segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

A desilusão de Hugo


Sacha Baron Cohen é Crabtree, o polícia de Alô, Alô.
Asa Butterfield, Hugo, é Quasimodo que não se cansa das vistas sobre a cidade de Paris e quer ser Harold Lloyd ou Chaplin em Tempos Modernos.
George Meliés é Martin Scorsese, himself, e o filme é uma birra do realizador, num acto de comiseração por si próprio, ó p’ra mim, já fiz nascer taxistas e gangues em Nova Iorque!
Das referências às colagens vai toda uma falta de imaginação e criatividade que, mesmo assim, o lobbie de Hollywood premiou, como quem dá uma fatiazinha de pudim ao ancião lá de casa.
A acção é parada e paradinha, abrem-se bocas ao longo da sala na plateia e não se percebe quem inventou o título com uma invenção não inventada.
Ben Kingsley assume os passos dum fantasma, sombra esbatida da sua capacidade de representação. A personagem de Rene Tabard entra na narrativa a martelo, da mesma forma que entraria a roupa interior numa escultura em pedra já terminada.
A magia do cinema aqui é substituída pelo tédio do cinema: as boas intenções não têm espaço por não terem corpo e a apologia que se quer fazer (ao cinema ou a si próprio?) não ganha músculo nem osso.
O eterno Drácula, que já tinha sido o mauzão Saruman, veste-se de Bibliotecário bonzinho, na única ligação com sentido que a substância do filme consegue fazer, criando invisibilidades bem visíveis, cruzamentos subtis e ironias.
Os efeitos especiais das subidas e descidas de Hugo no meio dos mecanismos dos relógios, as imagens da biblioteca ou o cemitério à porta de casa de Meliés estão bem esgalhados, mas um filme não é feito de dois de três momentos, caso contrário fica mais órfão que o pobre Hugo que, enquanto filme, está cheio de osteoporose.   

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Dama de Ferro


No cinema há encanto, deslumbramento, lágrimas e gargalhadas. A tela é uma farmácia de emoções com mensagens, paisagens, imagens e tudo o que se queira, literalmente tudo.
Há argumentos e efeitos especiais, guarda-roupa e maquilhagens que nos trazem o passado, o presente, o futuro, a imaginação feita realidade, a invenção, a descoberta, o homem das cavernas e o futurista.
Há pontos de vista dados pelos realizadores, há grandes planos e cenas impossíveis de repetir tal é a sua grandeza. E há interpretações.
Quando consideramos Christoph Waltz um portento que consegue reunir numa só personagem a complexidade da natureza humana em Inglourious Basterds, ele é suplantado por Christian Bale cujos poros da pele respiram a encarnação perfeita que fez em The Fighter.
Mas quando se pensa que o atleta já superou todos as metas, quando se pensa que já não há recordes possíveis a bater, tal a altura do desafio, somos confrontados com o nosso próprio silêncio perante o inimaginável.
Para os adeptos dos prémios, há interpretações para as quais devia ser criado um novo tipo de distinção, celestial, augusta, pois acima de Oscares, Baftas, Ursos, Leões, Globos, Grammys, Emmys, Césares, Palmas e de qualquer tipo de premio ou medalha está o Nirvana, perante o qual nos ajoelhamos sem necessidade de dizer seja o que for. 
E o Nirvana chama-se Meryl Streep. 

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

O preço da morte


Vi o programa Olhos nos Olhos. Foi um belíssimo exemplo de como os lobbies funcionam bem. 
Não se mencionou se a Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária foi convidada e declinou o convite ou se nem foi sequer convidada. Bateu-se na tecla do costume-se, banalidades, caça à multa, álcool, etc. 
Aquilo que podia ter sido um excelente programa de verdadeiro jornalismo e informação mostrou-se uma sucessão de lugares comuns, já do conhecimento dos telespectadores, o que levou a que muitos se congratulassem com o facto de na televisão se dizer aquilo que já se sabe. É a Casa dos Segredos reformulada.
Falou-se em mortes, pois claro, em prevenção, em cartas de condução tiradas a troco de influências, em escolas que não dão aulas, mas recebem o dinheiro, com certeza. Sobre este aspecto o Dr. Carlos Barbosa disse que contra ele falava. Ora não é bonito nem fica bem falarmos contra nós: bonito e sério é podermos dizer que nos distinguimos dos outros nas atitudes e comportamentos, coisa que não se verificou, antes pelo contrário: existe a onda e deixamo-nos ir, embora saibamos que vamos em sentido proibido. E mesmo assim afirmamo-lo na televisão! Desta forma deixa-se a credibilidade numa rua sem saída…
Depois há a questão dos cintos: há quem os use e quem não os ponha e sorria dizendo isso mesmo, brincando às escondidas com a seriedade que, aparentemente, leva de braço dado.
Não se ouviu falar do custo social dos acidentes. Ninguém se sentiu abanado em momento algum pelo facto de toda a sociedade estar envolvida nesses mesmos acidentes por via da utilização de hospitais, das estradas, dos tribunais, das ambulâncias, dos funerais, dos advogados e peritos, das polícias e das entidades fiscalizadoras, que me conjunto perfazem o preço da morte, uma vez que o preço da dor não é calculável.
O Dr. Medina Carreira encontrou o Dr. Carlos Barbosa num restaurante e convidou-o para o programa. Espero que pelo menos a refeição tenha sido boa.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Desculpa...

A meio da tarde o telefone tocou em ruído de dor, tristeza e dívida.
A mãe de uma amiga de vida acabava de ser sepultada e ela ligou-me trespassada pela solidão da perda da mãe que, em simultâneo, era a sua melhor amiga. Trocámos lágrimas. Tentei abafar o tom de voz com que lhe perguntei porque razão não me tinha dito nada, esconder a raiva da minha inutilidade. Ela alegou com as complicações da minha vida e que não queria que me pusesse a caminho do Algarve, coisa que sabia que eu faria no minuto em que soubesse do estado da mãe dela.
Doeu-me profundamente não ter estado com ela; fiquei numa tristeza profunda e sinto que a minha dívida para com a M. aumentou. Aumentou porque ela me poupou, aumentou porque não estive presente, aumentou porque me sinto mal até de pensar que enquanto ela andava com o coração estilhaçado eu, ignorante, dei garantidamente umas boas gargalhadas.
O que tem uma coisa a ver com a outra, se eu não sabia? Tem tudo: ela é minha amiga e estava mal e eu não fiz nada. Nas contas do universo não há motivos, há acções. E eu fiquei parada.
A voz dela a dizer-me que se sentia sozinha, que tinha acabado de chegar a casa depois do funeral e que precisava de ouvir a minha voz, deixou-me de rastos, enlameada em lágrimas sólidas.
Penso nisto e, inevitavelmente, revejo algumas supostas amizades, pessoas que se cruzaram comigo ao longo da vida. Mais, penso que há uma qualquer questão genética que se atravessa no nosso caminho. Explico o nosso:
Há muitos anos atrás os meus pais ofereceram-se para albergar a filha dum amigo lá da terra cujo futuro na aldeia não existia. A rapariga, Eva, veio para nossa casa, inscreveu-se numa escola de dactilografia, arranjou emprego num supermercado, começou a namorar, fez aumentar o número das nossas visitas à aldeia, para matar saudades da família. A vida corria com normalidade, ela marcou o casamento, que devia ocorrer na aldeia e, semanas antes, foi para lá preparar a boda, deixando em Lisboa uma casa já arrendada e pronta para virem morar, casa essa que os meus ajudaram a arranjar e ajudaram a pagar. Surpresa das surpresas, não convidou os meus pais para o casamento.
O pai dela deslocou-se a Lisboa de propósito, chorando desculpas, e dizendo não saber a razão do sucedido pois, ao longo dos anos, ela nunca manifestara um desagrado para connosco, nunca mencionara um mal-estar ou fosse o que fosse. Agora, apenas dizia que não nos queria convidar e o pai, qual Egas Moniz, ali estava em pranto, sentindo que tinha que agradecer o que fizeram por ela e pedindo desculpa por uma atitude que ainda hoje enferma de explicação. Não tenho a certeza, mas penso que o pai não foi ao casamento como forma de manifestar a sua posição pelo comportamento irracional da filha, numa altura em que a honra dum pai de família era mais visível que um vestido de noiva com cauda.
Anos mais tarde, era eu adolescente, embirrava solenemente com as amigas da minha prima lá da aldeia, que se interessavam por maquilhagens, vestidos e saltos altos, enquanto eu mergulhava num livro e só com dificuldade é que me tiravam de lá. Apenas uma daquelas amigas me merecia uma conversa e tempo que não dava como perdido. Ela era meia dúzia de anos mais velha que eu e no dia que me disse que adorava morar em Lisboa eu abri-lhe a porta da nossa casa, sem informar os meus pais, nem a minha prima.
Achei que havia uma dose de aventura em, quando estávamos a pôr a bagagem no velho Ford Escort, dizer que ela vinha connosco e metê-la no carro. Na altura não se contabilizavam passageiros e os meus pais fizeram a viagem até Lisboa quase em silêncio, com a minha irmã, a minha prima, que já vivia connosco, eu e a nova inquilina no banco de atrás. Garanti-lhes que seria por uns dias, só até eu lhe arranjar emprego e uma casa para ela morar.
Não posso dizer que os meus pais estivessem furiosos ou nem mesmo descontentes, estavam aborrecidos por eu não ter dito nada e terem sido apanhados de surpresa.
Ela acabou por ficar meses na nossa casa, embora na semana seguinte já estivesse a trabalhar, depois de eu me ter desengonçado para lhe arranjar qualquer coisa para fazer. O trabalho era numa fábrica de bonecos de peluche que funcionava ilegalmente a menos de um quilómetro da nossa casa, mas não pagavam mal. Ainda não tinham passado seis meses e já ela morava num quarto arrendado, que consistia num sótão maravilhoso que hoje custaria uma fortuna. Apesar disso, e estando nós ali de vizinhas, eram mais as noites que ela ficava em nossa casa do que as noites que ficava no quarto alugado.
Porém, o esplendor da capital levava-a com frequência a fazer gastos bem acima das suas possibilidades e lá estavam os meus pais a emprestarem-lhe dinheiro e a darem-lhe conselhos.
Começou a namorar com um rapaz que, dizia-se, andava metido na droga. Na verdade, não era assim, as pessoas apenas não aceitavam bem quem tinha diferentes hábitos de vestuário e poses um tanto ou quanto futuristas e acabavam por meter tudo no mesmo saco. Mesmo com a fama que tinha o meu pai recebeu-o inúmeras vezes na nossa casa, dando-lhe almoços e jantares. Ao longo dos anos, mudou de emprego várias vezes, sempre para melhor, mantivemos um relacionamento amigo, recebendo a família dela na nossa casa quando a vinham visitar, pois o sótão era maravilhoso, mas não espaçoso.
Nunca percebi porquê, mas aconteceu exactamente a mesma coisa que tinha acontecido com a Eva: foi casar na aldeia e não convidou vivalma da nossa família, nem a minha prima, sua amiga desde sempre. Nunca mais nos falámos. Encontramo-nos muito de vez em quando nas festas da aldeia, mas é como se não nos conhecêssemos.
Foi a primeira vez que uma amiga me partiu o coração.
Muitos anos mais tarde, já a trabalhar, e depois de anos de convívio e amizade diários, voltei a sentir a mesma dor: a dor de constatar que a amizade não era verdadeira, mas antes falsa, hipócrita e ciumenta.
Depois disso, mais recentemente, fui apelidada de mentirosa por ser honesta em assunto delicado, numa atitude que me chocou e me fez dar ainda mais valor às amizades que tenho como sólidas, indestrutíveis, à prova de bala. O último caso atingiu uma gravidade da qual inicialmente não me apercebi, pois uma amiga comum, deixou literalmente de me falar, embora me escrevesse a dizer que tinha saudades minhas. Imagino as conversas que terão acontecido…
À excepção da Eva, cujo episódio aconteceu comigo muito criança, procurei todas as pessoas envolvidas, sem excepção, perguntando-lhes a razão dos seus comportamentos. Pude agir assim por ter a consciência tranquila e descansada, embora envolta em interrogações. Quem tivesse telhados de vidro, não o faria.
Nunca obtive resposta à altura, de algumas não obtive sequer resposta nem por telefone, nem por escrito, o que aumenta a hipocrisia do envio de mensagens a anunciar as saudades que sentem. Devia ter sido engano…
Não consigo deixar de pensar em todo o tempo que gastei com estas pessoas, no desperdício acumulado.
Entendo os amigos verdadeiros como grilos falantes que devem apoiar, é claro, mas também devem avisar, aconselhar, alertar e dar na cabeça quando merecemos. Aquela conversa de eu não me meto na vida dos meus amigos, comigo não serve: os meus amigos fazem parte da minha vida, logo, eu quero ouvi-los, quero que me abram novos caminhos, que me mostrem perspectivas que eu não estou a alcançar, curvas da vida que não estou a ver, que me iluminem o caminho e que sejam duros comigo se assim o entenderem. Os amigos verdadeiros são os pais que nós escolhemos, aqueles de quem queremos ouvir a opinião, o conselho, cuja voz nos acalma e ajuda.
Se forem amigos só para fazer farras, só para dizerem o que nós queremos ouvir, sempre a dizer que somos os maiores, que todas as nossas atitudes estão correctíssimas, então temos que lhes dar outro nome, não Amigo.
Conheço a M. quase há vinte anos. Quase há vinte anos que a considero uma das pessoas mais fortes que existem, mais determinadas. Quase há vinte anos que me sinto segura com a companhia dela, ou, quanto mais não seja, com a sua lembrança. Quase há vinte anos que me ouve, que com ela partilho alegrias e tristezas. Há quase vinte anos que me confronta com realidades que por vezes me são penosas, mas ela tem a coragem de chamar os bois pelos nomes. Há quase vinte anos que me doem as dores dela e sei que ela sofre com as minhas. Há quase vinte anos que ela me dá tanto de si que me sinto sempre em dívida para com ela.
Por tudo isto e muito mais sinto-me um traste por ter dado o mesmo tratamento a outras pessoas, chamando-lhes amigas. Sinto-me uma idiota total por ter parado dois minutos a pensar, quando me disseram eu dei-te tudo, tentando alinhar esse tudo que, comparado com a mera presença da M. na minha vida, não é nada.
Sinto-me como um cigarro na mão de certas pessoas: aspiram, queimam e deitam fora. Enquanto a M. é a planta do tabaco em si, sempre antes de ser colhida, verde e bela, resplandecente e cheia de vida, sinónimo de vício sim, mas vício bom, vício que conforta, vício que aquece, sem sombra de cinza.
A mãe da M. morreu e eu não estive com ela. Só me apetece chorar de raiva e, por ora, não me consigo perdoar.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Com um brilhozinho nos olhos

O meu apetite por gelados é permanente. Com muita frequência compro um no quiosque dentro da estação de metro e vou a comê-lo durante o percurso.
Com o frio que se tem feito sentir nos últimos dias, de pauzinho na mão, chamo mais a atenção do que se fosse vestida de gladiador.
As reacções variam dos oito aos oitenta: os miúdos lambem-se a olharem-me, os jovens deitam miradas invejosas com o rabo do olho e as pessoas mais velhas fixam-me como se fosse maluquinha e algumas resmungam palavras imperceptíveis na audição mas perfeitamente clara na intenção.
Ontem, a meio das lambidelas num suculento magnum de amêndoas, sentou-se ao meu lado e diante de mim, uma família: pai, mãe e filho, com cerca de 8 ou 9 anos.
O garoto, mesmo à minha frente, não tirava os olhos do gelado. A mãe fez-lhe sinal para não ser tão evidente e para desviar o olhar. O miúdo ainda começou a contar as paragens que faltavam para saírem e a ler os nomes das estações, mas os olhos fugiam-lhe para o chocolate com pedacinhos de amêndoa e a boca dava sinais inequívocos que comeria o gelado numa só dentada se o deixassem. De repente disse:
- Mãe, ficamos doentes se comermos gelados no Inverno, não é? Ela vai ficar doente!
A mãe olhou-me a sorrir, como quem pede desculpa e virou-se para o garoto com cara de quem lhe ia dizer qualquer coisa, quando ele acrescentou com ar de confidência:
- Não te preocupes, os portugueses não comem gelados agora, ela é estrangeira de certeza e não percebe…
Sorri e disse-lhe que adorava gelados e só tinha pena de naquele momento não lhe poder dar um a ele. O garoto arregalou os olhos perante a minha fluência em português, os pais riram-se e a mãe incentivou-o a pedir desculpa e lá nos entretivemos em debate sobre o motivo pelo qual ele devia pedir desculpa, nenhum na minha perspectiva.
O rapaz perguntou-me o nome, a idade e o que fazia e eu fui respondendo no meio de grandes sorrisos, embora manifestasse a minha tristeza por ele não saber o que é uma bibliotecária. Ainda assim, acho que fiz um amigo e como diz o Sérgio, coisa mais preciosa no mundo não há.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Conversor de sensibilidade, precisa-se

Já passa das sete da tarde na estação de metro do Marquês de Pombal. A senhora ostenta uma pele fofa e flutuante em volta do pescoço, cabelo lilás e aproximadamente 80 anos. Tem as rugas ainda mais vincadas que o costume e pergunta ao segurança do Metro se ele ‘é dali’.
Com cara de quem teme o que ai vem, o segurança responde que sim.
- Então e o senhor acha que quase seiscentos escudos por uma viagem de ida e volta é justo?
- Minha senhora as máquinas não aceitam escudos, só euros.

Guia de Sobrevivência a Zombies e outros animais

No quiosque onde costumo comprar cigarros e revistas guardam-me sempre as publicações que trazem livros, mesmo que não seja meu hábito comprá-las. É o que está a acontecer com a Sábado que, não obstante, costumo deixar em cima do balcão da Biblioteca assim que entro. Mas este exemplar em particular trazia na capa ’22 alimentos que fazem perder peso’ e, curiosa, fiquei com ele e levei-o para casa.
A revista é eclética pois dá para rir e para chorar.
Uma das notícias diz que um leão, num zoológico na Indonésia, fugiu da jaula e matou um camelo. Continuo a rezar para que o camelo fosse de duas patas.
Afirma-se que George Clooney terá dito, em plena 2ª classe, que cometera adultério, pensando que se incriminava do crime de agir como adulto. Destaco esta informação pois há muitos anos, estávamos nós de férias no Alentejo quando a minha irmã, com sete ou oito anos disse exactamente a mesma coisa, o que ainda hoje nos faz delirar a nós e lhe provoca um sorriso amarelo a ela.
A China proibiu a venda de hímenes artificiais e agora só se podem comprar no mercado negro. Não informam onde se pode comprar Verdade ou Honestidade. Seguem-se os tais 22 alimentos que ajudam a emagrecer – mas deve ser aos outros porque eu como-os mas eles não ajudam nadinha…
No suplemento Tentações a capa estraga o trabalho dos ditos 22 alimentos e está cheia de baguetes de pão, muito pouco suculentos quando se quer atrair para os melhores pães de Lisboa e do Porto. Mas no interior compensa-se com imagens de diversos pães que apetece dentar mesmo em papel.
Mas o ponto alto da revista, aquilo pelo qual deve ser realmente comprada e, quiçá, idolatrada, é pelo conteúdo da página 23 das Tentações, cujo título diz: ‘O que fazemos se formos atacados por zombies?’
Face a esta possibilidade ficamos a saber o que fazer em caso de luta corpo a corpo, como usar o fogo ou proteger a casa, com o que devemos encher a despensa e ainda nos aconselham a destruir escadas e a não usar roupa larga e este tema, aqui num resumo resumido, pode ser aprofundado no livro Guia de Sobrevivência a Zombies de Max Brooks.
Para além de Max Brooks estar de parabéns – o livro foi dos mais vendidos em 2011 nesse planeta que dá pelo nome de Estados Unidos da América – provou também, precisamente com o número astronómico de vendas, que os zombies atacam totós, e atacam das mais variadas formas: comem-nos e contaminam-nos e, espertalhões hem?, vão-lhes à carteira.
Quem não percebeu que compre o livro.
Mas... e se... uma vez que Max se deu a este trabalho e se o aproveitássemos para outros zombies? Ouvi dizer que zombie também significa Governante e assim, seguindo as dicas de Max, devem evitar-se as lutas corpo a corpo: é fugir, é fugir, mas em caso de confronto utilize paus ou uma pistola.  Por outro lado, só através da incineração os zombies desparecem de vez, mas cuidado pois um animal destes em chamas continua vivo, como bem sabemos de certas e determinadas pessoas que parecem mortas mas, vai-se a ver e afinal ainda estão p'ras curvas e a quererem morder.
A questão da protecção da casa, muito importante! Mesmo que nos barriquemos devemos lembrarmo-nos que os zombies não se cansam e podem ficar dias e meses aos encontrões à porta. Alguém duvida?
Só há um pormenor que me fez confusão: as escadas. No artigo diz-se que os zombies não sabem escalar e por isso devemos destruir as escadas. Errado! Sabem escalar e bem! Sobem de todas as formas e feitios, ultrapassam-se e pisam-se se for preciso, e pelo caminho engolem-se, deglutem-se e vomitam-se.
E nós, se sobrevivermos, temos que limpar os restos da contenda.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Os meus livros, meus, mesmo meus...

Estou a fazer livros para oferecer aos meus sobrinhos. Escrevi a história, que é a mesma para todos, mas a edição será diferenciada, face às idades: um bebé, uma jovenzinha com sete enormes e sabidos anos e um pré-adolescente, quase adulto!, com nove anos.
Escrita a história, impunha-se a compra do papel.
Na Casa Ferreira encontrei algumas coisas das que tinha em mente, mas falta-me um tipo de papel que dê a imagem de farrapo. Tendo a certeza da existência do dito, baixei à Baixa e entrei na Papelaria Fernandes, esse marco, cujos preços também são em marcos, comparados com os da Casa Ferreira.
A PF pode ter desde 1891, como diz a publicidade, pode comercializar mais de 20 mil artigos, mas tem e comercializa mais caro.
O papel que comprei custou-me três preços diferentes: 30, 35 e 40 cêntimos e na PF não há confusões, é tudo a 50 cêntimos…
Ainda assim, no meio de 20 mil artigos, não tinham o papel de margens esfarrapadas…
A vida de Editor é difícil.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Boas reclamações

A idade avança e os especialistas médicos multiplicam-se. Esta semana fui ao cardiologista, ver a máquina, como diria o meu pai.
Marcam-se as consultas, os exames de rotina, vamos fazer as análises, ninguém nos avisa que temos levar o xixizinho, voltamos no dia seguinte com a pipeta, ou lá como se chama o tubinho, já com código de barras, que corresponde ao nosso nome mas em linguagem de laboratório, enfim, um controlo sobre nós próprios, uma preparação, que mesmo que seja espontânea e de prevenção, é chata que nem um prato de estanho.
A consulta para o cardiologista foi marcada para às 15.50h. O meu nome foi apregoado pelo sistema de altifalantes da clínica às 16.50h.
Entrei no consultório do doutor, como diz o Duarte que não usa o nome ‘médico’ não sei porquê, o que dá um ar estranho às conversas, fui ao doutor dos olhos, e fiquei parada diante dele. Estendeu-me a mão cumprimentando-me, sem me olhar, e disse-me que me despisse da cintura para cima para que me fizesse um ecocardiograma.
Fui tirando o casaco devagar e disse:
- Não me leve a mal, mas esperava um pedido de desculpa…
Parou de mexer na maquineta, levantou os olhos e perguntou porquê.
- Porque fui chamada uma hora exacta depois da hora a que estava marcada a consulta e penso que um atraso desta natureza merece um pedido de desculpa.
- A sério? Uma hora?
A pergunta foi acompanhada por um confirmar no computador que revelou que eu tinha razão.
- Tem razão… e quando as pessoas têm razão não há nada a dizer a não ser pedir desculpa. Aceite as minhas desculpas.
Nesta altura já eu estava de maminhas ao léu, com os resquícios do bronzeado da época de 2011 à luz fluorescente do gabinete, o que conferiu à cena um ridículo que me fez rir: ali estava eu meia nua, com cara de má diante de um homem que pedia desculpa de uma forma que não dava azo a mais reclamações.
A consulta continuou com a realização do exame, com muitas perguntas pelo meio, se me sentia mal, se tinha dores, se pensava que todos os médicos eram atrasados por natureza. Respondi não às duas primeiras e sim à terceira: os médicos, na sua maioria, demonstram um total desrespeito pela vida extra-consultório dos pacientes; pensam que a necessidade é unívoca, quando é bem biunívoca.
A par da letra, os atrasos, são uma espécie de assinatura dos senhores doutores médicos, quais reis no Olimpo da falta de saúde e cujas duas palavras, mesmo tortas, parecem bálsamos para nós. Temos que lhes fazer ver que não é bem assim…
Discursava eu a todo o vapor quando ele diz:
- Acredite que sou todo ouvidos… estou a registar cada palavra.
Disse esta frase a sorrir sem que o sorriso me parecesse irónico, pediu novamente desculpa e afirmou que ia pedir que as consultas fossem marcadas com um intervalo de tempo maior para que não se registassem atrasos. Agradeceu-me a reclamação com uma frase que o pai do Duarte costumava usar:
- As boas reclamações fazem os bons serviços.

Círculo de Ferro


Pontes, círculos, ligações
Nascem, crescem, ganham raízes
São cicatrizes
Projectos de Afectos
São as nossas origens
Ontem, filhos, pais, hoje avós
Amanhã, somos nós!

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Dia de raiva

Dia de greve equivale a toque de despertador a meio da noite para poder levar o carro sem apanhar trânsito. Ainda é de noite quando tomo o pequeno-almoço no café da esquina. O empregado conta que ontem à noite se deu um crime violento na caixa multibanco ali ao lado: uma mulher foi assaltada de esticão; um homem ia a passar e quis ajudá-la. Foi brindado com um tiro no peito e morte imediata. A assaltada, para não ficar com inveja, também foi agredida e deu entrada no hospital em estado grave.
O incómodo causado pelo madrugar, em função da greve, transformou-se em vómito por esta sociedade, que é como quem diz por estes comportamentos, sobre os quais ainda ontem falava no Horas Extraordinárias, dizendo que a morte está tão banalizada que não me espanta que a ela se recorra, como quem muda de meias.
O valor da vida atingiu mínimos históricos, o respeito pelos outros é sentimento de museu e nestas alturas não me venham falar em prisões e em recuperação de pessoas pelo sistema: um barco sem fundo no alto mar, era a expressão e o remédio que o meu avô preconizava para estas situações.
Mas a questão fundamental é que no tal barco não podiam seguir só os assassinos, não senhor, tínhamos que ir nós também, que a meio desta manhã já esquecemos a história e achamos normal que à noite se volte a repetir.
Neste Inverno sem chuva e com muito frio, vestimos a capa do medo e nem a tiramos para dormir, e pedimos aos deuses que estas coisas aconteçam aos outros, cientes que continuarão a acontecer, sem esperança de mudança, submissos na falta de lei e na podridão da grei, engolindo os receios com voltas extra na chave que pende na fechadura da porta, coração aos saltos quando pensamos que nos podem entrar pela janela.
À imagem do país em geral, da justiça, da educação, da saúde, perguntamo-nos como chegámos aqui? Será que nos perguntamos? Será que queremos ouvir a resposta da nossa própria boca ou, se formos sinceros vamos encontrar uma quota-parte de culpa e preferimos nem nos olhar ao espelho com medo de encarar o monstro que nos sorri de dentro do laminado?

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

De olhos em bico

Estreei-me em Haruki Murakami com A rapariga que inventou um sonho.
Não estou extasiada. Nem com o livro nem com a tradução. Penso que o trabalho de tradução de japonês para português, neste caso de Maria João Lourenço, não é pêra doce, antes pelo contrário. Mas vamos por partes.
Os contos que compõem o livro são momentos retirados cirurgicamente duma qualquer realidade, mesmo que irreal; têm corpo e podíamos ser nós, as nossas alucinações, as nossas verdades, as nossas confissões.
Em quase todas as histórias há um elemento que se repete: está calor para a época. Haverá alguma razão para isso? Pergunto. É o autor que é encalorado e dessa forma deixa a sua marca naquela narrativa, para além da genialidade da sua criação, de alguma forma, sem ser protagonista, mas deixa uma impressão digital? É coincidência? Ou estará a temperatura certa e os protagonistas ainda não deram conta? Mas se assim for, porque há a necessidade de o afirmar, de realçar esse calor desajustado?
Por outro lado, a tradução levanta mais problemas do que qualquer uma em línguas mais próximas, por via duma cultura enraizada que revela diferenças profundas: dois jovens universitários encontrarem-se para tomar chá pode ser ridículo, estranho, cómico, pode ser muitas coisas, mas que é estranho, é. Mas não no Japão…
E se a narrativa dos jovens que se encontram a beber chá pode parecer estranha, mas é real, já o facto de alguém ficar com os olhos em bico me parece a mim uma opção de tradução altamente incorrecta, uma vez que a expressão é ocidental e para referir precisamente os povos asiáticos, logo, não creio que eles se refiram a si próprios dessa forma. Presumo ter sido a forma escolhida para traduzir uma expressão idiomática, de espanto ou surpresa, que aqui resultou mal.
Não sou tradutora mas estas coisas fazem-me levantar os olhos da página pois sinto que não encaixam. A tradução de it's raining cats and dogs nunca poderá ser chovem gatos e cães e sim qualquer coisa como chove a potes, por exemplo.
Há necessidade de traduzir ideias e expressões onde o literal está muito afastado, mas neste caso, um japonês ficar de olhos em bico, parece-me abusado, demais.
Decididamente eu fiquei com os olhos iguais.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

FNAC: Festival Não À Cultura!

Estimada Dona Fnac
Sou sua cliente pontual, talvez reconheça o número do meu cartão multibanco, de quando pago as minhas compras.
Escrevo-lhe para a alertar sobre um engano cometido pelo vosso departamento de publicidade e marketing. Já pensei em fazê-lo várias vezes, quando colocam livros de Arte na Floricultura, porque na capa está uma planta, engano muito legítimo, e culpa do Autor que escolheu uma capa em nada adequada ao conteúdo e, que pensa ele?, que os seus funcionários estão aí para terem o trabalho de saberem o que está dentro dos livros? Ora esta…; ou quando os mesmos funcionários informam que determinados livros estão esgotados no Editor, logo não podem fazer a encomenda e, coincidência, quem faz a pergunta, ali de carninha e ossinho, é o próprio Editor…; ou ainda quando pedimos uma edição em língua inglesa e os mesmos funcionários nos perguntam – muito legítimo! – se há a portuguesa, para que quero eu a inglesa…?
Mas sabe Dona Fnac, este engano em particular pode ser confundido com ignorância total da sua parte, o que está completamente fora de causa, como é óbvio.
Refiro-me à publicidade onde se lê Troque os Maias pela Meyer e, devo frisar, a ideia de brincar com as iniciais dos nomes, é genial, brilhante, épica! Nunca alguém se lembraria duma coisa assim e está visivelmente de parabéns. Imagino que tenha sido uma gralha da gráfica pois não me ocorre que o pedido tenha seguido assim, pois os Maias, embora português, é ouro puro, e a Meyer é sangue estragado, não serve para transfusões, cabidela, chouriços de sangue, sarapatel, surraburra, ou outros fins; o que fica, a essência que permanece, é uma grande nódoa, dificílima de tirar.
Além disso, Senhora Dona Fnac, será que a cultura se renova mesmo? Depende da cultura, verdade? A sua é a cultura do cifrão e acredito que se renove, mas na minha perspectiva quando fala em renovar, refere-se a trocar, a substituir e pede-me que troque um grosso cordão de ouro por uma imitação de bugiganga, pede-me que troque uma garrafa de água cristalina por um bidão de água pantanosa.
Eu até gosto de mostrar a minha boa vontade e não me importava de participar na sua campanha, mas não tenho por hábito nem deitar fora restos de arroz, muito menos o conteúdo da minha caverna de Ali Babá, logo não tenho nada para a troca… além disso, teria que pagar com notas do Monopólio, sabe, é que são as únicas que estão à altura da presente proposta.
Cordialmente
Areia às Ondas

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Aniversário

Até há meia dúzia de anos comemorava os meus anos de forma saborosa, leve e gratificante. Depois aconteceu ter calhado o funeral duma pessoa que prezo muitíssimo, um primo, no dia do meu aniversário. Foi um dia de muitas, muitas lágrimas, de profunda tristeza e mágoa, foi um dia inesquecível, dentro do pior que há.
No ano seguinte no mesmo dia morreu um jovem muito próximo de nós, que não sendo primo era como se fosse e a morte na juventude é sempre uma coisa não só inexplicável como revoltante.
Dois ou três anos depois decidi organizar um jantar de aniversário que tinha várias valências: fazer uma surpresa aos meus pais (que estão sempre de parabéns quando os filhos fazem anos); juntar família que não se via há algum tempo, misturá-los com os amigos e fazer aquilo que é tradição em todo o mundo: uma comemoração à mesa.
Mas quis o destino que o restaurante eleito estivesse fechado naquele dia e o substituto foi a pior escolha possível, da qual nem me quero lembrar…
Ora, calhei a fazer anos ontem, novamente. Não dei notícia disso e o dia passou-se como qualquer outro, embora o telefone tivesse começado a tocar às oito – a minha sobrinha – e tivesse recebido o último contacto com o mesmo propósito às 10 da noite. Como não assinalo o aniversário na página do facebook, onde se recebem e se dão parabéns a amigos virtuais que nunca vimos, não recebi mensagens. Porém, dando-lhe uma espreitadela, como sempre faço todos os dias, vi uma mensagem duma colega de trabalho a glorificar um sobrinho que fazia anos e comentei a verdade: gosto de saber de pessoas que fazem anos no mesmo dia que eu.
Vendo o meu comentário, ela teve a gentileza de me desejar parabéns na minha página pessoal dizendo que mais importante que algumas personalidades que nasceram no dia 24 de Janeiro, como o Imperador Adriano, Beaumarchais, Frederico II da Prússia, Sharon Tate, Nastassja Kinski e tantos mais, eu era mais importante que todos eles.
Para quem me ama sou com certeza mais importante, mas para todos, sejam quem forem, espero sempre poder fazer alguma diferença.

A arte de matar dragões

Ignacio del Valle é o autor duma trama que ganhou o Prémio Felipe Trigo de Novela. Li-o em português, edição da Porto, e arrependi-me de não ter usado uma edição castelhana: há expressões, palavras, invisibilidades muito palpáveis que não senti, apesar de suspeitar que estavam lá.
Não foi tanto o trabalho de Alcinda Marinho, a tradutora, mas antes a tarefa de revisão – perdoem-me por não ter apontado se o livro teve revisor, mas foi emprestado e já não o tenho. Faltam elementos de ligação nas frases, como se fosse aquele jogo em que se eliminam letras das palavras e, mesmo assim, conseguimos ler sem perder o norte do conteúdo. Desapareceu um e aqui, um da ali e por aí fora.
Por outro lado, Robert Taylor virou Robert Tailor… se foi assim que o autor escreveu (??) a tradutora devia ter incluído um N.T. dizendo isso mesmo, caso contrário é bizarro que tenha saído assim.
Por outro lado, Arturo Andrade, o protagonista, é novo demais para certos pensamentos, atitudes, conclusões, o que faz com que a menção à sua idade pareça um elemento irreal na narrativa.
Ainda assim, a mescla entre a arte a Guerra Civil, as andanças do espólio do Prado por aqueles caminhos desviantes, que levam onde não se espera e onde não se quer, merece ser lida e aplaudida, embora esperasse mais.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Os Descendentes… com banda sonora

As manhãs do fim-de-semana foram passadas a caminhar, auscultadores nos ouvidos, para me actualizar na música que o Duarte ouve. Domingo à tarde fui ao cinema. Péssima ideia, péssima…
Fiquei na terceira cadeira a contar da coxia e os dois lugares antes eram ocupados por um casal entre os cinquenta e os sessenta anos. Enquanto a sala se enchia e acomodava a senhora falava baixo com o marido e perguntava-se porque razão é que as pessoas não chegam a horas e têm que estar a incomodar os que estão sentados, parecendo que os últimos são sempre os que ocupam os lugares do meio das filas.
Às tantas entrou um bando de jovens – certamente atraídos pela publicidade das belas paisagens do Havai e que, pessoalmente, não achei que fossem exploradas como badalaram – e a senhora, vendo entrar as gargalhadas e a descontracção, comentou que era por aquilo que gostava de ir ao cinema à noite.
Eu nem olhava para eles mas ia concordando mentalmente e registei que o casal não tinha pipocas, coca-colas ou quejandos, tal como eu, que apenas me munira em casa da eterna garrafa de água.
Todas as apresentações foram passadas em silêncio, ninguém percebeu porquê, o que realçava o barulho da sala e me fazia aborrecer. No último minuto, já com os Marretas no ecrã, para fazer ver a todo aquele púbico que quem atende telefones, envia mensagens ou incomoda os outros é um Marreta a abater, lá veio o som, o Clooney, a água transparente, uma ou outra paisagem mais de fazer água na boca, as rebeldias das filhas e a incapacidade do pai lidar com elas. E, estranhamente, como resquício do início da sessão ficou a senhora a meu lado a falar com o marido, a aclarar a garganta – movimento ainda mais irritante quando o marido fazia coro com ela! – a ver mensagens acabadas de receber no telefone e a explicar ao marido o que ia acontecendo quando ele dizia, com o ar mais normal do mundo e típico do sofá da sala ‘Agora não percebi’, como se a trama fosse sobre engenharia nuclear.
A estas horas já eu tinha olhado para ela fixamente duas ou três vezes o que a fez remexer-se na cadeira.
Para animar ainda mais um cavalheiro três ou quatro filas acima dava gargalhadas épicas em todas as cenas tristes do filme, o que fazia várias filas inteiras esticarem o pescoço para trás em sintonia para ver de onde vinha a alarvidade.
Quando o filme acabou olhei a senhora fixamente de novo e esperei que me perguntasse o que queria para que lhe respondesse que pretendia fixar a cara dela para nunca mais me sentar a seu lado no cinema. Mas ela baixou os olhos e saiu apressada, arrastando o marido.
Vivam as sessões da meia noite!

O mundo numa casa de banho

Quando andava no liceu e estudei alguns clássicos portugueses fiquei danada com Almeida Garrett. Segundo a professora as Viagens na Minha Terra foram escritas sem sair do quarto!
A minha ansiedade por ler um livro que tinha a palavra 'viagens' no título era grande e fiquei sempre com a sensação de fraude. Odeio a Joaninha desde essa altura...
Agora tenho um mapa do mundo na minha casa de banho, cortesia dos meus sobrinhos no Natal, e podemos abrir a torneira com um olho na Sibéria, tomar duche e molhar o deserto do Sahara, lavamos os dentes sob a supervisão do Alaska e fazemos tudo o que se faz numa casa de banho com o mundo a olhar-nos.
Como é que uma coisa tão simples pode fazer os dias começarem de forma diferente? E por diferente leia-se, melhor! Ver o mundo num quadrado de três por três metros dá-nos uma sensação de poder, como se pudesse decidir que quando abro a porta daquele minúsculo compartimento posso ir a qualquer daqueles sítios... Só não percebo porque escolho sempre o mesmo... Lisboa, ali a meia dúzia de passos do Marquês de Pombal.
O que teria escrito Garrett se tivesse uma cortina de duche como nós?

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Viva o Parlamento Europeu!

Conversa entre duas pessoas no metro, enquanto uma delas folheia um jornal gratuito.
- Olha, mudou o Presidente do Parlamento Europeu
- Quem?
- O Presidente do Parlamento… mudou…
- Mas não era uma mulher?
- Aqui diz que era um homem…
- Atão não era uma baixinha, de cabelo branco?
- Isso é cá e isto é na Europa
- Ah pois, eu da Europa não percebo nada.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Velhos, são só os trapos?

Domingo de manhã. Regressada das compras vejo uma ambulância do INEM parada à minha porta. Entro com os sacos e vejo que foi chamada para o rés-do-chão. Os bombeiros preparam-se para levar o velhote que ali mora para o hospital. Pergunto à senhora que está à porta o que se passa com o marido. Ela esclarece-me que é a pessoa contratada pelo filho para tomar conta dele de noite, que não é da família. Peço desculpa alegando ignorância, ela sorri dizendo que não faz mal, que muita gente pensa que são marido e mulher e termina a conversa com ansiedade dizendo que tem que chamar um táxi para a levar ao hospital, pois não pode ir na ambulância. Prontifico-me imediatamente para a levar. Subo na velocidade do elevador, deixo os sacos e informo o Duarte em três palavras.
Quando desço já a ambulância vai em velocidade de cruzeiro e a senhora começa um rosário de agradecimentos, com explicações pelo meio e muita amargura a toda a volta.
O filho não pode dar apoio ao pai porque vive na Alemanha, e para isso a contratou a ela, que dorme todas as santas noites na casa do Sr. G., com a missão de zelar por ele, levá-lo à casa de banho e fazer-lhe o almoço, que ele toma sozinho. O jantar também o faz, quando entra ao serviço.
As orientações que tem se acontecer uma urgência é avisar o irmão mais novo do Sr. G. Foi o que fez ligando para casa dele, telefone 21 etc., etc., e do qual ele lhe respondeu repetindo o que a senhora lhe dizia, Ai ele vai para o hospital? Mas agora? Olhe que maçada, logo agora que estou em Lisboa a tratar dum assunto e não posso ir...
A senhora estava amarga com quem tinha tido o desplante de lhe responder assim, Pois se mora na Amadora, a dizer-me que estava em Lisboa...
Porém, de acordo com as mesmas orientações, em segundo lugar deverá ligar a uma sobrinha que mora igualmente a 10 minutos de carro. Mas, ele há coincidências do diabo..., não é que a sobrinha tinha planeado ir almoçar fora com a filha e não lhe dava jeito agora ir ao hospital?
A senhora que me contara o episódio do irmão com amargura e tristeza, contava agora o da sobrinha com acidez e acrescentava que quando se é velho é-se um monte de trampa.
As minhas tentativas para discordar dela foram fracas porque também eu sentia raiva de pessoas que nem sei quem são. Como se as informações não chegassem, ela acrescentou ainda que tinha a certeza que lhe atendiam o telefone apenas por um motivo: o Sr. G. tinha uns dinheiritos, pois claro, que a sobrinha vinha reclamar em dias de festa, natais e páscoas, alturas em que aparecia com doces que o tio não podia comer. Nas mesmas alturas apareciam sobrinhos que o Sr. G. nem se lembrava que tinha.
Já à porta do hospital a senhora atendeu a filha a quem explicou os motivos de não estar ainda em casa, dizendo que não sabia a que horas chegaria e pedindo desculpa por não ter avisado. Explicou-me que estava de folga, mas tendo consciência, quem é pode ter folgas numa situação daquelas, perguntava-se.
Deixei-a e dei-lhe o número do meu telefone dizendo que não me custava ir buscá-la, que me chamasse quando estivesse despachada.
Eram nove da noite quando recebi o telefonema. Disse que tinha entrado em casa naquela hora, que a filha a fora buscar ao hospital, onde o Sr. G. ficara internado. Tinha acabado de ligar ao filho, na Alemanha, a quem tinha poupado a informação até saber do internamento. Agradeceu-me mais uma vez e em tom de desabafo informou que ninguém da família sequer lhe ligara o dia inteiro.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

O botão calão

A minha mãe telefona-me à noite a dizer que está a fazer um trabalho sobre calão alentejano e debita uma lista de palavras à qual eu acrescento mais duas ou três. Desligamos comigo a fazer a promessa que vou recolher mais calões e lhos direi.
Na manhã seguinte vou ao centro comercial tratar dum assunto da PT. A fila é grande e enquanto espero dou uma vista de olhos no corredor e acabo a entrar numa retrosaria onde tudo me faz andar para trás no tempo. A colecção de botões é magistral e como a minha mãe tem a mania de fazer roupa nova apenas com a mudança de botões telefono-lhe a dar conta da loja. Ela não está e o meu pai fica com o recado. Algumas horas depois ela devolve a chamada e a conversa foi a seguinte:
- Teu pai faz cada confusão…
- Ai sim? Então o que foi agora?
- Imagina tu que ele me disse que tu tinhas ligado a falar em botões! Não ouve bem este homem! Vê lá a confusão que ele arranjou… tu querias-me falar dos calões, não era?
- …
- Estás ai? Estás a rir do quê?

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

A crise na cabeça das crianças

O meu sobrinho joga com o pai um jogo de tabuleiro com conquistas, avanços e recuos. Às tantas faz batota e o pai reclama:
- Então… estás a brincar com a tropa, ou quê?
- Eu? A brincar com a troika? Deus me livre!

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Vai um cafézinho?

Na senda da minha decisão de deixar de pagar exageros a garganeiros que se querem aproveitar do nosso vício pelo café, às prestações trouxe a máquina, açúcar, copos (de plástico… desculpem lá…), um recipiente para guardar estas bugigangas todas e não dar ao gabinete de trabalho o ar de bar, e hoje decidi-me a ir comprar o café.
Pesquisei na internet a loja mais próxima e desloquei-me lá durante a hora do almoço.
Entrei também fugindo ao frio e nas minhas passadas (chamavam-me cem à hora no liceu…) já ia quase a atravessar a parede do prédio quando percebi que o faz favor, olhe, por favor, era para mim. Voltei atrás e enfrentei uma funcionária que estava a cinco metros da porta junto a um mini balcão que não tinha tido direito a qualquer atenção minha por não lhe ter visto cápsulas de café. Porém, tinha que lá parar, numa espécie de portagem, onde me perguntaram o que desejava, diga-se de passagem, com firmeza e sem simpatia, como se me estivessem a fazer um favor por me deixar entrar.
- Venho comprar café… posso entrar?
A minha ironia não surtiu qualquer efeito e a menina quis saber se eu tinha o meu cartão. Que não, não tinha. Mas não tem porque se esqueceu, ou é a primeira vez e ainda não tem, quis ela saber. Não estou muito habituada a que estranhos me perguntem assim, por dá cá aquela palha, sobre a minha primeira vez e disse que não era para mim. Assim sendo a menina recolheu uma das senhas (em cartão plastificado, bom material, caro) que supostamente era para fazer o cartão e apenas me deu uma para entrar na fila das aquisições.
Faltavam meia dúzia de pessoas. Avassalada com tanta cápsula, de tanta cor e sabor, agarrei uma coisa – não sei que nome lhe hei-de dar – em vidro, como se fosse um catálogo, com nomes e preços. Mais uns minutos e acendeu-se em todos os televisores que povoam as paredes um C 31, o meu número. Pedi Roma, descafeinado e outro com sabor a baunilha. Estendi o multibanco e a menina perguntou-me o número. Voltei a dizer que não tinha, que a compra não era para mim.
- Então faculte-me o número de telefone do dono da máquina, por favor.
Como? Pensei eu.
- Para quê?
- Para associarmos o pedido a uma pessoa e sabermos o que consome.
- Isso não é ilegal? Se eu não lhe der o número não posso levar o café?
A repetição da ironia voltou a não ter qualquer efeito e antes que lhe pudesse dizer o meu signo a menina, qual soldado, brindou-me com a seguinte pergunta:
- Está a dizer-me que não me vai dar o número?
Correndo o risco de aparecer alguém para me torturar, partirem-me um braço, aplicarem-me um golpe de karaté ou porem-me na rua, respondi:
- Estou a fazer o pagamento e que eu saiba a mais não sou obrigada.
Sem me olhar agarrou no cartão, o pagamento foi feito, o saco com os tubos de café foi-me entregue e eu fui-me embora.
Decididamente tanto salamaleque não é para mim e lembrei-me de Maria Antonieta que ontem tinha estado a rever. As cenas das refeições sempre me impressionaram imenso e, tal como os pressupostos que fazem com que se comprem tantas revistas ditas cor-de-rosa são a frustração de não se pertencer àquele mundo, também aqui registei um atendimento e acolhimento que se quer bom e de qualidade mas, bastam dois dedos de testa para se perceber, acaba por ser ridículo e extravagante.
Acredito que existam pessoas que se sentem bem naquele teatro e que adorariam que lhes dessem o café à boca e, assim, continuarão a existir lojas deste calibre e gabarito.

Em limpezas

O ano que passou foi fértil em conhecer pessoas. Não que tivesse conhecido muita gente que não conhecia antes, mas fiquei a conhecer melhor algumas das que, por um motivo ou outro, se cruzavam na minha vida.
Normalmente não se gosta de pessoas mentirosas, falsas, hipócritas, mesquinhas, invejosas e outras que se possam igualmente indexar a escalões similares. Eu também não gosto de gente estúpida e fraca.
Já diz o ditado que dos fracos não reza a história e uma das características da fraqueza é a incapacidade de não pensar por si próprio, a inabilidade de se recolher a solilóquios reflectivos com o espelho em busca da verdade, da sua verdade... mesmo que seja mentira.
A fraqueza é a falta de contraceptivo que faz emprenhar pelos ouvidos, que tira o descernimento e faz acreditar naquilo que se quer, naquilo que dá jeito. Se as pessoas que semeiam intrigas não são de confiança, os que lhe dão ouvidos sem se darem ao trabalho de espoletar uma conversa esclarecedora, não são melhores. São fracos.
Mas piores ainda que estes são os que constituem uma terceira linha e que ouviram o que se diz e, assim, sem mais sem menos, acreditam! É a sinergia da maldade.
Estes comportamentos no domínio daquilo que se tem por garantido como amizade são confusos e consubstanciam um roubo: dos relacionamentos e dos conceitos, porque afinal o que se pensava que era, não é.
Assim, e para não fazer crescer limbos, fiz uma limpeza por escrito e disse o que me vai na alma, sabendo que a partir de agora os novos relacionamentos serão objecto de estudo aturado e muitos exames antes de passarem de classe. Se estes actos criam tristeza, por outro lado proporcionam alívio, e uma resiliência ainda maior que o costume.
Há dias vi um filme sobre palavras esquisitas e uma delas era tutela. Dizia uma criança que significava tomar conta. As amizades são feitas de tutela e quando esta se demite da sua função, é porque a amizade sofria de falta de oxigénio.
No livro que ando a ler menciona-se a palavra mais longa do dicionário: agonia. Façamos de tudo para a afastar das nossas vidas, dediquemo-nos à leitura - que dá bons temas de conversa! - e sejamos honestos connosco próprios.
Namasté.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Uma opinião sobre O Último Segredo

Haverá pessoa que cative mais nas suas alocuções do que o Prof. José Hermano Saraiva? A sua estatura é oposta à estatura das suas conquistas, Napoleão feito cronista oral da História de Portugal e dos portugueses por esse mundo.
O Prof. JHS é o deus da oralidade, vemo-lo na televisão e pensamos ver a História de Portugal em linguagem gestual que, com uma forma muito própria, agarra ouvintes. Adora uma boa lenda que, dita muitas vezes, se transforma numa verdade com selo e tudo. É o grande divulgador, fala para massas, e o discurso tem obrigatoriamente que contemplar os que sabem o significado de 1143, os que dão valor máximo na História aos cognomes dos monarcas, os que consideram que alguém é um sábio digno de respeito com joelho no chão e tudo quando sabe de cor e salteado a genealogia real, embora não saiba perscrutar os caminhos económicos ou sociais aqui do jardinzinho. A linguagem tem que se adaptar a uma média de pessoas e evitam-se palavrões como miscigenação ou ostracizar (não, não é a técnica de apanhar ostras), ou seja, no entendimento da mensagem têm que caber todos os ouvintes. As televisões estão cansadas de saber como se faz, os média em geral sabem a cartilha toda.
Se a ‘coisa’ fosse escrita outro galo cantaria. É que a palavra escrita aloja-se, fica ali, deixa marca e não podemos dizer, ah, foi uma gralha e tal… ah, foi o revisor, aquele malandro… não senhor. Nos livros, para além de faltar o apoio do gesto, mantém-se a necessidade de esclarecer o destinatário, neste caso, o leitor.
Como é óbvio há várias maneiras de o fazer e uma delas é partir do princípio que o leitor é um tolinho a quem tem de se explicar tudo, incluindo longas deambulações por pormenores, mais ou menos ‘técnicos’ e, não contente, repetindo-os! Só assim garantimos que o nosso livro é percebido por todos desde o totó ao ‘senhor doutor’.
Também pode ser manobra comercial para aumentar o número de potenciais compradores, mas aí o Autor está a escrever batatas e não livros, está a fazer cadeiras de diferentes cores, para totós, desculpem, para todos os gostos e talvez fosse boa ideia enviar um currículo para a Ikea.
Nesta linha de escrever para totós, para fazer chegar a informação ao leitor o Autor arranja as formas mais disparatadas que, frequentemente, são as menos credíveis. Será que se dá conta? Umas vezes sim, outras não. No primeiro caso, sabe também que está em jogo aquela malta que pode comprar o livro para fazer estante…, no segundo caso, é mais grave pois se escreve como se o fizesse para si, então algo vai mal no reino da Dinamarca… Mas se pensarmos que o público inclui os telespectadores da Casa dos Segredos, está perfeito! Tem que ser tudo explicado, explicadinho… enfim, é assumidamente para totós!
Assim sendo, aos escritores – e não só – bastam-lhes as vendas chorudas. Se introduzisse aqui uma nota de rodapé, ao jeito dos livros de Direito, diria: Sobre este assunto ver também Paulo Coelho, entre outros. Porém, são campeões de vendas! Indiscutível. Mas como bibliófila, como amante de livros e da escrita, como crítica também, mas acima de tudo como Leitora, tenho que mencionar que há livros que são uma fraude: uma fraude nas traduções, uma fraude nas revisões, uma fraude enquanto livros, porque me desapontam, não me desiludem, porque com certos autores já não tenho ilusões mas, ainda assim, conheço muitas pessoas que compram a banha da cobra. Embora não dite comportamentos ou acções seja de quem for, mas a minha consciência diz-me para avisar.
Já tinha lido José Rodrigues dos Santos e não tinha gostado, nomeadamente A Fórmula de DeusO Sétimo Selo. A leitura do segundo confirmou o que pensava do primeiro: excessiva repetição de explicações científicas, como se o acto do repete-repete-repete, como quem decora, fosse mais esclarecedor quando, no fundo, é aborrecido e, a bem da verdade, é sinal de que os leitores são uns tolinhos.
Conhecedora dos meus gostos, uma amiga pôs-me O Último Segredo na mão, de empréstimo, e pediu-me opinião sobre o romance.
A construção de personagens é fraca, fraquíssima, fazendo lembrar os filmes que parodiam outros filmes e que pretendem ser sátiras de alguma coisa. Há um aflorar, nunca um aprofundar, do interior das personagens, e a sua solidez esbate-se como barro misturado com água.
JRS escreve para tontos, com personagens tontas – um historiador que vê palhaços no Vaticano e só depois se lembra que são os guardas suíços? Ainda por cima está a fazer trabalho de arqueólogo… e se se lembra de dar um osso ao cão? Mas apesar de ser muito inteligente e ter conhecimentos acima da média estranha quando lhe falam em ADN fóssil… Estranho…
Valentina Ferro é inspectora da Polizia Guidiziaria. Está no local do crime – no interior do Vaticano – com ‘dois guardas suíços, três carabinieri, dois religiosos e mais umas pessoas à paisana’. Não há alguém do Corpo della Gendarmeria, a polícia da Cidade do Vaticano. Estranho…
A inspectora é uma pessoa crente em tudo o que lhe dizem, violando o espírito de polícia que, por norma, ouve para reflectir e mais tarde decidir. Valentina vai acreditando em tudo o que Tomás diz, atrapalha-se com frequência perante a eloquência deste, engasga-se, não questiona nada, fazendo desaparecer a perspectiva científica dum agente da Judiciária. Estranho…
A mesma personagem não se exalta: entra em fúria, o que acontece várias vezes ao longo da narrativa! Se por um lado, vai acreditando em tudo o que ouve, por outro, tem lampejos esquisitos e saídas nada dignas de uma Judite: “Oh, não diga isso” é o melhor que consegue para ripostar sobre uma incongruência da Bíblia. É a personagem palerminha do livro que oscila entre atitudes infantis (perante letras gregas afirma: “Parecem sinais alienígenas, daqueles que vemos desenhados nas naves dos extraterrestres em filmes de ficção científica. Star Treck e coisas do estilo”), caprichosas (“Problemas? Que problemas? Dio mio, lá está você a complicar”), birrentas (“Eu estou calma ouviu?”, quase gritou a italiana. “Não me enervo facilmente! Não sou dessas! Mesmo quando por vezes tenho motivos para me enervar. Como quando escuto certas alarvidades!...“), completamente estúpidas (“Tomás fitou-a com intensidade, para sublinhar o significado das suas palavras. ‘O reino de Deus irá ser instituído já amanhã’. ‘Amanhã?’ Interrogou-se Valentina, verificando no relógio o dia em que estavam”). Estranho…
A memória do académico português (expressão repetida à exaustão até cerca de meio do livro e depois abandonada, para se usar mais uma vez lá para o final) é fabulosa no que se refere aos versículos da Bíblia. O Autor não encontrou outra forma de fazer chegar a informação ao leitor e põe o protagonista, qual evangelista, a citar a Bíblia. Como ele próprio considera isto uma atitude estranha – nem os Jeovás! - tenta dar credibilidade ao facto colocando uma personagem a dizer isso mesmo. Não atinge o objectivo mas consegue abrir buracos na personagem do historiador ‘criptanalista e perito em línguas antigas’.
A minha personagem favorita neste livro lembra Johnny English: Sicarius é o assassino mais trapalhão da história da literatura. Apanha táxis a caminho dos alvos, perde-se, pergunta a quem passa, pára em quiosques e faz mais perguntas, comportamentos completamente anormais para a sua posição secreta e sigilosa. Embora seja descrito como “… um autómato, uma máquina programada para cumprir a sua missão, fosse qual fosse o preço” mas depois contacta com o Mestre (que falta de imaginação no nome!) por telemóvel e este envia-lhe os planos dos assassinatos por e-mail, mas nem lhe deu uma gazua, obrigando o pobre a roubar a chave mestra na sala das empregadas de limpeza! Mas a cereja em cima do bolo atinge-se quando o Mestre lhe dá instruções por telefone, instruções essas que ele anota num bloco de notas que trás no bolso juntamente com uma caneta. O zénite é dividido por dois momentos: um, quando ambos s…o…l…e…t…r…a…m o nome duma Biblioteca a que optam por chamar Library e outro quando o Mestre se exprime ao telefone manifestando alívio através da palavra Ufa... Hilariante!
Convenhamos que uma ‘entidade’ como um Mestre deste gabarito se descredibiliza ao usar um tão vulgar Ufa…
Na página 40 do livro está outra aberração: o Codex Vaticanus fica ao alcance de todos quantos por ali deambulam, põe-se-lhe o dedo em cima para melhor se indicarem as leituras, bebe-se água nas imediações, enfim, é um forrobodó que nos traz de novo Johnny English à memória, numa sucessão de improbabilidades, (para não se lhe chamar impossibilidades) que criam osteoporose na narrativa. Já a leitura do Codex sem acompanhamento é uma fantasia, e a acontecer alguma coisa do género, seria imediatamente retirado por um batalhão de centuriões bibliotecários do Vaticano… antes de chamarem a Polícia, qualquer Polícia que fosse…
Muitas páginas adiante deita-se o protagonista numa cama do hospital Bikur Holim em Jerusalém, onde abre a gaveta da mesinha de cabeceira e tira uma Bíblia de onde lê excertos do Novo Testamento. Num Hospital que observa a dinâmica judaica com todo o rigor – só os não judeus trabalham ao sábado e até o aquecimento das refeições é pré-programado para esse dia sagrado – porque razão teriam Bíblias com o Novo Testamento nas gavetas dos quartos?
Na contra capa, uma afirmação atribuída ao holandês Tros Nieuwsshow, diz: ‘Melhor que Dan Brown’. E quem é este holandês? É um programa de rádio semanal que acorda os ouvintes às 8 e meia da manhã de sábado e, com certeza tem alguém que fala português, uma vez que o livro não está traduzido para holandês. Estratégia de marketing da editora, eu sei, eu sei… todos o fazem.

Quis-se acentuar a questão religiosa e deixou-se um pouco ao acaso a musculatura do enredo, deixando mais buracos que a Estrada da Morte na Bolívia.
Os autores que pretendem fazer divulgação científica, pseudo, o que queiram, devem escrever manuais, artigos que submeterão a revistas da especialidade, entre outros, mas a escrita dum romance implica a assumpção de certos pressupostos que aqui se encontram ausentes.
Por outro lado, e em termos formais, a Editora devia saber que o excesso de aspas para indicar os discursos directos é prejudicial à fluidez da leitura, povoada assim por elementos gráficos absolutamente desnecessários.
Da nota inicial 'Todas as citações de fontes religiosas e todas as informações históricas e científicas incluídas neste romance são verdadeiras' esperava-se uma bibliografia final bem organizada e completa, por dois motivos: primeiro porque o tom afirmativo da nota inicial indiciava que assim seria e, nestes casos, só é verdadeiro o que se prova; em segundo lugar, pela delicadeza do tema, digamos assim, que suscitaria dúvidas e necessidade de credibilidade documental. 
Porém, a nota incial tem eco na nota final que descreve nomes de autores e títulos, sem qualquer referência bibliográfica, e ainda se afirma "Toda a informação relativa ao processo de clonagem (...) encontra-se disponível em toda a literatura científica relacionada com o assunto".
É caso para dizer, Obrigadinha José... havia de ser relacionada com quê?
Edição da Gradiva, 2011

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Os últimos serão os primeiros

Há dias ajudei uma amiga a fazer um trabalho sobre as razões da mudança semestral das horas, em Março e em Outubro. Mais tempo útil diurno, poupança energética, maior uso de energia solar, coisas de somenos importância quando comparadas com a possibilidade de estarmos mais tempo nas esplanadas ao fim do dia.
Andamos ao toque dos relógios atómicos que se escondem em bunkers por essa Europa fora, todos os países os têm, e são eles que dizem a hora certa.
Em finais do século XVIII Benjamin Franklin pôs-se a fazer contastrês vez nove, vinte e sete, noves fora nada… - e deu conta da possibilidade de se pouparem toneladas de cera de vela se se mexessem nos relógios.
Hoje em dia, para além de estar provado que há menos criminalidade durante a hora de Verão, e os dias serem maiores dando mais oportunidades à execução de tarefas como passar a ferro ou varrer a casa, há a questão da Bolsa… abrir e fechar a Bolsa sem ser à hora certa pode dar origem a prejuízos de alguns milhões. Assim, bancos, transportes e empresas várias andam direitos que nem fusos, à espera da badalada que os porá a correr, como tiro de partida.
É tanto assim que a velha e boa Samoa, a querida Samoa, através do seu querido e nada controverso governante Tuilaepa Sa'ilele Malielegaoi, Tutu para os amigos, desistiu do dia 30 de Dezembro para alinhar os negócios com a Austrália e Nova Zelândia. Assim passaram de 29 para 31 de Dezembro, eles que ficam ali ao lado, mas cujo fuso horário os deixou um dia no século passado quando os vizinhos do lado já cantavam as glórias do século actual. Está mal, isto não se faz! Há algum tempo, o mesmo governante decidira passar a conduzir à esquerda para facilitar o aumento da importação de carros e parece que aumentou também a sinistralidade rodoviária, mas isso é outra conversa.
A Samoa faz-me lembrar Santo Aleixo da Restauração, aldeia do Baixo Alentejo, que consta no obelisco da Praça dos Restauradores, em Lisboa, como tendo tido importante participação nas guerras da altura, quando ganhou o apelido ‘da Restauração’.
Reza a lenda que se preparava o padre para dar a bênção num casório quando se anunciam tropas inimigas nos arrabaldes de Santo Aleixo. A sede de concelho, Moura, ficava a mais de duas dezenas de quilómetros, mas era preciso ser avisada da proximidade dos meliantes.
Monta-se a noiva a cavalo e manda-se a Moura com as terríveis notícias; encerram-se as mulheres na igreja e ficam os homens de fora a dar luta aos castelhanos, sabendo que não os venceriam, mas que o atraso provocado seria suficiente para Moura se preparar. E assim foi. Morreram todos ou quase todos na vida real mas ficaram eternamente na História.
Mas Santo Aleixo não faz lembrar a Samoa pelas glórias militares: reza outra lenda que durante anos o mês de Abril trouxe ventos e chuvas tais que deu cabo das colheitas. A coisa foi de tal forma que os habitantes se recusaram até a dizer o nome do mês, enunciando as crianças na escola os meses da seguintes forma: Janeiro, Fevereiro, Março, o mês que não se diz, Maio, e por aí fora.
Há uma outra lenda que diz que a Rowling se inspirou aqui para criar o mito do Voldemort, aquele-cujo-nome-não-se-pode-dizer, mas não se confirmou nada até agora.
Mas o medo de Abril era tal que até se conta uma historieta segundo a qual ia uma família cigana com muitos filhos pela estrada fora e pediram boleia a um homem que viajava num carro de burro. O homem assentiu e todos subiram à excepção dum ciganito que, de tão pequeno, não conseguia erguer-se para entrar no carro. Um dos irmãos incentivou-o dizendo:
- Força Abrilito, força!
O dono do carro ouviu aquilo e quis saber o nome do gaiato. Quando lhe confirmaram que era Abril correu com eles todos do carro!
Abril voltou a entrar no vocabulário de Santo Aleixo com o 25 de Abril… com tanto mês, logo tiveram que escolher aquele mas, por outro lado, acabou com o estigma de os habitantes serem conhecidos como tendo um mês de atraso, coisa com que eram atormentados por todas as terras ali ao redor, que não perdiam oportunidades de o lembrar.
Assim, se Santo Aleixo viveu durante anos com um mês de atraso porque não pode a Samoa passar a viver com um dia adiantado? Além disso o novo fuso horário não foi escolhido numa base de ita nuita, ita noá, quem está livre, livre está e sim devido ao fomento de relações comerciais com vizinhos que não eram parceiros por incompatibilidade de calendário. Ali sim, via-se o dia de amanhã quando os samoanos olhavam na direcção da Austrália e os australianos miravam o passado quando visitavam a Samoa. Mais ainda, conseguiram um feito notável, eles que eram os últimos a passar de ano, agora inverteram a coisa!
É ou não verdade que os últimos serão os primeiros?

Mercados paralelos

Diz-se que em alturas de crise as pessoas se dividem em dois grupos: os que choram e os que aproveitam para vender lenços. Diz-se também que a letra chinesa que designa crise também mostra a oportunidade. Diz-se muita coisa… mas o certo é que já se vendem legumes porta a porta.
Os tradicionais pontos de venda nas estradas, de fruta, batata e outros comestíveis, aumentam agora: aumentam os pontos de venda e os clientes. Aumentam os roubos a mercearias – dois na semana do Ano Novo na mercearia onde costumo ir – aumentam os roubos legais com a subida dos preços.
Um dos produtos que consumo diariamente é café. Como também tenho as minhas manias gosto de o beber em sítios que me dizem alguma coisa: no metro porque têm um quadro com motivos relativos à apanha do café que gosto de ver enquanto o saboreio; no Marquês porque a funcionária é muito simpática; na Florença porque têm sempre o rádio ligado com música antiga.
Mas agora as coisas mudam… porque há locais que mantêm o cafezinho a 50 cêntimos, enquanto outros o aumentam para 65? Será que os que o vendem a 50 estão a perder dinheiro? Não me parece, logo, são os outros que são garganeiros e assim sendo vou apurar de simpatias e pinturas para outros locais, que os há por aí.
Mais, acho que acabaram os dias de inutilidade da máquina krups que tenho em casa: vou trazê-la e comprar cápsulas que venderei a preços razoáveis com copo de plástico incluído. O bar está aberto!

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Calendário

Fechei o calendário de 2011. Era de secretária, triangular, com belas imagens do Brasil, oferecido por amiga brasileira e que me acompanhou um ano inteiro, dizendo-me a que dia calhava 16 do mês que vem, quantos sábados tinha o próximo mês ou qualquer outra informação de datas. Também me ajudou a passar momentos lentos, fazendo-me sonhar com paisagens e imagens, como a de Junho, com o Museu de Arte Contemporânea de Niterói, aparentado com uma bela nave espacial.
Na cozinha lá em casa tinha um chinês e que me encantava pela grafia dos caracteres que são à confiança, ou seja, acreditamos que diz Janeiro, mas também pode dizer outra coisa qualquer pois não os sabemos ler.
Há calendários que são obras de arte – como os da Michelin, diriam muitas vozes – os da Coca-Cola de há umas duas décadas, que esperávamos ansiosos que aparecessem na parede do café do Sr. Paixão.
Abre-se agora o novo calendário e ouço a voz do meu pai, com décadas, a martelar no mesmo: o mundo acaba em 2012, mais concretamente a 12 de Dezembro!
- Como é que o pai sabe?
- Disseram os Maias!
Ouvido isto voa-me a imaginação directamente para o Eusebiozinho, que se vestiu de anjo e acabou desasado com as penas a fugirem enquanto se escondia num reposteiro.
- Mas eu li os Maias e não me lembro de falarem em 2012…
- Não são esses Maias, são os da América do Sul…
- Ah…
Assim esclarecida, e passados anos penso que deve haver poucos objectos tão ecléticos no que diz respeito a imagens, com paisagens, crianças, animais, logótipos de empresas, mas fico sempre na dúvida sobre o que levará a palma de ouro: os motivos religiosos ou um belo par de mamas? Decido-me pelas mamas, por serem universais como é óbvio!
Porém, face ao fim do mundo iminente vou arranjar um calendário com Nossa Senhora de Fátima!

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Trabalhos de grupo

Os meus desenhos são lendários. Normalmente as pessoas associam-nos àquele dia em que fizeram xixi pelas pernas abaixo de tanto se rirem. Dizem que filho de peixe sabe nadar e assim é: consta que a minha mãe foi elogiada numa ocasião pela sua professora primária pela árvore que desenhara. A senhora professora franziu os sobrolhos quando soube que não era uma árvore e sim uma cafeteira.
aqui falei da minha total incapacidade em produzir um simples risco e do que aconteceu na escola Visconde de Juromenha quando fui obrigada a fazer parte dum grupo, e consegui, não fazendo rigorosamente nada, que o prémio de melhor trabalho fosse dado ao meu grupo. Puro golpe de sorte que me ajudou a não ser ostracizada para todo o sempre pela escola inteira, e ainda saí da sala quase em ombros, qual toureiro em Las Ventas.
Já na Secundária de Santa Maria, em Sintra, um certo trabalho de grupo de três pessoas, teve participação efectiva de duas e a terceira ficou muito admirada quando apareceu no dia da apresentação oral do trabalho e constatou que o seu nome não constava. A fúria deu-lhe para fazer queixa de nós ao professor, alegando injustiça! Quando nos perguntaram porque tínhamos feito aquilo, respondi com outra pergunta dirigida ao elemento faltoso:
- Que parte do trabalho é que fizeste?
Não havendo resposta, o caso ficou por ali e eu livrei-me dos monos da turma que deixaram de querer fazer trabalhos comigo, segundo eles por eu ter mau feitio…
No primeiro ano da faculdade fomos organizados em grupos de dois e calhou-me um rapaz que nunca vira e com quem nunca tinha trocado uma palavra. Como mantivemos a distância e o silêncio, apresentei o trabalho só com o meu nome. Ainda o guardo pois a nota foi magistral: PÉSSIMO, em maiúsculas, não fosse eu baralhar-me na leitura. Contudo, o professor mencionou a coragem de ter enxotado o parasita e ter enfrentado a coisa a solo.
Sempre que podia fazia trabalhos sozinha, atitude que se alargou aos estudos posteriores. Adoptei uma táctica que consistia em escolher a primeira data de apresentação dos trabalhos, sabendo eu que todos queriam a última; conclusão, poucos queriam trabalhar comigo.
Agora ouço uma amiga queixar-se que anda a fazer trabalhos de grupo… sozinha. Dou-lhe na cabeça, é claro, e incentivo-a a inscrever apenas o seu nome.
Os aproveitamentos surgem porque há duas espécies de pessoas: os aproveitadores e os aproveitados… Está muito mais na mão destes o fim destes relacionamentos desequilibrados e injustos, do que dos primeiros que, tenho a certeza, por si só nunca desaparecerão.

O que faz uma pessoa deixar-se injustiçar numa situação como esta? O que tem em dívida para com o outro, para o deixar colocar-se no pedestal do lucro fácil sem o denunciar através da omissão do seu nome? Que medo é este? O que é necessário para se passar do trabalho de grupo para o trabalho em equipa?Um grupo não é sinónimo de equipa. Uma equipa trabalha conjuntamente, cada um com uma missão, por mais pequena que seja, para se atingir o bem comum. Nos grupos há quem trabalhe para o bem dos outros e os outros nem se dignam agradecer.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Raro, raro, raríssimo…

De passeio pelo matagal que é a bloga visito amigos e desconhecidos. Encontro coisas que devem ser realçadas, atitudes raras, muito raras. Não me surpreendo porque conheço a pessoa em questão e sei que não são palavras vãs: ter trabalho é ganhar o euromilhões. É verdade.
Por outro lado, a  revolta contra comportamentos vizinhos, diários, tão próximos que são quase nossos, salve seja!, que nos puxam como um íman, querendo que também nós façamos parte de clubes de facilitismos, de deixa andares, de descomprometimento, de falta de empenho, e muitos eteceteras.
Estes comportamentos, mais do que tristes, são irresponsáveis e devem ser apontados a dedo! Não são só da classe professoral, antes pelo contrário, escavemos e encontramo-los nas raízes das vivências de quase todos os que conhecemos.
E depois… depois chega a ser cómico ouvir falar de cansaços e de actividades extenuantes.
Felizmente há quem não se canse e Sorria Sempre.

Trigo limpo, farinha Amparo!

Ontem à noite fui às compras e depois de as arrumar deliciei-me – há gente para tudo – a arranjar o peixe. Se eu trabalhasse num supermercado seria na peixaria e atenderia os clientes que querem o peixe amanhado…
A meio de escamar um pargo ouço a voz da Madalena Iglésias na rádio a dizer que sabia quem ele era, era um bom rapaz, um pouco tímido e tal e comecei a acompanhá-la prestando, pela primeira acho eu, atenção à letra. De mangas arregaçadas, faca numa mão e rabo do pargo na outra, conclui que o amor já não é o que era: um homem que chora se ela não vem? Objecto de Museu! Se ela não vem, ele arranja outra!

Sei quem ele é
Ele é bom rapaz
Um pouco tímido até
Vivia no sonho de encontrar o amor
Pois seu coração pedia mais,
Mais calor
Ela apareceu
E a beleza dela
Desde logo o prendeu
Gostam um do outro e agora ele diz
Que alcançou na vida o maior bem,
É feliz.
Só pensa nela
A toda a hora
Sonha com ela
P´la noite fora
Chora por ela
Se ela não vem
Só fala nela
Cada momento
Vive com ela
No pensamento
Ele sem ela
Não é ninguém

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

O assalto

Se há coisa que as férias ainda não aprenderam foi a caminhar, sempre a galope, qual cavalo selvagem. Aquelas não eram excepção. Mesmo assim, corriam mais lentas que nos dias de hoje pois ainda não existiam telemóveis.
A casita alugada não tinha telefone fixo, pois claro, e tomávamos lugar na fila para a cabina na praça central e fazíamos o dever do telefonema à família. A conversa era sempre a mesma, Que sim, que estava tudo bem, a praia estava óptima e do outro lado anunciavam-se saudades, como se estivéssemos emigrados nas Franças e não víssemos a família há meses.
Um dia disse ao meu marido que fossemos a meio da tarde fazer o telefonema da ordem para evitarmos a fila nocturna e os sucessivos telefonemas para a Alemanha, Dinamarca, Espanha e todos os países de origem dos turistas que chegavam primeiro que nós ao telefone.
Se mais cedo tivéssemos ido mais cedo regressaríamos a Lisboa: do outro lado, a voz da minha mãe mostrou-se ansiosa com um ainda bem que telefonaram, e cautelosa lá nos disse que a nossa casa fora assaltada. Aparentemente não faltava nada, mas só nós é que podíamos ter essa certeza. A polícia esperava pela informação, a Judiciária, precisou ela. A Judiciária? Desde quando é que tomavam conta de assaltos? Que estranho…
Tarecos no Fiat Uno, estrada acima, muito curiosos e expectantes com o que faltaria pois, de certeza, os ladrões deviam ter levado qualquer coisa, mas o quê?
Nessa altura morávamos naquela que ficou para a história como a Casa Azul: uma vivenda pintada com um azul piscina tão fascinante que numa ocasião em que fui de táxi para casa e dei a referência ao taxista, o cruzamento que ficava diante da casa, ele disse saber onde era, ficava mesmo ao pé daquela casa azul, horrível. Pelo caminho ainda dissertou sobre o que levaria as pessoas a escolher cores como aquela, e pensei o que me responderia ele se lhe desse o número de telefone do meu sogro para que perguntasse…
A Casa Azul era enorme: nós morávamos no rés-do-chão e os meus sogros e cunhada no andar de cima. Tinha um enorme quintal nas traseiras e uma garagem onde cabiam quatro carros. Na frente, o metro quadrado de terra com umas tímidas plantas tinha o nome pomposo de Jardim.
Quando chegámos já o vidro da janela por onde os meliantes entraram estava substituído, tarefa a que o meu sogro se entregou na manhã seguinte ao assalto.
Os assaltantes eram três, pularam o muro, dirigiram-se às traseiras, partiram o estore e o vidro e entraram em casa. Primeira tarefa: abrir as janelas todas, à excepção de uma que dava para a vivenda do lado esquerdo, um lar de idosos. Todas as outras, num total de seis janelas, foram escancaradas. Mesmo as que davam para o lado oposto ao lar, outra casa com características semelhantes, mas desabitada pois estava a sofrer obras profundas.
Como é que o meu sogro sabia que eram três? Alguém os viu?
Acontece que a casa do lado estava desabitada, de facto, mas não a garagem… Então o que aconteceu?
Os nossos vizinhos estavam não só a remodelar a mansão, mas também a fazer a bela da piscina. O quintal, não, eles tinham jardim, quintal tínhamos nós, o jardim estava cheio de máquinas e o homem lá achou por bem contratar alguém para ficar de olho nelas. Esse olheiro dormia na garagem, coisa que ninguém sabia.
Naquela noite acordou com vidros a partirem-se e foi espreitar sorrateiro. Viu logo os nossos belos cortinados da sala a quererem fugir com o vento pela janela de vidros em cacos e percebeu que a casa estava a ser assaltada. Viu as outras janelas a serem abertas, enquanto se manteve em silêncio. Ficou a pensar que tinha que fazer alguma coisa, mas o quê? E se o tipo fosse violento? Não pensou em usar o telemóvel pois, como já se viu, ainda não tinham sido inventados… pensou, pensou, pensou, até que teve uma ideia, e boa, diga-se de passagem. Se ele não via o ladrão, ou ladrões, era muito provável que eles também não o vissem. Foi buscar as chaves do seu próprio carro, arriscou-se a sair da garagem, encostou-se ao muro comum às duas casas e avançou agachado rente ao muro até ao portão, que abriu com mil cuidados. Chegou ao carro e começou a abaná-lo com força. Foram precisas três abanadelas para o alarme começar a tocar.
Deixou-se ficar escondido pelo carro e foi aí que viu três homens vestidos de negro da cabeça aos pés a saírem por três janelas diferentes. Dois deles lavavam coisas nas mãos. Fugiram a pé. O homem meteu-se no carro e foi avisar a polícia. Estavam os meus sogros a entrar com o carro na garagem quando chegaram os agentes acompanhados do homem. Ainda nem tinham dado conta do que acontecera.
Lá entraram todos, o homem a penalizar-se pelo medo e pela idade que o impediram de correr atrás deles.
O pé de cabra com que entraram ficou na sala. Começou aí a sucessão de coisas estranhas que fez com que chamassem a Judiciária: os candeeiros da sala eram aquilo a que se chama plafonds, e estavam cuidadosamente colocados nos sofás.
Em cima da mesa do escritório estavam lado a lado, com minúcia de distância entre eles: livros de cheques, uma caixa com fios e brincos de ouro e aquelas pulseiras de Lembrança da Madrinha que ambos guardávamos, entre outras quinquilharias e um pote cheio de moedas que eu guardava como mealheiro. Não faltava nada. Duas das caixas dos estores estavam abertas, mostrando toneladas de pó e cotão. 
A casa de banho tinha o autoclismo dentro da parede, mas ainda tinham retirado a maçaneta do dito, mostrando o buraco na parede. Mas a coisa mais esquisita eram as fotografias de casamentos e baptizados, por assim dizer, espalhadas no chão do escritório e os álbuns fotográficos em cima das cadeiras. Que raio era aquilo?
Lá demos volta à casa e vi que faltavam algumas das minhas malas, das que costumava usar no Inverno, assim como as que costumava usar em casamentos e baptizados, e que estavam guardadas dentro dum armário, nada mais. As malas que usava no Verão, penduradas num cabide à entrada da porta, estavam todas no seu lugar.
Enquanto deixávamos a estranheza tomar cada vez mais conta de nós e nos perguntávamos repetidamente, mas que raio…?, lá fomos à polícia dar conta das malas roubadas e o que eles tinham para nos dizer parecia um filme: aparentemente tinha havido um engano e os ladrões assaltaram a casa errada.
Quiseram saber se tínhamos alguma jóia especial. Se a pergunta tivesse sido colocada aos meus pais, tenho a certeza que a resposta do meu pai seria que a única jóia da vida dele era a minha mãe. Nós respondemos ambos que não. Então explicaram-nos que tudo indicava que os assaltantes procuravam uma determinada jóia, uma peça valiosa daquelas que não se guarda no guarda-jóias, mas antes se esconde bem escondida, por exemplo nos apliques dos candeeiros, nos autoclismos ou em qualquer outro local de difícil acesso, mas que podem ser inúmeros pois, por norma, estamos a falar de coisas pequenas, um anel, um pregador ou algo do género.
A coisa tinha sido estudada pelos profissionais do roubo: sabiam que estávamos de férias; sabiam a que horas chegavam os meus sogros; sabiam que a casa da esquerda estava habitada – o lar – por isso não abriram a janela desse lado; abriram todas as outras janelas para poderem ter pontos de fuga imediatos em caso de necessidade; apenas não sabiam que dormia alguém na garagem do lado…
As gavetas não estavam reviradas pois o tipo de coisa que procuravam não se esconde em gavetas; levaram as malas pois não tendo encontrado o que procuravam, era provável que estivesse guardado numa delas, principalmente em duas com características de serem usadas apenas em dias especiais.
As fotografias espalhadas no chão do escritório ajudavam à tese: em que ocasiões se usam jóias? Nas festas. Não tendo encontrado o que procuravam, deram uma vista de olhos nas fotografias procurando ver a dita jóia. A meio de todas estas tarefas o homem que guardava a maquinaria da casa do lado pô-los em fuga.
Semanas mais tarde telefonaram-me da escola de línguas onde andava a ter aulas de alemão: alguém os contactara dizendo ter encontrado umas malas numa pedreira a poucos quilómetros da zona onde morava. Dentro duma delas estava o cartão da escola com o meu nome. O senhor que as encontrara deixara o seu telefone para que eu lhe ligasse. Assim fiz e encontrei-me com o homem que disse andar a passear o cão quando deu com as malas. Estranhou estarem todas em bom estado e serem várias. Vasculho-as e encontrou aquele contacto. Foi assim que recuperei a única coisa que os ladrões levaram.
Quando o meu filho era pequeno contei-lhe a história do assalto. A parte melhor da narrativa foi a observação dele:
- Então eles não chegaram a encontrar a jóia! Onde é que vocês a tinham escondida? Mostra-ma!

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

A margem de Churchill

Ouvi falar da edição da Texto de Memórias da II Guerra Mundial, de Churchill. Vou comprar, pensei.
Chegou hoje um exemplar à Biblioteca, que abri cobiçosa. A primeira impressão, aberto o livro ao acaso, foi de faltar ali qualquer coisa… num segundo relance, percebi o que era: o livro não tem margens! A escassa meia dúzia de milímetros foi opção? Financeira? Estética não foi com certeza… Nem um centímetro de margem? Nem um??
O livro é obra para interessados que pagariam o excesso de certeza; no meu caso, a compra vai ser declinada.
A opção da gramagem do papel é aceitável face às 1071 páginas do livro, mas as margens? Ao segurarmos o livro temos sempre várias impressões digitais em cima da mancha gráfica que enche a página e faz o livro parecer os antigos acetatos, escritos de cima abaixo, sem qualquer noção de espaço, de comunicação, de apresentação, ou aquelas fotocópias mal tiradas em que as linhas de baixo são comidas pela fotocopiadora ou, em linguagem honesta, pela falta de jeito de quem tira fotocópias.
As margens nos livros servem para muito mais que centrar as letras, por exemplo, para não dar a sensação, na leitura, que caímos da página abaixo, que se transforma numa quase dúvida: faltará ali texto? Isto para não falar das imprescindíveis anotações.
Por outro lado, Denis Kelly, aparece na Nota (de introdução) como tendo feito o resumo de várias obras de Churchill, que deram origem ao presente volume. É pois o Editor Literário. O facto de não se mencionar na ficha técnica é esquecer o trabalho importantíssimo desta figura.
Denis Kelly foi assistente literário de Churchill nas suas memórias de guerra e antes tinha integrado a equipa do político como arquivista.
Surpreende-me o facto de não constar como co-autor deste livro em concreto, ou Editor Literário, aquela personagem que escolhe, que selecciona, que sugere, que decide o que eu, leitora, vou ler.
As palavras do maior líder da guerra, o resumo de The Second World War, no original, fica assim deficiente no parentesco e na metragem do enquadramento do texto. Até Churchill daria mais margem ao inimigo.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Os meus estragos

Depois de avariar um estore, um microondas, meia dúzia de biberões e um esterilizador na casa da minha irmã, abalancei-me para um curto-circuito na minha própria casa, seguido duma avaria da panela eléctrica! Estou em grande!
Claro que vizinhos, família e amigos andam com pavor da minha pessoa e só falta acenderem e apagarem as luzes à minha passagem para me poupar a esse incómodo
Nunca fui de partir pratos ou copos, de encalhar teimosamente nos móveis como a minha prima N., ou de avariar coisas, mas parece que estou a mudar.
Aguardo que a minha pele se esverdeie, qual Hulk, ou talvez seja melhor como a Fiona, e quando chego a casa descalço-me e conto os dedos dos pés que, por ora, ainda não se tornaram como os da Dama de Herculano, mas é só esperar…
Será azar? Temo vir a ser o bode expiatório do concelho caso se verifiquem apagões, inundações ou vendavais, engarrafamentos, quedas de granizo ou nevões.
Ando mais devagar, verifico as ligações antes de carregar nos botões e, embora não sendo fatalista, mas estou à espera da próxima, que será dada nas notícias com a abertura do costume, notícia de última hora, onde se contará a história duma mulher que, de repente, deu em versão moderna de Midas, mas ao contrário: tudo o que toca transforma em despesa…

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Honestidade

Vou com O Complexo de Portnay nas mãos e nos olhos, alheia aos senta e levanta do metro, aos desculpe que se seguem aos empurrões. Vou alheia mas sei que existem.
Às tantas entra uma mãe com duas crianças e duas pessoas levantam-se, uma dá lugar à mãe com um bebé ao colo e a outra dá lugar ao garoto, quatro ou cinco anos de esperteza concentrada.
Porém, os lugares não são lado a lado. A mãe, do lado de lá de rabos encasacados, atira ao miúdo:
- Então, o que é que se diz?
Quando se pensava que o garoto levantasse a cara e agradecesse à senhora que se levantara para lhe dar o lugar, ele vira-se para a mulher sorridente a seu lado e diz:
- Podes levantar-te para a minha mãe se sentar ao pé de mim?
O brilho da resposta mostra uma honestidade que tende a perder-se com a idade. Uma pena.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Os meus sobrinhos, a Islândia e a Ética

Regressei. Em termos profissionais estive de férias. Na verdade estive a trabalhar, assumindo o meu papel de Pato Donald, tomando conta dos meus sobrinhos, que ai vão três.
Neste curto espaço de tempo consegui dar cabo do microondas, queimar os biberões (que plural tão feio…), estragar o estore da sala e, parecendo não ficar contente, cheguei a casa e provoquei um curto-circuito, razão pela qual tenho os candeeiros de pé alto da sala espalhados pela cozinha e casa de banho.
Foi uma semana desastrosa, nesse aspecto. Felizmente outros houve em que as coisas correram muito bem: o caminho até Évora de mão dada com a minha esguia sobrinha; os jogos de pólo aquático do meu sobrinho; os mimos no sofá da sala; mas acima de tudo, os risos e as gargalhadas. O mais novo ainda não se manifesta mas não é por falta de incentivo nosso, é simplesmente por ainda nem ter um mês.
As dinâmicas nas terras de interior são completamente diferentes das da cidade e eu que faço o meu filho com 17 anos andar acompanhado, vejo que em Coruche qualquer vizinho trará os gaiatos da escola e com um telefonema arranjam-se várias soluções para colmatar qualquer falha de horários: a avó de um amigo leva-os, o pai de outro trá-los, uma mãe leva-os à natação, alguém os leva a casa depois dos escuteiros. Para além disto, um café e um pastel de nata custam 75 cêntimos… setenta e cinco cêntimos, café e pastel, os dois juntos!
Com tamanha crise ando a pensar emigrar e pedi ajuda ao meu sobrinho que abriu um determinado livro com uma breve descrição de todos os países para escolhermos um. Não podia ser muito longe, mas tinha que nos dar boas perspectivas de vida. Escolhemos a Islândia. No dia seguinte, como nos filmes onde os sonhos se realizam enquanto dormimos, acordámos na Islândia! Percebemos isso quando saímos de casa em direcção à natação, eu encasacada como se a piscina ficasse num glaciar. Os outros adultos, embora habituados, mas vestidos de bonecos de neve e os miúdos, que nunca se queixam, a correrem com cachecóis pendurados. Combinámos riscar a Islândia e escolher outro sítio, não que eu não aguente aqueles gelos, mas como sou uma rapariga elegante, os casacos em cima de casacos fazem de mim um fardo de palha daqueles redondos e se calhar a cair dou em rebolar e só me apanham a meio do Atlântico Norte…
Além disso intensificámos a nossa pesquisa e descobrimos que foi em 1939 que se registou a mais alta temperatura do ar – 30,5º - o que nos deu logo vontade de rir, mais ainda quando lemos que os invernos são amenos! Achávamos nós que sabíamos o que quer dizer ‘ameno’…
Posta de lado a Islândia não chegámos a qualquer outra conclusão embora o meu sobrinho me tenha dado outra sugestão: Coruche…
Geografias à parte, sexta-feira fui dar uma conferência sobre ‘Ética na Gestão’ e o meu sobrinho acompanhou-me. Éramos duas pessoas e eu fui a segunda a intervir. Enquanto a primeira falou o gaiato sentado ao meu lado apanhou-lhe os tiques de linguagem e expressão corporal e tive que o mandar calar duas vezes, no meio de risos contidos, tal era a precisão das suas observações sussurradas ao meu ouvido. No final disse-lhe que tinha sido pouco ético da sua parte fazer aquilo e ele disse-me que talvez, mas que tinha sido muito divertido…

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

O Último Bandeirante

Gosto muito de romance histórico, e este tem a particularidade de ter uma boa construção de personagens, elemento essencial para qualquer narrativa, mas ainda mais neste tipo de literatura onde, com frequência, há autores que se abrigam nas descrições da época fragilizando as personagens, conferindo-lhes um estatuto de fantasma, tal a fragilidade com que nos aparecem.
Não me canso de elogiar um livro que me convença através deste aspecto: quando lemos e ‘reconhecemos’ as acções ou os pensamentos, é como se conhecêssemos aquela pessoa. Isto é trabalho do Autor, enquanto pai, escultor que não despreza mínimos detalhes que ajudam a fazer o puzzle das personagens.
Por outro lado, o Autor não toma posição a favor de bandeirantes ou missionários: dá-nos a dimensão dos factos históricos, riquíssimos, como quem mostra uma fotografia. Dá-nos a informação mas sem opiniões, sem julgamentos, nem o poderia fazer sem insultar a História.
Nunca escrevi nada que roçasse sequer o romance histórico mas até acredito haver uma certa tentação para, no mínimo, se usarem adjectivos que acusem o nosso ponto de vista, palavras traiçoeiras que façam os outros perceber que concordamos com isto mas não com aquilo ou, pior ainda, muito pior, quando se analisam as situações e se fazem reflexões à luz dos nossos dias, em total disparate.
‘O Último Bandeirante’ não tem disparates, antes pelo contrário: narra o que aconteceu, como cronista, usando a imaginação mas sem desmerecer na História, sem a querer alterar.
Introduz-nos o mundo meio conquistado meio por conquistar do imenso continente sul-americano, com descrições da selva e das Missões, dos escravos, da dinâmica das bandeiras e lembra-nos a maior bandeira de sempre, uma epopeia de cerca de 12 mil quilómetros no meio dum inferno, mas realizada, empreendida por muitos e concluída apenas por meia dúzia, por um punhado de gente que regressou obrigatoriamente diferente, como o Autor nos dá conta.
A descrição do assalto à Missão chega a ser bela, por incrível que pareça, apesar dos horrores enunciados, por verídica nos parecer.
‘O Último Bandeirante’ é um livro extremamente visual: das paisagens, dos índios, dos rios, dos mapas, mas também das personagens, da História, do passado, um passado que se fez presente e que está presente nos nomes das províncias, dos cursos de água, dos animais ou das frutas.

Confesso que sou desconfiada de jornalistas-escritores: a minha primeira impressão vai para um interesse comercial das Editoras em publicarem ‘famosos’, o que se espera vir a ser uma mais-valia nas vendas. É o fenómeno, ‘figura pública mediática ou mediatizada por qualquer razão que nada contribui para a tornar escritora, mas que mesmo assim atiça a curiosidade do público e isso chega’. Neste contexto, o jogador de futebol, leva a palma de ouro.
Por outro lado, custa-me a interiorizar, custa-me muito…, que certos jornalistas tenham escrito certas coisas e é com imensa facilidade que a minha imaginação vê outros a escreverem por eles, mas a minha imaginação é muito fantasiosa… Desta vez não foi o caso.
O livro é do jornalista Pedro Pinto, editado pela Esfera dos Livros, tem badanas, e na capa mostra uma imagem do quadro A primeira missa no Brasil, de Victor Meirelles.