quinta-feira, 21 de julho de 2011

Sean Sellers

Ontem assisti a uma reportagem sobre Sean Sellers, condenado à morte por crimes cometidos com a idade de 16 anos. A sentença foi executada em 1999 quando tinha 29 anos. Até lá viveu no chamado corredor da morte, mas sem o isolamento de outros condenados pois foi ‘seguido’ pela televisão e os jornalistas dedicaram toda a atenção ao adepto de satanismo, amante de Dungeons and Dragons, convertido depois ao cristianismo já na prisão, a sofrer de múltipla personalidade mas que matou três pessoas quando era adolescente, uma delas para ‘ver como era’. Várias personalidades, entre elas Desmond Tutu, ergueram as vozes para que a sentença fosse transformada em prisão perpétua, mas a injecção foi mesmo dada, diante de várias pessoas convidadas, e o convidado aqui é macabro, mas é verdadeiro, pois o Estado de Oklahoma, para além de permitir que as famílias das vítimas assistam à execução, permite também a existência de convidados; não sei em que outras salas passa o mesmo filme…
Polémicas à parte sobre a pena de morte, havia ali qualquer coisa que não batia certo, na reportagem, bem entendido, que no resto estava tudo baralhado, como é óbvio.
Sellers defendeu que as famílias das vítimas eram as únicas que podiam decidir sobre a sua morte ou não pois eram os afectados; mais ninguém devia interferir no processo.
Fiquei sem perceber se os juízes também deviam ser postos de lado e se esse modelo seria uma proposta a ponderar; se assim fosse, qualquer ladrão acabava no cadafalso, sem apelo nem agravo. Estranha defesa de alguém que está no corredor da morte.
As imagens mostraram o dia da última apelação com pedidos de condenação por parte da família dos assassinados e durante a qual foram dados cinco minutos ao assassino para se defender. Mais uma vez a defesa foi fraca, com palavras mal pensadas, discurso não estruturado e argumentos esquisitos. Ora, alguém que está na prisão, a ver esgotar-se o tempo de vida, deve ter tempo para pensar – digo eu… - e articular um discurso de fazer chorar as pedras da calçada, sozinho ou auxiliado pelo advogado e amigos, com quem podia trocar correspondência. Sem surpresa, o júri disse não, não, não e não, pois era constituído por quatro pessoas.
Nos minutos dados a Sean Sellers não se ouviu um lamento, um pedido de desculpa, um ar de mortificação, nada. O advogado chorava, as câmaras mostravam os amigos de olhos fechados, como se não quisessem encarar a realidade e, fechando os olhos, impedissem os nãos de lhes entrarem pelos ouvidos.
Penso que a única pessoa que podia ter tido um papel fundamental na defesa de Sean teria sido a mãe, mas essa estava debaixo de sete palmos de terra pois foi uma das pessoas que ele matou.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Que grande lata!

Ao fundo da rua está o palácio que me dá telhado como local de trabalho. Antes de lá chegar está o quiosque onde me abasteço diariamente. Cumprimento o dono, o Sr. A. que me vai estendendo as coisas sem que eu precise de as nomear, pela força do hábito. Enquanto isso, uma senhora pergunta:
- Qual é o melhor jornal para encontrar anúncios de casa de férias?
- Tem o Ocasião e o Correio da Manhã.
- Ai sim? Então empreste-mos… é só para tirar os anúncios de casas de férias, não os vou ler.
Não me contive e dei uma gargalhada olhando directamente para a mulher que me sorriu perguntando do que me ria.
- Da sua lata! O uso do jornal pressupõe a sua compra!
O Sr. A. olhava-me com os olhos abertos como se fossem bandeiras a pedir ajuda, o que me fez continuar até que a mulher lá se decidiu:
- Bem, se tenho que pagar, então só levo um… pode ser o Ocasião.
Esperei que ela pagasse, despedi-me do homem e vim-me embora.
Hoje de manhã, repete-se a rotina e o dono do quiosque comenta o sucedido, dizendo que há pessoas que são capazes de tudo. Enquanto falávamos, pára um carro ao lado do quiosque e estaciona batendo estrondosamente no carro do Sr. A.
O condutor sai do carro, o Sr. A esbraceja indignado e tenta endireitar a placa da matrícula, dizendo ao outro:
- Então você não viu o carro?
- Vi, mas isto são coisas que acontecem! Nunca bateu quando está a estacionar?
Desta vez não consegui rir-me com a nova manifestação, não de lata, mas de verdadeira latosa do homem e disse ao Sr. A. que ia chamar a polícia. O homem acalmou e baixou o tom de voz: que não era preciso, que ele tinha muita pressa, que desculpasse, que de facto são coisas que acontecem, que…
- Pois são coisas que acontecem, são… mas a quem não presta atenção ao que está a fazer!
A exaltação do Sr. A ia crescendo, mas esmoreceu com o que pareceu um pedido de desculpa sincero do outro.
Espero que amanhã não lhe mandem o quiosque ao chão!

No fio da navalha

Voltei a percorrer O Fio da Navalha. Aquele Larry é inesquecível. Encontrei-o a primeira vez quando era adolescente, em edição de bolso, capa branca com uns metais retorcidos que me faziam confusão. Lembro-me de ter saído de lá e entrado noutras casas a perguntar com os olhos o que era aquilo dos Ashrams, quem seria Ganesha e de me ter deixado conduzir por leituras sobre o assunto que depressa abandonei por me parecerem muito confusas.
Depois apareceu um filme supostamente baseado no livro e fui ver. Saí de lá com vontade de pedir o dinheiro de volta e vinguei-me em nova leitura. Há pouco tempo fui premiada com uma nova edição, da colecção Vintage da Asa, que acabei de ingerir agora.
Há releituras com personagens que são tão marcantes que se me afigura absolutamente normal vê-las vivas, mesmo sabendo que já assisti e acompanhei a sua morte há anos atrás. É a intemporalidade. É a diferença entre vermos uma fotografia de alguém e dizermos ‘Este era o meu Tio fulano’ e vermos uma imagem de César e exclamarmos ‘Este é César’.
Os Césares são imortais, como os Leonardos, os Rafaéis, os Albertos, os Alfredos, e podia seguir até se me acabar a tinta e mesmo assim ficava a lista coxa.
É impossível não amar Larry e, em simultâneo, ter medo de o encontrar. Vê-lo, vê-lo mesmo, não só olhá-lo, é vermo-nos a nós próprios ao espelho, sem máscaras nem pinturas e questionarmo-nos sobre a vida. Ora, actualmente, perdeu-se o hábito de nos fazermos esta pergunta: é meia bola e força, muito palavreado mas pouca acção, faz o que eu digo, não faças o que eu faço e quejandos.
Conheço muita gente, demasiada, que olhariam Larry como olhariam para um unicórnio, admirando-o, mas com a certeza da sua não existência, virando-lhe as costas com um encolher de ombros. Essas mesmas pessoas mostrariam vibrar com as atitudes de desprendimento material de Darrel, e manifestá-las-iam com o rabo agarrado aos seus sofás e canapés aprovados antecipadamente por Elliot Templeton. Nem lhes passaria pela cabeça que há alguém capaz de certas atitudes sem fazer qualquer esforço. Como Larry. Mas como Larry é uma personagem, acabamos todos a comer pescadinhas de rabo na boca!

quinta-feira, 14 de julho de 2011

A Casa Verde

Os almoços de ontem e hoje foram regados com o mais belo néctar dos últimos tempos: O Alienista do soberbo ano de 1882, preparado por Machado de Assis e que chega a mim em 2011 envelhecido mas com sabor de actualidade.
A edição está longe de ser de luxo, é da colecção Biblioteca de Verão do Jornal e do Diário de Notícias, e é oferecida na aquisição de várias outras publicações, no meu caso com a Volta ao Mundo.
As menos de cem páginas devorei-as durante dois períodos de descanso para almoço durante os quais rezei para que ninguém me dirigisse a palavra, enquanto engolia a imagem da actual sociedade na Casa Verde e reconhecia Simão Bacamarte como aquele(s) que aparecem sempre no horário nobre das televisões.
A prosa de Assis é subtil, manhosa mas a fazer vénias, elevando o desequilíbrio à categoria da perfeição.

Não fiquei assediada

Terminei O Assédio de Reverte. Como dizia um amigo à saída da sala de cinema depois de sessão que não ficou para a história, interessante mas com pouca acção
Rogélio Tizon é a personagem de peso da narrativa, numa Cádiz liberal do início do século XIX, por onde anda também um corsário de olhos verdes. Ora, nem precisava ter olhos verdes, bastava-lhe ser corsário, profissão romântica e que inspira suspiros em donzelas e em mim.
Confesso que saltei parágrafos de descrições de como-fazer-uma-bomba-acertar-no-sítio-pretendido, com estudos de probabilidades, medições de peso, previsões sobre os ventos e não sei o quê mais, pois não as li. Mas adorei as passagens – ainda que também longas – sobre a vida no navio com burrajonas e demais velas desfraldadas.
Ainda assim, Reverte mantém a capacidade de conseguir fazer-me ver o que descreve, o que nem sempre acontece com outros autores. Leio e estou lá, sinto o cheiro das ruas que ladeiam o mar, a humidade faz-me arrepiar de frio e a chuva molha-me. Só por isso vale a pena.
Calhamaço com quase 700 páginas, da Asa, traduzido por Helena Pitta, 2011.

Fado

Andrzej Stasiuk é polaco e autor dum livro que se chama Fado. Título impecável, não pela vaidade do uso duma palavra na língua de Camões, mas porque é o certo, o único.
Em viagem (‘To trave lis to live. Or in any case to live doubly, triply, multiple times’, p. 34) pelas Polónias, Hungrias, Roménias, Albânias e Eslóváquias, leva-nos sempre sentados na cadeira da ironia colocada ao lado da janela dos pormenores que, como os gomos da laranja, fazem o todo, aquele todo de que os turistas nem sequer ouviram ouvir. Stasiuk viaja, não confundir.
Os plurais dos nomes dos países designam a multiplicidade de realidades simultâneas que nos são postas diante dos olhos, não às postas mas em vislumbres abrangentes, com linguagem simples e perceptível para além do óbvio. As Europas Centrais das quais sabemos que ficam no centro e decoramos as capitais, mas sobre as quais desconhecemos tudo, uma pena.
O livro não é meu, foi-me emprestado. Mas a leitura não podia ser mais minha, tal e qual como num processo de viagem por um país que não sendo nosso, passa a ficar em nós porque passámos por ele.
Apetece-me traduzi-lo para que o possa ler de enfiada em português, depois de feita a leitura em inglês (vagarosa) e na impossibilidade de o fazer em polaco, opção sempre ideal, a da leitura na língua original. Lembro um momento passado há pouco tempo por entre fumo de cigarros à porta do aeroporto da Portela quando me esclareciam auditivamente sobre frases aliteradas em norueguês (seria? Ou sueco…?) e cuja melodia se perdia com a tradução. Foi nesse dia que mo emprestaram.
V. já to posso devolver, obrigada.
Edição da Dalkey Archive Press, tradução de Bill Johnston, de 2009

segunda-feira, 11 de julho de 2011

República do Sudão do Sul

Parabéns ao Sudão do Sul. Bem-vindo a este pacífico planeta, de partilhas e entendimentos, de gente boa, sã e saudável. Talvez por isso o novo país decidiu, ainda a gatinhar, que para garantir e aumentar a saudabilidade era necessário providenciar a existência de uma selecção de futebol!
Bem marcado!

Um must da praia 3

A paleta de cores dum areal num domingo à tarde é digna de ser vista. O enfoque é dado nas cores fortes e garridas, preferidas para fatos de banho, chapéus-de-sol e toalhas que se aninham uns nos outros face ao reduzido espaço disponível e quanto mais dentro de água melhor, seja por causa da criancinha que quer estar sempre com os pés molhados ou pela preguiça de andar na areia.
A metodologia da marcação de propriedade é similar à que se fez na Lua, espetando uma bandeira: aqui enterram-se chapéus-de-sol e estendem-se toalhas, marcando assim o território, mas nem sempre de forma definitiva, pois basta o vento levar a toalha para vir um espertinho, que até ajudou assoprando, para esticar a dele e ficar com aquele metro rectangular.
Porém, há outra coisa que nos obriga a arredar para trás e contra isso nada há a fazer: a maré. Já se sabe que é difícil remar contra a maré e quando o remo é um par de chinelos, uma toalha e uma sacola, pior ainda.
Assim, aquele pedaço de terreno arenoso que nos proporcionou tanto prazer a uma certa hora começa a ser ameaçado pela espuma das ondas para ser galgado pela água empurrando-nos pela areia acima. Para onde? Para cima de alguém, um alguém qualquer, mas que já lá estava.
Quando isto acontece somos alvo de olhares antipáticos e até algumas palavras menos agradáveis, mas é questão de se esperar uns minutos e as mesmas pessoas que não gostaram que estendêssemos a toalha tão em cima deles, pegam agora na sua bagagem e fazem exactamente o mesmo com outros veraneantes, metros acima, passando a nossos companheiros de infortúnio e esquecendo o que disseram um quarto de hora antes.
A faixa de areia mais longe da água começa pois a ser alvo de ocupações daqueles que a desprezaram quando montaram a tenda assim que chegaram.
A parte mais engraçada de toda esta dinâmica – especialmente quando NÃO nos acontece a nós – surge quando uma onda apanha toalhas, sacos e sapatos de alguém que está dentro de água e não se apercebe. É como uma queda no meio da rua em dia de chuva, provoca sempre gargalhadas, é instintivo e mais forte que nós, ou, pelo menos, mais forte que eu.
O pior é que eu quero ajudar, quer o pobre que se estatalou debaixo de chuva quer a família de fato-de-banho cujos pertences parecem ter saído da máquina de lavar sem terem feito a centrifugação, mas como estou sempre a rir-me sou mal interpretada e por norma vejo a minha ajuda ser negada. Mas a gargalhada, desculpem lá, ninguém ma tira!

Profissionais do ouvido

Há pessoas que têm como vocação ouvir e não, não falo dos padres. Ouve-se tanto que até se deixa de saber falar e quando se torna necessário dizer qualquer coisa, o lugar do outro lado aparenta ser de sacrifício pois os anos de prática é na disciplina de ouvir e não de falar. Até uma simples dor de dentes pode ser escondida, por se ter perdido a prática de anunciar o que se sente. Como se chega aqui?
Para além daquela interrogação inicial com que começam as conversas, está tudo bem?, que não é uma pergunta verdadeira, não é uma preocupação, não é o reflexo de quem quer saber, mas um simples cumprimento, ninguém pergunta mais nada e perguntamo-nos, será que se eu dissesse alguma coisa, se deteriam a ouvir? A falta de prática de estar no lugar de quem fala, leva-nos a pensar que os outros não sabem ouvir. Se calhar sabem.
Mas se por um lado os problemas duns são tantos e tão grandes que não deixam margem para a expressão dos nossos próprios problemas, por outro lado, as felicidades dos outros trazem-nos notícias que não merecem ser mescladas com tristezas. Não merecem eles e não merecemos nós levarmos com o silêncio constrangido e surpreendido por nunca se terem dado conta que também tínhamos problemas e há anos que vivemos lado a lado, dia a dia; não damos sinais? Fechamo-nos assim tanto? Não há indícios, tantos!, que temos problemas e preocupações como qualquer outra pessoa? Quando isto acontece somos olhados como um bicho raro, como se o facto de a vida não nos correr bem trouxesse um desequilíbrio às conversas que se costumam ter; como se também eles passassem a ter a grande responsabilidade de ouvir, de aconselhar, de perguntar, de estar disponível, de ser acessível, de serem todos ouvidos.
Quem errou? Quem não insistiu na pergunta do, está mesmo tudo bem?, ou quem insistiu na resposta do sim, tudo, e mudou logo o azimute perguntando, e tu, conta-me tudo.
O poder está na pergunta, em quem pergunta, como pergunta, porque a pergunta é que manifesta o interesse.
Passam-se anos nestas dinâmicas e um dia acordamos a saber ouvir tudo, sussurros e palavras lá ao longe, gestos, mas sem conseguirmos falar de nós. Um dia acordamos esquecidos de nós. Os outros já se esqueceram há muito e o que querem é mesmo o nosso aparelho auditivo.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

As portas do metro

As portas do metro abrem-se a cada estação. Vomitam gente que se apertou contra desconhecidos, evitando olharem-se nos olhos, sabendo que o constrangimento é comum e partilhado, gente que se aninhou como não se aninha em casa.
As portas do metro fecham-se a cada estação. Seguram oxigénios com sotaques africanos, crianças que esperneiam ao sono, adultos mecânicos que reagem ao som do nome da estação onde devem sair, mesmo que vão a dormir com baba a escorrer-lhes pela boca.
As portas do metro abrem-se e fecham-se a cada estação musicando as vidas com barulhos próprios que ninguém ouve e segurando pulsares sociais.

O desejo e os empregados dos cafés

Apetecer e desejar são duas coisas muito diferentes. O desejo está na esfera, desde logo, das grávidas, dos amantes e dos sonhos. O apetecer é da esfera dos caprichos, dos simples apetites, que podem mudar de azimute dum momento para outro.
E é assim que acho sempre estranha e desenquadrada a pergunta vinda dos empregados de café sobre se eu desejo um copo de água.
A bem da verdade, nunca tive assim tanta, tanta sede que d e s e j a s s e um copo de água. Eu quero água, não a desejo, como desejo, por exemplo, um mergulho, e exemplifica-se com o dito por meter água também, mas normalmente não se mergulha em cafés e não sou parente da Sininho.
O desejo de agradar, lá está!, é uma ilusão e mais uma vez confundem-se as coisas pois é um falso desejo: o empregado apenas quer mostrar que os nossos supostos desejos são ordens para ele, que se está nas tintas para o facto de querermos um copo de água ou desejarmos lambuzarmo-nos com um gelado. Ele quer é vender e contribui para isso colocando os nossos arbítrios ao nível do desejo, não percebendo o burlesco da sua pergunta que, dependendo também do empregado em si, pode ir do cómico ao ridículo.
Pobres dos que têm desejos como torradas aparadas ou cafés em chávenas largas que são simples preferências. Tristes os que desejam adoçante ao invés de açúcar ou levar metade do pão com manteiga embrulhado para comerem a meio da manhã que são meros contentos.
Que é feito do querer? Do preferir? Do apetecer?

terça-feira, 5 de julho de 2011

Sorte? Onde, onde?

O euromilhões é um propiciador do aumento das discrepâncias entre as pessoas. É encarado como um milagre, um enorme milagre que acontece a alguns, raros, raríssimos.
Se aquilo fosse distribuído convenientemente muitos ganhariam uma bençãozita, outros eram salpicados de água benta, o que já seria muito bom, e não nos ajoelhávamos a rezar tão fervorosamente todas as sextas feiras, quais muçulmanos.
Mas não, a coisa está feita para alguém ganhar, mas não os apostadores pois claro, e de vez em quando há um que leva, não o bolo todo, mas a fábrica de pastelaria inteira!
É claro que não é justo, mas aquilo também não foi criado pelas mãos da senhora de olhos vendados e os quinhões lá da balança são fruto dum jogo e, como qualquer jogo, raramente se ganha.
É curioso como este tipo de jogos podem ser catalogados com expressões antónimas e, assim mesmo, verdadeiras: há quem lhes chame jogos de sorte e há quem lhes chame jogos de azar. Mas joga-se sempre, e joga-se na esperança da sorte, embora o que aconteça dia após dia é cantarmos as palavras de Renato Teixeira, imortalizadas por Elis Regina, se há sorte, eu não sei, nunca a vi.

Requiem por um par de chinelos

Há quatro anos comprei dois pares de chinelos de enfiar no dedo no mercado: uns pretos para mim e outros azuis escuros para o meu filho. Três euros o par, cinco euros dois pares. O delicado número 45 que ele calçava, o facto de os levar para os treinos e usá-los nos banhos diários, deve ter ajudado a que se tenham partido no ano seguinte. Mas o meu par durou, durou e dura.
Usados diariamente em casa o ano inteiro e em todo o lado assim que o sol se deixa de vergonhas, já fizeram muitos, muitos quilómetros e têm uma sola que parece uma fina panqueca. Há umas semanas encontrei uns bocadinhos de borracha preta na sala e demorei a perceber de onde tinham vindo. Quando percebi o que era, lavei-os e deixei-os secar, mas depois, a vontade de os usar foi mais forte: a minha tara por botas, sapatos e tudo o que seja de calçar, teve aqui um ponto muito alto. Estes chinelos conhecem o meu pé como algum outro calçado, seguram-me com calças e saias, na praia e no sofá; são os únicos que têm o privilégio de poderem estar nos pés e em cima do sofá. Calço-os e sinto-me vestida. Imunes ao suor ou à sujidade da sola dos pés. Já adormeci com eles, viajei por muitos sítios, escorreguei em momentos de chuva inesperada, corri e transportei-os na mão quando caminhava na água ou na areia.
Hoje vi que têm um corte por baixo. É definitivo. Lembrei-me do dia que descobri que um dos meus cães estava doente. Era definitivo e foi rápido. Sei que os vou calçar amanhã e que os vou matar definitivamente, talvez até durem mais dois ou três dias, mas vão ficar até ao último sopro, e depois, depois vão para a galeria dos inesquecíveis, dos verdadeiros companheiros.
Todos conhecemos pessoas que se dizem amigas e que não fazem metade do que um par de chinelos de enfiar no dedo faz por nós.
Posso ter outro par de chinelos, terei com certeza, mas não há substituições.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Twilight zone

A cena é verdadeira e passa-se no gabinete da médica, onde fui há meia dúzia de dias.

- Gosta de praia, já vi…
- Sim, e exagerei na última vez que fui por isso tenho a pele toda a saltar
(Começa a ouvir-se a música do twilight zone)
- Exagerou nada… eu adoro praia e só não fico o dia inteiro porque a minha família não deixa… perdoa-se o mal que faz pelo bem que sabe. Toma algum medicamento?
- Não
- Tem alguma queixa?
- Não
- Óptimo, então está tudo bem
- Apenas tenho excesso de peso.
(Recomeça a ouvir-se a música do twilight zone)
- Não concordo nada: as pessoas são todas diferentes e se não tem razões de queixa de saúde, não vá agora arranjá-las. Fuma?
- Sim
- Ah, isso é que vai ter que deixar
- Tem razão, eu ando a fumar um cigarro electrónico, como lhe chamam, e acho que está a dar resultado.
(Música do twilight zone, outra vez)
- Mas cuidado, pois se acha que tem excesso de peso e está a pensar em deixar de fumar, isso pode ser difícil, sabe que vai ganhar peso?
- Sim sei, eu já deixei há poucos meses e ganhei mais de cinco quilos num mês
- Pois… olhe o melhor é diminuir, mas não deixe mesmo senão já sabe, nunca mais perde os quilos a mais.
(Genérico do twilight zone)

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Um must da praia 2

Dias de calor intenso com mergulhos em ondas de dimensão média – que eu cá sou um bocado medricas com a altura das ondas – são das melhores coisas do mundo.
Só há um elemento capaz de estragar esta maravilha: o vento. Porém, há que tirar partido de todas as situações e quando se levanta o vento não nos devemos levantar da toalha, antes pelo contrário.
Se estivermos atentos veremos todo o tipo de pessoa a correr pela praia, normalmente na mesma direcção, a do vento. Precisamente. Correm atrás dos seus chapéus-de-sol que se julgam borboletas, levantam a estaca e voam dali para fora, imunes a tudo e a todos, vazando olhos pelo caminho com as varetas em riste e o tecido bem esticado, a brincar como se fosse uma vela latina.
Alguns proprietários pedem ajuda aos banhistas: sem fôlego mas de braço esticado, dão sinal para parar a marcha do chapéu que as mais das vezes não se deixa apanhar e acaba encalhado noutro chapéu, numa geleira ou nos costados de alguém.
Há estatísticas oficiais que comprovam que o dono do chapéu a meio da correria já tem vontade de desistir, não porque queira comprar um novo, mas pela vergonha que a maratona sempre acarreta com risos provenientes de todos os cantos do areal.
Isto é comprovado pelo facto de, quando o chapéu decide fugir, haver sempre, mas sempre e a menos que o dono esteja sozinho, uma ligeira discussão para se saber quem deverá ir atrás do chapéu, com promessas de fazer isto e aquilo em compensação de não desatar a correr pelo piso difícil que é a areia e, pior, fazer o caminho de regresso por entre gargalhadas do público e caras furiosas com varetas de comportamento duvidoso.
Volto a questionar-me como é que ainda há quem diga que na praia não se faz nada?

Um must da praia

Um must da praia são os buracos na areia, a que os autores teimam em chamar… castelos. Em quase meio século de praia nunca vi alguém construir um e poucos são os que humildemente assumem que vão fazer um simples buraco.
Por norma estes engenheiros são pais de crianças de pouca idade e com frequência os seus petizes desistem da obra ao fim de um quarto de hora ou pouco mais; há os pais que desistem em simultâneo mas há aqueles que, parecendo ter contrato de empreitada, continuam a escavar furiosamente e aumentam o buraco /castelo criando na zona um ar de impacto de meteoro.
As crianças têm a maravilhosa característica de não precisarem ser apresentadas sequer para fazer amigos e rapidamente o buraco/castelo se enche de utilizadores. Nesta altura os pais empreiteiros dividem-se em dois grupos e aqui reside o fantástico de tudo: há os pais que fomentam a sobrelotação da construção e há os pais que querem que o pobre do buraco se mantenha como um resort privado da sua prole, e que não obstante não serem directos afugentando as outras crianças, mas tudo fazem para que se afastem. A cereja em cima do bolo aparece quando os filhos do construtor se afastam para ir à água, por exemplo, e ele fica ali a guardar o buraco, como quem guarda uma herança que quer deixar aos seus sucessores. Esta pose é acompanhada de gritos para que se despachem e venham brincar no castelo, qual Martim Moniz ali entalado entre a vontade de mergulhar e a necessidade de preservar o seu árduo trabalho…
Entretanto já a figurinha do mestre de risco adquiriu um ar cómico pois as suas crias antes de irem à água depositaram-lhe os respectivos chapéus na cabeça, que ele transporta como se fosse a própria Marge Simpson.
Noutra fase do processo aparecem outros pais, que se aproximam devagar, tentando perscrutar se o homo habilis é sociável ou não. Aproximam-se de cócoras, aos saltinhos para, por um lado, acompanhar a altura e o andamento dos seus rebentos e, por outro, para garantirem uma certa distância e não ficarem muito à mercê duma eventual fúria do construtor que, com frequência, está fortemente armado com pás, ancinhos, baldes e outras artimanhas.
Já se verificaram casos em que o dono da obra põe o outro a correr dali para fora, mas também já aconteceu que os dois se aliassem para aumentar a fortificação, vulgo buraco na areia. Chama-se a isto fazer uma aliança e não fosse dar-se o caso de nunca mais se verem na vida, haveria muitas probabilidades de casarem os filhos anos mais tarde. Estas probabilidades aumentam, bem como a solidez da aliança e a profundidade do buraco, se ambos forem do Benfica.
E ainda há quem diga que na praia não se faz nada...

quarta-feira, 22 de junho de 2011

A rainha da noite

Tudo começou quando recebi uma chamada do Vasco Marques no meu telemóvel pessoal. Como tenho um colega com esse nome, a primeira coisa que me veio à cabeça depois de ouvir o nome do outro lado da linha foi, porque raio é que ele não liga pelo telefone fixo? Afinal era outro. Confirmou se eu me inscrevera para o Quem quer ser milionário? e no meio de muita boa disposição fez-me uma bateria de 20 perguntas da, chamada, cultura geral e as respostas foram suficientes para me colocar no concurso.
Ontem, seis da tarde, Paço de Arcos, estúdio da Valentim de Carvalho, e lá estou eu para a gravação, acompanhada pelos meus pais e pelo Marcelo, não porque eu tenha medo de andar sozinha, mas porque a Dona Prata não perderia a hipótese de ir comigo por nada no mundo.
O coração da selva amazónica que uso diariamente na cabeça e ao qual chamo cabelo foi arranjado pelas mãos duma menina muito simpática que chamava a toda a gente… amor. É fofo e querido e além disso, é a melhor forma de não termos que decorar nomes! A simpatia da moça contrastava um bocado com a sisuda cara da maquilhadora que, não obstante, me deixou com ar de quem tinha acabado de aterrar vinda das Ilhas dos Mares do Sul.
A espera prolongou-se, pois trocaram a ordem dos programas e os famosos entraram primeiro, Herman José, Ana Bola, Maria Rueff, Joaquim Monchique, Nilton e João Paulo Rodrigues que só não deitaram o palco abaixo porque sabiam que havia mais gravações a seguir.
Ofereceram-nos o jantar mas, acima de tudo, ofereceram-nos uma simpatia incrível, aumentada pelo constrangimento do atraso e consubstanciada na presença especialmente do Bruno, a boa disposição sul alentejana em pessoa, e de outros colaboradores do programa cujos nomes não fixei mas entre os quais estava também o Vasco Marques.
O José Carlos Malato é uma força da natureza pois não se cala nunca e tem sempre qualquer coisa a dizer, mesmo que esteja exausto duma maratona com nomes como os já referidos Herman ou Ana Bola, corredores de fundo que puxam até mais não. Gravar três programas de seguida não é brincadeira: em casa só vimos a parte calma, tal como o pato que nada serenamente no lago, mas debaixo de água as patas abanam furiosamente.
Os concorrentes tiveram tempo de sobra para conversar e para se conhecerem minimamente: uns mais faladores e a mostrarem laivos daquilo que queriam fazer valer quando lhes fossem feitas as perguntas, outros mais reservados, mas todos bem-dispostos.
O jogo é assente na sorte, muito mais do que nos conhecimentos de cada um, mas também tem alguma estratégia. O risco de as coisas saírem como queremos é grande, e aquilo que eu queria era ser a última para ganhar pelo menos 500 euros.
Das conversas tidas antes com os meus parceiros de concurso percebi que a terceira cadeira era a melhor e por um acaso acabei sentada nela. Também decorrente das conversas tidas em bastidores o concorrente antes de mim usou uma estratégia para me eliminar, legítima diga-se de passagem, que consistia em ‘oferecer-me’ uma pergunta sobre futebol, assunto sobre o qual sou a maior expert, desde que esteja sozinha…
Já me via a dizer adeus e a sentar-me obedientemente nas bancadas, quando surpresa das surpresas, acertei no raio da resposta! A seguir aparece uma perguntinha cuja resposta eu tinha na ponta da língua; porém, era elevada a probabilidade do concorrente seguinte não a saber e eu depositei-lha nas mãos e ele errou. O prémio desceu, é claro, mas nesse momento, e fiando-me em hipóteses, percebi que seria a última pessoa! Se tivesse respondido, acertava, mas diminuía a possibilidade de ser a última, talvez nem voltasse a sentar-me na cadeira vermelha (que é muito menos incómoda do que parece) e por isso arrisquei com base no ditado que diz mais vale um pássaro na mão que dois a voar.
Cognomes de reis, medidores de velocidades do vento e escritores vêm ainda dar-me alguma sorte pois deram azar aos outros.
E foi assim que fiquei no papel de rainha da noite…

terça-feira, 21 de junho de 2011

Vale

Vale tudo. Vale de desconto. Vale de Cambra. Vale postal. Vale arrancar olhos. Vale de lençóis. Vale o peso em ouro. Vale a pena. Vale Paraíso. Quanto vale? Vale glaciar. Vale de compras. Vale e Azevedo. Vale mil palavras. Mais vale tarde. Vale do Tejo. Cheque vale. Vale oferta. Vale de transporte.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

‘Podíamos viver sem Criar Afectos? Podíamos, mas não era a mesma coisa…’

Os meios de comunicação social anunciam em horário nobre e em manchetes a morte de idosos abandonados pela família, cuja ausência nem foi notada pelos vizinhos e com quem as autoridades se preocupam quando há mandatos de tribunais para cumprir. Abrem-se as portas e multiplicam-se espectáculos macabros.
Mais do que os corpos, são os relacionamentos que estão em avançado estado de decomposição, principalmente com a população sénior.
Porém, nem sempre é assim.

O Teatromosca Companhia fez ontem a estreia da peça Europa, com textos de John Berger. Até aqui podíamos pensar que foi só mais uma estreia duma peça de teatro, como várias outras. Mas não é.
Fazendo jus à sociedade do relacionamento, ao convívio entre diferentes gerações, à partilha, ao desafio, à inovação, à novidade, à não discriminação, ao sentido comunitário, à verdadeira cidadania activa, vários dos actores estavam a iniciar-se, rondam todos os setenta anos e pertencem ao Projectos Criar Afectos.
O Criar Afectos – filho da Junta de Freguesia de Rio de Mouro e centrado na aura da Marisa Pereira, mais do que a, importantíssima, colónia balnear com que começou o Projecto há dois anos faz muitas mais coisas:
- Dignifica e qualifica a vida dos idosos em Rio de Mouro, Sintra.
- Qualifica a vida dos familiares dos idosos
- Projecta vivências do passado no presente e no futuro
- Dinamiza a vida da Freguesia
- Integra a população sénior e não discrimina
- Faz verdadeiro trabalho social
- Descobre segredos, não porque estivessem escondidos, mas porque nunca tiveram oportunidade de ser revelados.
- Cria uma rede de amizade, solidariedade e conforto
- Faz sorrir.
Ontem na estreia não havia outsiders, eram todos gomos da mesma laranja. O texto não era fácil para principiantes mas eles mostraram-se à altura. Parabéns ao encenador, Pedro Alves. Parabéns aos actores. A todos os actores.
Mais do que ter pena de não estarem lá críticos de teatro, gostaria que lá estivessem responsáveis institucionais, que tirassem o modelo, que copiassem a forma, que abrissem os olhos para ver!
Não é preciso estar sempre a inventar a pólvora, é necessário e urgente multiplicarem-se as boas ideias, adaptá-las e pô-las em marcha.
E o Criar Afectos – só pelo nome! – é decididamente uma excelente ideia, posta em prática e com um enorme sucesso.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Cabeleireira, oferece-se!

Quando dizemos cortei o cabelo, estamos a mentir, portuguesmente falando, pois na verdade foi outro alguém que o cortou e não nós.
Ontem cortei o cabelo. Nesta afirmação leia-se um acto pessoal, de tesoura em punho e madeixas a cair pelos ombros. Fui eu, pela minha mão: segurei as pontas espigadas e lá vai disto. Segurei as pontas espigadas e o que não era ponta nem estava espigado, mas o resultado foi bastante satisfatório, principalmente porque não me preocupo muito com uniformidades e até acho engraçado estar mais curto dum lado que do outro. Estou na moda!
Desde há alguns anos que pinto as unhas sozinha, coisa que antigamente jurava a pés juntos não ser capaz de fazer sozinha: via a mão esquerda a tremer, o pincel a deslizar entre os dedos a quilómetros das unhas, as gotas de verniz a cair antes de chegarem ao sítio certo. Mas como diz o ditado, a necessidade aguça o engenho e hoje sou quase profissional da coisa.
Pintar o cabelo era outra coisa digna de orquestra, para mim que nem pífaro era capaz de assoprar. Hoje sou uma pró da matéria embora seja como aqueles pintores de paredes que precisam de tapar todos os milímetros quadrados de chão para que as pingas não estraguem o soalho: quando dou conta a tinta escorre-me pelo pescoço e os óculos antes azuis estão mais encarnados que uma capa de toureiro.
Eu que prego que não conhecemos os nossos limites e que somos capazes de tudo, ora bolas, não havia ser capaz de cortar o cabelo? Inclino-me perante a profissão de cabeleireira, tal como outra qualquer, mas, desculpem lá, valores mais altos se levantam e não vi alternativa.
O meu filho aprovou, hoje nos transportes ninguém olhou para mim de lado e no meu trabalho só comentaram que estava mais curto! Yes!

terça-feira, 14 de junho de 2011

Que dia pá, que dia!

Sexta-feira foi dia de ménage à trois: o V., eu e uma morena chamada Papa-léguas em cima da qual estivemos o dia todo. O V. tem também uma loura mas eu não vou à bola com ela porque nos obriga a estar praticamente deitados e aquilo mete-me medo. Experimentei uma vez há alguns anos e não me sobram saudades. Já a morena tem dois lugares onde vamos bem sentados, direitos, a levar com o vento na cara pois a opção é sempre de não baixar a viseira do capacete.
Há séculos que tínhamos combinado visitar um lugar onde há muitos anos o pulguedo nada pode contra a força da leitura, uma descrição que adoro pela veracidade e pelo simbolismo e que não podia ter outro protagonista. Não encontrámos a casa, mudado estava o local, com quintais arranjados e paredes brancas, bordejado por serranias verdes que se mantêm sempre assim à força de levarem com a brisa marítima que vem do Oeste.
Sardinha da Nazaré ao almoço a escorregar garganta abaixo com as Berlengas ali diante, que se aproximaram só para que as pudéssemos ver bem e logo mais uma lembrança e uma história regada com gargalhadas, de quando se fazia mergulho em gruta berlenguense e se aguentou o mais que se pode debaixo de água para que a barcaça com turistas passasse e no último instante lá se empurra o corpo em direcção à mescla de gases a que chamamos oxigénio e os turistas aos berros a pensar que o monstro do Loch Ness estava nas Berlengas a banhos e afinal era o V. que já tinha falta de ar!
E quem tinha falta dum dia assim era eu: com risos e conversas e livros e aquela memória absolutamente espantosa que me deixa sempre boquiaberta com a precisão e a infalibilidade.
O fim-de-semana teve quatro belos dias, mas o primeiro valeu por umas férias.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

(In)Disponibilidade

A indisponibilidade dos amigos é um contra-senso? É, a menos que sejamos nós a criá-la. A menos também que chamemos amigos a pessoas que conhecemos há muito tempo, vários anos, para as quais estamos disponíveis mas onde o vice-versa não é bem assim.
Um determinado problema que nos cria ansiedade em discuti-lo, partilhá-lo e torná-lo mais leve pode acabar por ser guardado a sete chaves.
Vamos contar a alguém que anda feliz da vida com olhos brilhantes, que só vê cores suaves e no meio dessa felicidade reencaminha todas as conversas para as nuvens onde vive?
Vamos contar a alguém que tem um problema semelhante, mas mais grave e, dessa forma, vamos lembrá-lo que ele não faz nada para solucionar o seu próprio problema?
Vamos contar a alguém que se cansa de nos convidar para estarmos juntos e nós dizemos sempre que sim, mas nunca arranjamos tempo para mais do que um telefonema?
Vamos contar a alguém que, sempre que falamos com ele, nos vai dizendo como anda atarefado e atira-nos com as suas mil missões impossíveis antes mesmo de termos terminado o nosso Olá?
Vamos contar a alguém que só sabe falar dum assunto e aproveita todos os intervalos da chuva para se esgueirar para essa posição de conforto?
Vamos contar a alguém que nos ouve e responde invariavelmente com um pois, é a vida…?
Vamos contar a alguém que sentimos que nos ouve como se pagasse uma dívida?
Qualquer um destes bateria a pala na entrada duma festa, dum jantar, duma comemoração; são bons foliões. Quase todos viriam a meio da noite se telefonasse a pedir ajuda; são bons bombeiros. Alguns viriam sem sequer perguntar porquê; são bons católicos. Um ou outro consegue discernir na minha voz que a vida está armada em cabra; são perspicazes. Há quem insista; é militante. Mas estar verdadeiramente comigo, estar mesmo, só a solidão. Nunca a mando embora pois faz-me companhia.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Asfixia

A pelúcia da pele explode em garras afiadas quando percebo que tenho uma missão impossível: verificar tabelas com percentagens, gráficos, valores que se alinham e que me riem com escárnio, sabendo que o desprezo é recíproco, mas que terei que os sentar ao colo e dar-lhes mimo. Faz parte do meu trabalho e não digo que não.
Mas a seguir tenho que domar as feras: segurar as mãos, deitar fora a caneta, entalar as teclas. No ringue digladiam-se querer e dever e eu grito pelo querer!
Odeio estatísticas, elas sabem e dizem-me com a mais repugnante calma, Temos pena! Queres escrever letras? Desprezas-nos? Somos as ovelhas negras da tua amada leitura? Azar… precisas do dinheiro no fim do mês, verdade? Então, lê-nos! Cruza informação, conclui face ao que te dizemos, explora-nos!
Como ondas em mar revolto os números entram-me pela boca e asfixiam-me. Ninguém vê. Mantenho o sorriso e apodreço por dentro.

Toalha de praia com riscas verdes verticais

Vou sentada a ler. De repente vejo uma das minhas toalhas de praia a entrar na carruagem do metro. Apoia-se nos ombros duma mulher e desce-lhe pelo corpo, tapando-lhe o rabo. É grande, eu sei, conheço-a bem pois uso-a há anos.
Toda a minha atenção está centrada na toalha a quem não me recordo ter dado autorização para se ausentar de casa. A mulher tem um ar descomprometido onde leio que foi a toalha a ir ter com ela e não o contrário.
Que fiz eu? Ainda ontem a lavei procurando um programa onde a centrifugação não desse muitas voltas! Será do amaciador?
As minhas toalhas de praia nunca estão no escuro, vêm a luz do dia o ano inteiro, assim como os bikinis e demais acessórios de praia, sempre a espreitarem assim que se abre uma gaveta. As toalhas nem em gavetas estão e sim em prateleiras cujo conteúdo está à mostra; nunca as olho como peças em cemitérios ainda que temporários, fazem-me falta o ano inteiro, só de as olhar já me sinto melhor, principalmente naqueles dias em que se reinventam cinzentos-escuros em céus que, como toda a gente sabe, são azuis!
O cheiro duma toalha de praia é único. É daqueles cheiros que se absorvem e ficam cá dentro, em memória, principalmente se os aspirarmos com os olhos fechados.
Cogitava eu acerca da ingratidão, quando ouço a toalha rir-se e dizer-me:
-Não sou quem pensas e, sim, esta senhora tem gostos esquisitos… para além de mim, irmã da tua toalha de praia, e agora feita manta, tem uma saia feita duma toalha de mesa e um casaco que em tempos foi uma toalha de renda.
Credo… tanta toalha, penso eu.
A toalha de praia continuou:
-Mas não se fica por aqui: a gabardina era uma antiga toalha de plástico e ela usa como bloco-notas um maço de toalhetes. Tem um cachecol feito de uma toalha de baptismo e já ouvi lá por casa histórias perversas com toalhas de rosto mas nem quero pensar nisso…
- Próxima estação: Marquês de Pombal!
Levanto-me para sair. A toalha sorri-me abanando levemente as pontas e dizendo adeus.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Morra a indiferença!

Quarta-feira, final do dia. Conduzo e converso com uma amiga que vem a meu lado. De repente, um homem que caminha no passeio cai, ficando atravessado na estrada.
Estou parada no semáforo e espero dois segundos, é o tempo que dou ao homem e a mim própria para verificar se apenas tropeçou e, se assim fosse, levantava-se, ou se precisa de ajuda. Precisou de ajuda.
Os dois segundos ainda não tinham passado, o homem estava deitado com o corpo metade na estrada e metade no passeio, quando passa um táxi em sentido contrário que LITERALMENTE se desviou da cabeça do homem, deitada no alcatrão, e continuou a sua marcha.
As pessoas que auxiliam o homem são três: uma mulher que vinha atrás do taxista, a minha amiga e eu.
O homem está bêbado. Da porta taberna de onde saiu – eu vinha devagar e por mero acaso vi o homem sair da taberna – os rostos alinham-se a olhar, de braços cruzados.
Pára uma rapariga que se põe a telefonar a pedir ajuda.
Pergunto às caras que olham da porta da taberna se o homem saiu de lá. Pergunto com raiva, sabendo que os vou ouvir mentir e na mentira anunciada aumentar ainda mais a minha raiva. E eles fazem-me a vontade. O coro diz, Não, aqui não esteve.
Junta-se mais um rapaz, pouco mais que um adolescente e sugere a organização dos carros que impedem o movimento da via nos dois sentidos.
Puxamos o homem para cima do passeio que estava limpo em comparação com o nojo que permanecia à porta da taberna. Impávido.
Não era um homem que estava deitado no chão, era um resto, um desperdício, cuja última utilidade fora pagar o álcool que consumira naquele estabelecimento. A partir daí, é cinza que sopramos para longe de nós.
Não posso afirmar que bebeu naquele sítio, não vi. Mas se não o tivesse feito o crápula que estava à porta teria afirmado isso mesmo, Ele entrou já embriagado e eu não lhe vendi nada…
Mais que ver a miséria humana ali condensada e estendida no chão, custou-me ver a indiferença e, pior, um certo brilho no olhar que denunciava as palavras, É para aprenderes…
O meu carro era o que mais incomodava o trânsito, intenso aquela hora. Sem sítio para parar em condições de segurança acabei por deixar o homem com o cuidado dos outros que se preocuparam com ele, poucos, mas atentos.
Deixei a minha amiga em casa e fui à polícia.
Posso aborrecer-me com certas pessoas, posso zangar-me com o meu filho, posso perder amigos, posso ser criticada de todas as formas e feitios, mas há alguém com quem eu tenho que viver em paz, com a minha consciência.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Sublinhando Palmeiras Bravas

Há algumas semanas emprestaram-me Palmeiras Bravas, de William Faulkner, e disso dei aqui conta. Porém, o livro contém uma particularidade notável, a que o actual proprietário faz alusão numa nota que escreveu em 2009 quando o comprou, como ele diz, na Livraria Utopia do Sr. Herculano Lapa: o livro tem imensos sublinhados e partilho com o proprietário o desejo de ter conhecido esse primeiro leitor, o dos sublinhados.
Porquê estas frases e não outras? Porquê para além dos sublinhados, uns círculos a envolverem certas palavras? Porquê? Não há marcas de sublinhados apagados o que me leva a concluir que não houve indecisão no sublinhar, que foi firme e pensado. Sentido. Muito sentido, como se pode perceber se lermos só os sublinhados.
Os bolds são das palavras com círculos. Os parágrafos dividem os sublinhados.
Se por um qualquer milagre o leitor que fez este trabalho reconhecer aqui a sua marca, por favor entre em contacto comigo.
Sendo um texto de Faulkner, tem edição duma pessoa desconhecida a quem presto homenagem.

“A mulher de cabelos negros e olhos amarelados duros num rosto cuja pele se esticava retesa sobre os malares proeminentes
Apenas ali sentada na completa imobilidade que o médico não precisava da confirmação do aspecto tenso da pele nem da vazia e retirada fixidez dos aparentemente invisuais olhos para logo reconhecer – essa completa e imóvel abstracção da qual até a dor e o terror estão ausentes, em que a criatura viva parece escutar e mesmo observar algum dos seus próprios órgãos frouxos, o coração, por exemplo, o secreto e irreparável escoar do sangue.
Mas não era o coração
Tenho imenso tempo de saber ao certo que órgão está ela a ouvir
Duros olhos de gata
Mas não o coração
Os vazios e ferais olhos pregados nele, a quem, de conhecimento certo que ele tinha, mal poderiam ter alguma vez visto, com uma ilimitada e profunda aversão.
Não era a ele que a aversão se dirigia. É a todo o género humano.
Não à raça humana mas à raça dos homens, a masculina.
Sim, sim. Alguma coisa que a inteira raça dos homens, os machos, lhe fez ou ela supõe que fez.
Negro vento cheio de selvático e seco som das palmas.
O médico bem os ouvia, aos dois pares de pés descalços; era um som como se estivessem dançando, furiosamente e infinitesimalmente e sem sapatos.
Era um riso duro e não alto, como vomitar ou tossir.
Apenas com o abstracto e furioso desespero que lhe vira nos olhos por sobre o prato de gumbo ao meio-dia.
Parecia-lhe que os via: os anos vazios em que a juventude se desvanecera – os anos para as audácias e para os absurdos, para os efémeros, trágicos e apaixonados amores da adolescência, raparigas e rapazes juntos, a lúbrica, importuna e palpitante carne, que não tinham sido seus.
Repudiei o dinheiro e, por isso, o amor não abjurei dele, repudiei-o. Não necessito dele; daqui a um ano ou dois ou cinco anos, saberei que é verdade o que agora julgo ser verdade: nem mesmo necessitarei de precisar.
Tens paz, não precisas de mais nada.
Ela fitou-o, e ele viu que os olhos dela não eram castanhos-claros, mas amarelos como os de um gato, encarando-o com a especulativa sobriedade que podia ser a de um homem, firmes para lá do mero à vontade, especulativos para lá de encararem.
Não sei. Nunca tinha estado apaixonado.
Poderia ter descoberto que o amor não existe, mais do que a luz do Sol, apenas num lugar e num momento e num corpo, para toda a terra e os tempos todos e toda a plenitude respirada).
Ele compreendera a intuitiva e infalível perícia de todas as mulheres nas questões práticas do amor.
Qualidade profundamente trágica que ele sabia (estava aprendendo depressa) não ser peculiar dela, mas atributo de todas as mulheres neste instante de suas vidas, que as reveste de uma dignidade, quase pudor, que se transmite e cobre mesmo a última e ligeiramente cómica atitude da derradeira entrega.
E nada de divórcio.
Que o amor e o sofrimento são a mesma coisa e que o valor do amor é a soma do que é preciso pagar por ele, e que sempre que ele sai barato foi que a nós mesmos nos enganámos.
Então, pela primeira vez nas duas da vida, viu-a chorar. Ali sentada, com o rosto áspero, contraído, selvático, sob as lágrimas brotando como suor.
Posso esconder atrás da bata branca, tapar a cabeça com a rotina.
Pensando em como talvez não é afinal com o coração, nem com a sensibilidade, que a gente sofre, mas com a nossa capacidade de dor ou vaidade auto-ilusão ou talvez meramente masoquismo.
Gosto da água
É onde vale morrer.
Selvático alheamento e magoou-o um pouco; ele tornou a pensar, Há uma parte dela que não ama ninguém, coisa nenhuma.
Ouve, há-de tudo ser lua-de-mel, sempre. Até que um de nós morra. Não pode ser outra coisa. Ou céu, ou inferno: nada de purgatório pacífico, seguro e confortável, entre ambos, para tu e eu esperarmos, até que o bom comportamento ou a resistência ou a vergonha ou o arrependimento levam a melhor de nós.
O amor. Dizem que o amor morre entre duas pessoas. É falso. Não morre. Deixa uma pessoa, vai-se embora, se a pessoa não é bastante boa, bastante digna. Não morre; a pessoa é que morre. É como o oceano: se não fores bom, se começares a cheirar mal dentro dele, ele cospe-te para morreres noutra parte. Morres na mesma, mas eu antes quero morrer no oceano do que ser cuspida para uma praia perdida e secar lá ao sol até tornar-me uma mistela fedorenta sem nome
Considero o amor com a mesma fé ilimitada, que ele me vestirá e me dará de comer.
Não há-de acontecer nada. Tenho só que habituar-me ao amor.
E a fome não está aqui… - bateu na barriga com a palma da mão. – Isso é só o resmungar das entranhas – A fome está aqui. – Tocou no peito. – Não te esqueças.
Não. Não, enquanto formos dignos de conservar tudo.
Dignos de nos ser permitido conservar. Conservar.
Nunca desistira, pensando em como antes pensara que havia uma parte dela que nem ele nem Rittenmayer jamais tinham tocado, e que nem sequer amava o amor.
Não só fêmea mas profundamente feminina.
O pior comigo é que sempre que digo a verdade ou uma mentira, parece que tenho de começar por convencer-me a mim mesmo
Já lhe disse que me sinto feliz. Nada me pode tirar tudo o que me foi já tirado.
Ele tornou a cismar, não na adaptabilidade das mulheres às circunstâncias, mas na habilidade delas em adaptarem o ilícito, mesmo o criminoso, aos padrões burgueses de respeitabilidade
Ainda não sabes que nem aos animais, graças a Deus, nós parecemos casados?
Qualidade que ela acabara por reconhecer – a impiedosa e quase insuportável honestidade. Não para convencer o cunhado mas para justificar a sua própria fúria, como num ligeiro pesadelo poderia estar segurando as calças que caíam; que não era sequer ao cunhado que falava, mas a si próprio.
Aquilo tornou-se-lhe uma obsessão; reconhecia calmamente que ele se tornara secretamente, calmamente e decentemente um pouco doido
Sensação de profundo desespero, nem mesmo ciente de que se preocupava, preocupando-se tão terrivelmente que nem sequer sabia; e olhava com uma espécie de esgazeado espanto para a solidão ensolarada, da qual ela emergia temporariamente e todavia em que ficava, e para a qual voltava, e reentrava na auréola que se demorava atrás dela.
Estou chateado. Estou morto de chatice. Não há nada aqui para que eu seja preciso. Nem mesmo a ela. Já rachei lenha que chegue até ao Natal e não há mais nada para eu fazer.
Ele não era sensível às cores.
Nunca te vi tão feliz. Pintaste um quadro, ou descobriste enfim que o género humano não tem sequer de tentar criar arte
Nunca na minha vida vi ninguém fazer tanto por ser um bom marido, como tu. Ouve, pateta. Se fosse só um bom marido, e comida e cama que eu queria, porque raio pensas tu que eu estou aqui em vez de voltar para onde tinha tudo isso?
Eu tinha-me transformado em marido.
Foi isto. Eu nem sabia, até ela me dizer que lhe tinham oferecido continuar no emprego.
O verme condenado, e cego para a paixão e morto para a esperança, e nem sequer sabendo, obnubilado e insciente em face da treva, do desconhecido, da subjacente e displicente aposta que estourará com ele.
A sabedoria de concentrar a atenção nos prazeres da carne: comer e evacuar e fornicar e estar sentado ao sol, que não há nada melhor, nada que se compare, nada no mundo se não viver o breve tempo em que nos é emprestado o respirar, estar vivo e sabê-lo.
Mas ela é mais homem do que eu.
Grande parte da coragem é uma sincera descrença na boa sorte. De outro modo não é coragem.
Mais um tempo, e a gente vestia-se e despia-se por dentro dos roupões, na presença um do outro, a apagávamos a luz antes de nos amarmos. É isto. Não é o gosto quem escolhe as nossas vocações, é a respeitabilidade o que faz de nós pedicuros e escriturários e coladores de cartazes e motoristas e escritores de caca.
Um dia, vi que tinha medo. E vi, ao mesmo tempo, que ainda teria medo fizesse o que fizesse, que teria sempre medo, por muito que ela ou eu vivêssemos.
Ainda tenho. E não do dinheiro. O diabo que o leve. Posso ganhar quanto precisarmos; mas o certo é que não tem limites o que somos capazes de inventar com o tema das perturbações sexuais femininas. Não é isto o que quero dizer, nem do Utah que eu falo. Falo de nós. Do amor, se quiser. Porque não pode durar. Não há lugar para ele no mundo de hoje, nem mesmo no Utah. Eliminámos o amor.
A gente viu-se enfim livre do amor como nos vimos livres de Cristo.
Eu não era. E depois Eu sou, e o tempo começa retroactivo, era e será
O instante da virgindade: essa condição, facto, que não existe efectivamente, excepto durante o instante que em sabemos que a perdemos.
Esperara demais. O que teria sido dois segundos aos catorze anos ou aos quinze foi oito meses aos vinte e sete.
E tenho medo.
Não tinha medo então, porque vivia em eclipse, mas agora estou desperto e posso ter medo, graças a Deus. Porque, neste Anno Domini de 1938, não há lugar para o amor.
Porque os corvos e os pardais são abatidos das árvores a tiro, ou se afogam nas inundações, ou são mortos pelos furacões e os incêndios, mas os falcões não. E talvez eu seja o consorte de um falcão, mesmo se sou um pardal.
Um frio que deixava uma inapagável e inesquecível marca algures no espírito e na memória, como a primeira experiência sexual ou a experiência de tirar a vida humana.
A coisa aqui é dispor-se a pessoa a sempre algum frio, mesmo na cama, e fazer a sua vida, e depois habitua-se e esquece, e então nem dá pelo frio, porque esqueceu o que era estar quente.
Está para acontecer-me qualquer coisa. Espera. Espera.
Quando as pessoas se amam a valer, realmente amam, não têm filhos, o sémen queima-se no amor, na paixão
Ela não é só mais homem e mais cavalheiresca do que eu, ela é melhor do que eu jamais serei.
As vezes, ele possuía-a (e ela aceitava-o) numa espécie de frenesi e de imolação, dizendo chorando: ao menos já não há perigo, não precisas de te levantar e apanhar frio.
Só uma coisa. Iremos para onde não haja frio, onde não custe tanto viver, onde eu arranje trabalho e a gente possa ter um filho, e não nos portais da escada. Não, não, orfanatos, não; portas de escada, não. Podemos conseguir, temos de conseguir; hei-de arranjar alguma coisa, qualquer coisa.
Abortador profissional.
Tem de ser. Não somos só nós dois já. É essa a razão, não vês? Eu quero que sejamos só nós dois outra vez.
Temos tão pouco tempo. Daqui a vinte anos já não posso, e daqui a cinquenta estamos ambos mortos. Depressa, depressa.
Estava de facto a aprender depressa as coisas que podia ter sabido antes dos dezanove anos)
“Mas este será nosso”, quando verificou que era isso, era isso mesmo.
Eu disse-te uma vez como cria que não é o amor que morre, é o homem e é a mulher, alguma coisa no homem e na mulher que morre, não merece mais a oportunidade de amar.
Beijou-a, como irmão e irmã se beijariam.
Estupor! Para poderes violar meninas nos parques, ao sábado à tarde!
E seremos outra vez só nós os dois para sempre.
Os dois, entre os quais algo como o amor teria existido outrora, ou que pelo menos haviam conhecido juntos a atracção física com que só a carne é capaz de apreender o pouco que jamais saberá do amor.
Nada. Nada? Sim. Nada contra ele.
Eu aguento-te.
Você assassinou-a
Então tornou-se ciente do seu coração, como se o profundo terror tivesse apenas esperado até ele estar pronto. Sentia o vento negro e duro, ao piscar no rasto da luz vacilante, até que esta passou a sebe e se desvaneceu
Como se estivesse bombando areia e não sangue, não um líquido, pensou. Tentando bombar. É este vento o que acho que não sou capaz de inspirar, não é que eu não possa de facto respirar, encontrar algures alguma coisa que respirar, porque na aparência o coração suporta tudo, tudo, tudo.
Portanto não é o vento o que não sou capaz de respirar talvez assim para sempre ganhei um pouco de sufocação
Não havia som ainda, salvo o vento
O negro vento sussurrava e murmurava nela, mas não entrava, não queria, não precisava.
E então não pode respirar e começou a recuar da porta, mas era já tarde, porque ela estava deitada na cama, a olhar para ele.
Para que não fique nada senão uma concha para o ar frio, o frio
Estou a aguentar. A aguentar para que possas ir, cavar daqui antes que eles cheguem. Tu prometeste. Quero ver-te ir. Quero ver bem.
É como fogo, Harry. Não dói. É como fogo. Não me toques.
Como a gente se divertiu, não foi, a gozar e a fazer coisas?! No frio, na neve. É no que estou a pensar. É por isso que aguento: a neve, o frio, o frio. Mas não dói; é só como fogo
Mas o coração
O coração
Pois que morra. Que morram ambos. Mas não nesta casa. Não nesta terra. Leva-os daqui para fora e que se esfaqueiem em ao outro à vontade.
Porque ela volta a si outra vez, não volta? Ela vai melhorar. Claro que vai.
Porque havia paz no quarto, fora-se a fúria.
Ouviu os passos na varanda, ouvia-os por cima do coração, do profundo e forte e incessante e superficial repuxar do ar, do respirar que por completo lhe fugia dos pulmões
E a maca sem parar, sugada pela varanda, para o espaço, ainda no mesmo plano, como se possuísse movimento e não peso.
Palmeiras pelintras
Agora é a caneta que não me deixa respirar
Eu amava-a
Um miserável provavelmente ter-se-ia posto a salvo de rebentar o próprio cofre. Teria chamado um profissional, um arrombador que não se importaria, que não amaria os veros flancos de ferro que continham o dinheiro.
E Wilbourne descobriu que, de facto, podia cheirar o mar, o largo marulhar negro e sem ressaca, que o negro vento desfazia.
Era o mar que ele cheirava; era o gosto da praia negra na qual soprava o vento, nos seus pulmões, no topo dos seus pulmões, atravessando isso outra vez, como ele esperava ter de, cada rápida e forte inspiração a tornar-se mais e mais superficial, como se o coração tivesse enfim um achado um receptáculo, um lugar de despejo, para a areia negra que dragava e bombava
Por um momento ele olhou para além dela, pestanejando as doridas e secas pálpebras
Mas não era um vento frio o que soprava para a sala, mas um quente que era forçado para fora dela, de modo que não havia nele cheiro da areia negra que ele soprava. Mas era um vento firme, podia senti-lo e vê-lo, uma madeixa do cabelo selvaticamente escuro e curto a mexer-se nele, pesadamente porque o cabelo estava ainda molhado, ainda húmido, entre os olhos fechados e o perfeito nós de cirurgião da lugadura que suportava o queixo dela.
Pequena morte chamada sono.
A prisão era de certo modo o hospital
A palmeira lá estava, mesmo fora da janela, maior mais pelintra
Também cheirava isso – o cheiro acre dos plainos salgados onde conchas e cabeças de camarão apodreciam
Sem tal realizar no espírito, assumira a imemorial atitude da miséria, agachando-se, pairando não em dor mas em completa e visceral concentração
Ele a olhar para a caneca de café numa espécie de desespero, que ainda não se fizera sentir antes e talvez não tivesse ainda começado sequer a fazer sentido
Pense nela
Quem me dera parar. Se eu pudesse. Mas não posso. Talvez seja isso. Talvez seja essa a razão… - Talvez fosse; era a primeira vez em que quase a atingia. Mas ainda não: e também isso estava certo; aquilo voltaria; descobriria, aprenderia, quando chegasse a hora.
Reaprendera a dormir
Se tivéssemos sabido, poderíamos ter vivido ali os quatro dias
Quatro dias. Não podiam possivelmente ter sido só quatro dias. Não podiam
Memória. De certo a memória existe independentemente da carne. Mas também isto não estava certo. Porque isso não saberia que era memória, pensou. Não saberia o que era o que recordava. E assim tem de existir a velha carne, a velha carne frágil, arreigada, para ser titilada pela memória.
Cianeto
Apenas memória, sempiterna e inescapável enquanto houvesse carne para titilar.
Pois não era só memória. Memória era só a metade disso, não era o bastante.
A memória era capaz de viver nas velhas entranhas ofegantes
Se a memória existe fora da carne, não será memória, porque não saberá o que lembra, de modo que, quando ela se tornou nada, então metade da memória tornou-se nada, e, se eu me tornar nada, então todo o recordar deixará de ser.
Entre a dor o nada, eu escolho a dor."

terça-feira, 31 de maio de 2011

Do meu pai

Na cidade de Chigaco reinava Al Capone.
O homem mais calmo do mundo passeava numa das muitas vielas da cidade.
De repente ouviu:
- Pare!
O homem mais calmo do mundo, sentindo nas costas o cano frio de uma pistola, voltando-se respondeu:
- Ímpar!

Ps. Sempre ouvi o meu pai contar-nos isto. Ele não se lembra onde a aprendeu, mas eu adoro estas linhas.

Adeus até amanhã, ó batata!

O senhor Paiva era colega do meu pai lá na gráfica. Muito bem-disposto, como trabalhava por turnos, nem sempre tinha alguém com quem conversar e vivia com os ruídos da linotype que matraqueava à medida que os tipógrafos iam escrevendo. As palavras eram transportadas para linhas de chumbo que depois seriam juntas e enlaçadas com um cordel para levarem umas pinceladas de tinta e se deixarem imprimir fazendo jornais, livros, rótulos, folhetos e um sem fim de produtos gráficos.
Quando acabava um turno o tipógrafo deixava uma linha em branco, uma espécie de sinal que dizia, Vou aqui!, para que quem o fosse render soubesse onde devia começar. Todos faziam o mesmo, à excepção do Sr. Paiva, que preferia deixar uma mensagem aos colegas.
O Sr. Paiva era muito brincalhão mas tinha o hábito de usar palavras esquisitas para falar com as pessoas e dizia, por exemplo, a minha chouriça, para se referir à mulher… hábitos!
Numa ocasião quando acabou o turno resolveu deixar uma mensagem carinhosa ao colega e escreveu: Adeus até amanhã, ó batata!
A gráfica tinha aceitado um trabalho – isto na altura em que se tinha que pedir quase por favor que as gráficas aceitassem certos trabalhos, ao contrário de hoje que, face ao advento tecnológico, pouco trabalho têm – que consistia no boletim cultural duma associação recreativa que dava conta das suas andanças, progressos, passeios dos associados e tinha uma página dedicada à literatura onde, por norma, se publicavam poemas da autoria dos sócios.
Quem rendeu o Sr. Paiva não se apercebeu que a última coisa escrita não fazia parte do boletim, riu-se e agiu como de costume não mudando uma letra do que lá estava e bola p’ra frente, que se faz tarde, e ao revisor, dois dias depois, apenas lhe ocorreu pensar que há gente mesmo maluca!
A gente maluca apareceu lá na gráfica umas semanas mais tarde a pedir explicações sobre a razão pela qual o poema da autoria do senhor doutor fulano de tal, logo tinha que ser doutor, bolas!, que era sobre a paz no mundo e os efeitos do sol no coração dos apaixonados, tinha como título Adeus até amanhã, ó batata!
Batata? Isso era a assinatura do Paiva!
O dono da gráfica desfez-se em desculpas, Oh senhor doutor, por quem é, pois foi um engano, e o Paiva aqui não fez por mal, não sabemos como foi a batata parar no meio do amor, no meio, ou seja, a encabeçá-lo, pois, pois, fique descansado, vamos já fazer uma errata, é que é já, desculpe o senhor doutor, desculpe o senhor também na qualidade de director de tão distinta publicação, olhe, fique sabendo que é a que mais gostamos de fazer, de tantas iguais que aqui se fazem, iguais? que digo eu, parecidas, que esta destaca-se e de longe…
E assim se fez a errata que dizia:
Onde se lê Adeus até amanhã ó batata deve ler-se Os Desaguisados do Amor.
Como diria uma pessoa minha conhecida, é quase parecido.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

O meu Rolex...

Aborrece-me imenso não conseguir ter acesso às múltiplas contas bancárias que aparentemente tenho em Portugal, no Brasil, em vários países árabes e nas ilhas Caimão. Recebo extractos, mensagens sobre depósitos e informações sobre movimentos que me farão aumentar ainda mais o meu pecúlio. Resumindo, sou riquíssima mas deve faltar-me uma palavra passe qualquer porque não sou capaz de movimentar as fortunas.
Mais ainda, não deve ser coisa de meia dúzia de milhõezitos, mas sim uma dúzia ou duas de milhõezões pois há entidades internacionais, com nomes distintíssimos, que me vêm propor empréstimos de alto gabarito e só o devem fazer porque sabem que tenho condições para os pagar! Certo?
Mas o que me chateia mesmo é verificar que há imensos e-mails que vão parar à caixa de SPAM, com enormes prejuízos para mim. E-mails importantes que deviam entrar na pasta dos recebidos e ficar ali a piscar – dourado, prateado, dourado, prateado… - chamando-me a atenção para eu os ler.
Na semana passada perdi a hipótese de ter um bê éme dabliu (tenho alguns, mas falta-me o azul bebé) e uma viagem às Caraíbas (ainda não fui a Caicos), mas nada disto se compara com o Rolex que acabei de perder porque não li a mensagem nos 2 segundos e 59 décimos imediatamente a seguir a ter entrado na minha caixa postal virtual e agora não sou capaz sequer de abrir a mensagem!
Só tenho seis Rolexes, falta-me este modelo e até já tinha a moldura pronta para imprimir a imagem e colocá-lo ao lado dos outros!

terça-feira, 24 de maio de 2011

Sorry malta... obrigada malta...

Fui avisada que os comentários não estavam a ser aceites aqui no blog. Não sou uma expert na matéria e tentei perceber o que se passava. Escusado será dizer que não percebi...
Porém, verifiquei que o número de visitas tem sido enorme e quero agradecer a todos quantos se dignam aqui passar e ficar um bocadinho.
Da mesma forma que não sei porque não se conseguiam deixar comentários, agora também não sei porque já se consegue. Quando as pessoas são peritas acontecem estas coisas :)
Abraços!

(In)Justiça

Passei a manhã e parte da tarde no tribunal à espera de botar discurso a favor duma pessoa que não devia precisar de defesa se a justiça tivesse olhos, mas como é cega...
Uma pessoa foi assaltada. Participou à polícia. O caso foi a tribunal e os acusados, absolutamente inocentes!, ameaçaram a pessoa em questão e as suas gerações, para trás e para diante. A pessoa acaba por dizer que não se lembra e os meretíssimos acusam-na então, com uma grandiloquência, de estar a mentir e face a essa situação, que ali não se admitem mentiras!, a pessoa sai daquela distinta casa como arguida!
Passam-se sete anos, sete... quase oito e a distinta casa chama a pessoa e permite que testemunhas abonatórias estejam presentes e digam de sua justiça, ou seja, contem como conhecem a pessoa em questão e como ela tem princípios e valores onde a mentira não tem lugar.
Mas omitir não é uma espécie de mentira? As testemunhas, eu incluída, omitiram... omitimos que aquilo parece tudo uma palhaçada, que demais sabem eles todos a verdade, mas não a podem admitir e por isso carregam na parte mais fraca, para se mostrarem fortes, que achamos que o erário público está a ser delapidado com brincadeiras desta natureza porque as distintas casas de justiça não têm o que é necessário para resolver as questões pela raiz e que quase oito anos de esticanço duma situação como esta só serve para... deixa ver... serve para... bem, quando me ocorrer alguma coisa, aviso!
Sinto-me mal por não ter tido coragem de dizer que tudo aquilo é jogo com dados viciados e que assim não brinco... mas como têm a faca e o queijo na mão e estava em jogo, lá está..., outra pessoa, deixei-me ficar, embora saiba que me vai ser muito difícil conciliar com a almofada.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Viva o Bocejo!

Finalmente temos um programa de televisão interessante: é uma espécie de novela, dá todos os dias, tem estórias que se cruzam, ainda não deu para perceber como, tem muitos intérpretes, etc., e chama-se Direito de Antena.
Não sei quando começou mas gravei o episódio de ontem para o poder ver bem e concluí que tudo se passa à volta duma espécie de Graal que todos querem.
Do que percebi há várias famílias – O quê? Não sei, acho que não são mafiosas… - que se apresentam de diferentes formas, a saber:
Uns são o CDS-PP e comunicam em silêncio, usando placas com palavras. Como sempre, já me conhecem, tenho uma teoria sobre isto: há ali alguém que é gago e para não criarem constrangimentos com o pobrezinho, optaram por esta fórmula. Assim ninguém fala e nem se nota.
Outros são o PCP que falam e falam para todos, pois recorrem à tradução para linguagem gestual.
Há ainda uma família que se chama PPM, cujo presidente é Doutor. Sim, vem lá a dizer, cada vez que o senhor aparece! Como têm um doutor e até pode ser que seja médico, e já se sabe a falta que eles fazem, até agora é a minha favorita.
Do POUS não retirei nada de especial, aguardo a ver se hoje terá mais acção.
Depois havia uma dinâmica que nos remetia, acho eu, para uma estória de emigrantes, do Norte para os Açores ou dos Açores para o Norte, o telefone tocou nessa altura, raios partam, e fiquei sem perceber. É o PDA e o senhor dizia caros conterrâneos nortenhos, com uma prateleira em fundo onde só se via o nome Salazar, mas depois aparecia alguém com sotaque açoriano… ou seja, tenho que ver outros episódios, para entender a trama.
O PH induziu-me em erro! Pensei que era relacionado com acidez e alcalinidade e afinal é o Partido Humanista. Seja como for gostei imenso, embora não tivesse linguagem gestual, tem tudo legendado, para se não percebermos alguma coisa do que dizem e, surpresa das surpresas tem uma candidata chamada Wendy!
Havia ainda o PND que se fartou de mostrar um coração que, visto derepentemente parecia a estrela do BE, que também entrava no episódio de ontem e cuja acção pode ser definida por uma imagem vale mil palavras.
Falta o PNR, onde, se bem me lembro entrava uma rapariga com um acessório giríssimo, tipo coleira, que vai fazer moda, de certeza.
E, last but not least, o PAN, que nos remete logo para a flauta de pã, canaviais, campo, feno e a Julie Andrews a rodopiar e a encher-nos o coração de música em três tempos, o animal, o humano e o ecológico!
Como sempre nas novelas, que eu vejo e sigo diariamente embora com dificuldade pois são várias e tenho que por duas televisões lado a lado para não perder pitada, nem todos os intervenientes entram em todos os episódios e assim concluo que faltam alguns. Como sempre também, sem sabermos como, mas cria-se logo uma predilecção por certos personagens, uma identificação, sei lá, gostamos deles e pronto. Mas quando comecei a pensar sobre a minha preferência, lembrei-me duma coisa que vi na televisão há uns dias sobre dívidas no crédito ao consumo e veio-me à memória uma distinta senhora que abriu a sua casa aos repórteres, mostrando-a mobilada do bom e do melhor, carro novo na garagem e que quando o tipo do microfone lhe perguntou porque razão tinha ela tantas dívidas se sabia que não as podia pagar, ela respondeu, e bem, com toda a propriedade: se os outros podem ter, porque é que eu não posso?
Ora, inspirada nesta senhora, que devia ser uma inspiração para todos, diga-se de passagem, lembrei-me… e porque não, criar eu também uma novela daquelas?
O que é que faz falta a todos os portugueses? A todos sem excepção? DORMIR, para ver se as ideias repousam, se assentam, mas sem ganhar pé, e por isso subscrevo o Movimento das Sestas que, como toda a gente sabe, fazem muitíssimo bem e até tenho a Bela Adormecida como directora de campanha! Quem sabe mais do assunto, quem?
Embora saiba que a Wendy se passou para outro lado, que o Peter está, obviamente, com o Pan, mas conto com a solidariedade das princesas e sei que a Bá – é o nome carinhoso que uso com a Bela… - tem imenso poder sobre a princesada por duas razões: primeiro, ela guarda o resto da maçã e ai de quem se atrever a fazer o contrário do que ela diga e, segundo, quem melhor que as princesas para saberem que o sono é reparador e o principal ingrediente para manterem aqueles peles de… de princesa, pois claro!
Tenho ainda como cabeça de lista o próprio Morfeu que neste preciso momento está a organizar os simpatizantes – milhões! - em catres, tendas de campismo, toalhas de praia, assentos de autocarros, metro, eléctricos, comboios, etc.,
Levantemos pois um enorme bocejo, o símbolo vivo da nossa campanha, fechemos os olhos e façamos do Movimento das Sestas uma prática diária e assim, garantidamente, chegaremos ao futuro mais depressa e com maiores poupanças a todos os níveis!
Conto convosco!

quinta-feira, 19 de maio de 2011

O Monopólio

A minha amiga Lu já nasceu vendedeira! Admiro-a porque eu sou daquelas pessoas que não conseguiria vender uma mantinha no Pólo Norte, mas ela vende aquecedores até no deserto do Sahara!
Depois de várias experiências ao longo da vida, curta, diga-se de passagem, porque ela tem só trinta aninhos e mal feitos e quem disser que essa é quase a idade da filha mais velha, leva logo com o meu olhar de olhos bem abertos a pedir para corrigir o disparate, mas, dizia eu, depois de outras experiências, agora é consultora imobiliária.
Um título destes tem imensa supless – soletremos por favor con sul to ra i mo bi li á ri a, que nos leva logo para uma dinâmica aparentada com sangue azul – e a Lu pediu-me ajuda no sentido de contactar pessoas a quem possa apresentar os seus serviços, dentro da sua zona de posicionamento/trabalho.
Confesso – estou de joelhos a penitenciar-me – que a zona de posicionamento levou a minha mente perversa para um cenário cheio de cetins, veludos e cintos-liga a atarem as barrigas gordinhas de certas meretrizes. Abanei a cabeça para afastar tão indignos pensamentos, centrei-me na candura da Lu, que parece um anjo e acedi a falar com algumas pessoas.
A bem da verdade, isto é um aviso pois a Lu planeia mudar a configuração da cidade, coisa que algum Plano Director Municipal conseguiu e ontem à noite esteve em minha casa a contar-me os planos da pólvora. Conclusão, ela vai reinventar o Monopólio!
Começou com os Jardins da Gulbenkian, que quer comprar a todo o custo, e quando percebeu que tenho um primo revisor da CP, os olhos brilharam-lhe já a ver as estações de Santa Apolónia, Campanhã e São Bento, debaixo da sua alçada!
Também no Quartel do Carmo se vai erguer um hotel – vão poder reconhecê-lo, era uma daquelas pecinhas vermelhas, maiores que as verdes, que eram as casas – e o meu amigo da GNR que falou com ela já anda a fazer terapia…
O parque Eduardo VII também está na mira da espingarda da rapariga, embora não saiba o que lá vai nascer, mas apenas que ela não gosta da inclinação, motivo pelo qual vai mandar terraplanar aquilo tudo para ficar com o terreno à mesma altura. Quando lhe disse que assim ia criar uma espécie de abismo em frente à rotunda do Marquês do Pombal, ela só me perguntou o que achava eu de por ali uma cascata que caísse em direcção à avenida da Liberdade…?
Também me explicou que o Rio Tejo está num local pouco razoável e avançou com umas ideias de o atapetar, para ficar mais estreito e criar espaço para mais construção, isto para além de projectar a compra e venda do Parque das Nações para ali sim, instalar o novo aeroporto!
Isso é que vai ser… os cámones a chegar, todos aos gritos a pensarem que vão cair no rio, atirar com o Oceanário e já a verem-se com a Amália e o Eusébio a onk, onk, onk pelo corredor do avião em chamas…
A danada da Lu faz um esforço enorme para acertar na Casa da Sorte, acho até que ficou com as cartas todas, e eu aviso-a que tenha cuidado que o Monopólio tem também uma prisão! Mas ela, forte e determinada, diz-me que se lá for parar conta com os amigos para lhe levarem uns cigarritos e, não tarda nada, está a passar outra vez pela Casa Partida!
Assim mesmo é que é!

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Solstício

Deu-se em mim um solstício de Inverno
Foi num Domingo, depois da missa e antes do almoço
Ninguém viu nem sentiu
O mundo continuou a sua jornada
E eu a minha.

Peregrino em busca do meu altar

Peregrino em busca do meu altar
O perfume fugiu das lágrimas
A distância não existe
O longínquo está aqui.
A dor crepita levemente
As imagens à minha volta são sombras de vitrais em dias sem sol
Olho e vejo um cemitério branco e negro
Tapeçaria de pedras e corpos
Que as almas estão guardadas nas torres que se alcandoram pelos castelos
Estátuas com semblantes doridos imploram movimento
São os guardiões de nada que todos querem ver
Cabe-lhes a honra de montarem guarda ao passado.

Adeus

Quero esquecer
Mas ouço o barulho da dor a doer
Arde ardentemente
O sabor do sangue quente
Vinhos, tisanas sobre mim derramem
Vozes silenciosas não clamem!
Acabo de acabar o corte
Pareço-me com a morte
Não, não e não, quero a vida
A por viver, não a vivida
Vou saltar penhascos, todos
Em tempo algum seguirei engodos
Mesmo com a alma quebrada
A cabeça estará levantada
O tempo terá que fluir
O espaço vai fugir
Viver, será o meu cais
Voltar a ti, jamais
E quando tiver terminado
Sim, dormirei descansado

Pinto-me para mim

Pinto-me para mim.
Cuidadosamente, passo o baton pelos lábios
O espelho diz-me que o carregue mais e mais
E eu, provocando-o, passo a ponta vermelha uma e outra vez
No lábio inferior, que esfrego no lábio superior, besuntando-o
Imaginando que não é o meu lábio
Gasto deliberadamente a cor
Transformando a boca numa bandeira ao vento
Para que quando passes me faças uma continência.

Pedido de desculpa

Não sei como nem porquê, mas verifico o desaparecimento de vários comentários, sem que tivesse havido intervenção minha. Aos autores as minhas desculpas.

domingo, 15 de maio de 2011

Borboletas

Mato as borboletas que esvoaçam em mim
Mato-lhes a cor, o exotismo
As asas, arranco-as
Mato-lhes o rodopiar, a beleza
A emoção, sufoco-a
Mato-lhes a fome, a sede
Porque a vida tem que começar hoje

Vou inventar uma nova vida
Selar a antiga, esquecê-la
Domar o que havia de ser
Mas não foi.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Galáxia de beijos

Gosto de ouvir falar de coisas que desconheço, principalmente se vêm pela voz ou pelas mãos de alguém que eu idolatro. É o caso.
A pessoa em questão fez o favor de fazer escala em Lisboa durante umas horas e tive a oportunidade de lhe fazer companhia ao jantar, por entre conversas, recordações e novidades.
Deu-me um livro do qual falarei quando o tiver terminado, mas sobre o qual posso adiantar que, como objecto, é belíssimo e, sendo sugerido por quem é, só pode ser de boa cepa: We, the Drowned, de Carsten Jensen.
Como a saudade entre nós é uma nascente cristalina, vamos trocando mensagens por e-mail e ontem reclamei pela falta de despedida em condições!
Para se redimir, para além de me ter sugerido ver Genesis, de Nacho Cerdá, despediu-se de mim com o envio de uma galáxia de beijos, que recebi e na qual ainda me osculo.
É nestes momentos que sorrio, toda, cheia, feliz.
Melhor, só se tivesse recebido uma carta, à moda antiga, escrita à mão, em papel de preferência amarelecido, com pétalas de rosas que podiam ter sido colhidas nos maravilhosos jardins de Serralves, uma carta de amor, pois que outro nome têm as cartas verdadeiras?
Porque procuramos sempre o óptimo? Porque sabemos que podemos lá chegar! Com esta certeza vivo na esperança de um dia receber uma carta assim, uma coisa muito adolescente, mas muito viva, crua e imediatista. Uma carta que viesse da própria Terra do Nunca, era isso mesmo que queria receber.
Sonho demais, diz a minha mãe, que não se cansa de afirmar diante de tudo e todos que sou uma sonhadora, como se fosse sinónimo de mentecapta. Vou passar a dizer que acredito em milagres!, e talvez assim, pela vertente religiosa, ela não abane tanto a cabeça olhando para mim, em sinal de desaprovação. Além do mais, eu acredito mesmo em milagres!

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Mais vale um pássaro na mão...

Se não tenho canecas, bebo por um copo
Se não tenho dinheiro, vejo televisão
Se não bebo Cabeça de Burro, bebo Alabastro
Se não tenho um vestido novo, visto um usado
Se não tenho caneta, escrevo com um baton
Se não tenho gasolina, vou a pé
Se não ganho, tento de novo
Se não consigo, esforço-me
Se não sei, pergunto
Se não acerto, corrijo
Se não mergulho, sonho
Se não vou, replaneio
Se não durmo, bebo café
Se não corro, faço ginástica
Se não vejo, telefono
Se não saboreio, abro a mala de recordações
Se não sinto, morri

Há quem seja grato ao que tem, às alternativas que encontra, e quem só goste de viajar em cinco estrelas, esquecendo que a vida não existe nesses locais e que só se vive a outro nível... por isso há quem viva e quem apenas respire.

O casal de miúdos

Foi milagre, será possível?
Dona Prata e Senhor Bento
Assim é que é subir de nível
É um grande acontecimento!
O parzinho está irreconhecível
Deu-se um renascimento
O culpado é o Criar Afectos
Assim são os bons projectos

Ai filha, queres que vá passar a ferro?
Hoje não posso, talvez amanhã
Tenho que estudar, senão erro
Tenho piscina, vou ser campeã!
Vou ginasticar, a ver se desemperro
Domingo, nem pensar, eu sou cristã!
O quê? O pai arranjar o exaustor?
Não pode ser, tem aulas de computador!

Agora vê se te calas que estou a ler
O pai está de volta da internet
Não temos tempo para comer
Logo lanchamos com a Laurette
Temos imensa coisa para fazer
Onde está a minha bracelete?
Vá, vá, manda beijos ao teu filho
Adeus, que nos vamos de afogadilho

Estamos roucos? Foi de cantarmos
Roucos mas muito bem-dispostos
Não nos cansa nada viajarmos
O que foi o almoço? Dois entrecostos!
Não ouviste o telefone? Mas nós telefonámos!
Achas que estamos descompostos?
Foi dum dia inteiro de viagem
Ai, se tu visses a paisagem…

Andam contentes os petizes
Criam afectos por todo o lado
Parecem dois aprendizes
Andar assim é ser-se abençoado
Ela tira e põe vernizes
Ele veste-se com predicado
E nós vemo-los vivos e contentes
Em excelentes ambientes

quinta-feira, 5 de maio de 2011

A luz da voz

- Sabes quando vais a conduzir e ficas encandeada com as luzes dos carros? Acontece-me o mesmo quando te ouço, a tua voz tem o poder de me encandear.
Quem não gostava que esta frase lhe fosse dirigida? Para além da beleza e do levantamento do ego que consubstancia, não consigo desligá-la dum episódio engraçado que aconteceu há meia dúzia de dias.
Ofereci o meu telefone para uma amiga ligar ao filho que é da mesma rede que eu, que tenho um tarifário que não pago chamadas para a minha rede, ao contrário dela que as paga. O Jorge não atendeu, concluímos a rir que estaria num momento em que as mães não devem intervir e fomos jantar juntas. Nessa noite gravei o número para uma qualquer eventualidade.
No dia seguinte a meio da manhã o telefone toca, verifico que é o Jorge e atendo:
- Olá Jorge, tudo bem?
Do outro lado chegou uma voz com sotaque carregado, de Bizheu, que disse ser o José e não Jorge mas afirmou que lhe ligaram daquele número no dia anterior ao fim da tarde. Percebi o engano, pedi desculpa e adeus.
Liguei à minha amiga a comentar a cena e a dizer-lhe que se tinha enganado e verificámos que ela tinha trocado um cinco por um dois.
Não tinha passado um quarto de hora quando o telefone voltou a tocar, anunciando outra vez o Jorge, que eu já sabia chamar-se José e que, duma assentada, disse o seguinte:
- Peço desculpa pelo incómodo, sinta-se à vontade para desligar o telefone quando quiser e juro-lhe que não mais voltarei a usar este número, mas tenho que lhe dizer que fiquei fascinado pela sua voz e não consigo deixar de pensar nela.
Uma mulher ouve uma coisa destas e fica muda, principalmente se não estiver habituada a ouvir elogios. A seguir engolimos em seco e dizemos ãh… obrigada. Se a experiência elogiosa fosse outra talvez deixássemos ouvir um riso maroto e a seguir disséssemos uma frase simpática que levasse o elogiante a continuar. Não foi o caso pois fiquei-me mesmo pelo ãh… obrigada.
O homem não se fez rogado e viu no meu garatujo linguista uma permissão para continuar o discurso e foi assim que fiquei a saber-lhe a profissão, as origens e as heranças, os gostos e fiquei a saber que é livre (sic).
Lembro-me de ter pensado que o telefonema se devia à minha voz que eu agora calava e aquilo parecia a gravação duma mensagem porque eu não dizia nada, parada no intervalo minúsculo entre o espanto e o rebentamento à gargalhada!
Por fim lá o interrompi, agradeci os elogios e a informação recebida e agora tenho um motivo de riso enorme com as minhas amigas.
Que cada um fique com os fascínios, que eu prefiro os encandeamentos.

O melhor de dois mundos

Fui ver o melhor de dois mundos. Para se ser líder em desenvolvimento pessoal temos que nos chamar… Daniel? Achei curiosa a coincidência dos dois Daniéis… ou não há coincidências?
Como diz a publicidade, Há que vê-lo para entendê-lo, falando de Daniel Sá Nogueira, o guru do desenvolvimento pessoal em Portugal.
Abraçar o caos? O homem terá ideia do que diz? Tem e eu concordo.
A tradição já não é o que era, tudo mudou, tudo muda, tudo continuará a mudar a velocidades estonteantes para as quais não estamos preparados porque, com frequência, não nos queremos preparar e deixamos a vida, a existência, passar-nos em frente do nariz, sem darmos conta.
Há muitos anos tive uma chefe que tinha um nome delicioso, a D. Regina. A senhora era uma funcionária pública sem mácula, saída do lote dos funcionários públicos perfeitos, que o mesmo é dizer, alguém pode estar a morrer, mas já bateram as cinco e meia da tarde, logo, venha amanhã se faz favor, porque não podemos violar o horário de trabalho e atender pessoas para além desta hora.
O director do departamento foi buscar a arquivista – eu – para organizar a mudança de todo o departamento para outro edifício. Iniciei-me nas lidas da organização, a vários níveis, e adorei, mas eu não contava com a D. Regina…
A ideia da mudança passava também por criar ambientes mais amigáveis ao munícipe e aos próprios funcionários, mas ela disse que se não tivesse um guichet… nada feito.
Enquanto a maioria colaborava na mudança, mostrando entusiasmo e empenho, eu passava e ela dizia, e o meu guichet?
Foram meses de árduo trabalho onde eu ia para casa e sonhava que corria, em câmara lenta, ao longo duma praia de águas translúcidas e areias brancas, com uma camisa que esvoaçava atrás de mim e do outro lado, não, não estava um tipo giríssimo que também corria para me abraçar, estava um guichet que eu partia à martelada, com um prazer inimaginável!
No dia da inauguração do novo edifício, a D. Regina meteu os papéis para a reforma, ou seja, não a consegui convencer que a mudança era um passo em direcção a um futuro melhor e a D. Regina continua a ser a pedra no meu sapato, bem, talvez seja melhor uma pastilha elástica ou um rebuçado, mas que me fazem escorregar.
Always look on the bright side of life, com a maior simplicidade possível, duma forma grata pelo que temos e não estejamos sempre à espera que os outros façam seja o que for por nós, levantemo-nos a cada dia.
Cada empresa, cada família, cada clube recreativo devia ter um Daniel Godri a servir de despertador! Acordávamos todos de forma serena mas altamente motivados para atingir os nossos objectivos, que podem ser as coisas mais diversas, como ser independente, como disse o Paulo Azevedo, cuja existência e presença são lições de vida sobre as quais todos devíamos reflectir.
Abraço apertado à minha amiga L. que me levou, com o seu entusiasmo e as suas fabulosas gargalhadas.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Portem-se bem, ouviram?

Trabalho a 100 metros dum hospital que desde ontem tem internado um doente cigano.
Não o vi, ninguém me disse e não tenho dons adivinhatórios, mas o acampamento que vai crescendo, com gente de várias idades, muitas crianças e sacos espalhados por todo o passeio desde o início até ao fim da rua, levam-me a essa conclusão.
Carros e carrinhas estão parados nos mesmos sítios desde ontem, bagageiras abertas, roupa e calçado espalhado pelo chão e… pessoas a defecarem no meio da rua!
Ontem vi um garoto e hoje, que cheguei bem cedo, vi um adulto nestes propósitos tendo depois empurrado as necessidades para debaixo dum carro! Inacreditável.
Comentando a cena com um colega, este disse-me que o hospital, os restaurantes e cafés, um hotel e diversos moradores já tinham chamado a polícia que veio ao local e lhes pediu para… não fazerem barulho.
Conclusão, temos que aguentar e rezar pela saúde dum cigano que desconhecemos, a ver se fica bom depressa pois, se temos o azar que ele morra, para além da imundície temos também os gritos, as ladainhas, as carpideiras e não há polícia no mundo que os cale, alegando respeito pela tradição do defunto!

Raridade

Quando era pequena tinha um medo atroz de máquinas fotográficas. Devia ser a minha costela índia que pensava que me roubavam a alma ou qualquer coisa semelhante. E assim, poucas são as fotografias onde não estou a mostrar as goelas, como se as mostrasse ao médico, num imenso ahhhh de boca aberta. A minha mãe era – e ainda é! – aparentada com as estrelas de cinema antigas, aquelas que eram fotografadas sempre lindas e que eram notícia pela sua beleza e não pelos escândalos de hoje.
O meu pai, a cumprir serviço militar obrigatório, já tinha deixado o seu sonho: ser aviador. Iniciou-se no mundo do trabalho numa gráfica, com pouco mais de meia dúzia de anos. Um amigo levou-o e disse-lhe que quando lhe perguntassem o que sabia fazer, ele respondesse compor, provando que era perito na arte da composição, ele que vestia umas calças compridas pela primeira vez!
E lá foi ele e lá veio a pergunta. Mas a seguir a essa, o Sr. Mário, velha raposa das artes gráficas perguntou-lhe o que mais sabia fazer. O pobre do rapaz pensou rapidamente e deu a resposta que achava que o outro queria ouvir:
- Sei compor e descompor!
O Sr. Mário a rir-se da lata do gaiato disse-lhe que quem lhe dava uma valente descomposição era ele, mas que podia ficar à experiência.
Uma das velhas máquinas, mecânicas e com braços, um dia acertou-lhe num olho e obrigou-o a usar óculos. Ele não se importou com o sangue, com a dor, com o espectáculo do ir para o hospital, numa altura que quase tudo se tratava em casa com panos quentes e canjas de galinha. Ficou inconsolável por já não se poder alistar na aviação… Por ironia do destino, trabalhou a vida inteira ligado às artes gráficas e só andou de avião uma vez até hoje.
Ele que pelo meio estudou para Padre, que esteve para ser aviador, bem, fazendo as contas eu tive imensas probabilidades de não nascer, mas isso não aconteceu porque não havia Padres nem aviadores que resistissem à beleza da minha mãe, meia cigana, meia malandra e sempre sexy.
Ps. Eu ainda não andava mas o meu pai já me punha letras à frente do nariz...

Beleza em estado puro

Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei

Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso

Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo

Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento

O poema de Sophia arrasta a pergunta - todos arrastam - o que viveu ela que a levou a esta dimensão?

O dente sorridente (bom título para uma estória)


 Há a Fada dos Dentes e há o dente da Fada...

terça-feira, 26 de abril de 2011

Say ‘Cheese’, parte II

Já tenho as fotografias! Depois de quase ter sufocado dentro daquela prisão, fui a outra depois do almoço. Lojas, lojas, gente, gente, gigantescas faltas de espaço e eu apertada e mal disposta, a percorrer outra catedral de consumo. Na loja da FNAC dizem-me que ali não revelam mas que o fazem no Colombo e só demora uma hora. A boa notícia mistura-se com o medo de ter que entrar no terceiro centro comercial no mesmo dia, um feriado cheio de sol… não estou em mim e vou ao Colombo. Deixo o rolo decidida a esperar lá fora enquanto converso com a I.
Porém, o Duarte liga a avisar que está à porta de casa e não tem chaves… Não! Não! Não!
Metemo-nos no carro, vou a casa, abraçamo-nos para matar saudades dos dias que ele esteve ausente, subimos e eu não encontro mais que fazer se não passar a ferro… A I. vê televisão e conversa comigo sentada no sofá enquanto eu passo furiosamente a ferro. Passa-me pela cabeça a frase que uma amiga me disse e que me enfureceu há semanas atrás, quando lhe disse como estava triste e me tinha posto a passar a ferro e ela me respondeu que eu fizera bem, que assim estava ocupada… por mais que eu a ame do coração, fiquei danada com ela!
A caldeira do ferro esvaziou-se e fomos buscar as fotografias, ou seja, pela quarta vez no mesmo dia fui a um centro comercial. Isto é um recorde imbatível e não creio que o consiga ultrapassar mesmo que viva 100 anos.
… finalmente vi as fotografias…

Dá-me a tua mão

Dá-me a mão
Espreita no meu coração
Debruça-te nesta varanda
Ouve o tocar da banda
É a minha pulsação

Sem medo e sem receio
Acolho-te no meu seio
Semente lançada à terra
Minha vida, minha guerra
Milho, trigo ou centeio

Ah… contas do meu rosário
Fosses tu meu adversário
Tanto oxigénio, tanta vida
E à chegada e à partida
É tudo teu, meu corsário

O olhar cansado não descansa
Faço com a espera uma aliança
A Via Láctea é pequena
Aguardo um milagre, serena
Com a eternidade ensaio uma dança

Dá-me a mão
Espreita no meu coração
Sou um rio, um afluente
Transbordo com água quente e ardente
Acende uma vela, tira-me da escuridão