terça-feira, 27 de março de 2012

Rumo ao Farol


As mãos de Virgínia Woolf produziram a orientação da minha vida. Rumo ao Farol podia ser o meu lema, uma vez que um dos meus sonhos é morar num farol.
Ter o mar como jardim, um barco como veículo, muitas escadas para chegar ao quarto e a porta da entrada aberta só para os intrépidos.
Poder ler ao lado da lâmpada num dia de sol é uma imagem que me alimenta. Inundar-me com a espuma das ondas altas que esbarram na parede única do farol, ver o horizonte até muito para lá do além na varanda com vista para o céu, ou jardinar na pequena alameda de acesso ao farol são pensamentos igualmente prazenteiros.
Por ora tenho livros sobre faróis – ganhei um novo exemplar de Rumo ao Farol, há cerca de duas semanas, obrigada! – tenho postais que me chegam de várias partes do mundo, quadros, alguns dos quais em cima da minha cama, espanta espíritos, roupa com faróis estampados, fotografias e imagens diversas.
Falta-me um a sério, mas não mudo de rumo. Quem espera sempre alcança? 

Os óculos de sol dela


Já arranjei muito bem
Tudo quanto convém
P'ra praia levar
O pente, o espelho, o baton
E o creme muito bom
P'ra me bronzear
Estas linhas fazem supor um dia de praia em grande! Bem sei que também devia levar, no mínimo, um pente para dar ordem a esta cabeleira, mas não me lembro de algum dia o ter feito; ainda assim, e tirando o creme para bronzear, que nos remete para épocas em que não se sabia o que era o buraco do ozono, não acho nada estranho.

Tenho o meu rádio portátil
E o bikini encarnado
Também está no meu rol
E como é bom de ver
Não podia esquecer
Os meus óculos de sol
Ora bem… aqui, definitivamente estamos no século passado. Rádio portátil? Oh minha senhora, a bem da eliminação da poluição sonora, arranje por favor uns auriculares e não obrigue os outros a partilharem a sua música.

Que levo p'ra chorar uuuuhuh
Sem ninguém ver
P'ra não dar uuuuhuh
A perceber
P'ra ocultar uuuuhuh
O meu sofrer
Pois eu sei que te hei-de encontrar
Talvez deitado à beira-mar
Com outra ao lado
E eu vou passar
A tarde a chorar
Bem… mas que grande surpresa! Então vai ser uma tarde de choro? Está enganada! Mesmo que o encontre, assim que ele vir o rádio portátil, faz-lhe o favor de se afastar e o seu problema fica resolvido!

Já pensei não sair
Mas aonde é que eu hei-de ir
Com este calor?
Ao cinema! Costumam ter ar condicionado, assim como as galerias de exposições que, estando assim tanto calor, estão vazias com certeza. Vá a uma matinée, visite um antiquário, absorva cultura, compre umas peças!

O que é que eu hei-de fazer
P'ra não ter que te ver
Com o teu novo amor?
Se teimar em ir à praia escolha a Costa da Caparica, que ele é gajo para ficar em Carcavelos. O que não falta por aqui são praias, não seja parva e faça-se à vida.

Ver-te-ei com certeza
Mas eu peço à tristeza
Um pouco de controle
Natércia, você é teimosa, hem? E masoquista! Desfaça-se é do rádio portátil, vista o bikini encarnado, peça ajuda ao jeitoso mais próximo para pôr o tal creme bronzeador, e dê uns bons mergulhos. Olhe, descontrole-se!

E pelo sim pelo não
Eu vou ter sempre à mão os meus óculos de sol
Vou chorar
Uuuuh uh
Vou sofrer
Uuuuh uh
Vou chorar
Uuuuh uh
Teimosa, é pouco! Oh Tessinha, deixe-se de birras, de choros e sofrimentos. Como um gelado! Uma bola de Berlim com muito creme! Um pacote de batatas fritas, Ti-Ti não queira outras!
Deixe o homem sossegado! A bem da verdade, acha que alguém quer ficar com uma chorona que leva um rádio portátil para a praia? 

segunda-feira, 26 de março de 2012

Ser feliz é...

A felicidade está encerrada no final das estórias de encantar. Foram felizes para sempre permite-nos saber da felicidade alheia, mas a nossa participação resume-se a ler e reler ou ouvir essa frase encantada, que não é nossa.
Partindo do principio que o que um homem faz, outro também consegue fazer, e se o e foram felizes para sempre é de alguém (acreditamos que uma fada ou um príncipe encantado são alguém), então há ali uma réstia de esperança que um dia se aplique a nós. Até lá, temos momentos felizes e em cada um revivemos cada sopro da vida.
Na quarta-feira fiz uma maratona no trabalho, e depois na estrada, para assistir a uma sessão de poesia onde os meus sobrinhos iam ler. Ela, com sete anos, usou palavras de outrem, lançou a voz e fez-se ouvir. Ele, com 9 anos, usou as suas próprias palavras, num poema chamado A Língua, e um pouco para dentro, partilhou connosco a sua criação.
Enquanto durou eu fui feliz para sempre.

sexta-feira, 23 de março de 2012

Intolerância (?)

Ontem acusaram-me de andar muito nervosa. Eu li intolerante. É verdade, não nego.
Se o trabalho fosse um par de sapatos eu estava a calçar agora um 47 ou 48, quando um 38 já me fica largo.
As pessoas que trabalham comigo sabem que fico a pisar brasas em alturas de maior responsabilidade e que lido muito mal com falhas, erros, esquecimentos, enganos, o que for. Mas também sabem que eu não trabalho com qualquer um… escolho quem considero que é capaz de fazer, e daí ser acusada frequentemente de ser incapaz de descentralizar. Eu sou capaz de descentralizar se confiar, caso contrário, deixo tudo comigo.
Fico sem palavras com a ligeireza como certos erros são encarados e ajo ao sabor da fúria quando começo a ter receio de confiar em quem confio. Por vezes roço a obsessão com a mania das correcções, verificações e reverificações e fico a tremer com atrasos, faltas de cumprimento de prazos e quase entro em convulsões quando me respondem que podemos fazer de determinada maneira porque ninguém vai ficar a saber (nós não somos alguém?); toda a gente faz assim (eu sou Aquário, não Carneiro…) e outras respostas semelhantes.
O que mais me põe fora de mim é a culpa nunca ser da pessoa a quem foi atribuída a tarefa ou missão! Há sempre alguém, um alien talvez, que interfere na execução e perturba o trabalho.
Há uma injustiça em toda esta questão, uma injustiça com duas caras, como Janus. Por um lado, há quem pense que sou injusta pois a minha veia de exigência não é igual para todos. Por outro lado, sou exigente apenas com quem sei que vale a pena. Com outros não me dou ao trabalho, porque a exigência dá muito trabalho, acreditem ou não.
Quando me fazem uma pergunta ou colocam um problema tenho tendência a não responder de imediato se considerar que a pessoa que a fez consegue lá chegar sozinha; tento desenvolver uma conversa, numa espécie de maiêutica, para provar que a pessoa sabe o que pergunta. Mas nos últimos tempos isto raramente acaba bem e perguntam-me logo a seguir porque não me limito a responder…
Fico sem saber o que fazer, pois acho que o caminho certo é deixar que sejam as próprias pessoas a desbravar o pensamento, e invisto tempo nesta acção da qual, no fim de contas, resultam contas mal feitas.
Mesmo sabendo disto, pressiono para alargar limites, peço mais e mais, sendo de uma exigência sem tamanho como dizem, mas continuo a agir da mesma forma por uma simples razão: sei quem pode dar e quem não tem para dar. Destes últimos espero o básico, dos primeiros espero tudo… até acharem que ando muito nervosa…

terça-feira, 20 de março de 2012

Autor desconheçido

Uma das minhas tarefas é fazer a verificação de originalidade de dissertações e teses. Acabo de ler um trabalho onde os desconheçidos e desconheçidas são tantos que podiam fundar uma associação... e ficavam todos a conheser-se.
Hera tão jiro...

segunda-feira, 19 de março de 2012

Downton Abbey, ou a perfeição em duas palavras

Em Downton Abbey é difícil destacar um momento que seja superior. Atrevo-me a sugerir as tiradas de Mrs. Grantham como o ponto alto duma cadeia montanhosa bem acima do ar respirável em matéria de séries de televisão.
Quando a senhora pergunta, petrificada, o que são fins-de-semana, como se a voz se lhe escapasse sem querer, em resposta à declaração do intruso que manifestou ter tempo apenas aos sábados e domingos, é-nos dado ver o interior da cultura da elite da época. Magistral.
Ainda a mesma personagem afirma que só a um estrangeiro (leia-se, não inglês) lhe passaria pela cabeça morrer em casa alheia, pior ainda, no lar de pessoas que mal conhecia.
Não, o objectivo não é fazer-nos rir mas, antes pelo contrário, mergulharmos na própria História.
Se Downton Abbey fosse um livro teria duas colunas lado a lado: uma para a visão dos senhores, outra para a perspectiva dos empregados, ambas sobre a mesma coisa, ambas muito diferentes.
A fotografia da série ajuda imenso a tornarmo-nos cúmplices daquela acção em dois planos – é fácil e quase inato, dizer plano superior e inferior, tentarei fugir a este facilitismo mesmo em pensamento. Há planos de pormenor magníficos, há imagens que sozinhas contam toda uma história ou, melhor ainda, revelam parte dela, para que nos questionemos e sejamos incapazes de abandonar a televisão.
Mudar de canal está fora de questão pela simples razão que nem nos ocorre que exista outra coisa para além do que estamos a ver e, obrigada, obrigada, nem sequer há intervalo.
O cerne da história tem origem na posição subalterna das mulheres. Não me vou deter nesta questão, entendendo que se o fizesse estaria a tentar transpor o presente para o passado. Não, limito-me a ver, a espreitar como quem viaja no tempo, um trabalho soberbo de realização, de cenários e diálogos, de direcção de actores, onde nada é deixado ao acaso e tudo é perfeito. Tudo é perfeito porque era assim, foi assim, não se discute se devia ter sido assim.
Quando o mordomo afirma que um castiçal tem um risco e lhe respondem que é tão pequeno que ninguém vê, ele argumenta com a verdade mais básica: ‘Basta eu saber que ele existe’. Irrepreensível.

terça-feira, 13 de março de 2012

A matança dos livros

Só agora me veio parar às mãos a História Universal da Destruição dos Livros, de Fernando Báez, de 2004, e editado em Portugal em 2009 pela Texto.
A cada página há que conter lágrimas e raivas e, acima de tudo, pensar o que fazer para parar com a carnificina. Não se sabe,mas acumula-se a raiva, que vai crescendo a cada capítulo do livro.
A história do livro é a história da maldade, da intolerância, da ignorância e do racismo. É a história do medo.
Um livro assim impõe ainda mais respeito que outro sobre diferente tema. Um livro assim merece ser visto com solenidade. Um livro assim tem que ser tratado como ícone, como alerta para o desaparecimento propositado de livros, com tudo o que significam.
Assim, esperava-se uma edição ainda mais cuidada que o normal, uma leitura mais intensa que resultaria numa tradução limpa, a que a revisão limaria qualquer pontiagudo.
Aguardo que o livro me chegue na língua original para confirmar se a Texto Editora, a tradutora, Maria da Luz Veloso e o revisor Luís Rodrigues trataram o sangue da humanidade que escorre naquelas páginas com ligeireza, dando a ler frases frágeis, meias incompletas, não rigorosas e medíocres.
Aguardo, para ver se a Bagdad da contra-capa que passou a Bagdade no interior, foi uma gralha. Perfeitamente evitável, diga-se de passagem.
Ainda assim, a ler, sem dúvida, para que todos saibamos o que nunca se deve fazer.

segunda-feira, 12 de março de 2012

A vida real

Acompanho uma série televisiva que num dos últimos episódios mostrava um conjunto de cenas onde uma das protagonistas se desfazia para devolver uma pomba ao bando.
A ideia da 'pomba', a menção, a visão, seja o que for, leva-me logo ao Max, daí ao Picasso e daí a um novelo de paz que, vá lá saber porquê, faz sempre este caminho e me desagrada.
Sábado de manhã à entrada do meu local de trabalho, desacelerei o passo para ver uma senhora dar umas migalhas a um pombo, que não sei se era pombo ou pomba, mas pombo sempre é melhor.
Lembrei-me da cena da televisão da noite anterior e como que fui acordada no momento em que o pombo debica o pão e ela o agarra e lhe torce o pescoço. A vida real é assim.

terça-feira, 6 de março de 2012

O sentido do fim


Não tenho qualquer curiosidade em especial em saber quem matou o Kennedy, mas gostava de ler o diário de Adrian.
Está a ouvir, senhor Julian Barnes?
Eu percebi que não mo ia dar a ler quando lhe arrancou aquela página cheia de equações, seu manhoso… mas mesmo assim, vá lá saber porquê, continuei a ler.
Fique a saber que a informação que presta abre a nossa curiosidade, coscuvilhice, chame-lhe o que queira, e depois, queimar assim o diário…? Dar-nos uma perspectiva real da vida? Cruzar a nossa cusquice com a atitude que se tomaria se fossemos a protagonista da história?
Como se fossemos… mas não somos, ficamo-nos por espectadores e os espectadores perdem sempre qualquer coisa. Gostei. 
Edição da Quetzal, 2011, foi vencedor do Man Booker Prize no mesmo ano.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Bonecas

As escadas rolantes rolam cegas aos passos que passam. Deixo-me levar segura do destino.
Duas vozes atrás de mim falam de bonecas de porcelana.
- Tenho dúzias… nem queiras saber…
- Nunca tive bonecas dessas
- Tenho imensos bibelots, mas as bonecas são as minhas favoritas
- Eu não gosto de ter os móveis cheios de coisas, custa mais a limpar
- Eu não me importo, passo horas a limpá-las e além disso o meu marido também as adora
- O meu marido adora-me a mim e eu passo horas a adorá-lo a ele.
Voltei-me para trás e sorri-lhe, num sorriso invejoso.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

A desilusão de Hugo


Sacha Baron Cohen é Crabtree, o polícia de Alô, Alô.
Asa Butterfield, Hugo, é Quasimodo que não se cansa das vistas sobre a cidade de Paris e quer ser Harold Lloyd ou Chaplin em Tempos Modernos.
George Meliés é Martin Scorsese, himself, e o filme é uma birra do realizador, num acto de comiseração por si próprio, ó p’ra mim, já fiz nascer taxistas e gangues em Nova Iorque!
Das referências às colagens vai toda uma falta de imaginação e criatividade que, mesmo assim, o lobbie de Hollywood premiou, como quem dá uma fatiazinha de pudim ao ancião lá de casa.
A acção é parada e paradinha, abrem-se bocas ao longo da sala na plateia e não se percebe quem inventou o título com uma invenção não inventada.
Ben Kingsley assume os passos dum fantasma, sombra esbatida da sua capacidade de representação. A personagem de Rene Tabard entra na narrativa a martelo, da mesma forma que entraria a roupa interior numa escultura em pedra já terminada.
A magia do cinema aqui é substituída pelo tédio do cinema: as boas intenções não têm espaço por não terem corpo e a apologia que se quer fazer (ao cinema ou a si próprio?) não ganha músculo nem osso.
O eterno Drácula, que já tinha sido o mauzão Saruman, veste-se de Bibliotecário bonzinho, na única ligação com sentido que a substância do filme consegue fazer, criando invisibilidades bem visíveis, cruzamentos subtis e ironias.
Os efeitos especiais das subidas e descidas de Hugo no meio dos mecanismos dos relógios, as imagens da biblioteca ou o cemitério à porta de casa de Meliés estão bem esgalhados, mas um filme não é feito de dois de três momentos, caso contrário fica mais órfão que o pobre Hugo que, enquanto filme, está cheio de osteoporose.   

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Dama de Ferro


No cinema há encanto, deslumbramento, lágrimas e gargalhadas. A tela é uma farmácia de emoções com mensagens, paisagens, imagens e tudo o que se queira, literalmente tudo.
Há argumentos e efeitos especiais, guarda-roupa e maquilhagens que nos trazem o passado, o presente, o futuro, a imaginação feita realidade, a invenção, a descoberta, o homem das cavernas e o futurista.
Há pontos de vista dados pelos realizadores, há grandes planos e cenas impossíveis de repetir tal é a sua grandeza. E há interpretações.
Quando consideramos Christoph Waltz um portento que consegue reunir numa só personagem a complexidade da natureza humana em Inglourious Basterds, ele é suplantado por Christian Bale cujos poros da pele respiram a encarnação perfeita que fez em The Fighter.
Mas quando se pensa que o atleta já superou todos as metas, quando se pensa que já não há recordes possíveis a bater, tal a altura do desafio, somos confrontados com o nosso próprio silêncio perante o inimaginável.
Para os adeptos dos prémios, há interpretações para as quais devia ser criado um novo tipo de distinção, celestial, augusta, pois acima de Oscares, Baftas, Ursos, Leões, Globos, Grammys, Emmys, Césares, Palmas e de qualquer tipo de premio ou medalha está o Nirvana, perante o qual nos ajoelhamos sem necessidade de dizer seja o que for. 
E o Nirvana chama-se Meryl Streep. 

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

O preço da morte


Vi o programa Olhos nos Olhos. Foi um belíssimo exemplo de como os lobbies funcionam bem. 
Não se mencionou se a Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária foi convidada e declinou o convite ou se nem foi sequer convidada. Bateu-se na tecla do costume-se, banalidades, caça à multa, álcool, etc. 
Aquilo que podia ter sido um excelente programa de verdadeiro jornalismo e informação mostrou-se uma sucessão de lugares comuns, já do conhecimento dos telespectadores, o que levou a que muitos se congratulassem com o facto de na televisão se dizer aquilo que já se sabe. É a Casa dos Segredos reformulada.
Falou-se em mortes, pois claro, em prevenção, em cartas de condução tiradas a troco de influências, em escolas que não dão aulas, mas recebem o dinheiro, com certeza. Sobre este aspecto o Dr. Carlos Barbosa disse que contra ele falava. Ora não é bonito nem fica bem falarmos contra nós: bonito e sério é podermos dizer que nos distinguimos dos outros nas atitudes e comportamentos, coisa que não se verificou, antes pelo contrário: existe a onda e deixamo-nos ir, embora saibamos que vamos em sentido proibido. E mesmo assim afirmamo-lo na televisão! Desta forma deixa-se a credibilidade numa rua sem saída…
Depois há a questão dos cintos: há quem os use e quem não os ponha e sorria dizendo isso mesmo, brincando às escondidas com a seriedade que, aparentemente, leva de braço dado.
Não se ouviu falar do custo social dos acidentes. Ninguém se sentiu abanado em momento algum pelo facto de toda a sociedade estar envolvida nesses mesmos acidentes por via da utilização de hospitais, das estradas, dos tribunais, das ambulâncias, dos funerais, dos advogados e peritos, das polícias e das entidades fiscalizadoras, que me conjunto perfazem o preço da morte, uma vez que o preço da dor não é calculável.
O Dr. Medina Carreira encontrou o Dr. Carlos Barbosa num restaurante e convidou-o para o programa. Espero que pelo menos a refeição tenha sido boa.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Desculpa...

A meio da tarde o telefone tocou em ruído de dor, tristeza e dívida.
A mãe de uma amiga de vida acabava de ser sepultada e ela ligou-me trespassada pela solidão da perda da mãe que, em simultâneo, era a sua melhor amiga. Trocámos lágrimas. Tentei abafar o tom de voz com que lhe perguntei porque razão não me tinha dito nada, esconder a raiva da minha inutilidade. Ela alegou com as complicações da minha vida e que não queria que me pusesse a caminho do Algarve, coisa que sabia que eu faria no minuto em que soubesse do estado da mãe dela.
Doeu-me profundamente não ter estado com ela; fiquei numa tristeza profunda e sinto que a minha dívida para com a M. aumentou. Aumentou porque ela me poupou, aumentou porque não estive presente, aumentou porque me sinto mal até de pensar que enquanto ela andava com o coração estilhaçado eu, ignorante, dei garantidamente umas boas gargalhadas.
O que tem uma coisa a ver com a outra, se eu não sabia? Tem tudo: ela é minha amiga e estava mal e eu não fiz nada. Nas contas do universo não há motivos, há acções. E eu fiquei parada.
A voz dela a dizer-me que se sentia sozinha, que tinha acabado de chegar a casa depois do funeral e que precisava de ouvir a minha voz, deixou-me de rastos, enlameada em lágrimas sólidas.
Penso nisto e, inevitavelmente, revejo algumas supostas amizades, pessoas que se cruzaram comigo ao longo da vida. Mais, penso que há uma qualquer questão genética que se atravessa no nosso caminho. Explico o nosso:
Há muitos anos atrás os meus pais ofereceram-se para albergar a filha dum amigo lá da terra cujo futuro na aldeia não existia. A rapariga, Eva, veio para nossa casa, inscreveu-se numa escola de dactilografia, arranjou emprego num supermercado, começou a namorar, fez aumentar o número das nossas visitas à aldeia, para matar saudades da família. A vida corria com normalidade, ela marcou o casamento, que devia ocorrer na aldeia e, semanas antes, foi para lá preparar a boda, deixando em Lisboa uma casa já arrendada e pronta para virem morar, casa essa que os meus ajudaram a arranjar e ajudaram a pagar. Surpresa das surpresas, não convidou os meus pais para o casamento.
O pai dela deslocou-se a Lisboa de propósito, chorando desculpas, e dizendo não saber a razão do sucedido pois, ao longo dos anos, ela nunca manifestara um desagrado para connosco, nunca mencionara um mal-estar ou fosse o que fosse. Agora, apenas dizia que não nos queria convidar e o pai, qual Egas Moniz, ali estava em pranto, sentindo que tinha que agradecer o que fizeram por ela e pedindo desculpa por uma atitude que ainda hoje enferma de explicação. Não tenho a certeza, mas penso que o pai não foi ao casamento como forma de manifestar a sua posição pelo comportamento irracional da filha, numa altura em que a honra dum pai de família era mais visível que um vestido de noiva com cauda.
Anos mais tarde, era eu adolescente, embirrava solenemente com as amigas da minha prima lá da aldeia, que se interessavam por maquilhagens, vestidos e saltos altos, enquanto eu mergulhava num livro e só com dificuldade é que me tiravam de lá. Apenas uma daquelas amigas me merecia uma conversa e tempo que não dava como perdido. Ela era meia dúzia de anos mais velha que eu e no dia que me disse que adorava morar em Lisboa eu abri-lhe a porta da nossa casa, sem informar os meus pais, nem a minha prima.
Achei que havia uma dose de aventura em, quando estávamos a pôr a bagagem no velho Ford Escort, dizer que ela vinha connosco e metê-la no carro. Na altura não se contabilizavam passageiros e os meus pais fizeram a viagem até Lisboa quase em silêncio, com a minha irmã, a minha prima, que já vivia connosco, eu e a nova inquilina no banco de atrás. Garanti-lhes que seria por uns dias, só até eu lhe arranjar emprego e uma casa para ela morar.
Não posso dizer que os meus pais estivessem furiosos ou nem mesmo descontentes, estavam aborrecidos por eu não ter dito nada e terem sido apanhados de surpresa.
Ela acabou por ficar meses na nossa casa, embora na semana seguinte já estivesse a trabalhar, depois de eu me ter desengonçado para lhe arranjar qualquer coisa para fazer. O trabalho era numa fábrica de bonecos de peluche que funcionava ilegalmente a menos de um quilómetro da nossa casa, mas não pagavam mal. Ainda não tinham passado seis meses e já ela morava num quarto arrendado, que consistia num sótão maravilhoso que hoje custaria uma fortuna. Apesar disso, e estando nós ali de vizinhas, eram mais as noites que ela ficava em nossa casa do que as noites que ficava no quarto alugado.
Porém, o esplendor da capital levava-a com frequência a fazer gastos bem acima das suas possibilidades e lá estavam os meus pais a emprestarem-lhe dinheiro e a darem-lhe conselhos.
Começou a namorar com um rapaz que, dizia-se, andava metido na droga. Na verdade, não era assim, as pessoas apenas não aceitavam bem quem tinha diferentes hábitos de vestuário e poses um tanto ou quanto futuristas e acabavam por meter tudo no mesmo saco. Mesmo com a fama que tinha o meu pai recebeu-o inúmeras vezes na nossa casa, dando-lhe almoços e jantares. Ao longo dos anos, mudou de emprego várias vezes, sempre para melhor, mantivemos um relacionamento amigo, recebendo a família dela na nossa casa quando a vinham visitar, pois o sótão era maravilhoso, mas não espaçoso.
Nunca percebi porquê, mas aconteceu exactamente a mesma coisa que tinha acontecido com a Eva: foi casar na aldeia e não convidou vivalma da nossa família, nem a minha prima, sua amiga desde sempre. Nunca mais nos falámos. Encontramo-nos muito de vez em quando nas festas da aldeia, mas é como se não nos conhecêssemos.
Foi a primeira vez que uma amiga me partiu o coração.
Muitos anos mais tarde, já a trabalhar, e depois de anos de convívio e amizade diários, voltei a sentir a mesma dor: a dor de constatar que a amizade não era verdadeira, mas antes falsa, hipócrita e ciumenta.
Depois disso, mais recentemente, fui apelidada de mentirosa por ser honesta em assunto delicado, numa atitude que me chocou e me fez dar ainda mais valor às amizades que tenho como sólidas, indestrutíveis, à prova de bala. O último caso atingiu uma gravidade da qual inicialmente não me apercebi, pois uma amiga comum, deixou literalmente de me falar, embora me escrevesse a dizer que tinha saudades minhas. Imagino as conversas que terão acontecido…
À excepção da Eva, cujo episódio aconteceu comigo muito criança, procurei todas as pessoas envolvidas, sem excepção, perguntando-lhes a razão dos seus comportamentos. Pude agir assim por ter a consciência tranquila e descansada, embora envolta em interrogações. Quem tivesse telhados de vidro, não o faria.
Nunca obtive resposta à altura, de algumas não obtive sequer resposta nem por telefone, nem por escrito, o que aumenta a hipocrisia do envio de mensagens a anunciar as saudades que sentem. Devia ter sido engano…
Não consigo deixar de pensar em todo o tempo que gastei com estas pessoas, no desperdício acumulado.
Entendo os amigos verdadeiros como grilos falantes que devem apoiar, é claro, mas também devem avisar, aconselhar, alertar e dar na cabeça quando merecemos. Aquela conversa de eu não me meto na vida dos meus amigos, comigo não serve: os meus amigos fazem parte da minha vida, logo, eu quero ouvi-los, quero que me abram novos caminhos, que me mostrem perspectivas que eu não estou a alcançar, curvas da vida que não estou a ver, que me iluminem o caminho e que sejam duros comigo se assim o entenderem. Os amigos verdadeiros são os pais que nós escolhemos, aqueles de quem queremos ouvir a opinião, o conselho, cuja voz nos acalma e ajuda.
Se forem amigos só para fazer farras, só para dizerem o que nós queremos ouvir, sempre a dizer que somos os maiores, que todas as nossas atitudes estão correctíssimas, então temos que lhes dar outro nome, não Amigo.
Conheço a M. quase há vinte anos. Quase há vinte anos que a considero uma das pessoas mais fortes que existem, mais determinadas. Quase há vinte anos que me sinto segura com a companhia dela, ou, quanto mais não seja, com a sua lembrança. Quase há vinte anos que me ouve, que com ela partilho alegrias e tristezas. Há quase vinte anos que me confronta com realidades que por vezes me são penosas, mas ela tem a coragem de chamar os bois pelos nomes. Há quase vinte anos que me doem as dores dela e sei que ela sofre com as minhas. Há quase vinte anos que ela me dá tanto de si que me sinto sempre em dívida para com ela.
Por tudo isto e muito mais sinto-me um traste por ter dado o mesmo tratamento a outras pessoas, chamando-lhes amigas. Sinto-me uma idiota total por ter parado dois minutos a pensar, quando me disseram eu dei-te tudo, tentando alinhar esse tudo que, comparado com a mera presença da M. na minha vida, não é nada.
Sinto-me como um cigarro na mão de certas pessoas: aspiram, queimam e deitam fora. Enquanto a M. é a planta do tabaco em si, sempre antes de ser colhida, verde e bela, resplandecente e cheia de vida, sinónimo de vício sim, mas vício bom, vício que conforta, vício que aquece, sem sombra de cinza.
A mãe da M. morreu e eu não estive com ela. Só me apetece chorar de raiva e, por ora, não me consigo perdoar.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Com um brilhozinho nos olhos

O meu apetite por gelados é permanente. Com muita frequência compro um no quiosque dentro da estação de metro e vou a comê-lo durante o percurso.
Com o frio que se tem feito sentir nos últimos dias, de pauzinho na mão, chamo mais a atenção do que se fosse vestida de gladiador.
As reacções variam dos oito aos oitenta: os miúdos lambem-se a olharem-me, os jovens deitam miradas invejosas com o rabo do olho e as pessoas mais velhas fixam-me como se fosse maluquinha e algumas resmungam palavras imperceptíveis na audição mas perfeitamente clara na intenção.
Ontem, a meio das lambidelas num suculento magnum de amêndoas, sentou-se ao meu lado e diante de mim, uma família: pai, mãe e filho, com cerca de 8 ou 9 anos.
O garoto, mesmo à minha frente, não tirava os olhos do gelado. A mãe fez-lhe sinal para não ser tão evidente e para desviar o olhar. O miúdo ainda começou a contar as paragens que faltavam para saírem e a ler os nomes das estações, mas os olhos fugiam-lhe para o chocolate com pedacinhos de amêndoa e a boca dava sinais inequívocos que comeria o gelado numa só dentada se o deixassem. De repente disse:
- Mãe, ficamos doentes se comermos gelados no Inverno, não é? Ela vai ficar doente!
A mãe olhou-me a sorrir, como quem pede desculpa e virou-se para o garoto com cara de quem lhe ia dizer qualquer coisa, quando ele acrescentou com ar de confidência:
- Não te preocupes, os portugueses não comem gelados agora, ela é estrangeira de certeza e não percebe…
Sorri e disse-lhe que adorava gelados e só tinha pena de naquele momento não lhe poder dar um a ele. O garoto arregalou os olhos perante a minha fluência em português, os pais riram-se e a mãe incentivou-o a pedir desculpa e lá nos entretivemos em debate sobre o motivo pelo qual ele devia pedir desculpa, nenhum na minha perspectiva.
O rapaz perguntou-me o nome, a idade e o que fazia e eu fui respondendo no meio de grandes sorrisos, embora manifestasse a minha tristeza por ele não saber o que é uma bibliotecária. Ainda assim, acho que fiz um amigo e como diz o Sérgio, coisa mais preciosa no mundo não há.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Conversor de sensibilidade, precisa-se

Já passa das sete da tarde na estação de metro do Marquês de Pombal. A senhora ostenta uma pele fofa e flutuante em volta do pescoço, cabelo lilás e aproximadamente 80 anos. Tem as rugas ainda mais vincadas que o costume e pergunta ao segurança do Metro se ele ‘é dali’.
Com cara de quem teme o que ai vem, o segurança responde que sim.
- Então e o senhor acha que quase seiscentos escudos por uma viagem de ida e volta é justo?
- Minha senhora as máquinas não aceitam escudos, só euros.

Guia de Sobrevivência a Zombies e outros animais

No quiosque onde costumo comprar cigarros e revistas guardam-me sempre as publicações que trazem livros, mesmo que não seja meu hábito comprá-las. É o que está a acontecer com a Sábado que, não obstante, costumo deixar em cima do balcão da Biblioteca assim que entro. Mas este exemplar em particular trazia na capa ’22 alimentos que fazem perder peso’ e, curiosa, fiquei com ele e levei-o para casa.
A revista é eclética pois dá para rir e para chorar.
Uma das notícias diz que um leão, num zoológico na Indonésia, fugiu da jaula e matou um camelo. Continuo a rezar para que o camelo fosse de duas patas.
Afirma-se que George Clooney terá dito, em plena 2ª classe, que cometera adultério, pensando que se incriminava do crime de agir como adulto. Destaco esta informação pois há muitos anos, estávamos nós de férias no Alentejo quando a minha irmã, com sete ou oito anos disse exactamente a mesma coisa, o que ainda hoje nos faz delirar a nós e lhe provoca um sorriso amarelo a ela.
A China proibiu a venda de hímenes artificiais e agora só se podem comprar no mercado negro. Não informam onde se pode comprar Verdade ou Honestidade. Seguem-se os tais 22 alimentos que ajudam a emagrecer – mas deve ser aos outros porque eu como-os mas eles não ajudam nadinha…
No suplemento Tentações a capa estraga o trabalho dos ditos 22 alimentos e está cheia de baguetes de pão, muito pouco suculentos quando se quer atrair para os melhores pães de Lisboa e do Porto. Mas no interior compensa-se com imagens de diversos pães que apetece dentar mesmo em papel.
Mas o ponto alto da revista, aquilo pelo qual deve ser realmente comprada e, quiçá, idolatrada, é pelo conteúdo da página 23 das Tentações, cujo título diz: ‘O que fazemos se formos atacados por zombies?’
Face a esta possibilidade ficamos a saber o que fazer em caso de luta corpo a corpo, como usar o fogo ou proteger a casa, com o que devemos encher a despensa e ainda nos aconselham a destruir escadas e a não usar roupa larga e este tema, aqui num resumo resumido, pode ser aprofundado no livro Guia de Sobrevivência a Zombies de Max Brooks.
Para além de Max Brooks estar de parabéns – o livro foi dos mais vendidos em 2011 nesse planeta que dá pelo nome de Estados Unidos da América – provou também, precisamente com o número astronómico de vendas, que os zombies atacam totós, e atacam das mais variadas formas: comem-nos e contaminam-nos e, espertalhões hem?, vão-lhes à carteira.
Quem não percebeu que compre o livro.
Mas... e se... uma vez que Max se deu a este trabalho e se o aproveitássemos para outros zombies? Ouvi dizer que zombie também significa Governante e assim, seguindo as dicas de Max, devem evitar-se as lutas corpo a corpo: é fugir, é fugir, mas em caso de confronto utilize paus ou uma pistola.  Por outro lado, só através da incineração os zombies desparecem de vez, mas cuidado pois um animal destes em chamas continua vivo, como bem sabemos de certas e determinadas pessoas que parecem mortas mas, vai-se a ver e afinal ainda estão p'ras curvas e a quererem morder.
A questão da protecção da casa, muito importante! Mesmo que nos barriquemos devemos lembrarmo-nos que os zombies não se cansam e podem ficar dias e meses aos encontrões à porta. Alguém duvida?
Só há um pormenor que me fez confusão: as escadas. No artigo diz-se que os zombies não sabem escalar e por isso devemos destruir as escadas. Errado! Sabem escalar e bem! Sobem de todas as formas e feitios, ultrapassam-se e pisam-se se for preciso, e pelo caminho engolem-se, deglutem-se e vomitam-se.
E nós, se sobrevivermos, temos que limpar os restos da contenda.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Os meus livros, meus, mesmo meus...

Estou a fazer livros para oferecer aos meus sobrinhos. Escrevi a história, que é a mesma para todos, mas a edição será diferenciada, face às idades: um bebé, uma jovenzinha com sete enormes e sabidos anos e um pré-adolescente, quase adulto!, com nove anos.
Escrita a história, impunha-se a compra do papel.
Na Casa Ferreira encontrei algumas coisas das que tinha em mente, mas falta-me um tipo de papel que dê a imagem de farrapo. Tendo a certeza da existência do dito, baixei à Baixa e entrei na Papelaria Fernandes, esse marco, cujos preços também são em marcos, comparados com os da Casa Ferreira.
A PF pode ter desde 1891, como diz a publicidade, pode comercializar mais de 20 mil artigos, mas tem e comercializa mais caro.
O papel que comprei custou-me três preços diferentes: 30, 35 e 40 cêntimos e na PF não há confusões, é tudo a 50 cêntimos…
Ainda assim, no meio de 20 mil artigos, não tinham o papel de margens esfarrapadas…
A vida de Editor é difícil.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Boas reclamações

A idade avança e os especialistas médicos multiplicam-se. Esta semana fui ao cardiologista, ver a máquina, como diria o meu pai.
Marcam-se as consultas, os exames de rotina, vamos fazer as análises, ninguém nos avisa que temos levar o xixizinho, voltamos no dia seguinte com a pipeta, ou lá como se chama o tubinho, já com código de barras, que corresponde ao nosso nome mas em linguagem de laboratório, enfim, um controlo sobre nós próprios, uma preparação, que mesmo que seja espontânea e de prevenção, é chata que nem um prato de estanho.
A consulta para o cardiologista foi marcada para às 15.50h. O meu nome foi apregoado pelo sistema de altifalantes da clínica às 16.50h.
Entrei no consultório do doutor, como diz o Duarte que não usa o nome ‘médico’ não sei porquê, o que dá um ar estranho às conversas, fui ao doutor dos olhos, e fiquei parada diante dele. Estendeu-me a mão cumprimentando-me, sem me olhar, e disse-me que me despisse da cintura para cima para que me fizesse um ecocardiograma.
Fui tirando o casaco devagar e disse:
- Não me leve a mal, mas esperava um pedido de desculpa…
Parou de mexer na maquineta, levantou os olhos e perguntou porquê.
- Porque fui chamada uma hora exacta depois da hora a que estava marcada a consulta e penso que um atraso desta natureza merece um pedido de desculpa.
- A sério? Uma hora?
A pergunta foi acompanhada por um confirmar no computador que revelou que eu tinha razão.
- Tem razão… e quando as pessoas têm razão não há nada a dizer a não ser pedir desculpa. Aceite as minhas desculpas.
Nesta altura já eu estava de maminhas ao léu, com os resquícios do bronzeado da época de 2011 à luz fluorescente do gabinete, o que conferiu à cena um ridículo que me fez rir: ali estava eu meia nua, com cara de má diante de um homem que pedia desculpa de uma forma que não dava azo a mais reclamações.
A consulta continuou com a realização do exame, com muitas perguntas pelo meio, se me sentia mal, se tinha dores, se pensava que todos os médicos eram atrasados por natureza. Respondi não às duas primeiras e sim à terceira: os médicos, na sua maioria, demonstram um total desrespeito pela vida extra-consultório dos pacientes; pensam que a necessidade é unívoca, quando é bem biunívoca.
A par da letra, os atrasos, são uma espécie de assinatura dos senhores doutores médicos, quais reis no Olimpo da falta de saúde e cujas duas palavras, mesmo tortas, parecem bálsamos para nós. Temos que lhes fazer ver que não é bem assim…
Discursava eu a todo o vapor quando ele diz:
- Acredite que sou todo ouvidos… estou a registar cada palavra.
Disse esta frase a sorrir sem que o sorriso me parecesse irónico, pediu novamente desculpa e afirmou que ia pedir que as consultas fossem marcadas com um intervalo de tempo maior para que não se registassem atrasos. Agradeceu-me a reclamação com uma frase que o pai do Duarte costumava usar:
- As boas reclamações fazem os bons serviços.

Círculo de Ferro


Pontes, círculos, ligações
Nascem, crescem, ganham raízes
São cicatrizes
Projectos de Afectos
São as nossas origens
Ontem, filhos, pais, hoje avós
Amanhã, somos nós!

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Dia de raiva

Dia de greve equivale a toque de despertador a meio da noite para poder levar o carro sem apanhar trânsito. Ainda é de noite quando tomo o pequeno-almoço no café da esquina. O empregado conta que ontem à noite se deu um crime violento na caixa multibanco ali ao lado: uma mulher foi assaltada de esticão; um homem ia a passar e quis ajudá-la. Foi brindado com um tiro no peito e morte imediata. A assaltada, para não ficar com inveja, também foi agredida e deu entrada no hospital em estado grave.
O incómodo causado pelo madrugar, em função da greve, transformou-se em vómito por esta sociedade, que é como quem diz por estes comportamentos, sobre os quais ainda ontem falava no Horas Extraordinárias, dizendo que a morte está tão banalizada que não me espanta que a ela se recorra, como quem muda de meias.
O valor da vida atingiu mínimos históricos, o respeito pelos outros é sentimento de museu e nestas alturas não me venham falar em prisões e em recuperação de pessoas pelo sistema: um barco sem fundo no alto mar, era a expressão e o remédio que o meu avô preconizava para estas situações.
Mas a questão fundamental é que no tal barco não podiam seguir só os assassinos, não senhor, tínhamos que ir nós também, que a meio desta manhã já esquecemos a história e achamos normal que à noite se volte a repetir.
Neste Inverno sem chuva e com muito frio, vestimos a capa do medo e nem a tiramos para dormir, e pedimos aos deuses que estas coisas aconteçam aos outros, cientes que continuarão a acontecer, sem esperança de mudança, submissos na falta de lei e na podridão da grei, engolindo os receios com voltas extra na chave que pende na fechadura da porta, coração aos saltos quando pensamos que nos podem entrar pela janela.
À imagem do país em geral, da justiça, da educação, da saúde, perguntamo-nos como chegámos aqui? Será que nos perguntamos? Será que queremos ouvir a resposta da nossa própria boca ou, se formos sinceros vamos encontrar uma quota-parte de culpa e preferimos nem nos olhar ao espelho com medo de encarar o monstro que nos sorri de dentro do laminado?

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

De olhos em bico

Estreei-me em Haruki Murakami com A rapariga que inventou um sonho.
Não estou extasiada. Nem com o livro nem com a tradução. Penso que o trabalho de tradução de japonês para português, neste caso de Maria João Lourenço, não é pêra doce, antes pelo contrário. Mas vamos por partes.
Os contos que compõem o livro são momentos retirados cirurgicamente duma qualquer realidade, mesmo que irreal; têm corpo e podíamos ser nós, as nossas alucinações, as nossas verdades, as nossas confissões.
Em quase todas as histórias há um elemento que se repete: está calor para a época. Haverá alguma razão para isso? Pergunto. É o autor que é encalorado e dessa forma deixa a sua marca naquela narrativa, para além da genialidade da sua criação, de alguma forma, sem ser protagonista, mas deixa uma impressão digital? É coincidência? Ou estará a temperatura certa e os protagonistas ainda não deram conta? Mas se assim for, porque há a necessidade de o afirmar, de realçar esse calor desajustado?
Por outro lado, a tradução levanta mais problemas do que qualquer uma em línguas mais próximas, por via duma cultura enraizada que revela diferenças profundas: dois jovens universitários encontrarem-se para tomar chá pode ser ridículo, estranho, cómico, pode ser muitas coisas, mas que é estranho, é. Mas não no Japão…
E se a narrativa dos jovens que se encontram a beber chá pode parecer estranha, mas é real, já o facto de alguém ficar com os olhos em bico me parece a mim uma opção de tradução altamente incorrecta, uma vez que a expressão é ocidental e para referir precisamente os povos asiáticos, logo, não creio que eles se refiram a si próprios dessa forma. Presumo ter sido a forma escolhida para traduzir uma expressão idiomática, de espanto ou surpresa, que aqui resultou mal.
Não sou tradutora mas estas coisas fazem-me levantar os olhos da página pois sinto que não encaixam. A tradução de it's raining cats and dogs nunca poderá ser chovem gatos e cães e sim qualquer coisa como chove a potes, por exemplo.
Há necessidade de traduzir ideias e expressões onde o literal está muito afastado, mas neste caso, um japonês ficar de olhos em bico, parece-me abusado, demais.
Decididamente eu fiquei com os olhos iguais.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

FNAC: Festival Não À Cultura!

Estimada Dona Fnac
Sou sua cliente pontual, talvez reconheça o número do meu cartão multibanco, de quando pago as minhas compras.
Escrevo-lhe para a alertar sobre um engano cometido pelo vosso departamento de publicidade e marketing. Já pensei em fazê-lo várias vezes, quando colocam livros de Arte na Floricultura, porque na capa está uma planta, engano muito legítimo, e culpa do Autor que escolheu uma capa em nada adequada ao conteúdo e, que pensa ele?, que os seus funcionários estão aí para terem o trabalho de saberem o que está dentro dos livros? Ora esta…; ou quando os mesmos funcionários informam que determinados livros estão esgotados no Editor, logo não podem fazer a encomenda e, coincidência, quem faz a pergunta, ali de carninha e ossinho, é o próprio Editor…; ou ainda quando pedimos uma edição em língua inglesa e os mesmos funcionários nos perguntam – muito legítimo! – se há a portuguesa, para que quero eu a inglesa…?
Mas sabe Dona Fnac, este engano em particular pode ser confundido com ignorância total da sua parte, o que está completamente fora de causa, como é óbvio.
Refiro-me à publicidade onde se lê Troque os Maias pela Meyer e, devo frisar, a ideia de brincar com as iniciais dos nomes, é genial, brilhante, épica! Nunca alguém se lembraria duma coisa assim e está visivelmente de parabéns. Imagino que tenha sido uma gralha da gráfica pois não me ocorre que o pedido tenha seguido assim, pois os Maias, embora português, é ouro puro, e a Meyer é sangue estragado, não serve para transfusões, cabidela, chouriços de sangue, sarapatel, surraburra, ou outros fins; o que fica, a essência que permanece, é uma grande nódoa, dificílima de tirar.
Além disso, Senhora Dona Fnac, será que a cultura se renova mesmo? Depende da cultura, verdade? A sua é a cultura do cifrão e acredito que se renove, mas na minha perspectiva quando fala em renovar, refere-se a trocar, a substituir e pede-me que troque um grosso cordão de ouro por uma imitação de bugiganga, pede-me que troque uma garrafa de água cristalina por um bidão de água pantanosa.
Eu até gosto de mostrar a minha boa vontade e não me importava de participar na sua campanha, mas não tenho por hábito nem deitar fora restos de arroz, muito menos o conteúdo da minha caverna de Ali Babá, logo não tenho nada para a troca… além disso, teria que pagar com notas do Monopólio, sabe, é que são as únicas que estão à altura da presente proposta.
Cordialmente
Areia às Ondas

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Aniversário

Até há meia dúzia de anos comemorava os meus anos de forma saborosa, leve e gratificante. Depois aconteceu ter calhado o funeral duma pessoa que prezo muitíssimo, um primo, no dia do meu aniversário. Foi um dia de muitas, muitas lágrimas, de profunda tristeza e mágoa, foi um dia inesquecível, dentro do pior que há.
No ano seguinte no mesmo dia morreu um jovem muito próximo de nós, que não sendo primo era como se fosse e a morte na juventude é sempre uma coisa não só inexplicável como revoltante.
Dois ou três anos depois decidi organizar um jantar de aniversário que tinha várias valências: fazer uma surpresa aos meus pais (que estão sempre de parabéns quando os filhos fazem anos); juntar família que não se via há algum tempo, misturá-los com os amigos e fazer aquilo que é tradição em todo o mundo: uma comemoração à mesa.
Mas quis o destino que o restaurante eleito estivesse fechado naquele dia e o substituto foi a pior escolha possível, da qual nem me quero lembrar…
Ora, calhei a fazer anos ontem, novamente. Não dei notícia disso e o dia passou-se como qualquer outro, embora o telefone tivesse começado a tocar às oito – a minha sobrinha – e tivesse recebido o último contacto com o mesmo propósito às 10 da noite. Como não assinalo o aniversário na página do facebook, onde se recebem e se dão parabéns a amigos virtuais que nunca vimos, não recebi mensagens. Porém, dando-lhe uma espreitadela, como sempre faço todos os dias, vi uma mensagem duma colega de trabalho a glorificar um sobrinho que fazia anos e comentei a verdade: gosto de saber de pessoas que fazem anos no mesmo dia que eu.
Vendo o meu comentário, ela teve a gentileza de me desejar parabéns na minha página pessoal dizendo que mais importante que algumas personalidades que nasceram no dia 24 de Janeiro, como o Imperador Adriano, Beaumarchais, Frederico II da Prússia, Sharon Tate, Nastassja Kinski e tantos mais, eu era mais importante que todos eles.
Para quem me ama sou com certeza mais importante, mas para todos, sejam quem forem, espero sempre poder fazer alguma diferença.

A arte de matar dragões

Ignacio del Valle é o autor duma trama que ganhou o Prémio Felipe Trigo de Novela. Li-o em português, edição da Porto, e arrependi-me de não ter usado uma edição castelhana: há expressões, palavras, invisibilidades muito palpáveis que não senti, apesar de suspeitar que estavam lá.
Não foi tanto o trabalho de Alcinda Marinho, a tradutora, mas antes a tarefa de revisão – perdoem-me por não ter apontado se o livro teve revisor, mas foi emprestado e já não o tenho. Faltam elementos de ligação nas frases, como se fosse aquele jogo em que se eliminam letras das palavras e, mesmo assim, conseguimos ler sem perder o norte do conteúdo. Desapareceu um e aqui, um da ali e por aí fora.
Por outro lado, Robert Taylor virou Robert Tailor… se foi assim que o autor escreveu (??) a tradutora devia ter incluído um N.T. dizendo isso mesmo, caso contrário é bizarro que tenha saído assim.
Por outro lado, Arturo Andrade, o protagonista, é novo demais para certos pensamentos, atitudes, conclusões, o que faz com que a menção à sua idade pareça um elemento irreal na narrativa.
Ainda assim, a mescla entre a arte a Guerra Civil, as andanças do espólio do Prado por aqueles caminhos desviantes, que levam onde não se espera e onde não se quer, merece ser lida e aplaudida, embora esperasse mais.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Os Descendentes… com banda sonora

As manhãs do fim-de-semana foram passadas a caminhar, auscultadores nos ouvidos, para me actualizar na música que o Duarte ouve. Domingo à tarde fui ao cinema. Péssima ideia, péssima…
Fiquei na terceira cadeira a contar da coxia e os dois lugares antes eram ocupados por um casal entre os cinquenta e os sessenta anos. Enquanto a sala se enchia e acomodava a senhora falava baixo com o marido e perguntava-se porque razão é que as pessoas não chegam a horas e têm que estar a incomodar os que estão sentados, parecendo que os últimos são sempre os que ocupam os lugares do meio das filas.
Às tantas entrou um bando de jovens – certamente atraídos pela publicidade das belas paisagens do Havai e que, pessoalmente, não achei que fossem exploradas como badalaram – e a senhora, vendo entrar as gargalhadas e a descontracção, comentou que era por aquilo que gostava de ir ao cinema à noite.
Eu nem olhava para eles mas ia concordando mentalmente e registei que o casal não tinha pipocas, coca-colas ou quejandos, tal como eu, que apenas me munira em casa da eterna garrafa de água.
Todas as apresentações foram passadas em silêncio, ninguém percebeu porquê, o que realçava o barulho da sala e me fazia aborrecer. No último minuto, já com os Marretas no ecrã, para fazer ver a todo aquele púbico que quem atende telefones, envia mensagens ou incomoda os outros é um Marreta a abater, lá veio o som, o Clooney, a água transparente, uma ou outra paisagem mais de fazer água na boca, as rebeldias das filhas e a incapacidade do pai lidar com elas. E, estranhamente, como resquício do início da sessão ficou a senhora a meu lado a falar com o marido, a aclarar a garganta – movimento ainda mais irritante quando o marido fazia coro com ela! – a ver mensagens acabadas de receber no telefone e a explicar ao marido o que ia acontecendo quando ele dizia, com o ar mais normal do mundo e típico do sofá da sala ‘Agora não percebi’, como se a trama fosse sobre engenharia nuclear.
A estas horas já eu tinha olhado para ela fixamente duas ou três vezes o que a fez remexer-se na cadeira.
Para animar ainda mais um cavalheiro três ou quatro filas acima dava gargalhadas épicas em todas as cenas tristes do filme, o que fazia várias filas inteiras esticarem o pescoço para trás em sintonia para ver de onde vinha a alarvidade.
Quando o filme acabou olhei a senhora fixamente de novo e esperei que me perguntasse o que queria para que lhe respondesse que pretendia fixar a cara dela para nunca mais me sentar a seu lado no cinema. Mas ela baixou os olhos e saiu apressada, arrastando o marido.
Vivam as sessões da meia noite!

O mundo numa casa de banho

Quando andava no liceu e estudei alguns clássicos portugueses fiquei danada com Almeida Garrett. Segundo a professora as Viagens na Minha Terra foram escritas sem sair do quarto!
A minha ansiedade por ler um livro que tinha a palavra 'viagens' no título era grande e fiquei sempre com a sensação de fraude. Odeio a Joaninha desde essa altura...
Agora tenho um mapa do mundo na minha casa de banho, cortesia dos meus sobrinhos no Natal, e podemos abrir a torneira com um olho na Sibéria, tomar duche e molhar o deserto do Sahara, lavamos os dentes sob a supervisão do Alaska e fazemos tudo o que se faz numa casa de banho com o mundo a olhar-nos.
Como é que uma coisa tão simples pode fazer os dias começarem de forma diferente? E por diferente leia-se, melhor! Ver o mundo num quadrado de três por três metros dá-nos uma sensação de poder, como se pudesse decidir que quando abro a porta daquele minúsculo compartimento posso ir a qualquer daqueles sítios... Só não percebo porque escolho sempre o mesmo... Lisboa, ali a meia dúzia de passos do Marquês de Pombal.
O que teria escrito Garrett se tivesse uma cortina de duche como nós?

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Viva o Parlamento Europeu!

Conversa entre duas pessoas no metro, enquanto uma delas folheia um jornal gratuito.
- Olha, mudou o Presidente do Parlamento Europeu
- Quem?
- O Presidente do Parlamento… mudou…
- Mas não era uma mulher?
- Aqui diz que era um homem…
- Atão não era uma baixinha, de cabelo branco?
- Isso é cá e isto é na Europa
- Ah pois, eu da Europa não percebo nada.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Velhos, são só os trapos?

Domingo de manhã. Regressada das compras vejo uma ambulância do INEM parada à minha porta. Entro com os sacos e vejo que foi chamada para o rés-do-chão. Os bombeiros preparam-se para levar o velhote que ali mora para o hospital. Pergunto à senhora que está à porta o que se passa com o marido. Ela esclarece-me que é a pessoa contratada pelo filho para tomar conta dele de noite, que não é da família. Peço desculpa alegando ignorância, ela sorri dizendo que não faz mal, que muita gente pensa que são marido e mulher e termina a conversa com ansiedade dizendo que tem que chamar um táxi para a levar ao hospital, pois não pode ir na ambulância. Prontifico-me imediatamente para a levar. Subo na velocidade do elevador, deixo os sacos e informo o Duarte em três palavras.
Quando desço já a ambulância vai em velocidade de cruzeiro e a senhora começa um rosário de agradecimentos, com explicações pelo meio e muita amargura a toda a volta.
O filho não pode dar apoio ao pai porque vive na Alemanha, e para isso a contratou a ela, que dorme todas as santas noites na casa do Sr. G., com a missão de zelar por ele, levá-lo à casa de banho e fazer-lhe o almoço, que ele toma sozinho. O jantar também o faz, quando entra ao serviço.
As orientações que tem se acontecer uma urgência é avisar o irmão mais novo do Sr. G. Foi o que fez ligando para casa dele, telefone 21 etc., etc., e do qual ele lhe respondeu repetindo o que a senhora lhe dizia, Ai ele vai para o hospital? Mas agora? Olhe que maçada, logo agora que estou em Lisboa a tratar dum assunto e não posso ir...
A senhora estava amarga com quem tinha tido o desplante de lhe responder assim, Pois se mora na Amadora, a dizer-me que estava em Lisboa...
Porém, de acordo com as mesmas orientações, em segundo lugar deverá ligar a uma sobrinha que mora igualmente a 10 minutos de carro. Mas, ele há coincidências do diabo..., não é que a sobrinha tinha planeado ir almoçar fora com a filha e não lhe dava jeito agora ir ao hospital?
A senhora que me contara o episódio do irmão com amargura e tristeza, contava agora o da sobrinha com acidez e acrescentava que quando se é velho é-se um monte de trampa.
As minhas tentativas para discordar dela foram fracas porque também eu sentia raiva de pessoas que nem sei quem são. Como se as informações não chegassem, ela acrescentou ainda que tinha a certeza que lhe atendiam o telefone apenas por um motivo: o Sr. G. tinha uns dinheiritos, pois claro, que a sobrinha vinha reclamar em dias de festa, natais e páscoas, alturas em que aparecia com doces que o tio não podia comer. Nas mesmas alturas apareciam sobrinhos que o Sr. G. nem se lembrava que tinha.
Já à porta do hospital a senhora atendeu a filha a quem explicou os motivos de não estar ainda em casa, dizendo que não sabia a que horas chegaria e pedindo desculpa por não ter avisado. Explicou-me que estava de folga, mas tendo consciência, quem é pode ter folgas numa situação daquelas, perguntava-se.
Deixei-a e dei-lhe o número do meu telefone dizendo que não me custava ir buscá-la, que me chamasse quando estivesse despachada.
Eram nove da noite quando recebi o telefonema. Disse que tinha entrado em casa naquela hora, que a filha a fora buscar ao hospital, onde o Sr. G. ficara internado. Tinha acabado de ligar ao filho, na Alemanha, a quem tinha poupado a informação até saber do internamento. Agradeceu-me mais uma vez e em tom de desabafo informou que ninguém da família sequer lhe ligara o dia inteiro.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

O botão calão

A minha mãe telefona-me à noite a dizer que está a fazer um trabalho sobre calão alentejano e debita uma lista de palavras à qual eu acrescento mais duas ou três. Desligamos comigo a fazer a promessa que vou recolher mais calões e lhos direi.
Na manhã seguinte vou ao centro comercial tratar dum assunto da PT. A fila é grande e enquanto espero dou uma vista de olhos no corredor e acabo a entrar numa retrosaria onde tudo me faz andar para trás no tempo. A colecção de botões é magistral e como a minha mãe tem a mania de fazer roupa nova apenas com a mudança de botões telefono-lhe a dar conta da loja. Ela não está e o meu pai fica com o recado. Algumas horas depois ela devolve a chamada e a conversa foi a seguinte:
- Teu pai faz cada confusão…
- Ai sim? Então o que foi agora?
- Imagina tu que ele me disse que tu tinhas ligado a falar em botões! Não ouve bem este homem! Vê lá a confusão que ele arranjou… tu querias-me falar dos calões, não era?
- …
- Estás ai? Estás a rir do quê?

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

A crise na cabeça das crianças

O meu sobrinho joga com o pai um jogo de tabuleiro com conquistas, avanços e recuos. Às tantas faz batota e o pai reclama:
- Então… estás a brincar com a tropa, ou quê?
- Eu? A brincar com a troika? Deus me livre!

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Vai um cafézinho?

Na senda da minha decisão de deixar de pagar exageros a garganeiros que se querem aproveitar do nosso vício pelo café, às prestações trouxe a máquina, açúcar, copos (de plástico… desculpem lá…), um recipiente para guardar estas bugigangas todas e não dar ao gabinete de trabalho o ar de bar, e hoje decidi-me a ir comprar o café.
Pesquisei na internet a loja mais próxima e desloquei-me lá durante a hora do almoço.
Entrei também fugindo ao frio e nas minhas passadas (chamavam-me cem à hora no liceu…) já ia quase a atravessar a parede do prédio quando percebi que o faz favor, olhe, por favor, era para mim. Voltei atrás e enfrentei uma funcionária que estava a cinco metros da porta junto a um mini balcão que não tinha tido direito a qualquer atenção minha por não lhe ter visto cápsulas de café. Porém, tinha que lá parar, numa espécie de portagem, onde me perguntaram o que desejava, diga-se de passagem, com firmeza e sem simpatia, como se me estivessem a fazer um favor por me deixar entrar.
- Venho comprar café… posso entrar?
A minha ironia não surtiu qualquer efeito e a menina quis saber se eu tinha o meu cartão. Que não, não tinha. Mas não tem porque se esqueceu, ou é a primeira vez e ainda não tem, quis ela saber. Não estou muito habituada a que estranhos me perguntem assim, por dá cá aquela palha, sobre a minha primeira vez e disse que não era para mim. Assim sendo a menina recolheu uma das senhas (em cartão plastificado, bom material, caro) que supostamente era para fazer o cartão e apenas me deu uma para entrar na fila das aquisições.
Faltavam meia dúzia de pessoas. Avassalada com tanta cápsula, de tanta cor e sabor, agarrei uma coisa – não sei que nome lhe hei-de dar – em vidro, como se fosse um catálogo, com nomes e preços. Mais uns minutos e acendeu-se em todos os televisores que povoam as paredes um C 31, o meu número. Pedi Roma, descafeinado e outro com sabor a baunilha. Estendi o multibanco e a menina perguntou-me o número. Voltei a dizer que não tinha, que a compra não era para mim.
- Então faculte-me o número de telefone do dono da máquina, por favor.
Como? Pensei eu.
- Para quê?
- Para associarmos o pedido a uma pessoa e sabermos o que consome.
- Isso não é ilegal? Se eu não lhe der o número não posso levar o café?
A repetição da ironia voltou a não ter qualquer efeito e antes que lhe pudesse dizer o meu signo a menina, qual soldado, brindou-me com a seguinte pergunta:
- Está a dizer-me que não me vai dar o número?
Correndo o risco de aparecer alguém para me torturar, partirem-me um braço, aplicarem-me um golpe de karaté ou porem-me na rua, respondi:
- Estou a fazer o pagamento e que eu saiba a mais não sou obrigada.
Sem me olhar agarrou no cartão, o pagamento foi feito, o saco com os tubos de café foi-me entregue e eu fui-me embora.
Decididamente tanto salamaleque não é para mim e lembrei-me de Maria Antonieta que ontem tinha estado a rever. As cenas das refeições sempre me impressionaram imenso e, tal como os pressupostos que fazem com que se comprem tantas revistas ditas cor-de-rosa são a frustração de não se pertencer àquele mundo, também aqui registei um atendimento e acolhimento que se quer bom e de qualidade mas, bastam dois dedos de testa para se perceber, acaba por ser ridículo e extravagante.
Acredito que existam pessoas que se sentem bem naquele teatro e que adorariam que lhes dessem o café à boca e, assim, continuarão a existir lojas deste calibre e gabarito.

Em limpezas

O ano que passou foi fértil em conhecer pessoas. Não que tivesse conhecido muita gente que não conhecia antes, mas fiquei a conhecer melhor algumas das que, por um motivo ou outro, se cruzavam na minha vida.
Normalmente não se gosta de pessoas mentirosas, falsas, hipócritas, mesquinhas, invejosas e outras que se possam igualmente indexar a escalões similares. Eu também não gosto de gente estúpida e fraca.
Já diz o ditado que dos fracos não reza a história e uma das características da fraqueza é a incapacidade de não pensar por si próprio, a inabilidade de se recolher a solilóquios reflectivos com o espelho em busca da verdade, da sua verdade... mesmo que seja mentira.
A fraqueza é a falta de contraceptivo que faz emprenhar pelos ouvidos, que tira o descernimento e faz acreditar naquilo que se quer, naquilo que dá jeito. Se as pessoas que semeiam intrigas não são de confiança, os que lhe dão ouvidos sem se darem ao trabalho de espoletar uma conversa esclarecedora, não são melhores. São fracos.
Mas piores ainda que estes são os que constituem uma terceira linha e que ouviram o que se diz e, assim, sem mais sem menos, acreditam! É a sinergia da maldade.
Estes comportamentos no domínio daquilo que se tem por garantido como amizade são confusos e consubstanciam um roubo: dos relacionamentos e dos conceitos, porque afinal o que se pensava que era, não é.
Assim, e para não fazer crescer limbos, fiz uma limpeza por escrito e disse o que me vai na alma, sabendo que a partir de agora os novos relacionamentos serão objecto de estudo aturado e muitos exames antes de passarem de classe. Se estes actos criam tristeza, por outro lado proporcionam alívio, e uma resiliência ainda maior que o costume.
Há dias vi um filme sobre palavras esquisitas e uma delas era tutela. Dizia uma criança que significava tomar conta. As amizades são feitas de tutela e quando esta se demite da sua função, é porque a amizade sofria de falta de oxigénio.
No livro que ando a ler menciona-se a palavra mais longa do dicionário: agonia. Façamos de tudo para a afastar das nossas vidas, dediquemo-nos à leitura - que dá bons temas de conversa! - e sejamos honestos connosco próprios.
Namasté.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Uma opinião sobre O Último Segredo

Haverá pessoa que cative mais nas suas alocuções do que o Prof. José Hermano Saraiva? A sua estatura é oposta à estatura das suas conquistas, Napoleão feito cronista oral da História de Portugal e dos portugueses por esse mundo.
O Prof. JHS é o deus da oralidade, vemo-lo na televisão e pensamos ver a História de Portugal em linguagem gestual que, com uma forma muito própria, agarra ouvintes. Adora uma boa lenda que, dita muitas vezes, se transforma numa verdade com selo e tudo. É o grande divulgador, fala para massas, e o discurso tem obrigatoriamente que contemplar os que sabem o significado de 1143, os que dão valor máximo na História aos cognomes dos monarcas, os que consideram que alguém é um sábio digno de respeito com joelho no chão e tudo quando sabe de cor e salteado a genealogia real, embora não saiba perscrutar os caminhos económicos ou sociais aqui do jardinzinho. A linguagem tem que se adaptar a uma média de pessoas e evitam-se palavrões como miscigenação ou ostracizar (não, não é a técnica de apanhar ostras), ou seja, no entendimento da mensagem têm que caber todos os ouvintes. As televisões estão cansadas de saber como se faz, os média em geral sabem a cartilha toda.
Se a ‘coisa’ fosse escrita outro galo cantaria. É que a palavra escrita aloja-se, fica ali, deixa marca e não podemos dizer, ah, foi uma gralha e tal… ah, foi o revisor, aquele malandro… não senhor. Nos livros, para além de faltar o apoio do gesto, mantém-se a necessidade de esclarecer o destinatário, neste caso, o leitor.
Como é óbvio há várias maneiras de o fazer e uma delas é partir do princípio que o leitor é um tolinho a quem tem de se explicar tudo, incluindo longas deambulações por pormenores, mais ou menos ‘técnicos’ e, não contente, repetindo-os! Só assim garantimos que o nosso livro é percebido por todos desde o totó ao ‘senhor doutor’.
Também pode ser manobra comercial para aumentar o número de potenciais compradores, mas aí o Autor está a escrever batatas e não livros, está a fazer cadeiras de diferentes cores, para totós, desculpem, para todos os gostos e talvez fosse boa ideia enviar um currículo para a Ikea.
Nesta linha de escrever para totós, para fazer chegar a informação ao leitor o Autor arranja as formas mais disparatadas que, frequentemente, são as menos credíveis. Será que se dá conta? Umas vezes sim, outras não. No primeiro caso, sabe também que está em jogo aquela malta que pode comprar o livro para fazer estante…, no segundo caso, é mais grave pois se escreve como se o fizesse para si, então algo vai mal no reino da Dinamarca… Mas se pensarmos que o público inclui os telespectadores da Casa dos Segredos, está perfeito! Tem que ser tudo explicado, explicadinho… enfim, é assumidamente para totós!
Assim sendo, aos escritores – e não só – bastam-lhes as vendas chorudas. Se introduzisse aqui uma nota de rodapé, ao jeito dos livros de Direito, diria: Sobre este assunto ver também Paulo Coelho, entre outros. Porém, são campeões de vendas! Indiscutível. Mas como bibliófila, como amante de livros e da escrita, como crítica também, mas acima de tudo como Leitora, tenho que mencionar que há livros que são uma fraude: uma fraude nas traduções, uma fraude nas revisões, uma fraude enquanto livros, porque me desapontam, não me desiludem, porque com certos autores já não tenho ilusões mas, ainda assim, conheço muitas pessoas que compram a banha da cobra. Embora não dite comportamentos ou acções seja de quem for, mas a minha consciência diz-me para avisar.
Já tinha lido José Rodrigues dos Santos e não tinha gostado, nomeadamente A Fórmula de DeusO Sétimo Selo. A leitura do segundo confirmou o que pensava do primeiro: excessiva repetição de explicações científicas, como se o acto do repete-repete-repete, como quem decora, fosse mais esclarecedor quando, no fundo, é aborrecido e, a bem da verdade, é sinal de que os leitores são uns tolinhos.
Conhecedora dos meus gostos, uma amiga pôs-me O Último Segredo na mão, de empréstimo, e pediu-me opinião sobre o romance.
A construção de personagens é fraca, fraquíssima, fazendo lembrar os filmes que parodiam outros filmes e que pretendem ser sátiras de alguma coisa. Há um aflorar, nunca um aprofundar, do interior das personagens, e a sua solidez esbate-se como barro misturado com água.
JRS escreve para tontos, com personagens tontas – um historiador que vê palhaços no Vaticano e só depois se lembra que são os guardas suíços? Ainda por cima está a fazer trabalho de arqueólogo… e se se lembra de dar um osso ao cão? Mas apesar de ser muito inteligente e ter conhecimentos acima da média estranha quando lhe falam em ADN fóssil… Estranho…
Valentina Ferro é inspectora da Polizia Guidiziaria. Está no local do crime – no interior do Vaticano – com ‘dois guardas suíços, três carabinieri, dois religiosos e mais umas pessoas à paisana’. Não há alguém do Corpo della Gendarmeria, a polícia da Cidade do Vaticano. Estranho…
A inspectora é uma pessoa crente em tudo o que lhe dizem, violando o espírito de polícia que, por norma, ouve para reflectir e mais tarde decidir. Valentina vai acreditando em tudo o que Tomás diz, atrapalha-se com frequência perante a eloquência deste, engasga-se, não questiona nada, fazendo desaparecer a perspectiva científica dum agente da Judiciária. Estranho…
A mesma personagem não se exalta: entra em fúria, o que acontece várias vezes ao longo da narrativa! Se por um lado, vai acreditando em tudo o que ouve, por outro, tem lampejos esquisitos e saídas nada dignas de uma Judite: “Oh, não diga isso” é o melhor que consegue para ripostar sobre uma incongruência da Bíblia. É a personagem palerminha do livro que oscila entre atitudes infantis (perante letras gregas afirma: “Parecem sinais alienígenas, daqueles que vemos desenhados nas naves dos extraterrestres em filmes de ficção científica. Star Treck e coisas do estilo”), caprichosas (“Problemas? Que problemas? Dio mio, lá está você a complicar”), birrentas (“Eu estou calma ouviu?”, quase gritou a italiana. “Não me enervo facilmente! Não sou dessas! Mesmo quando por vezes tenho motivos para me enervar. Como quando escuto certas alarvidades!...“), completamente estúpidas (“Tomás fitou-a com intensidade, para sublinhar o significado das suas palavras. ‘O reino de Deus irá ser instituído já amanhã’. ‘Amanhã?’ Interrogou-se Valentina, verificando no relógio o dia em que estavam”). Estranho…
A memória do académico português (expressão repetida à exaustão até cerca de meio do livro e depois abandonada, para se usar mais uma vez lá para o final) é fabulosa no que se refere aos versículos da Bíblia. O Autor não encontrou outra forma de fazer chegar a informação ao leitor e põe o protagonista, qual evangelista, a citar a Bíblia. Como ele próprio considera isto uma atitude estranha – nem os Jeovás! - tenta dar credibilidade ao facto colocando uma personagem a dizer isso mesmo. Não atinge o objectivo mas consegue abrir buracos na personagem do historiador ‘criptanalista e perito em línguas antigas’.
A minha personagem favorita neste livro lembra Johnny English: Sicarius é o assassino mais trapalhão da história da literatura. Apanha táxis a caminho dos alvos, perde-se, pergunta a quem passa, pára em quiosques e faz mais perguntas, comportamentos completamente anormais para a sua posição secreta e sigilosa. Embora seja descrito como “… um autómato, uma máquina programada para cumprir a sua missão, fosse qual fosse o preço” mas depois contacta com o Mestre (que falta de imaginação no nome!) por telemóvel e este envia-lhe os planos dos assassinatos por e-mail, mas nem lhe deu uma gazua, obrigando o pobre a roubar a chave mestra na sala das empregadas de limpeza! Mas a cereja em cima do bolo atinge-se quando o Mestre lhe dá instruções por telefone, instruções essas que ele anota num bloco de notas que trás no bolso juntamente com uma caneta. O zénite é dividido por dois momentos: um, quando ambos s…o…l…e…t…r…a…m o nome duma Biblioteca a que optam por chamar Library e outro quando o Mestre se exprime ao telefone manifestando alívio através da palavra Ufa... Hilariante!
Convenhamos que uma ‘entidade’ como um Mestre deste gabarito se descredibiliza ao usar um tão vulgar Ufa…
Na página 40 do livro está outra aberração: o Codex Vaticanus fica ao alcance de todos quantos por ali deambulam, põe-se-lhe o dedo em cima para melhor se indicarem as leituras, bebe-se água nas imediações, enfim, é um forrobodó que nos traz de novo Johnny English à memória, numa sucessão de improbabilidades, (para não se lhe chamar impossibilidades) que criam osteoporose na narrativa. Já a leitura do Codex sem acompanhamento é uma fantasia, e a acontecer alguma coisa do género, seria imediatamente retirado por um batalhão de centuriões bibliotecários do Vaticano… antes de chamarem a Polícia, qualquer Polícia que fosse…
Muitas páginas adiante deita-se o protagonista numa cama do hospital Bikur Holim em Jerusalém, onde abre a gaveta da mesinha de cabeceira e tira uma Bíblia de onde lê excertos do Novo Testamento. Num Hospital que observa a dinâmica judaica com todo o rigor – só os não judeus trabalham ao sábado e até o aquecimento das refeições é pré-programado para esse dia sagrado – porque razão teriam Bíblias com o Novo Testamento nas gavetas dos quartos?
Na contra capa, uma afirmação atribuída ao holandês Tros Nieuwsshow, diz: ‘Melhor que Dan Brown’. E quem é este holandês? É um programa de rádio semanal que acorda os ouvintes às 8 e meia da manhã de sábado e, com certeza tem alguém que fala português, uma vez que o livro não está traduzido para holandês. Estratégia de marketing da editora, eu sei, eu sei… todos o fazem.

Quis-se acentuar a questão religiosa e deixou-se um pouco ao acaso a musculatura do enredo, deixando mais buracos que a Estrada da Morte na Bolívia.
Os autores que pretendem fazer divulgação científica, pseudo, o que queiram, devem escrever manuais, artigos que submeterão a revistas da especialidade, entre outros, mas a escrita dum romance implica a assumpção de certos pressupostos que aqui se encontram ausentes.
Por outro lado, e em termos formais, a Editora devia saber que o excesso de aspas para indicar os discursos directos é prejudicial à fluidez da leitura, povoada assim por elementos gráficos absolutamente desnecessários.
Da nota inicial 'Todas as citações de fontes religiosas e todas as informações históricas e científicas incluídas neste romance são verdadeiras' esperava-se uma bibliografia final bem organizada e completa, por dois motivos: primeiro porque o tom afirmativo da nota inicial indiciava que assim seria e, nestes casos, só é verdadeiro o que se prova; em segundo lugar, pela delicadeza do tema, digamos assim, que suscitaria dúvidas e necessidade de credibilidade documental. 
Porém, a nota incial tem eco na nota final que descreve nomes de autores e títulos, sem qualquer referência bibliográfica, e ainda se afirma "Toda a informação relativa ao processo de clonagem (...) encontra-se disponível em toda a literatura científica relacionada com o assunto".
É caso para dizer, Obrigadinha José... havia de ser relacionada com quê?
Edição da Gradiva, 2011

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Os últimos serão os primeiros

Há dias ajudei uma amiga a fazer um trabalho sobre as razões da mudança semestral das horas, em Março e em Outubro. Mais tempo útil diurno, poupança energética, maior uso de energia solar, coisas de somenos importância quando comparadas com a possibilidade de estarmos mais tempo nas esplanadas ao fim do dia.
Andamos ao toque dos relógios atómicos que se escondem em bunkers por essa Europa fora, todos os países os têm, e são eles que dizem a hora certa.
Em finais do século XVIII Benjamin Franklin pôs-se a fazer contastrês vez nove, vinte e sete, noves fora nada… - e deu conta da possibilidade de se pouparem toneladas de cera de vela se se mexessem nos relógios.
Hoje em dia, para além de estar provado que há menos criminalidade durante a hora de Verão, e os dias serem maiores dando mais oportunidades à execução de tarefas como passar a ferro ou varrer a casa, há a questão da Bolsa… abrir e fechar a Bolsa sem ser à hora certa pode dar origem a prejuízos de alguns milhões. Assim, bancos, transportes e empresas várias andam direitos que nem fusos, à espera da badalada que os porá a correr, como tiro de partida.
É tanto assim que a velha e boa Samoa, a querida Samoa, através do seu querido e nada controverso governante Tuilaepa Sa'ilele Malielegaoi, Tutu para os amigos, desistiu do dia 30 de Dezembro para alinhar os negócios com a Austrália e Nova Zelândia. Assim passaram de 29 para 31 de Dezembro, eles que ficam ali ao lado, mas cujo fuso horário os deixou um dia no século passado quando os vizinhos do lado já cantavam as glórias do século actual. Está mal, isto não se faz! Há algum tempo, o mesmo governante decidira passar a conduzir à esquerda para facilitar o aumento da importação de carros e parece que aumentou também a sinistralidade rodoviária, mas isso é outra conversa.
A Samoa faz-me lembrar Santo Aleixo da Restauração, aldeia do Baixo Alentejo, que consta no obelisco da Praça dos Restauradores, em Lisboa, como tendo tido importante participação nas guerras da altura, quando ganhou o apelido ‘da Restauração’.
Reza a lenda que se preparava o padre para dar a bênção num casório quando se anunciam tropas inimigas nos arrabaldes de Santo Aleixo. A sede de concelho, Moura, ficava a mais de duas dezenas de quilómetros, mas era preciso ser avisada da proximidade dos meliantes.
Monta-se a noiva a cavalo e manda-se a Moura com as terríveis notícias; encerram-se as mulheres na igreja e ficam os homens de fora a dar luta aos castelhanos, sabendo que não os venceriam, mas que o atraso provocado seria suficiente para Moura se preparar. E assim foi. Morreram todos ou quase todos na vida real mas ficaram eternamente na História.
Mas Santo Aleixo não faz lembrar a Samoa pelas glórias militares: reza outra lenda que durante anos o mês de Abril trouxe ventos e chuvas tais que deu cabo das colheitas. A coisa foi de tal forma que os habitantes se recusaram até a dizer o nome do mês, enunciando as crianças na escola os meses da seguintes forma: Janeiro, Fevereiro, Março, o mês que não se diz, Maio, e por aí fora.
Há uma outra lenda que diz que a Rowling se inspirou aqui para criar o mito do Voldemort, aquele-cujo-nome-não-se-pode-dizer, mas não se confirmou nada até agora.
Mas o medo de Abril era tal que até se conta uma historieta segundo a qual ia uma família cigana com muitos filhos pela estrada fora e pediram boleia a um homem que viajava num carro de burro. O homem assentiu e todos subiram à excepção dum ciganito que, de tão pequeno, não conseguia erguer-se para entrar no carro. Um dos irmãos incentivou-o dizendo:
- Força Abrilito, força!
O dono do carro ouviu aquilo e quis saber o nome do gaiato. Quando lhe confirmaram que era Abril correu com eles todos do carro!
Abril voltou a entrar no vocabulário de Santo Aleixo com o 25 de Abril… com tanto mês, logo tiveram que escolher aquele mas, por outro lado, acabou com o estigma de os habitantes serem conhecidos como tendo um mês de atraso, coisa com que eram atormentados por todas as terras ali ao redor, que não perdiam oportunidades de o lembrar.
Assim, se Santo Aleixo viveu durante anos com um mês de atraso porque não pode a Samoa passar a viver com um dia adiantado? Além disso o novo fuso horário não foi escolhido numa base de ita nuita, ita noá, quem está livre, livre está e sim devido ao fomento de relações comerciais com vizinhos que não eram parceiros por incompatibilidade de calendário. Ali sim, via-se o dia de amanhã quando os samoanos olhavam na direcção da Austrália e os australianos miravam o passado quando visitavam a Samoa. Mais ainda, conseguiram um feito notável, eles que eram os últimos a passar de ano, agora inverteram a coisa!
É ou não verdade que os últimos serão os primeiros?

Mercados paralelos

Diz-se que em alturas de crise as pessoas se dividem em dois grupos: os que choram e os que aproveitam para vender lenços. Diz-se também que a letra chinesa que designa crise também mostra a oportunidade. Diz-se muita coisa… mas o certo é que já se vendem legumes porta a porta.
Os tradicionais pontos de venda nas estradas, de fruta, batata e outros comestíveis, aumentam agora: aumentam os pontos de venda e os clientes. Aumentam os roubos a mercearias – dois na semana do Ano Novo na mercearia onde costumo ir – aumentam os roubos legais com a subida dos preços.
Um dos produtos que consumo diariamente é café. Como também tenho as minhas manias gosto de o beber em sítios que me dizem alguma coisa: no metro porque têm um quadro com motivos relativos à apanha do café que gosto de ver enquanto o saboreio; no Marquês porque a funcionária é muito simpática; na Florença porque têm sempre o rádio ligado com música antiga.
Mas agora as coisas mudam… porque há locais que mantêm o cafezinho a 50 cêntimos, enquanto outros o aumentam para 65? Será que os que o vendem a 50 estão a perder dinheiro? Não me parece, logo, são os outros que são garganeiros e assim sendo vou apurar de simpatias e pinturas para outros locais, que os há por aí.
Mais, acho que acabaram os dias de inutilidade da máquina krups que tenho em casa: vou trazê-la e comprar cápsulas que venderei a preços razoáveis com copo de plástico incluído. O bar está aberto!

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Calendário

Fechei o calendário de 2011. Era de secretária, triangular, com belas imagens do Brasil, oferecido por amiga brasileira e que me acompanhou um ano inteiro, dizendo-me a que dia calhava 16 do mês que vem, quantos sábados tinha o próximo mês ou qualquer outra informação de datas. Também me ajudou a passar momentos lentos, fazendo-me sonhar com paisagens e imagens, como a de Junho, com o Museu de Arte Contemporânea de Niterói, aparentado com uma bela nave espacial.
Na cozinha lá em casa tinha um chinês e que me encantava pela grafia dos caracteres que são à confiança, ou seja, acreditamos que diz Janeiro, mas também pode dizer outra coisa qualquer pois não os sabemos ler.
Há calendários que são obras de arte – como os da Michelin, diriam muitas vozes – os da Coca-Cola de há umas duas décadas, que esperávamos ansiosos que aparecessem na parede do café do Sr. Paixão.
Abre-se agora o novo calendário e ouço a voz do meu pai, com décadas, a martelar no mesmo: o mundo acaba em 2012, mais concretamente a 12 de Dezembro!
- Como é que o pai sabe?
- Disseram os Maias!
Ouvido isto voa-me a imaginação directamente para o Eusebiozinho, que se vestiu de anjo e acabou desasado com as penas a fugirem enquanto se escondia num reposteiro.
- Mas eu li os Maias e não me lembro de falarem em 2012…
- Não são esses Maias, são os da América do Sul…
- Ah…
Assim esclarecida, e passados anos penso que deve haver poucos objectos tão ecléticos no que diz respeito a imagens, com paisagens, crianças, animais, logótipos de empresas, mas fico sempre na dúvida sobre o que levará a palma de ouro: os motivos religiosos ou um belo par de mamas? Decido-me pelas mamas, por serem universais como é óbvio!
Porém, face ao fim do mundo iminente vou arranjar um calendário com Nossa Senhora de Fátima!