terça-feira, 31 de maio de 2011

Do meu pai

Na cidade de Chigaco reinava Al Capone.
O homem mais calmo do mundo passeava numa das muitas vielas da cidade.
De repente ouviu:
- Pare!
O homem mais calmo do mundo, sentindo nas costas o cano frio de uma pistola, voltando-se respondeu:
- Ímpar!

Ps. Sempre ouvi o meu pai contar-nos isto. Ele não se lembra onde a aprendeu, mas eu adoro estas linhas.

Adeus até amanhã, ó batata!

O senhor Paiva era colega do meu pai lá na gráfica. Muito bem-disposto, como trabalhava por turnos, nem sempre tinha alguém com quem conversar e vivia com os ruídos da linotype que matraqueava à medida que os tipógrafos iam escrevendo. As palavras eram transportadas para linhas de chumbo que depois seriam juntas e enlaçadas com um cordel para levarem umas pinceladas de tinta e se deixarem imprimir fazendo jornais, livros, rótulos, folhetos e um sem fim de produtos gráficos.
Quando acabava um turno o tipógrafo deixava uma linha em branco, uma espécie de sinal que dizia, Vou aqui!, para que quem o fosse render soubesse onde devia começar. Todos faziam o mesmo, à excepção do Sr. Paiva, que preferia deixar uma mensagem aos colegas.
O Sr. Paiva era muito brincalhão mas tinha o hábito de usar palavras esquisitas para falar com as pessoas e dizia, por exemplo, a minha chouriça, para se referir à mulher… hábitos!
Numa ocasião quando acabou o turno resolveu deixar uma mensagem carinhosa ao colega e escreveu: Adeus até amanhã, ó batata!
A gráfica tinha aceitado um trabalho – isto na altura em que se tinha que pedir quase por favor que as gráficas aceitassem certos trabalhos, ao contrário de hoje que, face ao advento tecnológico, pouco trabalho têm – que consistia no boletim cultural duma associação recreativa que dava conta das suas andanças, progressos, passeios dos associados e tinha uma página dedicada à literatura onde, por norma, se publicavam poemas da autoria dos sócios.
Quem rendeu o Sr. Paiva não se apercebeu que a última coisa escrita não fazia parte do boletim, riu-se e agiu como de costume não mudando uma letra do que lá estava e bola p’ra frente, que se faz tarde, e ao revisor, dois dias depois, apenas lhe ocorreu pensar que há gente mesmo maluca!
A gente maluca apareceu lá na gráfica umas semanas mais tarde a pedir explicações sobre a razão pela qual o poema da autoria do senhor doutor fulano de tal, logo tinha que ser doutor, bolas!, que era sobre a paz no mundo e os efeitos do sol no coração dos apaixonados, tinha como título Adeus até amanhã, ó batata!
Batata? Isso era a assinatura do Paiva!
O dono da gráfica desfez-se em desculpas, Oh senhor doutor, por quem é, pois foi um engano, e o Paiva aqui não fez por mal, não sabemos como foi a batata parar no meio do amor, no meio, ou seja, a encabeçá-lo, pois, pois, fique descansado, vamos já fazer uma errata, é que é já, desculpe o senhor doutor, desculpe o senhor também na qualidade de director de tão distinta publicação, olhe, fique sabendo que é a que mais gostamos de fazer, de tantas iguais que aqui se fazem, iguais? que digo eu, parecidas, que esta destaca-se e de longe…
E assim se fez a errata que dizia:
Onde se lê Adeus até amanhã ó batata deve ler-se Os Desaguisados do Amor.
Como diria uma pessoa minha conhecida, é quase parecido.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

O meu Rolex...

Aborrece-me imenso não conseguir ter acesso às múltiplas contas bancárias que aparentemente tenho em Portugal, no Brasil, em vários países árabes e nas ilhas Caimão. Recebo extractos, mensagens sobre depósitos e informações sobre movimentos que me farão aumentar ainda mais o meu pecúlio. Resumindo, sou riquíssima mas deve faltar-me uma palavra passe qualquer porque não sou capaz de movimentar as fortunas.
Mais ainda, não deve ser coisa de meia dúzia de milhõezitos, mas sim uma dúzia ou duas de milhõezões pois há entidades internacionais, com nomes distintíssimos, que me vêm propor empréstimos de alto gabarito e só o devem fazer porque sabem que tenho condições para os pagar! Certo?
Mas o que me chateia mesmo é verificar que há imensos e-mails que vão parar à caixa de SPAM, com enormes prejuízos para mim. E-mails importantes que deviam entrar na pasta dos recebidos e ficar ali a piscar – dourado, prateado, dourado, prateado… - chamando-me a atenção para eu os ler.
Na semana passada perdi a hipótese de ter um bê éme dabliu (tenho alguns, mas falta-me o azul bebé) e uma viagem às Caraíbas (ainda não fui a Caicos), mas nada disto se compara com o Rolex que acabei de perder porque não li a mensagem nos 2 segundos e 59 décimos imediatamente a seguir a ter entrado na minha caixa postal virtual e agora não sou capaz sequer de abrir a mensagem!
Só tenho seis Rolexes, falta-me este modelo e até já tinha a moldura pronta para imprimir a imagem e colocá-lo ao lado dos outros!

terça-feira, 24 de maio de 2011

Sorry malta... obrigada malta...

Fui avisada que os comentários não estavam a ser aceites aqui no blog. Não sou uma expert na matéria e tentei perceber o que se passava. Escusado será dizer que não percebi...
Porém, verifiquei que o número de visitas tem sido enorme e quero agradecer a todos quantos se dignam aqui passar e ficar um bocadinho.
Da mesma forma que não sei porque não se conseguiam deixar comentários, agora também não sei porque já se consegue. Quando as pessoas são peritas acontecem estas coisas :)
Abraços!

(In)Justiça

Passei a manhã e parte da tarde no tribunal à espera de botar discurso a favor duma pessoa que não devia precisar de defesa se a justiça tivesse olhos, mas como é cega...
Uma pessoa foi assaltada. Participou à polícia. O caso foi a tribunal e os acusados, absolutamente inocentes!, ameaçaram a pessoa em questão e as suas gerações, para trás e para diante. A pessoa acaba por dizer que não se lembra e os meretíssimos acusam-na então, com uma grandiloquência, de estar a mentir e face a essa situação, que ali não se admitem mentiras!, a pessoa sai daquela distinta casa como arguida!
Passam-se sete anos, sete... quase oito e a distinta casa chama a pessoa e permite que testemunhas abonatórias estejam presentes e digam de sua justiça, ou seja, contem como conhecem a pessoa em questão e como ela tem princípios e valores onde a mentira não tem lugar.
Mas omitir não é uma espécie de mentira? As testemunhas, eu incluída, omitiram... omitimos que aquilo parece tudo uma palhaçada, que demais sabem eles todos a verdade, mas não a podem admitir e por isso carregam na parte mais fraca, para se mostrarem fortes, que achamos que o erário público está a ser delapidado com brincadeiras desta natureza porque as distintas casas de justiça não têm o que é necessário para resolver as questões pela raiz e que quase oito anos de esticanço duma situação como esta só serve para... deixa ver... serve para... bem, quando me ocorrer alguma coisa, aviso!
Sinto-me mal por não ter tido coragem de dizer que tudo aquilo é jogo com dados viciados e que assim não brinco... mas como têm a faca e o queijo na mão e estava em jogo, lá está..., outra pessoa, deixei-me ficar, embora saiba que me vai ser muito difícil conciliar com a almofada.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Viva o Bocejo!

Finalmente temos um programa de televisão interessante: é uma espécie de novela, dá todos os dias, tem estórias que se cruzam, ainda não deu para perceber como, tem muitos intérpretes, etc., e chama-se Direito de Antena.
Não sei quando começou mas gravei o episódio de ontem para o poder ver bem e concluí que tudo se passa à volta duma espécie de Graal que todos querem.
Do que percebi há várias famílias – O quê? Não sei, acho que não são mafiosas… - que se apresentam de diferentes formas, a saber:
Uns são o CDS-PP e comunicam em silêncio, usando placas com palavras. Como sempre, já me conhecem, tenho uma teoria sobre isto: há ali alguém que é gago e para não criarem constrangimentos com o pobrezinho, optaram por esta fórmula. Assim ninguém fala e nem se nota.
Outros são o PCP que falam e falam para todos, pois recorrem à tradução para linguagem gestual.
Há ainda uma família que se chama PPM, cujo presidente é Doutor. Sim, vem lá a dizer, cada vez que o senhor aparece! Como têm um doutor e até pode ser que seja médico, e já se sabe a falta que eles fazem, até agora é a minha favorita.
Do POUS não retirei nada de especial, aguardo a ver se hoje terá mais acção.
Depois havia uma dinâmica que nos remetia, acho eu, para uma estória de emigrantes, do Norte para os Açores ou dos Açores para o Norte, o telefone tocou nessa altura, raios partam, e fiquei sem perceber. É o PDA e o senhor dizia caros conterrâneos nortenhos, com uma prateleira em fundo onde só se via o nome Salazar, mas depois aparecia alguém com sotaque açoriano… ou seja, tenho que ver outros episódios, para entender a trama.
O PH induziu-me em erro! Pensei que era relacionado com acidez e alcalinidade e afinal é o Partido Humanista. Seja como for gostei imenso, embora não tivesse linguagem gestual, tem tudo legendado, para se não percebermos alguma coisa do que dizem e, surpresa das surpresas tem uma candidata chamada Wendy!
Havia ainda o PND que se fartou de mostrar um coração que, visto derepentemente parecia a estrela do BE, que também entrava no episódio de ontem e cuja acção pode ser definida por uma imagem vale mil palavras.
Falta o PNR, onde, se bem me lembro entrava uma rapariga com um acessório giríssimo, tipo coleira, que vai fazer moda, de certeza.
E, last but not least, o PAN, que nos remete logo para a flauta de pã, canaviais, campo, feno e a Julie Andrews a rodopiar e a encher-nos o coração de música em três tempos, o animal, o humano e o ecológico!
Como sempre nas novelas, que eu vejo e sigo diariamente embora com dificuldade pois são várias e tenho que por duas televisões lado a lado para não perder pitada, nem todos os intervenientes entram em todos os episódios e assim concluo que faltam alguns. Como sempre também, sem sabermos como, mas cria-se logo uma predilecção por certos personagens, uma identificação, sei lá, gostamos deles e pronto. Mas quando comecei a pensar sobre a minha preferência, lembrei-me duma coisa que vi na televisão há uns dias sobre dívidas no crédito ao consumo e veio-me à memória uma distinta senhora que abriu a sua casa aos repórteres, mostrando-a mobilada do bom e do melhor, carro novo na garagem e que quando o tipo do microfone lhe perguntou porque razão tinha ela tantas dívidas se sabia que não as podia pagar, ela respondeu, e bem, com toda a propriedade: se os outros podem ter, porque é que eu não posso?
Ora, inspirada nesta senhora, que devia ser uma inspiração para todos, diga-se de passagem, lembrei-me… e porque não, criar eu também uma novela daquelas?
O que é que faz falta a todos os portugueses? A todos sem excepção? DORMIR, para ver se as ideias repousam, se assentam, mas sem ganhar pé, e por isso subscrevo o Movimento das Sestas que, como toda a gente sabe, fazem muitíssimo bem e até tenho a Bela Adormecida como directora de campanha! Quem sabe mais do assunto, quem?
Embora saiba que a Wendy se passou para outro lado, que o Peter está, obviamente, com o Pan, mas conto com a solidariedade das princesas e sei que a Bá – é o nome carinhoso que uso com a Bela… - tem imenso poder sobre a princesada por duas razões: primeiro, ela guarda o resto da maçã e ai de quem se atrever a fazer o contrário do que ela diga e, segundo, quem melhor que as princesas para saberem que o sono é reparador e o principal ingrediente para manterem aqueles peles de… de princesa, pois claro!
Tenho ainda como cabeça de lista o próprio Morfeu que neste preciso momento está a organizar os simpatizantes – milhões! - em catres, tendas de campismo, toalhas de praia, assentos de autocarros, metro, eléctricos, comboios, etc.,
Levantemos pois um enorme bocejo, o símbolo vivo da nossa campanha, fechemos os olhos e façamos do Movimento das Sestas uma prática diária e assim, garantidamente, chegaremos ao futuro mais depressa e com maiores poupanças a todos os níveis!
Conto convosco!

quinta-feira, 19 de maio de 2011

O Monopólio

A minha amiga Lu já nasceu vendedeira! Admiro-a porque eu sou daquelas pessoas que não conseguiria vender uma mantinha no Pólo Norte, mas ela vende aquecedores até no deserto do Sahara!
Depois de várias experiências ao longo da vida, curta, diga-se de passagem, porque ela tem só trinta aninhos e mal feitos e quem disser que essa é quase a idade da filha mais velha, leva logo com o meu olhar de olhos bem abertos a pedir para corrigir o disparate, mas, dizia eu, depois de outras experiências, agora é consultora imobiliária.
Um título destes tem imensa supless – soletremos por favor con sul to ra i mo bi li á ri a, que nos leva logo para uma dinâmica aparentada com sangue azul – e a Lu pediu-me ajuda no sentido de contactar pessoas a quem possa apresentar os seus serviços, dentro da sua zona de posicionamento/trabalho.
Confesso – estou de joelhos a penitenciar-me – que a zona de posicionamento levou a minha mente perversa para um cenário cheio de cetins, veludos e cintos-liga a atarem as barrigas gordinhas de certas meretrizes. Abanei a cabeça para afastar tão indignos pensamentos, centrei-me na candura da Lu, que parece um anjo e acedi a falar com algumas pessoas.
A bem da verdade, isto é um aviso pois a Lu planeia mudar a configuração da cidade, coisa que algum Plano Director Municipal conseguiu e ontem à noite esteve em minha casa a contar-me os planos da pólvora. Conclusão, ela vai reinventar o Monopólio!
Começou com os Jardins da Gulbenkian, que quer comprar a todo o custo, e quando percebeu que tenho um primo revisor da CP, os olhos brilharam-lhe já a ver as estações de Santa Apolónia, Campanhã e São Bento, debaixo da sua alçada!
Também no Quartel do Carmo se vai erguer um hotel – vão poder reconhecê-lo, era uma daquelas pecinhas vermelhas, maiores que as verdes, que eram as casas – e o meu amigo da GNR que falou com ela já anda a fazer terapia…
O parque Eduardo VII também está na mira da espingarda da rapariga, embora não saiba o que lá vai nascer, mas apenas que ela não gosta da inclinação, motivo pelo qual vai mandar terraplanar aquilo tudo para ficar com o terreno à mesma altura. Quando lhe disse que assim ia criar uma espécie de abismo em frente à rotunda do Marquês do Pombal, ela só me perguntou o que achava eu de por ali uma cascata que caísse em direcção à avenida da Liberdade…?
Também me explicou que o Rio Tejo está num local pouco razoável e avançou com umas ideias de o atapetar, para ficar mais estreito e criar espaço para mais construção, isto para além de projectar a compra e venda do Parque das Nações para ali sim, instalar o novo aeroporto!
Isso é que vai ser… os cámones a chegar, todos aos gritos a pensarem que vão cair no rio, atirar com o Oceanário e já a verem-se com a Amália e o Eusébio a onk, onk, onk pelo corredor do avião em chamas…
A danada da Lu faz um esforço enorme para acertar na Casa da Sorte, acho até que ficou com as cartas todas, e eu aviso-a que tenha cuidado que o Monopólio tem também uma prisão! Mas ela, forte e determinada, diz-me que se lá for parar conta com os amigos para lhe levarem uns cigarritos e, não tarda nada, está a passar outra vez pela Casa Partida!
Assim mesmo é que é!

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Solstício

Deu-se em mim um solstício de Inverno
Foi num Domingo, depois da missa e antes do almoço
Ninguém viu nem sentiu
O mundo continuou a sua jornada
E eu a minha.

Peregrino em busca do meu altar

Peregrino em busca do meu altar
O perfume fugiu das lágrimas
A distância não existe
O longínquo está aqui.
A dor crepita levemente
As imagens à minha volta são sombras de vitrais em dias sem sol
Olho e vejo um cemitério branco e negro
Tapeçaria de pedras e corpos
Que as almas estão guardadas nas torres que se alcandoram pelos castelos
Estátuas com semblantes doridos imploram movimento
São os guardiões de nada que todos querem ver
Cabe-lhes a honra de montarem guarda ao passado.

Adeus

Quero esquecer
Mas ouço o barulho da dor a doer
Arde ardentemente
O sabor do sangue quente
Vinhos, tisanas sobre mim derramem
Vozes silenciosas não clamem!
Acabo de acabar o corte
Pareço-me com a morte
Não, não e não, quero a vida
A por viver, não a vivida
Vou saltar penhascos, todos
Em tempo algum seguirei engodos
Mesmo com a alma quebrada
A cabeça estará levantada
O tempo terá que fluir
O espaço vai fugir
Viver, será o meu cais
Voltar a ti, jamais
E quando tiver terminado
Sim, dormirei descansado

Pinto-me para mim

Pinto-me para mim.
Cuidadosamente, passo o baton pelos lábios
O espelho diz-me que o carregue mais e mais
E eu, provocando-o, passo a ponta vermelha uma e outra vez
No lábio inferior, que esfrego no lábio superior, besuntando-o
Imaginando que não é o meu lábio
Gasto deliberadamente a cor
Transformando a boca numa bandeira ao vento
Para que quando passes me faças uma continência.

Pedido de desculpa

Não sei como nem porquê, mas verifico o desaparecimento de vários comentários, sem que tivesse havido intervenção minha. Aos autores as minhas desculpas.

domingo, 15 de maio de 2011

Borboletas

Mato as borboletas que esvoaçam em mim
Mato-lhes a cor, o exotismo
As asas, arranco-as
Mato-lhes o rodopiar, a beleza
A emoção, sufoco-a
Mato-lhes a fome, a sede
Porque a vida tem que começar hoje

Vou inventar uma nova vida
Selar a antiga, esquecê-la
Domar o que havia de ser
Mas não foi.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Galáxia de beijos

Gosto de ouvir falar de coisas que desconheço, principalmente se vêm pela voz ou pelas mãos de alguém que eu idolatro. É o caso.
A pessoa em questão fez o favor de fazer escala em Lisboa durante umas horas e tive a oportunidade de lhe fazer companhia ao jantar, por entre conversas, recordações e novidades.
Deu-me um livro do qual falarei quando o tiver terminado, mas sobre o qual posso adiantar que, como objecto, é belíssimo e, sendo sugerido por quem é, só pode ser de boa cepa: We, the Drowned, de Carsten Jensen.
Como a saudade entre nós é uma nascente cristalina, vamos trocando mensagens por e-mail e ontem reclamei pela falta de despedida em condições!
Para se redimir, para além de me ter sugerido ver Genesis, de Nacho Cerdá, despediu-se de mim com o envio de uma galáxia de beijos, que recebi e na qual ainda me osculo.
É nestes momentos que sorrio, toda, cheia, feliz.
Melhor, só se tivesse recebido uma carta, à moda antiga, escrita à mão, em papel de preferência amarelecido, com pétalas de rosas que podiam ter sido colhidas nos maravilhosos jardins de Serralves, uma carta de amor, pois que outro nome têm as cartas verdadeiras?
Porque procuramos sempre o óptimo? Porque sabemos que podemos lá chegar! Com esta certeza vivo na esperança de um dia receber uma carta assim, uma coisa muito adolescente, mas muito viva, crua e imediatista. Uma carta que viesse da própria Terra do Nunca, era isso mesmo que queria receber.
Sonho demais, diz a minha mãe, que não se cansa de afirmar diante de tudo e todos que sou uma sonhadora, como se fosse sinónimo de mentecapta. Vou passar a dizer que acredito em milagres!, e talvez assim, pela vertente religiosa, ela não abane tanto a cabeça olhando para mim, em sinal de desaprovação. Além do mais, eu acredito mesmo em milagres!

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Mais vale um pássaro na mão...

Se não tenho canecas, bebo por um copo
Se não tenho dinheiro, vejo televisão
Se não bebo Cabeça de Burro, bebo Alabastro
Se não tenho um vestido novo, visto um usado
Se não tenho caneta, escrevo com um baton
Se não tenho gasolina, vou a pé
Se não ganho, tento de novo
Se não consigo, esforço-me
Se não sei, pergunto
Se não acerto, corrijo
Se não mergulho, sonho
Se não vou, replaneio
Se não durmo, bebo café
Se não corro, faço ginástica
Se não vejo, telefono
Se não saboreio, abro a mala de recordações
Se não sinto, morri

Há quem seja grato ao que tem, às alternativas que encontra, e quem só goste de viajar em cinco estrelas, esquecendo que a vida não existe nesses locais e que só se vive a outro nível... por isso há quem viva e quem apenas respire.

O casal de miúdos

Foi milagre, será possível?
Dona Prata e Senhor Bento
Assim é que é subir de nível
É um grande acontecimento!
O parzinho está irreconhecível
Deu-se um renascimento
O culpado é o Criar Afectos
Assim são os bons projectos

Ai filha, queres que vá passar a ferro?
Hoje não posso, talvez amanhã
Tenho que estudar, senão erro
Tenho piscina, vou ser campeã!
Vou ginasticar, a ver se desemperro
Domingo, nem pensar, eu sou cristã!
O quê? O pai arranjar o exaustor?
Não pode ser, tem aulas de computador!

Agora vê se te calas que estou a ler
O pai está de volta da internet
Não temos tempo para comer
Logo lanchamos com a Laurette
Temos imensa coisa para fazer
Onde está a minha bracelete?
Vá, vá, manda beijos ao teu filho
Adeus, que nos vamos de afogadilho

Estamos roucos? Foi de cantarmos
Roucos mas muito bem-dispostos
Não nos cansa nada viajarmos
O que foi o almoço? Dois entrecostos!
Não ouviste o telefone? Mas nós telefonámos!
Achas que estamos descompostos?
Foi dum dia inteiro de viagem
Ai, se tu visses a paisagem…

Andam contentes os petizes
Criam afectos por todo o lado
Parecem dois aprendizes
Andar assim é ser-se abençoado
Ela tira e põe vernizes
Ele veste-se com predicado
E nós vemo-los vivos e contentes
Em excelentes ambientes

quinta-feira, 5 de maio de 2011

A luz da voz

- Sabes quando vais a conduzir e ficas encandeada com as luzes dos carros? Acontece-me o mesmo quando te ouço, a tua voz tem o poder de me encandear.
Quem não gostava que esta frase lhe fosse dirigida? Para além da beleza e do levantamento do ego que consubstancia, não consigo desligá-la dum episódio engraçado que aconteceu há meia dúzia de dias.
Ofereci o meu telefone para uma amiga ligar ao filho que é da mesma rede que eu, que tenho um tarifário que não pago chamadas para a minha rede, ao contrário dela que as paga. O Jorge não atendeu, concluímos a rir que estaria num momento em que as mães não devem intervir e fomos jantar juntas. Nessa noite gravei o número para uma qualquer eventualidade.
No dia seguinte a meio da manhã o telefone toca, verifico que é o Jorge e atendo:
- Olá Jorge, tudo bem?
Do outro lado chegou uma voz com sotaque carregado, de Bizheu, que disse ser o José e não Jorge mas afirmou que lhe ligaram daquele número no dia anterior ao fim da tarde. Percebi o engano, pedi desculpa e adeus.
Liguei à minha amiga a comentar a cena e a dizer-lhe que se tinha enganado e verificámos que ela tinha trocado um cinco por um dois.
Não tinha passado um quarto de hora quando o telefone voltou a tocar, anunciando outra vez o Jorge, que eu já sabia chamar-se José e que, duma assentada, disse o seguinte:
- Peço desculpa pelo incómodo, sinta-se à vontade para desligar o telefone quando quiser e juro-lhe que não mais voltarei a usar este número, mas tenho que lhe dizer que fiquei fascinado pela sua voz e não consigo deixar de pensar nela.
Uma mulher ouve uma coisa destas e fica muda, principalmente se não estiver habituada a ouvir elogios. A seguir engolimos em seco e dizemos ãh… obrigada. Se a experiência elogiosa fosse outra talvez deixássemos ouvir um riso maroto e a seguir disséssemos uma frase simpática que levasse o elogiante a continuar. Não foi o caso pois fiquei-me mesmo pelo ãh… obrigada.
O homem não se fez rogado e viu no meu garatujo linguista uma permissão para continuar o discurso e foi assim que fiquei a saber-lhe a profissão, as origens e as heranças, os gostos e fiquei a saber que é livre (sic).
Lembro-me de ter pensado que o telefonema se devia à minha voz que eu agora calava e aquilo parecia a gravação duma mensagem porque eu não dizia nada, parada no intervalo minúsculo entre o espanto e o rebentamento à gargalhada!
Por fim lá o interrompi, agradeci os elogios e a informação recebida e agora tenho um motivo de riso enorme com as minhas amigas.
Que cada um fique com os fascínios, que eu prefiro os encandeamentos.

O melhor de dois mundos

Fui ver o melhor de dois mundos. Para se ser líder em desenvolvimento pessoal temos que nos chamar… Daniel? Achei curiosa a coincidência dos dois Daniéis… ou não há coincidências?
Como diz a publicidade, Há que vê-lo para entendê-lo, falando de Daniel Sá Nogueira, o guru do desenvolvimento pessoal em Portugal.
Abraçar o caos? O homem terá ideia do que diz? Tem e eu concordo.
A tradição já não é o que era, tudo mudou, tudo muda, tudo continuará a mudar a velocidades estonteantes para as quais não estamos preparados porque, com frequência, não nos queremos preparar e deixamos a vida, a existência, passar-nos em frente do nariz, sem darmos conta.
Há muitos anos tive uma chefe que tinha um nome delicioso, a D. Regina. A senhora era uma funcionária pública sem mácula, saída do lote dos funcionários públicos perfeitos, que o mesmo é dizer, alguém pode estar a morrer, mas já bateram as cinco e meia da tarde, logo, venha amanhã se faz favor, porque não podemos violar o horário de trabalho e atender pessoas para além desta hora.
O director do departamento foi buscar a arquivista – eu – para organizar a mudança de todo o departamento para outro edifício. Iniciei-me nas lidas da organização, a vários níveis, e adorei, mas eu não contava com a D. Regina…
A ideia da mudança passava também por criar ambientes mais amigáveis ao munícipe e aos próprios funcionários, mas ela disse que se não tivesse um guichet… nada feito.
Enquanto a maioria colaborava na mudança, mostrando entusiasmo e empenho, eu passava e ela dizia, e o meu guichet?
Foram meses de árduo trabalho onde eu ia para casa e sonhava que corria, em câmara lenta, ao longo duma praia de águas translúcidas e areias brancas, com uma camisa que esvoaçava atrás de mim e do outro lado, não, não estava um tipo giríssimo que também corria para me abraçar, estava um guichet que eu partia à martelada, com um prazer inimaginável!
No dia da inauguração do novo edifício, a D. Regina meteu os papéis para a reforma, ou seja, não a consegui convencer que a mudança era um passo em direcção a um futuro melhor e a D. Regina continua a ser a pedra no meu sapato, bem, talvez seja melhor uma pastilha elástica ou um rebuçado, mas que me fazem escorregar.
Always look on the bright side of life, com a maior simplicidade possível, duma forma grata pelo que temos e não estejamos sempre à espera que os outros façam seja o que for por nós, levantemo-nos a cada dia.
Cada empresa, cada família, cada clube recreativo devia ter um Daniel Godri a servir de despertador! Acordávamos todos de forma serena mas altamente motivados para atingir os nossos objectivos, que podem ser as coisas mais diversas, como ser independente, como disse o Paulo Azevedo, cuja existência e presença são lições de vida sobre as quais todos devíamos reflectir.
Abraço apertado à minha amiga L. que me levou, com o seu entusiasmo e as suas fabulosas gargalhadas.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Portem-se bem, ouviram?

Trabalho a 100 metros dum hospital que desde ontem tem internado um doente cigano.
Não o vi, ninguém me disse e não tenho dons adivinhatórios, mas o acampamento que vai crescendo, com gente de várias idades, muitas crianças e sacos espalhados por todo o passeio desde o início até ao fim da rua, levam-me a essa conclusão.
Carros e carrinhas estão parados nos mesmos sítios desde ontem, bagageiras abertas, roupa e calçado espalhado pelo chão e… pessoas a defecarem no meio da rua!
Ontem vi um garoto e hoje, que cheguei bem cedo, vi um adulto nestes propósitos tendo depois empurrado as necessidades para debaixo dum carro! Inacreditável.
Comentando a cena com um colega, este disse-me que o hospital, os restaurantes e cafés, um hotel e diversos moradores já tinham chamado a polícia que veio ao local e lhes pediu para… não fazerem barulho.
Conclusão, temos que aguentar e rezar pela saúde dum cigano que desconhecemos, a ver se fica bom depressa pois, se temos o azar que ele morra, para além da imundície temos também os gritos, as ladainhas, as carpideiras e não há polícia no mundo que os cale, alegando respeito pela tradição do defunto!

Raridade

Quando era pequena tinha um medo atroz de máquinas fotográficas. Devia ser a minha costela índia que pensava que me roubavam a alma ou qualquer coisa semelhante. E assim, poucas são as fotografias onde não estou a mostrar as goelas, como se as mostrasse ao médico, num imenso ahhhh de boca aberta. A minha mãe era – e ainda é! – aparentada com as estrelas de cinema antigas, aquelas que eram fotografadas sempre lindas e que eram notícia pela sua beleza e não pelos escândalos de hoje.
O meu pai, a cumprir serviço militar obrigatório, já tinha deixado o seu sonho: ser aviador. Iniciou-se no mundo do trabalho numa gráfica, com pouco mais de meia dúzia de anos. Um amigo levou-o e disse-lhe que quando lhe perguntassem o que sabia fazer, ele respondesse compor, provando que era perito na arte da composição, ele que vestia umas calças compridas pela primeira vez!
E lá foi ele e lá veio a pergunta. Mas a seguir a essa, o Sr. Mário, velha raposa das artes gráficas perguntou-lhe o que mais sabia fazer. O pobre do rapaz pensou rapidamente e deu a resposta que achava que o outro queria ouvir:
- Sei compor e descompor!
O Sr. Mário a rir-se da lata do gaiato disse-lhe que quem lhe dava uma valente descomposição era ele, mas que podia ficar à experiência.
Uma das velhas máquinas, mecânicas e com braços, um dia acertou-lhe num olho e obrigou-o a usar óculos. Ele não se importou com o sangue, com a dor, com o espectáculo do ir para o hospital, numa altura que quase tudo se tratava em casa com panos quentes e canjas de galinha. Ficou inconsolável por já não se poder alistar na aviação… Por ironia do destino, trabalhou a vida inteira ligado às artes gráficas e só andou de avião uma vez até hoje.
Ele que pelo meio estudou para Padre, que esteve para ser aviador, bem, fazendo as contas eu tive imensas probabilidades de não nascer, mas isso não aconteceu porque não havia Padres nem aviadores que resistissem à beleza da minha mãe, meia cigana, meia malandra e sempre sexy.
Ps. Eu ainda não andava mas o meu pai já me punha letras à frente do nariz...

Beleza em estado puro

Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei

Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso

Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo

Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento

O poema de Sophia arrasta a pergunta - todos arrastam - o que viveu ela que a levou a esta dimensão?

O dente sorridente (bom título para uma estória)


 Há a Fada dos Dentes e há o dente da Fada...

terça-feira, 26 de abril de 2011

Say ‘Cheese’, parte II

Já tenho as fotografias! Depois de quase ter sufocado dentro daquela prisão, fui a outra depois do almoço. Lojas, lojas, gente, gente, gigantescas faltas de espaço e eu apertada e mal disposta, a percorrer outra catedral de consumo. Na loja da FNAC dizem-me que ali não revelam mas que o fazem no Colombo e só demora uma hora. A boa notícia mistura-se com o medo de ter que entrar no terceiro centro comercial no mesmo dia, um feriado cheio de sol… não estou em mim e vou ao Colombo. Deixo o rolo decidida a esperar lá fora enquanto converso com a I.
Porém, o Duarte liga a avisar que está à porta de casa e não tem chaves… Não! Não! Não!
Metemo-nos no carro, vou a casa, abraçamo-nos para matar saudades dos dias que ele esteve ausente, subimos e eu não encontro mais que fazer se não passar a ferro… A I. vê televisão e conversa comigo sentada no sofá enquanto eu passo furiosamente a ferro. Passa-me pela cabeça a frase que uma amiga me disse e que me enfureceu há semanas atrás, quando lhe disse como estava triste e me tinha posto a passar a ferro e ela me respondeu que eu fizera bem, que assim estava ocupada… por mais que eu a ame do coração, fiquei danada com ela!
A caldeira do ferro esvaziou-se e fomos buscar as fotografias, ou seja, pela quarta vez no mesmo dia fui a um centro comercial. Isto é um recorde imbatível e não creio que o consiga ultrapassar mesmo que viva 100 anos.
… finalmente vi as fotografias…

Dá-me a tua mão

Dá-me a mão
Espreita no meu coração
Debruça-te nesta varanda
Ouve o tocar da banda
É a minha pulsação

Sem medo e sem receio
Acolho-te no meu seio
Semente lançada à terra
Minha vida, minha guerra
Milho, trigo ou centeio

Ah… contas do meu rosário
Fosses tu meu adversário
Tanto oxigénio, tanta vida
E à chegada e à partida
É tudo teu, meu corsário

O olhar cansado não descansa
Faço com a espera uma aliança
A Via Láctea é pequena
Aguardo um milagre, serena
Com a eternidade ensaio uma dança

Dá-me a mão
Espreita no meu coração
Sou um rio, um afluente
Transbordo com água quente e ardente
Acende uma vela, tira-me da escuridão

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Say 'Cheese'!

Deve ser o tempo que me põe meia esquisita e sem sono. Acordei bem cedo e, imagine-se, fui arrumar papéis. No fundo duma mala azul e no meio de um pacote de lenços por usar, um lenço usado, dois tampões higiénicos, dois bilhetes de cinema e uma factura do McDonald's, estava um rolo fotográfico.
Há algum tempo encontrei uma máquina fotográfica sem que nada me indicasse a sua propriedade. Revelei o rolo e fiquei com um monte de fotografias duma janela na mão. Conclui que alguém andava a espiar outro alguém pois a janela era sempre a mesma, as fotografias tinham sido tiradas a várias horas do dia, o que se via pela luz, e havia sempre um vulto que não se percebe se é homem ou mulher, mas é uma pessoa indubitavelmente. Fiquei com as fotografias e com a máquina que ainda mora algures no meu gabinete de trabalho.
Face à descoberta, vesti-me e saí com a intenção de revelar o que escondia naquele cilindro de plástico e metal.
Primeiro fui tomar o pequeno almoço com os meus pais e com os amigos deles e assisti à zaragata do costume pois todos me querem pagar o pequeno almoço. Ora eu não tinha fome, mas cai na asneira de dizer que ainda não tinha comido! Então, para evitar que todos juntos me tapassem o nariz e me enfiassem uma meia de leite pela boca abaixo, lá mastiguei metade dum pão. A verdade é que ontem não almocei nem jantei: cheguei a casa depois do almoço sem fome e quando fui dar os parabéns à Suzy, que fazia anos, e ela me perguntou se já tinha jantado é que me lembrei que também me tinha esquecido. Nem as insistências dela conseguiram que a fome espreitasse de dentro de mim e, para ela não ficar triste, bebi um café e um copo de água! Antes de me deitar bebi um iogurte geladinho e pensei que me apetecia tomar banho naquilo; mas depois fiz as contas ao dinheiro e desisti!
O local mais próximo onde pensei que atingiria o meu objectivo é o Forum Sintra, uma espécie de réplica da prisão do Linhó, ali bem perto: é todo metalizado, corredores estreitos e escuros, com umas clarabóias lá bem no alto para as pessoas não fugirem. Numa palavra: horrível. Em duas: de fugir!
Mas valores mais altos se levantavam e eu senti-me o Capuchinho Vermelho a entrar na floresta, cheia de medo e com a respiração alterada. Mas tinha que ser.
Estacionei numa ponta para me ser mais fácil recordar onde estava o carro, mesmo que fique a quilómetros da entrada. Entrei na prisão e perguntei por uma loja de fotografia; ficava a 10 metros! Porém, só daqui a uma semana é que me davam as fotografias. Uma semana? Eu pensei que fosse uma hora! Nada disso, agora centralizavam as revelações de rolo no Porto e tinham que mandar para lá, e esperar que as devolvessem. Então não quero!
A caminhar pelos longos corredores, sem parar diante de lojas com roupa linda que nenhuma me serve, nem sequer frente a qualquer sapataria, o que é um feito gigantesco para mim, fui à Worten onde me disseram imediatamente que sim, que tinham serviço de revelação imediata! Sorri e segui o rapaz, mas foi sorriso de pouca dura pois quando ele me pediu o cartão e eu franzi os olhos a dizer, qual cartão?, é que ele explicou que só revelavam de telemóvel ou de máquina com cartão, não de rolo. Obrigadinha, sim?
Nesse momento já sentia falta de ar e tinha uma ligeira tontura. Os centros comerciais são bichos com uma penugem qualquer à qual sou alérgica e comecei a sentir-me mal. Precisava rapidamente dum antídoto!
- Por favor, onde é que há aqui uma livraria?
Quatro perguntas iguais a quatro pessoas diferentes deram como resultado dois não sei, um a Bertrand ainda não abriu e, finalmente, um vá em frente e vire no C&A e encontra a Book.it.
Lá cheguei, já com a vista meia enevoada e entrei. Mexi nos livros, sentei-me no chão, acalmei a respiração, comprei um marcador lindo de morrer e, já recuperada, preparei-me para sair, a correr em direcção ao carro.
Não corri, mas dei grandes passadas como se um guarda prisional viesse atrás de mim e eu não quisesse chamar a atenção. O coração batia como maluquinho e finalmente cheguei ao carro.
A seguir ao almoço, a ver se não me esqueço dele, vou procurar outra loja de fotografia, ou seja, tenho que ir a outro centro comercial. Já decidi que vou convidar alguém para vir comigo, caso contrário posso ter uma apoplexia antes de ver as fotografias.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Vivo na esmola da sorte

Vivo na esmola da sorte
Eu, pedinte, vagabunda
Durmo ao relento da tua ausência
O dia faz-se noite e a escuridão é senhora
É sempre lua nova nos teus olhos
O teu olhar tece teias que não me abrigam
Constrói ninhos onde não me deito
Usa grutas que não me protegem
Esconde-se em buracos que não acho
Dizem que a sorte protege os audazes
Dizem que a sorte é a arma dos fracos
Dizem que a sorte somos nós que a fazemos
Dizem… que nunca ninguém a viu…
Eu digo que ela existe, mas não é minha…

terça-feira, 19 de abril de 2011

Noite de trovoada

Noite de trovoada, acesa, barulhenta. Noite de chuva com calor, ideal para fazer amor desenfreado, conquistado, descoberto, como se fosse a primeira vez.
Abençoados os que aproveitaram, os que se deleitaram com o cenário, com a banda sonora que a natureza propiciou. Pobres de todos os outros…
Noite de trovoada, vibrante e assustadora. Noite de cenário perfeito para entregas de corpos, almas e corações, para misturas e partilhas, de memórias escritas em pedras, em granito que se perpetua no tempo.
É nestas noites que sonho não estar sozinha. É nestas noites que sonho estar acompanhada, ter a própria trovoada deitada comigo, a troar dentro de mim, a rasgar os meus céus com relâmpagos tão luminosos que fazem inveja ao sol. É nestas noites que quero não dormir, que me mantenham acordada, satisfeita e cansada, mas feliz.
As noites de trovoadas existem para as pessoas se abraçarem e beijarem, sem medo e com os olhos bem abertos. As noites de trovoada existem para as pessoas amarem sem amanhã, para viajarem sem porem os pés no chão, para criarem tatuagens na pele.
Alguns fumam cigarros à janela, com pressa, para voltarem à partilha, para se entregarem a carrosséis de beijos e montanhas russas de entrega. Outros fumam cigarros à janela, devagar, como se o fumo fosse o único cenário que lhes é concedido, o único palco. Para uns e para outros a trovoada clama bem alto, impõe, ordena que façam a única coisa pensável, que se amem. Uns obedecem, outros acendem outro cigarro… e a trovoada insiste, insiste, insiste, sem se cansar, autoritária e sorri a quem lhe obedece, caminhando para outras paragens e deixando o sono tomar o seu lugar.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Eu tenho dois amores

Há alguns meses mudei de director. Porém, o anterior continua a pedir trabalho como se estivesse em funções e disputa acerrimamente com o actual responsável, uma das minhas áreas de actividade, tanto mais que ele é o verdadeiro entendido na matéria. Face à legalidade de um e aos conhecimentos de outro, juntos concordaram em criar um tempo de passagem em que ambos terão uma palavra a dizer. Aparentemente tomaram a decisão certa, mas criam-se situações que vão do dramático ao cómico e nunca sei a quem dou primeiro conhecimento de qualquer coisa, a quem peço primeiro uma assinatura, quem tem a primeira palavra e, principalmente, quem tem a última e até nos e-mails se questiona quem vem em primeiro lugar.
Andamos sempre confusos para cá e para lá, fazemos e refazemos, ouvimos daqui e dali e, conclusão, nem gregos nem troianos ficam satisfeitos e nós ficamos com a profunda sensação de inutilidade e enormes quantidades de energia desperdiçadas!
As coisas já não estão fáceis, a crise agudiza-se, as relações entre as pessoas deterioram-se e é tempo de fazermos brainstorming e não de queliziarmos uns com os outros!
O cansaço e a fartura que isto arrasta são incomportáveis e davam para uma peça de teatro onde muita gente se reveria, tenho a certeza. Quanto mais tempo ficaremos nestes entretantos sem chegarmos aos finalmentes? Irra!

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Comboios da minha vida

16 anos foi o maior período em que vivi na mesma casa. A trinta metros da linha do comboio e a cem da estação, íamos à janela para ver se o meu pai vinha naquele comboio ou não e saíamos de casa para o apanhar quando as campainhas começavam a tocar.
Viver lado a lado com a rotina dos horários da passagem dos comboios era absolutamente normal. Quando mudámos de casa quis o destino que a linha do Oeste ficasse a poucos metros na janela da cozinha. Da janela da casa seguinte via-se a cerca de cem passos. Anos e algumas casas mais tarde, voltei a uma casa que distava os mesmos cem metros da estação e hoje estou a cem metros da linha férrea, embora Entre-Estações, como se fosse uma réplica humana de Entre-Campos.
Numa ocasião, há muitos anos, vieram uns primos lá do Alentejo com consultas e exames médicos marcados num qualquer hospital e hospedaria marcada em nossa casa. Quando nos levantámos de manhã estavam as criaturas com o estenderete do sofá cama já arranjado, cobertores dobrados e eles sentados a olhar para o vazio, com cara de quem tinha feito uma directa.
Dados os bons dias e os cumprimentos perguntámos a que se deviam aquelas caras. Responderam que não conseguiram dormir com o barulho. Barulho? Que barulho? Ninguém ouvira nada. Apesar do sono lá arranjaram convicção e força para imitar o barulho que se ouvia, aí de vinte em vinte minutos ou de meia em meia, hora, eles não sabiam ao certo, mas tinham a certeza que era um grande barulho, um barulho barulhento e rugidor. Mas que mistério! Como é que um barulho assim só os acordara a eles e nós, cinco pessoas, não ouvíramos nada?
Já não sei quem foi que se lembrou então dos comboios, aos quais estávamos habituados e que passavam por nós sem nos beliscarem o sono.
Durante anos era o meio de transporte de eleição de quem morava na linha de Sintra como eu: portas abertas e gente pendurada nos degraus era um cenário completamente normal, enquanto lá dentro os passageiros seguiam ensanduichados e colados uns aos outros. A estação de Queluz era um susto: entravam os queluzes, como lhes chamávamos, à força toda e as carruagens já cheias ficavam irrespiráveis.
Devido à falta de segurança e ao facto de as pessoas andarem literalmente de fora do comboio, os acidentes sucediam-se e um colega meu perdeu uma perna nestas brincadeiras.
Muitas das visitas aos meus avós no Alentejo eram feitas de comboio até Lisboa, barco até ao Barreiro, outro comboio até Beja, depois de automotora até Moura e, finalmente, de camioneta até à aldeia; a automotora era uma coisa cónica afunilada, vermelha e branca, muito fumarenta, ruidosa e com bancos de sumapau, como se dizia na altura.
Hoje viajo com alguma frequência no Alfa para ir a Coimbra e já não uso o comboio diariamente nas deslocações para o trabalho, mas guardo memórias de viagens fabulosas no sul da Polónia em direcção a Zakopane, pela Itália, Finlândia ou em Inglaterra, sem falar na volta do Tua, impressionante, e muitas, quase todas, as linhas de Portugal.
Viajar de comboio tem um romantismo que nenhum outro transporte consegue atingir, principalmente se os companheiros de viagem forem gente simpática.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Dias Difíceis

Edith, a mãe de All in the family, perguntava um dia ao seu inesquecível marido Archie Bunker se o período designado, para as mulheres, como menopause, nos homens seria womanpause. Infelizmente a piada não faz sentido em português e a maioria das menopausas não têm sequer piada em qualquer local do mundo. Mas fazem parte da vida.
Ao longo dos anos as meninas eram ensinadas a não falar de certas coisas e se hoje em dia os namorados e maridos vão ao supermercado comprar tampões com a naturalidade de quem compra uma garrafa de água, isso nem sempre assim foi.
Sangue a jorrar dos pipis era tabu e a palavra menstruação evitada a todo o custo. Não sendo uma palavra bonita mas sempre é melhor que qualquer alternativa – à excepção do período – como o clássico Chico, expressão péssima e cuja origem desconheço.
Mas se na adolescência nos ensinavam a calar e a esconder conversas menstruais, porque ao fim e a ao cabo de sexo se tratava, ainda hoje pouco se fala da menopausa. Os calores são causados por um andamento mais rápido, as hemorragias devem ter a ver com qualquer coisa não se sabe bem o quê, a irritabilidade é da falta de férias e muitas outras desculpas porque no fundo as mulheres envergonham-se de estar na menopausa como as raparigas se envergonhavam de estar menstruadas.
A menstruação era associada a qualquer coisa suja, porca e a menopausa é sinal de velhice, quanto menos se falar do assunto melhor! Mais ainda, - e isto dá-me uma vontade de rir especial – eram assuntos sussurrantes, que deslizavam nas conversas mas em voz baixa, para que ninguém ouvisse.
Hoje já não é bem assim e as raparigas afirmam estar com o período com naturalidade e os tampões não andam escondidos no fundo das malas. Isto lembra-me a mala da minha irmã onde desde há anos mora uma caixa de tampax que sempre que se gasta é imediatamente substituída por outra!
O ciclo fecha-se com a actuação da menopausa que dá vontade de muita coisa, mas não de bater palmas. As mulheres falam dela ainda em meias palavras, através de olhares cúmplices que esclarecem as outras sobre o motivo do mal-estar ou dos calores e só diante do senhor doutor é que as palavras são ditas, embora de olhar recolhido e preso ao linóleo do chão, que isto de falar destas coisas, mesmo com médicos, ainda tem que se lhe diga!

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Solidão

Zeus condenou o gigante Atlas a carregar o mundo nas costas para a eternidade.
Há pessoas que se assemelham ao Atlas, não por carregarem o mundo, mas por arrastarem a solidão.
Essa solidão adensa-se por exemplo em salas de espera de hospitais, onde chega a tornar-se sólida, mesmo que as pessoas estejam habituadas a estar sós. Até podem ter companhia, mas estando acompanhadas, estão sozinhas, como se estivessem num deserto ventoso onde o vento não se decide para onde soprar e as empurra para todos os lados, tentando deixá-las cair.
As dores e o mal-estar que sentem não são nada, comparados com a tristeza de terem que se encostar ao vazio de uma cadeira de hospital, de fazerem um chá sozinhas, de se esforçarem aos limites para ir à farmácia.
Mesmo que os amigos se ofereçam para fazerem certas coisas, para fazerem companhia, estão no lugar que lhes compete, de ajudar. Só isso, mas falta fazer muito mais.
Lembro-me que quando era casada o meu marido agia como se fosse um médico frio e distante que mede a febre, estica a palma da mão autoritária com os medicamentos, corre as cortinas e cria a penumbra para descansar. Nunca me passou a mão pela cabeça, numa carícia de desejos de melhoras, nunca se deixou ficar ao meu lado deixando o silêncio mostrar como queria que eu melhorasse.
É verdade que não tinha que me preocupar com horários de medicamentos porque sabia que ele não se esqueceria, as refeições eram adequadas, bastava eu levantar-me para ir à casa de banho e quando regressava já a cama estava feita de novo, era perfeito como enfermeiro, mas deixava a desejar como marido.
O sol hoje espoja-se com intensidade nas esquinas dos prédios e da memória como se quisesse desfazer o negro da solidão, mas não consegue, será sempre fraco demais. É quente mas não tem o toque da pele, faz-nos transpirar mas não respira, faz companhia mas não resgata da solidão.
O ar de Verão que o dia hoje trás vestido remete para dias felizes de férias e praia e viagens e passeios e cumplicidades. Remete para o passado.
Oiço as acusações de estar silenciosa e sei que são verdadeiras, mas há momentos tão fundos, tão tristes e infelizes que me obrigo a não trazer seja quem for para dentro deste abismo.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Odeio greves!

Actualmente e desde há algum tempo só uso diariamente o metro. Porém, desde há semanas (que me parecem uma eternidade) que ando a saltar do metro para o comboio e vice-versa, e vice-versa também para os utilizadores do comboio. Porquê? Por causa das malditas greves!
Como só tenho passe de metro, quando os senhores metropolitanistas fazem greve, lá tenho que comprar bilhete de comboio e já perdi a conta às vezes em que isso aconteceu ultimamente.
Acreditem que respeito imenso os funcionários, entre os quais tenho primos, amigos e conhecidos, mas já chega!
Acho que devem ganhar três vezes mais – É três vezes mais que querem? Seja! E se não for, desculpem ai, é que estou tão cansada de me levantar ainda mais cedo, de chegar a casa ainda mais tarde por causa das vossas greves, que talvez me baralhe! – sou solidária com o aumento dos descansos, estou cansada de ler e-mails onde afirmam que não recebem os três mil euros que se diz que recebem e também estou cansada de não vos ver marcar greves nos inícios do mês… porque será…?
A bem da verdade, as empresas acabam a brincar com os clientes – que não têm grande remédio senão ser clientes deles – pois enquanto não andam não têm que fazer manutenção nas linhas, não pagam ordenados, não há acidentes, não têm que pagar seguros e o pessoal vai comprando uns bilhetes no vizinho metro quando são os comboios a parar e na amiga CP quando é o metropolitano a fechar portas.
A clientela obrigatória compra o passe sem o qual não passa nas maquinetas – já agora façam aquilo também para gordos que vocês não discriminam o dinheiro que recebem também não o devem fazer nos passageiros! – e depois anda a comprar bilhetes avulso noutros meios de transporte o mês inteiro.
Por amor de Deus, Alá, Buda, Júpiter, Ganesha e todos os que queiram parem com isso que já não se aguenta.
Nós valemos assim tão pouco que não se importem que viajemos enlatados, com pessoas a sentirem-se mal dia após dia devido aos apertos, com outros a saírem magoados de virem com as costas apoiadas nos ferros a viagem inteira e outras situações semelhantes? Para falar com franqueza a aquisição do bilhete supõe umas determinadas condições e se essas condições não estão reunidas, nem por sombras, então podemos não comprar bilhete…
Senhores maquinistas, revisores, factores e outros funcionários dos transportes, a paciência tem limites, ao contrário da vossa incompreensão para com os passageiros que são obrigados no início de cada mês a comprar passe!

O anúncio

Este texto podia chamar-se Crónica Anunciada da Publicação dum Anúncio, mas ficava com ar de aliteração.
Disseram-me que iam publicar um anúncio num jornal nacional sobre mim. Primeiro pensei que brincavam. Depois percebi que era a sério e tentei saber o que diria. Fiquei no escuro. Até ontem, quando o li.
Não, não vou reproduzi-lo aqui. Não é bonito andarmos a mostrar os elogios que recebemos. Mas não podia passar sem falar dele. O autor do anúncio é amizade recente e distamos muitas centenas de quilómetros, mas sentimo-nos próximos e aquece-nos o fogo de muita coisa em comum.
Confesso estar habituada a que me façam elogios profissionais, um ou outro sobre o que escrevo, sobre a beleza e /ou diversidade dos meus sapatos e/ou malas, sobre as diferentes cores de cabelo que vou usando, sobre os pratos que vou inventando e, porque não dizê-lo se é verdade, sobre as pernas.
Mas, à excepção dos meus amigos I. e V., que exageram francamente nos elogios à minha pessoa, raros, raríssimos, são os que ouço, os que vejo manifestados.
Ora o anúncio vem em sentido contrário e faz-me um elogio a mim pessoa, toda, inteira.
Nos elogios que costumo ouvir eu sou uma figurante: são os sapatos que são bonitos, é o comer que é bom, é o trabalho que está bem feito; por acaso, eu também ando por ali, mas é por acaso.
O anúncio deu-me vontade de rir, como uma camponesa se rirá se se vir vestida de festa, vendo-se deslumbrante, brilhante, exuberante. É claro que salta logo a pergunta, Mas aquela sou eu? Ou são os olhos de outrem que assim me vêm?
Deliciada com a surpresa, encantada com a leitura, deitei a perguntas para trás das costas e deixei-me envolver em sorrisos.
Obrigada.

O par de sapatos

Através do Criar Afectos os meus pais foram no fim-de-semana em passeio a Viana do Castelo.
Sábado às seis da manhã estavam pontuais no local de encontro, meteram-se na cáminete e lá foram eles mais uma mão cheia de amigos e companheiros. Cantaram até à rouquidão fado, pimbas, cantigas regionais e tudo o que se lembraram. Chegados a Viana foram depositados à porta do hotel com hora marcada para a recolha dos convivas, que o Museu da Ourivesaria já esperava por eles.
O atropelo da subida para os quartos não deve ter sido muito grande porque aquela malta já não tem idade para correrias mas, segundo o relato, rapidamente subiram, abriram as malas para esticarem os fatos, as sedas, os lamés e lantejoulas que usariam no baile que se seguiria ao jantar nessa noite.
Não conheço alguém tão vaidoso como a minha mãe e imaginei logo que levaria na bagagem roupa suficiente para uma tournée de seis meses à Austrália e que faria as delícias e a inveja das amigas.
No caminho trajaram roupa prática, ele ténis e ela botas de caminhar, onde os atacadores ligavam com os brincos e nada ficava ao acaso, cinto, meias, colares, tudo a condizer.
Ora quando chegaram e ela abriu o baú e começaram a sair saias e lenços como pombas de dentro da cartola de um mágico, saiu também um par de sapatos para o meu pai usar no jantar dessa noite que deviam ser calçados com o belo fato desportivo que lhe dá um ar jovial e descontraído. O pior foi só então ela ter reparado que um sapato era preto, quadrado na biqueira e outro castanho e bem redondo!
Ao telefone o meu pai contou-me o disparate a rir-se e dizia que talvez os calçasse, sim, porque felizmente, ela não trouxera os dois do mesmo pé!
Resta dizer que o homem foi ao jantar de ténis porque não encontraram uma casa aberta para comprar um par de sapatos, mas quem o conhece sabe que ele adorou a cena, não se importou nada e agora vai gozar o pratinho até à exaustão…

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Juntam-se todas as cores e fazem-se sorrisos

Juntam-se todas as cores e fazem-se risos
Que não se cansam e nem adormecem
Faltam promessas que não amanhecem
Lambuzam-se olhares que ficam cativos

Olhares que brilham ainda sem sisos
Enquanto os adultos, todos, endoidecem
Enquanto as esperanças, todas, desfalecem
Mesmo com tantos, ai tantos avisos

São empurradas para um incerto futuro
Por mãos que não deviam sair do leme
Distribuindo amor, carinho e certezas

Mas caminham ignorantes rumo ao escuro
Não acreditando que alguém as algeme
São apenas crianças, não têm impurezas

quinta-feira, 31 de março de 2011

Peregrinando...

As peregrinações, à imagem de muitas coisas, já não são o que eram. Que eu saiba há três modalidades de peregrinar a Fátima, e falo de Fátima por ser o expoente máximo das peregrinações em Portugal:
1. O Método Profissional da Fé
2. O Método Pedro Caldeira
3. O Método Tradicional.

O Método Profissional da Fé, que também se podia chamar Método de Aluguer, consiste em pagar a alguém para que faça a peregrinação por nós; assim, alugamos os sapatos, pernas e corpo de outrem que fará o caminho por quem fez a promessa. É uma criativa saída para a crise, onde se pede tanto, imagino eu que os Santos andem numa lufa-lufa com listas intermináveis de pedidos e estas pessoas, os Profissionais da Fé, estão dispostos a pagar promessas por procuração, desde que lhes paguem a eles em dinheiro.
O Método Pedro Caldeira, que também pode ser chamado Método das Prestações, foi publicitado quando se constou que o ex-famoso corrector teria feito a promessa de ir a pé a Fátima, em troca duma graça, dum pedido para a sua vida, tal como o fazem milhares e milhares de pessoas. A estória não teria história não se desse o caso de ele ter feito uma peregrinação completamente fora dos padrões tradicionais: todos os dias caminhava uns determinados quilómetros e ao fim da caminhada alguém o ia buscar e ele regressava confortavelmente a casa, à sua caminha, à sua família, ao seu meio. No dia seguinte, sentado no fofinho da sua viatura, era levado até ao local onde tinha terminado no dia anterior e daí andava mais meia dúzia de quilómetros e a coisa repetia-se.
O Método Tradicional é uma maçada de sacrifício, dores de pés e contacto com gentes coloridas nas pernoitas sabe-se lá onde. É usado só pelos pobres e por aqueles que acreditam e interiorizam verdadeiramente que estão a pagar a promessa.
Aqui não se farão apreciações sobre se as peregrinações devem ou não ser feitas, mas apenas me rebolarei no ridículo de quem sabe que tem que pagar a promessa, mas inventa de tudo para se livrar desse compromisso.
Os dois primeiros métodos podem ter muitos nomes, mas não são peregrinações e o primeiro então, lembra-me aqueles alunos que mandam outros fazer o exame por si, o que pode ser definido numa só palavra: trafulhice! Há quem a defenda, é certo, mas também é verdade que a lei consagra que todos sem excepção devem ter uma defesa, logo, há advogados para tudo.
O segundo método lembra-me analogias, como por exemplo, chegar a casa e comer qualquer coisa não é jantar, ir para a rua de pijama não é estar-se vestido, embora não se esteja nu, alinhar palavras atrás umas outras não é escrever, fazer uma peregrinação não é dar uns passeios ao fim de semana.
Pedir é fácil, cumprir o quer se prometeu, que o diga o Governo, não é bem a mesma coisa e por alguma razão diz o povo que de boas intenções está o inferno cheio.
Com franqueza afirmo que não percebo estes pretensos peregrinos que querem mas não querem, vão mas não vão, pagam mas não pagam, mas uma coisa é certa, assim que se apanham com a graça pedida e obtida arranjam esquemas para minimizar a sua parte do acordo e cumpri-la com o mínimo dos sacrifícios, aos bocadinhos aos fins-de-semana que tirar dias de férias para pagar promessas nem pensar.
Esqueceram que o pedido era de monta, se não o fosse não teriam recorrido aos serviços das promessas, e já com o servicinho feito, fazem caretas ao caminho, planeiam pequenos passeios que não lhes desarranjem a vida e assim se fazem as modernas peregrinações. Mais, até há os que se arrependem e ficam chateados com a necessidade de mais aquele pagamento, como eu fiquei esta semana quando fui pagar o IMI!
Ora bolas, agora tenho que ir fazer uma caminhada enorme… tenho que ir já comprar uns Hush Puppies novos que os Manolos não ficam bem com as jeans que comprei na Prada…
Onde está o sacrifício que se oferece em troca da dádiva? Onde está a concentração no pagamento que se está a efectuar? Onde estão as dores semelhantes às de Cristo quando deu a vida pela humanidade? Onde está a fé? Onde está o ‘estar’ em comunidade nas noites em albergues para peregrinos? Estes são alguns dos argumentos que me apresentam para fazer peregrinações, a malta do Método Tradicional.
A peregrinação sentida sai da pele de quem a faz e deixa cicatrizes e não fotografias para mostrar mais tarde, como se tivessem ido fazer uma excursão.
Caminhadas também eu faço aos fins-de-semana, mas não são peregrinações! É assim que vivem a fé? É assim que querem conquistar, pelo exemplo? É assim que dão o exemplo aos filhos? Que de atitudes exemplares se faz a vida, seja em matéria religiosa ou outra qualquer.
À preguiça e indolência que se instalou também neste campo da fé eu sugiro que possam ir ainda mais longe e, tendo em conta que de Lisboa a Fátima são 147 quilómetros, (quem for de outros locais deverá medir a respectiva distância) deixo aqui a seguinte sugestão:
Cada ‘peregrino’ deve arranjar um pedómetro, que mede a quantidade de passos dados, e deve colocá-lo num braço, por exemplo. Como o passo médio das pessoas tem cerca de 75 centímetros, é só fazer as contas de quantos passos equivalem à distância entre a sua casa e Fátima e completar essa distância! Quem viver em Lisboa deve dar 195 951 passos. Ora com idas e vindas nos transportes de e para o trabalho, com idas ao supermercado, ao cinema, um ou outro passeiozito ao fim-de-semana, mais umas visitas a casa de amigos, está feita a coisa.
Aqueles que tiverem de facto pressa e desejarem cumprir a promessa mais rapidamente ainda podem deixar os carros longe da porta dos supermercados, da porta dos prédios dos amigos ou familiares que visitem e caminharem ao longo das carruagens do metro ou do comboio e assim farão mais passos ao longo do dia.
Mais simples que isto nem saltar à corda!

Toda esta dissertação foi causada pela descoberta de que uma pessoa muito querida e amiga está a fazer uma peregrinação no Método das Prestações: todos os fins-de-semana anda qualquer coisita. Quando me contou fiquei boquiaberta e estupefacta com tamanha fé, que a leva a fazer semelhante promessa, e com tamanha cara de pau, que a leva a cumpri-la de semelhante forma, sem convicção alguma.
Quando perdemos as convicções, o que resta…?

quarta-feira, 30 de março de 2011

Criar Afectos

Há anos atrás, a minha irmã e eu deliciávamo-nos com uma brincadeira que consistia em pôr a minha mãe a ler os genéricos dos filmes. Ela proferia palavras inexistentes, lendo em inglês como sabia o português, a longa lista de palavras com nomes de realizadores, actores, fotógrafos, músicos, produtores e um sem fim de outros intervenientes e funções, e nós produzíamos gargalhadas com tal energia que dava para alimentar um qualquer electrodoméstico.
Mesmo antes, na nossa infância e adolescência havia sempre um livro na mesa-de-cabeceira da minha mãe, em cima da toalha da praia ou no sofá, e se havia qualquer coisa onde não se poupava dinheiro, era em livros e isso é qualquer coisa que nunca poderemos agradecer.
Ao longo dos anos fomos vendo-a desinteressar-se da leitura, do cinema, dos teatros de revista. Quer a minha irmã quer eu somos grandes leitoras, sôfregas, ansiosas, insatisfeitas, lendo os mesmos livros, discutindo-os e, regra geral, com iguais preferências e atribuímos a falta de interesse da nossa mãe pela leitura à redução da capacidade de concentração, ao excesso de entrega aos netos, ao nascer de outros interesses (ou desinteresses) próprios da idade.
As maleitas do meu pai ao longo da vida não ajudaram em nada e ela ficava exausta com tanta consulta, operação, medicamentos, preocupações, sustos, hospitais e outros que tais.
Mas de repente, como um bilhete de lotaria que nos vem parar às mãos sem que fossemos nós a querer comprá-lo, eis que as coisas mudam de figura!
O Projecto Criar Afectos entrou na nossa vida por volta do Natal e talvez por isso, nós achemos que foi uma bela prenda, porque milagre foi com certeza.
Por entre várias coisas, tantas que preciso duma agenda para me orientar, o meu pai deixou de se queixar das dores, fazem imensos planos para eles próprios, sem inclusão de filhas nem netos, o que prova que têm vida própria, e a minha mãe voltou a ler.
Ela não sabe, nunca saberá, por muitas palavras que use para lho dizer, a alegria que isso me proporciona, porque quem não lê, não tem essa consciência, mas é mais pobre que os que se dedicam a essa tarefa.
Ler é dos mais maravilhosos mundos que se podem descobrir e a leitura pode até ser uma forma de vida, que o diga eu que comecei a ler aos quatro ou cinco anos e nunca mais parei.
Orgulho-me imenso quando o meu filho brinca e me diz que eu não devo ser muito esperta porque entrei na escola aos seis anos e nunca mais saí!, para designar o vício que tenho em aprender, em saber coisas novas, em conhecer mais e mais e mais. Nunca me canso. E também por isso nunca aceitei muito bem que alguém tão próximo de mim não tivesse um bocadinho, ainda que pequeno, deste meu vício.
Mas agora tudo mudou, o que só prova que se aprende até morrer, que há provérbios populares que não ditam a verdade e que, na minha opinião, nem sequer há burros velhos! Só é velho quem quer e nessa matéria Parabéns à Dona Prata que velha é coisa que ela nunca há-de ser!
Há pessoas mais ou menos abertas à vida e a vida é dum tamanho gigantesco, só temos que ter os olhos abertos, dormir pouco e estar atentos. Teremos muito tempo para dormir quando morrermos!
Por entre danças e cantorias, passeios e novas amizades, teatros e piscinas, cuja saudabilidade é excepcional, o facto de a minha mãe voltar a ler é o que me dá mais descanso. Sei que assim ela terá sempre um amigo à sua espera.

segunda-feira, 28 de março de 2011

O mistério das horas

Ontem acordei com o telefone a tocar. Tentei a minha melhor voz de super acordada para não ter que entrar em explicações do, sabes, é que estou adoentada, por isso dormi até mais tarde, o que tenho?, nada de especial, uma constipação e etecetera e logo do outro lado que também já tinham tido, e este tempo é o que provoca e toda esta conversa que eu detesto! Assim, atendi como se andasse em labuta há horas. Enquanto falava levantei-me e fui à cozinha, pelo canto do olho o relógio ditou-me as horas, lá desliguei e ao fazê-lo, casualmente, olhei as horas do telefone que não coincidiam com as da cozinha. Ora, eu vivo com os pés na lua, mas ainda não cheguei ao ponto de ter dois fusos horários dentro da minha casa! Meia a dormir, fui ver as horas no outro telefone: estava certo com o relógio da cozinha. Já um pouco mais acordada com o mistério, fui ver a televisão: estava certa com o primeiro telefone.
Facilmente cheguei à conclusão certa: o meu filho tinha andado a brincar com os relógios lá de casa, atrasando uns ou adiantando outros, o sono ainda não me permitia ter a certeza.
Orientada pelas horas da televisão, a que resolvi dar mais crédito, sonambulei pela casa até serem horas do jogo do Duarte que tinha saído cedo para ir estudar com o pai. No regresso do jogo a caminho de casa vejo que o relógio do carro marca quatro horas e tal. Impossível! O jogo tinha começado às três, logo deviam ser cerca das cinco e meia. Incomodada com aquela cena, sem dar a conhecer pelo tom de voz que se preparava, no mínimo, um ataque nuclear, pergunto as horas ao meu pai que segue ao meu lado, imune ao desastre atómico que se prepara. Ele lá se estica devagar, tão devagar, que foi a minha mãe lá do banco de trás que acabou por dizer as horas: cinco e meia, acrescentando:
- Já mudaram as horas nos relógios? A hora mudou esta noite.
- Ai sim? – digo eu com o ar mais distraído que consegui arranjar, como se aquele assunto não me interessasse nem dissesse respeito.
Estávamos salvos!

quinta-feira, 24 de março de 2011

É assim

A rapariga opta por ficar em pé, embora existam bastantes lugares vagos. É nova, ronda os vintes e poucos. Contenho-me para não lhe dizer que se grave a si própria: iria poder contar as inúmeras vezes que disse é assim. Iria poder verificar que repetiu a mesma conversa dezenas de vezes e não me parecia que do outro lado a interlocutora fosse mouca.
Queremos que os outros nos ouçam mas devíamos, de vez em quando, só de vem em quandinho, ouvirmo-nos também. Talvez nos calássemos ou pelo menos pensássemos duas vezes antes de abrir a boca. Se o fizéssemos tenho a certeza que havia pessoas que acabavam logo ali com a amizade que têm consigo próprias, olhariam em volta tentando perceber se alguém as teria ouvido e teriam rezado para que todos estivessem desatentos.

Pregar aos carris do metro

Com o nariz a pingar e lenços de papel espalhados pelos bolsos entro no metro a ansiar por chegar a casa. A plataforma quase vazia informa-me que acabou de passar um comboio. Sento-me à espera do próximo entre um homem e uma mulher sem qualquer característica que os distinga de milhões de outros por esse planeta fora. Calados, contemplamos as pessoas que chegam e se instalam na plataforma, à espera também.
De repente, sem qualquer aviso prévio o homem desata a gritar:
- A Santa Casa da Misericórdia deve-me seis mil euros! Há cinco anos que me devem o dinheiro e até agora nada.
Os barulhos normais do metro asfixiam-se perante o grito, que continua:
- Comprei a raspadinha e estavam lá, cinco ferraduras! E dizia seis mil euros! Cinco anos! E nada!
As pessoas que se tinham voltado na sua direcção inicialmente já estão de costas outra vez.
- E depois aquele assalto ao banco! Mas o meu irmão tem culpa nisto porque ele estava lá quando foi o assalto ao banco e não me disse nada. Calou-se bem caladinho! Bem caladinho é que ele se calou. Ora ele devia ter-me dito que assaltaram o banco, se fosse eu tinha-lhe dito a ele! E agora a Santa Casa nada! Caladinha também.
As cabeças esticam-se em direcção ao escuro do túnel, como se assim o comboio viesse mais depressa.
- Seis mil euros! É quanto me devem! Que azar o banco ter sido assaltado logo no dia em que lá deixei a raspadinha. Que azar. Santa Casa, estás a ouvir, deves-me seis mil euros. Há cinco anos.
E mais não soube porque o comboio chegou e o barulho abafou os gritos do homem, que ficou sentado nos bancos da plataforma, com certeza à espera que o comboio se fosse embora para continuar a pregação.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Sopa da Pedra

Há bilhetes de avião entre cidades europeias e do Norte de África a 5 euros!
Isto dito assim, faz-nos correr a casa a buscar os óculos de sol e partir em direcção ao Porto, que os voos saem da Invicta, e voar como se não houvesse amanhã.
Porém, isto é como a Sopa da Pedra: aos 5, aos 6 ou aos 8 euros, os bilhetes mais baratos, temos que juntar as taxas administrativas, a bagagem, os sacos de fraldas, as guitarras, enfim, todo o tipo de pertence, taxado sem esquecimentos. O transporte de um objecto musical pode custar-nos 50 aérios! Ora que gaita, já uma pessoa não pode viajar com o seu acordeão!
Cada 20 quilos de maletas são mais 50 euros, e como gostamos de andar sempre aos pares, já lá vão vinte contos, que eu gosto da moeda antiga. Cada quilo a mais custa 20 euros, independentemente do destino, ao contrário da TAP que tem taxas variáveis e que em Portugal e Espanha se ficam pelos 5 euros por quilo a mais.
Como nada é deixado ao caso, se quisermos que nos mandem um sms a confirmar o número do voo, é mais um euro!
Escusado será dizer que os ditos bilhetes são em dias seleccionados, a horas fora do relógio e voam para aeroportos dos quais nunca se ouviu falar, e dos quais temos que nos deslocar em comboio, autocarro ou táxi (livra!) para os centros das cidades, fazendo a ampulheta do valor gasto encher a cada minuto.
Mas o que me aborreceu mesmo, o que me deixou fora de mim quase a cair, que me provocou uma tristeza profunda, uma consternação sem limites foi ler nas condições sobre os Artigos Proibidos de transportar que, para além das cinzas humanas, também não se podiam transportar troféus de pesca! Isto é inadmissível!
Uma pessoa já não pode viajar com a sua navalhita, anda com frascos de shampoos e pastas de dentes da Barbie, não pode comprar uma espingarda para oferecer aos afilhados e agora não podemos transportar os troféus de pesca! Onde é que isto já se viu? Por este caminho, garanto-vos, vão deixar de ter clientes!

quinta-feira, 10 de março de 2011

As minhas obrigações

É minha obrigação cuidar de todo o bem-estar do meu filho, mas também fazê-lo ver as suas responsabilidades, conversar com ele, ouvi-lo e entende-lo. Também é minha obrigação cuidar dos meus pais, providenciar para que em casa não falte o essencial, ter comer no frigorífico e na despensa, ter as contas em dia.
É minha obrigação sorrir aos meus amigos, aos verdadeiros, aqueles que dia após dia se preocupam comigo e mo manifestam em gestos e não só em palavras que, essas, leva-as o vento.
É minha obrigação ter a casa limpa, preocupar-me com a minha família, ter o meu trabalho em ordem, respeitar o meu chefe, ajudar os meus funcionários, colaborar com colegas.
É minha obrigação dar o lugar a quem mais precise nos meios de transporte, andar com roupa limpa, alimentar-me em condições, ir com regularidade ao médico, lembrar-me do aniversário dos amigos, ser cordial com as pessoas, beber muita água.
É minha obrigação ajudar quem precise, estar informada sobre o panorama nacional e mundial, aprender todos os dias uma coisa nova, ensinar todos os dias uma coisa nova, não desperdiçar recursos de água, poupar luz, evitar fotocopiar e imprimir, gerir as horas, ter os papéis arrumados, saber onde estão as coisas, manter as unhas limpas, ter as respostas aos e-mails em dia, colocar-me no lugar dos outros antes de opinar, pensar antes de falar, valorizar o trabalho alheio, enriquecer o meu trabalho, não deixar para amanhã o que posso fazer hoje.
É minha obrigação andar bem-disposta e sorridente, contribuir para o bem-estar dos que me rodeiam, saber mudar o tinteiro da impressora, elogiar a comida que me põem à frente, não desvalorizar alguém, observar tudo de ângulos diferentes, não me deitar tarde, saber mudar pneus, conhecer os limites de velocidade e respeitá-los, não dar erros, saber ouvir.
É minha obrigação morrer deixando um rasto de vida arrumada.
Será?

quarta-feira, 9 de março de 2011

Paz à sua alma

Como disse a minha irmã morreu uma árvore da nossa família, a Tia Josefa.
O que nos ligava era uma sucessão de momentos únicos que aconteciam sempre que a visitávamos, coisa que durante muitos anos fazíamos com muita frequência pois, se não chegasse o facto de os meus avós viverem com ela, era mais do que suficiente ela ser a mana querida do meu pai, a mana Zefa, dedicação que se entendia também à minha mãe.
A Tia Josefa era doméstica mas o sonho da vida dela era ter sido enfermeira e não havia ocupação que lhe encaixasse melhor. Embora vivesse em Lisboa há séculos nunca perdeu o sotaque alentejano e era com ele que nos contava histórias de antigamente, do meu pai, da família e de pessoas que desconhecíamos mas que, a meio da história, já considerávamos primos. O uso de palavras tipicamente alentejanas que há muito não ouvíamos ou que desconhecíamos por completo fazia-nos rir à gargalhada, e não deixávamos de confirmar uma e outra vez que ela era irmã do nosso pai pois para contar qualquer coisa da infância lá na terra ela recuava até às Invasões Francesas.
Como irmã mais velha duma prole de sete filhos onde o meu pai ocupa o lugar do mais novo, era delirante ouvi-la chamar a um homem de sessenta anos, o meu caçula. Durante muitos anos brincávamos com a existência da Gazeta, que correspondia à rede telefónica de informações da qual a minha mãe também participava e que dava notícias sobre aniversários da família – coisa que a Tia Josefa tinha na ponta da língua desde os irmãos até aos netos dos irmãos e que nós nunca sabíamos – passando por doenças em primeira mão e respectivas curas!
A Tia Josefa tinha sempre, mas sempre, uma nota para nos dar que nos arrancava um sorriso de agradecimento, mas na verdade era ela quem a merecia, como pagamento daqueles momentos inesquecíveis, onde não faltava uma visita guiada pelos novos elementos da família através de fotografias que todos fazíamos questão em lhe oferecer, sabendo que ela gostava.
Muitas vezes o meu pai aparecia de surpresa, coisa que antigamente se fazia e que nós não gostávamos, pois se ele telefonasse a avisar que iríamos, sabíamos que a Tia Josefa nos daria aquilo com que salivávamos sempre que falávamos dela: o bolo de chifon! Venham pasteleiros dos quatro cantos do mundo imitar o bolo de chifon se conseguirem!
Tudo isto junto, e muito mais, dá a dimensão da eternidade de certas pessoas.
Apesar dela ser a mais velha, os outros não são propriamente rapazes novos e as cabeças falham cada vez mais: todas as minhas tias foram unânimes em afirmar que eu era a sobrinha mais bonita, mas estava eu a convencer-me disso e a sorrir interiormente com a conquista quando uma delas me disse repetidamente que eu estava muito crescida! Ora tendo em conta que tenho 45 anos, achei por bem não colocar a faixa da mais bela pois a apreciação podia estar um bocadinho deslocada. Só um bocadinho…
Acho que a Tia Josefa nunca se apercebeu da dimensão em que entrava nas nossas conversas, mesmo quando lho dizíamos ela achava que exagerávamos. Mas a verdade é que a árvore mais velha da nossa floresta, com todos os defeitos e virtudes como qualquer um de nós, era uma presença viva e com vida própria. Ainda o é na nossa memória porque há coisas que não se apagam.

quinta-feira, 3 de março de 2011

O Império de Bale

Gosto quase tanto de cinema como de ler. Tal como os livros, há filmes que vejo duas, três, quatro e mais vezes. É como tomar banho numa enorme banheira com água morninha, imagem do início dos inícios dos tempos para qualquer pessoa. Nasce-se ali. Renasce-se ali.
Também por influência da mediatização dos filmes nesta altura do ano, tenho ido ao cinema com mais regularidade, que o mesmo é dizer, ver dois filmes de empreitada, com intervalo para um cigarro e esticanço de pernas. Até agora não me arrependi e só me aborrece é dar-me a fome a meio! Aprendi a ir ao cinema sozinha, coisa que antigamente me deixava um sabor amargo nas palavras, nos risos ou nos choros que queria partilhar e não tinha com quem. Agora habituei-me.
É tão difícil escolher um filme… ou mesmo dois ou três. Ou meia dúzia. Talvez seja mais fácil eleger personagens. Não sei, que digo eu, parvoíces. Mas uma coisa tenho como certa, há anos atrás encontrei um certo Jim, na altura com doze ou treze anos e voltei a vê-lo agora, já adulto, embora com a maturidade dum consumidor de crack. Não me admirei pois quem tem uma infância daquelas, adivinha-se-lhe um futuro complicado, deslocado.
O jovem Jim que vivia no conforto do bairro diplomático em Xangai e que teve que se desenvencilhar sozinho no meio duma guerra, criando uma pessoa única, duma força incalculável e, não obstante, que me parecia só existir por fora, completamente esburacado por dentro, como um queijo suíço ou um fato insuflado de ar, gastos os músculos e até os ossos naquela sobrevivência diária onde até é difícil pensar na palavra esperança, muito mais difícil ainda dizê-la, com medo que até o conceito desapareça e nem sequer nos reste a possibilidade de pensar nela. A corajosa mediação de conflitos com os japoneses, a conquista de comida para se manter vivo e o adiar do fim da guerra permitem-nos observar o processo de avanço da loucura dum rapaz que nunca deixou de o ser e de adorar aviões.
As cicatrizes desse rapaz ao longo da vida seriam incalculáveis e não me espantei por o ver transformado num lutador que se viciou em crack. Ninguém me convence do contrário, é o mesmo gajo, embora tenha mudado de nome e apareça agora como Dicky Eklund.
Já me tentaram convencer que aquilo é uma interpretação, mas eu não acredito: não é possível que seja, é ele mesmo, com todos os traços que a vida lhe foi fazendo; há interpretações impossíveis e aquela é uma delas, de modo que só resta uma alternativa, ser ele próprio.
Há filmes com pessoas dentro, sem personagens. São como cometas que só aparecem de tempos a tempos e há quem passe uma vida sem ver um único. Para além de Dicky Eklund, assim de repente lembro-me de Newland Archer, Karen Blixen ou John Nash.
Na cena final quando Newland espera que ela vá à janela a tela jorra emoção que se nos agarra à pele para sempre; quando Karen pede para dançar e afirma que quando tudo está mal, faz o exercício de tentar piorar ainda mais, a dor que sentimos no peito é lancinante, espetada por um desespero que não achamos possível; as discussões de Nash com os seus eternos acompanhantes, esbracejando e querendo afugentá-los, são duma dimensão onde a interpretação não chega.
Como nos livros, há títulos que esqueço, mas há nomes que vivem comigo para sempre.

quarta-feira, 2 de março de 2011

A carta

Recebi uma carta. Li-a e reli-a.
Qualquer um dos meus poucos amigos se a lesse convencer-se-iam que tinha sido eu a escrevê-la.
É sobre livros, sobre febre de leitura, sobre frustração de não poder ler mais, de não conseguir.
É sobre este vício do qual tanta vez falo e que me acompanha desde que aprendi a ler.
É sobre os amigos tão preciosos vestidos de capa dura ou capa mole, quantas vezes maiores e melhores do que os que têm pernas.
É sobre magia, sobre riqueza acumulada, sobre sabedoria, sobre tudo e sobre nada.
É sobre cumplicidades, como as que se estabelecem mudas entre pessoas que têm as mesmas doenças e conhecem o outro. Sabem o que pensa e o que sente.
É sobre insatisfação e desassossegos de quem permanentemente conversa com vivos e mortos, se ri e chora em viagens sem fim, nunca acabadas, cada qual a melhor, a mais bela, todas melhores e belas porque são diferentes. Mas são nossas, fazem parte dos trilhos que percorremos. São cicatrizes perpétuas.
A carta é sobre o amor. Amor incondicional, amor para sempre, amor fraterno por desconhecidos que rapidamente se tornam melhores amigos e nos esperam diariamente sem pedir nada em troca.
Não tivesse eu tanto azar aos amores e responderia a esta carta apenas com uma pergunta: queres casar comigo?

terça-feira, 1 de março de 2011

Pensamentos soltos

A propósito do fim dos saldos, que foi ontem, e do início das promoções, que é hoje, ouvi no rádio que desde o Natal se tem verificado um número assustador de encerramento de portas no comércio em Portugal. Muito provavelmente é a minha estupidez natural a falar, mas eu não compreendo é como é que elas abrem…
Com tanto centro comercial, com tanta loja chinesa, com tantos mercados de rua, a perspectiva de abrir uma loja, fosse do que fosse, assustar-me-ia. Perto do meu local de trabalho há um espaço que já viu vários proprietários, vários ramos, embora todos dentro dos ‘trapos’: de criança, de mulher e, dentro desta roupa específica, de vários géneros. Já aqui falei sobre ela por causa dos preços loucos que fazem concorrência com as lojas de griffe da avenida da Liberdade e com os das lojas em Sunset Boulevard, num local de passagem de pessoas com condição social média baixa. Confesso a minha estupefacção pela teimosia da abertura de novas lojas e não pelo fecho.
O mercado onde compro muita da roupa que uso tem peças lindíssimas e boas e é lá que abasteço a minha febre de sapatos, que podem variar entre 1 e 10 euros o par! É claro que a Zilian tem sapatos de sonho, mas vou sonhando com eles e comprando no mercado do Algueirão, pois assim posso ter vinte pares… ou mais…
A irrealidade de muita boa gente que vai abrindo lojas confunde-me: nenhuma delas vende água de coco no deserto, são iguais umas às outras e, se houver destaque, é por terem preços mais altos que as concorrentes! Alguém me explica isto? Não percebo como nascem ilusões na cabeça das pessoas que as fazem crer que a sua loja terá sucesso, só porque gostam de ter uma loja e criaram as condições para a abrir; para a abrir, mas poucos se preocupam em criar condições para a manter aberta.
O Público de hoje trás uma revista com o sugestivo título Portugal Inovador. Todos os exemplos, desde a medicina aos cabeleireiros, passando pela gestão de restaurantes de fado, têm um investimento que vai muito para além da ideia genial de abrir uma loja de trapos que vai ter coisas lindas de morrer… de morrer sim, economicamente falando.

As fábricas que ontem empregavam os nossos pais que vinham das terrinhas com uma mão à frente e outra atrás, fascinados e medrosos com a grande cidade, são hoje os call centers, os centros comerciais, os balcões de atendimento. Não são cinzentos como o fumo fabril pois as cores da publicidade emolduram-nos e as novas visões do mundo actual retiraram-lhes a perspectiva da sujidade associada às fábricas que produziam unhas negras e mãos encardidas.
Todos se queixam que não há emprego e lá acabam por aceitar um lugar nestas novas fábricas, percebendo que a licenciatura afinal não era o passaporte que julgavam ser, pois ainda não perceberam que as regras mudaram e que é necessário começar a trabalhar cada vez mais cedo para que a experiência acumulada, junta com as habilitações conquistadas e com um futuro repleto ad eternum de formação, lhes proporcione um lugarzinho ao sol. E quem não quiser e não gostar, uma vez que não pode dizer que, se é assim, então não brinco, e não podem voltar para o quentinho do ventre materno, vai continuar a andar a vida inteira à procura de emprego – à procura de trabalho há poucos. Espero que não se lembrem de abrir muitas lojas.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

L de livros e de ladrão...

Há cerca dum mês atrás falava-se de roubo de livros no blog Pó dos Livros. Um dos protagonistas da coisa confessou-se afirmando que o fazia por razões monetárias, e que nunca privava locais privados dos seus bens, mas fazia-o em grandes superfícies. Era noite quando li o post e respondi:

Senhor Ladrão de Livros, também eu guardo um livro roubado: chama-se O bando dos Ayacks, é um livro para adolescentes e eu era adolescente quando o roubei da carrinha da Gulbenkian. No início de cada mês abasteço-me depois de receber o ordenado, como quem vai ao Casal comprar produto. Quem me dera conseguir explicar a necessidae que tenho em ter livros em lê-los, em consumi-los. Vou dar uma ideia que talvez ajude: escrevo neste momento num computador com o ecran todo partido. É o único que tenho em casa. Escrevo cada palavra tentando não errar porque me é difícil ver o que escrevo ou o que leio... tiro umas pelas outras, afasto o olhar para tentar perceber o que leio. Muitos dizem-me que já devia ter comprado outro computador. É verdade. Porém, acabo por gastar o dinheiro todos em meses. Onde? Já se adivinha... para além de leitora, sou bibliotecária e trabalho numa editora. Sempre entre livros. mas nunca me passaria pela cabeça tirar um bit ao Bill Gates. Também sou viciada em viagens e já tenho uma razoável conta de Planeta Terra mas quando entro numa agência de viagens de viagens peço para levar um catálogo, apesar de serem gratuitos.
Imagino-o uma personagem, direi romãntica, do género de quem rouba pão para comer, saído da imaginação dum Dumas, um Miserável... será? Muitas podiam ser as interpretações, as leituras e, concluo, quem sou eu para dizer seja o que for, pois nada disto é um julgamento, logo, não julgo. Apenas comento: sejam os franceses ou os aimoré, o Belmiro ou o João, há sempre solução, há sempre alternativa para não roubar. A menos que se seja um personagem comandado por alguém, apenas fruto da imaginação de outrem, sem vida própria. As nossas acções são comandadas por nós e roubar não é bonito, mesmo que se assine Robin e se namore uma Marion. Se a miúda não o quisesse iria raptá-la...?
O que não falta por aí são Bibliotecas, fica a informação, just in case...

Dois ou três dias depois vi que tinha um e-mail dum desconhecido sobre o assunto Ladrão de Livros. Era ele. Duvidava de mim por ser bibliotecária e editora e ter de comprar livros. Respondi contando a minha relação de paixão com esses objectos, com o seu interior, com a sua alma. Ele respondeu na mesma moeda. Eu voltei a responder. E assim começámos uma troca epistolar entre gente que ama ler. E livros.
E assim descobrimos coincidências, gostos e coisas comuns, se calhar sem serem de espantar, que as pessoas que se banham nestas águas acabam por ser parecidas. E assim fui deixando cair alguma reticência sobre a pessoa dele. E assim venho descobrindo uma pessoa muito parecida comigo, cujo primeiro contacto foi a matar, mas que estou a gostar de conhecer.
Quando escrevo penso se ele estará a prevaricar… de certa forma, sinto-me cúmplice por dar guarida no meu espaço mental a alguém que rouba livros. Por outro lado, surge-me uma certa confusão por gostar de trocar e partilhar ideias com ele. Sensação estranha provocada por um igual. Começo a acreditar que são mais as semelhanças que as diferenças. Há uma certa síndrome de Estocolmo associada a esta estranha relação, escrita, não visual, nada banal.
Eu que tiro sempre o aspecto positivo de tudo e tento esquecer ou minorar as vertentes menos boas das coisas, concluo que estou mais rica desde que o conheci, apesar de me sobrar sempre a pedra no sapato ao lembrar-me da razão por que nos conhecemos…

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

O Médico de Córdova

Feliz o dia em que me sugeriram esta leitura. Lido, está o livro entre muitos mas na prateleira invisível das melhores leituras.
Moisés Maimónides, a Águia da Sinagoga, está na História por ter precedido Tomás de Aquino na conciliação de Aristóteles e da Bíblia. O discurso é em forma de carta dirigida a um ex-aluno e que se prolonga por quase 300 belíssimas páginas em tom sério, mas muito bem-humorado, e com sentenças cheias de significado e que nos fazem pensar muito para além das palavras que lhe servem de suporte, de esqueleto.
O mundo está suspenso da respiração das crianças que vão à escola | A medicina é a ciência da pesagem dos erros, e a arte da escolha entre os riscos e os males | Há aquilo em que creio. Há aquilo em que penso. Há aquilo que faço. Há aquilo por que sofro. | Um pensamento vergonhoso vinha-me ao espírito sempre que passava diante dele: como é que se pode ser refugiado? | O mundo já é muito velho, e, a cada minuto que passa, recomeça | A cozedura das ideias requer mais subtileza que a do pão.
A descrição da preparação da autópsia e a verificação que os órgãos não estavam dispostos de acordo com o que Galeno indicava nos livros, levando o Mestre de Moisés à conclusão que o corpo estava defeituoso, é de levar às lágrimas.
Leitura inspiradora, duma vida atribulada mas verdadeira, uma vida empurrada, como a que está destinada aos judeus. Enquanto livro, é daqueles que o estreitar de páginas não lidas já para o fim nos cria tristeza por sabermos aproximar o epílogo e, aí, lemos mais devagar, lemos duas vezes o mesmo parágrafo, para desacelerar, para prolongar aquela nossa estadia no passado, numa vida, apesar de tudo, invejável.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Conversas banais

Não sei em que estação estou, vou absorvida pela leitura. A repetição de obscenidades, como ladainha de tabuada mete-se-me nos ouvidos. Levanto o olhar, pouco, e dou com ele em dois cavalheiros pouco mais velhos que o meu filho, bonés fundos nas cabeças que se adivinham quase rapadas. Comem sílabas atrás de sílabas, num discurso com palavreado actual. Moderno? Um deles fala do pai que está preso e conta ao outro os planos que tem, com a mãe, para o irem visitar. O outro conta um episódio com ar banal: a gigantesca parvoíce de um terceiro que, imagine-se, se recusou a assaltar um homem. Estavam num café na Damaia e viram o homem pagar puxando de uma nota gorda, guardando troco ainda avultado. Eram três, olharam uns para outros e fizeram menção de seguir o homem. O anormal do grupo disse que roubar, isso, ele não fazia, e foi-se embora. E não é que foi mesmo? A surpresa estava-lhes plantada nas caras. Na deles, na minha, na da mulher que viajava sentada ao meu lado, na meia dúzia que faziam o percurso no raio de audição das vozes.
O meu Médico de Córdova teve que esperar até antes de me deitar para conseguir retomar a leitura.

Olhar versus ver

Desde há vários anos participo com alguma regularidade nos passeios organizados pela SAL, Sistemas de Ar Livre. Os últimos foram sob a égide do conceito ‘Esta Lisboa que eu amo’ e transportaram-nos para uma época pós terramoto até ao século 19.
A menção a valores gastos na época para fazer isto ou aquilo e expressa em contos de réis dá sempre vontade de rir aos participantes. A mim faz-me franzir as sobrancelhas de admiração e, confesso, cria-me uma certa irritação os risinhos da plateia. Porquê? As pessoas ouvem falar dum donativo de quatro contos para o Jardim da Estrela e riem pensando nos vinte euros a que correspondem hoje, sem conseguirem transportar-se verdadeiramente para a época e perceber que era muito, muitíssimo dinheiro. Riem-se como se ririam das partidas que os Três Porquinhos pregaram ao Lobo Mau. Riem-se porque não estão a interiorizar o que lhes é dito e apenas a ouvir. A interiorização das ‘coisas’ é o que nos leva a pensar, para depois reflectir, conduzir raciocínios, concluir, se for o caso.

Passeio Público (Imagem retirada daqui)
 Bem sei que devo ter em conta a heterogeneidade dos participantes, as motivações, o interesse maior por esta questão em vez daquela, bem sei, mas não deixo de pensar como penso e não digo que estou certa, apenas partilho um pensamento.
Eu que trabalho em pleno Marquês de Pombal, e subo e desço a avenida da Liberdade dezenas de vezes no ano, via-a com olhos de ver este sábado pela primeira vez.
Não, não vou com os olhos fechados, e já a tinha olhado muitas vezes, mas nunca a tinha visto. A partir de agora sempre que lhe pisar a calçada fá-lo-ei mais devagar a lembrar, farei curvas até aqui evitadas para ver melhor, pararei mesmo com pressa para readmirar.