segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Um must da praia 4

As marés são fenómenos que até passam despercebidos se nos instalarmos lá no princípio do areal. Mas quando esticamos a toalha e ficamos com as unhas a baterem na água a história é outra. Ora se complicarmos a equação e lhe juntarmos uma raiz quadrada de ondas o resultado é = a toalha encharcada, saco com carteira e outros pertences lavado com água do mar, chinelos a boiarem na espuma e nós com cara de parvos.
Foi o que me aconteceu ontem.
O protagonista de Nothing Hill tinha uns óculos de mergulho graduados e já me lembrei de arranjar uns para mim, pois assim evitava certas cenas. Como não vou à água de óculos, deixo sempre a toalha o mais perto possível para me poder orientar quando emerjo a imitar a Ursula Andress ou, se tivermos em conta o meu bronzeado, talvez mais a Halle Berry. Se eu me tivesse lembrado que qualquer uma delas não usa toalha não teria deixado a minha ser arrastada pelas ondas, nem obrigado a mãe de família, minha vizinha e colega de trabalho naquela ocupação maquinal que é estar deitada na areia, levantar, mergulhar, voltar, deitar na areia, and so one, and so one, levantar-se e resgatar a minha tralha mais para cima enquanto eu estava de mergulho, cega, sem prótese ocular, ignorante da movimentação que se dinamizava a apenas meia dúzia de metros de mim.
Quando saí da água avistei o azul forte do saco e achei a distância entre mim e ele muito grande, garantidamente, alguns dez passos! Lá agradeci as andanças da senhora e senti a risota que eu própria dedico a todos quantos são alvo das brincadeiras das ondas quando a maré sobe. Agarrei na toalha, lavei-a para me livrar daquela areia e escorri o melhor que consegui aquela autêntica tenda de campanha, daquelas familiares. Lá a estendi novamente e assim fiquei o resto do tempo que permaneci na praia, até que ao fim da tarde a esgueirei para dentro da máquina de lavar, numa espécie de lavagem ao estômago, de onde saiu sem vestígios da tentativa de afogamento dessa tarde.
A subida da maré de forma repentina mais extraordinária que ganho memória aconteceu em S. João do Estoril e teve como protagonistas uns primos da minha mãe que encontrámos por acaso.
Armados em finos, dividiam o tempo entre a barraca na areia e umas espreguiçadeiras no paredão onde iam bebendo umas imperiais. Foi precisamente aí que os avistámos e foi precisamente nesse momento que o meu pai torceu o nariz, as sobrancelhas, a boca e todo o rosto. Os primos eram muito p’ra frente e ela ostentava um biquíni minúsculo que fazia as vezes de íman e puxava os olhares para cima do seu bronzeado. Como se isso não bastasse ele usava uma tanga tigresa que serviria de fio dental a qualquer homem com uma constituição normal, mas a ele tapava-o um pouco mais pois para além do esqueleto tinha um ou outro músculo, nada mais. Isto era na altura em que os homens usavam cabelo comprido e saltos altos, diga-se de passagem, e o primo era um metrosexual dos anos setenta, cujos modelos fashion não agradavam ao meu pai, cuja bigodaça se torcia com aquelas modernices.
O espectáculo dava espectáculo no paredão e o meu pai interiorizou logo duas ou três imprecauções, que nunca em tempo algum lhas ouvimos verbalizar mas mesmo que nunca as pensasse aquele momento propiciava que começasse com essa prática, pensando que, com tanta gente por ali, logo havíamos de ser nós a encontrar gente conhecida e, com tanta gente que conhecíamos, logo haviam de ser aqueles e, com tanta estação que o ano tem, parece que não mas ainda são quatro, e o leque de escolha de roupa é tão grande, logo havia de ser no Verão e logo havia de ser naquela figurinha.
Os primos fizeram uma festa quando nos viram, logo se acharam outras espreguiçadeiras e mais uma ou outra cadeira e mais beijos e palmadas nas costas e o meu pai a falar devagar, tentando conjugar a resposta certa à pergunta que lhe era colocada, com o pensamento permanente no arrependimento de ali termos ido. Mas tínhamos ido e eles podiam estar quase nus mas eram vigorosos na expectativa que ficássemos, ele logo a pedir mais imperiais e, bem, sentados, sempre se viam menos, pelo que acabámos por nos sentar.
Eu também tinha ficado impressionada com o quadro mas a água exercia em mim um chamamento mais forte e em minutos estava a dar valentes mergulhos em ondas de paixão. As ondas eram mesmo apaixonadas e foram crescendo, crescendo, crescendo até que uma delas desabou na praia até ao paredão. Foi o caos: barracas e tendas e roupa e chapéus-de-sol e crianças e sapatos e toalhas e tudo quanto se imagine estar numa praia num domingo de Verão, por volta das três ou quatro da tarde. Escusado será dizer que a barraca dos primos não foi poupada e a roupa desapareceu. Em segundos a esplanada do paredão ficou vazia com todos os ocupantes a correrem para a areia a fim de procurarem os seus bens e pertences, mas que é feito deles? Duas horas depois ainda não se tinham achado as coisas dos primos e lá andava ele de rabo de tigre alçado e cigarro na mão a procurar a carteira, a prima a escavar perto da barraca, nós a ajudarmos, os meus pais aliviados por não terem chegado à areia, logo, a arrastarem um saco originalmente seco no meio daquilo tudo.
Havia gente em lágrimas, magros e gordos despidos e aflitos em sintonia, de dentro de água homens, mulheres e crianças apanhavam calçado, roupa e os mais diversos objectos. Apesar do calor e da reposição da normalidade do mar, as pessoas começaram a abandonar a praia com desalento. A carteira dos primos não aparecia. O meu pai dava voltas ao areal como se disso dependesse a vida de alguém pois o primo já tinha dito que, não tendo chaves do carro, teríamos que ser nós a levá-los e percebemos logo que o meu pai não estava com grande vontade de dar boleia a uma réplica cómica do Tarzan, uma miniatura, um esboço do Johnny Weissmuller. Em tudo.
Os banheiros, na altura não havia nadadores salva-vidas, eram mesmo banheiros, iam amontoando o que encontravam no meio da areia e o que era resgatado de dentro de água e as pessoas dirigiam-se ao monte de destroços em busca do que fosse seu, numa altura em que não se tinha grande receio que alguém levasse o que não lhe pertencia e a honestidade ainda existia. Conclusão, a prima lá encontrou o saco no meio do monte bagunçado de areia molhada, onde estava a carteira e as chaves do carro. Da roupa não se tiveram notícias, mas como tinham ido para a esplanada com as toalhas, saíram da praia dignamente enrolados nelas, o que não era mau em comparação com outros que não tinham nada, ou com o cómico-ridículo de outros ainda só com um chinelo por exemplo.
E é assim que sempre que as ondas molham a ponta duma toalha eu me lembro daquela célebre tarde em S. João, quando os primos foram privados da roupa, numa espécie de castigo ou vingança do destino por andarem tão parcamente vestidos na praia. Se foi castigo não sei, mas hoje a moda tem outras regras, e encontra-se gente mais vestida na praia que na rua.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Ressonar e ranger os dentes

Uma grande Amiga reformou-se. Contou-me por telefone e não viu a minha cara de idiota a receber a notícia. Para mim ela é o antípoda da reforma e, se bem que mereça como ninguém o novo estado, senti um peso nas costas, como se os anos andassem a brincar comigo e, de repente, me saltassem em cima dos ombros, num mero jogo infantil, já te apanhei!
Bem sei que ela não vai ficar parada, embora esteja a descansar e a usufruir do sossego, enquanto vai pondo pomadas para tapar certas facadas que lhe deram nos últimos tempos, profissionalmente falando.
- Deita isso tudo para trás das costas! – Sou eu a dizer-lhe ciente de que não vale a pena gastarmos tempo com certas coisas. Principalmente agora.
Sentada num banco verde no pátio setecentista, de repente, sinto-me acabrunhada sem perceber bem porquê.
Desligo o telefone e agarro em Paixão em Florença de Somerset Maugham, mas não vejo Florença. A bela cidade da qual guardo memórias avermelhadas, seja dos telhados, seja dos entardeceres, nem se aproxima de mim.
Penso na minha amiga e em como gostava de ir a Florença com ela e fazer uma série de coisas que nunca fiz, quando sou assaltada por um pensamento horrível: penso nela como se ela tivesse morrido e reflicto que o que senti momentos antes foi a aproximação do mesmo estado mas para a minha pessoa. Afasto a estupidez do pensamento, zangada comigo própria.
Conheci a M. quando ambas nos inscrevemos na especialização em ciências documentais nos idos do século passado. Pois. Encontrámos imensa coisa em comum logo no primeiro dia, eu fascinada pela força que ela emanava e pela boa disposição de quem nunca vi esgotada de sorrisos, sinceros, ainda por cima, e cuja agenda com datas precisas me ajuda, a mim, a saber quando este ou aquela fazem anos, caso contrário, nunca diria uma palavra fosse a quem fosse. Bem, com excepções, como a AI cujo aniversário coincide com a data da morte da Princesa Diana, motivo para que me lembre sempre, ou melhor, a televisão ou a rádio dão-me a dica que eu aproveito.
Lembro-me da M. e penso em castelos inexpugnáveis, em fortalezas, em cidades invictas, em pontes indestrutíveis. Penso também nas mais saborosas gargalhadas, numa inteligência invejável, numa sagacidade e perspicácia difíceis de encontrar e, last but not least, num ombro e em mil conselhos que sei serem para meu próprio bem.
Ao contrário de outras pessoas ela nunca se calou sobre certos problemas, ou seja, não é uma amiga passiva, mas antes pelo contrário, muito activa, dando a sua opinião, o seu conselho, pensando nas coisas como se fosse ela. Dedico-lhe o pensamento e invariavelmente sinto-me em falta, sempre. Nunca lhe ouvi palavras vãs, nunca senti que me respondia como se eu tivesse carregado na tecla das perguntas frequentes e saísse qualquer coisa pré-programada, nunca me deu conselhos para me fazer favores. O grande favor que me faz é estar sempre preocupada comigo, atenta e próxima, mesmo que sejam muitos os quilómetros que nos separem.
Numa ocasião fomos a um congresso da nossa especialidade profissional em Aveiro. Teimei em ficar num dos meus locais de eleição, no hotel ao lado do farol. Obrigou-nos a fazer muitos mais quilómetro que os outros, instalados algures nas curvas da ria, mas valeu a pena. Quando chegámos aproximamo-nos da recepção de tal forma que o rapaz nos lançou um olhar como se fossemos um casal. Ela deu tamanhas gargalhadas que me ficaram gravadas para sempre na amizade que tenho por ela. Nessa noite choveu em barda. Deitámo-nos cada uma na sua caminha, sempre a rir, a gozar com todas as personagens que tínhamos encontrado, alguns do dia a dia, mas que naquelas ocasiões se mostram tão diferentes como a noite do dia, outros que só encontramos em reuniões nacionais, conhecidos e desconhecidos. Rimos até à exaustão. Às tantas eu estava a dizer qualquer coisa e ouvi-a ressonar. Calei-me, levantei o estore e fiquei a fumar à janela a olhar para o maravilhoso espectáculo da chuva que caia com tanta força que levantava uma nuvem no chão. De repente ela acorda e continua a falar onde tínhamos deixado a conversa! Foi de morrer a rir. No dia seguinte discutimos porque ela teimou que não tinha adormecido, tanto mais que lhe custava pegar no sono porque eu ranjo os dentes tão alto que não deixo dormir ninguém!
Os mesmos motivos criaram outro momento de memória passado em casa de uns primos meus em Vila Nova de Gaia onde ficámos a propósito dum congresso no Porto. Como somos as duas generosas de formas não cabíamos na cama. Assim, dormimos à vez, metade na cama e metade num sofá, sentadas. Porém, o problema não era o cómodo, mas o facto de nenhuma conseguir adormecer porque formávamos uma dupla digna de circo, uma ressonava e a outra rangia os dentes…
De todas as qualidades que lhe reconheço talvez a frontalidade seja a que destacaria, numa sociedade onde tudo é ambíguo, dúbio e dissimulado e onde as pessoas arranjam os mais variados disparates para se apoiarem ao explicarem porque não são frontais.
Longa vida, minha amiga, longa vida com esse carácter e esse espírito.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

O elevador do metro

Paro num dos corredores do metro para beber café. A única outra cliente é funcionária do metropolitano e está a contar à rapariga por trás do balcão que o elevador já funciona. Perante a admiração da outra que manifestou desconhecimento sobre qualquer avaria ficámos ambas esclarecidas com a descrição do que se tinha passado. Eis o peixe tal como o comprei, ainda com escamas.
O elevador tem capacidade para seis pessoas. Ficou preso entre andares com uma gritaria medonha lá dentro. Quando a empresa conseguiu abrir as portas saíram onze pessoas, um carrinho de bebé, quatro trouxas com roupa e vários sacos cuja quantidade exacta não consegui determinar. Quando se deu o êxodo perguntaram às sardinhas em lata porque se tinham metido todos num espaço tão pequeno. A mais velha da família cigana esclareceu os incautos que tinham vindo todos juntos no metro!
Ora, sinceramente, se vinham todos juntos, porque se haviam de separar ali? Acho bem!
Ao que parece a senhora também adiantou que o marido ainda tinha tentado entrar, mas já não conseguiu…
Isto é uma tristeza, já não se fazem elevadores como antigamente.

As velas ardem até ao fim na Kidzania

Há uns meses perguntaram-me por um livro de Sándor Márai: As velas ardem até ao fim. Lembro-me bem porque a pessoa que me perguntou se eu o tinha falou-me em É com cera que se fazem velas ou outro título igualmente cómico e aquilo deu gargalhada conjunta. Eu não o tinha mas conhecia o título, mas não o autor. Na altura pesquisei e, vá lá saber-se porquê, meti na cabeça que Sándor era uma ela e não um ele e vivi nessa infame mentira até há duas semanas atrás quando fui à Kidzania com os meus sobrinhos.
Chegámos de amanhecida, como o peixe de Setúbal, às dez e meia da manhã, eles a aproximarem-se perigosamente duma apoplexia com tanta excitação e eu a pensar onde me sentaria em meditação para passar um dia inteiro num centro comercial que abomino e quando digo que abomino, não me refiro aquele em particular, mas a todos do mundo inteiro, ao contrário de praças e mercados e se os mercados forem fluviais, ai então, ui ui, sou eu que entro em êxtase.
Lá despachei um comandante dum avião e uma técnica de reciclagem, espreitei os corredores da Kidzania e fui à livraria onde, entre outros, comprei As velas ardem até ao fim. Sentei-me num sofá branco que fica ao ar livre – zona de fumadores – e ali fiquei com a cera a derreter-se até às seis da tarde quando fui buscá-los e porque aquilo fecha a essa hora, caso contrário gramava mais umas horas de espera. Fiz um intervalo para lhes dar de almoço, almoço que se atrasou porque a minha sobrinha estava a fazer horas extra na redacção do jornal!
Faltavam duas páginas para acabar a leitura quando alguém se meteu comigo. Tive a vaga sensação que alguém me falava mas a absorção das palavras era grande. O homem insistiu e lá levantei os olhos em jeito de perguntar o que queria, logo agora que estou a acabar.
- A senhora não lê, a senhora come o livro…
A simpatia que o homem quis enfiar no início de conversa só lhe trouxe dissabores: então em meia dúzia de palavras chama-me senhora duas vezes?
- Posso ajudá-lo?
- Gosta muito de ler, vê-se.
- É verdade… e estou mesmo a acabar este livro… se não se importa…
Ele levantou as mãos em sinal que não se importava e as velas lá arderam até ao fim.
Assim que fechei o livro, ele, sem respeitar aqueles instantes dum the end que, sendo imaginário, é bem real e sabe tão bem como o momento em que tiramos a cabeça de dentro de água depois dum mergulho, desata logo a falar:
- Sabe, eu sou canalizador e aqui há uns tempos fomos chamados a casa duma senhora que também gostava muito de ler. Ela tinha lá um problema na cozinha e…
Por favor meu Deus faz com ele não me descreva problemas de canos e maus cheiros e entupimentos…
- … e depois da coisa resolvida ela convidou-nos a beber café na sala. Olhe, a senhora tinha para cima de cem livros na sala! Isto sem exagero! Mais de cem!
Por décimos de segundo pensei o que responderia: teimava com ele a dizer-lhe que isso era impossível e que cem era um número astronómico? Quem é que tinha cem livros em casa? Limitava-me a um Ah e desviava o olhar? Ou dizia-lhe que cerca de cem livros tenho eu à cabeceira, sem contar os do resto da casa, da casa dos meus pais, da minha irmã, os que estão com o Marcelo ou com a Luísa e todos os emprestados ou os que se amontoam no meu trabalho, por falta de espaço em casa?
Decidi-me por um abrir de olhos simpático fazendo eco da sua profunda admiração e acrescentei que sim, que gostava de ler; e num repente, estúpido e insensato, e depois dum milésimos de dúvida na garganta sobre se deveria ou não formular a pergunta, ainda assim, quis saber o que gostava ele de ler.
- O Correio da Manhã.
E como se isso não bastasse, ainda aconchegou a frase:
- Todos os santos dias!
Senti vontade de acender umas velas e fazer uns pedidos, mas optei por me levantar alegando que tinha que ir buscar os miúdos. Desejámo-nos mutuamente boas tardes e fui em perseguição duns funcionários dos correios que já tinham sido pediatras.
Foi um dia de trabalho em cheio.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Coração Débil

Num dos primeiros dias de férias caiu-me cima um Coração Débil. Escrito pelo monstro da literatura Dostoiévski pouco antes da sua prisão e exílio na Sibéria, esta novela deu-me que pensar pois parece escrita numa língua morta, onde os conceitos de honra, dignidade, amizade e, acima de tudo, gratidão, praticamente proscritos dos dias de hoje, tomam letra maiúscula e ganham forma densa.
Li e pareceu-me tão distante como os nossos antepassados que faziam fogo batendo em pedras e foi exactamente isso que me impressionou: a vida já foi assim! Por incrível que nos pareça, a palavra de alguém já teve um peso desmedido, a amizade já foi verdadeiramente desinteressada e verdadeira, o bom carácter das pessoas em tempos era recompensado.
Se fosse escrita hoje seria uma obra de magistral ironia da primeira à última palavra, pois tudo se passaria na imaginação do escritor.

Cem, cento e vinte

As férias foram marcadas por vários incidentes médicos, todos sem gravidade. O mais dramático foi quando o destino, finalmente, me fez retirar os suportes das velas da casa de banho. Como é que ele agiu? Fez-me partir um deles, em vidro e, não contente, espetou-me alguns dos vidrinhos no meu belo calcanhar.
A gata borralheira andava descalça quando sentiu uma dor forte e percebeu que o calcanhar tinha engolido um vidro. Aquilo desatou logo a sangrar e ela, apoiada na ponta do pé, como se fosse o Cisne Negro mas coxo, foi buscar a pinça das sobrancelhas, armou-se em contorcionista de circo, alçou da pernoca e apenas conseguiu meter o vidro ainda mais dentro.
Ora isto é uma chatice em qualquer altura do ano, mas pior ainda em Agosto quando não há vivalma a quem se possa pedir ajuda, tudo a banhos nos Algarves e nas Costas e por aí.
Atei uma ligadura ao pé para segurar o sangue, agarrei na chave do carro e sai em direcção ao centro médico, conduzindo muito devagar e sempre em pontas. Quando cheguei veio-me à ideia um homem lá do Alentejo a quem chamavam o Cem, cento e vinte, por coxear. Só nessa altura me dei conta que a sola dos pés parecia a última folha do catálogo da Robbialac, o preto, mas como aquilo doía cada vez mais, depressa me esqueci da vergonha.
A enfermeira lavou-me o pé e depois de duas anestesias de spray que mais parece um bronzeador, a médica achou por bem anestesiar-me doutra forma pois aquilo não pegava. Finalmente, tirou-me 3 Muranos, uma fortuna deitada para dentro do saco do lixo hospitalar e com destino ao fogo, ironicamente.
Sosseguei quando a senhora doutora me disse que podia ir à praia. Comprei de enfiada uns pensos impermeáveis e para não correr o risco de me acontecer mais nada, deitei-me na areia frente ao mar e ali fiquei até ser quase noite.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

O rato

Como o dinheiro abundou nas férias passei parte delas em casa. As limpezas fizeram-me companhia e andei entretida. Não prescindi das caminhadas e um dia exagerei, não nos quinze quilómetros, mas pelo facto de não ter levado meias. Os ténis, garganeiros, deram-me uma dentada no tornozelo, acabei a coxear e com uma roedura. A bolha de água rebentou e aquilo fez uma ligeira ferida da qual nunca mais me lembrei pois passei a andar de sapatilhas de enfiar no dedo.
Andava eu em plena campanha de limpezas, com móveis arredados e paredes brilhantes de detergentes quando dou conta dumas minúsculas manchas no chão, vermelhas, como sangue. Raios partam! Seria um rato? Com tanta movimentação, teria despejado algum espécime e tê-lo-ia ferido, razão pela qual o sacanita andava por ali a procurar esconderijo? Seria um dos espertos, tipo Mickey? Um fofo como o Bernardo ou a Bianca? Meu Deus... e se fosse um Remy que me aparecesse com a família inteira? Eu nem sei fazer ratatouille...
Resolvi fechar as portas todas e começar na cozinha. Teria eu dado cabo de algum cano ou qualquer cosia do género e o rato tinha-se escapulido para dentro de casa?
Como não tenho caçadeira peguei na vassoura e fiquei imediatamente convencida que sim, ele estava na cozinha! A prova disso era o aumento das pequenas pegadas que cresciam em todo o lado.
Bancos em cima da mesa da cozinha, balde do lixo – vazio e lavado - em cima da bancada, frigorífico no meio da cozinha, móvel de madeira a fazer de segunda rotunda e, pela primeira vez, franzi a cara em desgosto pelo tamanho da cozinha, enorme. Preparava-me para desviar as máquinas quando dou conta que ele devia estar a passar-me pelos pés, tal o número de pegadas ensanguentadas que pisava. Mas como era possível? Eu não via nada!
Resolvi sentar-me na bancada, de arma em punho. À espera. Semicerrei os olhos e vi a selva africana… um rio… um delta… um hipopótamo bebia água ao escurecer… aproximaram-se uns leões e umas panteras… as hienas riam a olhar-me e, de repente, percebi porque se riam: com o rabo em cima da bancada, as pernas a baloiçarem e os chinelos pendentes, vi que a ferida causada pelos ténis e pela falta de meias estava a sangrar, escorrendo-me pelo tornozelo abaixo. Saltei da bancada. Dei uns passos e verifiquei que deixava um trilho de pequenas marcas vermelhas no chão.
Que bela ratazana eu me saí!

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

De Lisboa a Foz Côa. E volta.

Depois duma semana no Algarve, o Duarte ficou com o pai por duas longuíssimas semanas e eu vesti o meu fato de marinheira e fui dar uma volta com os meus sobrinhos: só me faltava a boina e o rabo alçado de gansa, porque apesar de só ter levado dois sobrinhos, o terceiro vem a caminho, o que quer dizer que dentro de poucos anos eles deixam de me chamar Quica para me chamarem Donald.
Foi a primeira vez que a levei a ela e fartei-me de rir no meio das birras da garota, não porque seja sádica, mas porque ele fazia observações como se fosse adulto, revirando os olhos e falando-me em sussurros para que ela não ouvisse. O banco de trás do carro era alvo de gritos e zangas intercalados com momentos de ternura e amizade. Por duas vezes ameacei parar o carro e levá-los de volta a casa. Conhecendo-me, os desgraçados continuavam na algazarra!
Saímos de casa com direcção a Conímbriga onde não ia há anos. Apesar de a cidade não ser habitada há séculos estava muito mudada! Ele adorou, ela suportou, o tempo fez-nos o jeitinho e esteve encoberto enquanto pulávamos e corríamos por entre memórias e histórias. E pedras também, já agora, é bom que se diga, pois quem lá vai deve levar doses extra de imaginação, para poder ver melhor.
Quem me conhece sabe que, ao contrário da gigantesca maioria das mulheres, não gosto de fazer compras e as lojas não me atraem, mas se há sítios onde tenho prazer em comprar é em lojas de museus. As Ruínas e o Museu Etnográfico de Conímbriga têm uma loja com produtos de… outros museus. Quis comprar t-shirt’s aos garotos mas só havia doutros sítios e desisti.
Acelerámos devagar e dormimos em Celorico de Basto, sem visitas a nada porque chovia e era de noite. Jantámos com os olhos na televisão à espera que desse o Milionário para vermos como eu tinha ganho, apesar de continuar pobre. Não deu e passámos o resto da noite na batota! O quarto, onde se chegava depois de galgarmos vários lances de escadas e de a minha sobrinha perguntar porque raio não havia elevador, era um mix de dois quartos com uma enorme casa de banho, um com cama de casal e outro com cama individual. Assim que viram aquele luxo ambos manifestaram intenção de dormir na pequena arrecadação, perdão, no quarto mais pequeno, decisão que eu releguei para quando nos deitássemos. Como ele é sonâmbulo optei por dormir com ele – porta fechada à chave não fosse ele dar uma volta por Celorico a meio da noite – mas ela não gostou da opção e gerou-se ali uma crise, com choros, da parte dela, cansaços, da minha parte, e amuos, da parte dele. Acabei por ser eu a dormir no anexo, depois de ter fechado a porta à chave e colocado as maletas diante da porta como reforço para eventuais fugas. Ora, o garoto levantou-se mesmo a meio da noite, mas não foi para sair e sim para me chamar e informar que ela tinha feito xixi na cama.
Passeia-a por água, mudei-lhe a roupa, passei os dois para a sucursal do quarto e eu mudei-me para a bordinha da cama de casal onde fiquei até de manhã, quando o sol apareceu para nos conduzir a Foz Côa.
Nunca tinha ido ver a gravuras e adorei apesar da confusão da deslocação.
Fomos ver o  Museu do Côa e ficámos a saber que era preciso marcar a visita às gravuras; quinta-feira havia vaga e eram 11 da manhã de terça. Perante isto, tirei a boina, que fiz descer até ao colo devagar, saquei do meu ar mais triste, olhei os pobres pequenos com lágrimas nos olhos, baixei as penas do rabo em sinal de desalento profundo, avisei-os em voz baixa que íamos passar o resto dia sem comer o que lhes criou uma enorme e visível consternação nos rostos. Não sei se foi isto ou não, mas o funcionário disse-me que havia empresas privadas que levavam gente a ver as gravuras e deu-me os números de telefone; à quarta e última tentativa marquei para as quatro da tarde desse dia. Quando desliguei verifiquei que não era preciso tanto teatro pois davam os telefones a qualquer um! Com franqueza!
Dos quatro locais onde é possível ver as gravuras calhou-nos o de Castelo Melhor. Vimos o Museu, demos uma volta em Foz Côa e fomos almoçar ao  Restaurante Paleolitico em Castelo Melhor, que não tem multibanco. Voltámos a sair e andámos cerca de 15 quilómetros, ida e volta até Almendra, onde há uma caixa ATM, num largo lindíssimo que nos fez sorrir por no Paleolítico não haver multibanco, caso contrário não teríamos ido a Almendra.
Comemos e fomos até ao local da partida para as gravuras, convicta, eu, que haveria por ali qualquer coisa para fazer, para passar o tempo. Esperava-nos uma casa onde se vendia água fresca – não havia sol, mas estava muito calor – mel, sabonetes de leite de burra e pedras com ímanes para pormos no frigorífico como recordação de Foz Côa. Ainda não eram duas da tarde e já me estava a ver a dormir a sesta no carro, estacionado no meio duma rua onde me garantiram que não havia problema. Os donos da casota das águas logo a quererem saber com quem íamos descer, como se eu conhecesse toda a gente por ali. Estavam os miúdos a meio dum gelado que se ia desfazendo a velocidade recorde quando entrou uma rapariga que se apresentou como a pessoa que nos guiaria até ao fundo do vale dali a duas horas e qualquer coisa. Olhei com inveja os passageiros a entrarem no jipe e a desaparecerem por uma curva. Estávamos cansados, moles, sem vontade de nada e eu não podia estar ali duas horas a entreter os miúdos com jogos e canções… a menos que lhes desse gelados ininterruptamente! A construção desta ideia genial foi interrompida pelos lamentos dum jovem que se perguntava onde andariam as sete pessoas que tinham marcado com ele àquela hora. Isto assim não podia ser, então marcavam e depois não apareciam? E nem sequer atendiam o telefone…
Do grupo original restava uma francesa, por volta da minha idade, mas que a aparentava, ao contrário de mim que estou sempre à espera que me venham perguntar pelos meus pais. Enquanto os gaiatos, sentados num muro ao lado do carro, viam os gelados desaparecerem fui falar com o rapaz e disse-lhe que éramos três e queríamos ir com ele. Que não podia ser, que parecia mal, que eu tinha marcado com outra empresa, que isto parecia traição, que isto e que aquilo.
- Ouça lá… você tem lugar, eu quero ir, deixe as explicações comigo, por favor.
Acenei aos miúdos que vieram a correr lambuzados até aos joelhos, dando-lhes um ar triste mas excelente para falar ao coração do jovem que teimava em não nos querer levar. Em desespero de causa disse-lhe, esperando que nenhum dos meus dois compinchas me desmentisse:
- Olhe, eu vim aqui de propósito… tenho dois miúdos… se for às quatro da tarde, estarei despachada por volta das seis, hora a que me vou fazer à estrada para uma jornada de quinhentos quilómetros.
Rezei para que o meu sobrinho não me corrigisse o número de quilómetros nem me perguntasse qualquer coisa como, então onde vamos dormir, ao Algarve? Mas eles estavam a discutir as diferenças do jipe com outro onde tinham andado em Marrocos e estavam com ar de ciganitos, mas ausentes.
Valeu-me o dono da loja de bebidas que se meteu na conversa e sugeriu que nós fossemos e que lá em baixo eu desse uma explicação à guia. Paguei os bilhetes e meti-nos aos três no jipe antes que o condutor tivesse tempo de recusar novamente. Acomodei os garotos ao lado da francesa no banco de trás e sentei-me no lugar do pendura, mostrando imenso e urgente interesse em saber mil coisas sobre as gravuras, enquanto o condutor /guia dava as explicações em português e depois em francês.
A descida ao vale é impressionante e as paisagens são imponentes, com o domínio das vinhas, as colheitas a fazerem-se face às temperaturas mais elevadas naqueles locais.
Quando lá chegámos fiquei com pena de não ter feito aquele passeio há mais tempo e prometemos voltar a todos os outros locais visitáveis, incluindo a uma das visitas nocturnas. Concluímos os três a rir que qualquer regresso terá que ser feito sem a presença da mãezinha que não aguenta emoções fortes nem gosta de ter precipícios a seu lado.
Descemos até Nossa Senhora dos Remédios em Lamego e dormimos no  Hotel Parque onde eu tinha feito uma reserva há uns tempos e onde não dormi pois as andanças andebolísticas do meu filho levaram-me a trocar o repouso daquele local por um divã no hospital de Vila Real, onde ele foi operado.
Desta vez dormimos mesmo; jantámos meio à pressa para irmos pôr os olhos na televisão e até dissemos à empregada do restaurante que eu ia ganhar o Milionário nessa noite. Ela deve ter achado que éramos uns mentirosos porque continuou sem dar nada. Assim sendo, voltámos à batota!
Retemperados e depois duma descida das escadas do santuário, parámos na Batalha onde fomos ver o Centro de Interpretação da Batalha de Aljubarrota. Não andámos à espadeirada mas o meu sobrinho deu um pontapé numa pedra e partiu uma unha. Isto vale alguma coisa em prol da defesa da nação? Em prol da boa disposição vale com certeza e o resto são cantigas.
A minha aparição no Milionário acabou por ser num dia em que cada um estava nas suas casas; fiquei espantada com a quantidade de pessoas minhas conhecidas que estavam a ver e agradeço as mensagens e os telefonemas que se sucederam nessa noite embora eu suspeite que a pergunta que todos queriam fazer e ninguém fez, era quem era eu, uma vez que, como estava de preto e bem redonda, me confundia com o Malato. A televisão é tramada…
Na manhã seguinte o dono do café por baixo da minha casa deu-me os parabéns mas com ar de acusação. Não percebi. Ele esclareceu que se eu fosse uma vizinha mais atenta teria sabido a resposta final e ganho cinco mil euros. Abri os olhos perguntando silenciosamente o que tinham os meus hábitos solitários de vizinhança a ver com os meus conhecimentos sobre quem ganhou o prémio fotográfico XPTO. Foi assim que fiquei a saber que o vencedor do dito prémio é… meu vizinho. Quando o mocinho ganhou o dito foi uma algazarra na rua mas eu devia estar ausente. Em Marte. Ou teria sido em Saturno?

Regresso

Recomeça hoje a contagem de riscos na parede para as próximas férias.
O último fim-de-semana foi desastroso, falando em termos climatéricos, mas a sessão de cinema com o Duarte no último dia, como é de tradição, manteve-se. Aliás, foi ampliada porque foram dois de seguida, e os dois tão bem escolhidos que merecíamos levar com uma pá na cabeça. Entrámos para os macacos, que apenas nos arrancaram um esgar de indiferença, e saímos a correr, contando que as apresentações do filme seguinte se estendessem à nossa espera; os aliens foram ainda piores que os macacos e escapou o rabinho bem feito (um bocado magro, diga-se de passagem, mas ainda assim, bem feito…) do Daniel Craig e a presença sempre bem-vinda do Harrison Ford que continua a saber montar a cavalo mas se fosse visto pelos replicantes havia um suicídio colectivo desta gente.
Há meia dúzia de dias, tinha ido ver os Chefes Horríveis e o Senhor Kevin Spacey – aquela pele tão Lili Caneças é mesmo dele, ou teria sido para o filme? – lembrou-me que o dia de hoje estava a chegar, o que me provocou um leve mal-estar na barriga.
Hoje estou meia azambuada, como se estivesse a hibernar há um mês e tivesse acabado de acordar; talvez o facto de ter ido para a cama às duas da manhã e de me ter levantado cedo tivesse ajudado a esta sensação, mas duvido.
Estive um mês sem mexer num computador – ok, vim trabalhar um dia a meio das férias, para matar o stress da saudade… - mas ando com o olhar perdido em busca das teclas, dos papéis e, ou é impressão minha ou então não sei, mas acho que o relógio se avariou porque o tempo não passa. Que sorte, uma avaria logo no primeiro dia…

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Sean Sellers

Ontem assisti a uma reportagem sobre Sean Sellers, condenado à morte por crimes cometidos com a idade de 16 anos. A sentença foi executada em 1999 quando tinha 29 anos. Até lá viveu no chamado corredor da morte, mas sem o isolamento de outros condenados pois foi ‘seguido’ pela televisão e os jornalistas dedicaram toda a atenção ao adepto de satanismo, amante de Dungeons and Dragons, convertido depois ao cristianismo já na prisão, a sofrer de múltipla personalidade mas que matou três pessoas quando era adolescente, uma delas para ‘ver como era’. Várias personalidades, entre elas Desmond Tutu, ergueram as vozes para que a sentença fosse transformada em prisão perpétua, mas a injecção foi mesmo dada, diante de várias pessoas convidadas, e o convidado aqui é macabro, mas é verdadeiro, pois o Estado de Oklahoma, para além de permitir que as famílias das vítimas assistam à execução, permite também a existência de convidados; não sei em que outras salas passa o mesmo filme…
Polémicas à parte sobre a pena de morte, havia ali qualquer coisa que não batia certo, na reportagem, bem entendido, que no resto estava tudo baralhado, como é óbvio.
Sellers defendeu que as famílias das vítimas eram as únicas que podiam decidir sobre a sua morte ou não pois eram os afectados; mais ninguém devia interferir no processo.
Fiquei sem perceber se os juízes também deviam ser postos de lado e se esse modelo seria uma proposta a ponderar; se assim fosse, qualquer ladrão acabava no cadafalso, sem apelo nem agravo. Estranha defesa de alguém que está no corredor da morte.
As imagens mostraram o dia da última apelação com pedidos de condenação por parte da família dos assassinados e durante a qual foram dados cinco minutos ao assassino para se defender. Mais uma vez a defesa foi fraca, com palavras mal pensadas, discurso não estruturado e argumentos esquisitos. Ora, alguém que está na prisão, a ver esgotar-se o tempo de vida, deve ter tempo para pensar – digo eu… - e articular um discurso de fazer chorar as pedras da calçada, sozinho ou auxiliado pelo advogado e amigos, com quem podia trocar correspondência. Sem surpresa, o júri disse não, não, não e não, pois era constituído por quatro pessoas.
Nos minutos dados a Sean Sellers não se ouviu um lamento, um pedido de desculpa, um ar de mortificação, nada. O advogado chorava, as câmaras mostravam os amigos de olhos fechados, como se não quisessem encarar a realidade e, fechando os olhos, impedissem os nãos de lhes entrarem pelos ouvidos.
Penso que a única pessoa que podia ter tido um papel fundamental na defesa de Sean teria sido a mãe, mas essa estava debaixo de sete palmos de terra pois foi uma das pessoas que ele matou.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Que grande lata!

Ao fundo da rua está o palácio que me dá telhado como local de trabalho. Antes de lá chegar está o quiosque onde me abasteço diariamente. Cumprimento o dono, o Sr. A. que me vai estendendo as coisas sem que eu precise de as nomear, pela força do hábito. Enquanto isso, uma senhora pergunta:
- Qual é o melhor jornal para encontrar anúncios de casa de férias?
- Tem o Ocasião e o Correio da Manhã.
- Ai sim? Então empreste-mos… é só para tirar os anúncios de casas de férias, não os vou ler.
Não me contive e dei uma gargalhada olhando directamente para a mulher que me sorriu perguntando do que me ria.
- Da sua lata! O uso do jornal pressupõe a sua compra!
O Sr. A. olhava-me com os olhos abertos como se fossem bandeiras a pedir ajuda, o que me fez continuar até que a mulher lá se decidiu:
- Bem, se tenho que pagar, então só levo um… pode ser o Ocasião.
Esperei que ela pagasse, despedi-me do homem e vim-me embora.
Hoje de manhã, repete-se a rotina e o dono do quiosque comenta o sucedido, dizendo que há pessoas que são capazes de tudo. Enquanto falávamos, pára um carro ao lado do quiosque e estaciona batendo estrondosamente no carro do Sr. A.
O condutor sai do carro, o Sr. A esbraceja indignado e tenta endireitar a placa da matrícula, dizendo ao outro:
- Então você não viu o carro?
- Vi, mas isto são coisas que acontecem! Nunca bateu quando está a estacionar?
Desta vez não consegui rir-me com a nova manifestação, não de lata, mas de verdadeira latosa do homem e disse ao Sr. A. que ia chamar a polícia. O homem acalmou e baixou o tom de voz: que não era preciso, que ele tinha muita pressa, que desculpasse, que de facto são coisas que acontecem, que…
- Pois são coisas que acontecem, são… mas a quem não presta atenção ao que está a fazer!
A exaltação do Sr. A ia crescendo, mas esmoreceu com o que pareceu um pedido de desculpa sincero do outro.
Espero que amanhã não lhe mandem o quiosque ao chão!

No fio da navalha

Voltei a percorrer O Fio da Navalha. Aquele Larry é inesquecível. Encontrei-o a primeira vez quando era adolescente, em edição de bolso, capa branca com uns metais retorcidos que me faziam confusão. Lembro-me de ter saído de lá e entrado noutras casas a perguntar com os olhos o que era aquilo dos Ashrams, quem seria Ganesha e de me ter deixado conduzir por leituras sobre o assunto que depressa abandonei por me parecerem muito confusas.
Depois apareceu um filme supostamente baseado no livro e fui ver. Saí de lá com vontade de pedir o dinheiro de volta e vinguei-me em nova leitura. Há pouco tempo fui premiada com uma nova edição, da colecção Vintage da Asa, que acabei de ingerir agora.
Há releituras com personagens que são tão marcantes que se me afigura absolutamente normal vê-las vivas, mesmo sabendo que já assisti e acompanhei a sua morte há anos atrás. É a intemporalidade. É a diferença entre vermos uma fotografia de alguém e dizermos ‘Este era o meu Tio fulano’ e vermos uma imagem de César e exclamarmos ‘Este é César’.
Os Césares são imortais, como os Leonardos, os Rafaéis, os Albertos, os Alfredos, e podia seguir até se me acabar a tinta e mesmo assim ficava a lista coxa.
É impossível não amar Larry e, em simultâneo, ter medo de o encontrar. Vê-lo, vê-lo mesmo, não só olhá-lo, é vermo-nos a nós próprios ao espelho, sem máscaras nem pinturas e questionarmo-nos sobre a vida. Ora, actualmente, perdeu-se o hábito de nos fazermos esta pergunta: é meia bola e força, muito palavreado mas pouca acção, faz o que eu digo, não faças o que eu faço e quejandos.
Conheço muita gente, demasiada, que olhariam Larry como olhariam para um unicórnio, admirando-o, mas com a certeza da sua não existência, virando-lhe as costas com um encolher de ombros. Essas mesmas pessoas mostrariam vibrar com as atitudes de desprendimento material de Darrel, e manifestá-las-iam com o rabo agarrado aos seus sofás e canapés aprovados antecipadamente por Elliot Templeton. Nem lhes passaria pela cabeça que há alguém capaz de certas atitudes sem fazer qualquer esforço. Como Larry. Mas como Larry é uma personagem, acabamos todos a comer pescadinhas de rabo na boca!

quinta-feira, 14 de julho de 2011

A Casa Verde

Os almoços de ontem e hoje foram regados com o mais belo néctar dos últimos tempos: O Alienista do soberbo ano de 1882, preparado por Machado de Assis e que chega a mim em 2011 envelhecido mas com sabor de actualidade.
A edição está longe de ser de luxo, é da colecção Biblioteca de Verão do Jornal e do Diário de Notícias, e é oferecida na aquisição de várias outras publicações, no meu caso com a Volta ao Mundo.
As menos de cem páginas devorei-as durante dois períodos de descanso para almoço durante os quais rezei para que ninguém me dirigisse a palavra, enquanto engolia a imagem da actual sociedade na Casa Verde e reconhecia Simão Bacamarte como aquele(s) que aparecem sempre no horário nobre das televisões.
A prosa de Assis é subtil, manhosa mas a fazer vénias, elevando o desequilíbrio à categoria da perfeição.

Não fiquei assediada

Terminei O Assédio de Reverte. Como dizia um amigo à saída da sala de cinema depois de sessão que não ficou para a história, interessante mas com pouca acção
Rogélio Tizon é a personagem de peso da narrativa, numa Cádiz liberal do início do século XIX, por onde anda também um corsário de olhos verdes. Ora, nem precisava ter olhos verdes, bastava-lhe ser corsário, profissão romântica e que inspira suspiros em donzelas e em mim.
Confesso que saltei parágrafos de descrições de como-fazer-uma-bomba-acertar-no-sítio-pretendido, com estudos de probabilidades, medições de peso, previsões sobre os ventos e não sei o quê mais, pois não as li. Mas adorei as passagens – ainda que também longas – sobre a vida no navio com burrajonas e demais velas desfraldadas.
Ainda assim, Reverte mantém a capacidade de conseguir fazer-me ver o que descreve, o que nem sempre acontece com outros autores. Leio e estou lá, sinto o cheiro das ruas que ladeiam o mar, a humidade faz-me arrepiar de frio e a chuva molha-me. Só por isso vale a pena.
Calhamaço com quase 700 páginas, da Asa, traduzido por Helena Pitta, 2011.

Fado

Andrzej Stasiuk é polaco e autor dum livro que se chama Fado. Título impecável, não pela vaidade do uso duma palavra na língua de Camões, mas porque é o certo, o único.
Em viagem (‘To trave lis to live. Or in any case to live doubly, triply, multiple times’, p. 34) pelas Polónias, Hungrias, Roménias, Albânias e Eslóváquias, leva-nos sempre sentados na cadeira da ironia colocada ao lado da janela dos pormenores que, como os gomos da laranja, fazem o todo, aquele todo de que os turistas nem sequer ouviram ouvir. Stasiuk viaja, não confundir.
Os plurais dos nomes dos países designam a multiplicidade de realidades simultâneas que nos são postas diante dos olhos, não às postas mas em vislumbres abrangentes, com linguagem simples e perceptível para além do óbvio. As Europas Centrais das quais sabemos que ficam no centro e decoramos as capitais, mas sobre as quais desconhecemos tudo, uma pena.
O livro não é meu, foi-me emprestado. Mas a leitura não podia ser mais minha, tal e qual como num processo de viagem por um país que não sendo nosso, passa a ficar em nós porque passámos por ele.
Apetece-me traduzi-lo para que o possa ler de enfiada em português, depois de feita a leitura em inglês (vagarosa) e na impossibilidade de o fazer em polaco, opção sempre ideal, a da leitura na língua original. Lembro um momento passado há pouco tempo por entre fumo de cigarros à porta do aeroporto da Portela quando me esclareciam auditivamente sobre frases aliteradas em norueguês (seria? Ou sueco…?) e cuja melodia se perdia com a tradução. Foi nesse dia que mo emprestaram.
V. já to posso devolver, obrigada.
Edição da Dalkey Archive Press, tradução de Bill Johnston, de 2009

segunda-feira, 11 de julho de 2011

República do Sudão do Sul

Parabéns ao Sudão do Sul. Bem-vindo a este pacífico planeta, de partilhas e entendimentos, de gente boa, sã e saudável. Talvez por isso o novo país decidiu, ainda a gatinhar, que para garantir e aumentar a saudabilidade era necessário providenciar a existência de uma selecção de futebol!
Bem marcado!

Um must da praia 3

A paleta de cores dum areal num domingo à tarde é digna de ser vista. O enfoque é dado nas cores fortes e garridas, preferidas para fatos de banho, chapéus-de-sol e toalhas que se aninham uns nos outros face ao reduzido espaço disponível e quanto mais dentro de água melhor, seja por causa da criancinha que quer estar sempre com os pés molhados ou pela preguiça de andar na areia.
A metodologia da marcação de propriedade é similar à que se fez na Lua, espetando uma bandeira: aqui enterram-se chapéus-de-sol e estendem-se toalhas, marcando assim o território, mas nem sempre de forma definitiva, pois basta o vento levar a toalha para vir um espertinho, que até ajudou assoprando, para esticar a dele e ficar com aquele metro rectangular.
Porém, há outra coisa que nos obriga a arredar para trás e contra isso nada há a fazer: a maré. Já se sabe que é difícil remar contra a maré e quando o remo é um par de chinelos, uma toalha e uma sacola, pior ainda.
Assim, aquele pedaço de terreno arenoso que nos proporcionou tanto prazer a uma certa hora começa a ser ameaçado pela espuma das ondas para ser galgado pela água empurrando-nos pela areia acima. Para onde? Para cima de alguém, um alguém qualquer, mas que já lá estava.
Quando isto acontece somos alvo de olhares antipáticos e até algumas palavras menos agradáveis, mas é questão de se esperar uns minutos e as mesmas pessoas que não gostaram que estendêssemos a toalha tão em cima deles, pegam agora na sua bagagem e fazem exactamente o mesmo com outros veraneantes, metros acima, passando a nossos companheiros de infortúnio e esquecendo o que disseram um quarto de hora antes.
A faixa de areia mais longe da água começa pois a ser alvo de ocupações daqueles que a desprezaram quando montaram a tenda assim que chegaram.
A parte mais engraçada de toda esta dinâmica – especialmente quando NÃO nos acontece a nós – surge quando uma onda apanha toalhas, sacos e sapatos de alguém que está dentro de água e não se apercebe. É como uma queda no meio da rua em dia de chuva, provoca sempre gargalhadas, é instintivo e mais forte que nós, ou, pelo menos, mais forte que eu.
O pior é que eu quero ajudar, quer o pobre que se estatalou debaixo de chuva quer a família de fato-de-banho cujos pertences parecem ter saído da máquina de lavar sem terem feito a centrifugação, mas como estou sempre a rir-me sou mal interpretada e por norma vejo a minha ajuda ser negada. Mas a gargalhada, desculpem lá, ninguém ma tira!

Profissionais do ouvido

Há pessoas que têm como vocação ouvir e não, não falo dos padres. Ouve-se tanto que até se deixa de saber falar e quando se torna necessário dizer qualquer coisa, o lugar do outro lado aparenta ser de sacrifício pois os anos de prática é na disciplina de ouvir e não de falar. Até uma simples dor de dentes pode ser escondida, por se ter perdido a prática de anunciar o que se sente. Como se chega aqui?
Para além daquela interrogação inicial com que começam as conversas, está tudo bem?, que não é uma pergunta verdadeira, não é uma preocupação, não é o reflexo de quem quer saber, mas um simples cumprimento, ninguém pergunta mais nada e perguntamo-nos, será que se eu dissesse alguma coisa, se deteriam a ouvir? A falta de prática de estar no lugar de quem fala, leva-nos a pensar que os outros não sabem ouvir. Se calhar sabem.
Mas se por um lado os problemas duns são tantos e tão grandes que não deixam margem para a expressão dos nossos próprios problemas, por outro lado, as felicidades dos outros trazem-nos notícias que não merecem ser mescladas com tristezas. Não merecem eles e não merecemos nós levarmos com o silêncio constrangido e surpreendido por nunca se terem dado conta que também tínhamos problemas e há anos que vivemos lado a lado, dia a dia; não damos sinais? Fechamo-nos assim tanto? Não há indícios, tantos!, que temos problemas e preocupações como qualquer outra pessoa? Quando isto acontece somos olhados como um bicho raro, como se o facto de a vida não nos correr bem trouxesse um desequilíbrio às conversas que se costumam ter; como se também eles passassem a ter a grande responsabilidade de ouvir, de aconselhar, de perguntar, de estar disponível, de ser acessível, de serem todos ouvidos.
Quem errou? Quem não insistiu na pergunta do, está mesmo tudo bem?, ou quem insistiu na resposta do sim, tudo, e mudou logo o azimute perguntando, e tu, conta-me tudo.
O poder está na pergunta, em quem pergunta, como pergunta, porque a pergunta é que manifesta o interesse.
Passam-se anos nestas dinâmicas e um dia acordamos a saber ouvir tudo, sussurros e palavras lá ao longe, gestos, mas sem conseguirmos falar de nós. Um dia acordamos esquecidos de nós. Os outros já se esqueceram há muito e o que querem é mesmo o nosso aparelho auditivo.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

As portas do metro

As portas do metro abrem-se a cada estação. Vomitam gente que se apertou contra desconhecidos, evitando olharem-se nos olhos, sabendo que o constrangimento é comum e partilhado, gente que se aninhou como não se aninha em casa.
As portas do metro fecham-se a cada estação. Seguram oxigénios com sotaques africanos, crianças que esperneiam ao sono, adultos mecânicos que reagem ao som do nome da estação onde devem sair, mesmo que vão a dormir com baba a escorrer-lhes pela boca.
As portas do metro abrem-se e fecham-se a cada estação musicando as vidas com barulhos próprios que ninguém ouve e segurando pulsares sociais.

O desejo e os empregados dos cafés

Apetecer e desejar são duas coisas muito diferentes. O desejo está na esfera, desde logo, das grávidas, dos amantes e dos sonhos. O apetecer é da esfera dos caprichos, dos simples apetites, que podem mudar de azimute dum momento para outro.
E é assim que acho sempre estranha e desenquadrada a pergunta vinda dos empregados de café sobre se eu desejo um copo de água.
A bem da verdade, nunca tive assim tanta, tanta sede que d e s e j a s s e um copo de água. Eu quero água, não a desejo, como desejo, por exemplo, um mergulho, e exemplifica-se com o dito por meter água também, mas normalmente não se mergulha em cafés e não sou parente da Sininho.
O desejo de agradar, lá está!, é uma ilusão e mais uma vez confundem-se as coisas pois é um falso desejo: o empregado apenas quer mostrar que os nossos supostos desejos são ordens para ele, que se está nas tintas para o facto de querermos um copo de água ou desejarmos lambuzarmo-nos com um gelado. Ele quer é vender e contribui para isso colocando os nossos arbítrios ao nível do desejo, não percebendo o burlesco da sua pergunta que, dependendo também do empregado em si, pode ir do cómico ao ridículo.
Pobres dos que têm desejos como torradas aparadas ou cafés em chávenas largas que são simples preferências. Tristes os que desejam adoçante ao invés de açúcar ou levar metade do pão com manteiga embrulhado para comerem a meio da manhã que são meros contentos.
Que é feito do querer? Do preferir? Do apetecer?

terça-feira, 5 de julho de 2011

Sorte? Onde, onde?

O euromilhões é um propiciador do aumento das discrepâncias entre as pessoas. É encarado como um milagre, um enorme milagre que acontece a alguns, raros, raríssimos.
Se aquilo fosse distribuído convenientemente muitos ganhariam uma bençãozita, outros eram salpicados de água benta, o que já seria muito bom, e não nos ajoelhávamos a rezar tão fervorosamente todas as sextas feiras, quais muçulmanos.
Mas não, a coisa está feita para alguém ganhar, mas não os apostadores pois claro, e de vez em quando há um que leva, não o bolo todo, mas a fábrica de pastelaria inteira!
É claro que não é justo, mas aquilo também não foi criado pelas mãos da senhora de olhos vendados e os quinhões lá da balança são fruto dum jogo e, como qualquer jogo, raramente se ganha.
É curioso como este tipo de jogos podem ser catalogados com expressões antónimas e, assim mesmo, verdadeiras: há quem lhes chame jogos de sorte e há quem lhes chame jogos de azar. Mas joga-se sempre, e joga-se na esperança da sorte, embora o que aconteça dia após dia é cantarmos as palavras de Renato Teixeira, imortalizadas por Elis Regina, se há sorte, eu não sei, nunca a vi.

Requiem por um par de chinelos

Há quatro anos comprei dois pares de chinelos de enfiar no dedo no mercado: uns pretos para mim e outros azuis escuros para o meu filho. Três euros o par, cinco euros dois pares. O delicado número 45 que ele calçava, o facto de os levar para os treinos e usá-los nos banhos diários, deve ter ajudado a que se tenham partido no ano seguinte. Mas o meu par durou, durou e dura.
Usados diariamente em casa o ano inteiro e em todo o lado assim que o sol se deixa de vergonhas, já fizeram muitos, muitos quilómetros e têm uma sola que parece uma fina panqueca. Há umas semanas encontrei uns bocadinhos de borracha preta na sala e demorei a perceber de onde tinham vindo. Quando percebi o que era, lavei-os e deixei-os secar, mas depois, a vontade de os usar foi mais forte: a minha tara por botas, sapatos e tudo o que seja de calçar, teve aqui um ponto muito alto. Estes chinelos conhecem o meu pé como algum outro calçado, seguram-me com calças e saias, na praia e no sofá; são os únicos que têm o privilégio de poderem estar nos pés e em cima do sofá. Calço-os e sinto-me vestida. Imunes ao suor ou à sujidade da sola dos pés. Já adormeci com eles, viajei por muitos sítios, escorreguei em momentos de chuva inesperada, corri e transportei-os na mão quando caminhava na água ou na areia.
Hoje vi que têm um corte por baixo. É definitivo. Lembrei-me do dia que descobri que um dos meus cães estava doente. Era definitivo e foi rápido. Sei que os vou calçar amanhã e que os vou matar definitivamente, talvez até durem mais dois ou três dias, mas vão ficar até ao último sopro, e depois, depois vão para a galeria dos inesquecíveis, dos verdadeiros companheiros.
Todos conhecemos pessoas que se dizem amigas e que não fazem metade do que um par de chinelos de enfiar no dedo faz por nós.
Posso ter outro par de chinelos, terei com certeza, mas não há substituições.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Twilight zone

A cena é verdadeira e passa-se no gabinete da médica, onde fui há meia dúzia de dias.

- Gosta de praia, já vi…
- Sim, e exagerei na última vez que fui por isso tenho a pele toda a saltar
(Começa a ouvir-se a música do twilight zone)
- Exagerou nada… eu adoro praia e só não fico o dia inteiro porque a minha família não deixa… perdoa-se o mal que faz pelo bem que sabe. Toma algum medicamento?
- Não
- Tem alguma queixa?
- Não
- Óptimo, então está tudo bem
- Apenas tenho excesso de peso.
(Recomeça a ouvir-se a música do twilight zone)
- Não concordo nada: as pessoas são todas diferentes e se não tem razões de queixa de saúde, não vá agora arranjá-las. Fuma?
- Sim
- Ah, isso é que vai ter que deixar
- Tem razão, eu ando a fumar um cigarro electrónico, como lhe chamam, e acho que está a dar resultado.
(Música do twilight zone, outra vez)
- Mas cuidado, pois se acha que tem excesso de peso e está a pensar em deixar de fumar, isso pode ser difícil, sabe que vai ganhar peso?
- Sim sei, eu já deixei há poucos meses e ganhei mais de cinco quilos num mês
- Pois… olhe o melhor é diminuir, mas não deixe mesmo senão já sabe, nunca mais perde os quilos a mais.
(Genérico do twilight zone)

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Um must da praia 2

Dias de calor intenso com mergulhos em ondas de dimensão média – que eu cá sou um bocado medricas com a altura das ondas – são das melhores coisas do mundo.
Só há um elemento capaz de estragar esta maravilha: o vento. Porém, há que tirar partido de todas as situações e quando se levanta o vento não nos devemos levantar da toalha, antes pelo contrário.
Se estivermos atentos veremos todo o tipo de pessoa a correr pela praia, normalmente na mesma direcção, a do vento. Precisamente. Correm atrás dos seus chapéus-de-sol que se julgam borboletas, levantam a estaca e voam dali para fora, imunes a tudo e a todos, vazando olhos pelo caminho com as varetas em riste e o tecido bem esticado, a brincar como se fosse uma vela latina.
Alguns proprietários pedem ajuda aos banhistas: sem fôlego mas de braço esticado, dão sinal para parar a marcha do chapéu que as mais das vezes não se deixa apanhar e acaba encalhado noutro chapéu, numa geleira ou nos costados de alguém.
Há estatísticas oficiais que comprovam que o dono do chapéu a meio da correria já tem vontade de desistir, não porque queira comprar um novo, mas pela vergonha que a maratona sempre acarreta com risos provenientes de todos os cantos do areal.
Isto é comprovado pelo facto de, quando o chapéu decide fugir, haver sempre, mas sempre e a menos que o dono esteja sozinho, uma ligeira discussão para se saber quem deverá ir atrás do chapéu, com promessas de fazer isto e aquilo em compensação de não desatar a correr pelo piso difícil que é a areia e, pior, fazer o caminho de regresso por entre gargalhadas do público e caras furiosas com varetas de comportamento duvidoso.
Volto a questionar-me como é que ainda há quem diga que na praia não se faz nada?

Um must da praia

Um must da praia são os buracos na areia, a que os autores teimam em chamar… castelos. Em quase meio século de praia nunca vi alguém construir um e poucos são os que humildemente assumem que vão fazer um simples buraco.
Por norma estes engenheiros são pais de crianças de pouca idade e com frequência os seus petizes desistem da obra ao fim de um quarto de hora ou pouco mais; há os pais que desistem em simultâneo mas há aqueles que, parecendo ter contrato de empreitada, continuam a escavar furiosamente e aumentam o buraco /castelo criando na zona um ar de impacto de meteoro.
As crianças têm a maravilhosa característica de não precisarem ser apresentadas sequer para fazer amigos e rapidamente o buraco/castelo se enche de utilizadores. Nesta altura os pais empreiteiros dividem-se em dois grupos e aqui reside o fantástico de tudo: há os pais que fomentam a sobrelotação da construção e há os pais que querem que o pobre do buraco se mantenha como um resort privado da sua prole, e que não obstante não serem directos afugentando as outras crianças, mas tudo fazem para que se afastem. A cereja em cima do bolo aparece quando os filhos do construtor se afastam para ir à água, por exemplo, e ele fica ali a guardar o buraco, como quem guarda uma herança que quer deixar aos seus sucessores. Esta pose é acompanhada de gritos para que se despachem e venham brincar no castelo, qual Martim Moniz ali entalado entre a vontade de mergulhar e a necessidade de preservar o seu árduo trabalho…
Entretanto já a figurinha do mestre de risco adquiriu um ar cómico pois as suas crias antes de irem à água depositaram-lhe os respectivos chapéus na cabeça, que ele transporta como se fosse a própria Marge Simpson.
Noutra fase do processo aparecem outros pais, que se aproximam devagar, tentando perscrutar se o homo habilis é sociável ou não. Aproximam-se de cócoras, aos saltinhos para, por um lado, acompanhar a altura e o andamento dos seus rebentos e, por outro, para garantirem uma certa distância e não ficarem muito à mercê duma eventual fúria do construtor que, com frequência, está fortemente armado com pás, ancinhos, baldes e outras artimanhas.
Já se verificaram casos em que o dono da obra põe o outro a correr dali para fora, mas também já aconteceu que os dois se aliassem para aumentar a fortificação, vulgo buraco na areia. Chama-se a isto fazer uma aliança e não fosse dar-se o caso de nunca mais se verem na vida, haveria muitas probabilidades de casarem os filhos anos mais tarde. Estas probabilidades aumentam, bem como a solidez da aliança e a profundidade do buraco, se ambos forem do Benfica.
E ainda há quem diga que na praia não se faz nada...

quarta-feira, 22 de junho de 2011

A rainha da noite

Tudo começou quando recebi uma chamada do Vasco Marques no meu telemóvel pessoal. Como tenho um colega com esse nome, a primeira coisa que me veio à cabeça depois de ouvir o nome do outro lado da linha foi, porque raio é que ele não liga pelo telefone fixo? Afinal era outro. Confirmou se eu me inscrevera para o Quem quer ser milionário? e no meio de muita boa disposição fez-me uma bateria de 20 perguntas da, chamada, cultura geral e as respostas foram suficientes para me colocar no concurso.
Ontem, seis da tarde, Paço de Arcos, estúdio da Valentim de Carvalho, e lá estou eu para a gravação, acompanhada pelos meus pais e pelo Marcelo, não porque eu tenha medo de andar sozinha, mas porque a Dona Prata não perderia a hipótese de ir comigo por nada no mundo.
O coração da selva amazónica que uso diariamente na cabeça e ao qual chamo cabelo foi arranjado pelas mãos duma menina muito simpática que chamava a toda a gente… amor. É fofo e querido e além disso, é a melhor forma de não termos que decorar nomes! A simpatia da moça contrastava um bocado com a sisuda cara da maquilhadora que, não obstante, me deixou com ar de quem tinha acabado de aterrar vinda das Ilhas dos Mares do Sul.
A espera prolongou-se, pois trocaram a ordem dos programas e os famosos entraram primeiro, Herman José, Ana Bola, Maria Rueff, Joaquim Monchique, Nilton e João Paulo Rodrigues que só não deitaram o palco abaixo porque sabiam que havia mais gravações a seguir.
Ofereceram-nos o jantar mas, acima de tudo, ofereceram-nos uma simpatia incrível, aumentada pelo constrangimento do atraso e consubstanciada na presença especialmente do Bruno, a boa disposição sul alentejana em pessoa, e de outros colaboradores do programa cujos nomes não fixei mas entre os quais estava também o Vasco Marques.
O José Carlos Malato é uma força da natureza pois não se cala nunca e tem sempre qualquer coisa a dizer, mesmo que esteja exausto duma maratona com nomes como os já referidos Herman ou Ana Bola, corredores de fundo que puxam até mais não. Gravar três programas de seguida não é brincadeira: em casa só vimos a parte calma, tal como o pato que nada serenamente no lago, mas debaixo de água as patas abanam furiosamente.
Os concorrentes tiveram tempo de sobra para conversar e para se conhecerem minimamente: uns mais faladores e a mostrarem laivos daquilo que queriam fazer valer quando lhes fossem feitas as perguntas, outros mais reservados, mas todos bem-dispostos.
O jogo é assente na sorte, muito mais do que nos conhecimentos de cada um, mas também tem alguma estratégia. O risco de as coisas saírem como queremos é grande, e aquilo que eu queria era ser a última para ganhar pelo menos 500 euros.
Das conversas tidas antes com os meus parceiros de concurso percebi que a terceira cadeira era a melhor e por um acaso acabei sentada nela. Também decorrente das conversas tidas em bastidores o concorrente antes de mim usou uma estratégia para me eliminar, legítima diga-se de passagem, que consistia em ‘oferecer-me’ uma pergunta sobre futebol, assunto sobre o qual sou a maior expert, desde que esteja sozinha…
Já me via a dizer adeus e a sentar-me obedientemente nas bancadas, quando surpresa das surpresas, acertei no raio da resposta! A seguir aparece uma perguntinha cuja resposta eu tinha na ponta da língua; porém, era elevada a probabilidade do concorrente seguinte não a saber e eu depositei-lha nas mãos e ele errou. O prémio desceu, é claro, mas nesse momento, e fiando-me em hipóteses, percebi que seria a última pessoa! Se tivesse respondido, acertava, mas diminuía a possibilidade de ser a última, talvez nem voltasse a sentar-me na cadeira vermelha (que é muito menos incómoda do que parece) e por isso arrisquei com base no ditado que diz mais vale um pássaro na mão que dois a voar.
Cognomes de reis, medidores de velocidades do vento e escritores vêm ainda dar-me alguma sorte pois deram azar aos outros.
E foi assim que fiquei no papel de rainha da noite…

terça-feira, 21 de junho de 2011

Vale

Vale tudo. Vale de desconto. Vale de Cambra. Vale postal. Vale arrancar olhos. Vale de lençóis. Vale o peso em ouro. Vale a pena. Vale Paraíso. Quanto vale? Vale glaciar. Vale de compras. Vale e Azevedo. Vale mil palavras. Mais vale tarde. Vale do Tejo. Cheque vale. Vale oferta. Vale de transporte.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

‘Podíamos viver sem Criar Afectos? Podíamos, mas não era a mesma coisa…’

Os meios de comunicação social anunciam em horário nobre e em manchetes a morte de idosos abandonados pela família, cuja ausência nem foi notada pelos vizinhos e com quem as autoridades se preocupam quando há mandatos de tribunais para cumprir. Abrem-se as portas e multiplicam-se espectáculos macabros.
Mais do que os corpos, são os relacionamentos que estão em avançado estado de decomposição, principalmente com a população sénior.
Porém, nem sempre é assim.

O Teatromosca Companhia fez ontem a estreia da peça Europa, com textos de John Berger. Até aqui podíamos pensar que foi só mais uma estreia duma peça de teatro, como várias outras. Mas não é.
Fazendo jus à sociedade do relacionamento, ao convívio entre diferentes gerações, à partilha, ao desafio, à inovação, à novidade, à não discriminação, ao sentido comunitário, à verdadeira cidadania activa, vários dos actores estavam a iniciar-se, rondam todos os setenta anos e pertencem ao Projectos Criar Afectos.
O Criar Afectos – filho da Junta de Freguesia de Rio de Mouro e centrado na aura da Marisa Pereira, mais do que a, importantíssima, colónia balnear com que começou o Projecto há dois anos faz muitas mais coisas:
- Dignifica e qualifica a vida dos idosos em Rio de Mouro, Sintra.
- Qualifica a vida dos familiares dos idosos
- Projecta vivências do passado no presente e no futuro
- Dinamiza a vida da Freguesia
- Integra a população sénior e não discrimina
- Faz verdadeiro trabalho social
- Descobre segredos, não porque estivessem escondidos, mas porque nunca tiveram oportunidade de ser revelados.
- Cria uma rede de amizade, solidariedade e conforto
- Faz sorrir.
Ontem na estreia não havia outsiders, eram todos gomos da mesma laranja. O texto não era fácil para principiantes mas eles mostraram-se à altura. Parabéns ao encenador, Pedro Alves. Parabéns aos actores. A todos os actores.
Mais do que ter pena de não estarem lá críticos de teatro, gostaria que lá estivessem responsáveis institucionais, que tirassem o modelo, que copiassem a forma, que abrissem os olhos para ver!
Não é preciso estar sempre a inventar a pólvora, é necessário e urgente multiplicarem-se as boas ideias, adaptá-las e pô-las em marcha.
E o Criar Afectos – só pelo nome! – é decididamente uma excelente ideia, posta em prática e com um enorme sucesso.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Cabeleireira, oferece-se!

Quando dizemos cortei o cabelo, estamos a mentir, portuguesmente falando, pois na verdade foi outro alguém que o cortou e não nós.
Ontem cortei o cabelo. Nesta afirmação leia-se um acto pessoal, de tesoura em punho e madeixas a cair pelos ombros. Fui eu, pela minha mão: segurei as pontas espigadas e lá vai disto. Segurei as pontas espigadas e o que não era ponta nem estava espigado, mas o resultado foi bastante satisfatório, principalmente porque não me preocupo muito com uniformidades e até acho engraçado estar mais curto dum lado que do outro. Estou na moda!
Desde há alguns anos que pinto as unhas sozinha, coisa que antigamente jurava a pés juntos não ser capaz de fazer sozinha: via a mão esquerda a tremer, o pincel a deslizar entre os dedos a quilómetros das unhas, as gotas de verniz a cair antes de chegarem ao sítio certo. Mas como diz o ditado, a necessidade aguça o engenho e hoje sou quase profissional da coisa.
Pintar o cabelo era outra coisa digna de orquestra, para mim que nem pífaro era capaz de assoprar. Hoje sou uma pró da matéria embora seja como aqueles pintores de paredes que precisam de tapar todos os milímetros quadrados de chão para que as pingas não estraguem o soalho: quando dou conta a tinta escorre-me pelo pescoço e os óculos antes azuis estão mais encarnados que uma capa de toureiro.
Eu que prego que não conhecemos os nossos limites e que somos capazes de tudo, ora bolas, não havia ser capaz de cortar o cabelo? Inclino-me perante a profissão de cabeleireira, tal como outra qualquer, mas, desculpem lá, valores mais altos se levantam e não vi alternativa.
O meu filho aprovou, hoje nos transportes ninguém olhou para mim de lado e no meu trabalho só comentaram que estava mais curto! Yes!

terça-feira, 14 de junho de 2011

Que dia pá, que dia!

Sexta-feira foi dia de ménage à trois: o V., eu e uma morena chamada Papa-léguas em cima da qual estivemos o dia todo. O V. tem também uma loura mas eu não vou à bola com ela porque nos obriga a estar praticamente deitados e aquilo mete-me medo. Experimentei uma vez há alguns anos e não me sobram saudades. Já a morena tem dois lugares onde vamos bem sentados, direitos, a levar com o vento na cara pois a opção é sempre de não baixar a viseira do capacete.
Há séculos que tínhamos combinado visitar um lugar onde há muitos anos o pulguedo nada pode contra a força da leitura, uma descrição que adoro pela veracidade e pelo simbolismo e que não podia ter outro protagonista. Não encontrámos a casa, mudado estava o local, com quintais arranjados e paredes brancas, bordejado por serranias verdes que se mantêm sempre assim à força de levarem com a brisa marítima que vem do Oeste.
Sardinha da Nazaré ao almoço a escorregar garganta abaixo com as Berlengas ali diante, que se aproximaram só para que as pudéssemos ver bem e logo mais uma lembrança e uma história regada com gargalhadas, de quando se fazia mergulho em gruta berlenguense e se aguentou o mais que se pode debaixo de água para que a barcaça com turistas passasse e no último instante lá se empurra o corpo em direcção à mescla de gases a que chamamos oxigénio e os turistas aos berros a pensar que o monstro do Loch Ness estava nas Berlengas a banhos e afinal era o V. que já tinha falta de ar!
E quem tinha falta dum dia assim era eu: com risos e conversas e livros e aquela memória absolutamente espantosa que me deixa sempre boquiaberta com a precisão e a infalibilidade.
O fim-de-semana teve quatro belos dias, mas o primeiro valeu por umas férias.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

(In)Disponibilidade

A indisponibilidade dos amigos é um contra-senso? É, a menos que sejamos nós a criá-la. A menos também que chamemos amigos a pessoas que conhecemos há muito tempo, vários anos, para as quais estamos disponíveis mas onde o vice-versa não é bem assim.
Um determinado problema que nos cria ansiedade em discuti-lo, partilhá-lo e torná-lo mais leve pode acabar por ser guardado a sete chaves.
Vamos contar a alguém que anda feliz da vida com olhos brilhantes, que só vê cores suaves e no meio dessa felicidade reencaminha todas as conversas para as nuvens onde vive?
Vamos contar a alguém que tem um problema semelhante, mas mais grave e, dessa forma, vamos lembrá-lo que ele não faz nada para solucionar o seu próprio problema?
Vamos contar a alguém que se cansa de nos convidar para estarmos juntos e nós dizemos sempre que sim, mas nunca arranjamos tempo para mais do que um telefonema?
Vamos contar a alguém que, sempre que falamos com ele, nos vai dizendo como anda atarefado e atira-nos com as suas mil missões impossíveis antes mesmo de termos terminado o nosso Olá?
Vamos contar a alguém que só sabe falar dum assunto e aproveita todos os intervalos da chuva para se esgueirar para essa posição de conforto?
Vamos contar a alguém que nos ouve e responde invariavelmente com um pois, é a vida…?
Vamos contar a alguém que sentimos que nos ouve como se pagasse uma dívida?
Qualquer um destes bateria a pala na entrada duma festa, dum jantar, duma comemoração; são bons foliões. Quase todos viriam a meio da noite se telefonasse a pedir ajuda; são bons bombeiros. Alguns viriam sem sequer perguntar porquê; são bons católicos. Um ou outro consegue discernir na minha voz que a vida está armada em cabra; são perspicazes. Há quem insista; é militante. Mas estar verdadeiramente comigo, estar mesmo, só a solidão. Nunca a mando embora pois faz-me companhia.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Asfixia

A pelúcia da pele explode em garras afiadas quando percebo que tenho uma missão impossível: verificar tabelas com percentagens, gráficos, valores que se alinham e que me riem com escárnio, sabendo que o desprezo é recíproco, mas que terei que os sentar ao colo e dar-lhes mimo. Faz parte do meu trabalho e não digo que não.
Mas a seguir tenho que domar as feras: segurar as mãos, deitar fora a caneta, entalar as teclas. No ringue digladiam-se querer e dever e eu grito pelo querer!
Odeio estatísticas, elas sabem e dizem-me com a mais repugnante calma, Temos pena! Queres escrever letras? Desprezas-nos? Somos as ovelhas negras da tua amada leitura? Azar… precisas do dinheiro no fim do mês, verdade? Então, lê-nos! Cruza informação, conclui face ao que te dizemos, explora-nos!
Como ondas em mar revolto os números entram-me pela boca e asfixiam-me. Ninguém vê. Mantenho o sorriso e apodreço por dentro.

Toalha de praia com riscas verdes verticais

Vou sentada a ler. De repente vejo uma das minhas toalhas de praia a entrar na carruagem do metro. Apoia-se nos ombros duma mulher e desce-lhe pelo corpo, tapando-lhe o rabo. É grande, eu sei, conheço-a bem pois uso-a há anos.
Toda a minha atenção está centrada na toalha a quem não me recordo ter dado autorização para se ausentar de casa. A mulher tem um ar descomprometido onde leio que foi a toalha a ir ter com ela e não o contrário.
Que fiz eu? Ainda ontem a lavei procurando um programa onde a centrifugação não desse muitas voltas! Será do amaciador?
As minhas toalhas de praia nunca estão no escuro, vêm a luz do dia o ano inteiro, assim como os bikinis e demais acessórios de praia, sempre a espreitarem assim que se abre uma gaveta. As toalhas nem em gavetas estão e sim em prateleiras cujo conteúdo está à mostra; nunca as olho como peças em cemitérios ainda que temporários, fazem-me falta o ano inteiro, só de as olhar já me sinto melhor, principalmente naqueles dias em que se reinventam cinzentos-escuros em céus que, como toda a gente sabe, são azuis!
O cheiro duma toalha de praia é único. É daqueles cheiros que se absorvem e ficam cá dentro, em memória, principalmente se os aspirarmos com os olhos fechados.
Cogitava eu acerca da ingratidão, quando ouço a toalha rir-se e dizer-me:
-Não sou quem pensas e, sim, esta senhora tem gostos esquisitos… para além de mim, irmã da tua toalha de praia, e agora feita manta, tem uma saia feita duma toalha de mesa e um casaco que em tempos foi uma toalha de renda.
Credo… tanta toalha, penso eu.
A toalha de praia continuou:
-Mas não se fica por aqui: a gabardina era uma antiga toalha de plástico e ela usa como bloco-notas um maço de toalhetes. Tem um cachecol feito de uma toalha de baptismo e já ouvi lá por casa histórias perversas com toalhas de rosto mas nem quero pensar nisso…
- Próxima estação: Marquês de Pombal!
Levanto-me para sair. A toalha sorri-me abanando levemente as pontas e dizendo adeus.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Morra a indiferença!

Quarta-feira, final do dia. Conduzo e converso com uma amiga que vem a meu lado. De repente, um homem que caminha no passeio cai, ficando atravessado na estrada.
Estou parada no semáforo e espero dois segundos, é o tempo que dou ao homem e a mim própria para verificar se apenas tropeçou e, se assim fosse, levantava-se, ou se precisa de ajuda. Precisou de ajuda.
Os dois segundos ainda não tinham passado, o homem estava deitado com o corpo metade na estrada e metade no passeio, quando passa um táxi em sentido contrário que LITERALMENTE se desviou da cabeça do homem, deitada no alcatrão, e continuou a sua marcha.
As pessoas que auxiliam o homem são três: uma mulher que vinha atrás do taxista, a minha amiga e eu.
O homem está bêbado. Da porta taberna de onde saiu – eu vinha devagar e por mero acaso vi o homem sair da taberna – os rostos alinham-se a olhar, de braços cruzados.
Pára uma rapariga que se põe a telefonar a pedir ajuda.
Pergunto às caras que olham da porta da taberna se o homem saiu de lá. Pergunto com raiva, sabendo que os vou ouvir mentir e na mentira anunciada aumentar ainda mais a minha raiva. E eles fazem-me a vontade. O coro diz, Não, aqui não esteve.
Junta-se mais um rapaz, pouco mais que um adolescente e sugere a organização dos carros que impedem o movimento da via nos dois sentidos.
Puxamos o homem para cima do passeio que estava limpo em comparação com o nojo que permanecia à porta da taberna. Impávido.
Não era um homem que estava deitado no chão, era um resto, um desperdício, cuja última utilidade fora pagar o álcool que consumira naquele estabelecimento. A partir daí, é cinza que sopramos para longe de nós.
Não posso afirmar que bebeu naquele sítio, não vi. Mas se não o tivesse feito o crápula que estava à porta teria afirmado isso mesmo, Ele entrou já embriagado e eu não lhe vendi nada…
Mais que ver a miséria humana ali condensada e estendida no chão, custou-me ver a indiferença e, pior, um certo brilho no olhar que denunciava as palavras, É para aprenderes…
O meu carro era o que mais incomodava o trânsito, intenso aquela hora. Sem sítio para parar em condições de segurança acabei por deixar o homem com o cuidado dos outros que se preocuparam com ele, poucos, mas atentos.
Deixei a minha amiga em casa e fui à polícia.
Posso aborrecer-me com certas pessoas, posso zangar-me com o meu filho, posso perder amigos, posso ser criticada de todas as formas e feitios, mas há alguém com quem eu tenho que viver em paz, com a minha consciência.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Sublinhando Palmeiras Bravas

Há algumas semanas emprestaram-me Palmeiras Bravas, de William Faulkner, e disso dei aqui conta. Porém, o livro contém uma particularidade notável, a que o actual proprietário faz alusão numa nota que escreveu em 2009 quando o comprou, como ele diz, na Livraria Utopia do Sr. Herculano Lapa: o livro tem imensos sublinhados e partilho com o proprietário o desejo de ter conhecido esse primeiro leitor, o dos sublinhados.
Porquê estas frases e não outras? Porquê para além dos sublinhados, uns círculos a envolverem certas palavras? Porquê? Não há marcas de sublinhados apagados o que me leva a concluir que não houve indecisão no sublinhar, que foi firme e pensado. Sentido. Muito sentido, como se pode perceber se lermos só os sublinhados.
Os bolds são das palavras com círculos. Os parágrafos dividem os sublinhados.
Se por um qualquer milagre o leitor que fez este trabalho reconhecer aqui a sua marca, por favor entre em contacto comigo.
Sendo um texto de Faulkner, tem edição duma pessoa desconhecida a quem presto homenagem.

“A mulher de cabelos negros e olhos amarelados duros num rosto cuja pele se esticava retesa sobre os malares proeminentes
Apenas ali sentada na completa imobilidade que o médico não precisava da confirmação do aspecto tenso da pele nem da vazia e retirada fixidez dos aparentemente invisuais olhos para logo reconhecer – essa completa e imóvel abstracção da qual até a dor e o terror estão ausentes, em que a criatura viva parece escutar e mesmo observar algum dos seus próprios órgãos frouxos, o coração, por exemplo, o secreto e irreparável escoar do sangue.
Mas não era o coração
Tenho imenso tempo de saber ao certo que órgão está ela a ouvir
Duros olhos de gata
Mas não o coração
Os vazios e ferais olhos pregados nele, a quem, de conhecimento certo que ele tinha, mal poderiam ter alguma vez visto, com uma ilimitada e profunda aversão.
Não era a ele que a aversão se dirigia. É a todo o género humano.
Não à raça humana mas à raça dos homens, a masculina.
Sim, sim. Alguma coisa que a inteira raça dos homens, os machos, lhe fez ou ela supõe que fez.
Negro vento cheio de selvático e seco som das palmas.
O médico bem os ouvia, aos dois pares de pés descalços; era um som como se estivessem dançando, furiosamente e infinitesimalmente e sem sapatos.
Era um riso duro e não alto, como vomitar ou tossir.
Apenas com o abstracto e furioso desespero que lhe vira nos olhos por sobre o prato de gumbo ao meio-dia.
Parecia-lhe que os via: os anos vazios em que a juventude se desvanecera – os anos para as audácias e para os absurdos, para os efémeros, trágicos e apaixonados amores da adolescência, raparigas e rapazes juntos, a lúbrica, importuna e palpitante carne, que não tinham sido seus.
Repudiei o dinheiro e, por isso, o amor não abjurei dele, repudiei-o. Não necessito dele; daqui a um ano ou dois ou cinco anos, saberei que é verdade o que agora julgo ser verdade: nem mesmo necessitarei de precisar.
Tens paz, não precisas de mais nada.
Ela fitou-o, e ele viu que os olhos dela não eram castanhos-claros, mas amarelos como os de um gato, encarando-o com a especulativa sobriedade que podia ser a de um homem, firmes para lá do mero à vontade, especulativos para lá de encararem.
Não sei. Nunca tinha estado apaixonado.
Poderia ter descoberto que o amor não existe, mais do que a luz do Sol, apenas num lugar e num momento e num corpo, para toda a terra e os tempos todos e toda a plenitude respirada).
Ele compreendera a intuitiva e infalível perícia de todas as mulheres nas questões práticas do amor.
Qualidade profundamente trágica que ele sabia (estava aprendendo depressa) não ser peculiar dela, mas atributo de todas as mulheres neste instante de suas vidas, que as reveste de uma dignidade, quase pudor, que se transmite e cobre mesmo a última e ligeiramente cómica atitude da derradeira entrega.
E nada de divórcio.
Que o amor e o sofrimento são a mesma coisa e que o valor do amor é a soma do que é preciso pagar por ele, e que sempre que ele sai barato foi que a nós mesmos nos enganámos.
Então, pela primeira vez nas duas da vida, viu-a chorar. Ali sentada, com o rosto áspero, contraído, selvático, sob as lágrimas brotando como suor.
Posso esconder atrás da bata branca, tapar a cabeça com a rotina.
Pensando em como talvez não é afinal com o coração, nem com a sensibilidade, que a gente sofre, mas com a nossa capacidade de dor ou vaidade auto-ilusão ou talvez meramente masoquismo.
Gosto da água
É onde vale morrer.
Selvático alheamento e magoou-o um pouco; ele tornou a pensar, Há uma parte dela que não ama ninguém, coisa nenhuma.
Ouve, há-de tudo ser lua-de-mel, sempre. Até que um de nós morra. Não pode ser outra coisa. Ou céu, ou inferno: nada de purgatório pacífico, seguro e confortável, entre ambos, para tu e eu esperarmos, até que o bom comportamento ou a resistência ou a vergonha ou o arrependimento levam a melhor de nós.
O amor. Dizem que o amor morre entre duas pessoas. É falso. Não morre. Deixa uma pessoa, vai-se embora, se a pessoa não é bastante boa, bastante digna. Não morre; a pessoa é que morre. É como o oceano: se não fores bom, se começares a cheirar mal dentro dele, ele cospe-te para morreres noutra parte. Morres na mesma, mas eu antes quero morrer no oceano do que ser cuspida para uma praia perdida e secar lá ao sol até tornar-me uma mistela fedorenta sem nome
Considero o amor com a mesma fé ilimitada, que ele me vestirá e me dará de comer.
Não há-de acontecer nada. Tenho só que habituar-me ao amor.
E a fome não está aqui… - bateu na barriga com a palma da mão. – Isso é só o resmungar das entranhas – A fome está aqui. – Tocou no peito. – Não te esqueças.
Não. Não, enquanto formos dignos de conservar tudo.
Dignos de nos ser permitido conservar. Conservar.
Nunca desistira, pensando em como antes pensara que havia uma parte dela que nem ele nem Rittenmayer jamais tinham tocado, e que nem sequer amava o amor.
Não só fêmea mas profundamente feminina.
O pior comigo é que sempre que digo a verdade ou uma mentira, parece que tenho de começar por convencer-me a mim mesmo
Já lhe disse que me sinto feliz. Nada me pode tirar tudo o que me foi já tirado.
Ele tornou a cismar, não na adaptabilidade das mulheres às circunstâncias, mas na habilidade delas em adaptarem o ilícito, mesmo o criminoso, aos padrões burgueses de respeitabilidade
Ainda não sabes que nem aos animais, graças a Deus, nós parecemos casados?
Qualidade que ela acabara por reconhecer – a impiedosa e quase insuportável honestidade. Não para convencer o cunhado mas para justificar a sua própria fúria, como num ligeiro pesadelo poderia estar segurando as calças que caíam; que não era sequer ao cunhado que falava, mas a si próprio.
Aquilo tornou-se-lhe uma obsessão; reconhecia calmamente que ele se tornara secretamente, calmamente e decentemente um pouco doido
Sensação de profundo desespero, nem mesmo ciente de que se preocupava, preocupando-se tão terrivelmente que nem sequer sabia; e olhava com uma espécie de esgazeado espanto para a solidão ensolarada, da qual ela emergia temporariamente e todavia em que ficava, e para a qual voltava, e reentrava na auréola que se demorava atrás dela.
Estou chateado. Estou morto de chatice. Não há nada aqui para que eu seja preciso. Nem mesmo a ela. Já rachei lenha que chegue até ao Natal e não há mais nada para eu fazer.
Ele não era sensível às cores.
Nunca te vi tão feliz. Pintaste um quadro, ou descobriste enfim que o género humano não tem sequer de tentar criar arte
Nunca na minha vida vi ninguém fazer tanto por ser um bom marido, como tu. Ouve, pateta. Se fosse só um bom marido, e comida e cama que eu queria, porque raio pensas tu que eu estou aqui em vez de voltar para onde tinha tudo isso?
Eu tinha-me transformado em marido.
Foi isto. Eu nem sabia, até ela me dizer que lhe tinham oferecido continuar no emprego.
O verme condenado, e cego para a paixão e morto para a esperança, e nem sequer sabendo, obnubilado e insciente em face da treva, do desconhecido, da subjacente e displicente aposta que estourará com ele.
A sabedoria de concentrar a atenção nos prazeres da carne: comer e evacuar e fornicar e estar sentado ao sol, que não há nada melhor, nada que se compare, nada no mundo se não viver o breve tempo em que nos é emprestado o respirar, estar vivo e sabê-lo.
Mas ela é mais homem do que eu.
Grande parte da coragem é uma sincera descrença na boa sorte. De outro modo não é coragem.
Mais um tempo, e a gente vestia-se e despia-se por dentro dos roupões, na presença um do outro, a apagávamos a luz antes de nos amarmos. É isto. Não é o gosto quem escolhe as nossas vocações, é a respeitabilidade o que faz de nós pedicuros e escriturários e coladores de cartazes e motoristas e escritores de caca.
Um dia, vi que tinha medo. E vi, ao mesmo tempo, que ainda teria medo fizesse o que fizesse, que teria sempre medo, por muito que ela ou eu vivêssemos.
Ainda tenho. E não do dinheiro. O diabo que o leve. Posso ganhar quanto precisarmos; mas o certo é que não tem limites o que somos capazes de inventar com o tema das perturbações sexuais femininas. Não é isto o que quero dizer, nem do Utah que eu falo. Falo de nós. Do amor, se quiser. Porque não pode durar. Não há lugar para ele no mundo de hoje, nem mesmo no Utah. Eliminámos o amor.
A gente viu-se enfim livre do amor como nos vimos livres de Cristo.
Eu não era. E depois Eu sou, e o tempo começa retroactivo, era e será
O instante da virgindade: essa condição, facto, que não existe efectivamente, excepto durante o instante que em sabemos que a perdemos.
Esperara demais. O que teria sido dois segundos aos catorze anos ou aos quinze foi oito meses aos vinte e sete.
E tenho medo.
Não tinha medo então, porque vivia em eclipse, mas agora estou desperto e posso ter medo, graças a Deus. Porque, neste Anno Domini de 1938, não há lugar para o amor.
Porque os corvos e os pardais são abatidos das árvores a tiro, ou se afogam nas inundações, ou são mortos pelos furacões e os incêndios, mas os falcões não. E talvez eu seja o consorte de um falcão, mesmo se sou um pardal.
Um frio que deixava uma inapagável e inesquecível marca algures no espírito e na memória, como a primeira experiência sexual ou a experiência de tirar a vida humana.
A coisa aqui é dispor-se a pessoa a sempre algum frio, mesmo na cama, e fazer a sua vida, e depois habitua-se e esquece, e então nem dá pelo frio, porque esqueceu o que era estar quente.
Está para acontecer-me qualquer coisa. Espera. Espera.
Quando as pessoas se amam a valer, realmente amam, não têm filhos, o sémen queima-se no amor, na paixão
Ela não é só mais homem e mais cavalheiresca do que eu, ela é melhor do que eu jamais serei.
As vezes, ele possuía-a (e ela aceitava-o) numa espécie de frenesi e de imolação, dizendo chorando: ao menos já não há perigo, não precisas de te levantar e apanhar frio.
Só uma coisa. Iremos para onde não haja frio, onde não custe tanto viver, onde eu arranje trabalho e a gente possa ter um filho, e não nos portais da escada. Não, não, orfanatos, não; portas de escada, não. Podemos conseguir, temos de conseguir; hei-de arranjar alguma coisa, qualquer coisa.
Abortador profissional.
Tem de ser. Não somos só nós dois já. É essa a razão, não vês? Eu quero que sejamos só nós dois outra vez.
Temos tão pouco tempo. Daqui a vinte anos já não posso, e daqui a cinquenta estamos ambos mortos. Depressa, depressa.
Estava de facto a aprender depressa as coisas que podia ter sabido antes dos dezanove anos)
“Mas este será nosso”, quando verificou que era isso, era isso mesmo.
Eu disse-te uma vez como cria que não é o amor que morre, é o homem e é a mulher, alguma coisa no homem e na mulher que morre, não merece mais a oportunidade de amar.
Beijou-a, como irmão e irmã se beijariam.
Estupor! Para poderes violar meninas nos parques, ao sábado à tarde!
E seremos outra vez só nós os dois para sempre.
Os dois, entre os quais algo como o amor teria existido outrora, ou que pelo menos haviam conhecido juntos a atracção física com que só a carne é capaz de apreender o pouco que jamais saberá do amor.
Nada. Nada? Sim. Nada contra ele.
Eu aguento-te.
Você assassinou-a
Então tornou-se ciente do seu coração, como se o profundo terror tivesse apenas esperado até ele estar pronto. Sentia o vento negro e duro, ao piscar no rasto da luz vacilante, até que esta passou a sebe e se desvaneceu
Como se estivesse bombando areia e não sangue, não um líquido, pensou. Tentando bombar. É este vento o que acho que não sou capaz de inspirar, não é que eu não possa de facto respirar, encontrar algures alguma coisa que respirar, porque na aparência o coração suporta tudo, tudo, tudo.
Portanto não é o vento o que não sou capaz de respirar talvez assim para sempre ganhei um pouco de sufocação
Não havia som ainda, salvo o vento
O negro vento sussurrava e murmurava nela, mas não entrava, não queria, não precisava.
E então não pode respirar e começou a recuar da porta, mas era já tarde, porque ela estava deitada na cama, a olhar para ele.
Para que não fique nada senão uma concha para o ar frio, o frio
Estou a aguentar. A aguentar para que possas ir, cavar daqui antes que eles cheguem. Tu prometeste. Quero ver-te ir. Quero ver bem.
É como fogo, Harry. Não dói. É como fogo. Não me toques.
Como a gente se divertiu, não foi, a gozar e a fazer coisas?! No frio, na neve. É no que estou a pensar. É por isso que aguento: a neve, o frio, o frio. Mas não dói; é só como fogo
Mas o coração
O coração
Pois que morra. Que morram ambos. Mas não nesta casa. Não nesta terra. Leva-os daqui para fora e que se esfaqueiem em ao outro à vontade.
Porque ela volta a si outra vez, não volta? Ela vai melhorar. Claro que vai.
Porque havia paz no quarto, fora-se a fúria.
Ouviu os passos na varanda, ouvia-os por cima do coração, do profundo e forte e incessante e superficial repuxar do ar, do respirar que por completo lhe fugia dos pulmões
E a maca sem parar, sugada pela varanda, para o espaço, ainda no mesmo plano, como se possuísse movimento e não peso.
Palmeiras pelintras
Agora é a caneta que não me deixa respirar
Eu amava-a
Um miserável provavelmente ter-se-ia posto a salvo de rebentar o próprio cofre. Teria chamado um profissional, um arrombador que não se importaria, que não amaria os veros flancos de ferro que continham o dinheiro.
E Wilbourne descobriu que, de facto, podia cheirar o mar, o largo marulhar negro e sem ressaca, que o negro vento desfazia.
Era o mar que ele cheirava; era o gosto da praia negra na qual soprava o vento, nos seus pulmões, no topo dos seus pulmões, atravessando isso outra vez, como ele esperava ter de, cada rápida e forte inspiração a tornar-se mais e mais superficial, como se o coração tivesse enfim um achado um receptáculo, um lugar de despejo, para a areia negra que dragava e bombava
Por um momento ele olhou para além dela, pestanejando as doridas e secas pálpebras
Mas não era um vento frio o que soprava para a sala, mas um quente que era forçado para fora dela, de modo que não havia nele cheiro da areia negra que ele soprava. Mas era um vento firme, podia senti-lo e vê-lo, uma madeixa do cabelo selvaticamente escuro e curto a mexer-se nele, pesadamente porque o cabelo estava ainda molhado, ainda húmido, entre os olhos fechados e o perfeito nós de cirurgião da lugadura que suportava o queixo dela.
Pequena morte chamada sono.
A prisão era de certo modo o hospital
A palmeira lá estava, mesmo fora da janela, maior mais pelintra
Também cheirava isso – o cheiro acre dos plainos salgados onde conchas e cabeças de camarão apodreciam
Sem tal realizar no espírito, assumira a imemorial atitude da miséria, agachando-se, pairando não em dor mas em completa e visceral concentração
Ele a olhar para a caneca de café numa espécie de desespero, que ainda não se fizera sentir antes e talvez não tivesse ainda começado sequer a fazer sentido
Pense nela
Quem me dera parar. Se eu pudesse. Mas não posso. Talvez seja isso. Talvez seja essa a razão… - Talvez fosse; era a primeira vez em que quase a atingia. Mas ainda não: e também isso estava certo; aquilo voltaria; descobriria, aprenderia, quando chegasse a hora.
Reaprendera a dormir
Se tivéssemos sabido, poderíamos ter vivido ali os quatro dias
Quatro dias. Não podiam possivelmente ter sido só quatro dias. Não podiam
Memória. De certo a memória existe independentemente da carne. Mas também isto não estava certo. Porque isso não saberia que era memória, pensou. Não saberia o que era o que recordava. E assim tem de existir a velha carne, a velha carne frágil, arreigada, para ser titilada pela memória.
Cianeto
Apenas memória, sempiterna e inescapável enquanto houvesse carne para titilar.
Pois não era só memória. Memória era só a metade disso, não era o bastante.
A memória era capaz de viver nas velhas entranhas ofegantes
Se a memória existe fora da carne, não será memória, porque não saberá o que lembra, de modo que, quando ela se tornou nada, então metade da memória tornou-se nada, e, se eu me tornar nada, então todo o recordar deixará de ser.
Entre a dor o nada, eu escolho a dor."