sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

O botão calão

A minha mãe telefona-me à noite a dizer que está a fazer um trabalho sobre calão alentejano e debita uma lista de palavras à qual eu acrescento mais duas ou três. Desligamos comigo a fazer a promessa que vou recolher mais calões e lhos direi.
Na manhã seguinte vou ao centro comercial tratar dum assunto da PT. A fila é grande e enquanto espero dou uma vista de olhos no corredor e acabo a entrar numa retrosaria onde tudo me faz andar para trás no tempo. A colecção de botões é magistral e como a minha mãe tem a mania de fazer roupa nova apenas com a mudança de botões telefono-lhe a dar conta da loja. Ela não está e o meu pai fica com o recado. Algumas horas depois ela devolve a chamada e a conversa foi a seguinte:
- Teu pai faz cada confusão…
- Ai sim? Então o que foi agora?
- Imagina tu que ele me disse que tu tinhas ligado a falar em botões! Não ouve bem este homem! Vê lá a confusão que ele arranjou… tu querias-me falar dos calões, não era?
- …
- Estás ai? Estás a rir do quê?

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

A crise na cabeça das crianças

O meu sobrinho joga com o pai um jogo de tabuleiro com conquistas, avanços e recuos. Às tantas faz batota e o pai reclama:
- Então… estás a brincar com a tropa, ou quê?
- Eu? A brincar com a troika? Deus me livre!

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Vai um cafézinho?

Na senda da minha decisão de deixar de pagar exageros a garganeiros que se querem aproveitar do nosso vício pelo café, às prestações trouxe a máquina, açúcar, copos (de plástico… desculpem lá…), um recipiente para guardar estas bugigangas todas e não dar ao gabinete de trabalho o ar de bar, e hoje decidi-me a ir comprar o café.
Pesquisei na internet a loja mais próxima e desloquei-me lá durante a hora do almoço.
Entrei também fugindo ao frio e nas minhas passadas (chamavam-me cem à hora no liceu…) já ia quase a atravessar a parede do prédio quando percebi que o faz favor, olhe, por favor, era para mim. Voltei atrás e enfrentei uma funcionária que estava a cinco metros da porta junto a um mini balcão que não tinha tido direito a qualquer atenção minha por não lhe ter visto cápsulas de café. Porém, tinha que lá parar, numa espécie de portagem, onde me perguntaram o que desejava, diga-se de passagem, com firmeza e sem simpatia, como se me estivessem a fazer um favor por me deixar entrar.
- Venho comprar café… posso entrar?
A minha ironia não surtiu qualquer efeito e a menina quis saber se eu tinha o meu cartão. Que não, não tinha. Mas não tem porque se esqueceu, ou é a primeira vez e ainda não tem, quis ela saber. Não estou muito habituada a que estranhos me perguntem assim, por dá cá aquela palha, sobre a minha primeira vez e disse que não era para mim. Assim sendo a menina recolheu uma das senhas (em cartão plastificado, bom material, caro) que supostamente era para fazer o cartão e apenas me deu uma para entrar na fila das aquisições.
Faltavam meia dúzia de pessoas. Avassalada com tanta cápsula, de tanta cor e sabor, agarrei uma coisa – não sei que nome lhe hei-de dar – em vidro, como se fosse um catálogo, com nomes e preços. Mais uns minutos e acendeu-se em todos os televisores que povoam as paredes um C 31, o meu número. Pedi Roma, descafeinado e outro com sabor a baunilha. Estendi o multibanco e a menina perguntou-me o número. Voltei a dizer que não tinha, que a compra não era para mim.
- Então faculte-me o número de telefone do dono da máquina, por favor.
Como? Pensei eu.
- Para quê?
- Para associarmos o pedido a uma pessoa e sabermos o que consome.
- Isso não é ilegal? Se eu não lhe der o número não posso levar o café?
A repetição da ironia voltou a não ter qualquer efeito e antes que lhe pudesse dizer o meu signo a menina, qual soldado, brindou-me com a seguinte pergunta:
- Está a dizer-me que não me vai dar o número?
Correndo o risco de aparecer alguém para me torturar, partirem-me um braço, aplicarem-me um golpe de karaté ou porem-me na rua, respondi:
- Estou a fazer o pagamento e que eu saiba a mais não sou obrigada.
Sem me olhar agarrou no cartão, o pagamento foi feito, o saco com os tubos de café foi-me entregue e eu fui-me embora.
Decididamente tanto salamaleque não é para mim e lembrei-me de Maria Antonieta que ontem tinha estado a rever. As cenas das refeições sempre me impressionaram imenso e, tal como os pressupostos que fazem com que se comprem tantas revistas ditas cor-de-rosa são a frustração de não se pertencer àquele mundo, também aqui registei um atendimento e acolhimento que se quer bom e de qualidade mas, bastam dois dedos de testa para se perceber, acaba por ser ridículo e extravagante.
Acredito que existam pessoas que se sentem bem naquele teatro e que adorariam que lhes dessem o café à boca e, assim, continuarão a existir lojas deste calibre e gabarito.

Em limpezas

O ano que passou foi fértil em conhecer pessoas. Não que tivesse conhecido muita gente que não conhecia antes, mas fiquei a conhecer melhor algumas das que, por um motivo ou outro, se cruzavam na minha vida.
Normalmente não se gosta de pessoas mentirosas, falsas, hipócritas, mesquinhas, invejosas e outras que se possam igualmente indexar a escalões similares. Eu também não gosto de gente estúpida e fraca.
Já diz o ditado que dos fracos não reza a história e uma das características da fraqueza é a incapacidade de não pensar por si próprio, a inabilidade de se recolher a solilóquios reflectivos com o espelho em busca da verdade, da sua verdade... mesmo que seja mentira.
A fraqueza é a falta de contraceptivo que faz emprenhar pelos ouvidos, que tira o descernimento e faz acreditar naquilo que se quer, naquilo que dá jeito. Se as pessoas que semeiam intrigas não são de confiança, os que lhe dão ouvidos sem se darem ao trabalho de espoletar uma conversa esclarecedora, não são melhores. São fracos.
Mas piores ainda que estes são os que constituem uma terceira linha e que ouviram o que se diz e, assim, sem mais sem menos, acreditam! É a sinergia da maldade.
Estes comportamentos no domínio daquilo que se tem por garantido como amizade são confusos e consubstanciam um roubo: dos relacionamentos e dos conceitos, porque afinal o que se pensava que era, não é.
Assim, e para não fazer crescer limbos, fiz uma limpeza por escrito e disse o que me vai na alma, sabendo que a partir de agora os novos relacionamentos serão objecto de estudo aturado e muitos exames antes de passarem de classe. Se estes actos criam tristeza, por outro lado proporcionam alívio, e uma resiliência ainda maior que o costume.
Há dias vi um filme sobre palavras esquisitas e uma delas era tutela. Dizia uma criança que significava tomar conta. As amizades são feitas de tutela e quando esta se demite da sua função, é porque a amizade sofria de falta de oxigénio.
No livro que ando a ler menciona-se a palavra mais longa do dicionário: agonia. Façamos de tudo para a afastar das nossas vidas, dediquemo-nos à leitura - que dá bons temas de conversa! - e sejamos honestos connosco próprios.
Namasté.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Uma opinião sobre O Último Segredo

Haverá pessoa que cative mais nas suas alocuções do que o Prof. José Hermano Saraiva? A sua estatura é oposta à estatura das suas conquistas, Napoleão feito cronista oral da História de Portugal e dos portugueses por esse mundo.
O Prof. JHS é o deus da oralidade, vemo-lo na televisão e pensamos ver a História de Portugal em linguagem gestual que, com uma forma muito própria, agarra ouvintes. Adora uma boa lenda que, dita muitas vezes, se transforma numa verdade com selo e tudo. É o grande divulgador, fala para massas, e o discurso tem obrigatoriamente que contemplar os que sabem o significado de 1143, os que dão valor máximo na História aos cognomes dos monarcas, os que consideram que alguém é um sábio digno de respeito com joelho no chão e tudo quando sabe de cor e salteado a genealogia real, embora não saiba perscrutar os caminhos económicos ou sociais aqui do jardinzinho. A linguagem tem que se adaptar a uma média de pessoas e evitam-se palavrões como miscigenação ou ostracizar (não, não é a técnica de apanhar ostras), ou seja, no entendimento da mensagem têm que caber todos os ouvintes. As televisões estão cansadas de saber como se faz, os média em geral sabem a cartilha toda.
Se a ‘coisa’ fosse escrita outro galo cantaria. É que a palavra escrita aloja-se, fica ali, deixa marca e não podemos dizer, ah, foi uma gralha e tal… ah, foi o revisor, aquele malandro… não senhor. Nos livros, para além de faltar o apoio do gesto, mantém-se a necessidade de esclarecer o destinatário, neste caso, o leitor.
Como é óbvio há várias maneiras de o fazer e uma delas é partir do princípio que o leitor é um tolinho a quem tem de se explicar tudo, incluindo longas deambulações por pormenores, mais ou menos ‘técnicos’ e, não contente, repetindo-os! Só assim garantimos que o nosso livro é percebido por todos desde o totó ao ‘senhor doutor’.
Também pode ser manobra comercial para aumentar o número de potenciais compradores, mas aí o Autor está a escrever batatas e não livros, está a fazer cadeiras de diferentes cores, para totós, desculpem, para todos os gostos e talvez fosse boa ideia enviar um currículo para a Ikea.
Nesta linha de escrever para totós, para fazer chegar a informação ao leitor o Autor arranja as formas mais disparatadas que, frequentemente, são as menos credíveis. Será que se dá conta? Umas vezes sim, outras não. No primeiro caso, sabe também que está em jogo aquela malta que pode comprar o livro para fazer estante…, no segundo caso, é mais grave pois se escreve como se o fizesse para si, então algo vai mal no reino da Dinamarca… Mas se pensarmos que o público inclui os telespectadores da Casa dos Segredos, está perfeito! Tem que ser tudo explicado, explicadinho… enfim, é assumidamente para totós!
Assim sendo, aos escritores – e não só – bastam-lhes as vendas chorudas. Se introduzisse aqui uma nota de rodapé, ao jeito dos livros de Direito, diria: Sobre este assunto ver também Paulo Coelho, entre outros. Porém, são campeões de vendas! Indiscutível. Mas como bibliófila, como amante de livros e da escrita, como crítica também, mas acima de tudo como Leitora, tenho que mencionar que há livros que são uma fraude: uma fraude nas traduções, uma fraude nas revisões, uma fraude enquanto livros, porque me desapontam, não me desiludem, porque com certos autores já não tenho ilusões mas, ainda assim, conheço muitas pessoas que compram a banha da cobra. Embora não dite comportamentos ou acções seja de quem for, mas a minha consciência diz-me para avisar.
Já tinha lido José Rodrigues dos Santos e não tinha gostado, nomeadamente A Fórmula de DeusO Sétimo Selo. A leitura do segundo confirmou o que pensava do primeiro: excessiva repetição de explicações científicas, como se o acto do repete-repete-repete, como quem decora, fosse mais esclarecedor quando, no fundo, é aborrecido e, a bem da verdade, é sinal de que os leitores são uns tolinhos.
Conhecedora dos meus gostos, uma amiga pôs-me O Último Segredo na mão, de empréstimo, e pediu-me opinião sobre o romance.
A construção de personagens é fraca, fraquíssima, fazendo lembrar os filmes que parodiam outros filmes e que pretendem ser sátiras de alguma coisa. Há um aflorar, nunca um aprofundar, do interior das personagens, e a sua solidez esbate-se como barro misturado com água.
JRS escreve para tontos, com personagens tontas – um historiador que vê palhaços no Vaticano e só depois se lembra que são os guardas suíços? Ainda por cima está a fazer trabalho de arqueólogo… e se se lembra de dar um osso ao cão? Mas apesar de ser muito inteligente e ter conhecimentos acima da média estranha quando lhe falam em ADN fóssil… Estranho…
Valentina Ferro é inspectora da Polizia Guidiziaria. Está no local do crime – no interior do Vaticano – com ‘dois guardas suíços, três carabinieri, dois religiosos e mais umas pessoas à paisana’. Não há alguém do Corpo della Gendarmeria, a polícia da Cidade do Vaticano. Estranho…
A inspectora é uma pessoa crente em tudo o que lhe dizem, violando o espírito de polícia que, por norma, ouve para reflectir e mais tarde decidir. Valentina vai acreditando em tudo o que Tomás diz, atrapalha-se com frequência perante a eloquência deste, engasga-se, não questiona nada, fazendo desaparecer a perspectiva científica dum agente da Judiciária. Estranho…
A mesma personagem não se exalta: entra em fúria, o que acontece várias vezes ao longo da narrativa! Se por um lado, vai acreditando em tudo o que ouve, por outro, tem lampejos esquisitos e saídas nada dignas de uma Judite: “Oh, não diga isso” é o melhor que consegue para ripostar sobre uma incongruência da Bíblia. É a personagem palerminha do livro que oscila entre atitudes infantis (perante letras gregas afirma: “Parecem sinais alienígenas, daqueles que vemos desenhados nas naves dos extraterrestres em filmes de ficção científica. Star Treck e coisas do estilo”), caprichosas (“Problemas? Que problemas? Dio mio, lá está você a complicar”), birrentas (“Eu estou calma ouviu?”, quase gritou a italiana. “Não me enervo facilmente! Não sou dessas! Mesmo quando por vezes tenho motivos para me enervar. Como quando escuto certas alarvidades!...“), completamente estúpidas (“Tomás fitou-a com intensidade, para sublinhar o significado das suas palavras. ‘O reino de Deus irá ser instituído já amanhã’. ‘Amanhã?’ Interrogou-se Valentina, verificando no relógio o dia em que estavam”). Estranho…
A memória do académico português (expressão repetida à exaustão até cerca de meio do livro e depois abandonada, para se usar mais uma vez lá para o final) é fabulosa no que se refere aos versículos da Bíblia. O Autor não encontrou outra forma de fazer chegar a informação ao leitor e põe o protagonista, qual evangelista, a citar a Bíblia. Como ele próprio considera isto uma atitude estranha – nem os Jeovás! - tenta dar credibilidade ao facto colocando uma personagem a dizer isso mesmo. Não atinge o objectivo mas consegue abrir buracos na personagem do historiador ‘criptanalista e perito em línguas antigas’.
A minha personagem favorita neste livro lembra Johnny English: Sicarius é o assassino mais trapalhão da história da literatura. Apanha táxis a caminho dos alvos, perde-se, pergunta a quem passa, pára em quiosques e faz mais perguntas, comportamentos completamente anormais para a sua posição secreta e sigilosa. Embora seja descrito como “… um autómato, uma máquina programada para cumprir a sua missão, fosse qual fosse o preço” mas depois contacta com o Mestre (que falta de imaginação no nome!) por telemóvel e este envia-lhe os planos dos assassinatos por e-mail, mas nem lhe deu uma gazua, obrigando o pobre a roubar a chave mestra na sala das empregadas de limpeza! Mas a cereja em cima do bolo atinge-se quando o Mestre lhe dá instruções por telefone, instruções essas que ele anota num bloco de notas que trás no bolso juntamente com uma caneta. O zénite é dividido por dois momentos: um, quando ambos s…o…l…e…t…r…a…m o nome duma Biblioteca a que optam por chamar Library e outro quando o Mestre se exprime ao telefone manifestando alívio através da palavra Ufa... Hilariante!
Convenhamos que uma ‘entidade’ como um Mestre deste gabarito se descredibiliza ao usar um tão vulgar Ufa…
Na página 40 do livro está outra aberração: o Codex Vaticanus fica ao alcance de todos quantos por ali deambulam, põe-se-lhe o dedo em cima para melhor se indicarem as leituras, bebe-se água nas imediações, enfim, é um forrobodó que nos traz de novo Johnny English à memória, numa sucessão de improbabilidades, (para não se lhe chamar impossibilidades) que criam osteoporose na narrativa. Já a leitura do Codex sem acompanhamento é uma fantasia, e a acontecer alguma coisa do género, seria imediatamente retirado por um batalhão de centuriões bibliotecários do Vaticano… antes de chamarem a Polícia, qualquer Polícia que fosse…
Muitas páginas adiante deita-se o protagonista numa cama do hospital Bikur Holim em Jerusalém, onde abre a gaveta da mesinha de cabeceira e tira uma Bíblia de onde lê excertos do Novo Testamento. Num Hospital que observa a dinâmica judaica com todo o rigor – só os não judeus trabalham ao sábado e até o aquecimento das refeições é pré-programado para esse dia sagrado – porque razão teriam Bíblias com o Novo Testamento nas gavetas dos quartos?
Na contra capa, uma afirmação atribuída ao holandês Tros Nieuwsshow, diz: ‘Melhor que Dan Brown’. E quem é este holandês? É um programa de rádio semanal que acorda os ouvintes às 8 e meia da manhã de sábado e, com certeza tem alguém que fala português, uma vez que o livro não está traduzido para holandês. Estratégia de marketing da editora, eu sei, eu sei… todos o fazem.

Quis-se acentuar a questão religiosa e deixou-se um pouco ao acaso a musculatura do enredo, deixando mais buracos que a Estrada da Morte na Bolívia.
Os autores que pretendem fazer divulgação científica, pseudo, o que queiram, devem escrever manuais, artigos que submeterão a revistas da especialidade, entre outros, mas a escrita dum romance implica a assumpção de certos pressupostos que aqui se encontram ausentes.
Por outro lado, e em termos formais, a Editora devia saber que o excesso de aspas para indicar os discursos directos é prejudicial à fluidez da leitura, povoada assim por elementos gráficos absolutamente desnecessários.
Da nota inicial 'Todas as citações de fontes religiosas e todas as informações históricas e científicas incluídas neste romance são verdadeiras' esperava-se uma bibliografia final bem organizada e completa, por dois motivos: primeiro porque o tom afirmativo da nota inicial indiciava que assim seria e, nestes casos, só é verdadeiro o que se prova; em segundo lugar, pela delicadeza do tema, digamos assim, que suscitaria dúvidas e necessidade de credibilidade documental. 
Porém, a nota incial tem eco na nota final que descreve nomes de autores e títulos, sem qualquer referência bibliográfica, e ainda se afirma "Toda a informação relativa ao processo de clonagem (...) encontra-se disponível em toda a literatura científica relacionada com o assunto".
É caso para dizer, Obrigadinha José... havia de ser relacionada com quê?
Edição da Gradiva, 2011

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Os últimos serão os primeiros

Há dias ajudei uma amiga a fazer um trabalho sobre as razões da mudança semestral das horas, em Março e em Outubro. Mais tempo útil diurno, poupança energética, maior uso de energia solar, coisas de somenos importância quando comparadas com a possibilidade de estarmos mais tempo nas esplanadas ao fim do dia.
Andamos ao toque dos relógios atómicos que se escondem em bunkers por essa Europa fora, todos os países os têm, e são eles que dizem a hora certa.
Em finais do século XVIII Benjamin Franklin pôs-se a fazer contastrês vez nove, vinte e sete, noves fora nada… - e deu conta da possibilidade de se pouparem toneladas de cera de vela se se mexessem nos relógios.
Hoje em dia, para além de estar provado que há menos criminalidade durante a hora de Verão, e os dias serem maiores dando mais oportunidades à execução de tarefas como passar a ferro ou varrer a casa, há a questão da Bolsa… abrir e fechar a Bolsa sem ser à hora certa pode dar origem a prejuízos de alguns milhões. Assim, bancos, transportes e empresas várias andam direitos que nem fusos, à espera da badalada que os porá a correr, como tiro de partida.
É tanto assim que a velha e boa Samoa, a querida Samoa, através do seu querido e nada controverso governante Tuilaepa Sa'ilele Malielegaoi, Tutu para os amigos, desistiu do dia 30 de Dezembro para alinhar os negócios com a Austrália e Nova Zelândia. Assim passaram de 29 para 31 de Dezembro, eles que ficam ali ao lado, mas cujo fuso horário os deixou um dia no século passado quando os vizinhos do lado já cantavam as glórias do século actual. Está mal, isto não se faz! Há algum tempo, o mesmo governante decidira passar a conduzir à esquerda para facilitar o aumento da importação de carros e parece que aumentou também a sinistralidade rodoviária, mas isso é outra conversa.
A Samoa faz-me lembrar Santo Aleixo da Restauração, aldeia do Baixo Alentejo, que consta no obelisco da Praça dos Restauradores, em Lisboa, como tendo tido importante participação nas guerras da altura, quando ganhou o apelido ‘da Restauração’.
Reza a lenda que se preparava o padre para dar a bênção num casório quando se anunciam tropas inimigas nos arrabaldes de Santo Aleixo. A sede de concelho, Moura, ficava a mais de duas dezenas de quilómetros, mas era preciso ser avisada da proximidade dos meliantes.
Monta-se a noiva a cavalo e manda-se a Moura com as terríveis notícias; encerram-se as mulheres na igreja e ficam os homens de fora a dar luta aos castelhanos, sabendo que não os venceriam, mas que o atraso provocado seria suficiente para Moura se preparar. E assim foi. Morreram todos ou quase todos na vida real mas ficaram eternamente na História.
Mas Santo Aleixo não faz lembrar a Samoa pelas glórias militares: reza outra lenda que durante anos o mês de Abril trouxe ventos e chuvas tais que deu cabo das colheitas. A coisa foi de tal forma que os habitantes se recusaram até a dizer o nome do mês, enunciando as crianças na escola os meses da seguintes forma: Janeiro, Fevereiro, Março, o mês que não se diz, Maio, e por aí fora.
Há uma outra lenda que diz que a Rowling se inspirou aqui para criar o mito do Voldemort, aquele-cujo-nome-não-se-pode-dizer, mas não se confirmou nada até agora.
Mas o medo de Abril era tal que até se conta uma historieta segundo a qual ia uma família cigana com muitos filhos pela estrada fora e pediram boleia a um homem que viajava num carro de burro. O homem assentiu e todos subiram à excepção dum ciganito que, de tão pequeno, não conseguia erguer-se para entrar no carro. Um dos irmãos incentivou-o dizendo:
- Força Abrilito, força!
O dono do carro ouviu aquilo e quis saber o nome do gaiato. Quando lhe confirmaram que era Abril correu com eles todos do carro!
Abril voltou a entrar no vocabulário de Santo Aleixo com o 25 de Abril… com tanto mês, logo tiveram que escolher aquele mas, por outro lado, acabou com o estigma de os habitantes serem conhecidos como tendo um mês de atraso, coisa com que eram atormentados por todas as terras ali ao redor, que não perdiam oportunidades de o lembrar.
Assim, se Santo Aleixo viveu durante anos com um mês de atraso porque não pode a Samoa passar a viver com um dia adiantado? Além disso o novo fuso horário não foi escolhido numa base de ita nuita, ita noá, quem está livre, livre está e sim devido ao fomento de relações comerciais com vizinhos que não eram parceiros por incompatibilidade de calendário. Ali sim, via-se o dia de amanhã quando os samoanos olhavam na direcção da Austrália e os australianos miravam o passado quando visitavam a Samoa. Mais ainda, conseguiram um feito notável, eles que eram os últimos a passar de ano, agora inverteram a coisa!
É ou não verdade que os últimos serão os primeiros?

Mercados paralelos

Diz-se que em alturas de crise as pessoas se dividem em dois grupos: os que choram e os que aproveitam para vender lenços. Diz-se também que a letra chinesa que designa crise também mostra a oportunidade. Diz-se muita coisa… mas o certo é que já se vendem legumes porta a porta.
Os tradicionais pontos de venda nas estradas, de fruta, batata e outros comestíveis, aumentam agora: aumentam os pontos de venda e os clientes. Aumentam os roubos a mercearias – dois na semana do Ano Novo na mercearia onde costumo ir – aumentam os roubos legais com a subida dos preços.
Um dos produtos que consumo diariamente é café. Como também tenho as minhas manias gosto de o beber em sítios que me dizem alguma coisa: no metro porque têm um quadro com motivos relativos à apanha do café que gosto de ver enquanto o saboreio; no Marquês porque a funcionária é muito simpática; na Florença porque têm sempre o rádio ligado com música antiga.
Mas agora as coisas mudam… porque há locais que mantêm o cafezinho a 50 cêntimos, enquanto outros o aumentam para 65? Será que os que o vendem a 50 estão a perder dinheiro? Não me parece, logo, são os outros que são garganeiros e assim sendo vou apurar de simpatias e pinturas para outros locais, que os há por aí.
Mais, acho que acabaram os dias de inutilidade da máquina krups que tenho em casa: vou trazê-la e comprar cápsulas que venderei a preços razoáveis com copo de plástico incluído. O bar está aberto!

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Calendário

Fechei o calendário de 2011. Era de secretária, triangular, com belas imagens do Brasil, oferecido por amiga brasileira e que me acompanhou um ano inteiro, dizendo-me a que dia calhava 16 do mês que vem, quantos sábados tinha o próximo mês ou qualquer outra informação de datas. Também me ajudou a passar momentos lentos, fazendo-me sonhar com paisagens e imagens, como a de Junho, com o Museu de Arte Contemporânea de Niterói, aparentado com uma bela nave espacial.
Na cozinha lá em casa tinha um chinês e que me encantava pela grafia dos caracteres que são à confiança, ou seja, acreditamos que diz Janeiro, mas também pode dizer outra coisa qualquer pois não os sabemos ler.
Há calendários que são obras de arte – como os da Michelin, diriam muitas vozes – os da Coca-Cola de há umas duas décadas, que esperávamos ansiosos que aparecessem na parede do café do Sr. Paixão.
Abre-se agora o novo calendário e ouço a voz do meu pai, com décadas, a martelar no mesmo: o mundo acaba em 2012, mais concretamente a 12 de Dezembro!
- Como é que o pai sabe?
- Disseram os Maias!
Ouvido isto voa-me a imaginação directamente para o Eusebiozinho, que se vestiu de anjo e acabou desasado com as penas a fugirem enquanto se escondia num reposteiro.
- Mas eu li os Maias e não me lembro de falarem em 2012…
- Não são esses Maias, são os da América do Sul…
- Ah…
Assim esclarecida, e passados anos penso que deve haver poucos objectos tão ecléticos no que diz respeito a imagens, com paisagens, crianças, animais, logótipos de empresas, mas fico sempre na dúvida sobre o que levará a palma de ouro: os motivos religiosos ou um belo par de mamas? Decido-me pelas mamas, por serem universais como é óbvio!
Porém, face ao fim do mundo iminente vou arranjar um calendário com Nossa Senhora de Fátima!

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Trabalhos de grupo

Os meus desenhos são lendários. Normalmente as pessoas associam-nos àquele dia em que fizeram xixi pelas pernas abaixo de tanto se rirem. Dizem que filho de peixe sabe nadar e assim é: consta que a minha mãe foi elogiada numa ocasião pela sua professora primária pela árvore que desenhara. A senhora professora franziu os sobrolhos quando soube que não era uma árvore e sim uma cafeteira.
aqui falei da minha total incapacidade em produzir um simples risco e do que aconteceu na escola Visconde de Juromenha quando fui obrigada a fazer parte dum grupo, e consegui, não fazendo rigorosamente nada, que o prémio de melhor trabalho fosse dado ao meu grupo. Puro golpe de sorte que me ajudou a não ser ostracizada para todo o sempre pela escola inteira, e ainda saí da sala quase em ombros, qual toureiro em Las Ventas.
Já na Secundária de Santa Maria, em Sintra, um certo trabalho de grupo de três pessoas, teve participação efectiva de duas e a terceira ficou muito admirada quando apareceu no dia da apresentação oral do trabalho e constatou que o seu nome não constava. A fúria deu-lhe para fazer queixa de nós ao professor, alegando injustiça! Quando nos perguntaram porque tínhamos feito aquilo, respondi com outra pergunta dirigida ao elemento faltoso:
- Que parte do trabalho é que fizeste?
Não havendo resposta, o caso ficou por ali e eu livrei-me dos monos da turma que deixaram de querer fazer trabalhos comigo, segundo eles por eu ter mau feitio…
No primeiro ano da faculdade fomos organizados em grupos de dois e calhou-me um rapaz que nunca vira e com quem nunca tinha trocado uma palavra. Como mantivemos a distância e o silêncio, apresentei o trabalho só com o meu nome. Ainda o guardo pois a nota foi magistral: PÉSSIMO, em maiúsculas, não fosse eu baralhar-me na leitura. Contudo, o professor mencionou a coragem de ter enxotado o parasita e ter enfrentado a coisa a solo.
Sempre que podia fazia trabalhos sozinha, atitude que se alargou aos estudos posteriores. Adoptei uma táctica que consistia em escolher a primeira data de apresentação dos trabalhos, sabendo eu que todos queriam a última; conclusão, poucos queriam trabalhar comigo.
Agora ouço uma amiga queixar-se que anda a fazer trabalhos de grupo… sozinha. Dou-lhe na cabeça, é claro, e incentivo-a a inscrever apenas o seu nome.
Os aproveitamentos surgem porque há duas espécies de pessoas: os aproveitadores e os aproveitados… Está muito mais na mão destes o fim destes relacionamentos desequilibrados e injustos, do que dos primeiros que, tenho a certeza, por si só nunca desaparecerão.

O que faz uma pessoa deixar-se injustiçar numa situação como esta? O que tem em dívida para com o outro, para o deixar colocar-se no pedestal do lucro fácil sem o denunciar através da omissão do seu nome? Que medo é este? O que é necessário para se passar do trabalho de grupo para o trabalho em equipa?Um grupo não é sinónimo de equipa. Uma equipa trabalha conjuntamente, cada um com uma missão, por mais pequena que seja, para se atingir o bem comum. Nos grupos há quem trabalhe para o bem dos outros e os outros nem se dignam agradecer.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Raro, raro, raríssimo…

De passeio pelo matagal que é a bloga visito amigos e desconhecidos. Encontro coisas que devem ser realçadas, atitudes raras, muito raras. Não me surpreendo porque conheço a pessoa em questão e sei que não são palavras vãs: ter trabalho é ganhar o euromilhões. É verdade.
Por outro lado, a  revolta contra comportamentos vizinhos, diários, tão próximos que são quase nossos, salve seja!, que nos puxam como um íman, querendo que também nós façamos parte de clubes de facilitismos, de deixa andares, de descomprometimento, de falta de empenho, e muitos eteceteras.
Estes comportamentos, mais do que tristes, são irresponsáveis e devem ser apontados a dedo! Não são só da classe professoral, antes pelo contrário, escavemos e encontramo-los nas raízes das vivências de quase todos os que conhecemos.
E depois… depois chega a ser cómico ouvir falar de cansaços e de actividades extenuantes.
Felizmente há quem não se canse e Sorria Sempre.

Trigo limpo, farinha Amparo!

Ontem à noite fui às compras e depois de as arrumar deliciei-me – há gente para tudo – a arranjar o peixe. Se eu trabalhasse num supermercado seria na peixaria e atenderia os clientes que querem o peixe amanhado…
A meio de escamar um pargo ouço a voz da Madalena Iglésias na rádio a dizer que sabia quem ele era, era um bom rapaz, um pouco tímido e tal e comecei a acompanhá-la prestando, pela primeira acho eu, atenção à letra. De mangas arregaçadas, faca numa mão e rabo do pargo na outra, conclui que o amor já não é o que era: um homem que chora se ela não vem? Objecto de Museu! Se ela não vem, ele arranja outra!

Sei quem ele é
Ele é bom rapaz
Um pouco tímido até
Vivia no sonho de encontrar o amor
Pois seu coração pedia mais,
Mais calor
Ela apareceu
E a beleza dela
Desde logo o prendeu
Gostam um do outro e agora ele diz
Que alcançou na vida o maior bem,
É feliz.
Só pensa nela
A toda a hora
Sonha com ela
P´la noite fora
Chora por ela
Se ela não vem
Só fala nela
Cada momento
Vive com ela
No pensamento
Ele sem ela
Não é ninguém

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

O assalto

Se há coisa que as férias ainda não aprenderam foi a caminhar, sempre a galope, qual cavalo selvagem. Aquelas não eram excepção. Mesmo assim, corriam mais lentas que nos dias de hoje pois ainda não existiam telemóveis.
A casita alugada não tinha telefone fixo, pois claro, e tomávamos lugar na fila para a cabina na praça central e fazíamos o dever do telefonema à família. A conversa era sempre a mesma, Que sim, que estava tudo bem, a praia estava óptima e do outro lado anunciavam-se saudades, como se estivéssemos emigrados nas Franças e não víssemos a família há meses.
Um dia disse ao meu marido que fossemos a meio da tarde fazer o telefonema da ordem para evitarmos a fila nocturna e os sucessivos telefonemas para a Alemanha, Dinamarca, Espanha e todos os países de origem dos turistas que chegavam primeiro que nós ao telefone.
Se mais cedo tivéssemos ido mais cedo regressaríamos a Lisboa: do outro lado, a voz da minha mãe mostrou-se ansiosa com um ainda bem que telefonaram, e cautelosa lá nos disse que a nossa casa fora assaltada. Aparentemente não faltava nada, mas só nós é que podíamos ter essa certeza. A polícia esperava pela informação, a Judiciária, precisou ela. A Judiciária? Desde quando é que tomavam conta de assaltos? Que estranho…
Tarecos no Fiat Uno, estrada acima, muito curiosos e expectantes com o que faltaria pois, de certeza, os ladrões deviam ter levado qualquer coisa, mas o quê?
Nessa altura morávamos naquela que ficou para a história como a Casa Azul: uma vivenda pintada com um azul piscina tão fascinante que numa ocasião em que fui de táxi para casa e dei a referência ao taxista, o cruzamento que ficava diante da casa, ele disse saber onde era, ficava mesmo ao pé daquela casa azul, horrível. Pelo caminho ainda dissertou sobre o que levaria as pessoas a escolher cores como aquela, e pensei o que me responderia ele se lhe desse o número de telefone do meu sogro para que perguntasse…
A Casa Azul era enorme: nós morávamos no rés-do-chão e os meus sogros e cunhada no andar de cima. Tinha um enorme quintal nas traseiras e uma garagem onde cabiam quatro carros. Na frente, o metro quadrado de terra com umas tímidas plantas tinha o nome pomposo de Jardim.
Quando chegámos já o vidro da janela por onde os meliantes entraram estava substituído, tarefa a que o meu sogro se entregou na manhã seguinte ao assalto.
Os assaltantes eram três, pularam o muro, dirigiram-se às traseiras, partiram o estore e o vidro e entraram em casa. Primeira tarefa: abrir as janelas todas, à excepção de uma que dava para a vivenda do lado esquerdo, um lar de idosos. Todas as outras, num total de seis janelas, foram escancaradas. Mesmo as que davam para o lado oposto ao lar, outra casa com características semelhantes, mas desabitada pois estava a sofrer obras profundas.
Como é que o meu sogro sabia que eram três? Alguém os viu?
Acontece que a casa do lado estava desabitada, de facto, mas não a garagem… Então o que aconteceu?
Os nossos vizinhos estavam não só a remodelar a mansão, mas também a fazer a bela da piscina. O quintal, não, eles tinham jardim, quintal tínhamos nós, o jardim estava cheio de máquinas e o homem lá achou por bem contratar alguém para ficar de olho nelas. Esse olheiro dormia na garagem, coisa que ninguém sabia.
Naquela noite acordou com vidros a partirem-se e foi espreitar sorrateiro. Viu logo os nossos belos cortinados da sala a quererem fugir com o vento pela janela de vidros em cacos e percebeu que a casa estava a ser assaltada. Viu as outras janelas a serem abertas, enquanto se manteve em silêncio. Ficou a pensar que tinha que fazer alguma coisa, mas o quê? E se o tipo fosse violento? Não pensou em usar o telemóvel pois, como já se viu, ainda não tinham sido inventados… pensou, pensou, pensou, até que teve uma ideia, e boa, diga-se de passagem. Se ele não via o ladrão, ou ladrões, era muito provável que eles também não o vissem. Foi buscar as chaves do seu próprio carro, arriscou-se a sair da garagem, encostou-se ao muro comum às duas casas e avançou agachado rente ao muro até ao portão, que abriu com mil cuidados. Chegou ao carro e começou a abaná-lo com força. Foram precisas três abanadelas para o alarme começar a tocar.
Deixou-se ficar escondido pelo carro e foi aí que viu três homens vestidos de negro da cabeça aos pés a saírem por três janelas diferentes. Dois deles lavavam coisas nas mãos. Fugiram a pé. O homem meteu-se no carro e foi avisar a polícia. Estavam os meus sogros a entrar com o carro na garagem quando chegaram os agentes acompanhados do homem. Ainda nem tinham dado conta do que acontecera.
Lá entraram todos, o homem a penalizar-se pelo medo e pela idade que o impediram de correr atrás deles.
O pé de cabra com que entraram ficou na sala. Começou aí a sucessão de coisas estranhas que fez com que chamassem a Judiciária: os candeeiros da sala eram aquilo a que se chama plafonds, e estavam cuidadosamente colocados nos sofás.
Em cima da mesa do escritório estavam lado a lado, com minúcia de distância entre eles: livros de cheques, uma caixa com fios e brincos de ouro e aquelas pulseiras de Lembrança da Madrinha que ambos guardávamos, entre outras quinquilharias e um pote cheio de moedas que eu guardava como mealheiro. Não faltava nada. Duas das caixas dos estores estavam abertas, mostrando toneladas de pó e cotão. 
A casa de banho tinha o autoclismo dentro da parede, mas ainda tinham retirado a maçaneta do dito, mostrando o buraco na parede. Mas a coisa mais esquisita eram as fotografias de casamentos e baptizados, por assim dizer, espalhadas no chão do escritório e os álbuns fotográficos em cima das cadeiras. Que raio era aquilo?
Lá demos volta à casa e vi que faltavam algumas das minhas malas, das que costumava usar no Inverno, assim como as que costumava usar em casamentos e baptizados, e que estavam guardadas dentro dum armário, nada mais. As malas que usava no Verão, penduradas num cabide à entrada da porta, estavam todas no seu lugar.
Enquanto deixávamos a estranheza tomar cada vez mais conta de nós e nos perguntávamos repetidamente, mas que raio…?, lá fomos à polícia dar conta das malas roubadas e o que eles tinham para nos dizer parecia um filme: aparentemente tinha havido um engano e os ladrões assaltaram a casa errada.
Quiseram saber se tínhamos alguma jóia especial. Se a pergunta tivesse sido colocada aos meus pais, tenho a certeza que a resposta do meu pai seria que a única jóia da vida dele era a minha mãe. Nós respondemos ambos que não. Então explicaram-nos que tudo indicava que os assaltantes procuravam uma determinada jóia, uma peça valiosa daquelas que não se guarda no guarda-jóias, mas antes se esconde bem escondida, por exemplo nos apliques dos candeeiros, nos autoclismos ou em qualquer outro local de difícil acesso, mas que podem ser inúmeros pois, por norma, estamos a falar de coisas pequenas, um anel, um pregador ou algo do género.
A coisa tinha sido estudada pelos profissionais do roubo: sabiam que estávamos de férias; sabiam a que horas chegavam os meus sogros; sabiam que a casa da esquerda estava habitada – o lar – por isso não abriram a janela desse lado; abriram todas as outras janelas para poderem ter pontos de fuga imediatos em caso de necessidade; apenas não sabiam que dormia alguém na garagem do lado…
As gavetas não estavam reviradas pois o tipo de coisa que procuravam não se esconde em gavetas; levaram as malas pois não tendo encontrado o que procuravam, era provável que estivesse guardado numa delas, principalmente em duas com características de serem usadas apenas em dias especiais.
As fotografias espalhadas no chão do escritório ajudavam à tese: em que ocasiões se usam jóias? Nas festas. Não tendo encontrado o que procuravam, deram uma vista de olhos nas fotografias procurando ver a dita jóia. A meio de todas estas tarefas o homem que guardava a maquinaria da casa do lado pô-los em fuga.
Semanas mais tarde telefonaram-me da escola de línguas onde andava a ter aulas de alemão: alguém os contactara dizendo ter encontrado umas malas numa pedreira a poucos quilómetros da zona onde morava. Dentro duma delas estava o cartão da escola com o meu nome. O senhor que as encontrara deixara o seu telefone para que eu lhe ligasse. Assim fiz e encontrei-me com o homem que disse andar a passear o cão quando deu com as malas. Estranhou estarem todas em bom estado e serem várias. Vasculho-as e encontrou aquele contacto. Foi assim que recuperei a única coisa que os ladrões levaram.
Quando o meu filho era pequeno contei-lhe a história do assalto. A parte melhor da narrativa foi a observação dele:
- Então eles não chegaram a encontrar a jóia! Onde é que vocês a tinham escondida? Mostra-ma!

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

A margem de Churchill

Ouvi falar da edição da Texto de Memórias da II Guerra Mundial, de Churchill. Vou comprar, pensei.
Chegou hoje um exemplar à Biblioteca, que abri cobiçosa. A primeira impressão, aberto o livro ao acaso, foi de faltar ali qualquer coisa… num segundo relance, percebi o que era: o livro não tem margens! A escassa meia dúzia de milímetros foi opção? Financeira? Estética não foi com certeza… Nem um centímetro de margem? Nem um??
O livro é obra para interessados que pagariam o excesso de certeza; no meu caso, a compra vai ser declinada.
A opção da gramagem do papel é aceitável face às 1071 páginas do livro, mas as margens? Ao segurarmos o livro temos sempre várias impressões digitais em cima da mancha gráfica que enche a página e faz o livro parecer os antigos acetatos, escritos de cima abaixo, sem qualquer noção de espaço, de comunicação, de apresentação, ou aquelas fotocópias mal tiradas em que as linhas de baixo são comidas pela fotocopiadora ou, em linguagem honesta, pela falta de jeito de quem tira fotocópias.
As margens nos livros servem para muito mais que centrar as letras, por exemplo, para não dar a sensação, na leitura, que caímos da página abaixo, que se transforma numa quase dúvida: faltará ali texto? Isto para não falar das imprescindíveis anotações.
Por outro lado, Denis Kelly, aparece na Nota (de introdução) como tendo feito o resumo de várias obras de Churchill, que deram origem ao presente volume. É pois o Editor Literário. O facto de não se mencionar na ficha técnica é esquecer o trabalho importantíssimo desta figura.
Denis Kelly foi assistente literário de Churchill nas suas memórias de guerra e antes tinha integrado a equipa do político como arquivista.
Surpreende-me o facto de não constar como co-autor deste livro em concreto, ou Editor Literário, aquela personagem que escolhe, que selecciona, que sugere, que decide o que eu, leitora, vou ler.
As palavras do maior líder da guerra, o resumo de The Second World War, no original, fica assim deficiente no parentesco e na metragem do enquadramento do texto. Até Churchill daria mais margem ao inimigo.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Os meus estragos

Depois de avariar um estore, um microondas, meia dúzia de biberões e um esterilizador na casa da minha irmã, abalancei-me para um curto-circuito na minha própria casa, seguido duma avaria da panela eléctrica! Estou em grande!
Claro que vizinhos, família e amigos andam com pavor da minha pessoa e só falta acenderem e apagarem as luzes à minha passagem para me poupar a esse incómodo
Nunca fui de partir pratos ou copos, de encalhar teimosamente nos móveis como a minha prima N., ou de avariar coisas, mas parece que estou a mudar.
Aguardo que a minha pele se esverdeie, qual Hulk, ou talvez seja melhor como a Fiona, e quando chego a casa descalço-me e conto os dedos dos pés que, por ora, ainda não se tornaram como os da Dama de Herculano, mas é só esperar…
Será azar? Temo vir a ser o bode expiatório do concelho caso se verifiquem apagões, inundações ou vendavais, engarrafamentos, quedas de granizo ou nevões.
Ando mais devagar, verifico as ligações antes de carregar nos botões e, embora não sendo fatalista, mas estou à espera da próxima, que será dada nas notícias com a abertura do costume, notícia de última hora, onde se contará a história duma mulher que, de repente, deu em versão moderna de Midas, mas ao contrário: tudo o que toca transforma em despesa…

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Honestidade

Vou com O Complexo de Portnay nas mãos e nos olhos, alheia aos senta e levanta do metro, aos desculpe que se seguem aos empurrões. Vou alheia mas sei que existem.
Às tantas entra uma mãe com duas crianças e duas pessoas levantam-se, uma dá lugar à mãe com um bebé ao colo e a outra dá lugar ao garoto, quatro ou cinco anos de esperteza concentrada.
Porém, os lugares não são lado a lado. A mãe, do lado de lá de rabos encasacados, atira ao miúdo:
- Então, o que é que se diz?
Quando se pensava que o garoto levantasse a cara e agradecesse à senhora que se levantara para lhe dar o lugar, ele vira-se para a mulher sorridente a seu lado e diz:
- Podes levantar-te para a minha mãe se sentar ao pé de mim?
O brilho da resposta mostra uma honestidade que tende a perder-se com a idade. Uma pena.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Os meus sobrinhos, a Islândia e a Ética

Regressei. Em termos profissionais estive de férias. Na verdade estive a trabalhar, assumindo o meu papel de Pato Donald, tomando conta dos meus sobrinhos, que ai vão três.
Neste curto espaço de tempo consegui dar cabo do microondas, queimar os biberões (que plural tão feio…), estragar o estore da sala e, parecendo não ficar contente, cheguei a casa e provoquei um curto-circuito, razão pela qual tenho os candeeiros de pé alto da sala espalhados pela cozinha e casa de banho.
Foi uma semana desastrosa, nesse aspecto. Felizmente outros houve em que as coisas correram muito bem: o caminho até Évora de mão dada com a minha esguia sobrinha; os jogos de pólo aquático do meu sobrinho; os mimos no sofá da sala; mas acima de tudo, os risos e as gargalhadas. O mais novo ainda não se manifesta mas não é por falta de incentivo nosso, é simplesmente por ainda nem ter um mês.
As dinâmicas nas terras de interior são completamente diferentes das da cidade e eu que faço o meu filho com 17 anos andar acompanhado, vejo que em Coruche qualquer vizinho trará os gaiatos da escola e com um telefonema arranjam-se várias soluções para colmatar qualquer falha de horários: a avó de um amigo leva-os, o pai de outro trá-los, uma mãe leva-os à natação, alguém os leva a casa depois dos escuteiros. Para além disto, um café e um pastel de nata custam 75 cêntimos… setenta e cinco cêntimos, café e pastel, os dois juntos!
Com tamanha crise ando a pensar emigrar e pedi ajuda ao meu sobrinho que abriu um determinado livro com uma breve descrição de todos os países para escolhermos um. Não podia ser muito longe, mas tinha que nos dar boas perspectivas de vida. Escolhemos a Islândia. No dia seguinte, como nos filmes onde os sonhos se realizam enquanto dormimos, acordámos na Islândia! Percebemos isso quando saímos de casa em direcção à natação, eu encasacada como se a piscina ficasse num glaciar. Os outros adultos, embora habituados, mas vestidos de bonecos de neve e os miúdos, que nunca se queixam, a correrem com cachecóis pendurados. Combinámos riscar a Islândia e escolher outro sítio, não que eu não aguente aqueles gelos, mas como sou uma rapariga elegante, os casacos em cima de casacos fazem de mim um fardo de palha daqueles redondos e se calhar a cair dou em rebolar e só me apanham a meio do Atlântico Norte…
Além disso intensificámos a nossa pesquisa e descobrimos que foi em 1939 que se registou a mais alta temperatura do ar – 30,5º - o que nos deu logo vontade de rir, mais ainda quando lemos que os invernos são amenos! Achávamos nós que sabíamos o que quer dizer ‘ameno’…
Posta de lado a Islândia não chegámos a qualquer outra conclusão embora o meu sobrinho me tenha dado outra sugestão: Coruche…
Geografias à parte, sexta-feira fui dar uma conferência sobre ‘Ética na Gestão’ e o meu sobrinho acompanhou-me. Éramos duas pessoas e eu fui a segunda a intervir. Enquanto a primeira falou o gaiato sentado ao meu lado apanhou-lhe os tiques de linguagem e expressão corporal e tive que o mandar calar duas vezes, no meio de risos contidos, tal era a precisão das suas observações sussurradas ao meu ouvido. No final disse-lhe que tinha sido pouco ético da sua parte fazer aquilo e ele disse-me que talvez, mas que tinha sido muito divertido…

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

O Último Bandeirante

Gosto muito de romance histórico, e este tem a particularidade de ter uma boa construção de personagens, elemento essencial para qualquer narrativa, mas ainda mais neste tipo de literatura onde, com frequência, há autores que se abrigam nas descrições da época fragilizando as personagens, conferindo-lhes um estatuto de fantasma, tal a fragilidade com que nos aparecem.
Não me canso de elogiar um livro que me convença através deste aspecto: quando lemos e ‘reconhecemos’ as acções ou os pensamentos, é como se conhecêssemos aquela pessoa. Isto é trabalho do Autor, enquanto pai, escultor que não despreza mínimos detalhes que ajudam a fazer o puzzle das personagens.
Por outro lado, o Autor não toma posição a favor de bandeirantes ou missionários: dá-nos a dimensão dos factos históricos, riquíssimos, como quem mostra uma fotografia. Dá-nos a informação mas sem opiniões, sem julgamentos, nem o poderia fazer sem insultar a História.
Nunca escrevi nada que roçasse sequer o romance histórico mas até acredito haver uma certa tentação para, no mínimo, se usarem adjectivos que acusem o nosso ponto de vista, palavras traiçoeiras que façam os outros perceber que concordamos com isto mas não com aquilo ou, pior ainda, muito pior, quando se analisam as situações e se fazem reflexões à luz dos nossos dias, em total disparate.
‘O Último Bandeirante’ não tem disparates, antes pelo contrário: narra o que aconteceu, como cronista, usando a imaginação mas sem desmerecer na História, sem a querer alterar.
Introduz-nos o mundo meio conquistado meio por conquistar do imenso continente sul-americano, com descrições da selva e das Missões, dos escravos, da dinâmica das bandeiras e lembra-nos a maior bandeira de sempre, uma epopeia de cerca de 12 mil quilómetros no meio dum inferno, mas realizada, empreendida por muitos e concluída apenas por meia dúzia, por um punhado de gente que regressou obrigatoriamente diferente, como o Autor nos dá conta.
A descrição do assalto à Missão chega a ser bela, por incrível que pareça, apesar dos horrores enunciados, por verídica nos parecer.
‘O Último Bandeirante’ é um livro extremamente visual: das paisagens, dos índios, dos rios, dos mapas, mas também das personagens, da História, do passado, um passado que se fez presente e que está presente nos nomes das províncias, dos cursos de água, dos animais ou das frutas.

Confesso que sou desconfiada de jornalistas-escritores: a minha primeira impressão vai para um interesse comercial das Editoras em publicarem ‘famosos’, o que se espera vir a ser uma mais-valia nas vendas. É o fenómeno, ‘figura pública mediática ou mediatizada por qualquer razão que nada contribui para a tornar escritora, mas que mesmo assim atiça a curiosidade do público e isso chega’. Neste contexto, o jogador de futebol, leva a palma de ouro.
Por outro lado, custa-me a interiorizar, custa-me muito…, que certos jornalistas tenham escrito certas coisas e é com imensa facilidade que a minha imaginação vê outros a escreverem por eles, mas a minha imaginação é muito fantasiosa… Desta vez não foi o caso.
O livro é do jornalista Pedro Pinto, editado pela Esfera dos Livros, tem badanas, e na capa mostra uma imagem do quadro A primeira missa no Brasil, de Victor Meirelles.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Saudoso primo

Quando oferecemos o computador aos meus pais criámos-lhes uma conta de e-mail e uma página no Facebook, que se têm mostrado bons aliados para alguns momentos de solidão, matança de curiosidades várias e grandes navegações nos mares virtuais.
Face a algumas dificuldades no manobramento de velas e burrajonas, com cabos e nós, os netos, sobrinhos e filhas dão uma mãozinha de quando em vez, com actualizações, limpezas de spam, varrimento de lixos e eteceteras.
A propósito do envio duma mensagem para as Finanças ontem limpei a caixa do correio e vi que pelo meio da ondulação estava uma mensagem cujo assunto mencionava ‘Saudoso primo’.
Um parente afastado identificava-se nomeando pai e mãe, não fosse a memória dos meus pais tê-lo apagado, e escrevia-lhes dizendo ter dificuldades em os adicionar, e perguntava se não tinham outro e-mail.
Comecei a responder, alinhando também a árvore genealógica para que confirmasse a veracidade da informação e a meio lembrei-me que os podia adicionar nas redes sociais, fazendo uma surpresa aos dois.
Tirando alguns tios e primos directos não sou grande especialista na família e tenho apenas uns ecos de nomes que andam soltos, um bocado aos trambolhões na minha lembrança, nem sei se chegam a entrar na memória, mas tinha uma vaga ideia deste primo. Porém, se lhes recordo os nomes, não faço a mais pequena ideia das ocupações ou das profissões. Quando abri a página percebi que o senhor é médico, mais propriamente ginecologista: só assim se explica a multiplicação de imagens de partes íntimas femininas no mural do ‘saudoso primo’. Sempre pensei que só existisse um médico na família, que mesmo já tendo morrido continua bem vivo em nós, e era ortopedista. Ginecologista, nunca tinha ouvido falar.
Depois lembrei-me que o ‘saudoso primo’ talvez trabalhe num jornal e faça a composição das páginas do lazer, que nos últimos anos são uma versão dos livros aos quadradinhos, a cores e com fotografias só de mulheres, um bocado a anti-matéria de certos filmes de guerra onde só entram homens, e, quem sabe, estava a trabalhar na rede social…
Pensei, pensei, pensei e acabei por não o adicionar pela simples razão que o meu pai trabalhou muitos anos num diário lisboeta e ainda deve estar cansado daquela dinâmica que, sabe-se lá, confrontado assim de repente com as novas formas de composição, ainda lhe desse uma filoxera que lhe pusesse o coração em jeitos de motor quitado.
Comentei o assunto com a minha irmã que disse imediatamente lembrar-se da personagem, mais, nunca a esqueceria! Recordava uma tarde de sábado, há muitos anos, quando tinha acompanhado os meus pais de visita ao ‘saudoso primo’ que tinha sido operado aos rins. Esperava-os um lanche, como competia, com toalha branca, café, chá e bolos. No meio da mesa, em jeito de centro floral estava o frasco com as pedras que lhe tinham tirado dos rins e que foram o centro da conversa desde que chegaram até que abalaram. Como se isso não chegasse, as pedras foram retiradas do líquido e passadas de mão em mão para avaliação de peso, textura, forma e demais características. Depois fizeram-se revisões da matéria a pedido do ‘saudoso primo’ e as pedras, quais Sivalingas do Indiana Jones, voltaram a dar nova volta de apreciação pelos dedos dos convidados.
Se um lanche pressupõe uma lição e respectivo exame de Petrologia, uma ligação na rede social pode significar sei lá o quê… Olha, ficamos assim, eles se quiserem que se adicionem depois um ao outro!

Pão de cereais

Há tempos enunciei aqui os mil e um pedidos que se podem fazer ao balcão e que envolvem café, que as pessoas e as modas vão alterando para, por vezes, apenas parecer café.
Com o pão passa-se a mesma coisa mas elevado a grãos de areia do deserto do Saara.
Quando morávamos nas Mercês e eu ia à padaria da D. Adelaide tinha duas opções: pão de Mafra e carcaças; ocasionalmente havia pão alentejano, que nós consumíamos muito porque o trazíamos do Sobral da Adiça cada vez que lá íamos. Hoje há catálogos de pão que competem com os catálogos das tintas!
Saloio e alentejano, de Mafra e de água, bolas e bicos, vianas e vianinhas, carcaças e mafrinhas, integrais e com sementes, com passas e de mistura, ázimo e de forma, de centeio, milho e trigo e ficam a faltar muitos.
Lembro-me há uns anos, durante um fim-de-semana no Algarve com a minha irmã e cunhado, este comprou um pão alemão, segundo ele, muito bom! A estadia era de curta duração e comíamos sempre na rua, ainda assim abastecemo-nos para lanches a meio da noite durante jogatanas de cartas que ainda hoje adoramos. Quando demos a primeira dentada no pão alemão, literalmente, cuspimos os três em simultâneo, a massa do pão, tão intragável e horrível aquilo era.
Uma coisa que me engalinha é perguntarem-me se quero pão de cereais. Respondo logo com outra pergunta:
- Os outros são de plástico, verdade?
As pessoas olham-me durante alguns segundos sem saber o que responder e depois continuam dizendo que não, não senhora, e seguem enumerando os tipos de pão que têm. Lá sorrio e acrescento que espero que todo o pão seja de cereais. Normalmente a pergunta quer designar pão com sementes e eu, picuinhas, sei mas insisto.
Tenho um amigo que tem uma máquina de fazer de fazer pão: deita-se e o ‘forno’ vai trabalhando de noite de modo que tem pão quente assim que se levanta. Nunca o provei mas conheço quem adorasse ter uma maquineta destas.
Não faço quilómetros para ir a um restaurante comer isto ou aquilo, não me lembro do nome de terras ou locais onde estive e onde comi bem, mas sei onde comprar pão que só de olhar para ele até nos lambemos e assim que começamos a tirar-lhe farrapos não se consegue parar. E é pão de cereais…

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

O dedo

Estive de serviço no fim-de-semana. Quase podia dizer que tinha posto a boina e ficado ao serviço ao Zézinho, do Huguinho e do Luísinho: os três juntos são os sobrinhos mais famosos do mundo e os meus são os melhores.
Estive de serviço também à minha irmã e uma das coisas que lhe fiz foi cortar-lhe as unhas. Foram limadas para não correr risco de arranhar o bebé e chegada aos pés deparei-me com a visão dos meus actos de criança: o dedo grande do pé direito foi passado numa trituradora, refeito à mão e voltado a colocar como peça de lego partida e colada. Resultado, o dedo é esguio e longo, a unha é uma massa preta que cai a cada dois anos, mais ou menos.
Numa bela tarde de Verão, quando as crianças ainda brincavam na rua sem a permanente supervisão dos pais, andava eu de bicicleta a subir e a descer a rua. A minha irmã ainda não tinha feito cinco anos e ia com a nossa mãe para o trabalho. Pontualmente eu esperava-as na estação do comboio, na ponta da rua. Naquela tarde, e como de costume, dei-lhe boleia na parte de trás da bicicleta. Ela usava umas sandálias azuis, abertas, como competia naquela altura do ano. A rua descia em direcção à nossa casa e eu não vi quando ela meteu os frágeis dedos nos raios da bicicleta que nem precisou de fazer força para lhe trucidar o dedo e magoar os outros. Os gritos dela encheram a rua, o meu pavor alastrou-se à lua que já alumiava o fim da tarde.
Alguém chamou a minha mãe que já subia as escadas em direcção ao segundo esquerdo onde morávamos e que ficou em estado de choque. Sem saber exactamente o que fazia, apanhei cada bocadinho de dedo dos raios da bicicleta e segui os vizinhos que levavam a garota em braços ao enfermeiro do bairro, o Sr. Camilo, seguidos pela minha mãe, meia zonza.
O enfermeiro mandou chamar uma ambulância dizendo que aquilo não era para ele, a minha mãe deu o número do telefone do trabalho do meu pai, pedindo para os vizinhos o avisarem e seguimos as três para o hospital, eu com o estrago nas mãos, lavada em lágrimas.
A garota gritava a plenos pulmões e no meio dos gritos fazia um pedido que me punha a chorar ainda mais e me deixava a tremer:
- Mãe… não te zangues com a mana…
Repetiu e repetiu esta frase, em palavras mal alinhavadas e intercaladas com soluços mas ditas de tal forma que ainda as conservo vivas na memória.
Quando chegámos ao hospital de S. José, assim que a porta da ambulância se abriu, vi o meu pai a espreitar, de olhos esbugalhados.
Entrámos no hospital, ela foi vista imediatamente e o médico disse ao meu pai que como eu tinha levado o que restava do dedo, iam tentar compô-lo, mas sendo ela muito nova, ele não aconselhava que se anestesiasse, porém, a decisão final era dos pais. O que queriam fazer?
O meu pai disse-lhe que fizesse como se ela fosse sua filha e o médico avisou, como se fosse preciso, que não ia ser fácil e que precisava da ajuda dele.
Entraram na sala de operações com ela segura por uma enfermeira e pelo pai. Os gritos dela ouviam-se no corredor, por favor pai, paizinho, por favor, não, não, não…
A dor era lancinante dentro e fora da sala. E quando pensei que não podia ser maior tomou proporções épicas, só comparáveis ao momento em que soube que ela teve um acidente, há quatro anos, queimada com ácido sulfúrico.
- Mana… mana ajuda… mana… ajuda… não, não… mana…
O pedido de socorro vinha em maiúsculas, como balas certeiras que me atingiam o coração. A minha mãe chorava abraçada a mim e eu chorava abraçada a ela. Passou uma eternidade que, contada posteriormente, pouco passou da meia hora. Ninguém diria, nem mesmo os desconhecidos que aguardavam ao nosso lado no corredor.
Quando saiu vinha esgotada. Rouca e alienada, como se não reconhecesse chão e céu. Ao colo do meu pai recebeu os nossos beijos e abraços e voltou a pedir que não se zangassem comigo.
Começou aí uma epopeia que durará a vida inteira: primeiro foi o retirar dos pontos, eu com dois gelados na mão a meter-lhos na boca para lhe adoçar o momento. Depois a cena dos gelados iria repetir-se sempre que era preciso cortar a unha, mesmo recorrendo a anestesia. Agora cai de vez em quando e ninguém lhe toca. Nunca mais usou sandálias e chinelos de enfiar o dedo só em casa ou na piscina.
É uma das cicatrizes que tem, uma cicatriz que não se vê ao contrário das outras, na cara e nos braços. Foi a caneta da vida que se desviou do curso normal e ali deixou um risco. Não mais se apagará.

O Ouro dos Corcundas

O Ouro dos Corcundas é escrito a ouro em barra, daquele que sabemos existir mas raramente se vê e nunca se usa; no entanto, vive.
A estória mergulha-nos na história com palavras novas-velhas, próprias, certas, fidedignas. Pedristas e Miguelistas agridem-se à pedrada e enquanto isso as pessoas normais continuam com as suas vidas.
Paulo Moreiras mostra-nos como as pessoas normais se podem transformar em heróis e leva-nos de observadores nas andanças de Vicente Maria como se caminhássemos a seu lado, magia feita através da linguagem que optou por usar, impecável, rica, dinâmica e viva, muito viva, provando que o passado também está vivo, de boa saúde e recomenda-se.
Nada foi deixado ao caso e a bibliografia final é prova disso: ali se buscou verdade para a descrição de roupas e trajes, dizeres, modas e canções, descrição de armas e aldeias, transformando a leitura numa lição de história da vida pública e privada, onde os pormenores são cuidadosamente tratados.
O linguajar utilizado é uma música solene de tal forma que nem dei atenção à composição da travessa com rodelas de morcela e queijo partido aos quadrados, cuja forma me trás algumas dúvidas, por actual.
Concordo que a primeira tentação é anunciar Vicente Maria Sarmento como o protagonista do livro, mas assim que se começa a ler ficamos indecisos se esse lugar não pertence à linguagem, à forma de expressão, que cria imagens impossíveis de criar se o palavreado fosse outro.
A ler e reler, a oferecer, a emprestar – que me desculpe o Autor por esta última forma.
O Ouro dos Corcundas é da Casa das Letras, que lhe escolheu capa a condizer, magnífica, e nos brindou com badanas.

Da vida dos livros

Que os livros são entidades vivas já o sabia; levamo-los debaixo do braço mas são eles que nos transportam; apertamo-los mas são eles que nos aquecem; abrigam personagens mais reais que certas pessoas; contêm histórias que adorávamos ter vivido; fazem-nos rir, chorar e pensar; são a cama dos sonhos.
Já pensei fazer um gráfico, uma ilustração dos ganhos obtidos com os livros e a leitura, mas os riscos sobrepõem-se, as setas misturam-se, tudo se encavalita, de tão denso ser o resultado.
Descobri - obrigada Âncoras – imagens de livros cuja riqueza é filha da eloquência com o belo, cruzada de sentidos e que pode ser vista aqui.
Um livro nunca está gasto, obsoleto, velho ou inútil. É sempre possível uma nova abordagem, novas visões, outras histórias, novas e renovadas leituras.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Ai, que calor...

Sento-me já em voo picado para o livro que ando a ler. Como já comentei aqui, o metro fica cheio na primeira estação, a suburbaníssima Amadora-Este. Apesar do mergulho no livro mantenho um periscópio involuntário através dos ouvidos. À minha frente sentam-se duas mulheres, conhecidas, o que é mau sinal: sei que irão a conversar e me vão distrair. Não vou conseguir visualizar as imagens que o autor preparou para mim através da escrita. Bolas! Bem, concentremo-nos!
Claro que elas vão a conversar e às tantas a antena apanha a seguinte frase, em sussurro, apenas murmurada:
- Havíamos de perguntar a esta senhora que meias é que usa, nem se nota que tem meias.
Sei que o comentário é para mim. Levanto os olhos e deixo Vicente da Bufarda parado diante de sua majestade, El Rei de Portugal e sorrio para as senhoras que me olham como se fossem crianças apanhadas a fazer uma traquinice:
- Não se notam porque eu não uso meias.
- Ah...
- Então é por isso... mas como é morena... parece que tem...
- ... mas ao mesmo tempo parecem invisíveis...
- Pois... o segredo é não se usarem meias, irmos à praia o ano inteiro, andarmos sempre de calções, fazermos caminhadas e, de preferência, caminharmos dentro de água. Desta forma conseguimos umas meias invejáveis e, garanto, perdemos o frio.
Enquanto fazia este discurso, elas abanavam a cabeça em sinal de concordância e apontaram para os meus braços tapados por aquilo que se chama manga curta e disseram-se incapazes de andar assim no inverno, com tanto frio. Esclareci ainda que não usava meias com saias nem com botas, nem com calças, que era uma questão de hábito. Sorrimo-nos e eu voltei à Taberna do Pasquino e a Vicente da Bufarda e a Tomásia e ao enredo, mas principalmente, à forma do magnífico livro que anda nas minhas mãos.

domingo, 20 de novembro de 2011

Estamos à tua espera, pá!

Na próxima quarta-feira a minha família terá mais um elemento: será um Sagitário. Nós somos uma família diferente e não dizemos não a qualquer elemento. Se ele um dia decidir abandonar-nos, isso é outra história. Por agora fica connosco e já tem nome: Xavier. É um bom nome para um Sagitário. O irmão mais velho, M., com quem hoje apalavrei as próximas férias com ele de olhos esbugalhados, também é um bicharoco raro. Esta semana encontrou uma moeda de cinco escudos e pediu ao pai se a podia levar para a escola uma vez que estavam a dar os povos antigos, sic. Quando soube da história senti-me uma matrona romana...
A irmã, P., que deixará em poucas horas o estatuto ingrato de filha mais nova, está radiante; afinal, uma miúda tão sabida ser a bebé da família, não condiz com ela.
Enquanto gritávamos pelo Duarte durante o jogo, ele estava sentado ao meu lado e apertava-me volta e meia, numa manifestação de carinho e saudade que me deixa sempre babada. Não podia sonhar sobrinho melhor.
O Sagitário que está quase a passar a fronteira para o país da nossa família, não sabe que apesar de muitas divergências, somos os mais puros dos ciganos, dos mafiosos: a família é tudo e ele não sabe, mas vai sentir.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Uma questão de organização

De entre as várias tarefas que me estão confiadas está a organização de eventos científicos, que também se pode traduzir como a arte de tocar vários burros e conseguir que nenhum fique para trás: definição do programa, escolha dos conferencistas, convites, marcação de viagens, hotéis, guias, resumos e livros de actas, pastas, identificadores, traduções simultâneas, publicidades e cartazes, imprensa, cafés, almoços e jantares, menus para vegetarianos, pratos especiais para quem é alérgico a isto ou aquilo, transportes, questionários de avaliação, aspirinas para dores súbitas e mais um sem fim de aspectos que, quanto mais pequenos, mais diferença fazem.
Para isso é preciso uma equipa que, felizmente, existe e sorri. Os preparativos vêm sendo afinados desde há meses e aproxima-se agora a hora agá. Como sempre, estou nervosa: este é o maior evento que já organizei; mas como estamos bem sintonizados, acredito, como sempre também, que vai correr bem. Confio na equipa e isso é o fundamental. Sei que sou exigente, picuinhas e almejo uma perfeição a que nunca se chega, logo, nunca me dou por satisfeita. Sei que por estes dias fico irascível e fulminante, tentando antecipar qualquer coisa que possa correr menos bem e pondo em prática planos bês e cês, construindo redes sobre redes como se fosse uma trapezista com medo de cair.
Numa ocasião, depois dum outro evento, fui convidada a organizar uma visita dum grupo de arquitectos alemães a Portugal. Espantada com o convite que me parecia cair do espaço sideral, quis saber como tinham chegado até mim. A indicação fora dada por um dos participantes no colóquio anterior, com a informação que eu trabalhava à alemã. Aceitei o elogio e lamentei não poder ajudá-los.
Embora seja uma incapaz para arrumar a minha secretária, poço sem fundo e que na semana passada deu origem a um comentário sobre o facto de estar entrincheirada, dado o volume de papéis diante de mim, sei que a organização deste tipo de actividade flui nas minhas mãos.
O que mais aprecio nestas andanças é a diversidade de aprendizagens: cada evento é sobre um assunto diverso e acabo sempre por ficar a falar línguas diferentes, agora arquitectura, depois relações internacionais, história, ética, estratégia empresarial, o que for.
Há uns anos organizámos um evento internacional cujo jantar final coincidiu com o dia em que se acenderia a árvore de Natal do Terreiro do Paço. O jantar foi no Martinho da Arcada e, apesar dos milhares de pessoas que estavam na praça, os nossos convidados viram as luzes começarem a brilhar no silêncio que antecedeu a iluminação e no barulho consequente do público. Um deles, com lágrimas nos olhos, dizia que era tudo tão perfeito que não se admirava que tivéssemos encomendado a árvore só para eles. E eu perguntava-lhe se ele tinha dúvidas!
O melhor disto tudo é a correspondência que se mantém posteriormente com as pessoas, informal e indisciplinada, as visitas mútuas e a alegria do reencontro.
Espero que este não falhe a regra.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Conhecer o mundo

Venerando viajantes e desdenhando turistas fico sempre de olho semicerrado quando ouço alguém dizer que conhece muito bem determinado sítio porque numa ocasião lá passou.
Quando a coisa se compõe para a conversa digo que invejo quem tem a sorte de conhecer muito bem seja que local for, pois eu, e o defeito será com certeza meu, nunca conheço bem nada, pois cada nova visita é uma descoberta nunca completamente assimilada.
Claro que sou esquisita aos olhos de quem conhece França através do relance que lhe permitiu poisar a vista na Torre Eiffel! Este síndroma verifica-se em todo o seu esplendor com o Brasil, onde um mergulho em Fortaleza tem poderes mágicos e dá conhecimentos sobre aquele imenso país!
Certos locais são muito caros, dizem-me, e justificam com a compra duma garrafa de água; não é preciso garimpar muito para se descobrir que a água foi comprada no hotel, hotel esse que alberga galáxias de estrelas que, mesmo falsas, brilham de tal forma que os clientes pensam ser verdadeiras e pagam, nem se dando ao trabalho de procurar um supermercado.
Noutras ocasiões fazem valer opiniões colhidas no tempo dos cruzados, ou por interpostas pessoas, amiúde um cunhado que viveu muitos anos na Suice ou na Alemanha, ou alicerçam-se numa reportagem que deu uma vez na televisão.
aqui falei dum casal que conhecemos em Marrocos, únicos e só possíveis de existir na vida real, como a Falha das Marianas ou qualquer outro erro da natureza, pois nenhum Spielberg teria imaginação para fazer nascer tais personagens, principalmente ela, cujas descrições da Tailândia me foram inesquecíveis, de tal foram que aqui as partilho.
A Tailândia tem imensos hotéis, todos enormes, com soberbas piscinas e empregados m a r a v i l h o s o s! À beira das soberbas piscinas dos enormes hotéis da Tailândia, os m a r a v i l h o s o s empregados dão massagens aos hóspedes! Não! Não são dessas… quer dizer, também devem dar, mas ali, à beira das piscinas são massagens normais.
A Tailândia também tem praias, ou melhor, a Tailândia em si, não sei se tem ou não alguma praia, mas os enormes hotéis têm de certeza! A água das praias é transparente e quente. O comer… bem, o comer… há i m e n s o, nos restaurantes dos hotéis e pode-se comer de tudo vinte e quatro horas sobre vinte e quatro horas!
Com uma descrição assim, e pensando agora no assunto, percebo o trauma que me ficou e, provavelmente, é por isso que nunca lá fui.
Depois há os executivos que conhecem a Europa de fio a pavio! Vão de manhã e regressam à noite ou no dia seguinte mas, mais uma vez, têm uma capacidade de ficar a conhecer as cidades onde aterram que escapa às minhas básicas competências, mas não os inibem de afirmar que conhecem bem Varsóvia ou Frankfurt, pois se ainda há semanas lá estiveram!, e sabem tudo o que há para saber acerca da cidade, por exemplo: em frente do hotel havia um enorme café que servia p’ra cima de cinquenta espécies de café; e a casa de chocolates em Bruxelas? Hein? Nunca se viu tanto chocolate junto… Como se chama? Não se lembram. Onde ficava? Na rua paralela ao hotel. O que comprou? Nada, no hotel davam amostras.
E o Sena? Os passeios que se dão por lá… e antes de ter tempo de perguntar pelos bouquinistes, já ouço que o único senão são os tipos que se espalham nas margens a vender livros velhos e papelada. E incrível como gente mais avançada que nós, os franceses!, deixam que aqueles sem-abrigo por ali andem a encurtar o espaço de quem quer passar! Aquilo é uma Feira da Ladra e é TODOS OS DIAS!
E as jóias da Rainha? Que coisa espantosa… já que foram ver a as jóias, tiveram que ir à Torre de Londres, e que tal? Não, não chegámos a ir, era para irmos, mas à última da hora o tipo que nos devia levar teve um atraso e ficámos no hotel, mas vimos um folheto com as coroas e aquilo tudo.
Engulo e pergunto porque não foram de metro. De metro? Nã… tínhamos pouco tempo, sabes, ainda nos perdíamos…
Nem perco tempo a dissertar sobre a maravilha que é perdermo-nos, o que se ganha em nos perdermos, o que ficamos a conhecer e a riqueza que trazemos para casa.
Raramente pergunto por Museus não vá a resposta enfurecer-me e eu nem sou muito amiga de museus, é mais ruas e pessoas e cheiros e sabores e sensações e empedrados e mercados e ventos e rugas e risos e estações e terminais de transportes.
Serve tudo isto para pedir que não me digam – digam a outras pessoas, há por aí tanta gente – que conhecem bem esta cidade ou aquela, pela simples razão que é uma enorme mentira.

Novos passageiros

Com o conforto, a que muitos estavam habituados, a passar férias em parte incerta é cada vez mais o número de pessoas que utiliza os transportes públicos. Dois minutos de atraso são suficientes para não se encontrar lugar no estacionamento e o metro, que outrora saia vazio da estação de Amadora-Este, agora vai cheio.
Nos primeiros anos que trabalhei em Almada, e morando no Algueirão, apanhava cinco meios de transportes para lá chegar e outros cinco para entrar em casa: camioneta de casa até aos comboios; comboio até ao Rossio, de onde saltava quase em andamento e em andamento entrava num autocarro que me deixava à porta do barco; navegava até Cacilhas onde apanhava nova camioneta para o centro de Almada. Apenas no regresso, quando não tinha pressa e o tempo estava bom, prescindia do autocarro entre os barcos e o Rossio. Hoje ando apenas de metro e ando muito bem, à excepção dos dias de greve, em que venho de carro e entro no trabalho às sete da manhã.
Uma coisa que me irrita solenemente é a facilidade e a forma com que as pessoas reclamam sem pensar por tudo e por nada. Um minuto de atraso adquire proporções épicas de desassossego em certos passageiros, põe-se na má vida as mães dos maquinistas, atiram-se impropérios sobre um jornal abandonado que as empregadas da limpeza, nesse dias umas poltronas, nem sequer apanharam… enfim, uma tristeza.
Os ‘novos’ passageiros, os que antes iam de carro e agora emparelham com a ralé, e que se notam pelos cremes que lhes cobrem as caras e pescoços, pelos perfumes que se instalam em carruagens inteiras, pelas bijutarias tão parecidas, mas tão mesmo, com peças originais, pela forma afectada como se sentam fazendo tudo para não tocar na plebe que toma lugar a seu lado, como torcem o nariz a qualquer um que se vista de modéstia, são os que mais se incomodam e quando vão em pé então, valha-me S. Cristovão! Então pagam e vão em pé? Olhe, viesse mais cedo, ou então mande a criada guardar-lhe o lugar…
A coisa anda má, mas para algumas pessoas a crise é o próprio inferno, até de metro têm de andar! Ao que uma pessoa se sujeita!

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Vivelete

O Cheiro dos Livros entra-me pelos olhos e vejo uma palavra a que a minha boca está desabituada, mas que mora na minha memória. Teodolito.
Nos idos do primeiro ano de faculdade na disciplina de Sociedades, Culturas e Civilizações Clássicas foi-nos proposto uma de duas hipóteses: ou fazer um trabalho escrito ou ir trabalhar para um campo arqueológico nas férias da Páscoa. Ui… que escolha difícil e pobres dos que não tinham autorização dos pais, sim porque isto passava-se na altura em que era preciso ter autorização dos pais para nos ausentarmos de casa. Sim… esta época existiu.
Lá fomos cantando e rindo para Castro Verde onde os Maias tinham um resort arqueológico. Explico-me: marido e mulher, ambos com o mesmo apelido, davam aulas na faculdade e a estadia dos alunos era organizada entre os dois, ou entre os três se contarmos o cão, Dragendorff, que fora buscar o nome a um arqueólogo famoso do qual nenhum de nós ouvira falar.
O cão era um enorme pastor alemão que permitia que a dupla estacionasse o jipe, um velho Land Rover, e o deixasse de janelas abertas com pastas e papéis e mais o que se lembrassem à mão de semear. Ninguém se atrevia sequer a espreitar se não queria levar com a fúria de Dragendorff, Drago para os amigos e Draguinho para os momentos de mimo com a dona e que nos punham sempre a rir, pois era como chamar Fifi a um general.
Há uns anos tinha passado a única novela que vi com agrado e que me deixava pena quando perdia episódios: o Bem-amado, momento alto da representação do magnífico Paulo Gracindo no inesquecível Odorico Paraguáçu, talvez a melhor composição de intérprete a que já assisti em televisão.
O prefeito Odorico tinha um sonho: inaugurar o cemitério de Sucupira. Legítimo, é claro, mas para isso tinha que morrer alguém e não havia meio, apesar de muitos esforços.
Ora a malta lá em Castro Verde deu com um cemitério romano que nos pôs a imaginação a funcionar e proclamámos o prof. Maia como Prefeito Odorico; um dos nossos colegas, que passava a vida com a cabeça no ar, ficou o Dirceu Borboleta, outra personagem da novela que andava com uma rede de borboletas na mão por aqueles campos. A plêiade de arqueólogos de Castro Verde contava ainda com um aspirante a jornalista que ficou a chamar-se Neco Pedreira como o jornalista da novela. Eu e outras duas éramos as irmãs Cazajeiras e cada um tinha o seu papel naquela novela da vida real que marcou para sempre aquelas duas semanas.
Todos os dias fazíamos o trajecto de Castro Verde até ao campo e regressávamos ao fim da tarde, deixando os materiais usados no campo, devidamente acondicionados. Menos o teodolito que andava a passear connosco e com o qual os Maias se preocupavam imenso pois era emprestado, não me lembro por quem. Todos aprendemos a espreitar pelo teodolito, nem todos chegámos a perceber como se usava efectivamente.
Os almoços eram na cantina das Minas de Neves-Corvo, arranjo previamente feito através da Câmara Municipal e que nos proporcionou momentos únicos como descer a um dos poços, aventura que só quatro de nós aceitaram. Adorei!
Os cuidados com o teodolito não eram esquecidos nem ao almoço, pois levávamo-lo connosco para a Mina.
Era véspera da Páscoa e já fazia calor; embora cada um tivesse levado impermeável, andávamos todos de manga curta e uma de nós tinha uma t-shirt com umas belas palmeiras que, para além de lhe fazerem as mamas ainda maiores, tinha escrito em letras que se iam desfazendo como ondas: Vive l'ête. A t-shirt era velhota, estava meia desbotada e o chapelinho do Verão estava quase desaparecido.
Na fila para o almoço misturávamo-nos com o pessoal da mina, a arrastar o teodolito que passava de mão em mão, quando um dos mineiros fixou o peito da rapariga e disse:
- Vivelete? Esse é o sê nome? Que fêio… sês pais nã tinham outro?
Lá se foi o teodolito, naquele momento nas mãos de Dirceu Borboleta que o deitou ao chão com tanta gargalhada. Escusado será dizer que a Vivelete ficou com o nome gravado a ferro e fogo e nunca mais se separou dele.
Foi o melhor trabalho da faculdade e na altura ainda pensei na Arqueologia como uma carreira a seguir, e cheguei a escrever ao Prof. Indiana Jones a pedir integração na sua equipa mas, vá lá saber-se porquê, nunca tive resposta.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Não querem pagar?

Era uma vez um casal de reformados que recebia mensalmente uma choruda transferência por conta da reforma que dava para pagar a prestação da casa e fazerem uma refeição decente por dia; as outras eram sopa e restos. O casal de velhos gastava em drogas cerca de metade da reforma, ainda por cima legais, com receita e tudo. De vez em quando mudavam-lhe as doses, aumentava a tarifa, e não podiam dar largas ao consumo, pela simples razão que a farmácia não fia.
Um dia foram pagar o Imposto Municipal sobre Imóveis, IMI para os amigos, e o senhor das Finanças informou-os que estavam isentos por via do velho ter sido reformado por invalidez. Os velhos ficaram todos contentes e até diziam que tinham trabalhado arduamente a vida inteira, de tal forma que o velho passava a vida no hospital em operações, para o que tinha contribuído em larga escala o facto de ele ter passado anos em pé, com grande frequência quase vinte e quatro horas seguidas, mas ninguém sabia se assim era ou não. Tanto mais que o velho teimava, de vez em quando, a ocupar uma cama do hospital e a fazer o doutor cirurgião perder horas a operá-lo. Teimosia de velhos, já se sabe.
Numa ocasião estavam os velhos em casa, sem fazer mais nada se não contar o dinheiro como de costume, e porquê? porque tinham muito com certeza e nunca acabavam de o contar!, sem contribuirem para a sociedade, o que poderiam fazer com facilidade, bastava o velho largar a bengala e tomar umas aspirinas para se pôr a andar, mas enfim, quando são interrompidos pelo toque da campaínha. Era o carteiro que lhes entregou uma carta das Finanças que dizia que esperavam por eles lá na Repartição para pagarem o IMI de 2007 até agora.
O casal de velhos, não contente com o que já tinham, não cansados da dinheirama que gastavam todos os santos meses em droga, de barriga cheia de sopa e torradas, não fizeram mais nada, puseram-se a caminho a incomodar o Senhor das Finanças com reclamações sobre o pagamento que, lata das latas, achavam injusto!
Injusto é não lerem o Diário da República para se informarem que a lei mudou e, para além disso, ainda obrigarem as Finanças a gastar dinheiro em cartas, isso sim, é injusto! Mas os velhos, ávidos e cheios de soberba, ainda foram ver se o barro se agarrava à parede!
Quando lá chegaram estranharam a fila ser composta por vários outros velhos, alguns também de bengalas e muletas. Contou-se depois que houve até quem chorasse a perguntar como ia pagar não sei quantos mil euros de IMI de 2007 até 2011. Lessem o Diário da República e nada disto acontecia! Ora esta! Mas não, a velharia anda é nas farmácias, nos hospitais, nos centros médicos, cambada de viciados, e depois queixam-se!
Sugiro aos Senhores de todas as Finanças que afixem um anúncio nas suas repartições com a seguinte informação:
Não querem pagar? MORRAM!

domingo, 6 de novembro de 2011

Herói

Leio o Âncoras e sou levada por uma espécie de ciclone da Dorothy, não até Oz, mas ao Sobral da Adiça. Subo a rua Longa, como fiz tantas vezes, da casa dos meus avós até à casa do Tio Raposo que nunca vi noutra posição senão deitado.
Para mim ele é tão velho como o mundo, tão velho que já não envelhece mais. Sempre o conheci assim, velho, deitado num quarto escuro onde nem os poderosos raios de sol escaldante do Verão alentejano se atreviam a entrar. Ao pé do Tio Raposo falava-se baixo e baixava-se a voz quando se falava dele, num tom que parecia a voz de joelhos.
O Tio Raposo tinha estado na guerra e a guerra ficara-lhe com um braço e dera-lhe em troca uma doença que o obrigava a estar deitado. Estava assim há muitos, muitos anos, mais de cinquenta diziam. Eu não fazia ideia de quanto eram cinquenta anos, sabia que eram muitos, mas não conseguia aperceber-me da dimensão de meio século. Porém, isso só dava mais credibilidade à minha certeza que ele era muito velho.
Uma prima minha, pouco mais velha que eu mas que morava na aldeia e conhecia as dinâmicas de toda a gente, levava-me à casa dele quando ninguém suspeitava e falávamos com ele.
O facto dele falar foi uma surpresa não sei porquê. E supresa maior eram as coisas que contava: o frio, o peso da roupa, capotes e botas, a chuva que não parava e era tanta que entrava, passava pela carne e pelo sangue e saia do outro lado, a falta de comida e como se matavam pessoas pela posse de cascas de batatas, o melhor que se encontrava para comer. O receber uma carta, milagre que ele nunca recebera. E a perda do braço.
Hoje, quando vejo filmes passados na I GG e os realizadores nos metem nas trincheiras, olho a ver se vejo um braço, um braço a gritar de dores no meio dum lamaçal de sangue, cujo dono nunca aprendeu a viver sem ele, apesar de ter vivido até depois dos oitenta anos, como se se mantivesse vivo na esperança que o braço voltasse.
Diziam que o Tio Raposo tinha gangrena, que eu associava a uma gripe grave e nas primeiras visitas não me sentava na cama com medo do contágio. Depois percebi que a minha prima, que o visitava com frequência, era mais que saudável, logo, aquilo não se pegava e passei até a visitá-lo sozinha. Para mim era uma aventura subir a rua, entrar às escondidas naquela casa e sentar-me a ouvi-lo, nem que fosse só para me perguntar pelos meus pais. Ele tinha estado na guerra e tinha regressado, podia estar numa cama que fedia, mas se estivesse num trono era a mesma coisa porque ele era um herói. Tinha trazido a tal de gangrena, doença da França com certeza, pois aqui eu nunca ouvira falar dela. Nunca soube exactamente o que era a doença que mantinha aquele homem na cama, magro que nem um cão, amarelo e cheio de febres altas que iam e vinham ao sabor duma permanente inconveniência e mantiveram este ciclo ao longo de mais de cinquenta anos. Quando estava sozinho em que pensaria? Que pecados lhe assomariam à ideia que pudesse ter cometido e que justificassem aquela vida?
E ela? Eu pensava muitas vezes nela, a mulher com quem casara antes da viagem para parte incerta e por razões desconhecidas. Ela que era uma jovem alegre e bonita como dizia a minha avó e se viu transformada em sombra, sem vida, nem própria nem alheia, com uma grilheta a um morto-vivo que o destino colocou na sua vida, um morto-vivo que ela primeiro adorara e depois aprendera a suportar como vingança da vida por qualquer coisa que ela fizera mal e que não fazia ideia do que seria.
Eram dois caminhos perdidos por onde a vida não passava à décadas.
Pelo meu lado, sentia uma enorme pena dela, vontade de chorar quando lhe via os olhos sempre lacrimejantes, as rugas tão profundas como tristes e por várias vezes deixei mesmo as lágrimas cair quando ela se punha na cozinha e dizia que ia fazer certos cozinhados porque eram os favoritos dele. Dava-lhe de comer e ele sorria, ela retribuia e nos sorrisos havia palavras que me escapavam.
Um dia recebemos um telefonema a dizer que o Tio Raposo morrera. Apesar de o ver poucas vezes e sempre naquele ambiente lúgubre, senti que o mundo, pelo menos o meu mundo, perdera um herói.

Eu não entro em grupos

Voltei a andar de táxi. Já não o fazia há meses mas voltou a acontecer ser conduzida por alguém que parece ter acabado de sair duma soup americana dos anos 70.
O rádio ia ligado e o assunto era a crise. Agarrou o mote e repetindo que era preciso poupar e que ele não entrava em grupos, foi contando como era apologista de se abrir uma ou outra excepção, por exemplo para o filho de 25 anos e que ainda morava em casa. O dito filho tinha sido alvo dum presente de quase 300 euros, um gadget electrónico que ele não explicar bem qual era, mas a culpa não era dele, que ele não entrava em grupos, a culpa era da mulher...
Mais, ele já a tinha avisado que era preciso poupar, mas ela... ela não o ouvia e de vez em quando chateavam-se porque ela parecia que não ouvia notícias e não via como o mundo andava, mas ele, ele não ia em grupos, mas infelizmente teve que engolir quando ela comprou o desumidificador e o ar condicionado, que só foi ligado uma vez no Verão. Aí resolvi dizer qualquer coisa e manifestei a ideia que, apesar de fazer mal, mas o ar condicionado sabe bem e fui esclarecida que não se tratava dum equipamento portátil qualquer, mas duma instalação central que dava frio e calor à casa toda, ele próprio o tinha escolhido e supervisionado a instalação, que isto é preciso andar em cima da malta que instala as coisas e ele era de olho vivo e não ia em grupos.
Fiz a minha voz de surpresa e disse que me parecia ter ouvido ele dizer que fora a mulher a comprar o ar condicionado ao que ele esclareceu, esquecendo-se do que tinha dito antes, que a mulher queria um e ele concordara imediatamente; para terminar a conversa ainda me perguntou, afinal, para que serve o dinheiro? Para poupar?

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Cockpit girl

Estou a fazer um trabalho sobre o impacto da adesão ao Processo de Bolonha no quotidiano das bibliotecas universitárias. Decidi contactar 3 universidades em cada um dos quase 30 países que assinaram a Declaração e tenho andado nesta odisseia que se me afigura um trabalho de Hércules mas com evidentes vantagens e momentos que me fazem lembrar as duas caras de Janus: de um lado está a dificuldade em ler russo, ucraniano, arménio ou grego; a metodologia passa com frequência por um processo de adivinhação, em que procuro na amálgama de caracteres uma arroba e sei que ali está o endereço electrónico… ou pelo menos, um endereço electrónico. Por outro lado, está a magia desses mesmos caracteres, belíssimos, a mostrarem a minha gigantesca ignorância e a levarem-me a questionar repetidamente sobre o que se perde por não se dominarem línguas. Cresce em mim uma vontade de, como diria o V., comprar livros e um dicionário e ir lendo devagar, memorizando palavras, construindo frases, aprendendo.
Depois deste levantamento, ou melhor, durante, pois ainda vai a meio, cresce-me a sensação que o mundo não é grande, até está ao alcance dos marinheiros que se fazem a ele, mas está cheio de descobertas a fazer, descobertas essas que não são segredos, estão até bem à vista, sendo apenas preciso querer vê-las.
Nesta maratona não busco só os contactos das bibliotecas, procuro o nome dos responsáveis, para lhes escrever directamente, o que considero importante para uma taxa de feedback de sucesso. Uso o tradutor do Google como bengala pois, se Universitat d’Andorra não trás qualquer problema de leitura, embora seja em catalão, já თბილისის სახელმწიფო უნივერსიტეტი torna díficil perceber que nomeia a Universidade Estatal de Tbilisi na Geórgia. E foi assim que do Azerbaijão à Holanda, da Arménia ao Vaticano, passei pela Polónia e encontrei o director duma biblioteca universitária escolhida ao acaso: Blazej, de seu nome.
A alegria foi grande de tal forma que parei a pesquisa, usei o Google images para verificar que era aquele mesmo e escrevi-lhe em seguida.
Conhecemo-nos há muitos anos num congresso de bibliotecários em Creta e no regresso voámos juntos até Atenas, onde ele regressou à Polónia e eu apanhei um voo para Amesterdão, depois para Frankfurt e finalmente para o Porto, tudo para conseguir estar na Invicta a tempo de abraçar um primo muito querido no dia do seu casamento.
Blazej estava cansado de andar de avião mas nunca se tinha sentado no cockpit, conversado com um comandante em pleno voo e nunca tinha visto o horizonte, o céu e a terra daquela janela privilegiada onde poucos têm acesso. Ao contrário, eu já o tinha experimentado várias vezes e a minha grande vontade e curiosidade genuína já me tinham levado a levantar voo na cabina bem como a pilotar um helicóptero. Ainda me falta fazer uma aterragem no cockpit, o que depois do 11 de Setembro torna as coisas mais difíceis, mas é preciso não desistir e acredito que um dia lá estarei.
Sentados sob o mar grego a furar o céu, levantei-me, falei com uma hospedeira, disse-lhe que o meu amigo adorava ver o cockpit e pedi a devida autorização que foi concedida. Poucos minutos depois a hospedeira dirigiu-se ao meu companheiro de viagem e disse-lhe que o comandante o convidava para o cockpit. Quando regressou vinha com lágrimas nos olhos, feliz e agradecido.
Escrevemo-nos muitas vezes, ele chamava-me cockpit girl, eu sorria procurando palavras em inglês para lhe responder. A vida e os problemas informáticos fizeram-nos perder o contacto. Há anos tentei encontrá-lo na Polónia, mas não me lembrava do apelido e só o nome próprio não foi suficiente.
Agora, ao virar duma esquina, leia-se página da internet, aqui está ele.
E quando pensava que ele não se lembrava de mim, sou surpreendida pela mensagem de resposta onde ele pormenoriza a viagem de avião e outros momentos em Creta.
Tenho que sorrir.
Há dias falei dele aqui, a propósito duma igreja em Hania, cuja descoberta e visão me enriqueceram para toda a vida. Na mensagem de resposta pede-me uma carta longa, a contar tudo. Vou escrevê-la, pois claro, mas devagar, bem devagar, para prolongar este momento tão feliz e porque a vou escrever em polaco!
Cada vez mais sinto que quando nos deitamos ao trabalho, trabalho que dá prazer, somos recompensados, e quando a recompensa calha em vir sob a forma de amizade, de reencontro, de partilha, de saudade morta, é a magia a acontecer na nossa vida.
Dziękuję, Blazej.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Às mãos ambas

Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia devoram-se num ápice. Muito bem escrito, Rentes de Carvalho remete para  A Cidade e as Serras, fazendo-nos rir e lacrimejar, em bolandas por esses mundos, exteriores e interiores, muitas vezes ambos escondidos, pois o exterior embora esteja por aí, de braços abertos, à espera, não se vislumbra com a velocidade a que se passa. É a chamada velocidade de turista, pois só em modo viajante os olhos se abrem e deixam entrar as memórias.
Não sei se foi da intenção do Autor ou requisito editorial, mas achei piada ao facto de se referir sempre ‘infarto’ em vez do corriqueiro ‘enfarte’ para designar o achaque do músculo cardíaco. E achei piada porque ‘infarto’ é comummente usado no sul do país, local onde o Autor parece não nos levar através da escrita mas, desta forma, percebe-se que a leitura vai sempre mais além do que se pode pensar numa primeira vista.
Porém, se o livro não tivesse o nome que tem podia chamar-se ‘Às mãos ambas’, expressão transversal a todos os contos, por prazer da escrita, por simpatia do autor, por ineficácia da revisão que podia ter sugerido alternativas, não sei. Mas com as mãos ambas seguramos o livro, lemos essa expressão que, de tão repetida, acaba por ser uma espécie de fio condutor que liga cada conto, cada narrativa, como uma assinatura que não desdenha qualquer mão, mas usa-as ambas para se identificar.