segunda-feira, 3 de outubro de 2011

A pobreza consiste em nos sentirmos pobres*

A maioria das pessoas que anda a pedir em Madrid é diferente dos que pedem em Lisboa pela simples razão que dão algo em troca, ou seja, exercem uma tarefa voluntariamente e esperam que lhes demos algo em troca. No metro sucedem-se as modalidades de músicos: um com um carrinho de supermercado coberto com uma lona que esconde uma aparelhagem, põe-na a tocar e acompanha com uma flauta; violas põe-nos o pezinho a bater, gaitas-de-beiços fazem-nos assobiar, instrumentos diversos gingam-nos, há quem faça malabarismos, mímica, contorcionismo. As pessoas dão qualquer coisa, pois não lhes pedem por pedir. Mesmo que não se dê nada, agradecem. Fizeram-me lembrar o cego que anda a pedir no metro em Lisboa e que bate com a bengala nas pernas das pessoas com violência e lhes dirige todo o tipo de impropérios, fazendo calar as carruagens; ninguém diz nada porque é cego, caso contrário já teria levado umas bofetadas, no mínimo. Como todos conhecem o seu comportamento a única coisa que fazem à sua passagem é encolherem-se e desviarem-se o mais possível, quantas vezes para dentro do minúsculo espaço dos que vão sentados: é melhor pedir desculpa do que levar com a fúria do cego que leva tudo à sua frente, não por ser cego, mas por ser bruto. Quando chega ao final da carruagem sem que alguém lhe tenha dado um cêntimo critica a virtude das mães dos passageiros e junta-lhe todo o calão da língua portuguesa.
Na noite que esperava por José Ignácio por baixo do falso quilómetro zero, veio uma mulher a puxar uma mala de viagem em cima da qual se equilibravam dois sacos de boa qualidade. Dirigiu-se a mim e pediu-me dinheiro para ir para o aeroporto. Perguntei se tinha perdido a carteira e esta minha pergunta fez-me sentir um apresentador de circo que anuncia o próximo número; ouvi a história dela: veio das Canárias em busca de trabalho que não conseguiu arranjar, o marido maltrata-a e não a deixa ver o filho, está desesperada e não tem um cêntimo. Olhos claros, braços e pernas limpos, sem marcas, discurso fluente. Perguntei se tinha fome. Que não, uns estrangeiros pagaram-lhe umas tapas, os estrangeiros são mais simpáticos que os espanhóis, eu era uma excepção. Fiquei indecisa sobre se lhe devia dizer que eu era estrangeira e, dessa forma, matar-lhe a réstia de esperança nos espanhóis. Dei-lhe o dinheiro que tinha, razão pela qual passei um momento embaraçoso mais tarde com José Ignácio, eu a insistir em pagar mas como não aceitavam cartão, logo, ele que já tinha guardado a carteira, teve que a tirar de novo e responsabilizar-se pela despesa.
Contei-lhe a cena com a mulher e ele franziu um bocado o sobrolho, sinal que estava na dúvida se eu tinha feito bem ou não… as pessoas têm muitas manhas para se aproveitarem dos outros e eu devia acautelar-me.
Como tanta vez acontece, lembrei-me do Leão da Tunísia, o verdadeiro, o único, trapezista nos melhores circos do mundo que um acidente moveu, como peça de xadrez comida, para fora do tabuleiro da vida e de quem ouvi a história na primeira pessoa; fui a única a acreditar nele, contra vozes de cuidados que se ergueram e quase não me deixavam ouvir, fazendo assim perigar uma das mais belas descrições de vida que já ouvi. Ao contrário dos demais vim com a carteira mais leve mas com a memória mais rica.

*Frase atribuída a Ralph Waldo Emerson

Com um brilhozinho nos olhos

No segundo dia de estadia em Madrid fui visitar um bibliotecário que me tinha anteriormente contactado para fazer Erasmus na minha biblioteca. Deparei-me com um jovem a rondar os 30 anos, bem-disposto e alegre, que me convidou para um café e me cumprimentou como se eu fosse da família.
No primeiro contacto por escrito, não sei porquê, dissera-me que estava de regresso de uma longa viagem e foram estas as palavras-isco que me prenderam sem ele fazer a mais pálida ideia.
Desinteressada de grandes preliminares fiz a conversa avançar rapidamente e perguntei que longa viagem era aquela. Resposta:
- Samarcanda, Vietname e Cambodja. Já ouviste falar de Samarcanda?
O pobre do rapaz não fez, não faz, nem fará ideia do efeito que teve sobre mim e provavelmente pensou que o meu tímido ‘sim’ seria um ‘não’ que eu envergonhadamente queria esconder. Mas este pensamento só surgiu depois. Depois das palavras entrarem em mim, formarem um remoinho, provocarem uma onda submersa, com efeitos de tempestade tropical mas numa floresta sem vivalma, de modo que ninguém vê. Alguns dos meus músculos petrificam ao sabor de certas palavras que têm uma conotação mágica e José Ignácio conseguiu com apenas um acorde dizer três delas: Samarcanda, Vietname e Cambodja, ganhando a minha dedicação e atenção total sem o perceber e sem sonhar como é difícil alguém conseguir um feito épico desta natureza.
É claro que tudo isto tem enormes doses de inveja e ciúme e, sem dar a entender, projectou-se uma bela longa-metragem na minha cabeça: Samarcanda igual a Alexandre, igual a fabrico de papel, igual a Gengis Khan, igual a Marco Polo, igual a Rota da Seda, igual a sultão, igual a desejo.
Depois de algumas explicações sobre a viagem, começou a falar português e eu acordei do transe. Queria praticar e combinámos que cada um falaria a língua do outro.
Temendo estar a impor-lhe a minha companhia desviando-o do trabalho, fui embora com a promessa de me ir despedir antes do regresso a Lisboa. Disse-me que nesse dia arranjaria mais tempo para falarmos e foi assim que José Ignácio ficou hibernado o resto da semana.
Como alterei a data de regresso, disse-lho por msn e combinámos ‘tomar un vino’ na minha última noite.
Esperei que não trouxesse companhia e a trazê-la, que fossem os companheiros de viagem pois, para ser franca, o que me interessava verdadeiramente era ouvir o relato, de preferência nas línguas dos países visitados, mas também aceitava espanhol ou português com erros. Combinámos no quilómetro zero que eu, tão ansiosa estava, confundi com uma porcaria duma placa na parede que anunciava uma joalharia com o mesmo nome, e à porta da qual um vagabundo bebia e falava sozinho.
Já passavam quinze minutos da hora marcada e pensei que se atrasara pois decerto convidara alguém, colegas de faculdade talvez, da sua idade, que o ajudassem a conversar com a portuguesa que o iria receber em trabalho dentro de meses e com quem tinha que ser simpático. Dei-lhe mais quinze minutos, ao fim dos quais, se não dissesse nada, me iria embora pois não estava para aturar um bando de jovens atrasados que me levariam a um sítio turístico com certeza, onde se falaria muito alto e onde eu não poderia atingir o meu objectivo, ouvir a descrição da viagem.
Surpreendi-me com um telefonema dele a perguntar se estava tudo bem e se eu estava muito atrasada… Atrasada? Eu? Bem, lá esclarecemos o local do quilómetro zero, eu apelidei-me de tonta mas sorri porque ele fora sozinho.
Primeira paragem: cerveja com batatas fritas e anchovas. Tipicamente madrileno, segundo ele, encostados ao balcão, eu com uma mala com um caderno e o meu Kerouac, ele com um monte de papéis.
Segunda paragem: Los Gatos; cerveja e polvo à galega, apinhados com gente a falar e a rir e onde me foi jurado que o local estava vazio. Normalmente não se consegue entrar e do balcão vão passando as cervejas de mão em mão aos clientes pois o empregado não consegue passar.
Terceira paragem e seguintes, só cerveja e muita conversa: sobre a vida, as viagens, os emigrantes, os livros e mais mil coisas, até que ele comenta que agora está mais seguro pois ficou efectivo no trabalho: era arqueólogo e nunca sabia se tinha trabalho ou não, se as verbas chegavam para dar continuidade a escavações em Toledo onde vivia. Registei o facto de ser arqueólogo (tanto que havia a dizer sobre isto…) e com ar maternal perguntei-lhe se podia dar-lhe um conselho; entrei por um discurso sobre a sua idade, falei do caracter chinês comum a crise e oportunidade, falei da velha divisão das pessoas em momentos de crise quando umas choram e outras aproveitam logo para vender lenços, que não tivesse medo da vida, que não se apegasse a empregos que fariam dele uma fotocópia dos pais, que vivesse a vida de olhos bem abertos, para aproveitar e não deixar escapar oportunidades, que o mundo é de facto maravilhoso mas tem que ser explorado, visto com olhos de ver, ao vivo e a cores. Enfim, fiz-lho o discurso nº 1 para alunos cujo objectivo é licenciarem-se e de repente acordam com prestações de casas e carros e móveis e no meio desta vida rotineira e pesada fogem os sonhos que morrem sem alimento.
Ele ouviu-me a sorrir – a esta altura já tinha desistido de falar português embora eu seguisse num espanhol amantizado com a nossa língua materna – e perguntou-me que idade achava eu que ele tinha. Percebi imediatamente o fulgor da sua juventude a sentir um qualquer ataque, como tantas vezes acontece com o meu filho cuja idade o faz pensar que sabe tudo e vê os conselhos dos mais velhos como palavras ocas. Ou seja, concluí que falara demais…
Disse-lhe que não lhe dava mais de 32 achando que estava a ser generosa em lhe aumentar a idade e a resposta foi uma sonora gargalhada que subiu mais alto que todos os outros barulhos juntos. Tirou a carteira e provou que era quase da minha idade…
Continuou a rir e disse saber ter este efeito nas pessoas. Pagámos e saímos, para voltarmos a entrar mas desta vez num local com mesas e cadeiras onde nos sentámos e me contou o percurso de vida por alto, e eu senti-me dentro de Hudson, com Dean e Sal, a ouvir as suas descrições.
Por entre relacionamentos amorosos estivera em Toledo e em Dublin a viver, era arqueólogo, desistira depois a meio do curso de Direito por não lhe dizer nada e um dia descobrira as bibliotecas sobre as quais está a fazer um master e onde trabalha há anos.
Este percurso interessava-me cada vez mais e acabámos por ir embora quando a empregada nos veio pedir o dinheiro dizendo que iam fechar.
Fecham eles mas não a nossa conversa. Entrámos noutro bar, com cadeirões de verga e grandes cinzeiros que não eram para as beatas mas para as cascas de pipas. Não sei como, mas a conversa foi dar aos sobrinhos e ambos tínhamos uma enciclopédia para debitar. Ainda as histórias da miudagem iam a meio quando o dono nos põe a conta à frente, dizendo, Vamos fechar! Já?
Andámos pelas ruas a falar de diferentes cidades europeias, africanas, asiáticas. Está tudo fechado. De repente aparece um jovem a perguntar se queremos beber alguma coisa… ele conhece o sítio certo. Vamos? Vamos!
Começámos a andar como se a polícia viesse atrás de nós numa rua a subir que nos extenuou. Finalmente chegámos a uma porta que quando se abriu nos atacou a visão e a audição com luzes a mexerem-se rapidamente e música de discoteca…
O ‘tio’ que nos levara recebeu imediatamente a propina do que estava atrás do balcão; olhámo-nos mutuamente perguntando-nos em silêncio se ficávamos ou não. Porque não? Será diferente de tudo.
Em Madrid não há excepções para locais de fumo, nem com chaminés, exaustores, o que seja. É proibido e pronto. Por outro lado, não se pode estar à porta de copo na mão, a polícia não deixa. Então bebemos uma cerveja e saímos a fumar. Explico que em Lisboa se pode beber na rua e os bares e restaurantes aderiram à moda de colocar mesas de pé alto às portas, nos passeios, para satisfazer os clientes fumadores.
Concordámos que a hospitalidade portuguesa é maior que a espanhola e ele contou-me episódios passados em Portugal que comprovaram isso mesmo. Disse-lhe que o meu avô adoraria ouvir a conversa e contei-lhe um momento caricato doutros tempos: o meu avô foi ao Rosal de la Frontera, a aldeia mais próxima da sua, não obstante ser espanhola, e entrou numa acesa discussão com um espanhol, cada um argumentando que o chouriço do respectivo país era melhor que o do outro! Ora como a discussão era acompanhado de vinho, rapidamente tomou proporções épicas e acabaram os dois na esquadra da Guardia Civil a passar a noite. O meu companheiro de noitada disse-me com ar sério que se via também obrigado a defender o chouriço espanhol e acabámos a rir.
Quando saímos do tugúrio vi-me diante do Prado. Tínhamos andado assim tanto? Espreitámos o Monumentos a los Caídos por Espanha que vivia na minha ignorância. Eram quatro da manhã e estávamos com as caras encostadas aos ferros, eu aluna a ouvir, ele professor a explicar que a maioria das pessoas confundem o monumento com o do Vale dos Caídos, sem saber que me provocava uma certa tristeza por eu ser uma delas.
Nesse momento recordei uma noite magnífica em Hania, na ilha de Creta quando um companheiro polaco chamado Blazej – também bibliotecário – me levou descalça, para não acordarmos alguém, por um labirinto de ruas estreitas onde ele desencantara uma igreja ortodoxa na noite anterior, cujo chão estava coberto de velas acesas, numa manifestação de fé que as correntes de ar pareciam ser incapazes de parar. Aquilo era tão belo, tão sereno, tão inesperado, tão autêntico, tão nu, que acabei por perder os sapatos e tive que voltar atrás a buscá-los.
A experiência em Madrid não se revestiu do misticismo da de Creta, mas fez-me pensar que a maior parte das situações inesperadas que me acontecem e que não esqueço, são proporcionadas por perfeitos desconhecidos.
As cinco da manhã já se vestiam e aprontavam para sair à rua quando cheguei ao hotel. O meu companheiro e eu despedimo-nos com um afectuoso abraço, mas como quem se vai encontrar de novo no dia seguinte. Não faço ideia de quando será o dia seguinte, mas penso que fiz um amigo e coisa mais preciosa no mundo não há.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Máquinas de escrever

Foi com 45 anos e numa Europa em crise, mas que se movimenta para todo o lado e que integrou o conforto como obrigatório, que li o (clássico) Pela Estrada Fora. Será coincidência ter sido em período de Erasmus? Como se fosse uma viagem mais que geográfica, através do tempo? Do tempo antigo, do tempo perdido, do tempo alheio, do tempo eterno? Não sei, mas aconteceu assim.
Dei-lhe com os olhos numa prateleira lá de casa onde me andava a passar despercebido há anos (tem o preço marcado em escudos). Como tenho sempre as janelas abertas, a crise escapuliu-se para dentro da minha casa, assentou arraiais e ando a reler, ou a ler tudo o que me aparece de graça. E lá estava Jack Kerouac ou Sal Paradise ou uma máquina de escrever humana sorrindo-me numa estante.
A leitura foi terminada no último dia em Madrid. O que é que se costuma dizer das coincidências…?
Li-o no abafado do metro, nas paragens de autocarro, antes de adormecer e andou sempre comigo na mala, como uma espécie de bilhete de despedida de suicídio dum tipo de vida, que se hesita em usar.
No último dia, dando as últimas voltas a fazer tempo para apanhar o avião, vejo uma loja com máquinas de escrever antigas. Há uma que me olha de soslaio, pequena mas carregando milhares de impressões digitais de não sei quantas pessoas, atrevo-me a dizer homens: foi fabricada em 1904 e usada na guerra. O teclado é normal mas na verdade cada tecla escreve um outro carácter, cuja correspondência está atrás como se fosse em Braille, de modo a dificultar a desencriptação das mensagens. Não era a Enigma, mas garantidamente era da família.
É amor à primeira vista. Entro na loja com o pensamento dividido e rezando para que o Dean Moriarty que vive em mim esteja a dormir. A minha principal prece é que seja barata, mas tenho a consciência que não será. Quando souber o preço saberei sorrir, agradecer a informação e voltar costas? Ou serei acometida por aquelas loucuras que só parecem loucuras dias ou meses mais tarde e que enquanto estão a ser praticadas vestem-se como actos naturais e até saudáveis?
A montra onde a máquina crescia para mim estava tapada do lado de dentro por um pesadíssimo biombo em ferro, tosco, dir-se-ia chegado da própria Idade do Ferro. A dificuldade em chegar à máquina e saber-lhe o preço seria um sinal? E que sinal? Que não esperasse e me fosse embora? Ou um teste à minha persistência, com prémio no fim?
Finalmente o biombo foi afastado e a máquina retirada da montra como se fosse uma pessoa resgatada dum desmoronamento.
O coração acelerava como se tudo aquilo fossem os preliminares dum pedido de casamento, com algumas hipóteses de se concretizar ali e agora. Mas 349 euros era um dote muito elevado para mim, embora a princesa valesse muito mais.
Olhei-a como um marinheiro apaixonado mas que não quer comprometer-se pois desconhece a sua sorte por esses mares e não sabe se regressa, e abandonei a loja com o coração partido.
Há anos atrás, em busca duma casa para morar, visitei um apartamento belíssimo, último andar, duplex, piso superior todo modificado, revestido a madeira, uma pérola. O preço era alto e tentámos negociar com os donos. Numa das ocasiões, talvez numa terceira visita à casa, vejo no chão uma máquina de escrever. A bem da verdade, eu não a vi, foi ela que me chamou e dei comigo instantaneamente a dizer aos donos, e ao meu boquiaberto marido, que se deixassem a máquina nós pagávamos sem regatear. No dia seguinte telefonaram a dizer que não aceitavam e, apesar da desilusão, conseguiram subir na minha consideração. A casa só não tinha vista para o mar, caso contrária seria perfeita.

Escândalo com o teletransporte

A transportadora Europa está envolvida num novo escândalo depois do último telepassageiro ter desaparecido quando era teletransportado de Londres para Washington. A empresa já emitiu um comunicado a informar que Joshua Martin não chegou ao destino nem a qualquer outro ponto com cobertura de teletransporte, como tinha sido inicialmente sugerido, quando se pensou ter havido um erro de coordenadas que tivesse colocado o empresário londrino em Nova Iorque ou até em Toronto, como chegou a ser noticiado.
É a terceira vez no espaço de um mês que a Europa regista perda de telepasseiros: o primeiro, um arquitecto japonês, foi encontrado a vaguear na Cidade do México; há cerca de duas semanas uma funcionária da Organização Mundial de Saúde desapareceu quando se teledeslocava de Paris para Pequim e foi encontrada dois dias depois em Xangai.
O caso de Joshua Martin foi já comentado por responsáveis de diversas companhias de aviação que reforçam as suas posições contra o uso deste meio de transporte e são unânimes em dizer que não há estudos de segurança suficientes para abrir o teletransporte à sociedade civil. Por seu lado a Europa aponta empresas concorrentes, e não completamente legais, como as causadoras destes problemas. O Presidente da transportadora Europa afirma mesmo que ‘As empresas ilegais, que não querem cumprir com todos os requisitos necessários, que não têm equipamento tecnológico à altura, não se preocupam com os clientes; garantem preços baixos, mas não têm respeito pela vida’.

Notícia de Setembro de 2031

Ave César

O artista plástico César inaugura hoje uma exposição de trabalhos que alia a actual técnica inwall com a quase desaparecida fotografia. É grande a expectativa sobre o visionamento de imagens interactivas da Baía de Cascais ou do Portinho da Arrábida, locais de eleição dos veraneantes até há uma década atrás e hoje desaparecidos.
O momento real da abertura da exposição, intitulada ‘Era uma vez o mar’, será às 19 horas de Lisboa e para a acompanhar o leitor deve ter a sua parede de recepção de inwall disponível.
A agência Rainha de Copas, responsável pela organização, pede ao público, que se prevê serem vários milhões de pessoas, que não façam perguntas a César e respeitem o círculo amarelo que o rodeará no inwall. Os motivos do pedido são compreensíveis pois, apesar de o irmos ver com toda a dinâmica a que nos habituou, sabemos que na realidade está hospitalizado e será do Hospital Central via inwall que participará na inauguração.
‘Há apenas duas peças que não receberam pedidos de aquisição’, são afirmações da organização que mantém a decisão de não vender nada enquanto César não recuperar completamente e dispuser das mãos protésicas que lhe foram substituídas. A cirurgia foi um êxito, como amplamente noticiado, e nós desejamos rápidas melhoras.

Notícia de Setembro de 2031

Faça-se luz!

A criadora Rita Gata Brava e a empresa de software Lusitana apresentam a sua última criação em conjunto: vestuário feito de energia eléctrica.
Em entrevista Rita Gata Brava falou da modernidade do conceito que permite ‘ir trabalhar com um look, almoçar com outro e aparecer num jantar deslumbrante, sem precisar de ir a casa mudar de roupa’. Os equipamentos, já conhecidos por Prêt a Porter, pesam cerca de 100 gramas, e com um simples toque solidificam camadas de energia no corpo humano, em formas pré-seleccionadas de roupa, com cores e padrões ao gosto do utilizador.
Rita cumpre assim a promessa de fazer vestuário dinâmico e que se adeqúe aos seus já conhecidos penteados feitos com recurso a hologramas e que estiveram igualmente presentes na mostra.
A Lusitana escolheu o terminal de transportes terrestres e aéreos de Sintra para este lançamento mundial no qual estiveram presentes Jennifer e Phoebe Gates, filhas do falecido Bill Gates, apesar da sua empresa não ter conseguido competir com a lusitana Lusitana e a quem Rita Gata Brava disse Não.
Ainda não se sabe o valor de comercialização do Prêt a Porter, mas a conhecida empresa de software portuguesa já informou que ‘será um produto para consumo de massas’, prevendo-se assim, que tenha um custo acessível.
A criatividade e a tecnologia portuguesas continuam de mãos dadas e a dar novos mundos ao mundo.

Notícia de Setembro de 2031

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Tradição no Jardim Botânico

Vou ao Jardim Botânico comprar um livro de desenhos de Mutis. Na entrada explico que não tenciono visitar o JB mas apenas aceder à Biblioteca, Livraria, Centro de Documentação, o que seja. A rapariga que vendia as entradas diz-me que não há nada disso no JB e aponta-me uma barraca que vende pacotes com sementes e folhetos explicativos da melhor altura para plantar ervilhas-de-cheiro. Digo-lhe que o que procuro não está decididamente ali, mas ela continua a indicar-me a loja das plantas enquanto me faz sinal para que me desvie pois a fila cresce atrás de mim. Insisto, digo-lhe que estão à minha espera! Acreditou na minha mentira e lá agarrou no telefone conseguindo fazer-me até sorrir pois disse que estava ali uma ‘chica’ que procurava a livraria ou a biblioteca. Lá a esclarecem e com um pedido de desculpa indica-me a localização: fica exactamente do lado oposto onde estávamos. Vou até lá e sou recebida como se fosse a própria Rainha Sofia: era a única cliente.
Depois duma agradável conversa com a bibliotecária, de me ter informado que tudo o que eu queria estava online com as respectivas indicações para a autorização de publicação, de me ter oferecido lâminas com imagens, uma delas belíssima, com a correspondência que Lineu fez da botânica para o alfabeto, fiz-lhe a reclamação sobre o incidente à entrada.
Contou-me que recebiam e-mails de pessoas a dizer que estiveram à porta do JB mas não encontraram a Biblioteca, que os problemas de comunicação eram muitos e que quase não acreditava que eu, estrangeira, ali tivesse conseguido chegar; que era uma situação recorrente e que não se conseguia fazer nada.
Sorri, despedi-me e pensei que afinal não é só em Portugal que estas coisas acontecem: identifica-se um problema, a solução é duma facilidade atroz e, no entanto, encolhem-se os ombros e deixa-se a tradição continuar a ser como era.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Pincelada de Prado

Não me lembro rigorosamente nada do Prado. A entrada seria outra? A envolvência teria mudado assim tanto? O Alzheimer é já tão grande? Nada disso. Não me lembro porque nunca lá fui, embora conheça e seja amante de algumas das peças.
A visita mais prolongada a Madrid foi há alguns anos com marido e filho, como atestam algumas fotografias; a memória mais sólida desta viagem é o olhar fixo do Duarte, com 7 ou 8 anos, diante de Guernica. Já eu tinha tirado todas as medidas ao quadro, virado e revirado a cabeça para apreender mais esta e aquela perspectiva e ainda ele estava absorto num primeiro contacto prolongado, o do choque. Olhos vidrados, movia-se para tirar as pessoas do seu ângulo de visão e continuava a olhar, como alguém que põe uma garrafa à boca e só descansa na última gota.
Com a minha queda para estações e terminais de transportes estivemos em Atocha, mas não no Prado, ali mesmo ao lado. Não me lembro porquê, mas algo me diz que o meu marido deve ter decidido que os bilhetes eram caros e que já tinhamos visto muita coisa e assim ficámos. Se houve a discussão do costume apaguei-a da memória.
Agora, finalmente, visito-o como quem visita um velho amigo com quem estamos em dívida.
Não percebo nada de pintura mas sei o que gosto, o que me impressiona, o que me faz suster a respiração, o que me choca, o que me arrepia, o que me provoca lágrimas, o que me prende durante uma hora seguida, o que me deixa indiferente e o que detesto.
Comecei pelo choque negro de Goya. Composições horríveis que, não obstante, sempre me fascinaram quando via as imagens. Os originais deixaram-me estarrecida.
Passei para a magnificente luminosidade de El Greco e concluí que só vendo-os nos apercebemos da sua profundidade e da dimensão poderosa, que nos faz ter vontade de ajoelhar perante aquele tudo que se mete cá dentro duma forma inexplicável: não há imagens dos quadros que revelem a luz interior de cada composição e cada quadro é uma janela para dentro dele mesmo, um astro com luz própria.
Dei comigo com lágrimas nos olhos diante dum Rembrandt, sem saber quem era o autor, mas presa no acetinado da pintura.
Deixei Diego para o fim. Por ser uma espécie de dono do Prado, o anfitrião de todos os outros, por ser absolutamente maravilhoso, fazer parecer tudo tão fácil, tão próximo.
Não gosto de museus mas sempre que visito um sinto-me mais rica. E neste dia fiquei de barriga cheia.

Fazer nada

Gosto de me levantar cedo para poder fazer nada. Esse aparente nada transforma-se sempre num cumprimento ao dia por onde vejo os outros passar a correr sem o verem, como se fosse um filme diante dos meus olhos.
Tantos destinos, tantos compromissos, tantas pressas e eu de conversa com o dia, paciente com ele, a deixá-lo espreguiçar e vendo uma cidade inteira a pendurar-se-lhe nos braços.
Enquanto espero que o dia se torne adulto, e todos os outros ocupem o seu lugar nele sem sequer o verem, identifico barulhos e ruídos, vejo as sombras mudarem de posição, as luzes das ruas apagarem-se, as tarefas rotineiras abrirem-se como torneiras.
O céu veste-se de azul natural, dando-me o privilégio de não ver outras roupagens, cinzentas, que me fariam perder alguma boa disposição.
Depois deste exercício de observação estou pronta para começar a trabalhar, sem sono, consciente que cumpri um ritual religioso ou pagão, que me encaixei no dia e não o deixei passar por mim anónimo, sem história.
Ao fim do dia passo pelas Portas do Sol, enfio pela Arenales. A entrada no céu não deve ser muito diferente: entardecer quente, jazz tocado no meio da rua e uma banca de livros usados, como piscina de água cristalina e fresca. Passo os dedos pelos livros, leio os títulos e o papel velho sorri-me, como fazem os velhos amigos.
O próprio tempo senta-se neste fim de tarde, parado, e se cães houvesse não ladrariam, sossegados pela ternura da luz que se esvai.

A mi me gusta camiñar

Saio do hotel convicta que o passeio até à Universidade é coisa de crianças. Avenida Carranza abaixo, Alberto Aguillera acima e decido perguntar pela primeira vez. Vou bem, mas sugerem-me que apanhe um autocarro.
- No, gracias, a mi me gusta camiñar.
Como não fui explícita, vejo-me diante duma Faculdade da universidade, mas que não fica no campus.
Nova pergunta, nova sugestão sobre o meio de transporte a apanhar.
- No, gracias, a mi me gusta camiñar.
Ora bolas, não há-de ser assim tão longe, pensa a minha teimosia.
Com o estúpido objectivo de ver uma montra, eu que até nem gosto, acabo por me meter por um atalho e confiar no meu inconfiável sentido de orientação.
Nova pergunta, a mesma sugestão do autocarro, e logo eu:
- No, gracias, a mi me gusta camiñar.
Chego ao Museu da América e avisto o nome da Universidade do outro lado da estrada. Porém, o piso é desnivelado, a estrada é uma via rápida – que nem parece pois está tudo parado – e tenho que ir até ao fundo da rua e numa rotunda passar para o lado contrário até ao edifício que diz Universidade Complutense.
Finalmente!
A uma das entradas pergunto pela Biblioteca central e digo o nome da pessoa que me espera.
Dizem-me que não é ali e que apanhe o autocarro G, que me deixará à porta.
Há uma hora e quarenta e cinco minutos que saíra do hotel e agora sim, estava no momento certo de aceitar as sugestões de meia Madrid. Entrei a pensar que gastara 1,5€ por uns cem metros, mas nove paragens à frente os meus pés agradecidos sorriram-me pela primeira vez nesse dia.
O acolhimento foi efusivo, a simpatia grande; a meio da manhã na cafetaria o número de bibliotecários por metro quadrado fazia aquilo parecer um congresso, com a diferença que nos congressos só me falam os conhecidos e ali fui apresentada a todos, distribuindo apertos de mão e repetindo ‘Encantada’ como uma máquina. Mas a verdade é que estava mesmo encantada.
Quase às três da tarde saí e apanhei o primeiro autocarro que passou que, infelizmente, me deixou a meio caminho. As roeduras nos pés falaram mais baixo e fiz o resto do percurso a pé. Passei pelo hotel, tomei banho e saí fresca como uma alface para a tarde madrilena, quente e acolhedora.
Amanhã há mais, com trabalho sério, reuniões marcadas, mas a tarde será no Prado.

Ao lusco-fusco

A Plaza Mayor de Madrid não é a mais bonita de Espanha. Mas é imponente com a estátua equestre de Filipe III que lhe confere o enquadramento nos modelos de praça real da Europa, disseminados desde França, quando se pretendia incutir a soberania da figura real, mesmo em noites de chuva e lama, sem público.
Sentada a uma mesa perscruto os telhados da praça enquanto o lusco-fusco boceja. Antes de a noite tomar o seu lugar, já os candeeiros estão acesos, pedem-se tapas e cañas e dou com os olhos na improbabilidade: um estendal olha-nos de um dos telhados da praça, ondulante, branco, sereno, alheio à comida, aos turistas, à estátua, ao próprio tempo. São oito ou nove peças de roupa, algo distantes, como se a História se tivesse esquecido delas ali.
Pela enésima vez lamento não ter máquina fotográfica, mas desta vez lamento mais, lamento não conseguir correr atrás do lusco-fusco e trazê-lo de volta para segurar o estendal branco à luz rosada e alaranjada dum momento que não mais se repetirá.
Esqueço-me que tenho uma bolsa que me paga a alimentação e peço o mais barato da lista: frango; acompanhamento: batatas fritas, na modalidade de palha e na quantidade de onze. Comento com a minha irmã que sugere que a lógica seja a das senhas do carrossel, onde compramos dez viagens e nos dão uma senha grátis.
Os onze elegantes palitos fazem companhia ao cume, e só ao cume, dum peito de frango. Para quem se levantou às sete, trabalhou quase até às três e caminhou todo o resto da tarde, aquilo não é nada.
Ora bem, o que é que me apetece? Hum… Queijo! Peço um pratinho que me custa 17 euros e do qual só consigo meter metade. Instintivamente penso que já tenho pequeno-almoço para o dia seguinte: guardo a metade do queijo e o pão num guardanapo, com quatro americanos candidatos ao Biggest Loser a olhar-me. Apetece-me dizer-lhes:
- Já só há este… e é para mim…

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Caminhos confusos, mas negros.

Por ocasião da minha estadia espanhola – em hotel, não em residência, embora com pena minha… – reflecti sobre a importância das rotinas e em quanto elas nos ajudam de facto a perceber as pessoas, os povos, o estar.
Se vamos de férias e nos pedem 5 euros por uma garrafita de água concluímos que cada garrafa custa 5 euros. Porém, há que comprá-la onde as pessoas a compram e não onde essa espécie daninha dos turistas se abastece. O acto de repetir uma acção – almoçar, jantar, fazer compras de mercearia, andar de transportes (sem o cartão de turista!) – duma forma sistemática dá-nos uma percepção que a falta de rotina nos tira.
Ouço com frequência as pessoas dizerem que na França é assim e na Holanda é assado porque um dia me aconteceu isto ou aquilo… ninguém concede que seja a excepção. A minha falta de preconceitos, obrigada a todos os deuses de todos os olimpos, faz-me pensar sempre duas vezes perante qualquer coisa. Por norma, quando penso só uma engano-me.
Sabendo do número de desempregados e da situação económica da Espanha, estranhei que as esplanadas estivessem sempre cheias – o sempre é de manhã, à tarde e à noite, em vários locais da cidade e em diferentes tipos de estabelecimentos durante uma semana… penso que é um indicador suficiente para esta estatística de bolso.
Conto-lhes que por estas bandas já não é bem assim e eu, a exemplo de muitas pessoas minhas conhecidas, trago almoço de casa. Não tenho oportunidade de lhes explicar – porque só aconteceu ontem – que em passeio ao Algarve, a rua principal de Portimão estava deserta, com lojas já fechadas, apesar do calor de Verão que se fazia sentir, o que só vem confirmar o que lhes contei.
A conversa da contenção vai parar aos assaltos que, segundo eles, não aumentaram nem diminuíram, ao contrário do que acontece em Portugal: a cada passo sabemos de novas situações, algumas delas ligadas a dramas sociais que nos fazem engolir em seco.
Uma das pessoas que foi comigo ontem ao Algarve trabalha em seguros há 34 anos e agora depara-se com uma situação pela primeira vez: as mercearias procuram as seguradoras na sequência de assaltos frequentes. O que levam? Arroz, massa, azeite, fruta, legumes, detergentes. Não levam álcool, por exemplo.
O que diz isto do momento que estamos a viver? O que diz isto a quem passeia na avenida ao sol e tem uma vaga ideia que por baixo há um metropolitano, mas não nos apercebemos da sua natureza labiríntica escura, triste e coexistente?
Das conversas que mantive com colegas espanhóis sobre desemprego depreendi que a grande maioria das pessoas continua a procurar emprego na sua área de trabalho – assim eram os exemplos que me foram dados. Aqui vejo pessoas – não todas! – a procurar qualquer coisa. Parecem-me ser duas fases distintas do processo, bem distintas, apesar do número gigantesco dos que não têm trabalho em Espanha.
Das várias pessoas que conheci algumas delas estavam chegadas de férias com origens na Madeira e Porto Santo, Samarcanda, Londres, Cambodja e Vietname. Nada mau, hem?
Guardo facturas de uma bicazita num café normalíssimo a 1,60€ e paguei todos os dias 3 euros por um café e uma torrada com manteiga ao pequeno-almoço, torrada que, convém que se diga, é uma fatia de bimbo, não duas.
Que dizer? Estou confusa.

domingo, 18 de setembro de 2011

Um toque de canela

Amanhã vou para Madrid fazer Erasmus. Erasmus Staff, não como aluna mas como profissional, o que não deixa de ser Erasmus. Sempre quis experimentar estudar no estrangeiro, mas nunca o fiz. A minha irmã teve essa oportunidade ainda no liceu e não a queria aceitar. Lembro-me da minha insistência. Mais tarde foi para Rennes em Erasmus e fala desse período como um dos melhores da vida dela.
Trabalhando numa universidade lido com todo o tipo de alunos, acabando por me transpôr para cada um deles, como os pais fazem com os filhos, lidando com alunos Erasmus e sentindo uma inveja diária que, apesar de viajar, pensei que fosse morrer comigo. Mas afinal não vai ser assim.
Hoje passei parte do dia com a minha grande amiga e fiz a habitual caminhada, mais curta, mas toda dentro de água. Combinámos ir ao cinema à noite, numa espécie de despedida da semana, uma vez que estamos juntas todos os dias. Porém, não fomos, por circunstâncias várias cada uma ficou na sua casa.
Nada é por acaso. Fiquei com o meu filho e quando ele saiu, no meio de muitos canais de televisão, um sotaque estranho chamou-me à atenção. Deixei-me ficar a ouvir sem ler as legendas e percebi meia dúzia de palavras, soltas, sem sentido, mas quentes. Era em grego. Nunca dei conta que o grego e o português dessem assim a mão, mas também nunca o tinha ouvido com atenção. O filme chamava-se Um Toque de Canela e foi o mais belo que vi nos últimos tempos, talvez anos. Lembra o Cinema Paraíso, até o protagonista é parecido com o Salvatore em criança e em adulto.
A ternura baila docemente no ecrãn, salta dele e cai-nos no colo. Apetece-nos rir e chorar, passar a palma da mão pelo rosto daquelas pessoas cujos sentimentos são tão nossos, são tão a meias. A música é suave como chuva miudinha, mas faz falta na exacta medida em que se mostra; o passado a atrapalhar o curso do presente e do futuro, e a calma... há uma calma feita seta que trespassa toda a acção conferindo uma serenidade luxuosa a cada imagem. Numa cena vemos vários estendais com lençóis brancos esticados, que formam um gigantesco estendal, coroado por um padre que toca um sino ritmadamente. O domínio do branco que ondulava ao de leve fez-me pensar que na Terra também existe Céu.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Outras leituras

Concorri a um concurso cujos resultados apenas se divulgam no Correio da Manhã, essa catedral do sangue e da tragédia, razão pela qual tive que comprar um exemplar. Em busca do meu nome corri o jornal de ponta a ponta dando atenção a tudo pois, experiente nesta coisa dos concursos, sei que os resultados podem ser editados em pé de página, fonte 6 e só não aparecem com as letras ao contrário, como as soluções das palavras cruzadas, porque ainda não se lembraram. Os anúncios são caros e eles já têm que pagar os prémios, há que poupar!
Depois de ter lido todas as gordas pensei o que teria escrito Kafka se tivesse tido acesso a estas fontes de informação… ninguém sabe.
Fiquei a saber que em Trancoso morreu uma pessoa que seguia numa carroça; há um cão cujas orelhas medem 65 centímetros; José Sócrates aparece numa fotografia de tal forma colocado que parece ter uma orelha tão grande como a do cão; há cada vez mais gente a mostrar e a deixar fotografar mamas e rabos; há um senhor que compra antigo/moderno, mas não diz o quê… deve ser código…; três contactos diferentes compram coisas banais como chifres e presas de rinocerontes; há quem compre socata e quem venda biblôs; quem afirme ‘A crise acaba aqui. Ganhe 300/500 € por semana. C/ uma loja tipo franchising de Colagem de Plástico na sua zona’ e eu reforço, ora aqui está uma oportunidade, uma coisa que faz sempre falta.
Como se estivesse possessa, detive-me nos professores, videntes, pais, mestres, curandeiros, terapeutas, cartomantes, médiuns, tarólogos, cientistas, espiritualistas, astrólogos, que são uma espécie de farmácia pois tratam de tudo, desde a ‘alta magia negra’ até à ‘aproximação rápida e afastamento total’, sendo que esta é a minha favorita: imagino dois feiticeiros, de capa modelo Merlin, chapéu bicudo tradicional, barbas até aos joelhos, a jogar Vai-Vem… aproximação rápida… afastamento total… aproximação rápida… afastamento total… até se cansarem.
O meu nome não estava na lista dos premiados, razão pela qual voltarei a concorrer e a comprar novamente o jornal lá para o fim de Outubro. Estou ansiosa.

Obrigadinha, sim?

Uma das minhas rotinas diárias matinais consiste em deixar o carro no parque de estacionamento da estação de metro Amadora-Este e seguir até ao centro de Lisboa, qual minhoca que já tem o caminho desbastado. No verso da medalha está outra rotina: entrar no carro e ir até casa.
Nas últimas semanas o chão do parque de estacionamento mete medo: de dez em dez metros há sinais de vidros partidos e a probabilidade que isso aconteça por vandalismo é total. Não sendo fatalista, mas confesso que é com certo receio que vou buscar o carro todas as tardes.
À hora a que saio do metro o parque está já meio vazio e ao mesmo tempo que tiro o carro, muitos outros lugares vão ficando livres o que permite ver os vidros, como se fossem manchas no chão.
Ontem não foi assim.
O parque estava cheio que nem um ovo e a quantidade de pessoas a entrarem no metro era invulgarmente maior do que a que saia. Motivo? O estádio da Luz recebia um clube estrangeiro e os adeptos, vestidos a rigor, encaminhavam-se para o jogo. Já me tinha cruzado com eles lá em baixo, jovens com diferentes camisolas mas todas do clube, executivos de fato e gravata com o cachecol dobrado na mão.
Pela cegueira do jogo ou pela falta de vista inata, o que é certo é que as saídas do parque estavam tapadas com carros estacionados!
Formou-se fila para sair, geraram-se incómodos com inversões de marcha colectivas obrigatórias face à impossibilidade de se passar, um ou dois teimosos partiram espelhos laterais quando quiseram meter o Rossio na Rua da Betesga, enfim, uma confusão causada pela falta de respeito ou, noutras palavras, o início da acção hooligan.

Como é óbvio!

A propósito do quociente de excentricidade daquilo a que a revista Sábado chamou ‘Cursos Alternativos’ e onde consta a licenciatura em Ciências Equinas e os mestrados em Gestão e Manutenção de Campos de Golfe, Ciências da Paisagem e, o que arrebanhou os pontos máximos da excentricidade, Ciências da Complexidade, tive uma conversa interessante sobre as Ciências do Óbvio.
Uma das coisas que mais podemos agradecer aos outros é porem-nos a pensar. Levarem-nos a sistematizar o… óbvio.
Percorrendo o Google temos uma surpresa: há quase cinco milhões de entradas em inglês e mais de 700 entradas para o termo ‘Ciência do óbvio’, das quais sete são de Portugal. Estaremos despreocupados com o óbvio aqui no jardinzito à beira mar plantado?
Duma leitura muito rápida e na diagonal percebi que todos a querem apadrinhar, chamando ciência do óbvio à sua disciplina para dessa forma lhe legitimar prioridade e importância sobre as demais, como se assim se auto colocassem num pódio de indiscutível autoridade, como se dissessem: a medalha é minha, logo, o resto são cantigas…
Obviamente, muito há a dizer sobre o assunto que, sendo óbvio, nem sempre é interior, tal como o casaco que vestimos, do qual conhecemos os bolsos, os botões, a gola, o forro, e dentro do qual nos metemos com destreza, mas não faz parte de nós.
Para mim é óbvio que tenho que aprender até morrer. Está inato em mim, seja uma aprendizagem planeada numa escola, com inscrição e todas essas administrativices ou seja pelo prestar atenção aos outros, ao que dizem, ao que trazem de novo. Mas sendo tão óbvio, não ando sempre a falar do assunto… porquê? Porque é óbvio!
Para mim é óbvio que as férias constituem um período sagrado do ano. Desejo-as fisicamente e faço delas uma prioridade na gestão do tempo, gasto com elas o meu dinheiro, preterindo por exemplo a aquisição dum carro, e glorifico-as interiormente como algo que eu amo. Assim, estranho que me questionem porque raio lhes dou tanta importância? Sendo óbvio para mim, não percebo a dúvida alheia.
Dentro dos óbvios há pelo menos quatro categorias: a científica – se juntarmos dois mais dois, obviamente temos quatro – a previsível – com um tempo assim, obviamente posso ir à praia – a social – se o meu vizinho tem, obviamente que eu também tenho que ter - e a inata, que são os óbvios interiores, explicáveis ou não.
Um exemplo explicável: porque gostam os bebés de ser embalados? Porque durante nove meses se habituaram a baloiçar na barriga da mãe! Em consequência, obviamente, que teremos sempre em nós um certo nomadismo!
Inexplicável, a minha sede de leitura. Habituei-me cedo, é certo, e isso pode conter alguma explicação, mas não explica aquilo que para mim é óbvio: sei que um novo livro é uma nova viagem, uma nova aprendizagem, um crescimento. Mais uma vez, é óbvio para mim, não para todos os outros.
A gestão da minha vida passa por milhares de óbvios que sendo tão óbvios nem penso neles; porém, desde ontem forcei-me a elencar alguns: perante um obstáculo fazer tudo menos desanimar; sorrir o mais possível; nunca desincentivar os outros, apesar de ser muito crítica; ver tudo de vários pontos de vista; não sabendo, perguntar para ficar a saber; não seguir modas a menos que goste delas; confiar em quem sabe mais que eu sobre determinada matéria, entre outras.
Sobre o assunto, obviamente, muito fica por dizer.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

O meu reino por um telemóvel!

Ontem o metro revelou-se um manancial melhor que nunca: não uma, mas duas conversas dignas de registo, vieram parar aos meus ouvidos.
Em pé iam dois homens que conversavam sobre a capacidade dos telemóveis afectarem os comandos de abertura dos carros quando colocados lado a lado! Um deles, descrente, abanava a cabeça face à certeza do outro que ia argumentando com explicações tão técnicas que nunca me ocorreria associá-las a uma chave… Estou indecisa sobre se passarei a usar duas malas para levar as chaves e o telefone em secções separadas.
Mas diante de mim seguiam duas jovens cuja conversa devia ter sido gravada para que a humanidade pudesse ter acesso a mais uma novidade, fruto da criatividade lusitana, da necessidade premente de contacto que todos sabemos ser desesperada.
Uma das raparigas ia dar um jantar – acho que ainda vai… - mas a mesa terá uma particularidade única no mundo: para além de uma plêiade de pratos e talheres e copos e marcadores e guardanapos e flores haverá também… - que rufem os tambores! – um lugar para o telemóvel de cada comensal!
Mas como é que ainda ninguém se tinha lembrado disto? Como é que sobrevivemos até hoje?
A interlocutora esteve à altura e rasgou sorrisos e elogios reforçando a originalidade da coisa. A promotora do jantar explicou que os telefones repousarão nuns pratinhos parecidos com aqueles onde se servem as azeitonas e disse-o com olhos brilhantes, tresandando alegria, tão contente consigo mesma que o lugar onde se sentava até ficou mais pequeno.
Isto fez-me lembrar uma historieta que se conta lá na terra sobre dois sujeitos que foram a um jantar fino, eles que tratavam a enxada por tu o dia inteiro e comiam a merenda com as mãos, sentados a uma sombra. Durante o jantar comeram azeitonas e trocaram olhares sobre o que fazer com os caroços. Quando saíram perguntaram-se mutuamente por eles; um abriu o bolso do casaco mostrando-os e o outro confessou que os tinha engolido.
A bem da verdade já me passou pela cabeça meter um ou outro telefone pela boca abaixo dos donos. Talvez seja uma estratégia…

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Uma questão de sotaque

Não sendo Paris ou Nova Iorque, Lisboa tem uma polifonia assinalável de sotaques no metropolitano, nos quais reparo pois a simples audição é um passaporte para os mais diversos locais. Espanhóis, são sempre muchos, e a estação onde entro ainda regista mais pela proximidade com o Instituto Cervantes. Ingleses, a lots, principalmente em dias de jogos de futebol, maning de africanos, очень russos e ucranianos, todos com o talento de me encantarem, uma vez que qualquer língua estrangeira aos meus ouvidos é sinfonia de criar pele de galinha. Quem serão e o que andarão a fazer? Repararão em mim, quando a situação é inversa? Onde terão ido hoje? Gostaram? São muitas, mas sempre as mesmas, perguntas que me coloco no silêncio que me rodeia enquanto companheira ocasional de viagem dos estrangeiros.
À excepção dos grupos ligados ao futebol, que são sempre muitos, barulhentos e, quase sempre, de cerveja na mão, os estrangeiros não são alvo de muitos olhares por parte dos passageiros.
Na sexta-feira passada isso não aconteceu. A senhora devia ter os seus sessenta anos, falava ao telefone alto e bom som e só à terceira frase é que consegui identificar-lhe a origem: era portuguesa! Toda a gente seguia a conversa com atenção: a senhora informava quem quer que estivesse lá do outro lado que estava no metro, na estação X e iria sair na Y, que havia muita gente, mas não se tinha perdido e intercalava com algumas gargalhadas que, verdade verdadinha, também tinham sotaque de S. Miguel. Ainda esperei que algures pelo meio da prestação de informações ela falasse na cana de pesca, mas tal não aconteceu e os sorrisos dos atentos passageiros não se transformaram em descomunais gargalhadas. Na estação anunciada a senhora saiu carregando uns sacos e a carruagem voltou ao barulho normal que se tinha silenciado ligeiramente para dar destaque ao maravilhoso sotaque  açoriano.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

As aparências iludem

A cinquenta passos da minha casa há uma mercearia, fugaz pegada do comércio tradicional de bairro. Com uma frequência de, pelo menos, uma vez por semana, sou cliente. A dona sempre atarefada atrás ou à frente do pequeno balcão, a deitar olhares ao frigorífico, não vá algum cliente deixá-lo aberto.
Uma coisa que sempre me fez confusão foi ver o marido permanentemente inactivo, a olhar para ela, como se fosse um professor a avaliar o desempenho do aluno. Ora sentado numa caixa vazia, ora em pé, com um desplante enorme, enquanto a mulher se desunha para atender toda a gente, principalmente às sete da tarde, quando regressamos do trabalho e nos lembramos que não temos isto ou aquilo, diferentes os produtos pretendidos, igual a pressa que se nos impõe. Noutras ocasiões o homem estava sentado no carro, diante da mercearia, e ela carregava as caixas de hortaliças e fruta para dentro para fechar a loja. E ele sentado a olhá-la, polícia, ciumento, professor. Não sei. Trabalharia ele o dia todo e estava tão cansado que nem dava uma mãozinha à mulher? Não sei. Aquela postura deixava-me com um nó na garganta.
A meio do Verão, talvez em Julho, fui à mercearia e fui atendida por uma jovem. Pensei que o casal estava de férias e tivessem contratado a rapariga. Passaram as férias e esta semana voltei à mercearia, atrás de cujo balcão se mantinha a mesma jovem. Perguntei-lhe pela senhora e ela esclareceu-me que já lá não estava e lhe tinha vendido a mercearia a ela. Confessei o meu desconhecimento e a nova proprietária, ou porque lhe apetecia falar, ou apenas ser simpática com uma cliente que ela ainda não sabia ter alguma fidelidade, explicou-me que a antiga dona não podia continuar a trabalhar face ao problema do marido, uma doença complicada que obrigava a um acompanhamento cada vez maior, difícil de fazer presa ali na loja. Devo ter aberto os olhos de espanto à menção do espantalho que por ali se passeava sem fazer nada, e ela explicou que eles viviam ao fundo da rua, aquela ali, conhece?, e ele, mesmo doente, preparava o jantar e depois, fazendo um esforço incrível, vinha todos os dias buscar a mulher ao trabalho e iam juntos para casa. Nos últimos tempos já não conseguia andar, mas podia conduzir, por isso vinha de carro e esperava por ela ao volante, numa manifestação de amor e carinho.
Paguei em silêncio e sai da mercearia com uma certa danação com a minha pessoa, não evitando que duas lágrimas escorregassem cara abaixo, e a pedir interiormente desculpa.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Limites muito invisíveis

Os pesadelos são fenómenos cuja horroribilidade não se consegue descrever. Naquele momento o medo é tão forte que apetece morrer. Na manhã seguinte contamo-los e ficamos com ar de parvos perante uma descrição de coisas nada apavorantes. Como se processará o medo? Como é que ele pesa tanto quando estamos a dormir pois, se a situação fosse real, seria tão simples, ainda que esquisita, que dava sono.
Estou deitada de barriga para cima na cama do meu filho e na cabeceira há uma torneira. Em cima de mim há pratos, talheres e diversa loiça suja que tento lavar sem me levantar, ou seja, apanho os enormes pratos verdes onde comemos todos os dias, fazendo leves movimentos de pernas para que não escorreguem quando levanto os braços na direcção da torneira. Desta forma anormal vou lavando a loiça. Tenho um zumbido nos ouvidos (tenho mesmo!) que se torna cada vez maior e, enquanto passo os pratos por água, o zumbido transforma-se em palavras e faço a horrível descoberta de perceber que tenho um homem a falar dentro da cabeça. Sei que são palavras, mas apenas percebo a repetição do meu nome. Escondo-me nos lençóis, não querendo saber da loiça, mas ele está dentro da cabeça e continua a falar. Peço que a noite passe depressa e, num arremesso de coragem, espreito por entre os lençóis temendo ver uma coisa horrível, mas que não sei dizer o que seria. Quando espreito vejo o meu quarto, estou acordada na minha cama, rodeada de florinhas cor-de-rosa, que enfeitam o lençol. Levanto-me sem medo e vou beber água. Não tenho dificuldades em adormecer e hoje de manhã lembro-me perfeitamente do medo como se fosse um objecto que tivesse visto.
Como não sou medrosa aflige-me sentir este pavor quando durmo e gostava de perceber que canais são percorridos e por o quê, para nos fazerem sentir estes limites.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Vinte escudos

A minha mãe conta que numa ocasião, a propósito duma deslocação à Feira de Moura, os meus avós levaram uma amiga dela, de quem não recordo o nome. Os pais ou familiares da garota deram-lhe a histórica quantia de vinte escudos que ela, ufana, guardava e mostrava e voltava a guardar para voltar a mostrar.
Chegados à Feira depois duma viagem de mais de vinte quilómetros em carro de burro a rapariga quis usufruir dos luxos inerentes à sua carteira. Pretensão legítima.
Porém, dos doces à roupa, passando por loiças de barro, brinquedos e malacuecos* quando era preciso pagar a moça virava-se para o meu avô e pedia-lhe que lhe adiantasse o dinheiro pois ela só tinha a nota de vinte escudos para a qual, com certeza, os feirantes não teriam troco.
Depois de mais um par de sapatos e uns metros de chita para uns vestidos e do consequente pedido de pagamento, o meu avô disse-lhe que lhe desse os vinte escudos a ele, que o dinheiro que ela já gastara a mais ele o pediria ao pai dela quando chegassem à aldeia.
Ontem fiquei a dever o pequeno-almoço, os cigarros, o almoço e compras de mercearia ao fim do dia. Tudo porque tinha uma nota de cem euros. Hoje fiz a mesma volta pagando dívidas, agradecendo, desculpando-me.
Não deixo de pensar na cara comum a todos os que me fiaram: de despreocupação. A manifestação dessa confiança deu-me uma alegria enorme, não porque pensasse que alguém me negasse qualquer coisa das que comprei, mas pela forma como o fizeram, tanto mais que a todos sem excepção eu já vira pedirem desculpa e negarem que clientes levassem o que pretendiam, com os olhos postos no chão. E afinal, nos dias que correm, não podemos levar a mal que nos digam Não. Eu digo, Obrigada.
*Malacueco é o nome dado no Alentejo a uma fartura redonda.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

O que chateia mesmo é...

A grande injustiça que se consubstancia no mau tempo nesta altura do ano, que nos deu um Agosto tão pobre em sol e um Setembro com ar de Novembro, acaba de ser explicada na rádio: foram despedidas várias mãos cheias de funcionários dos tribunais quando deviam eram ter sido admitidos mais! Não havendo quem trate de toda aquela papelada isto é um regabofe com o Outono a exercer a sua jurisprudência sem ninguém lhe ter pedido nada. Ou então, como diz Oscar Wilde ‘O Velho Mundo tem tal excesso de população que não há forma de se conseguir clima decente para todos’.
Talvez por sermos muitos, afiam-se as facas para os cortes na Saúde: vai escorrer sangue, quentinho, cabidela não há-de faltar, depenados já estávamos, isto é uma sequência lógica. As dores de cabeça causadas pelo preço dos livros escolares serão tratadas à moda antiga, com rodelas de batata à volta da testa e com um lenço a apertar e quem decida falecer nem vale a pena chamar os Bombeiros Voluntários de Mafamude, é falecer já!
Repete-se até à exaustão a expressão ‘corte na despesa’ que quando é verdadeiramente interiorizada significa que somos todos azuis, mas uns são azuis-escuros e outros azuis-claros.
Aumentam os impostos, fecham empresas, aumentam os impostos, despedem-se pessoas, aumentam os impostos, a segurança social cambaleia em estado terminal, anunciando a morte a qualquer momento e nós rezamos que não, por favor, e pedimos mais por ela que por qualquer elemento da família, amigo ou conhecido que esteja com os últimos estertores.
E no meio disto tudo o que chateia mesmo, mesmo, mesmo, é Setembro não ter um único feriado. Bolas!

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Quem te avisa...

O dia 1 de Setembro de 1991 foi um bom dia. Faz hoje 20 anos. Eu de branco, saia curta e coroa de flores na cabeça. Ele de fato cinzento-escuro, gravata de seda vermelha com pequenos floreados amarelos e verdes, camisa branca. As dores de cabeça que aquela gravata me deu…
Dei com os olhos nela numa montra na baixa. Arrastei as pressas e entrei com a intenção de a comprar, aquela coisa tão linda tinha que me acompanhar no dia do meu casamento. O preço fez-me recuar. Até a mim. Revirei os olhos a pensar que não podia mentir ao meu quase-quase-quase marido, pois se lhe começava a mentir antes do casamento, como havia de ser depois, e teria que lhe dizer o preço e se o dissesse era muito provável já nem haver casamento.
Da mesma forma que se dão nomes aos síndromas, de Estocolmo, de Nightingale, nomes às operações policiais, às missões do exército, eu comecei nesse dia uma longa série de Dilemas e este ficou conhecido como O dilema da gravata. Acabei por comprar outra que aos meus olhos parecia um cardo, seco, murcho, sem cor, mumificado, sem seda, quando muito de poliéster, toda ela uma nódoa, feia como a fealdade em forma de gravata. Os defeitos eram tantos que só havia uma coisa a fazer: ir comprar a outra e correr todos os riscos.
Quando voltei à loja, afogueada, como se fosse resgatar alguém da prisão, inocente ainda por cima, já tinham vendido a gravata! Barafustei, esperneei, chorei e prometeram arranjar-me outra igual, última do lote, esquecida num armazém sabe-se lá onde e eu ouvia o homem falar e as sensações misturavam-se, ora o alívio, ora o peso da culpa por gastar tanto dinheiro, pois, com certeza, vendo o meu pranto iam aproveitar-se e obrigar-me a pagar o aluguer do armazém onde estava a gravata durante os próximos anos. Seja! Tudo vale a pena quando a alma não é pequena, dito que se aplica aqui e em qualquer outra ocasião pois é tão bonito que fica sempre bem.
Lá me depositaram a gravata nas mãos e já ouve mães menos emocionadas por segurarem pela primeira vez nos seus filhos, comparadas comigo, naquele momento. Rezei para que não me perguntassem o preço e se não me pedissem confissão, também não a faria de livre vontade. Acabei por dizê-lo, dias mais tarde. Não houve dramas nem ameaças de divórcio, mas o esbulhagar de olhos foi conclusivo: foi uma vez sem exemplo!
De manhã encontrámo-nos juntamente com os convidados à porta do Registo Civil de Sintra. Onze horas, eu pontual, ele atrasado. Como sempre. Talvez esta quebra de protocolo da noiva chegar primeiro tivesse ditado o fim do casamento e não tivéssemos esperado que a morte nos separasse.
A entrada para o Registo Civil faz-se através dumas escadas encimadas por um quiosque e ainda hoje se arrancam gargalhadas ao vermos as fotografias com as revistas pornográficas penduradas nos escaparates a servirem de cenário aos sorrisos da noiva e dos respectivos convidados que, para matarem tempo na espera pelo noivo, foram tirando fotografias, agora com uns primos, depois com amigos, mais com este menino, hoje um homem, ele próprio a fazer planos de casamento. Não te cases, rapaz, não te cases, quem te avisa, teu amigo é!

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Alice no país das traduções

Tal como a Lua que todos vemos e sabemos existir mas onde poucos puseram o sapatinho, também a Alice faz parte do imaginário de praticamente todos os que conheço mas raros foram os que leram o livro, embora vão adiantando, como compensação gaiteira, que viram o filme ou os filmes, que animados há muitos.
Pois também eu fazia parte do lote dos desprovidos da leitura integral de As Aventuras de Alice no País das Maravilhas, mas já não faço.
Porém, se me alegra ter lido o livro desgosta-me profundamente que Alice em parte alguma no País das Maravilhas se tenha sentado pois embora Lewis Carrol a tenha sentado várias vezes, José Vaz Pereira e Manuel João Gomes lá acharam que assim não estava bem e resolveram assentá-la por diversas vezes, bem como o casal real que igualmente se assenta e nunca se senta.
Outra mudança que os tradutores assinam é a opção por Tartas em vez das simplórias tartes. Ainda se fosse uma quiche, agora uma tarte! Ora uma Tarta manda outro gabarito, remete-nos para o mundo dos tártaros, para uma dimensão cremosa, um bechamel, enfim, manda-nos para outro sítio e se gostamos ou não isso é problema nosso, com certeza da falta de palato para coisas requintadas como Tartas.
Uma terceira opção de tradução passa do original que diz:

“The Queen of Hearts, she made some tarts
All on a summer day;
The Knave of Hearts, he stole some tarts
And took them quite away!”

Para:
"A Rainha de Copas
De um baralho de cartas
Fez para o jantar
Umas ricas tartas
Num dia de Verão;
O Valete de Copas
De um baralho de cartas
Deu-lhe para roubar
E comer as tartas.
Ladrão!
Comilão!"

Numa quarta mudança esta edição elimina interrogações! Qué lá isso de perguntar? Atão somos burros? Não sabemos, temos que perguntar? Temos que questionar as pessoas, os bichos, os seres, o baralho de cartas, sejam eles quem forem? Há que evitar incómodos e o melhor é afirmarmos, nada de perguntas. E assim sempre se poupa na tinta da impressão.
Uma quinta alteração na tradução baralha-nos a visualização que as palavras transportam: se Lewis Carrol se ficou pela expressão dos números das cartas, Cinco, Sete ou Dois, os tradutores resolveram atalhar como quem traduz em cima duma mesa de pano verde e vai daí o Dois vira Bisca, o Cinco transforma-se em Quina e, surpresa das surpresas, o Sete passa a Sena, ou seja, ou é uma grande batota ou os tradutores não conhecem as cartas e, quiçá, os números, e baralham o Seis com o Sete.
É uma tradução difícil? Sim, sem dúvida, por entre o non sense espreguiçam-se exemplos dos mais variados, como por exemplo quando o autor, tendo que apresentar uma palavra começada por M escolhe MOON que, em português, recua uma casa como se fosse o Jogo da Glória e coloca-nos na letra L, de Lua. Há que dar a volta e resolver a questão que, neste caso, optou por, não fugindo do modo lunar, buscar a expressão Quarto Minguante da Lua, com o Minguante em itálico.
A edição é em causa é da QuidNovi, colecção Biblioteca de Verão, 2010. Desaconselha-se. Mas isso é apenas a minha opinião.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Dom Casmurro

Acabei de ler esta pérola no fim-de-semana e não acredito que Capitu tenha estado em vale de lençóis com o grande amigo de Bentinho. A ser, a coisa foi rápida e não meteu cama, que tempo não havia sem levantar suspeitas, logo, afasto oficialmente os lençóis.
Machado de Assis foi primoroso a criar a teia e deixa a dúvida perdurar que nem pilhas duracell, até hoje, até sempre.
Deliciei-me com as promessas de Bentinho e com os superlativos do agregado José Dias; dei asas ao romantismo com aqueles olhares silenciosos que diziam tudo, ao invés do explícito que se apoderou da actualidade e que impede as emoções de fazerem mais que aflorar a pele, quando muito. Há deficit emocional nos dias de hoje, sabemos que o fogo é quente mas é uma espécie de conhecimento conceptual, não prático, desconhecemos o sentido do calor do fogo na pele, cá dentro, como uma tabuada decorada mas não sabida salteada. Consequentemente, as conversas sobre o amor entre pessoas de diferentes gerações nem com um tradutor lá vão: uns falam de sentimentos profundos, tão profundos que duravam vidas e não tinham espaço para outras pessoas, grandes e fundos como a Fossa das Marianas, mas cheios de densidade e entrega. Outros falam de sexo e já está. Quando muito são como um dente-de-leão que à menor brisa se desfaz, sem deixar vestígio que existiu.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Um must da praia 4

As marés são fenómenos que até passam despercebidos se nos instalarmos lá no princípio do areal. Mas quando esticamos a toalha e ficamos com as unhas a baterem na água a história é outra. Ora se complicarmos a equação e lhe juntarmos uma raiz quadrada de ondas o resultado é = a toalha encharcada, saco com carteira e outros pertences lavado com água do mar, chinelos a boiarem na espuma e nós com cara de parvos.
Foi o que me aconteceu ontem.
O protagonista de Nothing Hill tinha uns óculos de mergulho graduados e já me lembrei de arranjar uns para mim, pois assim evitava certas cenas. Como não vou à água de óculos, deixo sempre a toalha o mais perto possível para me poder orientar quando emerjo a imitar a Ursula Andress ou, se tivermos em conta o meu bronzeado, talvez mais a Halle Berry. Se eu me tivesse lembrado que qualquer uma delas não usa toalha não teria deixado a minha ser arrastada pelas ondas, nem obrigado a mãe de família, minha vizinha e colega de trabalho naquela ocupação maquinal que é estar deitada na areia, levantar, mergulhar, voltar, deitar na areia, and so one, and so one, levantar-se e resgatar a minha tralha mais para cima enquanto eu estava de mergulho, cega, sem prótese ocular, ignorante da movimentação que se dinamizava a apenas meia dúzia de metros de mim.
Quando saí da água avistei o azul forte do saco e achei a distância entre mim e ele muito grande, garantidamente, alguns dez passos! Lá agradeci as andanças da senhora e senti a risota que eu própria dedico a todos quantos são alvo das brincadeiras das ondas quando a maré sobe. Agarrei na toalha, lavei-a para me livrar daquela areia e escorri o melhor que consegui aquela autêntica tenda de campanha, daquelas familiares. Lá a estendi novamente e assim fiquei o resto do tempo que permaneci na praia, até que ao fim da tarde a esgueirei para dentro da máquina de lavar, numa espécie de lavagem ao estômago, de onde saiu sem vestígios da tentativa de afogamento dessa tarde.
A subida da maré de forma repentina mais extraordinária que ganho memória aconteceu em S. João do Estoril e teve como protagonistas uns primos da minha mãe que encontrámos por acaso.
Armados em finos, dividiam o tempo entre a barraca na areia e umas espreguiçadeiras no paredão onde iam bebendo umas imperiais. Foi precisamente aí que os avistámos e foi precisamente nesse momento que o meu pai torceu o nariz, as sobrancelhas, a boca e todo o rosto. Os primos eram muito p’ra frente e ela ostentava um biquíni minúsculo que fazia as vezes de íman e puxava os olhares para cima do seu bronzeado. Como se isso não bastasse ele usava uma tanga tigresa que serviria de fio dental a qualquer homem com uma constituição normal, mas a ele tapava-o um pouco mais pois para além do esqueleto tinha um ou outro músculo, nada mais. Isto era na altura em que os homens usavam cabelo comprido e saltos altos, diga-se de passagem, e o primo era um metrosexual dos anos setenta, cujos modelos fashion não agradavam ao meu pai, cuja bigodaça se torcia com aquelas modernices.
O espectáculo dava espectáculo no paredão e o meu pai interiorizou logo duas ou três imprecauções, que nunca em tempo algum lhas ouvimos verbalizar mas mesmo que nunca as pensasse aquele momento propiciava que começasse com essa prática, pensando que, com tanta gente por ali, logo havíamos de ser nós a encontrar gente conhecida e, com tanta gente que conhecíamos, logo haviam de ser aqueles e, com tanta estação que o ano tem, parece que não mas ainda são quatro, e o leque de escolha de roupa é tão grande, logo havia de ser no Verão e logo havia de ser naquela figurinha.
Os primos fizeram uma festa quando nos viram, logo se acharam outras espreguiçadeiras e mais uma ou outra cadeira e mais beijos e palmadas nas costas e o meu pai a falar devagar, tentando conjugar a resposta certa à pergunta que lhe era colocada, com o pensamento permanente no arrependimento de ali termos ido. Mas tínhamos ido e eles podiam estar quase nus mas eram vigorosos na expectativa que ficássemos, ele logo a pedir mais imperiais e, bem, sentados, sempre se viam menos, pelo que acabámos por nos sentar.
Eu também tinha ficado impressionada com o quadro mas a água exercia em mim um chamamento mais forte e em minutos estava a dar valentes mergulhos em ondas de paixão. As ondas eram mesmo apaixonadas e foram crescendo, crescendo, crescendo até que uma delas desabou na praia até ao paredão. Foi o caos: barracas e tendas e roupa e chapéus-de-sol e crianças e sapatos e toalhas e tudo quanto se imagine estar numa praia num domingo de Verão, por volta das três ou quatro da tarde. Escusado será dizer que a barraca dos primos não foi poupada e a roupa desapareceu. Em segundos a esplanada do paredão ficou vazia com todos os ocupantes a correrem para a areia a fim de procurarem os seus bens e pertences, mas que é feito deles? Duas horas depois ainda não se tinham achado as coisas dos primos e lá andava ele de rabo de tigre alçado e cigarro na mão a procurar a carteira, a prima a escavar perto da barraca, nós a ajudarmos, os meus pais aliviados por não terem chegado à areia, logo, a arrastarem um saco originalmente seco no meio daquilo tudo.
Havia gente em lágrimas, magros e gordos despidos e aflitos em sintonia, de dentro de água homens, mulheres e crianças apanhavam calçado, roupa e os mais diversos objectos. Apesar do calor e da reposição da normalidade do mar, as pessoas começaram a abandonar a praia com desalento. A carteira dos primos não aparecia. O meu pai dava voltas ao areal como se disso dependesse a vida de alguém pois o primo já tinha dito que, não tendo chaves do carro, teríamos que ser nós a levá-los e percebemos logo que o meu pai não estava com grande vontade de dar boleia a uma réplica cómica do Tarzan, uma miniatura, um esboço do Johnny Weissmuller. Em tudo.
Os banheiros, na altura não havia nadadores salva-vidas, eram mesmo banheiros, iam amontoando o que encontravam no meio da areia e o que era resgatado de dentro de água e as pessoas dirigiam-se ao monte de destroços em busca do que fosse seu, numa altura em que não se tinha grande receio que alguém levasse o que não lhe pertencia e a honestidade ainda existia. Conclusão, a prima lá encontrou o saco no meio do monte bagunçado de areia molhada, onde estava a carteira e as chaves do carro. Da roupa não se tiveram notícias, mas como tinham ido para a esplanada com as toalhas, saíram da praia dignamente enrolados nelas, o que não era mau em comparação com outros que não tinham nada, ou com o cómico-ridículo de outros ainda só com um chinelo por exemplo.
E é assim que sempre que as ondas molham a ponta duma toalha eu me lembro daquela célebre tarde em S. João, quando os primos foram privados da roupa, numa espécie de castigo ou vingança do destino por andarem tão parcamente vestidos na praia. Se foi castigo não sei, mas hoje a moda tem outras regras, e encontra-se gente mais vestida na praia que na rua.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Ressonar e ranger os dentes

Uma grande Amiga reformou-se. Contou-me por telefone e não viu a minha cara de idiota a receber a notícia. Para mim ela é o antípoda da reforma e, se bem que mereça como ninguém o novo estado, senti um peso nas costas, como se os anos andassem a brincar comigo e, de repente, me saltassem em cima dos ombros, num mero jogo infantil, já te apanhei!
Bem sei que ela não vai ficar parada, embora esteja a descansar e a usufruir do sossego, enquanto vai pondo pomadas para tapar certas facadas que lhe deram nos últimos tempos, profissionalmente falando.
- Deita isso tudo para trás das costas! – Sou eu a dizer-lhe ciente de que não vale a pena gastarmos tempo com certas coisas. Principalmente agora.
Sentada num banco verde no pátio setecentista, de repente, sinto-me acabrunhada sem perceber bem porquê.
Desligo o telefone e agarro em Paixão em Florença de Somerset Maugham, mas não vejo Florença. A bela cidade da qual guardo memórias avermelhadas, seja dos telhados, seja dos entardeceres, nem se aproxima de mim.
Penso na minha amiga e em como gostava de ir a Florença com ela e fazer uma série de coisas que nunca fiz, quando sou assaltada por um pensamento horrível: penso nela como se ela tivesse morrido e reflicto que o que senti momentos antes foi a aproximação do mesmo estado mas para a minha pessoa. Afasto a estupidez do pensamento, zangada comigo própria.
Conheci a M. quando ambas nos inscrevemos na especialização em ciências documentais nos idos do século passado. Pois. Encontrámos imensa coisa em comum logo no primeiro dia, eu fascinada pela força que ela emanava e pela boa disposição de quem nunca vi esgotada de sorrisos, sinceros, ainda por cima, e cuja agenda com datas precisas me ajuda, a mim, a saber quando este ou aquela fazem anos, caso contrário, nunca diria uma palavra fosse a quem fosse. Bem, com excepções, como a AI cujo aniversário coincide com a data da morte da Princesa Diana, motivo para que me lembre sempre, ou melhor, a televisão ou a rádio dão-me a dica que eu aproveito.
Lembro-me da M. e penso em castelos inexpugnáveis, em fortalezas, em cidades invictas, em pontes indestrutíveis. Penso também nas mais saborosas gargalhadas, numa inteligência invejável, numa sagacidade e perspicácia difíceis de encontrar e, last but not least, num ombro e em mil conselhos que sei serem para meu próprio bem.
Ao contrário de outras pessoas ela nunca se calou sobre certos problemas, ou seja, não é uma amiga passiva, mas antes pelo contrário, muito activa, dando a sua opinião, o seu conselho, pensando nas coisas como se fosse ela. Dedico-lhe o pensamento e invariavelmente sinto-me em falta, sempre. Nunca lhe ouvi palavras vãs, nunca senti que me respondia como se eu tivesse carregado na tecla das perguntas frequentes e saísse qualquer coisa pré-programada, nunca me deu conselhos para me fazer favores. O grande favor que me faz é estar sempre preocupada comigo, atenta e próxima, mesmo que sejam muitos os quilómetros que nos separem.
Numa ocasião fomos a um congresso da nossa especialidade profissional em Aveiro. Teimei em ficar num dos meus locais de eleição, no hotel ao lado do farol. Obrigou-nos a fazer muitos mais quilómetro que os outros, instalados algures nas curvas da ria, mas valeu a pena. Quando chegámos aproximamo-nos da recepção de tal forma que o rapaz nos lançou um olhar como se fossemos um casal. Ela deu tamanhas gargalhadas que me ficaram gravadas para sempre na amizade que tenho por ela. Nessa noite choveu em barda. Deitámo-nos cada uma na sua caminha, sempre a rir, a gozar com todas as personagens que tínhamos encontrado, alguns do dia a dia, mas que naquelas ocasiões se mostram tão diferentes como a noite do dia, outros que só encontramos em reuniões nacionais, conhecidos e desconhecidos. Rimos até à exaustão. Às tantas eu estava a dizer qualquer coisa e ouvi-a ressonar. Calei-me, levantei o estore e fiquei a fumar à janela a olhar para o maravilhoso espectáculo da chuva que caia com tanta força que levantava uma nuvem no chão. De repente ela acorda e continua a falar onde tínhamos deixado a conversa! Foi de morrer a rir. No dia seguinte discutimos porque ela teimou que não tinha adormecido, tanto mais que lhe custava pegar no sono porque eu ranjo os dentes tão alto que não deixo dormir ninguém!
Os mesmos motivos criaram outro momento de memória passado em casa de uns primos meus em Vila Nova de Gaia onde ficámos a propósito dum congresso no Porto. Como somos as duas generosas de formas não cabíamos na cama. Assim, dormimos à vez, metade na cama e metade num sofá, sentadas. Porém, o problema não era o cómodo, mas o facto de nenhuma conseguir adormecer porque formávamos uma dupla digna de circo, uma ressonava e a outra rangia os dentes…
De todas as qualidades que lhe reconheço talvez a frontalidade seja a que destacaria, numa sociedade onde tudo é ambíguo, dúbio e dissimulado e onde as pessoas arranjam os mais variados disparates para se apoiarem ao explicarem porque não são frontais.
Longa vida, minha amiga, longa vida com esse carácter e esse espírito.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

O elevador do metro

Paro num dos corredores do metro para beber café. A única outra cliente é funcionária do metropolitano e está a contar à rapariga por trás do balcão que o elevador já funciona. Perante a admiração da outra que manifestou desconhecimento sobre qualquer avaria ficámos ambas esclarecidas com a descrição do que se tinha passado. Eis o peixe tal como o comprei, ainda com escamas.
O elevador tem capacidade para seis pessoas. Ficou preso entre andares com uma gritaria medonha lá dentro. Quando a empresa conseguiu abrir as portas saíram onze pessoas, um carrinho de bebé, quatro trouxas com roupa e vários sacos cuja quantidade exacta não consegui determinar. Quando se deu o êxodo perguntaram às sardinhas em lata porque se tinham metido todos num espaço tão pequeno. A mais velha da família cigana esclareceu os incautos que tinham vindo todos juntos no metro!
Ora, sinceramente, se vinham todos juntos, porque se haviam de separar ali? Acho bem!
Ao que parece a senhora também adiantou que o marido ainda tinha tentado entrar, mas já não conseguiu…
Isto é uma tristeza, já não se fazem elevadores como antigamente.

As velas ardem até ao fim na Kidzania

Há uns meses perguntaram-me por um livro de Sándor Márai: As velas ardem até ao fim. Lembro-me bem porque a pessoa que me perguntou se eu o tinha falou-me em É com cera que se fazem velas ou outro título igualmente cómico e aquilo deu gargalhada conjunta. Eu não o tinha mas conhecia o título, mas não o autor. Na altura pesquisei e, vá lá saber-se porquê, meti na cabeça que Sándor era uma ela e não um ele e vivi nessa infame mentira até há duas semanas atrás quando fui à Kidzania com os meus sobrinhos.
Chegámos de amanhecida, como o peixe de Setúbal, às dez e meia da manhã, eles a aproximarem-se perigosamente duma apoplexia com tanta excitação e eu a pensar onde me sentaria em meditação para passar um dia inteiro num centro comercial que abomino e quando digo que abomino, não me refiro aquele em particular, mas a todos do mundo inteiro, ao contrário de praças e mercados e se os mercados forem fluviais, ai então, ui ui, sou eu que entro em êxtase.
Lá despachei um comandante dum avião e uma técnica de reciclagem, espreitei os corredores da Kidzania e fui à livraria onde, entre outros, comprei As velas ardem até ao fim. Sentei-me num sofá branco que fica ao ar livre – zona de fumadores – e ali fiquei com a cera a derreter-se até às seis da tarde quando fui buscá-los e porque aquilo fecha a essa hora, caso contrário gramava mais umas horas de espera. Fiz um intervalo para lhes dar de almoço, almoço que se atrasou porque a minha sobrinha estava a fazer horas extra na redacção do jornal!
Faltavam duas páginas para acabar a leitura quando alguém se meteu comigo. Tive a vaga sensação que alguém me falava mas a absorção das palavras era grande. O homem insistiu e lá levantei os olhos em jeito de perguntar o que queria, logo agora que estou a acabar.
- A senhora não lê, a senhora come o livro…
A simpatia que o homem quis enfiar no início de conversa só lhe trouxe dissabores: então em meia dúzia de palavras chama-me senhora duas vezes?
- Posso ajudá-lo?
- Gosta muito de ler, vê-se.
- É verdade… e estou mesmo a acabar este livro… se não se importa…
Ele levantou as mãos em sinal que não se importava e as velas lá arderam até ao fim.
Assim que fechei o livro, ele, sem respeitar aqueles instantes dum the end que, sendo imaginário, é bem real e sabe tão bem como o momento em que tiramos a cabeça de dentro de água depois dum mergulho, desata logo a falar:
- Sabe, eu sou canalizador e aqui há uns tempos fomos chamados a casa duma senhora que também gostava muito de ler. Ela tinha lá um problema na cozinha e…
Por favor meu Deus faz com ele não me descreva problemas de canos e maus cheiros e entupimentos…
- … e depois da coisa resolvida ela convidou-nos a beber café na sala. Olhe, a senhora tinha para cima de cem livros na sala! Isto sem exagero! Mais de cem!
Por décimos de segundo pensei o que responderia: teimava com ele a dizer-lhe que isso era impossível e que cem era um número astronómico? Quem é que tinha cem livros em casa? Limitava-me a um Ah e desviava o olhar? Ou dizia-lhe que cerca de cem livros tenho eu à cabeceira, sem contar os do resto da casa, da casa dos meus pais, da minha irmã, os que estão com o Marcelo ou com a Luísa e todos os emprestados ou os que se amontoam no meu trabalho, por falta de espaço em casa?
Decidi-me por um abrir de olhos simpático fazendo eco da sua profunda admiração e acrescentei que sim, que gostava de ler; e num repente, estúpido e insensato, e depois dum milésimos de dúvida na garganta sobre se deveria ou não formular a pergunta, ainda assim, quis saber o que gostava ele de ler.
- O Correio da Manhã.
E como se isso não bastasse, ainda aconchegou a frase:
- Todos os santos dias!
Senti vontade de acender umas velas e fazer uns pedidos, mas optei por me levantar alegando que tinha que ir buscar os miúdos. Desejámo-nos mutuamente boas tardes e fui em perseguição duns funcionários dos correios que já tinham sido pediatras.
Foi um dia de trabalho em cheio.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Coração Débil

Num dos primeiros dias de férias caiu-me cima um Coração Débil. Escrito pelo monstro da literatura Dostoiévski pouco antes da sua prisão e exílio na Sibéria, esta novela deu-me que pensar pois parece escrita numa língua morta, onde os conceitos de honra, dignidade, amizade e, acima de tudo, gratidão, praticamente proscritos dos dias de hoje, tomam letra maiúscula e ganham forma densa.
Li e pareceu-me tão distante como os nossos antepassados que faziam fogo batendo em pedras e foi exactamente isso que me impressionou: a vida já foi assim! Por incrível que nos pareça, a palavra de alguém já teve um peso desmedido, a amizade já foi verdadeiramente desinteressada e verdadeira, o bom carácter das pessoas em tempos era recompensado.
Se fosse escrita hoje seria uma obra de magistral ironia da primeira à última palavra, pois tudo se passaria na imaginação do escritor.

Cem, cento e vinte

As férias foram marcadas por vários incidentes médicos, todos sem gravidade. O mais dramático foi quando o destino, finalmente, me fez retirar os suportes das velas da casa de banho. Como é que ele agiu? Fez-me partir um deles, em vidro e, não contente, espetou-me alguns dos vidrinhos no meu belo calcanhar.
A gata borralheira andava descalça quando sentiu uma dor forte e percebeu que o calcanhar tinha engolido um vidro. Aquilo desatou logo a sangrar e ela, apoiada na ponta do pé, como se fosse o Cisne Negro mas coxo, foi buscar a pinça das sobrancelhas, armou-se em contorcionista de circo, alçou da pernoca e apenas conseguiu meter o vidro ainda mais dentro.
Ora isto é uma chatice em qualquer altura do ano, mas pior ainda em Agosto quando não há vivalma a quem se possa pedir ajuda, tudo a banhos nos Algarves e nas Costas e por aí.
Atei uma ligadura ao pé para segurar o sangue, agarrei na chave do carro e sai em direcção ao centro médico, conduzindo muito devagar e sempre em pontas. Quando cheguei veio-me à ideia um homem lá do Alentejo a quem chamavam o Cem, cento e vinte, por coxear. Só nessa altura me dei conta que a sola dos pés parecia a última folha do catálogo da Robbialac, o preto, mas como aquilo doía cada vez mais, depressa me esqueci da vergonha.
A enfermeira lavou-me o pé e depois de duas anestesias de spray que mais parece um bronzeador, a médica achou por bem anestesiar-me doutra forma pois aquilo não pegava. Finalmente, tirou-me 3 Muranos, uma fortuna deitada para dentro do saco do lixo hospitalar e com destino ao fogo, ironicamente.
Sosseguei quando a senhora doutora me disse que podia ir à praia. Comprei de enfiada uns pensos impermeáveis e para não correr o risco de me acontecer mais nada, deitei-me na areia frente ao mar e ali fiquei até ser quase noite.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

O rato

Como o dinheiro abundou nas férias passei parte delas em casa. As limpezas fizeram-me companhia e andei entretida. Não prescindi das caminhadas e um dia exagerei, não nos quinze quilómetros, mas pelo facto de não ter levado meias. Os ténis, garganeiros, deram-me uma dentada no tornozelo, acabei a coxear e com uma roedura. A bolha de água rebentou e aquilo fez uma ligeira ferida da qual nunca mais me lembrei pois passei a andar de sapatilhas de enfiar no dedo.
Andava eu em plena campanha de limpezas, com móveis arredados e paredes brilhantes de detergentes quando dou conta dumas minúsculas manchas no chão, vermelhas, como sangue. Raios partam! Seria um rato? Com tanta movimentação, teria despejado algum espécime e tê-lo-ia ferido, razão pela qual o sacanita andava por ali a procurar esconderijo? Seria um dos espertos, tipo Mickey? Um fofo como o Bernardo ou a Bianca? Meu Deus... e se fosse um Remy que me aparecesse com a família inteira? Eu nem sei fazer ratatouille...
Resolvi fechar as portas todas e começar na cozinha. Teria eu dado cabo de algum cano ou qualquer cosia do género e o rato tinha-se escapulido para dentro de casa?
Como não tenho caçadeira peguei na vassoura e fiquei imediatamente convencida que sim, ele estava na cozinha! A prova disso era o aumento das pequenas pegadas que cresciam em todo o lado.
Bancos em cima da mesa da cozinha, balde do lixo – vazio e lavado - em cima da bancada, frigorífico no meio da cozinha, móvel de madeira a fazer de segunda rotunda e, pela primeira vez, franzi a cara em desgosto pelo tamanho da cozinha, enorme. Preparava-me para desviar as máquinas quando dou conta que ele devia estar a passar-me pelos pés, tal o número de pegadas ensanguentadas que pisava. Mas como era possível? Eu não via nada!
Resolvi sentar-me na bancada, de arma em punho. À espera. Semicerrei os olhos e vi a selva africana… um rio… um delta… um hipopótamo bebia água ao escurecer… aproximaram-se uns leões e umas panteras… as hienas riam a olhar-me e, de repente, percebi porque se riam: com o rabo em cima da bancada, as pernas a baloiçarem e os chinelos pendentes, vi que a ferida causada pelos ténis e pela falta de meias estava a sangrar, escorrendo-me pelo tornozelo abaixo. Saltei da bancada. Dei uns passos e verifiquei que deixava um trilho de pequenas marcas vermelhas no chão.
Que bela ratazana eu me saí!

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

De Lisboa a Foz Côa. E volta.

Depois duma semana no Algarve, o Duarte ficou com o pai por duas longuíssimas semanas e eu vesti o meu fato de marinheira e fui dar uma volta com os meus sobrinhos: só me faltava a boina e o rabo alçado de gansa, porque apesar de só ter levado dois sobrinhos, o terceiro vem a caminho, o que quer dizer que dentro de poucos anos eles deixam de me chamar Quica para me chamarem Donald.
Foi a primeira vez que a levei a ela e fartei-me de rir no meio das birras da garota, não porque seja sádica, mas porque ele fazia observações como se fosse adulto, revirando os olhos e falando-me em sussurros para que ela não ouvisse. O banco de trás do carro era alvo de gritos e zangas intercalados com momentos de ternura e amizade. Por duas vezes ameacei parar o carro e levá-los de volta a casa. Conhecendo-me, os desgraçados continuavam na algazarra!
Saímos de casa com direcção a Conímbriga onde não ia há anos. Apesar de a cidade não ser habitada há séculos estava muito mudada! Ele adorou, ela suportou, o tempo fez-nos o jeitinho e esteve encoberto enquanto pulávamos e corríamos por entre memórias e histórias. E pedras também, já agora, é bom que se diga, pois quem lá vai deve levar doses extra de imaginação, para poder ver melhor.
Quem me conhece sabe que, ao contrário da gigantesca maioria das mulheres, não gosto de fazer compras e as lojas não me atraem, mas se há sítios onde tenho prazer em comprar é em lojas de museus. As Ruínas e o Museu Etnográfico de Conímbriga têm uma loja com produtos de… outros museus. Quis comprar t-shirt’s aos garotos mas só havia doutros sítios e desisti.
Acelerámos devagar e dormimos em Celorico de Basto, sem visitas a nada porque chovia e era de noite. Jantámos com os olhos na televisão à espera que desse o Milionário para vermos como eu tinha ganho, apesar de continuar pobre. Não deu e passámos o resto da noite na batota! O quarto, onde se chegava depois de galgarmos vários lances de escadas e de a minha sobrinha perguntar porque raio não havia elevador, era um mix de dois quartos com uma enorme casa de banho, um com cama de casal e outro com cama individual. Assim que viram aquele luxo ambos manifestaram intenção de dormir na pequena arrecadação, perdão, no quarto mais pequeno, decisão que eu releguei para quando nos deitássemos. Como ele é sonâmbulo optei por dormir com ele – porta fechada à chave não fosse ele dar uma volta por Celorico a meio da noite – mas ela não gostou da opção e gerou-se ali uma crise, com choros, da parte dela, cansaços, da minha parte, e amuos, da parte dele. Acabei por ser eu a dormir no anexo, depois de ter fechado a porta à chave e colocado as maletas diante da porta como reforço para eventuais fugas. Ora, o garoto levantou-se mesmo a meio da noite, mas não foi para sair e sim para me chamar e informar que ela tinha feito xixi na cama.
Passeia-a por água, mudei-lhe a roupa, passei os dois para a sucursal do quarto e eu mudei-me para a bordinha da cama de casal onde fiquei até de manhã, quando o sol apareceu para nos conduzir a Foz Côa.
Nunca tinha ido ver a gravuras e adorei apesar da confusão da deslocação.
Fomos ver o  Museu do Côa e ficámos a saber que era preciso marcar a visita às gravuras; quinta-feira havia vaga e eram 11 da manhã de terça. Perante isto, tirei a boina, que fiz descer até ao colo devagar, saquei do meu ar mais triste, olhei os pobres pequenos com lágrimas nos olhos, baixei as penas do rabo em sinal de desalento profundo, avisei-os em voz baixa que íamos passar o resto dia sem comer o que lhes criou uma enorme e visível consternação nos rostos. Não sei se foi isto ou não, mas o funcionário disse-me que havia empresas privadas que levavam gente a ver as gravuras e deu-me os números de telefone; à quarta e última tentativa marquei para as quatro da tarde desse dia. Quando desliguei verifiquei que não era preciso tanto teatro pois davam os telefones a qualquer um! Com franqueza!
Dos quatro locais onde é possível ver as gravuras calhou-nos o de Castelo Melhor. Vimos o Museu, demos uma volta em Foz Côa e fomos almoçar ao  Restaurante Paleolitico em Castelo Melhor, que não tem multibanco. Voltámos a sair e andámos cerca de 15 quilómetros, ida e volta até Almendra, onde há uma caixa ATM, num largo lindíssimo que nos fez sorrir por no Paleolítico não haver multibanco, caso contrário não teríamos ido a Almendra.
Comemos e fomos até ao local da partida para as gravuras, convicta, eu, que haveria por ali qualquer coisa para fazer, para passar o tempo. Esperava-nos uma casa onde se vendia água fresca – não havia sol, mas estava muito calor – mel, sabonetes de leite de burra e pedras com ímanes para pormos no frigorífico como recordação de Foz Côa. Ainda não eram duas da tarde e já me estava a ver a dormir a sesta no carro, estacionado no meio duma rua onde me garantiram que não havia problema. Os donos da casota das águas logo a quererem saber com quem íamos descer, como se eu conhecesse toda a gente por ali. Estavam os miúdos a meio dum gelado que se ia desfazendo a velocidade recorde quando entrou uma rapariga que se apresentou como a pessoa que nos guiaria até ao fundo do vale dali a duas horas e qualquer coisa. Olhei com inveja os passageiros a entrarem no jipe e a desaparecerem por uma curva. Estávamos cansados, moles, sem vontade de nada e eu não podia estar ali duas horas a entreter os miúdos com jogos e canções… a menos que lhes desse gelados ininterruptamente! A construção desta ideia genial foi interrompida pelos lamentos dum jovem que se perguntava onde andariam as sete pessoas que tinham marcado com ele àquela hora. Isto assim não podia ser, então marcavam e depois não apareciam? E nem sequer atendiam o telefone…
Do grupo original restava uma francesa, por volta da minha idade, mas que a aparentava, ao contrário de mim que estou sempre à espera que me venham perguntar pelos meus pais. Enquanto os gaiatos, sentados num muro ao lado do carro, viam os gelados desaparecerem fui falar com o rapaz e disse-lhe que éramos três e queríamos ir com ele. Que não podia ser, que parecia mal, que eu tinha marcado com outra empresa, que isto parecia traição, que isto e que aquilo.
- Ouça lá… você tem lugar, eu quero ir, deixe as explicações comigo, por favor.
Acenei aos miúdos que vieram a correr lambuzados até aos joelhos, dando-lhes um ar triste mas excelente para falar ao coração do jovem que teimava em não nos querer levar. Em desespero de causa disse-lhe, esperando que nenhum dos meus dois compinchas me desmentisse:
- Olhe, eu vim aqui de propósito… tenho dois miúdos… se for às quatro da tarde, estarei despachada por volta das seis, hora a que me vou fazer à estrada para uma jornada de quinhentos quilómetros.
Rezei para que o meu sobrinho não me corrigisse o número de quilómetros nem me perguntasse qualquer coisa como, então onde vamos dormir, ao Algarve? Mas eles estavam a discutir as diferenças do jipe com outro onde tinham andado em Marrocos e estavam com ar de ciganitos, mas ausentes.
Valeu-me o dono da loja de bebidas que se meteu na conversa e sugeriu que nós fossemos e que lá em baixo eu desse uma explicação à guia. Paguei os bilhetes e meti-nos aos três no jipe antes que o condutor tivesse tempo de recusar novamente. Acomodei os garotos ao lado da francesa no banco de trás e sentei-me no lugar do pendura, mostrando imenso e urgente interesse em saber mil coisas sobre as gravuras, enquanto o condutor /guia dava as explicações em português e depois em francês.
A descida ao vale é impressionante e as paisagens são imponentes, com o domínio das vinhas, as colheitas a fazerem-se face às temperaturas mais elevadas naqueles locais.
Quando lá chegámos fiquei com pena de não ter feito aquele passeio há mais tempo e prometemos voltar a todos os outros locais visitáveis, incluindo a uma das visitas nocturnas. Concluímos os três a rir que qualquer regresso terá que ser feito sem a presença da mãezinha que não aguenta emoções fortes nem gosta de ter precipícios a seu lado.
Descemos até Nossa Senhora dos Remédios em Lamego e dormimos no  Hotel Parque onde eu tinha feito uma reserva há uns tempos e onde não dormi pois as andanças andebolísticas do meu filho levaram-me a trocar o repouso daquele local por um divã no hospital de Vila Real, onde ele foi operado.
Desta vez dormimos mesmo; jantámos meio à pressa para irmos pôr os olhos na televisão e até dissemos à empregada do restaurante que eu ia ganhar o Milionário nessa noite. Ela deve ter achado que éramos uns mentirosos porque continuou sem dar nada. Assim sendo, voltámos à batota!
Retemperados e depois duma descida das escadas do santuário, parámos na Batalha onde fomos ver o Centro de Interpretação da Batalha de Aljubarrota. Não andámos à espadeirada mas o meu sobrinho deu um pontapé numa pedra e partiu uma unha. Isto vale alguma coisa em prol da defesa da nação? Em prol da boa disposição vale com certeza e o resto são cantigas.
A minha aparição no Milionário acabou por ser num dia em que cada um estava nas suas casas; fiquei espantada com a quantidade de pessoas minhas conhecidas que estavam a ver e agradeço as mensagens e os telefonemas que se sucederam nessa noite embora eu suspeite que a pergunta que todos queriam fazer e ninguém fez, era quem era eu, uma vez que, como estava de preto e bem redonda, me confundia com o Malato. A televisão é tramada…
Na manhã seguinte o dono do café por baixo da minha casa deu-me os parabéns mas com ar de acusação. Não percebi. Ele esclareceu que se eu fosse uma vizinha mais atenta teria sabido a resposta final e ganho cinco mil euros. Abri os olhos perguntando silenciosamente o que tinham os meus hábitos solitários de vizinhança a ver com os meus conhecimentos sobre quem ganhou o prémio fotográfico XPTO. Foi assim que fiquei a saber que o vencedor do dito prémio é… meu vizinho. Quando o mocinho ganhou o dito foi uma algazarra na rua mas eu devia estar ausente. Em Marte. Ou teria sido em Saturno?

Regresso

Recomeça hoje a contagem de riscos na parede para as próximas férias.
O último fim-de-semana foi desastroso, falando em termos climatéricos, mas a sessão de cinema com o Duarte no último dia, como é de tradição, manteve-se. Aliás, foi ampliada porque foram dois de seguida, e os dois tão bem escolhidos que merecíamos levar com uma pá na cabeça. Entrámos para os macacos, que apenas nos arrancaram um esgar de indiferença, e saímos a correr, contando que as apresentações do filme seguinte se estendessem à nossa espera; os aliens foram ainda piores que os macacos e escapou o rabinho bem feito (um bocado magro, diga-se de passagem, mas ainda assim, bem feito…) do Daniel Craig e a presença sempre bem-vinda do Harrison Ford que continua a saber montar a cavalo mas se fosse visto pelos replicantes havia um suicídio colectivo desta gente.
Há meia dúzia de dias, tinha ido ver os Chefes Horríveis e o Senhor Kevin Spacey – aquela pele tão Lili Caneças é mesmo dele, ou teria sido para o filme? – lembrou-me que o dia de hoje estava a chegar, o que me provocou um leve mal-estar na barriga.
Hoje estou meia azambuada, como se estivesse a hibernar há um mês e tivesse acabado de acordar; talvez o facto de ter ido para a cama às duas da manhã e de me ter levantado cedo tivesse ajudado a esta sensação, mas duvido.
Estive um mês sem mexer num computador – ok, vim trabalhar um dia a meio das férias, para matar o stress da saudade… - mas ando com o olhar perdido em busca das teclas, dos papéis e, ou é impressão minha ou então não sei, mas acho que o relógio se avariou porque o tempo não passa. Que sorte, uma avaria logo no primeiro dia…