sexta-feira, 20 de abril de 2012

A lotaria não dá de comer a alguém


Fui a Coimbra e esqueci-me de fazer o euromilhões (ou o totomilhões, como diz o meu pai que, numa palavra só, abarca dois tipos de jogo. Genial.) Vinha no comboio, pensei nisso e a minha memória acompanhou a velocidade da deslocação mas noutro sentido, em direcção ao passado. Lembrei-me que na primária emparceirei na carteira com várias pessoas. A minha favorita era o António que, não obstante ter umas calças de ganga com martelos amarelos que eu achava ridículos, era lindo de morrer. Para além do António sentei-me ao lado da Anita e de uma rapariga cujo nome não consigo recordar, a que chamarei Maria.
A mãe da Maria vendia jornais e jogo numa banca em Lisboa e como o meu pai fazia jornais eu achava que havia uma certa ligação entre nós que se prolongava para além do espaço que ocupávamos na sala de aula. Já a mãe da Anita era doméstica, o que, que me perdoe quem se ofender, me lembrava sempre animais domésticos…
Como entrei para aquela escola a meio do ano sentaram-me ao lado da Anita, a única aluna que estava sozinha na carteira e, nos primeiros minutos do primeiro dia, vá lá saber-se porque, cuspiu-me em cima! Acto imediato levou um estaladão, eu levei outro da professora, a D. Graciosa, a quem bastou correr para a rua e chamar a minha mãe que tinha acabado de me deixar ali, para lhe fazer queixa do comportamento da filha. É claro que não me perguntou nada e tendo a sua visão captado o movimento do meu braço a abalançar-se com violência para assentar a mão na cara da Anita, declarou-me culpada. A custo lá disse as minhas motivações para semelhante atitude e minutos depois já era amiga de uma Anita com uma face vermelha e a minha mãe foi embora mais ou menos descansada mas surpreendida com a sua filha, sempre tão calma, a fazer coisas daquelas.
A Maria era também muito calma, calma demais, e os níveis de aprendizagem quando fugiam do zero era para baixo. Custava-me entender como não conseguia nem sequer decorar e enquanto eu falava de geografia ou história ela retorquia com histórias de clientes lá da banca de jornais. Eu adorava-a, apesar de ela detestar a escola que eu amava. Feita a quarta classe a Maria desapareceu do mapa da gaiatada lá do bairro. Anos mais tarde encontrei-a na banca dos jornais, não me reconheceu e eu confundi-a com a mãe dela. O meu ar aparvalhado fê-la perguntar se queria mais alguma coisa e lá lhe disse quem era. Ficou com ar feliz e eu também por ela se lembrar de mim.
Muitos anos mais tarde, num dos colégios infantis que os meus pais tinham andava uma miúda tão parecida com a Maria que, não fosse a diferença de idades, podiam ser gémeas. Ambas eram enormes para os anos que tinham, a atirar para o gordo, bolachudas de cara e com faces muito rosadas.
Os pais da Vanessa, assim se chamava a Maria II, por coincidência, tinham uma banca de jornais e o pai vendia lotaria pelas ruas.
Numa ocasião os pais procuraram a minha mãe e pediram-lhe ajuda pois iam viajar e não tinham com quem deixar a garota, cujo corpo era de adulta mas apenas contava 11 ou 12 anos. A minha mãe disponibilizou-se para ficarmos com ela e foi assim que a Vanessa morou uma semana na nossa casa, fazendo a vida que nós fazíamos. Tendo um ou dois anos de diferença da minha irmã programaram-se os trabalhos escolares em conjunto e por aí fora. A cada passo a Vanessa me fazia lembrar a Maria, por exemplo quando lia Dona Maria i, em vez de Dona Maria Primeira, e nós fartávamo-nos de rir.
Uma noite fomos convidados a jantar em casa de uns amigos e a Vanessa também foi, é claro. Chegados lá, no meio da conversa e porque ela sendo miúda mas estava sempre junto dos adultos, perguntaram-lhe onde tinham ido os pais. À Rússia. À Russia? Ena pá! Isso é longe que se farta. E os teus pais foram de férias?
Perante esta pergunta, a Vanessa deita um ar cúmplice à minha mãe, como que a procurar apoio, e diz:
- Não. Os meus pais são contrabandistas e foram buscar mercadoria.
A sala ficou em silêncio, nem os talheres se ouviam. Imediata e rapidamente todos quiseram saber tudo, principalmente a minha mãe a quem a garota, por imposição da sua própria mãe, chamava Senhora Directora. Ora, o olhar que antecedeu o largar da bomba dava a senhora directora como cúmplice da coisa o que levantou enormes gargalhadas, enquanto a Vanessa garantiu o lugar de rainha da noite com todas as conversas a decorrer à sua volta.
Lá se lhe disse que aquela frase não era a mais adequada para descrever a actividade dos pais, ao que ela insistiu afirmando que os jornais e a lotaria não davam de comer a alguém e que sim, era o contrabando que os sustentava e que pagava o colégio, sendo as últimas palavras engolidas com um esgar pela senhora directora.
Quando os pais chegaram, a minha mãe contou-lhes o ocorrido durante outro momento caricato: queria ela explicar a cena e eles, vá de tirarem prendas (contrabando?) de sacos, e mais um beibilou e mais uma camisa típica e mais uma matrioska e mais não sei o quê. Iam ouvindo as palavras da minha mãe e no fim afirmaram que sim, que a filha se limitara a contar a verdade, que normalmente iam ao Norte de África mas de fim-de-semana, e, sendo só dois dias, a Vanessa ficava com uma vizinha ou algo parecido. Agora tinham ido ver o mercado russo, de que alguém lhes tinha falado, mas era muito difícil, sabia a minha mãe?, a língua, sabe, a língua é muito complicada. Pensava a senhora directora que a lotaria dava de comer a alguém?
Gostava de encontrar a Vanessa para saber se tinha seguido a carreira dos pais… 

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Comer como um abade


No âmbito da organização de eventos científicos da casa onde trabalho e a propósito de um seminário, convidámos um especialista norueguês para vir falar da sua experiência. Dada a confirmação da disponibilidade começámos a tratar da deslocação. O senhor pediu para ser ele a gerir esse assunto, informando-nos que sofria da doença celíaca e nem todas as companhias de aviação estavam preparadas para transportar pessoas com necessidades especiais de alimentação. Por quem é! Faça o favor!
Tratado aquele assunto, marcado o hotel, informei-me junto da Associação Portuguesa de Celíacos quais os restaurantes onde poderíamos levar o senhor, sem corremos riscos. Por coincidência, o Hotel escolhido estava numa espécie de fase final de certificação e decidiu-se que o almoço do dia do seminário seria encomendado ao hotel, nosso vizinho, e o jantar dessa noite, seria no restaurante do dito.
Assim, ao almoço recolheram-se pratos de peixe e carne, pão, entrada e sobremesa à hora marcada e o senhor não provou o nosso divinal arroz de peixe, feito de uma forma única e gulosamente lambido.
O evento foi um sucesso de tal ordem que os responsáveis quiseram comemorar com um jantar à antiga portuguesa e fizeram-no saber ao convidado estrangeiro que declinou o convite para comemorar depois de jantar. Assim, e cumprindo o que estava estipulado, estivemos com o senhor durante o seu jantar no hotel, tendo ele tomado uma refeição completa e nós ficámo-nos por umas entradas e um copo de vinho, que ele também tomou.
Fosse do vinho, da euforia ou do que fosse, o senhor reconsiderou e decidiu acompanhar-nos!
Muito bem!
Por entre sorrisos de profunda satisfação, felicidade e pela melodia do Bairro Alto aos seus amores tão dedicado, sentámo-nos num restaurante e pedimos o jantar. Tendo em conta que tinha acabado de jantar opiparamente, o senhor surpreendeu-nos ao perguntar ao empregado o que tinham sem glúten que ele pudesse comer. Lá disseram que não era o primeiro celíaco que recebiam, explicaram o que tinham, pensando nós que ele queria qualquer coisa leve para nos acompanhar. Quando trouxeram um prato maior que os nossos, não verbalizámos a percepção do desperdício, mas todos pensámos o mesmo. Porém, e para nossa grande estupefacção, ele  limpou o prato num ápice, empurrado por um Dão que deslizava como enguias.
O companheirismo que se estabeleceu com o senhor não impedia que nos ríssemos até às lágrimas, relembrando todas as preocupações com a sua alimentação, tantos mails para trás e para a frente, quantos cuidados que, afinal, tinham nascido dele próprio, e afinal, concluímos, abades, há-os em todos os países e para lá de todas as doenças.
Que lhe tenha feito bom proveito é o que se deseja!

segunda-feira, 16 de abril de 2012

O teu rosto não será o último


Cacém, foi a primeira localidade onde morei quando viemos para Lisboa. A casa era emprestada por uns tios e os dias passavam com a pressa de procurarmos um tecto nosso, de onde não fossemos despejados quando eles regressassem de África. As hipóteses foram várias, a começar na Damaia, colónia do Sobral da Adiça. Nas redondezas existiam outras possibilidades, arrumadas quase a murro pela minha mãe, que se recusava a morar em sítios que davam pelo nome de Buraca ou Porcalhota. A Brandoa, onde também moravam vários sobralenhos, foi igualmente posta de lado na tarde em que fomos ver uma casa e a minha mãe perdeu um sapato no lamaçal que dava acesso à dita casa… acabámos por comprar um apartamento nas Mercês pelo valor de 256 contos, pouco mais de 1250 euros. Um luxo que deu muitas noites sem dormir, com a preocupação de sabermos como pagar aquela loucura.
Nas nossas andanças morámos na Reboleira e na Quinta da Barroca, nomes sem qualquer supless e que davam sempre origem a brincadeiras.
Na badana do livro O teu rosto será o último, João Ricardo Pedro afirma que nasceu na Reboleira. Parabéns por não ter dito só Amadora. Os nomes dos locais, assim como os das pessoas, têm uma história, uma história cheia que muitas vezes descamba em conjuntos de sílabas que desdenhamos, mas isso não tira valor aos locais, ou às pessoas (conheci uma Maria da Expectoração e vi o bilhete de identidade de uma Maria Sanita…).
Gostei do livro, não o amei, mas gostei bastante. Gostei particularmente da quantidade de frases que começam com E, como se o autor quisesse terminar no ponto final anterior mas a acção não o deixasse e o obrigasse a acrescentar sempre mais qualquer coisa. Gostei da visualidade da escrita, cujas palavras e frases estão ordenadas de tal forma que lemos um conjunto de imagens que se sucedem não diante dos olhos, mas algures cá dentro de nós. Gostei da veracidade e eu, que moro na Reboleira (pela segunda vez!), olho pela janela como se procurasse uma outra janela por onde espreite um jovem por ali nascido, protagonista daquela história, em todos os sentidos.
Como sou muito picuinhas ou qualquer outro nome que me queiram chamar, apontei um exame médico feito pelo protagonista, um TAC. Parece-me que na altura indicada ainda não se faziam TAC’s em Portugal. Parece-me. Neste caso, certezas só tenho uma: estarei atenta ao próximo livro de João Ricardo Pedro.

A D. Delfina

As minhas mudanças de casa em 46 anos de vida fazem inveja a muitos ciganos.
16 anos foi o período maior em que nos mantivemos na mesma residência, nas Mercês, paredes meias com a linha do comboio, único transporte público que nos levava ao fim de semana a Sintra e à semana até ao Rossio. A proximidade era tão grande que o meu pai saia de casa quando as campainhas começavam a tocar. Apressava o passo e apanhava o comboio.
A urbanização, que ainda existe, formava um quadrado de prédios verdes de três andares. Durante a nossa permanência e ainda por vários anos o arruamento chamava-se Rua A, tendo passado há meia dúzia de anos para Rua Actor Vasco Santana, se não me falha a memória.
No meio do quadrado de prédios verdes havia uma cratera que hoje seria declarada inimiga pública nº 1 e que, na altura, era o melhor parque de diversões que podia existir, cheia de restos de construções, madeiras e ferros, montes de areia, ervas de toda a qualidade e feitio e bandos de gaiatada.
Inexplicavelmente os nossos pais reclamavam daquele sítio maravilhoso, de tal forma que a Câmara terraplanou aquilo. A partir daí perdemos alguma diversão mas ganhámos outras e uma delas era o circo que ali se montava uma vez ao ano: leões e tigres, macacos e camelos, palhaços e malabaristas assentavam arraiais diante da nossa casa durante uma semana inteira.
Por baixo de nós morava a família da D. Delfina, matriarca que me fez esquecer os nomes dos outros elementos lá de casa, e se eram muitos: o marido, o filho mais velho, a neta (filha da filha mais nova) e um hóspede, um senhor brasileiro que nos punha a rir quando repetia o número de telefone e dizia com voz melodiosa, meia, meia, quando nós dizíamos seis, seis. O filho sofria de depressão crónica, fosse isso o que fosse, era grave de certeza porque não trabalhava, embora fosse reconhecido na rua como um homem muito inteligente. Como podia um homem tão inteligente não trabalhar? Qualquer coisa ali não batia certo, mas nem mesmo nas explicações de matemática e fisíco-quimíca que me dava, não consegui descobrir nada.
As explicações eram dadas na sala da D. Delfina, atulhada de roupa e móveis, em cuja mesa se arranjava um espaço para pousarmos os cadernos; ele entregava-me umas folhas brancas imaculadas onde apenas se via a letra perfeita que desenhava números e equações, contrastando com tudo o resto e que, naqueles momentos, faziam parecer a matemática como um segundo ar respirável.
Contudo, vá lá saber-se porquê, assim que chegava aos testes, toda aquela facilidade desaparecia como que por artes mágicas e eu não me lembrava de nada. Talvez para isso contribuísse o facto de ele preparar exercícios e dar-me tempo para que os fizesse; mas durante esse tempo eu contava os aranhiços que moravam no canto da sala por cima da porta, via os rolos de cotão a mexerem-se por baixo do sofá e assistia atónita à neta entrar na sala, pedindo desculpa, remexer no gigantesco monte de roupa que morava no sofá, despir-se e voltar a vestir-se, atirando a roupa usada para o monte o que me preocupava sobremaneira pois não percebia como faziam a distinção do que estava lavado e do que estava sujo.
A D. Delfina sofria do coração. Quando nos juntávamos na rua e calhava falarmos dos grandes, dos pais, dos vizinhos, dizíamos que ela tinha um relógio metido no peito a que era preciso dar corda para que não morresse. Porém, a pena e o respeito que nos incutia o relógio que tinha metido nas mamas era contrabalançado pelo facto de ser coxa, de não tomar banho e de depenar galinhas à porta da garagem num chiqueiro que nos enojava. Mas, de tudo, era a sua perna mais curta que nos dava as maiores gargalhadas, porque a imitávamos e imaginávamos situações onde ela teria que correr e não seria capaz. No fundo, tudo se resumia à crueldade infantil no seu esplendor.
Numa tarde quente a minha mãe não nos deixou ir brincar para a rua sem que o sol baixasse. Ela estava de volta da máquina da costura e nós as três costurávamos à mão, eu sempre com uma linha gigante, a que elas chamavam linha de preguiçosa.
Estavámos de mau humor pois o circo estava instalado diante dos prédios e os nossos amigos estavam a ver os animais. De três em três minutos, uma de nós corria para a janela da frente para ver quem estava na rua, quem tinha chegado, quem se tinha ido embora e voltava a dar as novidades às outras, que se picavam com as agulhas e a inveja, na varanda oposta, que dava para a linha do comboio.
A minha mãe já tinha ditado a sorte, que na nossa perspectiva era um grande azar, e lá estávamos nós a ver passar os comboios, a controlar o caminho estreito para as garagens e as hortas que ficavam por trás, como se fossemos guardas-fiscais desterrados num ermo.
Passou o Sr. Fernando, que não tinha carro mas tinha garagem, na qual instalara uma mesa de pingue-pongue onde os amigos do filho jogavam tardes inteiras. Passou a D. Delfina em direcção à horta, no seu passo de cem, cento e vinte, como lhe chamávamos, em honra de um outro coxo assim conhecido e que morava lá na aldeia. Passaram amigos nossos a correr, na brincadeira. Com um enorme regador nas mãos, para regar umas plantas quaisquer, passou a Miss Piggy, a quem assim chamávamos por ser alta e casada com um homem baixinho, a quem chamávamos Cocas, como é óbvio.
Nem o barulho da Singer verde, que ponteava e chuleava ao ritmo dos pés da minha mãe que os fazia descer e subir a uma velocidade invejável, aplacava os nossos suspiros que denunciavam uma ansiedade enorme por sairmos dali.
Qualquer coisa captava a nossa atenção, o comboio a passar, um pássaro, até a D. Delfina que regressava da horta, braçada de couves a escorregarem-lhe de debaixo dos braços.
Foi então que aconteceu. Três andares acima as linhas e as agulhas voaram com o grito de horror da D. Delfina que abriu os braços e deixou cair as couves, recuando conforme as pernas de diferentes tamanhos lhe permitiam. Ao seu encontro corria um enorme chimpanzé que, acossado pela rapaziada, acabou por embater na D. Delfina, saltando por cima de uma vedação e fugindo para o meio das hortas. Qualquer uma de nós as quatro não podia acreditar no que via!
A minha mãe desatou aos gritos largando a máquina de costura, e desceu as escadas a correr na direcção da D. Delfina que estava desmaiada no chão, sozinha. Nós ainda vimos dois homens do circo passarem a correr atrás do macaco, também eles aos gritos.
Começámos a correr escada abaixo atrás da minha mãe que nos mandou para trás para chamarmos os bombeiros. Pela primeira e última vez ligámos o número que estava ao lado do telefone para emergências, e demos a única informação possível: uma senhora foi abalroada por um chimpanzé e parece que está desmaiada mas se calhar morreu porque a senhora tem um relógio no peito a que tem que dar corda se não morre e com a queda talvez o relógio se tenha partido! Venham depressa! Ah, e é coxa!
Com a pressa quase não dava a morada e já ia desligar quando ouvi perguntar onde estava a senhora. Sabendo da localização do circo, os bombeiros vieram num apito e rapidamente se juntaram a um aglomerado difícil de imaginar: um brasileiro que tentava arranjar espaço para a senhora respirar, duas pessoas do circo vestidas de forma bizarra, uma mulher com o pescoço envolto em linhas e uma almofadinha cheia de alfinetes ao peito, várias crianças que berravam e, a poucos metros, dois homens que amansavam um macaco, com festas, conversa e bananas.
O relógio que morava no peito da D. Delfina tinha-se mesmo avariado com o susto que, não obstante, nunca se apurou se foi maior que o do chimpanzé ou não, e esteve hospitalizada alguns dias.
O circo arrumou as trouxas no dia seguinte e nessa tarde, a última, nenhum de nós se pode aproximar dos animais. Aparentemente o chimpanzé tinha fugido quando o tratador o soltara e a berraria dos miúdos o tinha assustado.
A D. Delfina regressou a casa, com um relógio novo dizíamos nós, e sem vontade de macacadas. Claro que, se até aí ela era alvo do nosso gozo, a partir desse dia e conseguindo encontrar semelhanças entre o andar da D. Delfina e o andar cambaleante dos macacos, aumentámos a preversa gozação.
Como uma espécie de castigo, o circo nunca mais ali se instalou e passámos a viver de memórias. 
Soube ontem que a D. Delfina morreu. Sem maldade, não pude deixar de sorrir, perante a lembrança de alguém que ajudou a povoar a minha infância e adolescência de tanta recordação.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Da realeza


A caminho do Metro paro num semáforo onde não me lembro de algum dia ter parado. Olho para o lado e vejo, pela primeira vez, uma loja de alcatifas. O nome, estampado na lona em letras garrafais, abana como se quisesse fugir:
‘Zorro – Rei das Alcatifas’.
E eu pergunto: Não devia ser D. Zorro?

terça-feira, 10 de abril de 2012

Ditam-se as sortes...

"... é basicamente a divulgação e fomentação da Festa Brava...". São palavras do Vereador António Gomes da Câmara Municipal de Fronteira quando fala do Fim de Semana Taurino que "... contou com todos os ganaderos do distrito de Portalegre que aderiram e responderam ao ofício que nós enviámos a cada um..."! Magnífico! O ofício, é claro...
Houve ainda o 1º Concurso Distrital de Cernelhas do Norte Alentejano... digno de um canal no MEO.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Três ao mesmo tempo

Levanto-me e tomo banho. Engulo o pequeno-almoço na cozinha e relembro o que destinei para o jantar enquanto apanho a roupa que voa no estendal e penso se é hoje que tenho aquela reunião no Museu, e aceno à vizinha velhota do prédio em frente. Viverá sozinha?
Bebo um café no café da esquina; pergunto ao Sr. Correia, o dono, como vão as netas, ao que ele responde com um largo sorriso, Bem, e floreia por ali fora.
Meto-me no carro e vou em direcção ao Metro. Paro no semáforo, dou passagem a um autocarro pensando, como sempre, que aquele conjunto de pessoas que ali vai a olhar a paisagem sem a ver, terá mais pressa que eu, são tantos, sabe-se lá para onde irão, ainda.
Estaciono o carro questionando-me pela milionésima vez sobre qual será a dificuldade de se acertar nos riscos e estacionar os carros em condições, e em condições leia-se com respeito pelos outros automobilistas e não ocupar dois lugares em vez de um. Não me posso esquecer de pagar o IMI. Terei guardado o cartão de multibanco, ontem? Já terão chegado os livros para fazermos aquela oferta? Quem terá ido ao armazém?
Meto-me no metro e no livro que ando a ler e regresso ao momento em que acordei com o toque do despertador. Sorrio, sem compreender.
Leio até uma voz mecânica dizer que a próxima estação é Marquês de Pombal e que há ligação com a Linha Amarela. Usei a Linha Amarela poucas vezes, com pena minha, pois o símbolo é um girassol, a minha flor favorita. Mas a Azul, é uma gaivota. A Vermelha é um astrolábio. A Verde, uma caravela. Quem terá tido estas ideias brilhantes? A voz mecânica fala e eu levanto-me, preparando-me para sair, pensando se já terão chegado os meus cigarros e como terão sido as férias do senhor do quiosque e da sua família, lá na sua Índia natal; gostava de lá ir e chegar e ele pensar que eu ia pedir cigarros ou um euromilhões e dizer-lhe, olhe fui à sua terra e adorei, sim, porque sei que vou adorar.
Desço a rua em direcção ao palácio onde trabalho e a cada passo vou dando bons dias, é hora de entrada e encontramo-nos quase todos, até a senhora daquele café onde eu raramente vou, mas que conheço, o senhor da garagem, vai atrasado com certeza, a senhora da loja de malas que me cumprimenta a abrir a grade de ferro.
O dia faz os últimos aquecimentos antes de começar a correr propriamente dito. Assim entrar na biblioteca ele vai-se esbaforir, transpirar e arrasar e vai querer que eu o acompanhe e eu vou fazer tudo para o percorrer, para chegar ao fim do dia com o sentimento de missão cumprida.
Sei que vou atender mil telefonemas, vou fazer bastantes, vou falar com dezenas de pessoas, escrever vários e-mails, debruçar-me sobre inúmeros assuntos e face a isto pergunto, como resposta a quem me questiona sobre o facto de estar a ler três livros em simultâneo: se ao longo de um simples dia somos envolvidos em tantas realidades, como não havemos de conseguir ler mais do que um livro em simultâneo?
Sugestão: um para os transportes, outro para a casa de banho e outro para a cama… fácil, não é? Tão simples como respirar.

Viva a Páscoa

A biblioteca foi alvo de grandes mudanças na semana que antecedeu a Páscoa. Contei com dois funcionários extra, dedicados, empenhados, maravilhados com tanto livro: os meus sobrinhos.
Levantaram-se cedo, entravam antes das nove e achavam que ainda continuava a ser cedo quando lhes dizia que vestissem os casacos para irmos para casa, em cima das sete da tarde. Ele, que precisa sempre de uma ajudinha para comer, agarrou os ossos do frango e tirou-lhes a carne com os dentes, deixando-os limpos. Inacreditável. Concluí que os problemas com o comer resolvem-se com o trabalho...
Portaram-se às mil maravilhas, apenas com um pequeno desentendimento sobre quem rasgava uma pilha de papel que não podia ser deitado fora inteiro. Resolveu-se a coisa com facilidade pois onde estava aquele, havia mais uma tonelada e, às tantas, já eles estavam fartos de tanta fartura. Quem se fartou de rir fomos nós quando ela chamou Eusébio ao nosso colega africano... ele próprio gargalhava até mais não.
Fomos ao cinema onde eu quase adormeci a ver o Lorax e voltámos para a primeira sessão dupla no mesmo dia do meu sobrinho, num Titanic onde estavam uns estranhos passageiros na fila à frente da nossa, a quem mandei calar vezes seguidas: dois chineses adolescentes, com os óculos 3D no alto da cabeça conversavam, em chinês..., como se estivessem no sofá lá de casa.
Ao nosso lado, uma senhora sozinha perguntava-se o que estavam eles ali a fazer: não viam o filme e conversavam, sabe-se lá sobre o quê... Ainda me ri quando os mandei calar e um deles me perguntou... porquê?
Com chineses ou sem eles, anseio pelas próximas férias; trabalho na Biblioteca não falta, vontade da rapaziada também não e eu, eu já tenho saudades...

Caminhadas de pensamentos

As caminhadas no paredão funcionam como o melhor dos remédios. Mesmo que me deite tarde, levanto-me cedo e começo a caminhar com um prazer que aumenta de dia para dia. Sinto-me fraca se não for.
Os ciclistas continuam a violar as regras e avançam a alta velocidade rasando as barrigas gordas que ali se espraíam, as crianças que avançam aos solavancos, os cães que andam na ponta da coleira, os pais que fotografam tudo e todos.
Se for sozinha, como acontece a maior parte das vezes, bebo um café já no final do caminho, em pé ao balcão. Se for acompanhada paro num café, sento-me e converso. Sozinha arranjo tempo para fazer exercício, ali, depois daquela curva, ao lado do quiosque da Olá, fechado a maior parte do ano. Sozinha converso ainda mais: falo comigo e ponho as conversas em dia, tantas e tantas que até me parecem impossíveis. O que fiz, o que não fiz, o que ainda tenho que fazer. Penso nas pessoas que me rodeiam, nas pessoas de quem gosto, naquelas que tenho que aturar. Penso nas atitudes, minhas e alheias, e tento encontrar razões para certos comportamentos. Bem dou voltas ao pensamento, mas nem sempre encontro o que procuro. Tento arranjar desculpas para certas pessoas... verifico que se esgotaram. Gostava de ter coragem para pensar só em mim ou, pelo menos, para também pensar em mim. Sinto que nas caminhadas de fim-de-semana aproximo-me desse anseio, mas a segunda-feira espreita, como se sorrisse com sacanice.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Mensagem para um taxista

Senhor taxista que fez hoje o percurso das Janelas Verdes até ao Marquês de Pombal
Apanhei o seu táxi com duas colegas hoje, antes do almoço, à porta do Museu Nacional de Arte Antiga. Lembra-se?
Vínhamos muito bem dispostas, a rir e a conversar, a falar de viagens e de tempos livres.
Paguei, desejei-lhe um bom dia e, de adianto, também um bom fim-de-semana.
Acontece que deixei uma coisa importante no seu carro e preciso falar-lhe.
Pode entrar em contacto comigo?
Obrigada, fico a aguardar.

terça-feira, 27 de março de 2012

Tratados e Pazes

Decididamente eu andava com algumas ideias... sobre o quê? Pois, não sei...
Este texto está escrito numa folha com linhas (que já não uso), a lápis e já meio esbatido.

Diz-se que antigamente o emissário duma notícia desconhecia o seu teor até a mesma ser lida pelo destinatário: se continuasse vivo era sinal que a notícia era boa, caso contrário esperava-o a morte.
As Relações Internacionais mudaram radicalmente ao longo dos séculos e hoje os emissários são diplomatas aceites até em países cujos relacionamentos são instáveis, por força da procura de equilíbrios que, não sendo alcançados, podem levar a conflitos diplomáticos que, à sua maneira, também são uma guerra.
Se as Relações Internacionais visam o estudo dos relacionamentos políticos, económicos e sociais entre países, os fenómenos religiosos não estão menos ligados a toda esta dinâmica, quer na actualidade ou na Antiguidade: a um convidado muçulmano só será servida carne de porco se o quisermos afrontar, não se pede a um judeu para trabalhar ao sábado, respeita-se o Domingo como dia santo a um católico.
As Missões Diplomáticas permanentes em países estrangeiros foram uma necessidade recorrente da Paz de Vestefália, nome que se conceituou dar a um conjunto de tratados e documentos legais que fizeram nascer o chamado Sistema Internacional e respeitar princípios como a soberania estatal ou o Estado nação.
Cansados duma lista de conflitos generalizados, com todos os aspectos negativos e prejudicais que englobavam, procurou-se um Equilíbrio de Poder, objectivo que se veio alcançando ao longo dos séculos com a Paz de Vestefália, em 1648, o Congresso de Viena, em 1815, e com o Tratado de Versalhes em 1919, momentos triangulares da busca duma paz duradoura.
Assim, embora os relacionamentos entre estados, nações, províncias, reinos, impérios, regiões, ou mais formas que se queiram acrescentar, existam desde a existência do Homem, considera-se que o nascimento das Relações Internacionais, como são encaradas hoje, nasceu com a Paz de Vestefália.
Actualmente fala-se muito em conflitos diplomáticos para designar a desagradabilidade de um país relativamente a outro(s) mas sem que entrem em conflito armado, ou seja, são desentendimentos que se espera vir a resolver sentados a uma mesa, símbolo da partilha e da paz, aqui também sinónimo da esperança numa resolução pacífica da situação. Tempos houve em que não se agia desta forma e não nos referimos a períodos de guerra, altura em que os códigos, valores e princípios parecem ser ainda mais esquecidos que habitualmente. 

Os animais na História


Quando José Saramago escreveu A Viagem do Elefante houve quem pensasse que a história lhe tinha sido sugerida pela imaginação, mas não foi. O escritor baseou-se em acontecimentos verídicos, naquilo que o historiador Jorge Rodrigues chamou ‘A incrível história de Salomão, o elefante-diplomata de D. João III que viajou da Índia a Viena de Aústria’, no seu livro Salomão: o elefante diplomata, editado pelo Centro Atlântico. O elefante foi um presente bizarro mas muito apreciado e que ajudou a consolidar as relações do rei português com o seu primo austríaco.
Em 1515 D. Manuel I recebeu de um príncipe indiano um rinoceronte, que decidiu oferecer ao Papa Leão X. Os rinocerontes eram animais raríssimos aos olhos dos ocidentais e apesar de o Papa nunca ter recebido o animal, pois o navio que o transportava naufragou, o reino de Portugal marcou pontos aos olhos do papado.
Diga-se de passagem que este rinoceronte teve um importantíssimo papel no assumir da ilustração como instrumento de conhecimento científico, pois foi desenhado por um desconhecido, mas desse desenho foi feita uma gravura por um dos maiores artistas renascentistas, o alemão Albrecht Dürer, que correu mundo.
Por outro lado, na ficção, o norte-americano Lawrence Norfolk escreveu a história do animal num romance célebre, O Rinoceronte do Papa.
Colombo, Pedro Álvares Cabral, Bartolomeu de Las Casas, entre muitos outros brindaram reis, Papas e demais senhores com papagaios, araras, iguanas, papa-formigas, anacondas, tatus, saguis, tucanos, periquitos, macacos e jacarés.
O exotismo dos animais recém-descobertos, oriundos do Novo Mundo, era aproveitado para ajudar a estabelecer e consolidar relações com diferentes reinos, numa época em que o ouro e o marfim, as especiarias e as sedas traziam valores monetários àquilo que seria a Europa e cujos governantes davam valor a prendas vivas, especialmente, se fossem originais.
Noutra vertente, o cartaginês Aníbal, considerado por muitos como o maior dos generais, usou elefantes para passar os Alpes na dupla perspectiva de serem animais possantes e aos quais havia um medo natural.

Agora pergunto: para que raio terei eu escrito isto? Estes parágrafos estavam nos meus papéis, com a minha letra, mas não faço ideia por que razão me debrucei sobre os animais na história. Seria vontade de inverter as coisas num dia em que me fartei de histórias de animais? Fosse o que fosse, não estava terminado porque as últimas palavras eram ‘Mais recentemente os animais também…’
Tenho que voltar a tomar a medicação…

Rumo ao Farol


As mãos de Virgínia Woolf produziram a orientação da minha vida. Rumo ao Farol podia ser o meu lema, uma vez que um dos meus sonhos é morar num farol.
Ter o mar como jardim, um barco como veículo, muitas escadas para chegar ao quarto e a porta da entrada aberta só para os intrépidos.
Poder ler ao lado da lâmpada num dia de sol é uma imagem que me alimenta. Inundar-me com a espuma das ondas altas que esbarram na parede única do farol, ver o horizonte até muito para lá do além na varanda com vista para o céu, ou jardinar na pequena alameda de acesso ao farol são pensamentos igualmente prazenteiros.
Por ora tenho livros sobre faróis – ganhei um novo exemplar de Rumo ao Farol, há cerca de duas semanas, obrigada! – tenho postais que me chegam de várias partes do mundo, quadros, alguns dos quais em cima da minha cama, espanta espíritos, roupa com faróis estampados, fotografias e imagens diversas.
Falta-me um a sério, mas não mudo de rumo. Quem espera sempre alcança? 

Os óculos de sol dela


Já arranjei muito bem
Tudo quanto convém
P'ra praia levar
O pente, o espelho, o baton
E o creme muito bom
P'ra me bronzear
Estas linhas fazem supor um dia de praia em grande! Bem sei que também devia levar, no mínimo, um pente para dar ordem a esta cabeleira, mas não me lembro de algum dia o ter feito; ainda assim, e tirando o creme para bronzear, que nos remete para épocas em que não se sabia o que era o buraco do ozono, não acho nada estranho.

Tenho o meu rádio portátil
E o bikini encarnado
Também está no meu rol
E como é bom de ver
Não podia esquecer
Os meus óculos de sol
Ora bem… aqui, definitivamente estamos no século passado. Rádio portátil? Oh minha senhora, a bem da eliminação da poluição sonora, arranje por favor uns auriculares e não obrigue os outros a partilharem a sua música.

Que levo p'ra chorar uuuuhuh
Sem ninguém ver
P'ra não dar uuuuhuh
A perceber
P'ra ocultar uuuuhuh
O meu sofrer
Pois eu sei que te hei-de encontrar
Talvez deitado à beira-mar
Com outra ao lado
E eu vou passar
A tarde a chorar
Bem… mas que grande surpresa! Então vai ser uma tarde de choro? Está enganada! Mesmo que o encontre, assim que ele vir o rádio portátil, faz-lhe o favor de se afastar e o seu problema fica resolvido!

Já pensei não sair
Mas aonde é que eu hei-de ir
Com este calor?
Ao cinema! Costumam ter ar condicionado, assim como as galerias de exposições que, estando assim tanto calor, estão vazias com certeza. Vá a uma matinée, visite um antiquário, absorva cultura, compre umas peças!

O que é que eu hei-de fazer
P'ra não ter que te ver
Com o teu novo amor?
Se teimar em ir à praia escolha a Costa da Caparica, que ele é gajo para ficar em Carcavelos. O que não falta por aqui são praias, não seja parva e faça-se à vida.

Ver-te-ei com certeza
Mas eu peço à tristeza
Um pouco de controle
Natércia, você é teimosa, hem? E masoquista! Desfaça-se é do rádio portátil, vista o bikini encarnado, peça ajuda ao jeitoso mais próximo para pôr o tal creme bronzeador, e dê uns bons mergulhos. Olhe, descontrole-se!

E pelo sim pelo não
Eu vou ter sempre à mão os meus óculos de sol
Vou chorar
Uuuuh uh
Vou sofrer
Uuuuh uh
Vou chorar
Uuuuh uh
Teimosa, é pouco! Oh Tessinha, deixe-se de birras, de choros e sofrimentos. Como um gelado! Uma bola de Berlim com muito creme! Um pacote de batatas fritas, Ti-Ti não queira outras!
Deixe o homem sossegado! A bem da verdade, acha que alguém quer ficar com uma chorona que leva um rádio portátil para a praia? 

segunda-feira, 26 de março de 2012

Ser feliz é...

A felicidade está encerrada no final das estórias de encantar. Foram felizes para sempre permite-nos saber da felicidade alheia, mas a nossa participação resume-se a ler e reler ou ouvir essa frase encantada, que não é nossa.
Partindo do principio que o que um homem faz, outro também consegue fazer, e se o e foram felizes para sempre é de alguém (acreditamos que uma fada ou um príncipe encantado são alguém), então há ali uma réstia de esperança que um dia se aplique a nós. Até lá, temos momentos felizes e em cada um revivemos cada sopro da vida.
Na quarta-feira fiz uma maratona no trabalho, e depois na estrada, para assistir a uma sessão de poesia onde os meus sobrinhos iam ler. Ela, com sete anos, usou palavras de outrem, lançou a voz e fez-se ouvir. Ele, com 9 anos, usou as suas próprias palavras, num poema chamado A Língua, e um pouco para dentro, partilhou connosco a sua criação.
Enquanto durou eu fui feliz para sempre.

sexta-feira, 23 de março de 2012

Intolerância (?)

Ontem acusaram-me de andar muito nervosa. Eu li intolerante. É verdade, não nego.
Se o trabalho fosse um par de sapatos eu estava a calçar agora um 47 ou 48, quando um 38 já me fica largo.
As pessoas que trabalham comigo sabem que fico a pisar brasas em alturas de maior responsabilidade e que lido muito mal com falhas, erros, esquecimentos, enganos, o que for. Mas também sabem que eu não trabalho com qualquer um… escolho quem considero que é capaz de fazer, e daí ser acusada frequentemente de ser incapaz de descentralizar. Eu sou capaz de descentralizar se confiar, caso contrário, deixo tudo comigo.
Fico sem palavras com a ligeireza como certos erros são encarados e ajo ao sabor da fúria quando começo a ter receio de confiar em quem confio. Por vezes roço a obsessão com a mania das correcções, verificações e reverificações e fico a tremer com atrasos, faltas de cumprimento de prazos e quase entro em convulsões quando me respondem que podemos fazer de determinada maneira porque ninguém vai ficar a saber (nós não somos alguém?); toda a gente faz assim (eu sou Aquário, não Carneiro…) e outras respostas semelhantes.
O que mais me põe fora de mim é a culpa nunca ser da pessoa a quem foi atribuída a tarefa ou missão! Há sempre alguém, um alien talvez, que interfere na execução e perturba o trabalho.
Há uma injustiça em toda esta questão, uma injustiça com duas caras, como Janus. Por um lado, há quem pense que sou injusta pois a minha veia de exigência não é igual para todos. Por outro lado, sou exigente apenas com quem sei que vale a pena. Com outros não me dou ao trabalho, porque a exigência dá muito trabalho, acreditem ou não.
Quando me fazem uma pergunta ou colocam um problema tenho tendência a não responder de imediato se considerar que a pessoa que a fez consegue lá chegar sozinha; tento desenvolver uma conversa, numa espécie de maiêutica, para provar que a pessoa sabe o que pergunta. Mas nos últimos tempos isto raramente acaba bem e perguntam-me logo a seguir porque não me limito a responder…
Fico sem saber o que fazer, pois acho que o caminho certo é deixar que sejam as próprias pessoas a desbravar o pensamento, e invisto tempo nesta acção da qual, no fim de contas, resultam contas mal feitas.
Mesmo sabendo disto, pressiono para alargar limites, peço mais e mais, sendo de uma exigência sem tamanho como dizem, mas continuo a agir da mesma forma por uma simples razão: sei quem pode dar e quem não tem para dar. Destes últimos espero o básico, dos primeiros espero tudo… até acharem que ando muito nervosa…

terça-feira, 20 de março de 2012

Autor desconheçido

Uma das minhas tarefas é fazer a verificação de originalidade de dissertações e teses. Acabo de ler um trabalho onde os desconheçidos e desconheçidas são tantos que podiam fundar uma associação... e ficavam todos a conheser-se.
Hera tão jiro...

segunda-feira, 19 de março de 2012

Downton Abbey, ou a perfeição em duas palavras

Em Downton Abbey é difícil destacar um momento que seja superior. Atrevo-me a sugerir as tiradas de Mrs. Grantham como o ponto alto duma cadeia montanhosa bem acima do ar respirável em matéria de séries de televisão.
Quando a senhora pergunta, petrificada, o que são fins-de-semana, como se a voz se lhe escapasse sem querer, em resposta à declaração do intruso que manifestou ter tempo apenas aos sábados e domingos, é-nos dado ver o interior da cultura da elite da época. Magistral.
Ainda a mesma personagem afirma que só a um estrangeiro (leia-se, não inglês) lhe passaria pela cabeça morrer em casa alheia, pior ainda, no lar de pessoas que mal conhecia.
Não, o objectivo não é fazer-nos rir mas, antes pelo contrário, mergulharmos na própria História.
Se Downton Abbey fosse um livro teria duas colunas lado a lado: uma para a visão dos senhores, outra para a perspectiva dos empregados, ambas sobre a mesma coisa, ambas muito diferentes.
A fotografia da série ajuda imenso a tornarmo-nos cúmplices daquela acção em dois planos – é fácil e quase inato, dizer plano superior e inferior, tentarei fugir a este facilitismo mesmo em pensamento. Há planos de pormenor magníficos, há imagens que sozinhas contam toda uma história ou, melhor ainda, revelam parte dela, para que nos questionemos e sejamos incapazes de abandonar a televisão.
Mudar de canal está fora de questão pela simples razão que nem nos ocorre que exista outra coisa para além do que estamos a ver e, obrigada, obrigada, nem sequer há intervalo.
O cerne da história tem origem na posição subalterna das mulheres. Não me vou deter nesta questão, entendendo que se o fizesse estaria a tentar transpor o presente para o passado. Não, limito-me a ver, a espreitar como quem viaja no tempo, um trabalho soberbo de realização, de cenários e diálogos, de direcção de actores, onde nada é deixado ao acaso e tudo é perfeito. Tudo é perfeito porque era assim, foi assim, não se discute se devia ter sido assim.
Quando o mordomo afirma que um castiçal tem um risco e lhe respondem que é tão pequeno que ninguém vê, ele argumenta com a verdade mais básica: ‘Basta eu saber que ele existe’. Irrepreensível.

terça-feira, 13 de março de 2012

A matança dos livros

Só agora me veio parar às mãos a História Universal da Destruição dos Livros, de Fernando Báez, de 2004, e editado em Portugal em 2009 pela Texto.
A cada página há que conter lágrimas e raivas e, acima de tudo, pensar o que fazer para parar com a carnificina. Não se sabe,mas acumula-se a raiva, que vai crescendo a cada capítulo do livro.
A história do livro é a história da maldade, da intolerância, da ignorância e do racismo. É a história do medo.
Um livro assim impõe ainda mais respeito que outro sobre diferente tema. Um livro assim merece ser visto com solenidade. Um livro assim tem que ser tratado como ícone, como alerta para o desaparecimento propositado de livros, com tudo o que significam.
Assim, esperava-se uma edição ainda mais cuidada que o normal, uma leitura mais intensa que resultaria numa tradução limpa, a que a revisão limaria qualquer pontiagudo.
Aguardo que o livro me chegue na língua original para confirmar se a Texto Editora, a tradutora, Maria da Luz Veloso e o revisor Luís Rodrigues trataram o sangue da humanidade que escorre naquelas páginas com ligeireza, dando a ler frases frágeis, meias incompletas, não rigorosas e medíocres.
Aguardo, para ver se a Bagdad da contra-capa que passou a Bagdade no interior, foi uma gralha. Perfeitamente evitável, diga-se de passagem.
Ainda assim, a ler, sem dúvida, para que todos saibamos o que nunca se deve fazer.

segunda-feira, 12 de março de 2012

A vida real

Acompanho uma série televisiva que num dos últimos episódios mostrava um conjunto de cenas onde uma das protagonistas se desfazia para devolver uma pomba ao bando.
A ideia da 'pomba', a menção, a visão, seja o que for, leva-me logo ao Max, daí ao Picasso e daí a um novelo de paz que, vá lá saber porquê, faz sempre este caminho e me desagrada.
Sábado de manhã à entrada do meu local de trabalho, desacelerei o passo para ver uma senhora dar umas migalhas a um pombo, que não sei se era pombo ou pomba, mas pombo sempre é melhor.
Lembrei-me da cena da televisão da noite anterior e como que fui acordada no momento em que o pombo debica o pão e ela o agarra e lhe torce o pescoço. A vida real é assim.

terça-feira, 6 de março de 2012

O sentido do fim


Não tenho qualquer curiosidade em especial em saber quem matou o Kennedy, mas gostava de ler o diário de Adrian.
Está a ouvir, senhor Julian Barnes?
Eu percebi que não mo ia dar a ler quando lhe arrancou aquela página cheia de equações, seu manhoso… mas mesmo assim, vá lá saber porquê, continuei a ler.
Fique a saber que a informação que presta abre a nossa curiosidade, coscuvilhice, chame-lhe o que queira, e depois, queimar assim o diário…? Dar-nos uma perspectiva real da vida? Cruzar a nossa cusquice com a atitude que se tomaria se fossemos a protagonista da história?
Como se fossemos… mas não somos, ficamo-nos por espectadores e os espectadores perdem sempre qualquer coisa. Gostei. 
Edição da Quetzal, 2011, foi vencedor do Man Booker Prize no mesmo ano.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Bonecas

As escadas rolantes rolam cegas aos passos que passam. Deixo-me levar segura do destino.
Duas vozes atrás de mim falam de bonecas de porcelana.
- Tenho dúzias… nem queiras saber…
- Nunca tive bonecas dessas
- Tenho imensos bibelots, mas as bonecas são as minhas favoritas
- Eu não gosto de ter os móveis cheios de coisas, custa mais a limpar
- Eu não me importo, passo horas a limpá-las e além disso o meu marido também as adora
- O meu marido adora-me a mim e eu passo horas a adorá-lo a ele.
Voltei-me para trás e sorri-lhe, num sorriso invejoso.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

A desilusão de Hugo


Sacha Baron Cohen é Crabtree, o polícia de Alô, Alô.
Asa Butterfield, Hugo, é Quasimodo que não se cansa das vistas sobre a cidade de Paris e quer ser Harold Lloyd ou Chaplin em Tempos Modernos.
George Meliés é Martin Scorsese, himself, e o filme é uma birra do realizador, num acto de comiseração por si próprio, ó p’ra mim, já fiz nascer taxistas e gangues em Nova Iorque!
Das referências às colagens vai toda uma falta de imaginação e criatividade que, mesmo assim, o lobbie de Hollywood premiou, como quem dá uma fatiazinha de pudim ao ancião lá de casa.
A acção é parada e paradinha, abrem-se bocas ao longo da sala na plateia e não se percebe quem inventou o título com uma invenção não inventada.
Ben Kingsley assume os passos dum fantasma, sombra esbatida da sua capacidade de representação. A personagem de Rene Tabard entra na narrativa a martelo, da mesma forma que entraria a roupa interior numa escultura em pedra já terminada.
A magia do cinema aqui é substituída pelo tédio do cinema: as boas intenções não têm espaço por não terem corpo e a apologia que se quer fazer (ao cinema ou a si próprio?) não ganha músculo nem osso.
O eterno Drácula, que já tinha sido o mauzão Saruman, veste-se de Bibliotecário bonzinho, na única ligação com sentido que a substância do filme consegue fazer, criando invisibilidades bem visíveis, cruzamentos subtis e ironias.
Os efeitos especiais das subidas e descidas de Hugo no meio dos mecanismos dos relógios, as imagens da biblioteca ou o cemitério à porta de casa de Meliés estão bem esgalhados, mas um filme não é feito de dois de três momentos, caso contrário fica mais órfão que o pobre Hugo que, enquanto filme, está cheio de osteoporose.   

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Dama de Ferro


No cinema há encanto, deslumbramento, lágrimas e gargalhadas. A tela é uma farmácia de emoções com mensagens, paisagens, imagens e tudo o que se queira, literalmente tudo.
Há argumentos e efeitos especiais, guarda-roupa e maquilhagens que nos trazem o passado, o presente, o futuro, a imaginação feita realidade, a invenção, a descoberta, o homem das cavernas e o futurista.
Há pontos de vista dados pelos realizadores, há grandes planos e cenas impossíveis de repetir tal é a sua grandeza. E há interpretações.
Quando consideramos Christoph Waltz um portento que consegue reunir numa só personagem a complexidade da natureza humana em Inglourious Basterds, ele é suplantado por Christian Bale cujos poros da pele respiram a encarnação perfeita que fez em The Fighter.
Mas quando se pensa que o atleta já superou todos as metas, quando se pensa que já não há recordes possíveis a bater, tal a altura do desafio, somos confrontados com o nosso próprio silêncio perante o inimaginável.
Para os adeptos dos prémios, há interpretações para as quais devia ser criado um novo tipo de distinção, celestial, augusta, pois acima de Oscares, Baftas, Ursos, Leões, Globos, Grammys, Emmys, Césares, Palmas e de qualquer tipo de premio ou medalha está o Nirvana, perante o qual nos ajoelhamos sem necessidade de dizer seja o que for. 
E o Nirvana chama-se Meryl Streep. 

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

O preço da morte


Vi o programa Olhos nos Olhos. Foi um belíssimo exemplo de como os lobbies funcionam bem. 
Não se mencionou se a Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária foi convidada e declinou o convite ou se nem foi sequer convidada. Bateu-se na tecla do costume-se, banalidades, caça à multa, álcool, etc. 
Aquilo que podia ter sido um excelente programa de verdadeiro jornalismo e informação mostrou-se uma sucessão de lugares comuns, já do conhecimento dos telespectadores, o que levou a que muitos se congratulassem com o facto de na televisão se dizer aquilo que já se sabe. É a Casa dos Segredos reformulada.
Falou-se em mortes, pois claro, em prevenção, em cartas de condução tiradas a troco de influências, em escolas que não dão aulas, mas recebem o dinheiro, com certeza. Sobre este aspecto o Dr. Carlos Barbosa disse que contra ele falava. Ora não é bonito nem fica bem falarmos contra nós: bonito e sério é podermos dizer que nos distinguimos dos outros nas atitudes e comportamentos, coisa que não se verificou, antes pelo contrário: existe a onda e deixamo-nos ir, embora saibamos que vamos em sentido proibido. E mesmo assim afirmamo-lo na televisão! Desta forma deixa-se a credibilidade numa rua sem saída…
Depois há a questão dos cintos: há quem os use e quem não os ponha e sorria dizendo isso mesmo, brincando às escondidas com a seriedade que, aparentemente, leva de braço dado.
Não se ouviu falar do custo social dos acidentes. Ninguém se sentiu abanado em momento algum pelo facto de toda a sociedade estar envolvida nesses mesmos acidentes por via da utilização de hospitais, das estradas, dos tribunais, das ambulâncias, dos funerais, dos advogados e peritos, das polícias e das entidades fiscalizadoras, que me conjunto perfazem o preço da morte, uma vez que o preço da dor não é calculável.
O Dr. Medina Carreira encontrou o Dr. Carlos Barbosa num restaurante e convidou-o para o programa. Espero que pelo menos a refeição tenha sido boa.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Desculpa...

A meio da tarde o telefone tocou em ruído de dor, tristeza e dívida.
A mãe de uma amiga de vida acabava de ser sepultada e ela ligou-me trespassada pela solidão da perda da mãe que, em simultâneo, era a sua melhor amiga. Trocámos lágrimas. Tentei abafar o tom de voz com que lhe perguntei porque razão não me tinha dito nada, esconder a raiva da minha inutilidade. Ela alegou com as complicações da minha vida e que não queria que me pusesse a caminho do Algarve, coisa que sabia que eu faria no minuto em que soubesse do estado da mãe dela.
Doeu-me profundamente não ter estado com ela; fiquei numa tristeza profunda e sinto que a minha dívida para com a M. aumentou. Aumentou porque ela me poupou, aumentou porque não estive presente, aumentou porque me sinto mal até de pensar que enquanto ela andava com o coração estilhaçado eu, ignorante, dei garantidamente umas boas gargalhadas.
O que tem uma coisa a ver com a outra, se eu não sabia? Tem tudo: ela é minha amiga e estava mal e eu não fiz nada. Nas contas do universo não há motivos, há acções. E eu fiquei parada.
A voz dela a dizer-me que se sentia sozinha, que tinha acabado de chegar a casa depois do funeral e que precisava de ouvir a minha voz, deixou-me de rastos, enlameada em lágrimas sólidas.
Penso nisto e, inevitavelmente, revejo algumas supostas amizades, pessoas que se cruzaram comigo ao longo da vida. Mais, penso que há uma qualquer questão genética que se atravessa no nosso caminho. Explico o nosso:
Há muitos anos atrás os meus pais ofereceram-se para albergar a filha dum amigo lá da terra cujo futuro na aldeia não existia. A rapariga, Eva, veio para nossa casa, inscreveu-se numa escola de dactilografia, arranjou emprego num supermercado, começou a namorar, fez aumentar o número das nossas visitas à aldeia, para matar saudades da família. A vida corria com normalidade, ela marcou o casamento, que devia ocorrer na aldeia e, semanas antes, foi para lá preparar a boda, deixando em Lisboa uma casa já arrendada e pronta para virem morar, casa essa que os meus ajudaram a arranjar e ajudaram a pagar. Surpresa das surpresas, não convidou os meus pais para o casamento.
O pai dela deslocou-se a Lisboa de propósito, chorando desculpas, e dizendo não saber a razão do sucedido pois, ao longo dos anos, ela nunca manifestara um desagrado para connosco, nunca mencionara um mal-estar ou fosse o que fosse. Agora, apenas dizia que não nos queria convidar e o pai, qual Egas Moniz, ali estava em pranto, sentindo que tinha que agradecer o que fizeram por ela e pedindo desculpa por uma atitude que ainda hoje enferma de explicação. Não tenho a certeza, mas penso que o pai não foi ao casamento como forma de manifestar a sua posição pelo comportamento irracional da filha, numa altura em que a honra dum pai de família era mais visível que um vestido de noiva com cauda.
Anos mais tarde, era eu adolescente, embirrava solenemente com as amigas da minha prima lá da aldeia, que se interessavam por maquilhagens, vestidos e saltos altos, enquanto eu mergulhava num livro e só com dificuldade é que me tiravam de lá. Apenas uma daquelas amigas me merecia uma conversa e tempo que não dava como perdido. Ela era meia dúzia de anos mais velha que eu e no dia que me disse que adorava morar em Lisboa eu abri-lhe a porta da nossa casa, sem informar os meus pais, nem a minha prima.
Achei que havia uma dose de aventura em, quando estávamos a pôr a bagagem no velho Ford Escort, dizer que ela vinha connosco e metê-la no carro. Na altura não se contabilizavam passageiros e os meus pais fizeram a viagem até Lisboa quase em silêncio, com a minha irmã, a minha prima, que já vivia connosco, eu e a nova inquilina no banco de atrás. Garanti-lhes que seria por uns dias, só até eu lhe arranjar emprego e uma casa para ela morar.
Não posso dizer que os meus pais estivessem furiosos ou nem mesmo descontentes, estavam aborrecidos por eu não ter dito nada e terem sido apanhados de surpresa.
Ela acabou por ficar meses na nossa casa, embora na semana seguinte já estivesse a trabalhar, depois de eu me ter desengonçado para lhe arranjar qualquer coisa para fazer. O trabalho era numa fábrica de bonecos de peluche que funcionava ilegalmente a menos de um quilómetro da nossa casa, mas não pagavam mal. Ainda não tinham passado seis meses e já ela morava num quarto arrendado, que consistia num sótão maravilhoso que hoje custaria uma fortuna. Apesar disso, e estando nós ali de vizinhas, eram mais as noites que ela ficava em nossa casa do que as noites que ficava no quarto alugado.
Porém, o esplendor da capital levava-a com frequência a fazer gastos bem acima das suas possibilidades e lá estavam os meus pais a emprestarem-lhe dinheiro e a darem-lhe conselhos.
Começou a namorar com um rapaz que, dizia-se, andava metido na droga. Na verdade, não era assim, as pessoas apenas não aceitavam bem quem tinha diferentes hábitos de vestuário e poses um tanto ou quanto futuristas e acabavam por meter tudo no mesmo saco. Mesmo com a fama que tinha o meu pai recebeu-o inúmeras vezes na nossa casa, dando-lhe almoços e jantares. Ao longo dos anos, mudou de emprego várias vezes, sempre para melhor, mantivemos um relacionamento amigo, recebendo a família dela na nossa casa quando a vinham visitar, pois o sótão era maravilhoso, mas não espaçoso.
Nunca percebi porquê, mas aconteceu exactamente a mesma coisa que tinha acontecido com a Eva: foi casar na aldeia e não convidou vivalma da nossa família, nem a minha prima, sua amiga desde sempre. Nunca mais nos falámos. Encontramo-nos muito de vez em quando nas festas da aldeia, mas é como se não nos conhecêssemos.
Foi a primeira vez que uma amiga me partiu o coração.
Muitos anos mais tarde, já a trabalhar, e depois de anos de convívio e amizade diários, voltei a sentir a mesma dor: a dor de constatar que a amizade não era verdadeira, mas antes falsa, hipócrita e ciumenta.
Depois disso, mais recentemente, fui apelidada de mentirosa por ser honesta em assunto delicado, numa atitude que me chocou e me fez dar ainda mais valor às amizades que tenho como sólidas, indestrutíveis, à prova de bala. O último caso atingiu uma gravidade da qual inicialmente não me apercebi, pois uma amiga comum, deixou literalmente de me falar, embora me escrevesse a dizer que tinha saudades minhas. Imagino as conversas que terão acontecido…
À excepção da Eva, cujo episódio aconteceu comigo muito criança, procurei todas as pessoas envolvidas, sem excepção, perguntando-lhes a razão dos seus comportamentos. Pude agir assim por ter a consciência tranquila e descansada, embora envolta em interrogações. Quem tivesse telhados de vidro, não o faria.
Nunca obtive resposta à altura, de algumas não obtive sequer resposta nem por telefone, nem por escrito, o que aumenta a hipocrisia do envio de mensagens a anunciar as saudades que sentem. Devia ter sido engano…
Não consigo deixar de pensar em todo o tempo que gastei com estas pessoas, no desperdício acumulado.
Entendo os amigos verdadeiros como grilos falantes que devem apoiar, é claro, mas também devem avisar, aconselhar, alertar e dar na cabeça quando merecemos. Aquela conversa de eu não me meto na vida dos meus amigos, comigo não serve: os meus amigos fazem parte da minha vida, logo, eu quero ouvi-los, quero que me abram novos caminhos, que me mostrem perspectivas que eu não estou a alcançar, curvas da vida que não estou a ver, que me iluminem o caminho e que sejam duros comigo se assim o entenderem. Os amigos verdadeiros são os pais que nós escolhemos, aqueles de quem queremos ouvir a opinião, o conselho, cuja voz nos acalma e ajuda.
Se forem amigos só para fazer farras, só para dizerem o que nós queremos ouvir, sempre a dizer que somos os maiores, que todas as nossas atitudes estão correctíssimas, então temos que lhes dar outro nome, não Amigo.
Conheço a M. quase há vinte anos. Quase há vinte anos que a considero uma das pessoas mais fortes que existem, mais determinadas. Quase há vinte anos que me sinto segura com a companhia dela, ou, quanto mais não seja, com a sua lembrança. Quase há vinte anos que me ouve, que com ela partilho alegrias e tristezas. Há quase vinte anos que me confronta com realidades que por vezes me são penosas, mas ela tem a coragem de chamar os bois pelos nomes. Há quase vinte anos que me doem as dores dela e sei que ela sofre com as minhas. Há quase vinte anos que ela me dá tanto de si que me sinto sempre em dívida para com ela.
Por tudo isto e muito mais sinto-me um traste por ter dado o mesmo tratamento a outras pessoas, chamando-lhes amigas. Sinto-me uma idiota total por ter parado dois minutos a pensar, quando me disseram eu dei-te tudo, tentando alinhar esse tudo que, comparado com a mera presença da M. na minha vida, não é nada.
Sinto-me como um cigarro na mão de certas pessoas: aspiram, queimam e deitam fora. Enquanto a M. é a planta do tabaco em si, sempre antes de ser colhida, verde e bela, resplandecente e cheia de vida, sinónimo de vício sim, mas vício bom, vício que conforta, vício que aquece, sem sombra de cinza.
A mãe da M. morreu e eu não estive com ela. Só me apetece chorar de raiva e, por ora, não me consigo perdoar.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Com um brilhozinho nos olhos

O meu apetite por gelados é permanente. Com muita frequência compro um no quiosque dentro da estação de metro e vou a comê-lo durante o percurso.
Com o frio que se tem feito sentir nos últimos dias, de pauzinho na mão, chamo mais a atenção do que se fosse vestida de gladiador.
As reacções variam dos oito aos oitenta: os miúdos lambem-se a olharem-me, os jovens deitam miradas invejosas com o rabo do olho e as pessoas mais velhas fixam-me como se fosse maluquinha e algumas resmungam palavras imperceptíveis na audição mas perfeitamente clara na intenção.
Ontem, a meio das lambidelas num suculento magnum de amêndoas, sentou-se ao meu lado e diante de mim, uma família: pai, mãe e filho, com cerca de 8 ou 9 anos.
O garoto, mesmo à minha frente, não tirava os olhos do gelado. A mãe fez-lhe sinal para não ser tão evidente e para desviar o olhar. O miúdo ainda começou a contar as paragens que faltavam para saírem e a ler os nomes das estações, mas os olhos fugiam-lhe para o chocolate com pedacinhos de amêndoa e a boca dava sinais inequívocos que comeria o gelado numa só dentada se o deixassem. De repente disse:
- Mãe, ficamos doentes se comermos gelados no Inverno, não é? Ela vai ficar doente!
A mãe olhou-me a sorrir, como quem pede desculpa e virou-se para o garoto com cara de quem lhe ia dizer qualquer coisa, quando ele acrescentou com ar de confidência:
- Não te preocupes, os portugueses não comem gelados agora, ela é estrangeira de certeza e não percebe…
Sorri e disse-lhe que adorava gelados e só tinha pena de naquele momento não lhe poder dar um a ele. O garoto arregalou os olhos perante a minha fluência em português, os pais riram-se e a mãe incentivou-o a pedir desculpa e lá nos entretivemos em debate sobre o motivo pelo qual ele devia pedir desculpa, nenhum na minha perspectiva.
O rapaz perguntou-me o nome, a idade e o que fazia e eu fui respondendo no meio de grandes sorrisos, embora manifestasse a minha tristeza por ele não saber o que é uma bibliotecária. Ainda assim, acho que fiz um amigo e como diz o Sérgio, coisa mais preciosa no mundo não há.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Conversor de sensibilidade, precisa-se

Já passa das sete da tarde na estação de metro do Marquês de Pombal. A senhora ostenta uma pele fofa e flutuante em volta do pescoço, cabelo lilás e aproximadamente 80 anos. Tem as rugas ainda mais vincadas que o costume e pergunta ao segurança do Metro se ele ‘é dali’.
Com cara de quem teme o que ai vem, o segurança responde que sim.
- Então e o senhor acha que quase seiscentos escudos por uma viagem de ida e volta é justo?
- Minha senhora as máquinas não aceitam escudos, só euros.

Guia de Sobrevivência a Zombies e outros animais

No quiosque onde costumo comprar cigarros e revistas guardam-me sempre as publicações que trazem livros, mesmo que não seja meu hábito comprá-las. É o que está a acontecer com a Sábado que, não obstante, costumo deixar em cima do balcão da Biblioteca assim que entro. Mas este exemplar em particular trazia na capa ’22 alimentos que fazem perder peso’ e, curiosa, fiquei com ele e levei-o para casa.
A revista é eclética pois dá para rir e para chorar.
Uma das notícias diz que um leão, num zoológico na Indonésia, fugiu da jaula e matou um camelo. Continuo a rezar para que o camelo fosse de duas patas.
Afirma-se que George Clooney terá dito, em plena 2ª classe, que cometera adultério, pensando que se incriminava do crime de agir como adulto. Destaco esta informação pois há muitos anos, estávamos nós de férias no Alentejo quando a minha irmã, com sete ou oito anos disse exactamente a mesma coisa, o que ainda hoje nos faz delirar a nós e lhe provoca um sorriso amarelo a ela.
A China proibiu a venda de hímenes artificiais e agora só se podem comprar no mercado negro. Não informam onde se pode comprar Verdade ou Honestidade. Seguem-se os tais 22 alimentos que ajudam a emagrecer – mas deve ser aos outros porque eu como-os mas eles não ajudam nadinha…
No suplemento Tentações a capa estraga o trabalho dos ditos 22 alimentos e está cheia de baguetes de pão, muito pouco suculentos quando se quer atrair para os melhores pães de Lisboa e do Porto. Mas no interior compensa-se com imagens de diversos pães que apetece dentar mesmo em papel.
Mas o ponto alto da revista, aquilo pelo qual deve ser realmente comprada e, quiçá, idolatrada, é pelo conteúdo da página 23 das Tentações, cujo título diz: ‘O que fazemos se formos atacados por zombies?’
Face a esta possibilidade ficamos a saber o que fazer em caso de luta corpo a corpo, como usar o fogo ou proteger a casa, com o que devemos encher a despensa e ainda nos aconselham a destruir escadas e a não usar roupa larga e este tema, aqui num resumo resumido, pode ser aprofundado no livro Guia de Sobrevivência a Zombies de Max Brooks.
Para além de Max Brooks estar de parabéns – o livro foi dos mais vendidos em 2011 nesse planeta que dá pelo nome de Estados Unidos da América – provou também, precisamente com o número astronómico de vendas, que os zombies atacam totós, e atacam das mais variadas formas: comem-nos e contaminam-nos e, espertalhões hem?, vão-lhes à carteira.
Quem não percebeu que compre o livro.
Mas... e se... uma vez que Max se deu a este trabalho e se o aproveitássemos para outros zombies? Ouvi dizer que zombie também significa Governante e assim, seguindo as dicas de Max, devem evitar-se as lutas corpo a corpo: é fugir, é fugir, mas em caso de confronto utilize paus ou uma pistola.  Por outro lado, só através da incineração os zombies desparecem de vez, mas cuidado pois um animal destes em chamas continua vivo, como bem sabemos de certas e determinadas pessoas que parecem mortas mas, vai-se a ver e afinal ainda estão p'ras curvas e a quererem morder.
A questão da protecção da casa, muito importante! Mesmo que nos barriquemos devemos lembrarmo-nos que os zombies não se cansam e podem ficar dias e meses aos encontrões à porta. Alguém duvida?
Só há um pormenor que me fez confusão: as escadas. No artigo diz-se que os zombies não sabem escalar e por isso devemos destruir as escadas. Errado! Sabem escalar e bem! Sobem de todas as formas e feitios, ultrapassam-se e pisam-se se for preciso, e pelo caminho engolem-se, deglutem-se e vomitam-se.
E nós, se sobrevivermos, temos que limpar os restos da contenda.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Os meus livros, meus, mesmo meus...

Estou a fazer livros para oferecer aos meus sobrinhos. Escrevi a história, que é a mesma para todos, mas a edição será diferenciada, face às idades: um bebé, uma jovenzinha com sete enormes e sabidos anos e um pré-adolescente, quase adulto!, com nove anos.
Escrita a história, impunha-se a compra do papel.
Na Casa Ferreira encontrei algumas coisas das que tinha em mente, mas falta-me um tipo de papel que dê a imagem de farrapo. Tendo a certeza da existência do dito, baixei à Baixa e entrei na Papelaria Fernandes, esse marco, cujos preços também são em marcos, comparados com os da Casa Ferreira.
A PF pode ter desde 1891, como diz a publicidade, pode comercializar mais de 20 mil artigos, mas tem e comercializa mais caro.
O papel que comprei custou-me três preços diferentes: 30, 35 e 40 cêntimos e na PF não há confusões, é tudo a 50 cêntimos…
Ainda assim, no meio de 20 mil artigos, não tinham o papel de margens esfarrapadas…
A vida de Editor é difícil.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Boas reclamações

A idade avança e os especialistas médicos multiplicam-se. Esta semana fui ao cardiologista, ver a máquina, como diria o meu pai.
Marcam-se as consultas, os exames de rotina, vamos fazer as análises, ninguém nos avisa que temos levar o xixizinho, voltamos no dia seguinte com a pipeta, ou lá como se chama o tubinho, já com código de barras, que corresponde ao nosso nome mas em linguagem de laboratório, enfim, um controlo sobre nós próprios, uma preparação, que mesmo que seja espontânea e de prevenção, é chata que nem um prato de estanho.
A consulta para o cardiologista foi marcada para às 15.50h. O meu nome foi apregoado pelo sistema de altifalantes da clínica às 16.50h.
Entrei no consultório do doutor, como diz o Duarte que não usa o nome ‘médico’ não sei porquê, o que dá um ar estranho às conversas, fui ao doutor dos olhos, e fiquei parada diante dele. Estendeu-me a mão cumprimentando-me, sem me olhar, e disse-me que me despisse da cintura para cima para que me fizesse um ecocardiograma.
Fui tirando o casaco devagar e disse:
- Não me leve a mal, mas esperava um pedido de desculpa…
Parou de mexer na maquineta, levantou os olhos e perguntou porquê.
- Porque fui chamada uma hora exacta depois da hora a que estava marcada a consulta e penso que um atraso desta natureza merece um pedido de desculpa.
- A sério? Uma hora?
A pergunta foi acompanhada por um confirmar no computador que revelou que eu tinha razão.
- Tem razão… e quando as pessoas têm razão não há nada a dizer a não ser pedir desculpa. Aceite as minhas desculpas.
Nesta altura já eu estava de maminhas ao léu, com os resquícios do bronzeado da época de 2011 à luz fluorescente do gabinete, o que conferiu à cena um ridículo que me fez rir: ali estava eu meia nua, com cara de má diante de um homem que pedia desculpa de uma forma que não dava azo a mais reclamações.
A consulta continuou com a realização do exame, com muitas perguntas pelo meio, se me sentia mal, se tinha dores, se pensava que todos os médicos eram atrasados por natureza. Respondi não às duas primeiras e sim à terceira: os médicos, na sua maioria, demonstram um total desrespeito pela vida extra-consultório dos pacientes; pensam que a necessidade é unívoca, quando é bem biunívoca.
A par da letra, os atrasos, são uma espécie de assinatura dos senhores doutores médicos, quais reis no Olimpo da falta de saúde e cujas duas palavras, mesmo tortas, parecem bálsamos para nós. Temos que lhes fazer ver que não é bem assim…
Discursava eu a todo o vapor quando ele diz:
- Acredite que sou todo ouvidos… estou a registar cada palavra.
Disse esta frase a sorrir sem que o sorriso me parecesse irónico, pediu novamente desculpa e afirmou que ia pedir que as consultas fossem marcadas com um intervalo de tempo maior para que não se registassem atrasos. Agradeceu-me a reclamação com uma frase que o pai do Duarte costumava usar:
- As boas reclamações fazem os bons serviços.

Círculo de Ferro


Pontes, círculos, ligações
Nascem, crescem, ganham raízes
São cicatrizes
Projectos de Afectos
São as nossas origens
Ontem, filhos, pais, hoje avós
Amanhã, somos nós!

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Dia de raiva

Dia de greve equivale a toque de despertador a meio da noite para poder levar o carro sem apanhar trânsito. Ainda é de noite quando tomo o pequeno-almoço no café da esquina. O empregado conta que ontem à noite se deu um crime violento na caixa multibanco ali ao lado: uma mulher foi assaltada de esticão; um homem ia a passar e quis ajudá-la. Foi brindado com um tiro no peito e morte imediata. A assaltada, para não ficar com inveja, também foi agredida e deu entrada no hospital em estado grave.
O incómodo causado pelo madrugar, em função da greve, transformou-se em vómito por esta sociedade, que é como quem diz por estes comportamentos, sobre os quais ainda ontem falava no Horas Extraordinárias, dizendo que a morte está tão banalizada que não me espanta que a ela se recorra, como quem muda de meias.
O valor da vida atingiu mínimos históricos, o respeito pelos outros é sentimento de museu e nestas alturas não me venham falar em prisões e em recuperação de pessoas pelo sistema: um barco sem fundo no alto mar, era a expressão e o remédio que o meu avô preconizava para estas situações.
Mas a questão fundamental é que no tal barco não podiam seguir só os assassinos, não senhor, tínhamos que ir nós também, que a meio desta manhã já esquecemos a história e achamos normal que à noite se volte a repetir.
Neste Inverno sem chuva e com muito frio, vestimos a capa do medo e nem a tiramos para dormir, e pedimos aos deuses que estas coisas aconteçam aos outros, cientes que continuarão a acontecer, sem esperança de mudança, submissos na falta de lei e na podridão da grei, engolindo os receios com voltas extra na chave que pende na fechadura da porta, coração aos saltos quando pensamos que nos podem entrar pela janela.
À imagem do país em geral, da justiça, da educação, da saúde, perguntamo-nos como chegámos aqui? Será que nos perguntamos? Será que queremos ouvir a resposta da nossa própria boca ou, se formos sinceros vamos encontrar uma quota-parte de culpa e preferimos nem nos olhar ao espelho com medo de encarar o monstro que nos sorri de dentro do laminado?

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

De olhos em bico

Estreei-me em Haruki Murakami com A rapariga que inventou um sonho.
Não estou extasiada. Nem com o livro nem com a tradução. Penso que o trabalho de tradução de japonês para português, neste caso de Maria João Lourenço, não é pêra doce, antes pelo contrário. Mas vamos por partes.
Os contos que compõem o livro são momentos retirados cirurgicamente duma qualquer realidade, mesmo que irreal; têm corpo e podíamos ser nós, as nossas alucinações, as nossas verdades, as nossas confissões.
Em quase todas as histórias há um elemento que se repete: está calor para a época. Haverá alguma razão para isso? Pergunto. É o autor que é encalorado e dessa forma deixa a sua marca naquela narrativa, para além da genialidade da sua criação, de alguma forma, sem ser protagonista, mas deixa uma impressão digital? É coincidência? Ou estará a temperatura certa e os protagonistas ainda não deram conta? Mas se assim for, porque há a necessidade de o afirmar, de realçar esse calor desajustado?
Por outro lado, a tradução levanta mais problemas do que qualquer uma em línguas mais próximas, por via duma cultura enraizada que revela diferenças profundas: dois jovens universitários encontrarem-se para tomar chá pode ser ridículo, estranho, cómico, pode ser muitas coisas, mas que é estranho, é. Mas não no Japão…
E se a narrativa dos jovens que se encontram a beber chá pode parecer estranha, mas é real, já o facto de alguém ficar com os olhos em bico me parece a mim uma opção de tradução altamente incorrecta, uma vez que a expressão é ocidental e para referir precisamente os povos asiáticos, logo, não creio que eles se refiram a si próprios dessa forma. Presumo ter sido a forma escolhida para traduzir uma expressão idiomática, de espanto ou surpresa, que aqui resultou mal.
Não sou tradutora mas estas coisas fazem-me levantar os olhos da página pois sinto que não encaixam. A tradução de it's raining cats and dogs nunca poderá ser chovem gatos e cães e sim qualquer coisa como chove a potes, por exemplo.
Há necessidade de traduzir ideias e expressões onde o literal está muito afastado, mas neste caso, um japonês ficar de olhos em bico, parece-me abusado, demais.
Decididamente eu fiquei com os olhos iguais.