quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Como construir uma verdade em 30 segundos

As escadas do metro que dão acesso à plataforma avistam-se antes de as começarmos a descer. No átrio antes das escadas as pessoas amontoam-se, olham para todos os lados, uma ou outra voltam a sair. Ouço que não há metro.
Muitos outros passageiros ouvem o mesmo e nem passam as cancelas, ficam do lado de fora.
Não tenho grandes alternativas, esperarei e nem darei conta do tempo passar pois tenho um livro.
Vou desviando-me dos passageiros que vão ficando parados ao longo do pequeno percurso e começo a descer as escadas, ao fundo da qual está um homem sentado que, sem o saber, foi o causador do boato de não haver metro.
Atrás de mim vem uma mulher que cumprimenta o homem, ele levanta-se, desce os dois degraus que lhe faltam e entram juntos no comboio que está, quase vazio, na estação.
Enquanto isto, do cimo das escadas, alguém pergunta em vozeirão:
- Há metro?
Respondo que parece que sim e as pessoas começam a descer em catadupa. Os lugares ficam todos ocupados e há gente em pé, o que não costuma acontecer.
Pelas conversas percebe-se o motivo da avaria: alguém viu o homem sentado nos degraus e pensou que se ali estava era porque não havia transporte. Daí até que aquilo fosse verdade foi meio minuto.

Chernobyl, os caracóis e eu

Em tempos que já lá vão tive um chefe que tinha vivido vários anos na Rússia.
Um dia a mulher teve um ataque de vesícula e teve que ser operada de urgência. A intervenção cirúrgica, aparentemente a fazer de olhos fechados, tal era já a facilidade, acabou em complicações que a colocou mais para o lado de lá do que para o lado de cá. Razão: ela estava nas redondezas de Chernobyl quando, em 1986, se deu o acidente nuclear e as consequências ficaram para sempre, dando a cara nas situações e momentos menos esperados.
O chefe, que tinha vivido em aflição à data do acidente, voltou a viver em angústia e sobressalto naqueles dias, com a mulher hospitalizada e sem saber o que podia acontecer.
Para não variar, ao ouvir a palavra Chernobyl, ainda para mais com sotaque russo, eu ficava em transe: era longe, numa Rússia que na altura eu não conhecia mas adivinhava bela, exótica e cheia de surpresas, e equivalia a um pesadelo da humanidade e isso, para mim, era mais que suficiente para fazer vénia.
Este episódio foi o que me colocou mais perto de Chernobyl e, com excepção das notícias que surgem de vez em quando, a actual cidade-fantasma não tem sido alvo do meu interesse, nem se tem cruzado comigo. Até agora.
Há meia dúzia de dias foi-me diagnosticada uma necrose, receitados medicamentos com valores luxuosos, que não são comparticipados e cujo custo total tenho que pagar.
A bula de um dos medicamentos diz que foi desenvolvido ‘a partir da investigação na pele agredida por radiação em tratamentos oncológicos e em lesões e queimaduras de sobreviventes do desastre nuclear de Chernobyl’.
Leio e penso que da desgraça de uns vem o benefício de outros; imagino laboratórios com tubos de ensaio a fumegar, experiências a serem repetidas até à exaustão, cientistas suados e cansados, acordados dias e dias a fio, sem desistirem de encontrar a pedra filosofal. Imagino que para descobrir e produzir uma coisa que minimize os efeitos dum poderio como um acidente nuclear seja precisa quase uma intervenção marciana.
E continuo a ler a bula que informa que a fórmula ‘é baseada na secreção do Cryptomphalus aspersa’. E quem é o Cryptomphalus aspersa, quem é? Um pequeno caracol terrestre…
Ora isto põe-me logo a memória a funcionar e leva-me para anúncios da televisão e para uma banca algures num corredor do centro comercial lá perto de casa, onde se anuncia e vende um produto à base de baba de caracol, que eu sempre achei ser parente da banha da cobra.
Afinal parece que não é assim e que os molengas que se arrastam langanhosamente contribuem para a nossa salvação, amén!
Resta-me um problema para o qual não tenho solução: devo continuar a comer caracóis…?

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Viva o Folheto!

Ex.mo Sr. Dr., médico de família, médico particular, especialista, estagiário, e outros

Venho por este meio agradecer a ideia do folheto que vão criar para explicar às pessoas porque não devem pedir a substituição dos medicamentos nas farmácias.
Essa medida vai garantir várias coisas a bem da nação:
- Desde logo vai dinamizar uma qualquer empresa gráfica, e tão mal que andam as gráficas, com toda a gente a ter computadores e impressoras e a fazer as coisas em casa.
- Acelera-se a morte de muitos velhos que aí andam só a empatar: como não têm dinheiro nem para os genéricos, vão passar a comprar ainda menos medicamentos e, deixam de enriquecer as farmácias, cujas filas diminuem, deixa-se de lhes pagar pensões e passa a haver mais lugares livres nos transportes pois, como as pessoas têm que trabalhar até morrer, manda a boa educação que nos levantemos face a alguém de provecta idade que entre na carruagem.
- Os lares vão baixar os preços face à diminuição do número de clientes
- As famílias deixam de ter a maçada de sentar os avós à mesa de Natal

Como se calcula, muitos outros benefícios advêm desta medida, não me alongarei na lista.
Os farmacêuticos são uns bandidos com interesses que aos senhores doutores não passam despercebidos, por isso são doutores, mais espertos que todos os outros, mesmo os doutores que, sendo doutores, mas não são médicos, ora toma lá! E os clientes estão de conluio com as farmácias! Sei bem do que falo pois no sábado assisti à seguinte cena: a farmacêutica pediu 49 euros por um medicamento a uma mulher que, desavergonhada, pediu o medicamento de substituição e acabou por só pagar 19 euros!
Estão feitos uns com os outros!
Os motivos que os senhores doutores, os médicos, não são vocês!, alegam são de primordial importância, por exemplo para a minha vizinha do lado, mulher para mais de 70 anos de velhice que corre graves riscos se o medicamento não for e x a c t a m e n t e o que o médico lhe receitou e pode até morrer disso, verdade? Claro que não morre pelo facto de nem sequer os comprar! Pois se não os comprou foi porque não quis, e suicidar-se… olhem, está na vontade de cada um, não é assim? Isso é lá com ela e não com os senhores doutores, médicos!, que só se preocupam com o nosso bem-estar!
Demos graças por haver quem pense aqui no rectângulo! Quem se preocupe com as pessoas, quem não tem rabos-de-palha, quem, em suma, pensa no futuro!

sábado, 22 de outubro de 2011

Cal

Boa noite José Luís Peixoto
Hoje de tarde fui ao médico, sabe? Não sei como aconteceu, baralhei-me nas horas e cheguei uma hora mais cedo; fiquei na sala de espera que tem uma maquineta para tirar senhas muito sofisticada, uma para consultas a marcar, outra para consultas marcadas, mas para avisar na recepção que já chegámos, outra só para pedir receitas, outra para carimbar papéis depois de sairmos da consulta e outra para não me lembro. Há muitos velhos ali e raros são os que chegam e esticam o dedo e carregam na tecla certa à primeira; a maioria olha, olha, e não sai da indecisão até que uma alma caridosa pergunta o que foram fazer e lhes tira a senha, mas nem por isso lhes resolve o problema pois a chamada faz-se num quadro electrónico cheio de cores que se misturam, como se a falta de vista dos clientes não fosse suficiente para dificultar a leitura, e a idade ajudasse a percepção do raio do quadro.
Sabe José Luís, eu sei que as coisas se passam assim porque já lá fui mais vezes mas hoje não vi nada disto. Comecei a ler Cal de manhã no metro e acabei na sala de espera do consultório. Sei que leio depressa, mas a leitura da sua escrita dá-me urgências ainda maiores que as normais, o que se torna engraçado porque tudo é sereno e dá-me a sensação de que escreve devagar, inspirando e expirando cadenciadamente a cada nova palavra.
Ontem acabei de ler uma pedrada, daquelas que nos fazem sorrir e ficar felizes, mas a sabermos porque sorrimos e estamos felizes: Deixem Falar as Pedras; e há um ritmo, um bater de pezinho, um cantarolar na escrita do David Machado que não há na sua, que é duma tranquilidade que leva às lágrimas, duma envolvência que se mete no sabugo das unhas. Nenhum Olhar já me tinha feito chorar, e outras palavras suas, como o Livro também, estão aqui, ali, está a vê-los?, em lugar sempre aquecido, mas Cal tocou-me particularmente e vou explicar-lhe porquê.
Zé Luís, posso tratá-lo assim?, Zé Luís eu também sou alentejana e vi a minha avó Nicácia na Cal, e lembrei-me da caleira que estava sempre no quintal de cima, dura que nem cornos e que se reavivava todos os anos antes das festas de Nossa Senhora do Ó, quando era tudo caiado. Eu só ajudava se não estivesse com aquilo, que era a forma da minha avó aludir à menstruação, pois quem mexia em cal quando estava com aquilo ficava louca.
Os braços da minha avó eram moles como doce de ovos, mas eram mais lindos que os braços da Júlia da farmácia, ai pode apostar com quem queira! Quando a minha avó se zangava largava conhos até dizer chega, sem saber várias coisas, como por exemplo o que queria aquilo dizer e sem saber que levava til porque a minha avó não sabia escrever, só fazia o nome e punha o dedo. Mas sabia contar e desenvolveu um esquema próprio para a ajudar nas contas do talho e saber quanto era meio arráte, nome pelo qual chamava ao arrátel, quando uma família comia metade de metade de quilo de carne durante uma semana.
A minha avó fazia meia com um sistema de quatro agulhas, meias grossas de linha que aqueciam os pés do meu avô. O calcanhar era o mais difícil, mas ela fazia aquilo rápido e não se enganava. Quando não fazia meia, nos fins de tarde de Verão, sem tamanho que se conseguisse medir, penteava-se com um pente de finíssimos dentes e cá dentro eu sabia que ela tinha sido a inspiração para a bela infanta, no seu jardim assentada, com o pente de oiro fino, seus cabelos penteava. Que dúvida podia haver?
No dia da procissão a minha avó tirava o avental, nos outros dias mudava-o. Mesmo quando vinha a Lisboa, que detestava, vinha de avental, um avental próprio para sair onde ela guardava o lenço para se assoar e para lhe limpar lágrimas que sempre lhe escorriam sem saber porquê. Eu é que não sei porquê, percebe Zé Luís?, ela talvez soubesse.
A avó Nicácia e o avô Gualdino – e aqui paro de escrever, procurando as palavras certas que, não só não encontro, como parece-me bem que não existem e terei que procurar umas aproximadas – a avó Nicácia e o avô Gualdino são presenças muito fortes na minha vida e o Zé Luís hoje apareceu-me de mão dada com eles, assim, de repente, de forma inesperada, até à sala de espera do consultório, onde qualquer um dos que lá estava podia ser um deles, mas apenas um estava com alguém que podia ser eu. Os outros estavam sozinhos.
A casa da minha avó tinha três quintais: o quintal, o quintal de cima e o quintal das galinhas.
O quintal era florido, como a dona, na altura certa ficava com um chapéu de videiras que nos abrigava a nós também daquelas calorinas e tinha um poço; era no quintal que estava o tanque que deu origem a muitos gritos dela a pedir-me para deixar de lavar roupa às três da tarde de Julhos e Agostos no Alentejo profundo com temperaturas a tocar 50 graus.
O quintal de cima tinha laranjeiras, leiras de hortelã, poejos, coentros e outras ervas e a lenha. O gigantesco monte de lenha era outro planeta habitado por gatos essencialmente, mas também por ratos e outros bichos cujas casas eram demolidas quando o meu avô ia buscar barrotes para o lume.
O quintal das galinhas tinha galinhas, porcos, vacas, uma mula e um macho, patos, coelhos, mas as galinhas tinham um qualquer lugar especial e davam o nome ao quintal. A minha avó passava muito tempo a migar restos para as galinhas e ficava com os dedos retalhados, mas de cor normal. Quando retalhava azeitonas ficava com as mãos pretas; eu descascava laranjas para lhe juntar as cascas. Ela depois metia lá as mãos e como que amassava as azeitonas com a laranja, os orégãos aos molhos e apetecia-me cantar.
A minha avó, Zé Luís, era gorda como uma mesa redonda, mas o espaço que ela ocupava era muito maior que o espaço quadrado em si porque ela era um mundo, ou dois. Era um mundo do passado que sabia coisas que estavam adormecidas, não mortas, caso contrário não apareciam ali densas, a solidificarem com as palavras dela em estórias do antigamente. Era um mundo do presente porque nem o mundo seria mundo se ela não existisse, com o seu cabelo comprido que compunha num monho com ganchos e se deixava rir quando eu lhe dizia que ela o devia cortar. Ai Zé Luís, as crianças…, as crianças são boas pessoas mas são tolinhas, então já viu, eu a sugerir que ela cortasse bocados dela própria?
Ela tinha um forno onde fazia pão, às vezes, poucas, e muitas vezes fazia bolos. E fazia café numa cafeteira preta que se confundia com o lume no chão e era bom como nada que eu tivesse provado entretanto e se lhe metesse um bolo do cozido partido aos bocados, valia a pena morrer a seguir porque morria feliz e lambuzada.
Sabe que ela me deixava usar o garfo do meu avô? É verdade. O meu avô só comia com um certo garfo que era diferente dos outros e tinha um cabo de madeira; quando ele não estava ninguém lhe mexia, como se fosse um objecto sagrado; mas eu podia comer com ele… era como deixar a pequena princesa brincar com a coroa da rainha. Sei que me entende.
Muitas, muitas, muitas, muitas vezes fui com a minha avó à loja: à do Campaniço, à do senhor Caetano. O senhor Caetano era mais rico que o Campaniço e chamava-se-lhe senhor antes do nome; com o outro ia-se directamente ao apelido. Um pão ou um pacote de arroz era epopeia para uma manhã bem medida. Saíamos de casa na Coitada, descíamos até à ribeira, com muitas escalas pelo caminho, falando com toda a gente, como se não se vissem há meses, depois entrava-se na loja e estava feita a primeira etapa. Na loja passavam-se horas e repetia-se muito uma frase que me fazia rir, ‘ai, despache-me lá primo, que eu tou cheia de pressa’, mas deixavam-se ficar. E a minha avó também reclamava do vagar mas contribuía para ele e eu percebi que aquilo fazia parte do teatro de ir à loja, fosse à do Campaniço, fosse à do senhor Caetano. E depois havia sempre uma guloseima para mim. Sempre.
Quando entrei na universidade o meu pai não recebia ordenado há meses e eles mandaram-me o dinheiro para os livros, já falei disso muitas vezes Zé Luís. Sabe, demorei muito tempo a perceber, mas hoje sei porque é que as lágrimas se assomam à janela dos olhos quando entro no metro e há alguém a tocar um instrumento qualquer: é um chamamento! E lembro-me dos meus avós, vejo-os hoje e sempre, mesmo quando o fazia ao vivo e sem saber porquê chorava de alegria.
Não quero maçá-lo… podia ficar aqui a contar-lhe estórias e histórias dos meus avós até perder a voz e mesmo assim não terminava a viagem.
Os meus avós que viviam numa casa caiada, que não usavam tinta e sim cal, branca, como se usassem a paz para pintar as paredes da sua casa e da sua vida.
Fique bem Zé Luís e seja feliz

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Deixem Falar o David Machado

A densidade de Deixem Falar as Pedras não parece provir de um jovem de 33 anos.
Li o livro e vi o filme, satisfiz-me. Não, não me enganei: a apropriação da história faz-se de duas maneiras diferentes, lendo e visualizando, à vez.
Lendo as aventuras e desventuras de Nicolau Manuel, que nos remete para Viagens na Minha Terra, quando não percebemos se afinal sim ou afinal não e não queremos acreditar que tudo foi imaginação, Joaninha incluída.
Por outro lado, vemos o filme de todos os adolescentes que nos rodeiam, com as palavras que usam, as músicas que ouvem, os gestos que repetem, o guarda-roupa que gastam, o afastamento a que os devotamos, os excessos que nos deixam doentes por dentro e por fora, os problemas próprios desta geração, crus e transparentes. Assim. Sem vírgulas nem chamadas de atenção, nem perdões, nem atenções. Assim. Tal como é.
A acção vem de outros tempos e de amanhã também, tudo ao mesmo tempo, no dia de hoje, no agora.
Um dos aspectos mais significativos é a manutenção dos laços entre um avô e um neto e só por isto já valia a pena a leitura. Mas depois há a dor, a pessoal e a histórica, do país; há a escrita fluida e bem encadeada; há as palavras que nos levam como se fossemos pólen e nos deixam poisar nem sempre da forma mais agradável, mas é assim a vida.
Deixem Falar as Pedras tem a força duma pedrada e eu espero que acerte em muita gente.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Obrigada RTP

Batem as oito e estou encostada ao balcão da pastelaria a beber café, forte, para me dar uma mão e puxar da sonolência, do cansaço acumulado duma semana que se repete há semanas de doze horas de trabalho no local de trabalho, sem contar com os TPC’s que me obrigo a trazer para casa e sem contar com os sábados e domingos alternados em que tenho vindo trabalhar.
Falarem-me em mais meia hora de trabalho por dia faria sentido se fosse há quase quinze anos quando trabalhava numa Câmara e tinha horário para entrar e sair, para cumprir, não fosse aparecer a inspecção do trabalho, como me disseram tantas vezes. Agora soa-me a conversa de garotos do infantário.
Batem as oito e a televisão está sintonizada na RTP1.
Batem as oito e começa o Bom Dia Portugal.
E o Bom Dia Portugal, que quer acordar Portugal, dando os bons-dias como se isso fosse um passe mágico que de facto ajudasse Portugal a ter um melhor dia, e quem diz Portugal, diz os portugueses, eu incluída, e todos, mesmo os que trabalham no estrangeiro, ou será só para os que estão aqui, será Portugal geograficamente falando, com fronteiras? e se assim for, é bom dia para os estrangeiros também, os legais e os ilegais, é para todos, pois o som, seja dum bom dia ou doutra coisa qualquer espalha-se e não escolhe nacionalidade de ouvidos.
O som não escolhe ouvidos para entrar mas a RTP1 sim, escolhe as notícias para alegrar Portugal, para dar substância ao Bom Dia que quer passar a Portugal.
E que coisa melhor para solidificar esse Bom Dia se não o futebol?
Haja notícias da nossa realeza! A única, a verdadeira, a que vive no coração dos portugueses e por quem eles se desunham, do quem mexe realmente connosco, de quem põe o meu vizinho aos berros como se desse uma aula de gramática obscena a alunos que estão na Lua e não ouvem com o tom de voz normal.
Querida RTP, obrigada!

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Tem que ser...

Vale a pena sair da cama cedo para ser abraçada pela aurora. Veste-se dum rosa acamaronado suave que nos faz pensar que o dia vai correr bem. O trabalho que me obrigou a sair de casa antes da hora normal será feito com prazer, sei disso.
O primeiro pé na rua trouxe-me uma sensação estranha, desagradável, mas que entrou em mim. Vá lá saber-se porquê, a minha pele deixou-se penetrar e acolheu, contra a minha vontade, aquela coisa. O ar estava normal, a rua não tinha qualquer cheiro de onde pudesse vir aquele efeito.
Entrei no café da esquina devagar, olhei as outras pessoas que pareciam imunes à minha impressão, como se não fossem atacadas por ela. Olhei a direito e segurei com o olhar as coisas alinhadas nas prateleiras do café e, assim, eliminei as minhas habituais tonturas: a síndroma de Ménière estava adormecida, felizmente, e não era a causadora da estranheza.
Bebido o café, entrei no carro e, fosse pelo efeito da música ou da simples condução, aquela sensibilidade passou-me. Como vim mais cedo consegui um lugar de estacionamento que não fica a dois quilómetros da entrada do Metro; deixá-lo longe de manhã não me incomoda, mas custa-me ao fim do dia, de noite, fazer o percurso até entrar no carro: ontem eram nove e meia da noite quando sai do Metro e o lugar é tido como o de maior criminalidade em Portugal.
Satisfeita com aquela conquista, estacionei e saí do carro. Assim que abri a porta voltou aquele efeito, aquela coisa que estava no ar, não havia dúvida, e que me envolvia, arrepiando-me, fazendo-me encolher, como se abreviasse o espaço que ocupava. De repente, fez-se luz e percebi o que era: frio.
Se um Inverno se prolongasse por tanto tempo como este Verão eu estaria com uma depressão maior que a Fossa das Marianas, e reclamava da chuva, do frio, da roupa, dos casacos, das frieiras, dos sapatos fechados, das calças.
Há meses que não visto um par de calças, só saias e calções, pois uso-as apenas por uma questão prática, uma vez que não gosto de calças. Mas o tempo quente, sem entrar pelos prejuízos adjacentes a vários níveis, encanta-me e faz-me bem. Conclusão, não reclamo, pois uma das ideias que sempre acalentei era poder viver num sítio onde fosse sempre de Verão. Melhor que isto só se vivesse em vários sítios conforme o Verão, andando atrás dele em digressão pelo mundo.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Mala de plástico

Hoje de manhã segurei-me para não sacar do telemóvel e fotografar a senhora que seguia sentada à minha frente. Não era bem ela que me fascinava, mas sim a sua mala, uma imitação normal, com uma espécie de palavras repetidas como carimbos que se sobrepõem, e cujas asas, ou alças, ou pegas, ou aquilo em que seguramos as malas, chame-se lá como se chamar, mantinham o plástico com que os ciganos as vendem nas feiras, para não se sujarem e provarem assim às clientes que aquilo acabou de chegar de Milão, fique Milão onde ficar. Sei do que falo pois sou cliente e se tenho várias malas é porque as compro na feira e são tão boas como outras quaisquer.
Nunca tinha visto alguém manter o plástico e andar com as malas assim, não bastando já elas serem do mais puro plástico.
A senhora em causa é minha conhecida do metro, vamos muitas vezes juntas e um dia disse-lhe que tinha um brinco a cair, ou seja, até já falei com ela, mas não o suficiente para partilhar a vontade de rir que me deu e fazer o pedido de paparazi. A presença da senhora faz-se notar, quer queiramos quer não pois, apesar de sua idade, usa mini vestidos que lhe expõem as coxas até à gula de certos homens que seguem em pé, mas fixados nas belas pernas da passageira.
Conheço-lhe o ritual: senta-se, puxa o vestido para tapar mais as pernas, sem sucesso, abre a mala, tira um pano e um frasco de líquido para limpar as lentes dos óculos, limpa-os, volta a guardar o frasco e o pano, põe os óculos e fica a olhar para a negra paisagem. Nunca a vi ler um jornal sequer, nem dos gratuitos que por ali andam de mão em mão. Que pensará a olhar as paredes do metro que fogem a grande velocidade? Não sei. Mas sei em que estação sai e que hoje não eram os homens a olharem-lhe para as pernas, mas as mulheres a franzirem o sobrolho ao plástico da mala.

sábado, 8 de outubro de 2011

Quatro e dezasseis

Corro e consigo entrar. O rabo do metro vai sempre mais cheio e fico entalada entre uma senhora que leva uns sacos e vai, com certeza, arrependida da opção do transporte e outra que vai a falar ao telefone.
- Lembro-me que eram quatro e dezasseis
- ...
- Mas eu estava no tribunal não pude atender
- ...
- Mas eram quatro e dezasseis, isso eu lembro-me, por isso não digas que ligaste às quatro e pouco
- ...
- Quatro e pouco, não é quatro e dezasseis!
- ...
- Mas tu tens uma pontaria incrível, já é a segunda vez que ligas e eu estou no tribunal
- ...
- Sim, mas eram quatro e dezasseis
- ...
- Sei porque tenho relógio!
- ...
- Como é que decorei? Que raio de pergunta?
A mulher sai do metro e continua a falar ao telefone deixando-me de olhos arregalados com a sua capacidade de falar tanto tempo de um pormenor. Arranjo um lugar e sento-me a pensar que esta, das duas uma, ou é muito teimosa ou o alzheimer vai ter ali muito trabalhinho...

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Uma coisa com muita importância

Um dos grandes, mas mesmo grandes prazeres da vida é oferecer coisas, livros à cabeça, mas na lista estão igualmente as bonecas que trago à minha sobrinha dos locais que visito, a renovação de electrodomésticos para os meus pais, magnetos para os frigoríficos dos amigos e tudo quanto me lembre para o meu filho. Umas vezes maiores outras menores, por vezes nada, não porque me esqueça, mas porque não pude.
Não nego que sinto igualmente prazer em receber: alguém se lembrou de mim e isso é maravilhoso, seja um marcador de livros - recebi um da Irlanda há duas semanas - uma bela pintura africana - que veio de Angola há alguns meses e já tem moldura - ou um par de chinelos de quarto - vindos de uma Paris africana que os turistas nem sabem que existem. Os exemplos não teriam fim e acho que muitas vezes as pessoas não percebem como fico contente, ou talvez seja eu que não me manifesto o suficiente.
No meio disto tudo há uma coisa que não percebo: quando alguém dá uma coisa a outro alguém, na maioria das vezes, faz acompanhar o presente com uma frase que me põe os cabelos em pé: 'É uma coisinha sem importância'.
Ora bem... se é sem importância, não a quero. Se é sem importância, porque ma deram? Se é sem importância porque se deram ao trabalho de a comprar e trazer? Não percebo...
Quando dou seja o que for a alguém, mesmo uma coisa pequena, minúscula, nunca é sem importância mas, pelo contrário, vive nela toda a importância que dou à pessoa a quem a entrego, seja um livro usado ou um carro. É uma lembrança e na minha lembrança esteve a pessoa a quem dou a lembrança, que contém a pessoa que eu sou. Porque havia de ser 'uma coisa sem importância'? Perceberão as pessoas que dizem aquilo o quão materialistas são? Duvido.  

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

A pobreza consiste em nos sentirmos pobres*

A maioria das pessoas que anda a pedir em Madrid é diferente dos que pedem em Lisboa pela simples razão que dão algo em troca, ou seja, exercem uma tarefa voluntariamente e esperam que lhes demos algo em troca. No metro sucedem-se as modalidades de músicos: um com um carrinho de supermercado coberto com uma lona que esconde uma aparelhagem, põe-na a tocar e acompanha com uma flauta; violas põe-nos o pezinho a bater, gaitas-de-beiços fazem-nos assobiar, instrumentos diversos gingam-nos, há quem faça malabarismos, mímica, contorcionismo. As pessoas dão qualquer coisa, pois não lhes pedem por pedir. Mesmo que não se dê nada, agradecem. Fizeram-me lembrar o cego que anda a pedir no metro em Lisboa e que bate com a bengala nas pernas das pessoas com violência e lhes dirige todo o tipo de impropérios, fazendo calar as carruagens; ninguém diz nada porque é cego, caso contrário já teria levado umas bofetadas, no mínimo. Como todos conhecem o seu comportamento a única coisa que fazem à sua passagem é encolherem-se e desviarem-se o mais possível, quantas vezes para dentro do minúsculo espaço dos que vão sentados: é melhor pedir desculpa do que levar com a fúria do cego que leva tudo à sua frente, não por ser cego, mas por ser bruto. Quando chega ao final da carruagem sem que alguém lhe tenha dado um cêntimo critica a virtude das mães dos passageiros e junta-lhe todo o calão da língua portuguesa.
Na noite que esperava por José Ignácio por baixo do falso quilómetro zero, veio uma mulher a puxar uma mala de viagem em cima da qual se equilibravam dois sacos de boa qualidade. Dirigiu-se a mim e pediu-me dinheiro para ir para o aeroporto. Perguntei se tinha perdido a carteira e esta minha pergunta fez-me sentir um apresentador de circo que anuncia o próximo número; ouvi a história dela: veio das Canárias em busca de trabalho que não conseguiu arranjar, o marido maltrata-a e não a deixa ver o filho, está desesperada e não tem um cêntimo. Olhos claros, braços e pernas limpos, sem marcas, discurso fluente. Perguntei se tinha fome. Que não, uns estrangeiros pagaram-lhe umas tapas, os estrangeiros são mais simpáticos que os espanhóis, eu era uma excepção. Fiquei indecisa sobre se lhe devia dizer que eu era estrangeira e, dessa forma, matar-lhe a réstia de esperança nos espanhóis. Dei-lhe o dinheiro que tinha, razão pela qual passei um momento embaraçoso mais tarde com José Ignácio, eu a insistir em pagar mas como não aceitavam cartão, logo, ele que já tinha guardado a carteira, teve que a tirar de novo e responsabilizar-se pela despesa.
Contei-lhe a cena com a mulher e ele franziu um bocado o sobrolho, sinal que estava na dúvida se eu tinha feito bem ou não… as pessoas têm muitas manhas para se aproveitarem dos outros e eu devia acautelar-me.
Como tanta vez acontece, lembrei-me do Leão da Tunísia, o verdadeiro, o único, trapezista nos melhores circos do mundo que um acidente moveu, como peça de xadrez comida, para fora do tabuleiro da vida e de quem ouvi a história na primeira pessoa; fui a única a acreditar nele, contra vozes de cuidados que se ergueram e quase não me deixavam ouvir, fazendo assim perigar uma das mais belas descrições de vida que já ouvi. Ao contrário dos demais vim com a carteira mais leve mas com a memória mais rica.

*Frase atribuída a Ralph Waldo Emerson

Com um brilhozinho nos olhos

No segundo dia de estadia em Madrid fui visitar um bibliotecário que me tinha anteriormente contactado para fazer Erasmus na minha biblioteca. Deparei-me com um jovem a rondar os 30 anos, bem-disposto e alegre, que me convidou para um café e me cumprimentou como se eu fosse da família.
No primeiro contacto por escrito, não sei porquê, dissera-me que estava de regresso de uma longa viagem e foram estas as palavras-isco que me prenderam sem ele fazer a mais pálida ideia.
Desinteressada de grandes preliminares fiz a conversa avançar rapidamente e perguntei que longa viagem era aquela. Resposta:
- Samarcanda, Vietname e Cambodja. Já ouviste falar de Samarcanda?
O pobre do rapaz não fez, não faz, nem fará ideia do efeito que teve sobre mim e provavelmente pensou que o meu tímido ‘sim’ seria um ‘não’ que eu envergonhadamente queria esconder. Mas este pensamento só surgiu depois. Depois das palavras entrarem em mim, formarem um remoinho, provocarem uma onda submersa, com efeitos de tempestade tropical mas numa floresta sem vivalma, de modo que ninguém vê. Alguns dos meus músculos petrificam ao sabor de certas palavras que têm uma conotação mágica e José Ignácio conseguiu com apenas um acorde dizer três delas: Samarcanda, Vietname e Cambodja, ganhando a minha dedicação e atenção total sem o perceber e sem sonhar como é difícil alguém conseguir um feito épico desta natureza.
É claro que tudo isto tem enormes doses de inveja e ciúme e, sem dar a entender, projectou-se uma bela longa-metragem na minha cabeça: Samarcanda igual a Alexandre, igual a fabrico de papel, igual a Gengis Khan, igual a Marco Polo, igual a Rota da Seda, igual a sultão, igual a desejo.
Depois de algumas explicações sobre a viagem, começou a falar português e eu acordei do transe. Queria praticar e combinámos que cada um falaria a língua do outro.
Temendo estar a impor-lhe a minha companhia desviando-o do trabalho, fui embora com a promessa de me ir despedir antes do regresso a Lisboa. Disse-me que nesse dia arranjaria mais tempo para falarmos e foi assim que José Ignácio ficou hibernado o resto da semana.
Como alterei a data de regresso, disse-lho por msn e combinámos ‘tomar un vino’ na minha última noite.
Esperei que não trouxesse companhia e a trazê-la, que fossem os companheiros de viagem pois, para ser franca, o que me interessava verdadeiramente era ouvir o relato, de preferência nas línguas dos países visitados, mas também aceitava espanhol ou português com erros. Combinámos no quilómetro zero que eu, tão ansiosa estava, confundi com uma porcaria duma placa na parede que anunciava uma joalharia com o mesmo nome, e à porta da qual um vagabundo bebia e falava sozinho.
Já passavam quinze minutos da hora marcada e pensei que se atrasara pois decerto convidara alguém, colegas de faculdade talvez, da sua idade, que o ajudassem a conversar com a portuguesa que o iria receber em trabalho dentro de meses e com quem tinha que ser simpático. Dei-lhe mais quinze minutos, ao fim dos quais, se não dissesse nada, me iria embora pois não estava para aturar um bando de jovens atrasados que me levariam a um sítio turístico com certeza, onde se falaria muito alto e onde eu não poderia atingir o meu objectivo, ouvir a descrição da viagem.
Surpreendi-me com um telefonema dele a perguntar se estava tudo bem e se eu estava muito atrasada… Atrasada? Eu? Bem, lá esclarecemos o local do quilómetro zero, eu apelidei-me de tonta mas sorri porque ele fora sozinho.
Primeira paragem: cerveja com batatas fritas e anchovas. Tipicamente madrileno, segundo ele, encostados ao balcão, eu com uma mala com um caderno e o meu Kerouac, ele com um monte de papéis.
Segunda paragem: Los Gatos; cerveja e polvo à galega, apinhados com gente a falar e a rir e onde me foi jurado que o local estava vazio. Normalmente não se consegue entrar e do balcão vão passando as cervejas de mão em mão aos clientes pois o empregado não consegue passar.
Terceira paragem e seguintes, só cerveja e muita conversa: sobre a vida, as viagens, os emigrantes, os livros e mais mil coisas, até que ele comenta que agora está mais seguro pois ficou efectivo no trabalho: era arqueólogo e nunca sabia se tinha trabalho ou não, se as verbas chegavam para dar continuidade a escavações em Toledo onde vivia. Registei o facto de ser arqueólogo (tanto que havia a dizer sobre isto…) e com ar maternal perguntei-lhe se podia dar-lhe um conselho; entrei por um discurso sobre a sua idade, falei do caracter chinês comum a crise e oportunidade, falei da velha divisão das pessoas em momentos de crise quando umas choram e outras aproveitam logo para vender lenços, que não tivesse medo da vida, que não se apegasse a empregos que fariam dele uma fotocópia dos pais, que vivesse a vida de olhos bem abertos, para aproveitar e não deixar escapar oportunidades, que o mundo é de facto maravilhoso mas tem que ser explorado, visto com olhos de ver, ao vivo e a cores. Enfim, fiz-lho o discurso nº 1 para alunos cujo objectivo é licenciarem-se e de repente acordam com prestações de casas e carros e móveis e no meio desta vida rotineira e pesada fogem os sonhos que morrem sem alimento.
Ele ouviu-me a sorrir – a esta altura já tinha desistido de falar português embora eu seguisse num espanhol amantizado com a nossa língua materna – e perguntou-me que idade achava eu que ele tinha. Percebi imediatamente o fulgor da sua juventude a sentir um qualquer ataque, como tantas vezes acontece com o meu filho cuja idade o faz pensar que sabe tudo e vê os conselhos dos mais velhos como palavras ocas. Ou seja, concluí que falara demais…
Disse-lhe que não lhe dava mais de 32 achando que estava a ser generosa em lhe aumentar a idade e a resposta foi uma sonora gargalhada que subiu mais alto que todos os outros barulhos juntos. Tirou a carteira e provou que era quase da minha idade…
Continuou a rir e disse saber ter este efeito nas pessoas. Pagámos e saímos, para voltarmos a entrar mas desta vez num local com mesas e cadeiras onde nos sentámos e me contou o percurso de vida por alto, e eu senti-me dentro de Hudson, com Dean e Sal, a ouvir as suas descrições.
Por entre relacionamentos amorosos estivera em Toledo e em Dublin a viver, era arqueólogo, desistira depois a meio do curso de Direito por não lhe dizer nada e um dia descobrira as bibliotecas sobre as quais está a fazer um master e onde trabalha há anos.
Este percurso interessava-me cada vez mais e acabámos por ir embora quando a empregada nos veio pedir o dinheiro dizendo que iam fechar.
Fecham eles mas não a nossa conversa. Entrámos noutro bar, com cadeirões de verga e grandes cinzeiros que não eram para as beatas mas para as cascas de pipas. Não sei como, mas a conversa foi dar aos sobrinhos e ambos tínhamos uma enciclopédia para debitar. Ainda as histórias da miudagem iam a meio quando o dono nos põe a conta à frente, dizendo, Vamos fechar! Já?
Andámos pelas ruas a falar de diferentes cidades europeias, africanas, asiáticas. Está tudo fechado. De repente aparece um jovem a perguntar se queremos beber alguma coisa… ele conhece o sítio certo. Vamos? Vamos!
Começámos a andar como se a polícia viesse atrás de nós numa rua a subir que nos extenuou. Finalmente chegámos a uma porta que quando se abriu nos atacou a visão e a audição com luzes a mexerem-se rapidamente e música de discoteca…
O ‘tio’ que nos levara recebeu imediatamente a propina do que estava atrás do balcão; olhámo-nos mutuamente perguntando-nos em silêncio se ficávamos ou não. Porque não? Será diferente de tudo.
Em Madrid não há excepções para locais de fumo, nem com chaminés, exaustores, o que seja. É proibido e pronto. Por outro lado, não se pode estar à porta de copo na mão, a polícia não deixa. Então bebemos uma cerveja e saímos a fumar. Explico que em Lisboa se pode beber na rua e os bares e restaurantes aderiram à moda de colocar mesas de pé alto às portas, nos passeios, para satisfazer os clientes fumadores.
Concordámos que a hospitalidade portuguesa é maior que a espanhola e ele contou-me episódios passados em Portugal que comprovaram isso mesmo. Disse-lhe que o meu avô adoraria ouvir a conversa e contei-lhe um momento caricato doutros tempos: o meu avô foi ao Rosal de la Frontera, a aldeia mais próxima da sua, não obstante ser espanhola, e entrou numa acesa discussão com um espanhol, cada um argumentando que o chouriço do respectivo país era melhor que o do outro! Ora como a discussão era acompanhado de vinho, rapidamente tomou proporções épicas e acabaram os dois na esquadra da Guardia Civil a passar a noite. O meu companheiro de noitada disse-me com ar sério que se via também obrigado a defender o chouriço espanhol e acabámos a rir.
Quando saímos do tugúrio vi-me diante do Prado. Tínhamos andado assim tanto? Espreitámos o Monumentos a los Caídos por Espanha que vivia na minha ignorância. Eram quatro da manhã e estávamos com as caras encostadas aos ferros, eu aluna a ouvir, ele professor a explicar que a maioria das pessoas confundem o monumento com o do Vale dos Caídos, sem saber que me provocava uma certa tristeza por eu ser uma delas.
Nesse momento recordei uma noite magnífica em Hania, na ilha de Creta quando um companheiro polaco chamado Blazej – também bibliotecário – me levou descalça, para não acordarmos alguém, por um labirinto de ruas estreitas onde ele desencantara uma igreja ortodoxa na noite anterior, cujo chão estava coberto de velas acesas, numa manifestação de fé que as correntes de ar pareciam ser incapazes de parar. Aquilo era tão belo, tão sereno, tão inesperado, tão autêntico, tão nu, que acabei por perder os sapatos e tive que voltar atrás a buscá-los.
A experiência em Madrid não se revestiu do misticismo da de Creta, mas fez-me pensar que a maior parte das situações inesperadas que me acontecem e que não esqueço, são proporcionadas por perfeitos desconhecidos.
As cinco da manhã já se vestiam e aprontavam para sair à rua quando cheguei ao hotel. O meu companheiro e eu despedimo-nos com um afectuoso abraço, mas como quem se vai encontrar de novo no dia seguinte. Não faço ideia de quando será o dia seguinte, mas penso que fiz um amigo e coisa mais preciosa no mundo não há.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Máquinas de escrever

Foi com 45 anos e numa Europa em crise, mas que se movimenta para todo o lado e que integrou o conforto como obrigatório, que li o (clássico) Pela Estrada Fora. Será coincidência ter sido em período de Erasmus? Como se fosse uma viagem mais que geográfica, através do tempo? Do tempo antigo, do tempo perdido, do tempo alheio, do tempo eterno? Não sei, mas aconteceu assim.
Dei-lhe com os olhos numa prateleira lá de casa onde me andava a passar despercebido há anos (tem o preço marcado em escudos). Como tenho sempre as janelas abertas, a crise escapuliu-se para dentro da minha casa, assentou arraiais e ando a reler, ou a ler tudo o que me aparece de graça. E lá estava Jack Kerouac ou Sal Paradise ou uma máquina de escrever humana sorrindo-me numa estante.
A leitura foi terminada no último dia em Madrid. O que é que se costuma dizer das coincidências…?
Li-o no abafado do metro, nas paragens de autocarro, antes de adormecer e andou sempre comigo na mala, como uma espécie de bilhete de despedida de suicídio dum tipo de vida, que se hesita em usar.
No último dia, dando as últimas voltas a fazer tempo para apanhar o avião, vejo uma loja com máquinas de escrever antigas. Há uma que me olha de soslaio, pequena mas carregando milhares de impressões digitais de não sei quantas pessoas, atrevo-me a dizer homens: foi fabricada em 1904 e usada na guerra. O teclado é normal mas na verdade cada tecla escreve um outro carácter, cuja correspondência está atrás como se fosse em Braille, de modo a dificultar a desencriptação das mensagens. Não era a Enigma, mas garantidamente era da família.
É amor à primeira vista. Entro na loja com o pensamento dividido e rezando para que o Dean Moriarty que vive em mim esteja a dormir. A minha principal prece é que seja barata, mas tenho a consciência que não será. Quando souber o preço saberei sorrir, agradecer a informação e voltar costas? Ou serei acometida por aquelas loucuras que só parecem loucuras dias ou meses mais tarde e que enquanto estão a ser praticadas vestem-se como actos naturais e até saudáveis?
A montra onde a máquina crescia para mim estava tapada do lado de dentro por um pesadíssimo biombo em ferro, tosco, dir-se-ia chegado da própria Idade do Ferro. A dificuldade em chegar à máquina e saber-lhe o preço seria um sinal? E que sinal? Que não esperasse e me fosse embora? Ou um teste à minha persistência, com prémio no fim?
Finalmente o biombo foi afastado e a máquina retirada da montra como se fosse uma pessoa resgatada dum desmoronamento.
O coração acelerava como se tudo aquilo fossem os preliminares dum pedido de casamento, com algumas hipóteses de se concretizar ali e agora. Mas 349 euros era um dote muito elevado para mim, embora a princesa valesse muito mais.
Olhei-a como um marinheiro apaixonado mas que não quer comprometer-se pois desconhece a sua sorte por esses mares e não sabe se regressa, e abandonei a loja com o coração partido.
Há anos atrás, em busca duma casa para morar, visitei um apartamento belíssimo, último andar, duplex, piso superior todo modificado, revestido a madeira, uma pérola. O preço era alto e tentámos negociar com os donos. Numa das ocasiões, talvez numa terceira visita à casa, vejo no chão uma máquina de escrever. A bem da verdade, eu não a vi, foi ela que me chamou e dei comigo instantaneamente a dizer aos donos, e ao meu boquiaberto marido, que se deixassem a máquina nós pagávamos sem regatear. No dia seguinte telefonaram a dizer que não aceitavam e, apesar da desilusão, conseguiram subir na minha consideração. A casa só não tinha vista para o mar, caso contrária seria perfeita.

Escândalo com o teletransporte

A transportadora Europa está envolvida num novo escândalo depois do último telepassageiro ter desaparecido quando era teletransportado de Londres para Washington. A empresa já emitiu um comunicado a informar que Joshua Martin não chegou ao destino nem a qualquer outro ponto com cobertura de teletransporte, como tinha sido inicialmente sugerido, quando se pensou ter havido um erro de coordenadas que tivesse colocado o empresário londrino em Nova Iorque ou até em Toronto, como chegou a ser noticiado.
É a terceira vez no espaço de um mês que a Europa regista perda de telepasseiros: o primeiro, um arquitecto japonês, foi encontrado a vaguear na Cidade do México; há cerca de duas semanas uma funcionária da Organização Mundial de Saúde desapareceu quando se teledeslocava de Paris para Pequim e foi encontrada dois dias depois em Xangai.
O caso de Joshua Martin foi já comentado por responsáveis de diversas companhias de aviação que reforçam as suas posições contra o uso deste meio de transporte e são unânimes em dizer que não há estudos de segurança suficientes para abrir o teletransporte à sociedade civil. Por seu lado a Europa aponta empresas concorrentes, e não completamente legais, como as causadoras destes problemas. O Presidente da transportadora Europa afirma mesmo que ‘As empresas ilegais, que não querem cumprir com todos os requisitos necessários, que não têm equipamento tecnológico à altura, não se preocupam com os clientes; garantem preços baixos, mas não têm respeito pela vida’.

Notícia de Setembro de 2031

Ave César

O artista plástico César inaugura hoje uma exposição de trabalhos que alia a actual técnica inwall com a quase desaparecida fotografia. É grande a expectativa sobre o visionamento de imagens interactivas da Baía de Cascais ou do Portinho da Arrábida, locais de eleição dos veraneantes até há uma década atrás e hoje desaparecidos.
O momento real da abertura da exposição, intitulada ‘Era uma vez o mar’, será às 19 horas de Lisboa e para a acompanhar o leitor deve ter a sua parede de recepção de inwall disponível.
A agência Rainha de Copas, responsável pela organização, pede ao público, que se prevê serem vários milhões de pessoas, que não façam perguntas a César e respeitem o círculo amarelo que o rodeará no inwall. Os motivos do pedido são compreensíveis pois, apesar de o irmos ver com toda a dinâmica a que nos habituou, sabemos que na realidade está hospitalizado e será do Hospital Central via inwall que participará na inauguração.
‘Há apenas duas peças que não receberam pedidos de aquisição’, são afirmações da organização que mantém a decisão de não vender nada enquanto César não recuperar completamente e dispuser das mãos protésicas que lhe foram substituídas. A cirurgia foi um êxito, como amplamente noticiado, e nós desejamos rápidas melhoras.

Notícia de Setembro de 2031

Faça-se luz!

A criadora Rita Gata Brava e a empresa de software Lusitana apresentam a sua última criação em conjunto: vestuário feito de energia eléctrica.
Em entrevista Rita Gata Brava falou da modernidade do conceito que permite ‘ir trabalhar com um look, almoçar com outro e aparecer num jantar deslumbrante, sem precisar de ir a casa mudar de roupa’. Os equipamentos, já conhecidos por Prêt a Porter, pesam cerca de 100 gramas, e com um simples toque solidificam camadas de energia no corpo humano, em formas pré-seleccionadas de roupa, com cores e padrões ao gosto do utilizador.
Rita cumpre assim a promessa de fazer vestuário dinâmico e que se adeqúe aos seus já conhecidos penteados feitos com recurso a hologramas e que estiveram igualmente presentes na mostra.
A Lusitana escolheu o terminal de transportes terrestres e aéreos de Sintra para este lançamento mundial no qual estiveram presentes Jennifer e Phoebe Gates, filhas do falecido Bill Gates, apesar da sua empresa não ter conseguido competir com a lusitana Lusitana e a quem Rita Gata Brava disse Não.
Ainda não se sabe o valor de comercialização do Prêt a Porter, mas a conhecida empresa de software portuguesa já informou que ‘será um produto para consumo de massas’, prevendo-se assim, que tenha um custo acessível.
A criatividade e a tecnologia portuguesas continuam de mãos dadas e a dar novos mundos ao mundo.

Notícia de Setembro de 2031

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Tradição no Jardim Botânico

Vou ao Jardim Botânico comprar um livro de desenhos de Mutis. Na entrada explico que não tenciono visitar o JB mas apenas aceder à Biblioteca, Livraria, Centro de Documentação, o que seja. A rapariga que vendia as entradas diz-me que não há nada disso no JB e aponta-me uma barraca que vende pacotes com sementes e folhetos explicativos da melhor altura para plantar ervilhas-de-cheiro. Digo-lhe que o que procuro não está decididamente ali, mas ela continua a indicar-me a loja das plantas enquanto me faz sinal para que me desvie pois a fila cresce atrás de mim. Insisto, digo-lhe que estão à minha espera! Acreditou na minha mentira e lá agarrou no telefone conseguindo fazer-me até sorrir pois disse que estava ali uma ‘chica’ que procurava a livraria ou a biblioteca. Lá a esclarecem e com um pedido de desculpa indica-me a localização: fica exactamente do lado oposto onde estávamos. Vou até lá e sou recebida como se fosse a própria Rainha Sofia: era a única cliente.
Depois duma agradável conversa com a bibliotecária, de me ter informado que tudo o que eu queria estava online com as respectivas indicações para a autorização de publicação, de me ter oferecido lâminas com imagens, uma delas belíssima, com a correspondência que Lineu fez da botânica para o alfabeto, fiz-lhe a reclamação sobre o incidente à entrada.
Contou-me que recebiam e-mails de pessoas a dizer que estiveram à porta do JB mas não encontraram a Biblioteca, que os problemas de comunicação eram muitos e que quase não acreditava que eu, estrangeira, ali tivesse conseguido chegar; que era uma situação recorrente e que não se conseguia fazer nada.
Sorri, despedi-me e pensei que afinal não é só em Portugal que estas coisas acontecem: identifica-se um problema, a solução é duma facilidade atroz e, no entanto, encolhem-se os ombros e deixa-se a tradição continuar a ser como era.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Pincelada de Prado

Não me lembro rigorosamente nada do Prado. A entrada seria outra? A envolvência teria mudado assim tanto? O Alzheimer é já tão grande? Nada disso. Não me lembro porque nunca lá fui, embora conheça e seja amante de algumas das peças.
A visita mais prolongada a Madrid foi há alguns anos com marido e filho, como atestam algumas fotografias; a memória mais sólida desta viagem é o olhar fixo do Duarte, com 7 ou 8 anos, diante de Guernica. Já eu tinha tirado todas as medidas ao quadro, virado e revirado a cabeça para apreender mais esta e aquela perspectiva e ainda ele estava absorto num primeiro contacto prolongado, o do choque. Olhos vidrados, movia-se para tirar as pessoas do seu ângulo de visão e continuava a olhar, como alguém que põe uma garrafa à boca e só descansa na última gota.
Com a minha queda para estações e terminais de transportes estivemos em Atocha, mas não no Prado, ali mesmo ao lado. Não me lembro porquê, mas algo me diz que o meu marido deve ter decidido que os bilhetes eram caros e que já tinhamos visto muita coisa e assim ficámos. Se houve a discussão do costume apaguei-a da memória.
Agora, finalmente, visito-o como quem visita um velho amigo com quem estamos em dívida.
Não percebo nada de pintura mas sei o que gosto, o que me impressiona, o que me faz suster a respiração, o que me choca, o que me arrepia, o que me provoca lágrimas, o que me prende durante uma hora seguida, o que me deixa indiferente e o que detesto.
Comecei pelo choque negro de Goya. Composições horríveis que, não obstante, sempre me fascinaram quando via as imagens. Os originais deixaram-me estarrecida.
Passei para a magnificente luminosidade de El Greco e concluí que só vendo-os nos apercebemos da sua profundidade e da dimensão poderosa, que nos faz ter vontade de ajoelhar perante aquele tudo que se mete cá dentro duma forma inexplicável: não há imagens dos quadros que revelem a luz interior de cada composição e cada quadro é uma janela para dentro dele mesmo, um astro com luz própria.
Dei comigo com lágrimas nos olhos diante dum Rembrandt, sem saber quem era o autor, mas presa no acetinado da pintura.
Deixei Diego para o fim. Por ser uma espécie de dono do Prado, o anfitrião de todos os outros, por ser absolutamente maravilhoso, fazer parecer tudo tão fácil, tão próximo.
Não gosto de museus mas sempre que visito um sinto-me mais rica. E neste dia fiquei de barriga cheia.

Fazer nada

Gosto de me levantar cedo para poder fazer nada. Esse aparente nada transforma-se sempre num cumprimento ao dia por onde vejo os outros passar a correr sem o verem, como se fosse um filme diante dos meus olhos.
Tantos destinos, tantos compromissos, tantas pressas e eu de conversa com o dia, paciente com ele, a deixá-lo espreguiçar e vendo uma cidade inteira a pendurar-se-lhe nos braços.
Enquanto espero que o dia se torne adulto, e todos os outros ocupem o seu lugar nele sem sequer o verem, identifico barulhos e ruídos, vejo as sombras mudarem de posição, as luzes das ruas apagarem-se, as tarefas rotineiras abrirem-se como torneiras.
O céu veste-se de azul natural, dando-me o privilégio de não ver outras roupagens, cinzentas, que me fariam perder alguma boa disposição.
Depois deste exercício de observação estou pronta para começar a trabalhar, sem sono, consciente que cumpri um ritual religioso ou pagão, que me encaixei no dia e não o deixei passar por mim anónimo, sem história.
Ao fim do dia passo pelas Portas do Sol, enfio pela Arenales. A entrada no céu não deve ser muito diferente: entardecer quente, jazz tocado no meio da rua e uma banca de livros usados, como piscina de água cristalina e fresca. Passo os dedos pelos livros, leio os títulos e o papel velho sorri-me, como fazem os velhos amigos.
O próprio tempo senta-se neste fim de tarde, parado, e se cães houvesse não ladrariam, sossegados pela ternura da luz que se esvai.

A mi me gusta camiñar

Saio do hotel convicta que o passeio até à Universidade é coisa de crianças. Avenida Carranza abaixo, Alberto Aguillera acima e decido perguntar pela primeira vez. Vou bem, mas sugerem-me que apanhe um autocarro.
- No, gracias, a mi me gusta camiñar.
Como não fui explícita, vejo-me diante duma Faculdade da universidade, mas que não fica no campus.
Nova pergunta, nova sugestão sobre o meio de transporte a apanhar.
- No, gracias, a mi me gusta camiñar.
Ora bolas, não há-de ser assim tão longe, pensa a minha teimosia.
Com o estúpido objectivo de ver uma montra, eu que até nem gosto, acabo por me meter por um atalho e confiar no meu inconfiável sentido de orientação.
Nova pergunta, a mesma sugestão do autocarro, e logo eu:
- No, gracias, a mi me gusta camiñar.
Chego ao Museu da América e avisto o nome da Universidade do outro lado da estrada. Porém, o piso é desnivelado, a estrada é uma via rápida – que nem parece pois está tudo parado – e tenho que ir até ao fundo da rua e numa rotunda passar para o lado contrário até ao edifício que diz Universidade Complutense.
Finalmente!
A uma das entradas pergunto pela Biblioteca central e digo o nome da pessoa que me espera.
Dizem-me que não é ali e que apanhe o autocarro G, que me deixará à porta.
Há uma hora e quarenta e cinco minutos que saíra do hotel e agora sim, estava no momento certo de aceitar as sugestões de meia Madrid. Entrei a pensar que gastara 1,5€ por uns cem metros, mas nove paragens à frente os meus pés agradecidos sorriram-me pela primeira vez nesse dia.
O acolhimento foi efusivo, a simpatia grande; a meio da manhã na cafetaria o número de bibliotecários por metro quadrado fazia aquilo parecer um congresso, com a diferença que nos congressos só me falam os conhecidos e ali fui apresentada a todos, distribuindo apertos de mão e repetindo ‘Encantada’ como uma máquina. Mas a verdade é que estava mesmo encantada.
Quase às três da tarde saí e apanhei o primeiro autocarro que passou que, infelizmente, me deixou a meio caminho. As roeduras nos pés falaram mais baixo e fiz o resto do percurso a pé. Passei pelo hotel, tomei banho e saí fresca como uma alface para a tarde madrilena, quente e acolhedora.
Amanhã há mais, com trabalho sério, reuniões marcadas, mas a tarde será no Prado.

Ao lusco-fusco

A Plaza Mayor de Madrid não é a mais bonita de Espanha. Mas é imponente com a estátua equestre de Filipe III que lhe confere o enquadramento nos modelos de praça real da Europa, disseminados desde França, quando se pretendia incutir a soberania da figura real, mesmo em noites de chuva e lama, sem público.
Sentada a uma mesa perscruto os telhados da praça enquanto o lusco-fusco boceja. Antes de a noite tomar o seu lugar, já os candeeiros estão acesos, pedem-se tapas e cañas e dou com os olhos na improbabilidade: um estendal olha-nos de um dos telhados da praça, ondulante, branco, sereno, alheio à comida, aos turistas, à estátua, ao próprio tempo. São oito ou nove peças de roupa, algo distantes, como se a História se tivesse esquecido delas ali.
Pela enésima vez lamento não ter máquina fotográfica, mas desta vez lamento mais, lamento não conseguir correr atrás do lusco-fusco e trazê-lo de volta para segurar o estendal branco à luz rosada e alaranjada dum momento que não mais se repetirá.
Esqueço-me que tenho uma bolsa que me paga a alimentação e peço o mais barato da lista: frango; acompanhamento: batatas fritas, na modalidade de palha e na quantidade de onze. Comento com a minha irmã que sugere que a lógica seja a das senhas do carrossel, onde compramos dez viagens e nos dão uma senha grátis.
Os onze elegantes palitos fazem companhia ao cume, e só ao cume, dum peito de frango. Para quem se levantou às sete, trabalhou quase até às três e caminhou todo o resto da tarde, aquilo não é nada.
Ora bem, o que é que me apetece? Hum… Queijo! Peço um pratinho que me custa 17 euros e do qual só consigo meter metade. Instintivamente penso que já tenho pequeno-almoço para o dia seguinte: guardo a metade do queijo e o pão num guardanapo, com quatro americanos candidatos ao Biggest Loser a olhar-me. Apetece-me dizer-lhes:
- Já só há este… e é para mim…

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Caminhos confusos, mas negros.

Por ocasião da minha estadia espanhola – em hotel, não em residência, embora com pena minha… – reflecti sobre a importância das rotinas e em quanto elas nos ajudam de facto a perceber as pessoas, os povos, o estar.
Se vamos de férias e nos pedem 5 euros por uma garrafita de água concluímos que cada garrafa custa 5 euros. Porém, há que comprá-la onde as pessoas a compram e não onde essa espécie daninha dos turistas se abastece. O acto de repetir uma acção – almoçar, jantar, fazer compras de mercearia, andar de transportes (sem o cartão de turista!) – duma forma sistemática dá-nos uma percepção que a falta de rotina nos tira.
Ouço com frequência as pessoas dizerem que na França é assim e na Holanda é assado porque um dia me aconteceu isto ou aquilo… ninguém concede que seja a excepção. A minha falta de preconceitos, obrigada a todos os deuses de todos os olimpos, faz-me pensar sempre duas vezes perante qualquer coisa. Por norma, quando penso só uma engano-me.
Sabendo do número de desempregados e da situação económica da Espanha, estranhei que as esplanadas estivessem sempre cheias – o sempre é de manhã, à tarde e à noite, em vários locais da cidade e em diferentes tipos de estabelecimentos durante uma semana… penso que é um indicador suficiente para esta estatística de bolso.
Conto-lhes que por estas bandas já não é bem assim e eu, a exemplo de muitas pessoas minhas conhecidas, trago almoço de casa. Não tenho oportunidade de lhes explicar – porque só aconteceu ontem – que em passeio ao Algarve, a rua principal de Portimão estava deserta, com lojas já fechadas, apesar do calor de Verão que se fazia sentir, o que só vem confirmar o que lhes contei.
A conversa da contenção vai parar aos assaltos que, segundo eles, não aumentaram nem diminuíram, ao contrário do que acontece em Portugal: a cada passo sabemos de novas situações, algumas delas ligadas a dramas sociais que nos fazem engolir em seco.
Uma das pessoas que foi comigo ontem ao Algarve trabalha em seguros há 34 anos e agora depara-se com uma situação pela primeira vez: as mercearias procuram as seguradoras na sequência de assaltos frequentes. O que levam? Arroz, massa, azeite, fruta, legumes, detergentes. Não levam álcool, por exemplo.
O que diz isto do momento que estamos a viver? O que diz isto a quem passeia na avenida ao sol e tem uma vaga ideia que por baixo há um metropolitano, mas não nos apercebemos da sua natureza labiríntica escura, triste e coexistente?
Das conversas que mantive com colegas espanhóis sobre desemprego depreendi que a grande maioria das pessoas continua a procurar emprego na sua área de trabalho – assim eram os exemplos que me foram dados. Aqui vejo pessoas – não todas! – a procurar qualquer coisa. Parecem-me ser duas fases distintas do processo, bem distintas, apesar do número gigantesco dos que não têm trabalho em Espanha.
Das várias pessoas que conheci algumas delas estavam chegadas de férias com origens na Madeira e Porto Santo, Samarcanda, Londres, Cambodja e Vietname. Nada mau, hem?
Guardo facturas de uma bicazita num café normalíssimo a 1,60€ e paguei todos os dias 3 euros por um café e uma torrada com manteiga ao pequeno-almoço, torrada que, convém que se diga, é uma fatia de bimbo, não duas.
Que dizer? Estou confusa.

domingo, 18 de setembro de 2011

Um toque de canela

Amanhã vou para Madrid fazer Erasmus. Erasmus Staff, não como aluna mas como profissional, o que não deixa de ser Erasmus. Sempre quis experimentar estudar no estrangeiro, mas nunca o fiz. A minha irmã teve essa oportunidade ainda no liceu e não a queria aceitar. Lembro-me da minha insistência. Mais tarde foi para Rennes em Erasmus e fala desse período como um dos melhores da vida dela.
Trabalhando numa universidade lido com todo o tipo de alunos, acabando por me transpôr para cada um deles, como os pais fazem com os filhos, lidando com alunos Erasmus e sentindo uma inveja diária que, apesar de viajar, pensei que fosse morrer comigo. Mas afinal não vai ser assim.
Hoje passei parte do dia com a minha grande amiga e fiz a habitual caminhada, mais curta, mas toda dentro de água. Combinámos ir ao cinema à noite, numa espécie de despedida da semana, uma vez que estamos juntas todos os dias. Porém, não fomos, por circunstâncias várias cada uma ficou na sua casa.
Nada é por acaso. Fiquei com o meu filho e quando ele saiu, no meio de muitos canais de televisão, um sotaque estranho chamou-me à atenção. Deixei-me ficar a ouvir sem ler as legendas e percebi meia dúzia de palavras, soltas, sem sentido, mas quentes. Era em grego. Nunca dei conta que o grego e o português dessem assim a mão, mas também nunca o tinha ouvido com atenção. O filme chamava-se Um Toque de Canela e foi o mais belo que vi nos últimos tempos, talvez anos. Lembra o Cinema Paraíso, até o protagonista é parecido com o Salvatore em criança e em adulto.
A ternura baila docemente no ecrãn, salta dele e cai-nos no colo. Apetece-nos rir e chorar, passar a palma da mão pelo rosto daquelas pessoas cujos sentimentos são tão nossos, são tão a meias. A música é suave como chuva miudinha, mas faz falta na exacta medida em que se mostra; o passado a atrapalhar o curso do presente e do futuro, e a calma... há uma calma feita seta que trespassa toda a acção conferindo uma serenidade luxuosa a cada imagem. Numa cena vemos vários estendais com lençóis brancos esticados, que formam um gigantesco estendal, coroado por um padre que toca um sino ritmadamente. O domínio do branco que ondulava ao de leve fez-me pensar que na Terra também existe Céu.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Outras leituras

Concorri a um concurso cujos resultados apenas se divulgam no Correio da Manhã, essa catedral do sangue e da tragédia, razão pela qual tive que comprar um exemplar. Em busca do meu nome corri o jornal de ponta a ponta dando atenção a tudo pois, experiente nesta coisa dos concursos, sei que os resultados podem ser editados em pé de página, fonte 6 e só não aparecem com as letras ao contrário, como as soluções das palavras cruzadas, porque ainda não se lembraram. Os anúncios são caros e eles já têm que pagar os prémios, há que poupar!
Depois de ter lido todas as gordas pensei o que teria escrito Kafka se tivesse tido acesso a estas fontes de informação… ninguém sabe.
Fiquei a saber que em Trancoso morreu uma pessoa que seguia numa carroça; há um cão cujas orelhas medem 65 centímetros; José Sócrates aparece numa fotografia de tal forma colocado que parece ter uma orelha tão grande como a do cão; há cada vez mais gente a mostrar e a deixar fotografar mamas e rabos; há um senhor que compra antigo/moderno, mas não diz o quê… deve ser código…; três contactos diferentes compram coisas banais como chifres e presas de rinocerontes; há quem compre socata e quem venda biblôs; quem afirme ‘A crise acaba aqui. Ganhe 300/500 € por semana. C/ uma loja tipo franchising de Colagem de Plástico na sua zona’ e eu reforço, ora aqui está uma oportunidade, uma coisa que faz sempre falta.
Como se estivesse possessa, detive-me nos professores, videntes, pais, mestres, curandeiros, terapeutas, cartomantes, médiuns, tarólogos, cientistas, espiritualistas, astrólogos, que são uma espécie de farmácia pois tratam de tudo, desde a ‘alta magia negra’ até à ‘aproximação rápida e afastamento total’, sendo que esta é a minha favorita: imagino dois feiticeiros, de capa modelo Merlin, chapéu bicudo tradicional, barbas até aos joelhos, a jogar Vai-Vem… aproximação rápida… afastamento total… aproximação rápida… afastamento total… até se cansarem.
O meu nome não estava na lista dos premiados, razão pela qual voltarei a concorrer e a comprar novamente o jornal lá para o fim de Outubro. Estou ansiosa.

Obrigadinha, sim?

Uma das minhas rotinas diárias matinais consiste em deixar o carro no parque de estacionamento da estação de metro Amadora-Este e seguir até ao centro de Lisboa, qual minhoca que já tem o caminho desbastado. No verso da medalha está outra rotina: entrar no carro e ir até casa.
Nas últimas semanas o chão do parque de estacionamento mete medo: de dez em dez metros há sinais de vidros partidos e a probabilidade que isso aconteça por vandalismo é total. Não sendo fatalista, mas confesso que é com certo receio que vou buscar o carro todas as tardes.
À hora a que saio do metro o parque está já meio vazio e ao mesmo tempo que tiro o carro, muitos outros lugares vão ficando livres o que permite ver os vidros, como se fossem manchas no chão.
Ontem não foi assim.
O parque estava cheio que nem um ovo e a quantidade de pessoas a entrarem no metro era invulgarmente maior do que a que saia. Motivo? O estádio da Luz recebia um clube estrangeiro e os adeptos, vestidos a rigor, encaminhavam-se para o jogo. Já me tinha cruzado com eles lá em baixo, jovens com diferentes camisolas mas todas do clube, executivos de fato e gravata com o cachecol dobrado na mão.
Pela cegueira do jogo ou pela falta de vista inata, o que é certo é que as saídas do parque estavam tapadas com carros estacionados!
Formou-se fila para sair, geraram-se incómodos com inversões de marcha colectivas obrigatórias face à impossibilidade de se passar, um ou dois teimosos partiram espelhos laterais quando quiseram meter o Rossio na Rua da Betesga, enfim, uma confusão causada pela falta de respeito ou, noutras palavras, o início da acção hooligan.

Como é óbvio!

A propósito do quociente de excentricidade daquilo a que a revista Sábado chamou ‘Cursos Alternativos’ e onde consta a licenciatura em Ciências Equinas e os mestrados em Gestão e Manutenção de Campos de Golfe, Ciências da Paisagem e, o que arrebanhou os pontos máximos da excentricidade, Ciências da Complexidade, tive uma conversa interessante sobre as Ciências do Óbvio.
Uma das coisas que mais podemos agradecer aos outros é porem-nos a pensar. Levarem-nos a sistematizar o… óbvio.
Percorrendo o Google temos uma surpresa: há quase cinco milhões de entradas em inglês e mais de 700 entradas para o termo ‘Ciência do óbvio’, das quais sete são de Portugal. Estaremos despreocupados com o óbvio aqui no jardinzito à beira mar plantado?
Duma leitura muito rápida e na diagonal percebi que todos a querem apadrinhar, chamando ciência do óbvio à sua disciplina para dessa forma lhe legitimar prioridade e importância sobre as demais, como se assim se auto colocassem num pódio de indiscutível autoridade, como se dissessem: a medalha é minha, logo, o resto são cantigas…
Obviamente, muito há a dizer sobre o assunto que, sendo óbvio, nem sempre é interior, tal como o casaco que vestimos, do qual conhecemos os bolsos, os botões, a gola, o forro, e dentro do qual nos metemos com destreza, mas não faz parte de nós.
Para mim é óbvio que tenho que aprender até morrer. Está inato em mim, seja uma aprendizagem planeada numa escola, com inscrição e todas essas administrativices ou seja pelo prestar atenção aos outros, ao que dizem, ao que trazem de novo. Mas sendo tão óbvio, não ando sempre a falar do assunto… porquê? Porque é óbvio!
Para mim é óbvio que as férias constituem um período sagrado do ano. Desejo-as fisicamente e faço delas uma prioridade na gestão do tempo, gasto com elas o meu dinheiro, preterindo por exemplo a aquisição dum carro, e glorifico-as interiormente como algo que eu amo. Assim, estranho que me questionem porque raio lhes dou tanta importância? Sendo óbvio para mim, não percebo a dúvida alheia.
Dentro dos óbvios há pelo menos quatro categorias: a científica – se juntarmos dois mais dois, obviamente temos quatro – a previsível – com um tempo assim, obviamente posso ir à praia – a social – se o meu vizinho tem, obviamente que eu também tenho que ter - e a inata, que são os óbvios interiores, explicáveis ou não.
Um exemplo explicável: porque gostam os bebés de ser embalados? Porque durante nove meses se habituaram a baloiçar na barriga da mãe! Em consequência, obviamente, que teremos sempre em nós um certo nomadismo!
Inexplicável, a minha sede de leitura. Habituei-me cedo, é certo, e isso pode conter alguma explicação, mas não explica aquilo que para mim é óbvio: sei que um novo livro é uma nova viagem, uma nova aprendizagem, um crescimento. Mais uma vez, é óbvio para mim, não para todos os outros.
A gestão da minha vida passa por milhares de óbvios que sendo tão óbvios nem penso neles; porém, desde ontem forcei-me a elencar alguns: perante um obstáculo fazer tudo menos desanimar; sorrir o mais possível; nunca desincentivar os outros, apesar de ser muito crítica; ver tudo de vários pontos de vista; não sabendo, perguntar para ficar a saber; não seguir modas a menos que goste delas; confiar em quem sabe mais que eu sobre determinada matéria, entre outras.
Sobre o assunto, obviamente, muito fica por dizer.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

O meu reino por um telemóvel!

Ontem o metro revelou-se um manancial melhor que nunca: não uma, mas duas conversas dignas de registo, vieram parar aos meus ouvidos.
Em pé iam dois homens que conversavam sobre a capacidade dos telemóveis afectarem os comandos de abertura dos carros quando colocados lado a lado! Um deles, descrente, abanava a cabeça face à certeza do outro que ia argumentando com explicações tão técnicas que nunca me ocorreria associá-las a uma chave… Estou indecisa sobre se passarei a usar duas malas para levar as chaves e o telefone em secções separadas.
Mas diante de mim seguiam duas jovens cuja conversa devia ter sido gravada para que a humanidade pudesse ter acesso a mais uma novidade, fruto da criatividade lusitana, da necessidade premente de contacto que todos sabemos ser desesperada.
Uma das raparigas ia dar um jantar – acho que ainda vai… - mas a mesa terá uma particularidade única no mundo: para além de uma plêiade de pratos e talheres e copos e marcadores e guardanapos e flores haverá também… - que rufem os tambores! – um lugar para o telemóvel de cada comensal!
Mas como é que ainda ninguém se tinha lembrado disto? Como é que sobrevivemos até hoje?
A interlocutora esteve à altura e rasgou sorrisos e elogios reforçando a originalidade da coisa. A promotora do jantar explicou que os telefones repousarão nuns pratinhos parecidos com aqueles onde se servem as azeitonas e disse-o com olhos brilhantes, tresandando alegria, tão contente consigo mesma que o lugar onde se sentava até ficou mais pequeno.
Isto fez-me lembrar uma historieta que se conta lá na terra sobre dois sujeitos que foram a um jantar fino, eles que tratavam a enxada por tu o dia inteiro e comiam a merenda com as mãos, sentados a uma sombra. Durante o jantar comeram azeitonas e trocaram olhares sobre o que fazer com os caroços. Quando saíram perguntaram-se mutuamente por eles; um abriu o bolso do casaco mostrando-os e o outro confessou que os tinha engolido.
A bem da verdade já me passou pela cabeça meter um ou outro telefone pela boca abaixo dos donos. Talvez seja uma estratégia…

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Uma questão de sotaque

Não sendo Paris ou Nova Iorque, Lisboa tem uma polifonia assinalável de sotaques no metropolitano, nos quais reparo pois a simples audição é um passaporte para os mais diversos locais. Espanhóis, são sempre muchos, e a estação onde entro ainda regista mais pela proximidade com o Instituto Cervantes. Ingleses, a lots, principalmente em dias de jogos de futebol, maning de africanos, очень russos e ucranianos, todos com o talento de me encantarem, uma vez que qualquer língua estrangeira aos meus ouvidos é sinfonia de criar pele de galinha. Quem serão e o que andarão a fazer? Repararão em mim, quando a situação é inversa? Onde terão ido hoje? Gostaram? São muitas, mas sempre as mesmas, perguntas que me coloco no silêncio que me rodeia enquanto companheira ocasional de viagem dos estrangeiros.
À excepção dos grupos ligados ao futebol, que são sempre muitos, barulhentos e, quase sempre, de cerveja na mão, os estrangeiros não são alvo de muitos olhares por parte dos passageiros.
Na sexta-feira passada isso não aconteceu. A senhora devia ter os seus sessenta anos, falava ao telefone alto e bom som e só à terceira frase é que consegui identificar-lhe a origem: era portuguesa! Toda a gente seguia a conversa com atenção: a senhora informava quem quer que estivesse lá do outro lado que estava no metro, na estação X e iria sair na Y, que havia muita gente, mas não se tinha perdido e intercalava com algumas gargalhadas que, verdade verdadinha, também tinham sotaque de S. Miguel. Ainda esperei que algures pelo meio da prestação de informações ela falasse na cana de pesca, mas tal não aconteceu e os sorrisos dos atentos passageiros não se transformaram em descomunais gargalhadas. Na estação anunciada a senhora saiu carregando uns sacos e a carruagem voltou ao barulho normal que se tinha silenciado ligeiramente para dar destaque ao maravilhoso sotaque  açoriano.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

As aparências iludem

A cinquenta passos da minha casa há uma mercearia, fugaz pegada do comércio tradicional de bairro. Com uma frequência de, pelo menos, uma vez por semana, sou cliente. A dona sempre atarefada atrás ou à frente do pequeno balcão, a deitar olhares ao frigorífico, não vá algum cliente deixá-lo aberto.
Uma coisa que sempre me fez confusão foi ver o marido permanentemente inactivo, a olhar para ela, como se fosse um professor a avaliar o desempenho do aluno. Ora sentado numa caixa vazia, ora em pé, com um desplante enorme, enquanto a mulher se desunha para atender toda a gente, principalmente às sete da tarde, quando regressamos do trabalho e nos lembramos que não temos isto ou aquilo, diferentes os produtos pretendidos, igual a pressa que se nos impõe. Noutras ocasiões o homem estava sentado no carro, diante da mercearia, e ela carregava as caixas de hortaliças e fruta para dentro para fechar a loja. E ele sentado a olhá-la, polícia, ciumento, professor. Não sei. Trabalharia ele o dia todo e estava tão cansado que nem dava uma mãozinha à mulher? Não sei. Aquela postura deixava-me com um nó na garganta.
A meio do Verão, talvez em Julho, fui à mercearia e fui atendida por uma jovem. Pensei que o casal estava de férias e tivessem contratado a rapariga. Passaram as férias e esta semana voltei à mercearia, atrás de cujo balcão se mantinha a mesma jovem. Perguntei-lhe pela senhora e ela esclareceu-me que já lá não estava e lhe tinha vendido a mercearia a ela. Confessei o meu desconhecimento e a nova proprietária, ou porque lhe apetecia falar, ou apenas ser simpática com uma cliente que ela ainda não sabia ter alguma fidelidade, explicou-me que a antiga dona não podia continuar a trabalhar face ao problema do marido, uma doença complicada que obrigava a um acompanhamento cada vez maior, difícil de fazer presa ali na loja. Devo ter aberto os olhos de espanto à menção do espantalho que por ali se passeava sem fazer nada, e ela explicou que eles viviam ao fundo da rua, aquela ali, conhece?, e ele, mesmo doente, preparava o jantar e depois, fazendo um esforço incrível, vinha todos os dias buscar a mulher ao trabalho e iam juntos para casa. Nos últimos tempos já não conseguia andar, mas podia conduzir, por isso vinha de carro e esperava por ela ao volante, numa manifestação de amor e carinho.
Paguei em silêncio e sai da mercearia com uma certa danação com a minha pessoa, não evitando que duas lágrimas escorregassem cara abaixo, e a pedir interiormente desculpa.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Limites muito invisíveis

Os pesadelos são fenómenos cuja horroribilidade não se consegue descrever. Naquele momento o medo é tão forte que apetece morrer. Na manhã seguinte contamo-los e ficamos com ar de parvos perante uma descrição de coisas nada apavorantes. Como se processará o medo? Como é que ele pesa tanto quando estamos a dormir pois, se a situação fosse real, seria tão simples, ainda que esquisita, que dava sono.
Estou deitada de barriga para cima na cama do meu filho e na cabeceira há uma torneira. Em cima de mim há pratos, talheres e diversa loiça suja que tento lavar sem me levantar, ou seja, apanho os enormes pratos verdes onde comemos todos os dias, fazendo leves movimentos de pernas para que não escorreguem quando levanto os braços na direcção da torneira. Desta forma anormal vou lavando a loiça. Tenho um zumbido nos ouvidos (tenho mesmo!) que se torna cada vez maior e, enquanto passo os pratos por água, o zumbido transforma-se em palavras e faço a horrível descoberta de perceber que tenho um homem a falar dentro da cabeça. Sei que são palavras, mas apenas percebo a repetição do meu nome. Escondo-me nos lençóis, não querendo saber da loiça, mas ele está dentro da cabeça e continua a falar. Peço que a noite passe depressa e, num arremesso de coragem, espreito por entre os lençóis temendo ver uma coisa horrível, mas que não sei dizer o que seria. Quando espreito vejo o meu quarto, estou acordada na minha cama, rodeada de florinhas cor-de-rosa, que enfeitam o lençol. Levanto-me sem medo e vou beber água. Não tenho dificuldades em adormecer e hoje de manhã lembro-me perfeitamente do medo como se fosse um objecto que tivesse visto.
Como não sou medrosa aflige-me sentir este pavor quando durmo e gostava de perceber que canais são percorridos e por o quê, para nos fazerem sentir estes limites.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Vinte escudos

A minha mãe conta que numa ocasião, a propósito duma deslocação à Feira de Moura, os meus avós levaram uma amiga dela, de quem não recordo o nome. Os pais ou familiares da garota deram-lhe a histórica quantia de vinte escudos que ela, ufana, guardava e mostrava e voltava a guardar para voltar a mostrar.
Chegados à Feira depois duma viagem de mais de vinte quilómetros em carro de burro a rapariga quis usufruir dos luxos inerentes à sua carteira. Pretensão legítima.
Porém, dos doces à roupa, passando por loiças de barro, brinquedos e malacuecos* quando era preciso pagar a moça virava-se para o meu avô e pedia-lhe que lhe adiantasse o dinheiro pois ela só tinha a nota de vinte escudos para a qual, com certeza, os feirantes não teriam troco.
Depois de mais um par de sapatos e uns metros de chita para uns vestidos e do consequente pedido de pagamento, o meu avô disse-lhe que lhe desse os vinte escudos a ele, que o dinheiro que ela já gastara a mais ele o pediria ao pai dela quando chegassem à aldeia.
Ontem fiquei a dever o pequeno-almoço, os cigarros, o almoço e compras de mercearia ao fim do dia. Tudo porque tinha uma nota de cem euros. Hoje fiz a mesma volta pagando dívidas, agradecendo, desculpando-me.
Não deixo de pensar na cara comum a todos os que me fiaram: de despreocupação. A manifestação dessa confiança deu-me uma alegria enorme, não porque pensasse que alguém me negasse qualquer coisa das que comprei, mas pela forma como o fizeram, tanto mais que a todos sem excepção eu já vira pedirem desculpa e negarem que clientes levassem o que pretendiam, com os olhos postos no chão. E afinal, nos dias que correm, não podemos levar a mal que nos digam Não. Eu digo, Obrigada.
*Malacueco é o nome dado no Alentejo a uma fartura redonda.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

O que chateia mesmo é...

A grande injustiça que se consubstancia no mau tempo nesta altura do ano, que nos deu um Agosto tão pobre em sol e um Setembro com ar de Novembro, acaba de ser explicada na rádio: foram despedidas várias mãos cheias de funcionários dos tribunais quando deviam eram ter sido admitidos mais! Não havendo quem trate de toda aquela papelada isto é um regabofe com o Outono a exercer a sua jurisprudência sem ninguém lhe ter pedido nada. Ou então, como diz Oscar Wilde ‘O Velho Mundo tem tal excesso de população que não há forma de se conseguir clima decente para todos’.
Talvez por sermos muitos, afiam-se as facas para os cortes na Saúde: vai escorrer sangue, quentinho, cabidela não há-de faltar, depenados já estávamos, isto é uma sequência lógica. As dores de cabeça causadas pelo preço dos livros escolares serão tratadas à moda antiga, com rodelas de batata à volta da testa e com um lenço a apertar e quem decida falecer nem vale a pena chamar os Bombeiros Voluntários de Mafamude, é falecer já!
Repete-se até à exaustão a expressão ‘corte na despesa’ que quando é verdadeiramente interiorizada significa que somos todos azuis, mas uns são azuis-escuros e outros azuis-claros.
Aumentam os impostos, fecham empresas, aumentam os impostos, despedem-se pessoas, aumentam os impostos, a segurança social cambaleia em estado terminal, anunciando a morte a qualquer momento e nós rezamos que não, por favor, e pedimos mais por ela que por qualquer elemento da família, amigo ou conhecido que esteja com os últimos estertores.
E no meio disto tudo o que chateia mesmo, mesmo, mesmo, é Setembro não ter um único feriado. Bolas!

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Quem te avisa...

O dia 1 de Setembro de 1991 foi um bom dia. Faz hoje 20 anos. Eu de branco, saia curta e coroa de flores na cabeça. Ele de fato cinzento-escuro, gravata de seda vermelha com pequenos floreados amarelos e verdes, camisa branca. As dores de cabeça que aquela gravata me deu…
Dei com os olhos nela numa montra na baixa. Arrastei as pressas e entrei com a intenção de a comprar, aquela coisa tão linda tinha que me acompanhar no dia do meu casamento. O preço fez-me recuar. Até a mim. Revirei os olhos a pensar que não podia mentir ao meu quase-quase-quase marido, pois se lhe começava a mentir antes do casamento, como havia de ser depois, e teria que lhe dizer o preço e se o dissesse era muito provável já nem haver casamento.
Da mesma forma que se dão nomes aos síndromas, de Estocolmo, de Nightingale, nomes às operações policiais, às missões do exército, eu comecei nesse dia uma longa série de Dilemas e este ficou conhecido como O dilema da gravata. Acabei por comprar outra que aos meus olhos parecia um cardo, seco, murcho, sem cor, mumificado, sem seda, quando muito de poliéster, toda ela uma nódoa, feia como a fealdade em forma de gravata. Os defeitos eram tantos que só havia uma coisa a fazer: ir comprar a outra e correr todos os riscos.
Quando voltei à loja, afogueada, como se fosse resgatar alguém da prisão, inocente ainda por cima, já tinham vendido a gravata! Barafustei, esperneei, chorei e prometeram arranjar-me outra igual, última do lote, esquecida num armazém sabe-se lá onde e eu ouvia o homem falar e as sensações misturavam-se, ora o alívio, ora o peso da culpa por gastar tanto dinheiro, pois, com certeza, vendo o meu pranto iam aproveitar-se e obrigar-me a pagar o aluguer do armazém onde estava a gravata durante os próximos anos. Seja! Tudo vale a pena quando a alma não é pequena, dito que se aplica aqui e em qualquer outra ocasião pois é tão bonito que fica sempre bem.
Lá me depositaram a gravata nas mãos e já ouve mães menos emocionadas por segurarem pela primeira vez nos seus filhos, comparadas comigo, naquele momento. Rezei para que não me perguntassem o preço e se não me pedissem confissão, também não a faria de livre vontade. Acabei por dizê-lo, dias mais tarde. Não houve dramas nem ameaças de divórcio, mas o esbulhagar de olhos foi conclusivo: foi uma vez sem exemplo!
De manhã encontrámo-nos juntamente com os convidados à porta do Registo Civil de Sintra. Onze horas, eu pontual, ele atrasado. Como sempre. Talvez esta quebra de protocolo da noiva chegar primeiro tivesse ditado o fim do casamento e não tivéssemos esperado que a morte nos separasse.
A entrada para o Registo Civil faz-se através dumas escadas encimadas por um quiosque e ainda hoje se arrancam gargalhadas ao vermos as fotografias com as revistas pornográficas penduradas nos escaparates a servirem de cenário aos sorrisos da noiva e dos respectivos convidados que, para matarem tempo na espera pelo noivo, foram tirando fotografias, agora com uns primos, depois com amigos, mais com este menino, hoje um homem, ele próprio a fazer planos de casamento. Não te cases, rapaz, não te cases, quem te avisa, teu amigo é!

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Alice no país das traduções

Tal como a Lua que todos vemos e sabemos existir mas onde poucos puseram o sapatinho, também a Alice faz parte do imaginário de praticamente todos os que conheço mas raros foram os que leram o livro, embora vão adiantando, como compensação gaiteira, que viram o filme ou os filmes, que animados há muitos.
Pois também eu fazia parte do lote dos desprovidos da leitura integral de As Aventuras de Alice no País das Maravilhas, mas já não faço.
Porém, se me alegra ter lido o livro desgosta-me profundamente que Alice em parte alguma no País das Maravilhas se tenha sentado pois embora Lewis Carrol a tenha sentado várias vezes, José Vaz Pereira e Manuel João Gomes lá acharam que assim não estava bem e resolveram assentá-la por diversas vezes, bem como o casal real que igualmente se assenta e nunca se senta.
Outra mudança que os tradutores assinam é a opção por Tartas em vez das simplórias tartes. Ainda se fosse uma quiche, agora uma tarte! Ora uma Tarta manda outro gabarito, remete-nos para o mundo dos tártaros, para uma dimensão cremosa, um bechamel, enfim, manda-nos para outro sítio e se gostamos ou não isso é problema nosso, com certeza da falta de palato para coisas requintadas como Tartas.
Uma terceira opção de tradução passa do original que diz:

“The Queen of Hearts, she made some tarts
All on a summer day;
The Knave of Hearts, he stole some tarts
And took them quite away!”

Para:
"A Rainha de Copas
De um baralho de cartas
Fez para o jantar
Umas ricas tartas
Num dia de Verão;
O Valete de Copas
De um baralho de cartas
Deu-lhe para roubar
E comer as tartas.
Ladrão!
Comilão!"

Numa quarta mudança esta edição elimina interrogações! Qué lá isso de perguntar? Atão somos burros? Não sabemos, temos que perguntar? Temos que questionar as pessoas, os bichos, os seres, o baralho de cartas, sejam eles quem forem? Há que evitar incómodos e o melhor é afirmarmos, nada de perguntas. E assim sempre se poupa na tinta da impressão.
Uma quinta alteração na tradução baralha-nos a visualização que as palavras transportam: se Lewis Carrol se ficou pela expressão dos números das cartas, Cinco, Sete ou Dois, os tradutores resolveram atalhar como quem traduz em cima duma mesa de pano verde e vai daí o Dois vira Bisca, o Cinco transforma-se em Quina e, surpresa das surpresas, o Sete passa a Sena, ou seja, ou é uma grande batota ou os tradutores não conhecem as cartas e, quiçá, os números, e baralham o Seis com o Sete.
É uma tradução difícil? Sim, sem dúvida, por entre o non sense espreguiçam-se exemplos dos mais variados, como por exemplo quando o autor, tendo que apresentar uma palavra começada por M escolhe MOON que, em português, recua uma casa como se fosse o Jogo da Glória e coloca-nos na letra L, de Lua. Há que dar a volta e resolver a questão que, neste caso, optou por, não fugindo do modo lunar, buscar a expressão Quarto Minguante da Lua, com o Minguante em itálico.
A edição é em causa é da QuidNovi, colecção Biblioteca de Verão, 2010. Desaconselha-se. Mas isso é apenas a minha opinião.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Dom Casmurro

Acabei de ler esta pérola no fim-de-semana e não acredito que Capitu tenha estado em vale de lençóis com o grande amigo de Bentinho. A ser, a coisa foi rápida e não meteu cama, que tempo não havia sem levantar suspeitas, logo, afasto oficialmente os lençóis.
Machado de Assis foi primoroso a criar a teia e deixa a dúvida perdurar que nem pilhas duracell, até hoje, até sempre.
Deliciei-me com as promessas de Bentinho e com os superlativos do agregado José Dias; dei asas ao romantismo com aqueles olhares silenciosos que diziam tudo, ao invés do explícito que se apoderou da actualidade e que impede as emoções de fazerem mais que aflorar a pele, quando muito. Há deficit emocional nos dias de hoje, sabemos que o fogo é quente mas é uma espécie de conhecimento conceptual, não prático, desconhecemos o sentido do calor do fogo na pele, cá dentro, como uma tabuada decorada mas não sabida salteada. Consequentemente, as conversas sobre o amor entre pessoas de diferentes gerações nem com um tradutor lá vão: uns falam de sentimentos profundos, tão profundos que duravam vidas e não tinham espaço para outras pessoas, grandes e fundos como a Fossa das Marianas, mas cheios de densidade e entrega. Outros falam de sexo e já está. Quando muito são como um dente-de-leão que à menor brisa se desfaz, sem deixar vestígio que existiu.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Um must da praia 4

As marés são fenómenos que até passam despercebidos se nos instalarmos lá no princípio do areal. Mas quando esticamos a toalha e ficamos com as unhas a baterem na água a história é outra. Ora se complicarmos a equação e lhe juntarmos uma raiz quadrada de ondas o resultado é = a toalha encharcada, saco com carteira e outros pertences lavado com água do mar, chinelos a boiarem na espuma e nós com cara de parvos.
Foi o que me aconteceu ontem.
O protagonista de Nothing Hill tinha uns óculos de mergulho graduados e já me lembrei de arranjar uns para mim, pois assim evitava certas cenas. Como não vou à água de óculos, deixo sempre a toalha o mais perto possível para me poder orientar quando emerjo a imitar a Ursula Andress ou, se tivermos em conta o meu bronzeado, talvez mais a Halle Berry. Se eu me tivesse lembrado que qualquer uma delas não usa toalha não teria deixado a minha ser arrastada pelas ondas, nem obrigado a mãe de família, minha vizinha e colega de trabalho naquela ocupação maquinal que é estar deitada na areia, levantar, mergulhar, voltar, deitar na areia, and so one, and so one, levantar-se e resgatar a minha tralha mais para cima enquanto eu estava de mergulho, cega, sem prótese ocular, ignorante da movimentação que se dinamizava a apenas meia dúzia de metros de mim.
Quando saí da água avistei o azul forte do saco e achei a distância entre mim e ele muito grande, garantidamente, alguns dez passos! Lá agradeci as andanças da senhora e senti a risota que eu própria dedico a todos quantos são alvo das brincadeiras das ondas quando a maré sobe. Agarrei na toalha, lavei-a para me livrar daquela areia e escorri o melhor que consegui aquela autêntica tenda de campanha, daquelas familiares. Lá a estendi novamente e assim fiquei o resto do tempo que permaneci na praia, até que ao fim da tarde a esgueirei para dentro da máquina de lavar, numa espécie de lavagem ao estômago, de onde saiu sem vestígios da tentativa de afogamento dessa tarde.
A subida da maré de forma repentina mais extraordinária que ganho memória aconteceu em S. João do Estoril e teve como protagonistas uns primos da minha mãe que encontrámos por acaso.
Armados em finos, dividiam o tempo entre a barraca na areia e umas espreguiçadeiras no paredão onde iam bebendo umas imperiais. Foi precisamente aí que os avistámos e foi precisamente nesse momento que o meu pai torceu o nariz, as sobrancelhas, a boca e todo o rosto. Os primos eram muito p’ra frente e ela ostentava um biquíni minúsculo que fazia as vezes de íman e puxava os olhares para cima do seu bronzeado. Como se isso não bastasse ele usava uma tanga tigresa que serviria de fio dental a qualquer homem com uma constituição normal, mas a ele tapava-o um pouco mais pois para além do esqueleto tinha um ou outro músculo, nada mais. Isto era na altura em que os homens usavam cabelo comprido e saltos altos, diga-se de passagem, e o primo era um metrosexual dos anos setenta, cujos modelos fashion não agradavam ao meu pai, cuja bigodaça se torcia com aquelas modernices.
O espectáculo dava espectáculo no paredão e o meu pai interiorizou logo duas ou três imprecauções, que nunca em tempo algum lhas ouvimos verbalizar mas mesmo que nunca as pensasse aquele momento propiciava que começasse com essa prática, pensando que, com tanta gente por ali, logo havíamos de ser nós a encontrar gente conhecida e, com tanta gente que conhecíamos, logo haviam de ser aqueles e, com tanta estação que o ano tem, parece que não mas ainda são quatro, e o leque de escolha de roupa é tão grande, logo havia de ser no Verão e logo havia de ser naquela figurinha.
Os primos fizeram uma festa quando nos viram, logo se acharam outras espreguiçadeiras e mais uma ou outra cadeira e mais beijos e palmadas nas costas e o meu pai a falar devagar, tentando conjugar a resposta certa à pergunta que lhe era colocada, com o pensamento permanente no arrependimento de ali termos ido. Mas tínhamos ido e eles podiam estar quase nus mas eram vigorosos na expectativa que ficássemos, ele logo a pedir mais imperiais e, bem, sentados, sempre se viam menos, pelo que acabámos por nos sentar.
Eu também tinha ficado impressionada com o quadro mas a água exercia em mim um chamamento mais forte e em minutos estava a dar valentes mergulhos em ondas de paixão. As ondas eram mesmo apaixonadas e foram crescendo, crescendo, crescendo até que uma delas desabou na praia até ao paredão. Foi o caos: barracas e tendas e roupa e chapéus-de-sol e crianças e sapatos e toalhas e tudo quanto se imagine estar numa praia num domingo de Verão, por volta das três ou quatro da tarde. Escusado será dizer que a barraca dos primos não foi poupada e a roupa desapareceu. Em segundos a esplanada do paredão ficou vazia com todos os ocupantes a correrem para a areia a fim de procurarem os seus bens e pertences, mas que é feito deles? Duas horas depois ainda não se tinham achado as coisas dos primos e lá andava ele de rabo de tigre alçado e cigarro na mão a procurar a carteira, a prima a escavar perto da barraca, nós a ajudarmos, os meus pais aliviados por não terem chegado à areia, logo, a arrastarem um saco originalmente seco no meio daquilo tudo.
Havia gente em lágrimas, magros e gordos despidos e aflitos em sintonia, de dentro de água homens, mulheres e crianças apanhavam calçado, roupa e os mais diversos objectos. Apesar do calor e da reposição da normalidade do mar, as pessoas começaram a abandonar a praia com desalento. A carteira dos primos não aparecia. O meu pai dava voltas ao areal como se disso dependesse a vida de alguém pois o primo já tinha dito que, não tendo chaves do carro, teríamos que ser nós a levá-los e percebemos logo que o meu pai não estava com grande vontade de dar boleia a uma réplica cómica do Tarzan, uma miniatura, um esboço do Johnny Weissmuller. Em tudo.
Os banheiros, na altura não havia nadadores salva-vidas, eram mesmo banheiros, iam amontoando o que encontravam no meio da areia e o que era resgatado de dentro de água e as pessoas dirigiam-se ao monte de destroços em busca do que fosse seu, numa altura em que não se tinha grande receio que alguém levasse o que não lhe pertencia e a honestidade ainda existia. Conclusão, a prima lá encontrou o saco no meio do monte bagunçado de areia molhada, onde estava a carteira e as chaves do carro. Da roupa não se tiveram notícias, mas como tinham ido para a esplanada com as toalhas, saíram da praia dignamente enrolados nelas, o que não era mau em comparação com outros que não tinham nada, ou com o cómico-ridículo de outros ainda só com um chinelo por exemplo.
E é assim que sempre que as ondas molham a ponta duma toalha eu me lembro daquela célebre tarde em S. João, quando os primos foram privados da roupa, numa espécie de castigo ou vingança do destino por andarem tão parcamente vestidos na praia. Se foi castigo não sei, mas hoje a moda tem outras regras, e encontra-se gente mais vestida na praia que na rua.