos e para onde queremos ir, para onde devemos ir, queiram os deuses perceber que os caminhos são aqueles e mantenham o respeito pelo património.
Real Quinta de Caxias está aberta ao público, fica a dois passos (literalmente!) da estação de comboios, e famílias, pares de namorados, curiosos e amantes de jardins vão assinar em uníssono a afirmar que é belíssima.
Dos quatro especialistas que nos acompanharam ao longo do dia, todos atentos a perguntas do público, todos com linguagem acessível, mas que não ilegitimava o universo da sua especialidade, destaco José Meco, apesar de, repito, considerar cada um dos outros brilhantes e todos com aquela coisa especial, que não sei como lhe hei-de chamar, de saber falar para um público diferenciado.
José Meco segurou as pessoas com um discurso cheio de informação, mas em simultâneo leve, curioso e fascinante. Com imensa frequência mencionava quem tinha descoberto aquele pormenor, quem tinha feito ou desenvolvido aquela investigação, quando e onde estava publicada. Isto é fantástico no mundo da investigação histórica, ou outras: dar o seu a seu dono, fazer os trabalhos de casa cruzando a informação e a sua origem, o que aumenta e solidifica essa mesma informação. 
José Meco falava e cada um de nós interiormente tinha a certeza que ele sabia tudo o que havia para saber. Bem sei que isto nunca se atinge, mas a serenidade e segurança (ainda que a correr pois o tempo corria também) com que falava e a demonstração efectiva do que dizia, foram fabulosos.
Se a Real Quinta de Caxias está aberta ao público, o Palácio não está, e devia estar sem dúvida alguma pois o que contém não pode estar guardado só para visitas esporádicas, é bom demais para tão pouco.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Partir o passado no chão da cozinha

Quando trabalhei em Almada dava-me diariamente com uma mulher que pregava ideias que eu admirava. Dizia a M. – e fazia-o! – que quando percebia que um relacionamento não funcionava, afastava-se, custasse o que lhe custasse. Vi-a a fazer isto com relações amorosas e com pretensos amigos. Apesar de estranho era uma forma de se defender cuja tática nunca incluía ataques de espécie alguma. Se uma amiga se afastava dela, deixava-a ir alegando que não tinha que prender alguém e que, se não queriam a sua companhia, não era ela que a imporia, nunca, sempre com a certeza que os verdadeiros amigos, esses, ficariam, mesmo com aborrecimentos, zangas, interregnos, afastamentos ou silêncios.
Com ela aprendi a dizer às pessoas que o mereciam que as amava, um amor fraterno e incondicional. A nossa amizade mantém-se, embora nos vejamos raramente e já tenhamos tido desentendimentos mas, tal como ela sempre defendeu, como é verdadeira, não morre e, de repente, surge um encontro, telefonemas que não fazemos a outras pessoas, trocam-se palavras que não são meras palavras.
Quando falamos ao telefone parece que não nos vemos desde ontem, tal a força da ligação, da presença, ainda que invisível.
As nossas vidas são cruzadas por inúmeros conhecimentos que vêm e vão, em alguns depositamos, ainda que inconscientemente, grandes esperanças, que passado algum tempo se desvanecem, com tristeza uns, com alívio outros.
Uma destas pessoas em quem depositei esperanças um dia deu-me um queijo. De visita a casa dela mostrou-me o queijo que alguém lhe tinha oferecido, e que ela tinha colocado num prato, adiantando que aquilo iria parar ao lixo pois ninguém lá em casa gostava, e que se eu quisesse, que o levasse. Claro que quero! E assim levei o queijo e o prato onde estava dentro de um saco, comemo-lo e o prato foi lavado, à espera de voltar para o armário onde pertencia.
Porém, hoje por esquecimento, amanhã não sei porquê, o prato foi ficando. Por uma estupidez enorme, aliada a conselhos de pessoas parciais da parte dela, afastámo-nos e não lhe devolvi o prato.
No fim-de-semana, ao puxar uma travessa daquelas que raramente vêm a luz do dia, o prato vem atrás e fica no chão transformado em prato ralado. Varri os cacos e deitei-os fora pensando que já o devia ter feito antes, talvez até de forma propositada, para simbolicamente deitar fora aquele aparente e parente prémio do Trivial feito percurso individual que me causava tristeza cada vez que o via.
Cortar amarras com o passado não é fácil, principalmente se deixamos ligações que fizeram algum sentido ou que, melhor dizendo, nos parecia fazerem sentido.
Por várias vezes discuti o assunto com a M., este concretamente e outros semelhantes, nossos ou de pessoas que conhecíamos, e sempre estranhei o facto de as pessoas não conversarem, pura e simplesmente, cortarem relações, às vezes sem que saibamos de todo porquê. Ela encolhe os ombros e afirma, com ar sapiente, que nunca conhecemos seja quem for. Relembramos os nossos momentos menos bons e reflectimos em como os ultrapassámos. Conto-lhe que uma pessoa me deixou de falar de um dia para outro, sem motivo algum nem resposta ao meu pedido de explicação e que, encontrando-a na rua inesperadamente, meses depois, me cumprimenta, eu respondo com um educado, mas brusco, Boa tarde, e viro costas. Ela diz-me que nem Boa tarde teria gasto, nem um olhar teria perdido para alguém assim.
Conto-lhe a história do prato partido e ela não tem dúvidas: O destino quer limpar a tua vida!
Quer queiramos quer não, é um permanente trapézio, como diz a minha sábia amiga M., nunca sabemos quando nos deixam cair, e mais, corremos sempre o risco de até nos empurrarem.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Música no Metro

Danada por me ter esquecido do livro em casa, só na segunda estação é que percebi que o Metro nos estava a dar música. De início não percebi bem o que era; apurado o ouvido fui transportada para uma das mega produções indianas que faziam furor na minha adolescência.
Não tenho nada contra seja que tipo de música for, embora não goste do tum-tum-tum, gosto de ouvir falar ou cantar em línguas das quais não percebo nada, mas estranhei a escolha.
Numa das músicas, que se vento houvesse nos faria enlear nas pontas dos saris coloridos, entrou na carruagem uma pessoa que trabalha na mesma empresa que eu, ficou a um metro de mim, viu-me e fazendo jus à sua superior educação, não disse bom dia nem boa tarde, o que me fez rir e desatentar na música.
Porém, foi precisamente esse sai e volta a entrar na concentração musical que me fez perceber que a música não era do Metro e provinha sim dos auscultadores de um senhor com idade para ser meu pai, que ia de olhos fechados e sorriso leve na boca a sonhar sabe-se lá com o quê. 
A maravilhosidade do mundo onde o homem estava era de tal forma que no Marquês de Pombal, ao sair quase toda a gente, alguém lhe tocou e o homem abriu os olhos. Primeiro desviou-se para deixar passar, com os olhos ainda a meio gás. Depois fez um ar de espanto, deu um salto fenomenal a olhar lá para fora e disse:
- Já passámos o Jardim Zoológico?
À quatro estações meu amigo... 

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Fogo Concelho do 119 de Coruche

Estou de férias.
Comecei na sexta-feira passada, já de noite.
Sábado fui para Coruche e o entardecer e a noite foram dedicados ao Agrupamento 119 dos Escuteiros (estou a esticar dois dedos, como saudação de lobito, que nunca fui oficialmente, mas que serei sempre interiormente, como inata aprendiz que sou).
O Açude da Agolada é um local paradisíaco, tão belo que parece algures no estrangeiro, como diria alguém que eu conheço.
O acampamento era lá; choveu, os toldos que protegiam o local do jantar ficaram ameaçados, mas não foram perturbados pois o tempo levantou e ficou uma noite de verão inesquecível.
O Fogo Concelho foi magnífico. A fogueira foi feita dentro de água, no açude. Nas margens alinhámo-nos nós, o público, e os escuteiros sentados no chão.
Como disse o Chefe Francisco antes de começar o Fogo Concelho, aquilo a que iríamos assistir, a sucessão de momentos preparados pelos escuteiros, não era um espectáculo. Concordo. Era uma Festa. E que bela Festa...
A noite acabou por cair naquele lago belíssimo, tendo a lua iluminado o local muito antes de se acenderem os focos eléctricos. As margens recortavam-se num rosado escuro e as pessoas deambulavam entre amigos com comida e copos na mão, antes da Festa que nos fez rir, pensar e reflectir.
Os meus sobrinhos estavam lá, é claro! No final, quem quisesse podia dormir no acampamento. Desgraçadamento não sabia e não fui preparada.
No dia seguinte pela manhã apareci lá e dei uma mãozinha, pequenina, muito pequenina, no despedir do acampamento. Antes de terminar, os meus sobrinhos tinham que estar preparados para outros compromissos e tive que os levar a casa a meio da manhã.
Passei com eles metade da semana, até ao feriado, e foi um encher de barriga...
Mas mesmo de barriga cheia, com estes garotos, nunca me sacio... e já tenho saudades...

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Dois livros

Acabei de ler 'O Comprador de Aniversários'. Há muito tempo que não lia nada tão pesado. Foi como se a História se empurrasse a si própria e entrasse toda para dentro daquelas páginas. Imagino um Adolfo García Ortega a respirar com dificuldade, a inspirar com força quando terminou a tarefa, como se o durante lhe tivesse levado o oxigénio ou sustivesse a respiração para evitar inalar zyklon b.
Há uns dias no metro, metida nas páginas do livro, um senhor tocou-me no braço e perguntou-me se estava bem. Disse que sim, com ar desconfiado e perguntei porquê. Está a chorar, respondeu-me o homem.
Agradeci a ajuda, disse que estava bem e fechei o livro. Dois dias antes uma passageira voltou atrás para me chamar a atenção que estávamos na última paragem e que eu devia sair.
Nunca o li ao adormecer com medo dos sonhos. Dos meus e dos sonhos daquelas pessoas, sonhos mortos antes de nascerem, asfixiados por entre a maldade do mundo concentrada em risos e acções sem nome.
Cerca de uma semana antes tinha terminado 'Duas mulheres em Praga'. A passagem do real para a ficção é imperceptível, coisa que aprecio. Juan José Millás  põe-nos a vendar o nosso lado direito, desafiando-nos a fazer coisas que, a mim, me deram vontade de rir de mim própria. Só por isso valeu bem a pena!
'O Comprador de Aniversários' está mediocremente revisto, coisa que noutra leitura me faria deixá-lo de lado. Não foi o caso. Aquelas gralhas eram benéficas porque me permitiam distanciar e sair da narrativa, que nos sufoca. Ao fim de tantos anos, foi a primeira vez que me aconteceu.
Se junto estes dois livros na mesma mensagem é porque têm algo em comum, do ponto de vista do objecto livro: ambos são da Temas e Debates e a tradução, impecável,  é assinada pela mesma pessoa, Jorge Fallorca.
As estórias podem envolver-nos, podemos amá-las, mas o amor perfeito surge na pureza da língua, razão pela qual a tradução é fulcral para não nos desviar do seguimento da ponta da caneta do escritor, ligada à nascente da escrita. Uma má tradução é um cruzamento no meio de uma via rápida; se não nos apercebermos podemos caminhar em sentido contrário ou sermos colhidos por ideias desgovernadas, fáceis e sempre mentirosas.

terça-feira, 22 de maio de 2012

Novas inscrições


Quando leio aquelas mensagens com listas de disparates que as pessoas dizem, farto-me de rir mas nem sempre acredito naquilo. Agora mudei de opinião. Com tanto evento já organizado nunca tinha participado em telefonemas tão ricos. Aqui ficam mais dois exemplos.

Um senhor liga a pedir informações sobre o colóquio que estamos a organizar. Parte da conversa foi assim:
 - …
- …
- Então e isto tem tradução?
- Não, lamentamos mas não disponibilizámos tradução simultânea
- Simultânea? Isso é que era o bonito… as pessoas a falarem e outros a traduzirem por cima, mas que grande confusão… não, eu digo tradução, como se vê fazer na televisão, sabe?, um fala e espera um bocadinho e alguém traduz, também não tem desta?
- Não, lamentamos muito, mas não há qualquer tradução
- Então, estes estrangeiros vão falar p’ro boneco, isso lhe garanto eu
- Talvez não… sabe há muitas pessoas inscritas que falam línguas
- Ah bom, olhe eu cá não falo, falo português e já chega… 
_____________________________________

Uma senhora liga a pedir informações sobre o colóquio, manifesta interesse em inscrever-se e pergunta como o poderá fazer. A conversa foi assim:
- Por norma as inscrições fazem-se através da página da internet da Universidade
- Ah, e como é que eu lá chego?
- Tem computador?
- Sim, tenho
- A senhora entra na internet e depois pesquisa a página da Universidade
- E como entro na internet?
- Quando a senhora liga o computador o que lhe aparece? O Google? Entre pelo Google.
- A senhora decida-se… entro pela universidade ou pelo Google?
- Primeiro pelo Google… depois escreve o nome da universidade e clica em cima do nome e aparece-lhe a informação sobre o colóquio
- Ah, está bem…
- E depois tem um quadrado que diz ‘Inscreva-se aqui’… mas se a senhora me quiser dar os seus dados, eu posso inscrevê-la…
- Ah, quero sim…
A senhora diz nome, morada, etc. Às tantas pergunto:
- Tem e-mail?
- Tenho sim
- Muito bem, então vai receber uma mensagem no e-mail com as referências multibanco para pagamento.
- Mas no e-mail do computador ou no do telefone?
- Se a senhora tem um telefone ligado à internet pode receber no telefone
- Há telefones ligados à internet? Não sabia…
- Pois… há, mas…
- Mas olhe, eu não sei ver os e-mails no telefone, por isso mande a tal mensagem para o e-mail do computador, sim?
- Com certeza, fique tranquila, vou enviar em dois minutos
- Então obrigada, e não se engane… não esqueça que é para o e-mail do computador!

quinta-feira, 10 de maio de 2012

A inscrição


Estou a organizar um evento internacional. Por mim, e por entre mil coisas, passam também pedidos de informação. Registe-se o último, com nomes e títulos de comunicações alteradas que, a bem da verdade, nada têm de interesse comparados com o diálogo que se estabeleceu. Chamemos ao meu interlocutor, Sr. José Silva.

- Boa tarde, quero informações sobre o colóquio e as visitas aos monumentos
- Com certeza, o colóquio abre dia 10 no Museu e continua no mesmo local dias 11 e 12. Dia 13 as sessões decorrem em …
- Isso já eu sei, porque tenho aqui o programa, mas eu queria perceber o que é que se vai passar, percebe? Olhe por exemplo aqui no primeiro dia… o primeiro dia é de graça, verdade?
- Sim, a entrada é livre
- Pois, então diga-me lá, o Prof. X vai dizer o quê? Este título Marquês de Pombal e o seu tempo… é exactamente o quê?
- Sr. José eu não sei… mas sugiro a inscrição para que possamos ouvi-lo, o Prof. X é sempre agradável de ouvir e…
- Mas se eu não sei o que vão falar também não sei se me hei-de inscrever, ‘tá a ver?
- Mas é por isso que os títulos nos dão uma pista… são um resumo resumidíssimo da comunicação
- Da comunicação?
- Sim, da palestra
- Ah, a palestra, sim… mas olhe cá… este Antunes por exemplo, desafios técnicos da concepção da… isto é o quê? Ele vai dizer o quê? Que desafios são esses?
- Sr. José são os desafios da construção, os…
- Mas isso minha senhora, um profissional sabe ao que vai! É o trabalho dele, não há cá desafios!
- Mas ele refere-se também ao processo de transporte do local onde foi feita a obra para o sítio de instalação final, a montagem, essas coisas
- Ah bom… isso assim é outra coisa, que aquilo não deve ter sido fácil…
José Silva, do outro lado do telefone, lê os títulos e nomes dos conferencistas devagar, perguntando o óbvio:
- Portanto, António Gomes fala sobre a Conjuntura Económica na Passagem do Século … Francisco Marques, A sociedade plural em 1900…
Os nomes e títulos sucedem-se. Por fim diz:
- Então e agora diga-me cá uma coisa… esta Maria Antónia… o que é que a senhora me pode dizer sobre ela?
- Bem… é professora na faculdade de direito…
- Ah… então não é a mesma… sabe eu conheci uma Maria Antónia há muitos anos… mas não, Direito, não é mesma…
Eu, atalhando:
- Sr. José, o senhor tem um email para onde eu lhe envie o processo de inscrição?
- Olhe, não tenho e nem quero ter - ressalte-se que foi o único momento em que José Silva levantou, ainda que ao de leve, a voz. - A senhora pode inscrever-me para dia 10?
- Posso com certeza! O senhor não é estudante, correcto?
- Estudante… – ri-se com satisfação – já fui há muitos anos, mas já não sou, já não tenho idade para isso
- Sr. José já recebemos inscrições de pessoas que frequentam a Universidade Sénior e…
- Ah! Agora que a senhora fala disso estou a lembrar-me… sabe eu ontem encontrei uma grande amiga ali… ai, como é que se chama aquilo… ali ao pé de Sacavém…
- …aeroporto?
- Não… ah, já sei, na Portela, encontrei uma grande amiga… mas só amiga, que até conheço o marido dela e damo-nos muito bem, e ela disse-me que andava na universidade e que eu fosse lá inscrever-me e estou até a pensar nisso, mas se a senhora não falasse, olhe já não me lembrava.
- Pois, mas ainda não sendo aluno, os preços são normais
- E quanto é?
- O colóquio são 40 €
- Pois, 40€… olhe, inscreva-me para dia 10 que é de graça, e eu depois nesse dia logo vejo. Há-de haver lá um guichet onde me inscreva, não é assim?
- Sim Sr. José… eu própria lá estarei
Uns segundos antes, em desespero de causa, eu telefonara de um telefone móvel para outro e quando começou a tocar disse-lhe que era uma chamada muito urgente.
- Muito bem, mas já estou inscrito?
- Sim, para dia 10, está inscrito
- Então apresento-lhe os meus cumprimentos e obrigada.

Rapaz sem brinco de pérola


Entro na carruagem e constato mais uma vez que, sem que o consiga perceber ao fim de centenas de vezes, os lugares para grávidas e etecetera são os primeiros a ser ocupados por pessoas que parecem escolhidas a dedo: jovens que carregam head-phones, matronas que carregam um ou dois pneus tipo camião, homens fardados com fato e gravata. Nenhum está grávido, não ostentam canadianas, estão longe da velhice e não há crianças sentadas ao seu colo.
Sento-me e, atravessando o olhar pela janela, dou com uma imagem estranha: no banco da plataforma, como quem espera um comboio, está um rapaz de perna cruzada, todo enrolado sobre si mesmo, cabeça a pender sobre o peito. Dorme, dorme mal, mas dorme, escorrega-lhe a perna e ele endireita-a, escorregam-lhe os ombros e ele endireita-os, escorrega-lhe a cabeça e ele endireita-a, escorrega-lhe um braço e ele endireita-o, garantidamente bêbado de sono, se de outras coisas não for também, alheio ao comboio que está ali parado, como se não tivesse esse hábito por ser a estação primeira, terminal diríamos nós se fosse ao contrário e assim lhe chamo mas só ao fim do dia, que ao príncipio tudo começa, até a estação que ontem às oito horas da noite era a última, hoje é a primeira, e nela está parado o comboio como quem aguarda, como se desse tempo ao rapaz de boné vermelho com pala virada para trás, cuja cara nunca se viu, que acordasse e entrasse, que é para isso que os comboios servem, para levar as pessoas de um lado para outro, e para passar servem as estações, não para estar, e muito menos para dormir.
Talvez cansado de esperar, o comboio dá um apito, as portas negam a franquia da entrada devagar, num vagar de quem dá uma última oportunidade, vem, vem depressa, e acabam por se fechar. Entramos no escuro do túnel e o rapaz continua a dormir aos solavancos no banco da estação. 

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Ai que dor!


A ausência de meias hoje pesa-me as toneladas do ferro de onde saiu o prego que teima em espetar-se-me no pé. O primeiro degrau da biblioteca sentiu a sola do meu pé direito pois assim que lhe cheguei descalcei-me e aguardo que uma colega me compre umas palmilhas, na esperança que sofoquem o raio do prego, já que martelá-lo não deverão ser capazes.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Maus caminhos

O projecto Criar Afectos fez uma surpresa à Marisa Pereira e foram ao programa de televisão Com Amor se Paga.
Os testemunhos são reais, disso sou testemunha. E se o meu pai estava bem, a minha mãe estava com o seu eterno ar de Grace Kelly, linda, em destaque só por existir.
Normalmente falamos dos jovens e dos maus caminhos que percorrem, daqueles de onde queremos que se desviem, se possível, como se fosse possível, que nunca deles ouvissem falar.
Mas maus caminhos existem onde menos se espera e no que aos séniores diz respeito, não há pior trilho que a solidão.
Este é o trabalho do Criar Afectos: tirar aquela malta de maus caminhos, contribuir para que percebam que ainda são gente, que são sempre gente.
Disseram, e eu concordo, que boas ideias há muitas, mas faltam pessoas para as pôr em prática. A Marisa deixou um desafio: aproveitem o exemplo e Criem Afectos. Se os guardarmos para nós e formos poupados no seu uso e na multiplicação com os outros, corremos o risco de um dia olharmo-nos ao espelho e não reconhecermos aquela pessoa que ali está.

Convite

Desde há muitos anos que decidi nunca ser enterrada, nem morta... a excepção é no trabalho. Assim, escrevi um documento que entreguei a duas pessoas diferentes com as orientações que devem seguir depois de eu morrer. Nem enterros nem fogueiras: serei entregue ao Instituto de Medicina Legal do local onde viva na altura para que os alunos de medicina possam aprender comigo. Não deixo de sorrir com esta perspectiva, a de permitir e providenciar o ensino a futuros médicos, eu que apenas sei reconhecer a dor e sei que existem aspirinas, nada mais. Bem, talvez um pouco mais que o meu pai que, quando era garoto, punha o termómetro e verificava a febre vezes sem parar, pois acreditava que servia para tirar a febre...
Não estando doente nem com alguma coisa que me faça prever o aproximação da morte, mas porque ela anda sempre a rondar, não tendo problemas em falar dela e sabendo que um dia vai acontecer, deixo aqui um convite, que de mórbido nada tem, apesar de poder ser assim catalogado por algumas pessoas. Quem assim pensar é um triste, para além de estar em desacordo total com as mais actuais técnicas e estratégias de gestão que preconizam o planeamento como uma etapa fundamental para o sucesso.
O convite é para se juntarem conhecidos e desconhecidos a beber copos e a dizer todas as mentiras possíveis, numa espécie de concurso: como eu era fantástica e boazinha!
O local ideal seria o bar da praça Jem El Fna em Marraquexe, mas fica um bocadinho longe da minha actual localização. A segunda escolha é o Martinho da Arcada, ali no Terreiro do Paço, mas temo ser grande de mais.
À terceira é de vez! Pode ser ali na rua, encostados aos carros estacionados, a transpirar numa noite quente de Agosto ou a apanhar chuva molha parvos, apropriadamente para a maioria, num princípio de Primavera. Escolhi este local lembrando-me de quantas vezes fui jantar com a combinação de, a seguir, irmos a qualquer lado, e a conversa fazia-nos demorar à porta dos restaurantes até às 3, 4, 5 ou 6 da manhã...
Não quero choradeiras nem queixumes, tanto mais que não haverá alguém com dívidas para receber!
Porque é que me lembrei disto agora?
Fui comprar uma lembrança para a minha mãe e optei por um... livro. Esquisita lembrança para uma pessoa como eu... mas enfim. Vai daí, dei com os olhos nas antologias de poesia na prateleira de baixo, sentei-me no chão, cruzei as pernas e fiquei a pairar como se fosse um monge em oração, esquecida do mundo.
Naveguei por letras e sentimentos, imagens e desejos, deixei os dedos amarem o papel e dei por escolhida a prenda.
Levantei-me e dei uma cabeçada digna de um cabeçudo num separador de assuntos em metal que se meteu no meu caminho. Foi de tal forma violento que larguei a antologia, a mala e o casaco e mergulhei num limbo por alguns instantes, ou seja, distraí-me e nesses segundos de distracção, como quem goza comigo, ainda por cima, alocou-se um enorme galo na cabeça, com poleiro e tudo.
Como normalmente acontece nestas alturas, e garanto que não é só nos filmes, batemos de um lado, desviamo-nos e acabamos por bater noutro sítio qualquer ou em alguém, ou deixar cair qualquer coisa. Pois foi o que aconteceu... quando caí em desmaio aproveitei um senhor que ia a passar e caí-lhe para cima. O pobre homem, ou por se tentar desviar ou por ter sido apanhado desprevenido com semelhante ataque, precipitou-se para cima de uma pilha de livros que se estatelaram no chão.
O meu desmaio não foi à séria... não cheguei a perder os sentidos, embora me sentisse como um marinheiro em mar picado e acabei por me levantar atabalhoada e com uma capoeira na testa e ainda ajudei o homem a levantar-se.
Confesso que as dores eram tantas e o azamboado tão grande que nem ajudei a apanhar os livros; dois funcionários quiseram saber se eu precisava de alguma coisa, mostrando preocupação e o homem chegou  a sugerir que fosse vista...
Por segundos ocorreu-me que podia morrer dentro de uma livraria! Coberta de livros que saltariam das estantes para me taparem, as revistas a pedirem para se organizarem por ordem alfabética, os livros infantis a colorirem a cena, os livros técnicos a aguardarem solenes, os editados por mim a meterem-se-me debaixo da cabeça para me almofadarem a posição, as personagens dos romances a saltarem das páginas e a recontarem os momentos em que eu os tinha lido e a misturarem histórias, estórias e mil momentos, criando um sepulcro agitado e vivo, com mortos e vivos, imortais divertidos e inesquecíveis, fazendo planos e querendo saber sobre quem andaria por ali que me pudesse substituir.
Era uma boa morte.
Seja como for, mantêm-se o convite! Apareçam!