terça-feira, 19 de junho de 2012

Música no Metro

Danada por me ter esquecido do livro em casa, só na segunda estação é que percebi que o Metro nos estava a dar música. De início não percebi bem o que era; apurado o ouvido fui transportada para uma das mega produções indianas que faziam furor na minha adolescência.
Não tenho nada contra seja que tipo de música for, embora não goste do tum-tum-tum, gosto de ouvir falar ou cantar em línguas das quais não percebo nada, mas estranhei a escolha.
Numa das músicas, que se vento houvesse nos faria enlear nas pontas dos saris coloridos, entrou na carruagem uma pessoa que trabalha na mesma empresa que eu, ficou a um metro de mim, viu-me e fazendo jus à sua superior educação, não disse bom dia nem boa tarde, o que me fez rir e desatentar na música.
Porém, foi precisamente esse sai e volta a entrar na concentração musical que me fez perceber que a música não era do Metro e provinha sim dos auscultadores de um senhor com idade para ser meu pai, que ia de olhos fechados e sorriso leve na boca a sonhar sabe-se lá com o quê. 
A maravilhosidade do mundo onde o homem estava era de tal forma que no Marquês de Pombal, ao sair quase toda a gente, alguém lhe tocou e o homem abriu os olhos. Primeiro desviou-se para deixar passar, com os olhos ainda a meio gás. Depois fez um ar de espanto, deu um salto fenomenal a olhar lá para fora e disse:
- Já passámos o Jardim Zoológico?
À quatro estações meu amigo... 

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Fogo Concelho do 119 de Coruche

Estou de férias.
Comecei na sexta-feira passada, já de noite.
Sábado fui para Coruche e o entardecer e a noite foram dedicados ao Agrupamento 119 dos Escuteiros (estou a esticar dois dedos, como saudação de lobito, que nunca fui oficialmente, mas que serei sempre interiormente, como inata aprendiz que sou).
O Açude da Agolada é um local paradisíaco, tão belo que parece algures no estrangeiro, como diria alguém que eu conheço.
O acampamento era lá; choveu, os toldos que protegiam o local do jantar ficaram ameaçados, mas não foram perturbados pois o tempo levantou e ficou uma noite de verão inesquecível.
O Fogo Concelho foi magnífico. A fogueira foi feita dentro de água, no açude. Nas margens alinhámo-nos nós, o público, e os escuteiros sentados no chão.
Como disse o Chefe Francisco antes de começar o Fogo Concelho, aquilo a que iríamos assistir, a sucessão de momentos preparados pelos escuteiros, não era um espectáculo. Concordo. Era uma Festa. E que bela Festa...
A noite acabou por cair naquele lago belíssimo, tendo a lua iluminado o local muito antes de se acenderem os focos eléctricos. As margens recortavam-se num rosado escuro e as pessoas deambulavam entre amigos com comida e copos na mão, antes da Festa que nos fez rir, pensar e reflectir.
Os meus sobrinhos estavam lá, é claro! No final, quem quisesse podia dormir no acampamento. Desgraçadamento não sabia e não fui preparada.
No dia seguinte pela manhã apareci lá e dei uma mãozinha, pequenina, muito pequenina, no despedir do acampamento. Antes de terminar, os meus sobrinhos tinham que estar preparados para outros compromissos e tive que os levar a casa a meio da manhã.
Passei com eles metade da semana, até ao feriado, e foi um encher de barriga...
Mas mesmo de barriga cheia, com estes garotos, nunca me sacio... e já tenho saudades...

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Dois livros

Acabei de ler 'O Comprador de Aniversários'. Há muito tempo que não lia nada tão pesado. Foi como se a História se empurrasse a si própria e entrasse toda para dentro daquelas páginas. Imagino um Adolfo García Ortega a respirar com dificuldade, a inspirar com força quando terminou a tarefa, como se o durante lhe tivesse levado o oxigénio ou sustivesse a respiração para evitar inalar zyklon b.
Há uns dias no metro, metida nas páginas do livro, um senhor tocou-me no braço e perguntou-me se estava bem. Disse que sim, com ar desconfiado e perguntei porquê. Está a chorar, respondeu-me o homem.
Agradeci a ajuda, disse que estava bem e fechei o livro. Dois dias antes uma passageira voltou atrás para me chamar a atenção que estávamos na última paragem e que eu devia sair.
Nunca o li ao adormecer com medo dos sonhos. Dos meus e dos sonhos daquelas pessoas, sonhos mortos antes de nascerem, asfixiados por entre a maldade do mundo concentrada em risos e acções sem nome.
Cerca de uma semana antes tinha terminado 'Duas mulheres em Praga'. A passagem do real para a ficção é imperceptível, coisa que aprecio. Juan José Millás  põe-nos a vendar o nosso lado direito, desafiando-nos a fazer coisas que, a mim, me deram vontade de rir de mim própria. Só por isso valeu bem a pena!
'O Comprador de Aniversários' está mediocremente revisto, coisa que noutra leitura me faria deixá-lo de lado. Não foi o caso. Aquelas gralhas eram benéficas porque me permitiam distanciar e sair da narrativa, que nos sufoca. Ao fim de tantos anos, foi a primeira vez que me aconteceu.
Se junto estes dois livros na mesma mensagem é porque têm algo em comum, do ponto de vista do objecto livro: ambos são da Temas e Debates e a tradução, impecável,  é assinada pela mesma pessoa, Jorge Fallorca.
As estórias podem envolver-nos, podemos amá-las, mas o amor perfeito surge na pureza da língua, razão pela qual a tradução é fulcral para não nos desviar do seguimento da ponta da caneta do escritor, ligada à nascente da escrita. Uma má tradução é um cruzamento no meio de uma via rápida; se não nos apercebermos podemos caminhar em sentido contrário ou sermos colhidos por ideias desgovernadas, fáceis e sempre mentirosas.

terça-feira, 22 de maio de 2012

Novas inscrições


Quando leio aquelas mensagens com listas de disparates que as pessoas dizem, farto-me de rir mas nem sempre acredito naquilo. Agora mudei de opinião. Com tanto evento já organizado nunca tinha participado em telefonemas tão ricos. Aqui ficam mais dois exemplos.

Um senhor liga a pedir informações sobre o colóquio que estamos a organizar. Parte da conversa foi assim:
 - …
- …
- Então e isto tem tradução?
- Não, lamentamos mas não disponibilizámos tradução simultânea
- Simultânea? Isso é que era o bonito… as pessoas a falarem e outros a traduzirem por cima, mas que grande confusão… não, eu digo tradução, como se vê fazer na televisão, sabe?, um fala e espera um bocadinho e alguém traduz, também não tem desta?
- Não, lamentamos muito, mas não há qualquer tradução
- Então, estes estrangeiros vão falar p’ro boneco, isso lhe garanto eu
- Talvez não… sabe há muitas pessoas inscritas que falam línguas
- Ah bom, olhe eu cá não falo, falo português e já chega… 
_____________________________________

Uma senhora liga a pedir informações sobre o colóquio, manifesta interesse em inscrever-se e pergunta como o poderá fazer. A conversa foi assim:
- Por norma as inscrições fazem-se através da página da internet da Universidade
- Ah, e como é que eu lá chego?
- Tem computador?
- Sim, tenho
- A senhora entra na internet e depois pesquisa a página da Universidade
- E como entro na internet?
- Quando a senhora liga o computador o que lhe aparece? O Google? Entre pelo Google.
- A senhora decida-se… entro pela universidade ou pelo Google?
- Primeiro pelo Google… depois escreve o nome da universidade e clica em cima do nome e aparece-lhe a informação sobre o colóquio
- Ah, está bem…
- E depois tem um quadrado que diz ‘Inscreva-se aqui’… mas se a senhora me quiser dar os seus dados, eu posso inscrevê-la…
- Ah, quero sim…
A senhora diz nome, morada, etc. Às tantas pergunto:
- Tem e-mail?
- Tenho sim
- Muito bem, então vai receber uma mensagem no e-mail com as referências multibanco para pagamento.
- Mas no e-mail do computador ou no do telefone?
- Se a senhora tem um telefone ligado à internet pode receber no telefone
- Há telefones ligados à internet? Não sabia…
- Pois… há, mas…
- Mas olhe, eu não sei ver os e-mails no telefone, por isso mande a tal mensagem para o e-mail do computador, sim?
- Com certeza, fique tranquila, vou enviar em dois minutos
- Então obrigada, e não se engane… não esqueça que é para o e-mail do computador!

quinta-feira, 10 de maio de 2012

A inscrição


Estou a organizar um evento internacional. Por mim, e por entre mil coisas, passam também pedidos de informação. Registe-se o último, com nomes e títulos de comunicações alteradas que, a bem da verdade, nada têm de interesse comparados com o diálogo que se estabeleceu. Chamemos ao meu interlocutor, Sr. José Silva.

- Boa tarde, quero informações sobre o colóquio e as visitas aos monumentos
- Com certeza, o colóquio abre dia 10 no Museu e continua no mesmo local dias 11 e 12. Dia 13 as sessões decorrem em …
- Isso já eu sei, porque tenho aqui o programa, mas eu queria perceber o que é que se vai passar, percebe? Olhe por exemplo aqui no primeiro dia… o primeiro dia é de graça, verdade?
- Sim, a entrada é livre
- Pois, então diga-me lá, o Prof. X vai dizer o quê? Este título Marquês de Pombal e o seu tempo… é exactamente o quê?
- Sr. José eu não sei… mas sugiro a inscrição para que possamos ouvi-lo, o Prof. X é sempre agradável de ouvir e…
- Mas se eu não sei o que vão falar também não sei se me hei-de inscrever, ‘tá a ver?
- Mas é por isso que os títulos nos dão uma pista… são um resumo resumidíssimo da comunicação
- Da comunicação?
- Sim, da palestra
- Ah, a palestra, sim… mas olhe cá… este Antunes por exemplo, desafios técnicos da concepção da… isto é o quê? Ele vai dizer o quê? Que desafios são esses?
- Sr. José são os desafios da construção, os…
- Mas isso minha senhora, um profissional sabe ao que vai! É o trabalho dele, não há cá desafios!
- Mas ele refere-se também ao processo de transporte do local onde foi feita a obra para o sítio de instalação final, a montagem, essas coisas
- Ah bom… isso assim é outra coisa, que aquilo não deve ter sido fácil…
José Silva, do outro lado do telefone, lê os títulos e nomes dos conferencistas devagar, perguntando o óbvio:
- Portanto, António Gomes fala sobre a Conjuntura Económica na Passagem do Século … Francisco Marques, A sociedade plural em 1900…
Os nomes e títulos sucedem-se. Por fim diz:
- Então e agora diga-me cá uma coisa… esta Maria Antónia… o que é que a senhora me pode dizer sobre ela?
- Bem… é professora na faculdade de direito…
- Ah… então não é a mesma… sabe eu conheci uma Maria Antónia há muitos anos… mas não, Direito, não é mesma…
Eu, atalhando:
- Sr. José, o senhor tem um email para onde eu lhe envie o processo de inscrição?
- Olhe, não tenho e nem quero ter - ressalte-se que foi o único momento em que José Silva levantou, ainda que ao de leve, a voz. - A senhora pode inscrever-me para dia 10?
- Posso com certeza! O senhor não é estudante, correcto?
- Estudante… – ri-se com satisfação – já fui há muitos anos, mas já não sou, já não tenho idade para isso
- Sr. José já recebemos inscrições de pessoas que frequentam a Universidade Sénior e…
- Ah! Agora que a senhora fala disso estou a lembrar-me… sabe eu ontem encontrei uma grande amiga ali… ai, como é que se chama aquilo… ali ao pé de Sacavém…
- …aeroporto?
- Não… ah, já sei, na Portela, encontrei uma grande amiga… mas só amiga, que até conheço o marido dela e damo-nos muito bem, e ela disse-me que andava na universidade e que eu fosse lá inscrever-me e estou até a pensar nisso, mas se a senhora não falasse, olhe já não me lembrava.
- Pois, mas ainda não sendo aluno, os preços são normais
- E quanto é?
- O colóquio são 40 €
- Pois, 40€… olhe, inscreva-me para dia 10 que é de graça, e eu depois nesse dia logo vejo. Há-de haver lá um guichet onde me inscreva, não é assim?
- Sim Sr. José… eu própria lá estarei
Uns segundos antes, em desespero de causa, eu telefonara de um telefone móvel para outro e quando começou a tocar disse-lhe que era uma chamada muito urgente.
- Muito bem, mas já estou inscrito?
- Sim, para dia 10, está inscrito
- Então apresento-lhe os meus cumprimentos e obrigada.

Rapaz sem brinco de pérola


Entro na carruagem e constato mais uma vez que, sem que o consiga perceber ao fim de centenas de vezes, os lugares para grávidas e etecetera são os primeiros a ser ocupados por pessoas que parecem escolhidas a dedo: jovens que carregam head-phones, matronas que carregam um ou dois pneus tipo camião, homens fardados com fato e gravata. Nenhum está grávido, não ostentam canadianas, estão longe da velhice e não há crianças sentadas ao seu colo.
Sento-me e, atravessando o olhar pela janela, dou com uma imagem estranha: no banco da plataforma, como quem espera um comboio, está um rapaz de perna cruzada, todo enrolado sobre si mesmo, cabeça a pender sobre o peito. Dorme, dorme mal, mas dorme, escorrega-lhe a perna e ele endireita-a, escorregam-lhe os ombros e ele endireita-os, escorrega-lhe a cabeça e ele endireita-a, escorrega-lhe um braço e ele endireita-o, garantidamente bêbado de sono, se de outras coisas não for também, alheio ao comboio que está ali parado, como se não tivesse esse hábito por ser a estação primeira, terminal diríamos nós se fosse ao contrário e assim lhe chamo mas só ao fim do dia, que ao príncipio tudo começa, até a estação que ontem às oito horas da noite era a última, hoje é a primeira, e nela está parado o comboio como quem aguarda, como se desse tempo ao rapaz de boné vermelho com pala virada para trás, cuja cara nunca se viu, que acordasse e entrasse, que é para isso que os comboios servem, para levar as pessoas de um lado para outro, e para passar servem as estações, não para estar, e muito menos para dormir.
Talvez cansado de esperar, o comboio dá um apito, as portas negam a franquia da entrada devagar, num vagar de quem dá uma última oportunidade, vem, vem depressa, e acabam por se fechar. Entramos no escuro do túnel e o rapaz continua a dormir aos solavancos no banco da estação. 

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Ai que dor!


A ausência de meias hoje pesa-me as toneladas do ferro de onde saiu o prego que teima em espetar-se-me no pé. O primeiro degrau da biblioteca sentiu a sola do meu pé direito pois assim que lhe cheguei descalcei-me e aguardo que uma colega me compre umas palmilhas, na esperança que sofoquem o raio do prego, já que martelá-lo não deverão ser capazes.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Maus caminhos

O projecto Criar Afectos fez uma surpresa à Marisa Pereira e foram ao programa de televisão Com Amor se Paga.
Os testemunhos são reais, disso sou testemunha. E se o meu pai estava bem, a minha mãe estava com o seu eterno ar de Grace Kelly, linda, em destaque só por existir.
Normalmente falamos dos jovens e dos maus caminhos que percorrem, daqueles de onde queremos que se desviem, se possível, como se fosse possível, que nunca deles ouvissem falar.
Mas maus caminhos existem onde menos se espera e no que aos séniores diz respeito, não há pior trilho que a solidão.
Este é o trabalho do Criar Afectos: tirar aquela malta de maus caminhos, contribuir para que percebam que ainda são gente, que são sempre gente.
Disseram, e eu concordo, que boas ideias há muitas, mas faltam pessoas para as pôr em prática. A Marisa deixou um desafio: aproveitem o exemplo e Criem Afectos. Se os guardarmos para nós e formos poupados no seu uso e na multiplicação com os outros, corremos o risco de um dia olharmo-nos ao espelho e não reconhecermos aquela pessoa que ali está.

Convite

Desde há muitos anos que decidi nunca ser enterrada, nem morta... a excepção é no trabalho. Assim, escrevi um documento que entreguei a duas pessoas diferentes com as orientações que devem seguir depois de eu morrer. Nem enterros nem fogueiras: serei entregue ao Instituto de Medicina Legal do local onde viva na altura para que os alunos de medicina possam aprender comigo. Não deixo de sorrir com esta perspectiva, a de permitir e providenciar o ensino a futuros médicos, eu que apenas sei reconhecer a dor e sei que existem aspirinas, nada mais. Bem, talvez um pouco mais que o meu pai que, quando era garoto, punha o termómetro e verificava a febre vezes sem parar, pois acreditava que servia para tirar a febre...
Não estando doente nem com alguma coisa que me faça prever o aproximação da morte, mas porque ela anda sempre a rondar, não tendo problemas em falar dela e sabendo que um dia vai acontecer, deixo aqui um convite, que de mórbido nada tem, apesar de poder ser assim catalogado por algumas pessoas. Quem assim pensar é um triste, para além de estar em desacordo total com as mais actuais técnicas e estratégias de gestão que preconizam o planeamento como uma etapa fundamental para o sucesso.
O convite é para se juntarem conhecidos e desconhecidos a beber copos e a dizer todas as mentiras possíveis, numa espécie de concurso: como eu era fantástica e boazinha!
O local ideal seria o bar da praça Jem El Fna em Marraquexe, mas fica um bocadinho longe da minha actual localização. A segunda escolha é o Martinho da Arcada, ali no Terreiro do Paço, mas temo ser grande de mais.
À terceira é de vez! Pode ser ali na rua, encostados aos carros estacionados, a transpirar numa noite quente de Agosto ou a apanhar chuva molha parvos, apropriadamente para a maioria, num princípio de Primavera. Escolhi este local lembrando-me de quantas vezes fui jantar com a combinação de, a seguir, irmos a qualquer lado, e a conversa fazia-nos demorar à porta dos restaurantes até às 3, 4, 5 ou 6 da manhã...
Não quero choradeiras nem queixumes, tanto mais que não haverá alguém com dívidas para receber!
Porque é que me lembrei disto agora?
Fui comprar uma lembrança para a minha mãe e optei por um... livro. Esquisita lembrança para uma pessoa como eu... mas enfim. Vai daí, dei com os olhos nas antologias de poesia na prateleira de baixo, sentei-me no chão, cruzei as pernas e fiquei a pairar como se fosse um monge em oração, esquecida do mundo.
Naveguei por letras e sentimentos, imagens e desejos, deixei os dedos amarem o papel e dei por escolhida a prenda.
Levantei-me e dei uma cabeçada digna de um cabeçudo num separador de assuntos em metal que se meteu no meu caminho. Foi de tal forma violento que larguei a antologia, a mala e o casaco e mergulhei num limbo por alguns instantes, ou seja, distraí-me e nesses segundos de distracção, como quem goza comigo, ainda por cima, alocou-se um enorme galo na cabeça, com poleiro e tudo.
Como normalmente acontece nestas alturas, e garanto que não é só nos filmes, batemos de um lado, desviamo-nos e acabamos por bater noutro sítio qualquer ou em alguém, ou deixar cair qualquer coisa. Pois foi o que aconteceu... quando caí em desmaio aproveitei um senhor que ia a passar e caí-lhe para cima. O pobre homem, ou por se tentar desviar ou por ter sido apanhado desprevenido com semelhante ataque, precipitou-se para cima de uma pilha de livros que se estatelaram no chão.
O meu desmaio não foi à séria... não cheguei a perder os sentidos, embora me sentisse como um marinheiro em mar picado e acabei por me levantar atabalhoada e com uma capoeira na testa e ainda ajudei o homem a levantar-se.
Confesso que as dores eram tantas e o azamboado tão grande que nem ajudei a apanhar os livros; dois funcionários quiseram saber se eu precisava de alguma coisa, mostrando preocupação e o homem chegou  a sugerir que fosse vista...
Por segundos ocorreu-me que podia morrer dentro de uma livraria! Coberta de livros que saltariam das estantes para me taparem, as revistas a pedirem para se organizarem por ordem alfabética, os livros infantis a colorirem a cena, os livros técnicos a aguardarem solenes, os editados por mim a meterem-se-me debaixo da cabeça para me almofadarem a posição, as personagens dos romances a saltarem das páginas e a recontarem os momentos em que eu os tinha lido e a misturarem histórias, estórias e mil momentos, criando um sepulcro agitado e vivo, com mortos e vivos, imortais divertidos e inesquecíveis, fazendo planos e querendo saber sobre quem andaria por ali que me pudesse substituir.
Era uma boa morte.
Seja como for, mantêm-se o convite! Apareçam!

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Nove anos de reflexão

O meu sobrinho mais velho vai amarrado com o cinto de segurança no banco de trás. Comunicamos visualmente pelo retrovisor que viro ligeiramente para lhe apanhar mais do que a testa. Comentamos a paisagem ribatejana, linda, lindíssima, com tanto verde diferente. De repente, os seus nove anos comentam em jeito de pergunta:
- Porque é que nós vamos a sítios andamos e andamos o dia inteiro e mesmo quando estamos cansados continuamos a andar e a ver monumentos e estamos cansados mas é como se não fizesse mal e nunca dizemos que estamos cansados e levantamo-nos cedo e continuamos a ver monumentos e coisas e quando estamos em casa custa tanto levantar e estamos sempre a dizer que estamos cansados?

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Uma manhã sem escola

Na manhã do dia 25 de Abril de 1974 fui para a escola como de costume. Os meus pais ficaram em casa: o meu pai estava no turno das 3 à meia noite e a minha mãe, grávida, não se sentia bem e ia trabalhar mais tarde.
Chegada à escola mandaram-me para casa! E eu, bem mandada, fui. Porém, ouvi uma conversa qualquer da qual fixei Sintra, Base e Militares que não me interessava nada, talvez por isso baralhei-me um pouco, um poucochinho, e quando os meus pais admirados, quiseram saber da razão de estar em casa dez minutos depois de ter saído, receberam a seguinte resposta:
- Parece que estão a atacar o castelo de Sintra com canhões.
Todos os anos tenho que ser relembrada disto...

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Básico


O Dia da Mulher confunde-me. Percebo-o, mas confunde-me. Na verdade, não quero que ele exista. Quero acabar com ele.
O Dia do Livro confunde-me. Percebo-o, mas confunde-me. Na verdade, não quero que ele exista. Quero acabar com ele.
Para os que precisarem de explicações continua a ser necessária a existência do Dia da Mulher e Dia do Livro. Sugiro até que se inaugure o Dia da Pessoa, tantas as vezes que nos esquecemos quem somos.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

A lotaria não dá de comer a alguém


Fui a Coimbra e esqueci-me de fazer o euromilhões (ou o totomilhões, como diz o meu pai que, numa palavra só, abarca dois tipos de jogo. Genial.) Vinha no comboio, pensei nisso e a minha memória acompanhou a velocidade da deslocação mas noutro sentido, em direcção ao passado. Lembrei-me que na primária emparceirei na carteira com várias pessoas. A minha favorita era o António que, não obstante ter umas calças de ganga com martelos amarelos que eu achava ridículos, era lindo de morrer. Para além do António sentei-me ao lado da Anita e de uma rapariga cujo nome não consigo recordar, a que chamarei Maria.
A mãe da Maria vendia jornais e jogo numa banca em Lisboa e como o meu pai fazia jornais eu achava que havia uma certa ligação entre nós que se prolongava para além do espaço que ocupávamos na sala de aula. Já a mãe da Anita era doméstica, o que, que me perdoe quem se ofender, me lembrava sempre animais domésticos…
Como entrei para aquela escola a meio do ano sentaram-me ao lado da Anita, a única aluna que estava sozinha na carteira e, nos primeiros minutos do primeiro dia, vá lá saber-se porque, cuspiu-me em cima! Acto imediato levou um estaladão, eu levei outro da professora, a D. Graciosa, a quem bastou correr para a rua e chamar a minha mãe que tinha acabado de me deixar ali, para lhe fazer queixa do comportamento da filha. É claro que não me perguntou nada e tendo a sua visão captado o movimento do meu braço a abalançar-se com violência para assentar a mão na cara da Anita, declarou-me culpada. A custo lá disse as minhas motivações para semelhante atitude e minutos depois já era amiga de uma Anita com uma face vermelha e a minha mãe foi embora mais ou menos descansada mas surpreendida com a sua filha, sempre tão calma, a fazer coisas daquelas.
A Maria era também muito calma, calma demais, e os níveis de aprendizagem quando fugiam do zero era para baixo. Custava-me entender como não conseguia nem sequer decorar e enquanto eu falava de geografia ou história ela retorquia com histórias de clientes lá da banca de jornais. Eu adorava-a, apesar de ela detestar a escola que eu amava. Feita a quarta classe a Maria desapareceu do mapa da gaiatada lá do bairro. Anos mais tarde encontrei-a na banca dos jornais, não me reconheceu e eu confundi-a com a mãe dela. O meu ar aparvalhado fê-la perguntar se queria mais alguma coisa e lá lhe disse quem era. Ficou com ar feliz e eu também por ela se lembrar de mim.
Muitos anos mais tarde, num dos colégios infantis que os meus pais tinham andava uma miúda tão parecida com a Maria que, não fosse a diferença de idades, podiam ser gémeas. Ambas eram enormes para os anos que tinham, a atirar para o gordo, bolachudas de cara e com faces muito rosadas.
Os pais da Vanessa, assim se chamava a Maria II, por coincidência, tinham uma banca de jornais e o pai vendia lotaria pelas ruas.
Numa ocasião os pais procuraram a minha mãe e pediram-lhe ajuda pois iam viajar e não tinham com quem deixar a garota, cujo corpo era de adulta mas apenas contava 11 ou 12 anos. A minha mãe disponibilizou-se para ficarmos com ela e foi assim que a Vanessa morou uma semana na nossa casa, fazendo a vida que nós fazíamos. Tendo um ou dois anos de diferença da minha irmã programaram-se os trabalhos escolares em conjunto e por aí fora. A cada passo a Vanessa me fazia lembrar a Maria, por exemplo quando lia Dona Maria i, em vez de Dona Maria Primeira, e nós fartávamo-nos de rir.
Uma noite fomos convidados a jantar em casa de uns amigos e a Vanessa também foi, é claro. Chegados lá, no meio da conversa e porque ela sendo miúda mas estava sempre junto dos adultos, perguntaram-lhe onde tinham ido os pais. À Rússia. À Russia? Ena pá! Isso é longe que se farta. E os teus pais foram de férias?
Perante esta pergunta, a Vanessa deita um ar cúmplice à minha mãe, como que a procurar apoio, e diz:
- Não. Os meus pais são contrabandistas e foram buscar mercadoria.
A sala ficou em silêncio, nem os talheres se ouviam. Imediata e rapidamente todos quiseram saber tudo, principalmente a minha mãe a quem a garota, por imposição da sua própria mãe, chamava Senhora Directora. Ora, o olhar que antecedeu o largar da bomba dava a senhora directora como cúmplice da coisa o que levantou enormes gargalhadas, enquanto a Vanessa garantiu o lugar de rainha da noite com todas as conversas a decorrer à sua volta.
Lá se lhe disse que aquela frase não era a mais adequada para descrever a actividade dos pais, ao que ela insistiu afirmando que os jornais e a lotaria não davam de comer a alguém e que sim, era o contrabando que os sustentava e que pagava o colégio, sendo as últimas palavras engolidas com um esgar pela senhora directora.
Quando os pais chegaram, a minha mãe contou-lhes o ocorrido durante outro momento caricato: queria ela explicar a cena e eles, vá de tirarem prendas (contrabando?) de sacos, e mais um beibilou e mais uma camisa típica e mais uma matrioska e mais não sei o quê. Iam ouvindo as palavras da minha mãe e no fim afirmaram que sim, que a filha se limitara a contar a verdade, que normalmente iam ao Norte de África mas de fim-de-semana, e, sendo só dois dias, a Vanessa ficava com uma vizinha ou algo parecido. Agora tinham ido ver o mercado russo, de que alguém lhes tinha falado, mas era muito difícil, sabia a minha mãe?, a língua, sabe, a língua é muito complicada. Pensava a senhora directora que a lotaria dava de comer a alguém?
Gostava de encontrar a Vanessa para saber se tinha seguido a carreira dos pais… 

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Comer como um abade


No âmbito da organização de eventos científicos da casa onde trabalho e a propósito de um seminário, convidámos um especialista norueguês para vir falar da sua experiência. Dada a confirmação da disponibilidade começámos a tratar da deslocação. O senhor pediu para ser ele a gerir esse assunto, informando-nos que sofria da doença celíaca e nem todas as companhias de aviação estavam preparadas para transportar pessoas com necessidades especiais de alimentação. Por quem é! Faça o favor!
Tratado aquele assunto, marcado o hotel, informei-me junto da Associação Portuguesa de Celíacos quais os restaurantes onde poderíamos levar o senhor, sem corremos riscos. Por coincidência, o Hotel escolhido estava numa espécie de fase final de certificação e decidiu-se que o almoço do dia do seminário seria encomendado ao hotel, nosso vizinho, e o jantar dessa noite, seria no restaurante do dito.
Assim, ao almoço recolheram-se pratos de peixe e carne, pão, entrada e sobremesa à hora marcada e o senhor não provou o nosso divinal arroz de peixe, feito de uma forma única e gulosamente lambido.
O evento foi um sucesso de tal ordem que os responsáveis quiseram comemorar com um jantar à antiga portuguesa e fizeram-no saber ao convidado estrangeiro que declinou o convite para comemorar depois de jantar. Assim, e cumprindo o que estava estipulado, estivemos com o senhor durante o seu jantar no hotel, tendo ele tomado uma refeição completa e nós ficámo-nos por umas entradas e um copo de vinho, que ele também tomou.
Fosse do vinho, da euforia ou do que fosse, o senhor reconsiderou e decidiu acompanhar-nos!
Muito bem!
Por entre sorrisos de profunda satisfação, felicidade e pela melodia do Bairro Alto aos seus amores tão dedicado, sentámo-nos num restaurante e pedimos o jantar. Tendo em conta que tinha acabado de jantar opiparamente, o senhor surpreendeu-nos ao perguntar ao empregado o que tinham sem glúten que ele pudesse comer. Lá disseram que não era o primeiro celíaco que recebiam, explicaram o que tinham, pensando nós que ele queria qualquer coisa leve para nos acompanhar. Quando trouxeram um prato maior que os nossos, não verbalizámos a percepção do desperdício, mas todos pensámos o mesmo. Porém, e para nossa grande estupefacção, ele  limpou o prato num ápice, empurrado por um Dão que deslizava como enguias.
O companheirismo que se estabeleceu com o senhor não impedia que nos ríssemos até às lágrimas, relembrando todas as preocupações com a sua alimentação, tantos mails para trás e para a frente, quantos cuidados que, afinal, tinham nascido dele próprio, e afinal, concluímos, abades, há-os em todos os países e para lá de todas as doenças.
Que lhe tenha feito bom proveito é o que se deseja!

segunda-feira, 16 de abril de 2012

O teu rosto não será o último


Cacém, foi a primeira localidade onde morei quando viemos para Lisboa. A casa era emprestada por uns tios e os dias passavam com a pressa de procurarmos um tecto nosso, de onde não fossemos despejados quando eles regressassem de África. As hipóteses foram várias, a começar na Damaia, colónia do Sobral da Adiça. Nas redondezas existiam outras possibilidades, arrumadas quase a murro pela minha mãe, que se recusava a morar em sítios que davam pelo nome de Buraca ou Porcalhota. A Brandoa, onde também moravam vários sobralenhos, foi igualmente posta de lado na tarde em que fomos ver uma casa e a minha mãe perdeu um sapato no lamaçal que dava acesso à dita casa… acabámos por comprar um apartamento nas Mercês pelo valor de 256 contos, pouco mais de 1250 euros. Um luxo que deu muitas noites sem dormir, com a preocupação de sabermos como pagar aquela loucura.
Nas nossas andanças morámos na Reboleira e na Quinta da Barroca, nomes sem qualquer supless e que davam sempre origem a brincadeiras.
Na badana do livro O teu rosto será o último, João Ricardo Pedro afirma que nasceu na Reboleira. Parabéns por não ter dito só Amadora. Os nomes dos locais, assim como os das pessoas, têm uma história, uma história cheia que muitas vezes descamba em conjuntos de sílabas que desdenhamos, mas isso não tira valor aos locais, ou às pessoas (conheci uma Maria da Expectoração e vi o bilhete de identidade de uma Maria Sanita…).
Gostei do livro, não o amei, mas gostei bastante. Gostei particularmente da quantidade de frases que começam com E, como se o autor quisesse terminar no ponto final anterior mas a acção não o deixasse e o obrigasse a acrescentar sempre mais qualquer coisa. Gostei da visualidade da escrita, cujas palavras e frases estão ordenadas de tal forma que lemos um conjunto de imagens que se sucedem não diante dos olhos, mas algures cá dentro de nós. Gostei da veracidade e eu, que moro na Reboleira (pela segunda vez!), olho pela janela como se procurasse uma outra janela por onde espreite um jovem por ali nascido, protagonista daquela história, em todos os sentidos.
Como sou muito picuinhas ou qualquer outro nome que me queiram chamar, apontei um exame médico feito pelo protagonista, um TAC. Parece-me que na altura indicada ainda não se faziam TAC’s em Portugal. Parece-me. Neste caso, certezas só tenho uma: estarei atenta ao próximo livro de João Ricardo Pedro.

A D. Delfina

As minhas mudanças de casa em 46 anos de vida fazem inveja a muitos ciganos.
16 anos foi o período maior em que nos mantivemos na mesma residência, nas Mercês, paredes meias com a linha do comboio, único transporte público que nos levava ao fim de semana a Sintra e à semana até ao Rossio. A proximidade era tão grande que o meu pai saia de casa quando as campainhas começavam a tocar. Apressava o passo e apanhava o comboio.
A urbanização, que ainda existe, formava um quadrado de prédios verdes de três andares. Durante a nossa permanência e ainda por vários anos o arruamento chamava-se Rua A, tendo passado há meia dúzia de anos para Rua Actor Vasco Santana, se não me falha a memória.
No meio do quadrado de prédios verdes havia uma cratera que hoje seria declarada inimiga pública nº 1 e que, na altura, era o melhor parque de diversões que podia existir, cheia de restos de construções, madeiras e ferros, montes de areia, ervas de toda a qualidade e feitio e bandos de gaiatada.
Inexplicavelmente os nossos pais reclamavam daquele sítio maravilhoso, de tal forma que a Câmara terraplanou aquilo. A partir daí perdemos alguma diversão mas ganhámos outras e uma delas era o circo que ali se montava uma vez ao ano: leões e tigres, macacos e camelos, palhaços e malabaristas assentavam arraiais diante da nossa casa durante uma semana inteira.
Por baixo de nós morava a família da D. Delfina, matriarca que me fez esquecer os nomes dos outros elementos lá de casa, e se eram muitos: o marido, o filho mais velho, a neta (filha da filha mais nova) e um hóspede, um senhor brasileiro que nos punha a rir quando repetia o número de telefone e dizia com voz melodiosa, meia, meia, quando nós dizíamos seis, seis. O filho sofria de depressão crónica, fosse isso o que fosse, era grave de certeza porque não trabalhava, embora fosse reconhecido na rua como um homem muito inteligente. Como podia um homem tão inteligente não trabalhar? Qualquer coisa ali não batia certo, mas nem mesmo nas explicações de matemática e fisíco-quimíca que me dava, não consegui descobrir nada.
As explicações eram dadas na sala da D. Delfina, atulhada de roupa e móveis, em cuja mesa se arranjava um espaço para pousarmos os cadernos; ele entregava-me umas folhas brancas imaculadas onde apenas se via a letra perfeita que desenhava números e equações, contrastando com tudo o resto e que, naqueles momentos, faziam parecer a matemática como um segundo ar respirável.
Contudo, vá lá saber-se porquê, assim que chegava aos testes, toda aquela facilidade desaparecia como que por artes mágicas e eu não me lembrava de nada. Talvez para isso contribuísse o facto de ele preparar exercícios e dar-me tempo para que os fizesse; mas durante esse tempo eu contava os aranhiços que moravam no canto da sala por cima da porta, via os rolos de cotão a mexerem-se por baixo do sofá e assistia atónita à neta entrar na sala, pedindo desculpa, remexer no gigantesco monte de roupa que morava no sofá, despir-se e voltar a vestir-se, atirando a roupa usada para o monte o que me preocupava sobremaneira pois não percebia como faziam a distinção do que estava lavado e do que estava sujo.
A D. Delfina sofria do coração. Quando nos juntávamos na rua e calhava falarmos dos grandes, dos pais, dos vizinhos, dizíamos que ela tinha um relógio metido no peito a que era preciso dar corda para que não morresse. Porém, a pena e o respeito que nos incutia o relógio que tinha metido nas mamas era contrabalançado pelo facto de ser coxa, de não tomar banho e de depenar galinhas à porta da garagem num chiqueiro que nos enojava. Mas, de tudo, era a sua perna mais curta que nos dava as maiores gargalhadas, porque a imitávamos e imaginávamos situações onde ela teria que correr e não seria capaz. No fundo, tudo se resumia à crueldade infantil no seu esplendor.
Numa tarde quente a minha mãe não nos deixou ir brincar para a rua sem que o sol baixasse. Ela estava de volta da máquina da costura e nós as três costurávamos à mão, eu sempre com uma linha gigante, a que elas chamavam linha de preguiçosa.
Estavámos de mau humor pois o circo estava instalado diante dos prédios e os nossos amigos estavam a ver os animais. De três em três minutos, uma de nós corria para a janela da frente para ver quem estava na rua, quem tinha chegado, quem se tinha ido embora e voltava a dar as novidades às outras, que se picavam com as agulhas e a inveja, na varanda oposta, que dava para a linha do comboio.
A minha mãe já tinha ditado a sorte, que na nossa perspectiva era um grande azar, e lá estávamos nós a ver passar os comboios, a controlar o caminho estreito para as garagens e as hortas que ficavam por trás, como se fossemos guardas-fiscais desterrados num ermo.
Passou o Sr. Fernando, que não tinha carro mas tinha garagem, na qual instalara uma mesa de pingue-pongue onde os amigos do filho jogavam tardes inteiras. Passou a D. Delfina em direcção à horta, no seu passo de cem, cento e vinte, como lhe chamávamos, em honra de um outro coxo assim conhecido e que morava lá na aldeia. Passaram amigos nossos a correr, na brincadeira. Com um enorme regador nas mãos, para regar umas plantas quaisquer, passou a Miss Piggy, a quem assim chamávamos por ser alta e casada com um homem baixinho, a quem chamávamos Cocas, como é óbvio.
Nem o barulho da Singer verde, que ponteava e chuleava ao ritmo dos pés da minha mãe que os fazia descer e subir a uma velocidade invejável, aplacava os nossos suspiros que denunciavam uma ansiedade enorme por sairmos dali.
Qualquer coisa captava a nossa atenção, o comboio a passar, um pássaro, até a D. Delfina que regressava da horta, braçada de couves a escorregarem-lhe de debaixo dos braços.
Foi então que aconteceu. Três andares acima as linhas e as agulhas voaram com o grito de horror da D. Delfina que abriu os braços e deixou cair as couves, recuando conforme as pernas de diferentes tamanhos lhe permitiam. Ao seu encontro corria um enorme chimpanzé que, acossado pela rapaziada, acabou por embater na D. Delfina, saltando por cima de uma vedação e fugindo para o meio das hortas. Qualquer uma de nós as quatro não podia acreditar no que via!
A minha mãe desatou aos gritos largando a máquina de costura, e desceu as escadas a correr na direcção da D. Delfina que estava desmaiada no chão, sozinha. Nós ainda vimos dois homens do circo passarem a correr atrás do macaco, também eles aos gritos.
Começámos a correr escada abaixo atrás da minha mãe que nos mandou para trás para chamarmos os bombeiros. Pela primeira e última vez ligámos o número que estava ao lado do telefone para emergências, e demos a única informação possível: uma senhora foi abalroada por um chimpanzé e parece que está desmaiada mas se calhar morreu porque a senhora tem um relógio no peito a que tem que dar corda se não morre e com a queda talvez o relógio se tenha partido! Venham depressa! Ah, e é coxa!
Com a pressa quase não dava a morada e já ia desligar quando ouvi perguntar onde estava a senhora. Sabendo da localização do circo, os bombeiros vieram num apito e rapidamente se juntaram a um aglomerado difícil de imaginar: um brasileiro que tentava arranjar espaço para a senhora respirar, duas pessoas do circo vestidas de forma bizarra, uma mulher com o pescoço envolto em linhas e uma almofadinha cheia de alfinetes ao peito, várias crianças que berravam e, a poucos metros, dois homens que amansavam um macaco, com festas, conversa e bananas.
O relógio que morava no peito da D. Delfina tinha-se mesmo avariado com o susto que, não obstante, nunca se apurou se foi maior que o do chimpanzé ou não, e esteve hospitalizada alguns dias.
O circo arrumou as trouxas no dia seguinte e nessa tarde, a última, nenhum de nós se pode aproximar dos animais. Aparentemente o chimpanzé tinha fugido quando o tratador o soltara e a berraria dos miúdos o tinha assustado.
A D. Delfina regressou a casa, com um relógio novo dizíamos nós, e sem vontade de macacadas. Claro que, se até aí ela era alvo do nosso gozo, a partir desse dia e conseguindo encontrar semelhanças entre o andar da D. Delfina e o andar cambaleante dos macacos, aumentámos a preversa gozação.
Como uma espécie de castigo, o circo nunca mais ali se instalou e passámos a viver de memórias. 
Soube ontem que a D. Delfina morreu. Sem maldade, não pude deixar de sorrir, perante a lembrança de alguém que ajudou a povoar a minha infância e adolescência de tanta recordação.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Da realeza


A caminho do Metro paro num semáforo onde não me lembro de algum dia ter parado. Olho para o lado e vejo, pela primeira vez, uma loja de alcatifas. O nome, estampado na lona em letras garrafais, abana como se quisesse fugir:
‘Zorro – Rei das Alcatifas’.
E eu pergunto: Não devia ser D. Zorro?

terça-feira, 10 de abril de 2012

Ditam-se as sortes...

"... é basicamente a divulgação e fomentação da Festa Brava...". São palavras do Vereador António Gomes da Câmara Municipal de Fronteira quando fala do Fim de Semana Taurino que "... contou com todos os ganaderos do distrito de Portalegre que aderiram e responderam ao ofício que nós enviámos a cada um..."! Magnífico! O ofício, é claro...
Houve ainda o 1º Concurso Distrital de Cernelhas do Norte Alentejano... digno de um canal no MEO.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Três ao mesmo tempo

Levanto-me e tomo banho. Engulo o pequeno-almoço na cozinha e relembro o que destinei para o jantar enquanto apanho a roupa que voa no estendal e penso se é hoje que tenho aquela reunião no Museu, e aceno à vizinha velhota do prédio em frente. Viverá sozinha?
Bebo um café no café da esquina; pergunto ao Sr. Correia, o dono, como vão as netas, ao que ele responde com um largo sorriso, Bem, e floreia por ali fora.
Meto-me no carro e vou em direcção ao Metro. Paro no semáforo, dou passagem a um autocarro pensando, como sempre, que aquele conjunto de pessoas que ali vai a olhar a paisagem sem a ver, terá mais pressa que eu, são tantos, sabe-se lá para onde irão, ainda.
Estaciono o carro questionando-me pela milionésima vez sobre qual será a dificuldade de se acertar nos riscos e estacionar os carros em condições, e em condições leia-se com respeito pelos outros automobilistas e não ocupar dois lugares em vez de um. Não me posso esquecer de pagar o IMI. Terei guardado o cartão de multibanco, ontem? Já terão chegado os livros para fazermos aquela oferta? Quem terá ido ao armazém?
Meto-me no metro e no livro que ando a ler e regresso ao momento em que acordei com o toque do despertador. Sorrio, sem compreender.
Leio até uma voz mecânica dizer que a próxima estação é Marquês de Pombal e que há ligação com a Linha Amarela. Usei a Linha Amarela poucas vezes, com pena minha, pois o símbolo é um girassol, a minha flor favorita. Mas a Azul, é uma gaivota. A Vermelha é um astrolábio. A Verde, uma caravela. Quem terá tido estas ideias brilhantes? A voz mecânica fala e eu levanto-me, preparando-me para sair, pensando se já terão chegado os meus cigarros e como terão sido as férias do senhor do quiosque e da sua família, lá na sua Índia natal; gostava de lá ir e chegar e ele pensar que eu ia pedir cigarros ou um euromilhões e dizer-lhe, olhe fui à sua terra e adorei, sim, porque sei que vou adorar.
Desço a rua em direcção ao palácio onde trabalho e a cada passo vou dando bons dias, é hora de entrada e encontramo-nos quase todos, até a senhora daquele café onde eu raramente vou, mas que conheço, o senhor da garagem, vai atrasado com certeza, a senhora da loja de malas que me cumprimenta a abrir a grade de ferro.
O dia faz os últimos aquecimentos antes de começar a correr propriamente dito. Assim entrar na biblioteca ele vai-se esbaforir, transpirar e arrasar e vai querer que eu o acompanhe e eu vou fazer tudo para o percorrer, para chegar ao fim do dia com o sentimento de missão cumprida.
Sei que vou atender mil telefonemas, vou fazer bastantes, vou falar com dezenas de pessoas, escrever vários e-mails, debruçar-me sobre inúmeros assuntos e face a isto pergunto, como resposta a quem me questiona sobre o facto de estar a ler três livros em simultâneo: se ao longo de um simples dia somos envolvidos em tantas realidades, como não havemos de conseguir ler mais do que um livro em simultâneo?
Sugestão: um para os transportes, outro para a casa de banho e outro para a cama… fácil, não é? Tão simples como respirar.

Viva a Páscoa

A biblioteca foi alvo de grandes mudanças na semana que antecedeu a Páscoa. Contei com dois funcionários extra, dedicados, empenhados, maravilhados com tanto livro: os meus sobrinhos.
Levantaram-se cedo, entravam antes das nove e achavam que ainda continuava a ser cedo quando lhes dizia que vestissem os casacos para irmos para casa, em cima das sete da tarde. Ele, que precisa sempre de uma ajudinha para comer, agarrou os ossos do frango e tirou-lhes a carne com os dentes, deixando-os limpos. Inacreditável. Concluí que os problemas com o comer resolvem-se com o trabalho...
Portaram-se às mil maravilhas, apenas com um pequeno desentendimento sobre quem rasgava uma pilha de papel que não podia ser deitado fora inteiro. Resolveu-se a coisa com facilidade pois onde estava aquele, havia mais uma tonelada e, às tantas, já eles estavam fartos de tanta fartura. Quem se fartou de rir fomos nós quando ela chamou Eusébio ao nosso colega africano... ele próprio gargalhava até mais não.
Fomos ao cinema onde eu quase adormeci a ver o Lorax e voltámos para a primeira sessão dupla no mesmo dia do meu sobrinho, num Titanic onde estavam uns estranhos passageiros na fila à frente da nossa, a quem mandei calar vezes seguidas: dois chineses adolescentes, com os óculos 3D no alto da cabeça conversavam, em chinês..., como se estivessem no sofá lá de casa.
Ao nosso lado, uma senhora sozinha perguntava-se o que estavam eles ali a fazer: não viam o filme e conversavam, sabe-se lá sobre o quê... Ainda me ri quando os mandei calar e um deles me perguntou... porquê?
Com chineses ou sem eles, anseio pelas próximas férias; trabalho na Biblioteca não falta, vontade da rapaziada também não e eu, eu já tenho saudades...

Caminhadas de pensamentos

As caminhadas no paredão funcionam como o melhor dos remédios. Mesmo que me deite tarde, levanto-me cedo e começo a caminhar com um prazer que aumenta de dia para dia. Sinto-me fraca se não for.
Os ciclistas continuam a violar as regras e avançam a alta velocidade rasando as barrigas gordas que ali se espraíam, as crianças que avançam aos solavancos, os cães que andam na ponta da coleira, os pais que fotografam tudo e todos.
Se for sozinha, como acontece a maior parte das vezes, bebo um café já no final do caminho, em pé ao balcão. Se for acompanhada paro num café, sento-me e converso. Sozinha arranjo tempo para fazer exercício, ali, depois daquela curva, ao lado do quiosque da Olá, fechado a maior parte do ano. Sozinha converso ainda mais: falo comigo e ponho as conversas em dia, tantas e tantas que até me parecem impossíveis. O que fiz, o que não fiz, o que ainda tenho que fazer. Penso nas pessoas que me rodeiam, nas pessoas de quem gosto, naquelas que tenho que aturar. Penso nas atitudes, minhas e alheias, e tento encontrar razões para certos comportamentos. Bem dou voltas ao pensamento, mas nem sempre encontro o que procuro. Tento arranjar desculpas para certas pessoas... verifico que se esgotaram. Gostava de ter coragem para pensar só em mim ou, pelo menos, para também pensar em mim. Sinto que nas caminhadas de fim-de-semana aproximo-me desse anseio, mas a segunda-feira espreita, como se sorrisse com sacanice.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Mensagem para um taxista

Senhor taxista que fez hoje o percurso das Janelas Verdes até ao Marquês de Pombal
Apanhei o seu táxi com duas colegas hoje, antes do almoço, à porta do Museu Nacional de Arte Antiga. Lembra-se?
Vínhamos muito bem dispostas, a rir e a conversar, a falar de viagens e de tempos livres.
Paguei, desejei-lhe um bom dia e, de adianto, também um bom fim-de-semana.
Acontece que deixei uma coisa importante no seu carro e preciso falar-lhe.
Pode entrar em contacto comigo?
Obrigada, fico a aguardar.

terça-feira, 27 de março de 2012

Tratados e Pazes

Decididamente eu andava com algumas ideias... sobre o quê? Pois, não sei...
Este texto está escrito numa folha com linhas (que já não uso), a lápis e já meio esbatido.

Diz-se que antigamente o emissário duma notícia desconhecia o seu teor até a mesma ser lida pelo destinatário: se continuasse vivo era sinal que a notícia era boa, caso contrário esperava-o a morte.
As Relações Internacionais mudaram radicalmente ao longo dos séculos e hoje os emissários são diplomatas aceites até em países cujos relacionamentos são instáveis, por força da procura de equilíbrios que, não sendo alcançados, podem levar a conflitos diplomáticos que, à sua maneira, também são uma guerra.
Se as Relações Internacionais visam o estudo dos relacionamentos políticos, económicos e sociais entre países, os fenómenos religiosos não estão menos ligados a toda esta dinâmica, quer na actualidade ou na Antiguidade: a um convidado muçulmano só será servida carne de porco se o quisermos afrontar, não se pede a um judeu para trabalhar ao sábado, respeita-se o Domingo como dia santo a um católico.
As Missões Diplomáticas permanentes em países estrangeiros foram uma necessidade recorrente da Paz de Vestefália, nome que se conceituou dar a um conjunto de tratados e documentos legais que fizeram nascer o chamado Sistema Internacional e respeitar princípios como a soberania estatal ou o Estado nação.
Cansados duma lista de conflitos generalizados, com todos os aspectos negativos e prejudicais que englobavam, procurou-se um Equilíbrio de Poder, objectivo que se veio alcançando ao longo dos séculos com a Paz de Vestefália, em 1648, o Congresso de Viena, em 1815, e com o Tratado de Versalhes em 1919, momentos triangulares da busca duma paz duradoura.
Assim, embora os relacionamentos entre estados, nações, províncias, reinos, impérios, regiões, ou mais formas que se queiram acrescentar, existam desde a existência do Homem, considera-se que o nascimento das Relações Internacionais, como são encaradas hoje, nasceu com a Paz de Vestefália.
Actualmente fala-se muito em conflitos diplomáticos para designar a desagradabilidade de um país relativamente a outro(s) mas sem que entrem em conflito armado, ou seja, são desentendimentos que se espera vir a resolver sentados a uma mesa, símbolo da partilha e da paz, aqui também sinónimo da esperança numa resolução pacífica da situação. Tempos houve em que não se agia desta forma e não nos referimos a períodos de guerra, altura em que os códigos, valores e princípios parecem ser ainda mais esquecidos que habitualmente. 

Os animais na História


Quando José Saramago escreveu A Viagem do Elefante houve quem pensasse que a história lhe tinha sido sugerida pela imaginação, mas não foi. O escritor baseou-se em acontecimentos verídicos, naquilo que o historiador Jorge Rodrigues chamou ‘A incrível história de Salomão, o elefante-diplomata de D. João III que viajou da Índia a Viena de Aústria’, no seu livro Salomão: o elefante diplomata, editado pelo Centro Atlântico. O elefante foi um presente bizarro mas muito apreciado e que ajudou a consolidar as relações do rei português com o seu primo austríaco.
Em 1515 D. Manuel I recebeu de um príncipe indiano um rinoceronte, que decidiu oferecer ao Papa Leão X. Os rinocerontes eram animais raríssimos aos olhos dos ocidentais e apesar de o Papa nunca ter recebido o animal, pois o navio que o transportava naufragou, o reino de Portugal marcou pontos aos olhos do papado.
Diga-se de passagem que este rinoceronte teve um importantíssimo papel no assumir da ilustração como instrumento de conhecimento científico, pois foi desenhado por um desconhecido, mas desse desenho foi feita uma gravura por um dos maiores artistas renascentistas, o alemão Albrecht Dürer, que correu mundo.
Por outro lado, na ficção, o norte-americano Lawrence Norfolk escreveu a história do animal num romance célebre, O Rinoceronte do Papa.
Colombo, Pedro Álvares Cabral, Bartolomeu de Las Casas, entre muitos outros brindaram reis, Papas e demais senhores com papagaios, araras, iguanas, papa-formigas, anacondas, tatus, saguis, tucanos, periquitos, macacos e jacarés.
O exotismo dos animais recém-descobertos, oriundos do Novo Mundo, era aproveitado para ajudar a estabelecer e consolidar relações com diferentes reinos, numa época em que o ouro e o marfim, as especiarias e as sedas traziam valores monetários àquilo que seria a Europa e cujos governantes davam valor a prendas vivas, especialmente, se fossem originais.
Noutra vertente, o cartaginês Aníbal, considerado por muitos como o maior dos generais, usou elefantes para passar os Alpes na dupla perspectiva de serem animais possantes e aos quais havia um medo natural.

Agora pergunto: para que raio terei eu escrito isto? Estes parágrafos estavam nos meus papéis, com a minha letra, mas não faço ideia por que razão me debrucei sobre os animais na história. Seria vontade de inverter as coisas num dia em que me fartei de histórias de animais? Fosse o que fosse, não estava terminado porque as últimas palavras eram ‘Mais recentemente os animais também…’
Tenho que voltar a tomar a medicação…

Rumo ao Farol


As mãos de Virgínia Woolf produziram a orientação da minha vida. Rumo ao Farol podia ser o meu lema, uma vez que um dos meus sonhos é morar num farol.
Ter o mar como jardim, um barco como veículo, muitas escadas para chegar ao quarto e a porta da entrada aberta só para os intrépidos.
Poder ler ao lado da lâmpada num dia de sol é uma imagem que me alimenta. Inundar-me com a espuma das ondas altas que esbarram na parede única do farol, ver o horizonte até muito para lá do além na varanda com vista para o céu, ou jardinar na pequena alameda de acesso ao farol são pensamentos igualmente prazenteiros.
Por ora tenho livros sobre faróis – ganhei um novo exemplar de Rumo ao Farol, há cerca de duas semanas, obrigada! – tenho postais que me chegam de várias partes do mundo, quadros, alguns dos quais em cima da minha cama, espanta espíritos, roupa com faróis estampados, fotografias e imagens diversas.
Falta-me um a sério, mas não mudo de rumo. Quem espera sempre alcança? 

Os óculos de sol dela


Já arranjei muito bem
Tudo quanto convém
P'ra praia levar
O pente, o espelho, o baton
E o creme muito bom
P'ra me bronzear
Estas linhas fazem supor um dia de praia em grande! Bem sei que também devia levar, no mínimo, um pente para dar ordem a esta cabeleira, mas não me lembro de algum dia o ter feito; ainda assim, e tirando o creme para bronzear, que nos remete para épocas em que não se sabia o que era o buraco do ozono, não acho nada estranho.

Tenho o meu rádio portátil
E o bikini encarnado
Também está no meu rol
E como é bom de ver
Não podia esquecer
Os meus óculos de sol
Ora bem… aqui, definitivamente estamos no século passado. Rádio portátil? Oh minha senhora, a bem da eliminação da poluição sonora, arranje por favor uns auriculares e não obrigue os outros a partilharem a sua música.

Que levo p'ra chorar uuuuhuh
Sem ninguém ver
P'ra não dar uuuuhuh
A perceber
P'ra ocultar uuuuhuh
O meu sofrer
Pois eu sei que te hei-de encontrar
Talvez deitado à beira-mar
Com outra ao lado
E eu vou passar
A tarde a chorar
Bem… mas que grande surpresa! Então vai ser uma tarde de choro? Está enganada! Mesmo que o encontre, assim que ele vir o rádio portátil, faz-lhe o favor de se afastar e o seu problema fica resolvido!

Já pensei não sair
Mas aonde é que eu hei-de ir
Com este calor?
Ao cinema! Costumam ter ar condicionado, assim como as galerias de exposições que, estando assim tanto calor, estão vazias com certeza. Vá a uma matinée, visite um antiquário, absorva cultura, compre umas peças!

O que é que eu hei-de fazer
P'ra não ter que te ver
Com o teu novo amor?
Se teimar em ir à praia escolha a Costa da Caparica, que ele é gajo para ficar em Carcavelos. O que não falta por aqui são praias, não seja parva e faça-se à vida.

Ver-te-ei com certeza
Mas eu peço à tristeza
Um pouco de controle
Natércia, você é teimosa, hem? E masoquista! Desfaça-se é do rádio portátil, vista o bikini encarnado, peça ajuda ao jeitoso mais próximo para pôr o tal creme bronzeador, e dê uns bons mergulhos. Olhe, descontrole-se!

E pelo sim pelo não
Eu vou ter sempre à mão os meus óculos de sol
Vou chorar
Uuuuh uh
Vou sofrer
Uuuuh uh
Vou chorar
Uuuuh uh
Teimosa, é pouco! Oh Tessinha, deixe-se de birras, de choros e sofrimentos. Como um gelado! Uma bola de Berlim com muito creme! Um pacote de batatas fritas, Ti-Ti não queira outras!
Deixe o homem sossegado! A bem da verdade, acha que alguém quer ficar com uma chorona que leva um rádio portátil para a praia? 

segunda-feira, 26 de março de 2012

Ser feliz é...

A felicidade está encerrada no final das estórias de encantar. Foram felizes para sempre permite-nos saber da felicidade alheia, mas a nossa participação resume-se a ler e reler ou ouvir essa frase encantada, que não é nossa.
Partindo do principio que o que um homem faz, outro também consegue fazer, e se o e foram felizes para sempre é de alguém (acreditamos que uma fada ou um príncipe encantado são alguém), então há ali uma réstia de esperança que um dia se aplique a nós. Até lá, temos momentos felizes e em cada um revivemos cada sopro da vida.
Na quarta-feira fiz uma maratona no trabalho, e depois na estrada, para assistir a uma sessão de poesia onde os meus sobrinhos iam ler. Ela, com sete anos, usou palavras de outrem, lançou a voz e fez-se ouvir. Ele, com 9 anos, usou as suas próprias palavras, num poema chamado A Língua, e um pouco para dentro, partilhou connosco a sua criação.
Enquanto durou eu fui feliz para sempre.

sexta-feira, 23 de março de 2012

Intolerância (?)

Ontem acusaram-me de andar muito nervosa. Eu li intolerante. É verdade, não nego.
Se o trabalho fosse um par de sapatos eu estava a calçar agora um 47 ou 48, quando um 38 já me fica largo.
As pessoas que trabalham comigo sabem que fico a pisar brasas em alturas de maior responsabilidade e que lido muito mal com falhas, erros, esquecimentos, enganos, o que for. Mas também sabem que eu não trabalho com qualquer um… escolho quem considero que é capaz de fazer, e daí ser acusada frequentemente de ser incapaz de descentralizar. Eu sou capaz de descentralizar se confiar, caso contrário, deixo tudo comigo.
Fico sem palavras com a ligeireza como certos erros são encarados e ajo ao sabor da fúria quando começo a ter receio de confiar em quem confio. Por vezes roço a obsessão com a mania das correcções, verificações e reverificações e fico a tremer com atrasos, faltas de cumprimento de prazos e quase entro em convulsões quando me respondem que podemos fazer de determinada maneira porque ninguém vai ficar a saber (nós não somos alguém?); toda a gente faz assim (eu sou Aquário, não Carneiro…) e outras respostas semelhantes.
O que mais me põe fora de mim é a culpa nunca ser da pessoa a quem foi atribuída a tarefa ou missão! Há sempre alguém, um alien talvez, que interfere na execução e perturba o trabalho.
Há uma injustiça em toda esta questão, uma injustiça com duas caras, como Janus. Por um lado, há quem pense que sou injusta pois a minha veia de exigência não é igual para todos. Por outro lado, sou exigente apenas com quem sei que vale a pena. Com outros não me dou ao trabalho, porque a exigência dá muito trabalho, acreditem ou não.
Quando me fazem uma pergunta ou colocam um problema tenho tendência a não responder de imediato se considerar que a pessoa que a fez consegue lá chegar sozinha; tento desenvolver uma conversa, numa espécie de maiêutica, para provar que a pessoa sabe o que pergunta. Mas nos últimos tempos isto raramente acaba bem e perguntam-me logo a seguir porque não me limito a responder…
Fico sem saber o que fazer, pois acho que o caminho certo é deixar que sejam as próprias pessoas a desbravar o pensamento, e invisto tempo nesta acção da qual, no fim de contas, resultam contas mal feitas.
Mesmo sabendo disto, pressiono para alargar limites, peço mais e mais, sendo de uma exigência sem tamanho como dizem, mas continuo a agir da mesma forma por uma simples razão: sei quem pode dar e quem não tem para dar. Destes últimos espero o básico, dos primeiros espero tudo… até acharem que ando muito nervosa…

terça-feira, 20 de março de 2012

Autor desconheçido

Uma das minhas tarefas é fazer a verificação de originalidade de dissertações e teses. Acabo de ler um trabalho onde os desconheçidos e desconheçidas são tantos que podiam fundar uma associação... e ficavam todos a conheser-se.
Hera tão jiro...

segunda-feira, 19 de março de 2012

Downton Abbey, ou a perfeição em duas palavras

Em Downton Abbey é difícil destacar um momento que seja superior. Atrevo-me a sugerir as tiradas de Mrs. Grantham como o ponto alto duma cadeia montanhosa bem acima do ar respirável em matéria de séries de televisão.
Quando a senhora pergunta, petrificada, o que são fins-de-semana, como se a voz se lhe escapasse sem querer, em resposta à declaração do intruso que manifestou ter tempo apenas aos sábados e domingos, é-nos dado ver o interior da cultura da elite da época. Magistral.
Ainda a mesma personagem afirma que só a um estrangeiro (leia-se, não inglês) lhe passaria pela cabeça morrer em casa alheia, pior ainda, no lar de pessoas que mal conhecia.
Não, o objectivo não é fazer-nos rir mas, antes pelo contrário, mergulharmos na própria História.
Se Downton Abbey fosse um livro teria duas colunas lado a lado: uma para a visão dos senhores, outra para a perspectiva dos empregados, ambas sobre a mesma coisa, ambas muito diferentes.
A fotografia da série ajuda imenso a tornarmo-nos cúmplices daquela acção em dois planos – é fácil e quase inato, dizer plano superior e inferior, tentarei fugir a este facilitismo mesmo em pensamento. Há planos de pormenor magníficos, há imagens que sozinhas contam toda uma história ou, melhor ainda, revelam parte dela, para que nos questionemos e sejamos incapazes de abandonar a televisão.
Mudar de canal está fora de questão pela simples razão que nem nos ocorre que exista outra coisa para além do que estamos a ver e, obrigada, obrigada, nem sequer há intervalo.
O cerne da história tem origem na posição subalterna das mulheres. Não me vou deter nesta questão, entendendo que se o fizesse estaria a tentar transpor o presente para o passado. Não, limito-me a ver, a espreitar como quem viaja no tempo, um trabalho soberbo de realização, de cenários e diálogos, de direcção de actores, onde nada é deixado ao acaso e tudo é perfeito. Tudo é perfeito porque era assim, foi assim, não se discute se devia ter sido assim.
Quando o mordomo afirma que um castiçal tem um risco e lhe respondem que é tão pequeno que ninguém vê, ele argumenta com a verdade mais básica: ‘Basta eu saber que ele existe’. Irrepreensível.

terça-feira, 13 de março de 2012

A matança dos livros

Só agora me veio parar às mãos a História Universal da Destruição dos Livros, de Fernando Báez, de 2004, e editado em Portugal em 2009 pela Texto.
A cada página há que conter lágrimas e raivas e, acima de tudo, pensar o que fazer para parar com a carnificina. Não se sabe,mas acumula-se a raiva, que vai crescendo a cada capítulo do livro.
A história do livro é a história da maldade, da intolerância, da ignorância e do racismo. É a história do medo.
Um livro assim impõe ainda mais respeito que outro sobre diferente tema. Um livro assim merece ser visto com solenidade. Um livro assim tem que ser tratado como ícone, como alerta para o desaparecimento propositado de livros, com tudo o que significam.
Assim, esperava-se uma edição ainda mais cuidada que o normal, uma leitura mais intensa que resultaria numa tradução limpa, a que a revisão limaria qualquer pontiagudo.
Aguardo que o livro me chegue na língua original para confirmar se a Texto Editora, a tradutora, Maria da Luz Veloso e o revisor Luís Rodrigues trataram o sangue da humanidade que escorre naquelas páginas com ligeireza, dando a ler frases frágeis, meias incompletas, não rigorosas e medíocres.
Aguardo, para ver se a Bagdad da contra-capa que passou a Bagdade no interior, foi uma gralha. Perfeitamente evitável, diga-se de passagem.
Ainda assim, a ler, sem dúvida, para que todos saibamos o que nunca se deve fazer.

segunda-feira, 12 de março de 2012

A vida real

Acompanho uma série televisiva que num dos últimos episódios mostrava um conjunto de cenas onde uma das protagonistas se desfazia para devolver uma pomba ao bando.
A ideia da 'pomba', a menção, a visão, seja o que for, leva-me logo ao Max, daí ao Picasso e daí a um novelo de paz que, vá lá saber porquê, faz sempre este caminho e me desagrada.
Sábado de manhã à entrada do meu local de trabalho, desacelerei o passo para ver uma senhora dar umas migalhas a um pombo, que não sei se era pombo ou pomba, mas pombo sempre é melhor.
Lembrei-me da cena da televisão da noite anterior e como que fui acordada no momento em que o pombo debica o pão e ela o agarra e lhe torce o pescoço. A vida real é assim.

terça-feira, 6 de março de 2012

O sentido do fim


Não tenho qualquer curiosidade em especial em saber quem matou o Kennedy, mas gostava de ler o diário de Adrian.
Está a ouvir, senhor Julian Barnes?
Eu percebi que não mo ia dar a ler quando lhe arrancou aquela página cheia de equações, seu manhoso… mas mesmo assim, vá lá saber porquê, continuei a ler.
Fique a saber que a informação que presta abre a nossa curiosidade, coscuvilhice, chame-lhe o que queira, e depois, queimar assim o diário…? Dar-nos uma perspectiva real da vida? Cruzar a nossa cusquice com a atitude que se tomaria se fossemos a protagonista da história?
Como se fossemos… mas não somos, ficamo-nos por espectadores e os espectadores perdem sempre qualquer coisa. Gostei. 
Edição da Quetzal, 2011, foi vencedor do Man Booker Prize no mesmo ano.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Bonecas

As escadas rolantes rolam cegas aos passos que passam. Deixo-me levar segura do destino.
Duas vozes atrás de mim falam de bonecas de porcelana.
- Tenho dúzias… nem queiras saber…
- Nunca tive bonecas dessas
- Tenho imensos bibelots, mas as bonecas são as minhas favoritas
- Eu não gosto de ter os móveis cheios de coisas, custa mais a limpar
- Eu não me importo, passo horas a limpá-las e além disso o meu marido também as adora
- O meu marido adora-me a mim e eu passo horas a adorá-lo a ele.
Voltei-me para trás e sorri-lhe, num sorriso invejoso.