quinta-feira, 28 de abril de 2011

Portem-se bem, ouviram?

Trabalho a 100 metros dum hospital que desde ontem tem internado um doente cigano.
Não o vi, ninguém me disse e não tenho dons adivinhatórios, mas o acampamento que vai crescendo, com gente de várias idades, muitas crianças e sacos espalhados por todo o passeio desde o início até ao fim da rua, levam-me a essa conclusão.
Carros e carrinhas estão parados nos mesmos sítios desde ontem, bagageiras abertas, roupa e calçado espalhado pelo chão e… pessoas a defecarem no meio da rua!
Ontem vi um garoto e hoje, que cheguei bem cedo, vi um adulto nestes propósitos tendo depois empurrado as necessidades para debaixo dum carro! Inacreditável.
Comentando a cena com um colega, este disse-me que o hospital, os restaurantes e cafés, um hotel e diversos moradores já tinham chamado a polícia que veio ao local e lhes pediu para… não fazerem barulho.
Conclusão, temos que aguentar e rezar pela saúde dum cigano que desconhecemos, a ver se fica bom depressa pois, se temos o azar que ele morra, para além da imundície temos também os gritos, as ladainhas, as carpideiras e não há polícia no mundo que os cale, alegando respeito pela tradição do defunto!

Raridade

Quando era pequena tinha um medo atroz de máquinas fotográficas. Devia ser a minha costela índia que pensava que me roubavam a alma ou qualquer coisa semelhante. E assim, poucas são as fotografias onde não estou a mostrar as goelas, como se as mostrasse ao médico, num imenso ahhhh de boca aberta. A minha mãe era – e ainda é! – aparentada com as estrelas de cinema antigas, aquelas que eram fotografadas sempre lindas e que eram notícia pela sua beleza e não pelos escândalos de hoje.
O meu pai, a cumprir serviço militar obrigatório, já tinha deixado o seu sonho: ser aviador. Iniciou-se no mundo do trabalho numa gráfica, com pouco mais de meia dúzia de anos. Um amigo levou-o e disse-lhe que quando lhe perguntassem o que sabia fazer, ele respondesse compor, provando que era perito na arte da composição, ele que vestia umas calças compridas pela primeira vez!
E lá foi ele e lá veio a pergunta. Mas a seguir a essa, o Sr. Mário, velha raposa das artes gráficas perguntou-lhe o que mais sabia fazer. O pobre do rapaz pensou rapidamente e deu a resposta que achava que o outro queria ouvir:
- Sei compor e descompor!
O Sr. Mário a rir-se da lata do gaiato disse-lhe que quem lhe dava uma valente descomposição era ele, mas que podia ficar à experiência.
Uma das velhas máquinas, mecânicas e com braços, um dia acertou-lhe num olho e obrigou-o a usar óculos. Ele não se importou com o sangue, com a dor, com o espectáculo do ir para o hospital, numa altura que quase tudo se tratava em casa com panos quentes e canjas de galinha. Ficou inconsolável por já não se poder alistar na aviação… Por ironia do destino, trabalhou a vida inteira ligado às artes gráficas e só andou de avião uma vez até hoje.
Ele que pelo meio estudou para Padre, que esteve para ser aviador, bem, fazendo as contas eu tive imensas probabilidades de não nascer, mas isso não aconteceu porque não havia Padres nem aviadores que resistissem à beleza da minha mãe, meia cigana, meia malandra e sempre sexy.
Ps. Eu ainda não andava mas o meu pai já me punha letras à frente do nariz...

Beleza em estado puro

Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei

Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso

Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo

Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento

O poema de Sophia arrasta a pergunta - todos arrastam - o que viveu ela que a levou a esta dimensão?

O dente sorridente (bom título para uma estória)


 Há a Fada dos Dentes e há o dente da Fada...

terça-feira, 26 de abril de 2011

Say ‘Cheese’, parte II

Já tenho as fotografias! Depois de quase ter sufocado dentro daquela prisão, fui a outra depois do almoço. Lojas, lojas, gente, gente, gigantescas faltas de espaço e eu apertada e mal disposta, a percorrer outra catedral de consumo. Na loja da FNAC dizem-me que ali não revelam mas que o fazem no Colombo e só demora uma hora. A boa notícia mistura-se com o medo de ter que entrar no terceiro centro comercial no mesmo dia, um feriado cheio de sol… não estou em mim e vou ao Colombo. Deixo o rolo decidida a esperar lá fora enquanto converso com a I.
Porém, o Duarte liga a avisar que está à porta de casa e não tem chaves… Não! Não! Não!
Metemo-nos no carro, vou a casa, abraçamo-nos para matar saudades dos dias que ele esteve ausente, subimos e eu não encontro mais que fazer se não passar a ferro… A I. vê televisão e conversa comigo sentada no sofá enquanto eu passo furiosamente a ferro. Passa-me pela cabeça a frase que uma amiga me disse e que me enfureceu há semanas atrás, quando lhe disse como estava triste e me tinha posto a passar a ferro e ela me respondeu que eu fizera bem, que assim estava ocupada… por mais que eu a ame do coração, fiquei danada com ela!
A caldeira do ferro esvaziou-se e fomos buscar as fotografias, ou seja, pela quarta vez no mesmo dia fui a um centro comercial. Isto é um recorde imbatível e não creio que o consiga ultrapassar mesmo que viva 100 anos.
… finalmente vi as fotografias…

Dá-me a tua mão

Dá-me a mão
Espreita no meu coração
Debruça-te nesta varanda
Ouve o tocar da banda
É a minha pulsação

Sem medo e sem receio
Acolho-te no meu seio
Semente lançada à terra
Minha vida, minha guerra
Milho, trigo ou centeio

Ah… contas do meu rosário
Fosses tu meu adversário
Tanto oxigénio, tanta vida
E à chegada e à partida
É tudo teu, meu corsário

O olhar cansado não descansa
Faço com a espera uma aliança
A Via Láctea é pequena
Aguardo um milagre, serena
Com a eternidade ensaio uma dança

Dá-me a mão
Espreita no meu coração
Sou um rio, um afluente
Transbordo com água quente e ardente
Acende uma vela, tira-me da escuridão

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Say 'Cheese'!

Deve ser o tempo que me põe meia esquisita e sem sono. Acordei bem cedo e, imagine-se, fui arrumar papéis. No fundo duma mala azul e no meio de um pacote de lenços por usar, um lenço usado, dois tampões higiénicos, dois bilhetes de cinema e uma factura do McDonald's, estava um rolo fotográfico.
Há algum tempo encontrei uma máquina fotográfica sem que nada me indicasse a sua propriedade. Revelei o rolo e fiquei com um monte de fotografias duma janela na mão. Conclui que alguém andava a espiar outro alguém pois a janela era sempre a mesma, as fotografias tinham sido tiradas a várias horas do dia, o que se via pela luz, e havia sempre um vulto que não se percebe se é homem ou mulher, mas é uma pessoa indubitavelmente. Fiquei com as fotografias e com a máquina que ainda mora algures no meu gabinete de trabalho.
Face à descoberta, vesti-me e saí com a intenção de revelar o que escondia naquele cilindro de plástico e metal.
Primeiro fui tomar o pequeno almoço com os meus pais e com os amigos deles e assisti à zaragata do costume pois todos me querem pagar o pequeno almoço. Ora eu não tinha fome, mas cai na asneira de dizer que ainda não tinha comido! Então, para evitar que todos juntos me tapassem o nariz e me enfiassem uma meia de leite pela boca abaixo, lá mastiguei metade dum pão. A verdade é que ontem não almocei nem jantei: cheguei a casa depois do almoço sem fome e quando fui dar os parabéns à Suzy, que fazia anos, e ela me perguntou se já tinha jantado é que me lembrei que também me tinha esquecido. Nem as insistências dela conseguiram que a fome espreitasse de dentro de mim e, para ela não ficar triste, bebi um café e um copo de água! Antes de me deitar bebi um iogurte geladinho e pensei que me apetecia tomar banho naquilo; mas depois fiz as contas ao dinheiro e desisti!
O local mais próximo onde pensei que atingiria o meu objectivo é o Forum Sintra, uma espécie de réplica da prisão do Linhó, ali bem perto: é todo metalizado, corredores estreitos e escuros, com umas clarabóias lá bem no alto para as pessoas não fugirem. Numa palavra: horrível. Em duas: de fugir!
Mas valores mais altos se levantavam e eu senti-me o Capuchinho Vermelho a entrar na floresta, cheia de medo e com a respiração alterada. Mas tinha que ser.
Estacionei numa ponta para me ser mais fácil recordar onde estava o carro, mesmo que fique a quilómetros da entrada. Entrei na prisão e perguntei por uma loja de fotografia; ficava a 10 metros! Porém, só daqui a uma semana é que me davam as fotografias. Uma semana? Eu pensei que fosse uma hora! Nada disso, agora centralizavam as revelações de rolo no Porto e tinham que mandar para lá, e esperar que as devolvessem. Então não quero!
A caminhar pelos longos corredores, sem parar diante de lojas com roupa linda que nenhuma me serve, nem sequer frente a qualquer sapataria, o que é um feito gigantesco para mim, fui à Worten onde me disseram imediatamente que sim, que tinham serviço de revelação imediata! Sorri e segui o rapaz, mas foi sorriso de pouca dura pois quando ele me pediu o cartão e eu franzi os olhos a dizer, qual cartão?, é que ele explicou que só revelavam de telemóvel ou de máquina com cartão, não de rolo. Obrigadinha, sim?
Nesse momento já sentia falta de ar e tinha uma ligeira tontura. Os centros comerciais são bichos com uma penugem qualquer à qual sou alérgica e comecei a sentir-me mal. Precisava rapidamente dum antídoto!
- Por favor, onde é que há aqui uma livraria?
Quatro perguntas iguais a quatro pessoas diferentes deram como resultado dois não sei, um a Bertrand ainda não abriu e, finalmente, um vá em frente e vire no C&A e encontra a Book.it.
Lá cheguei, já com a vista meia enevoada e entrei. Mexi nos livros, sentei-me no chão, acalmei a respiração, comprei um marcador lindo de morrer e, já recuperada, preparei-me para sair, a correr em direcção ao carro.
Não corri, mas dei grandes passadas como se um guarda prisional viesse atrás de mim e eu não quisesse chamar a atenção. O coração batia como maluquinho e finalmente cheguei ao carro.
A seguir ao almoço, a ver se não me esqueço dele, vou procurar outra loja de fotografia, ou seja, tenho que ir a outro centro comercial. Já decidi que vou convidar alguém para vir comigo, caso contrário posso ter uma apoplexia antes de ver as fotografias.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Vivo na esmola da sorte

Vivo na esmola da sorte
Eu, pedinte, vagabunda
Durmo ao relento da tua ausência
O dia faz-se noite e a escuridão é senhora
É sempre lua nova nos teus olhos
O teu olhar tece teias que não me abrigam
Constrói ninhos onde não me deito
Usa grutas que não me protegem
Esconde-se em buracos que não acho
Dizem que a sorte protege os audazes
Dizem que a sorte é a arma dos fracos
Dizem que a sorte somos nós que a fazemos
Dizem… que nunca ninguém a viu…
Eu digo que ela existe, mas não é minha…

terça-feira, 19 de abril de 2011

Noite de trovoada

Noite de trovoada, acesa, barulhenta. Noite de chuva com calor, ideal para fazer amor desenfreado, conquistado, descoberto, como se fosse a primeira vez.
Abençoados os que aproveitaram, os que se deleitaram com o cenário, com a banda sonora que a natureza propiciou. Pobres de todos os outros…
Noite de trovoada, vibrante e assustadora. Noite de cenário perfeito para entregas de corpos, almas e corações, para misturas e partilhas, de memórias escritas em pedras, em granito que se perpetua no tempo.
É nestas noites que sonho não estar sozinha. É nestas noites que sonho estar acompanhada, ter a própria trovoada deitada comigo, a troar dentro de mim, a rasgar os meus céus com relâmpagos tão luminosos que fazem inveja ao sol. É nestas noites que quero não dormir, que me mantenham acordada, satisfeita e cansada, mas feliz.
As noites de trovoadas existem para as pessoas se abraçarem e beijarem, sem medo e com os olhos bem abertos. As noites de trovoada existem para as pessoas amarem sem amanhã, para viajarem sem porem os pés no chão, para criarem tatuagens na pele.
Alguns fumam cigarros à janela, com pressa, para voltarem à partilha, para se entregarem a carrosséis de beijos e montanhas russas de entrega. Outros fumam cigarros à janela, devagar, como se o fumo fosse o único cenário que lhes é concedido, o único palco. Para uns e para outros a trovoada clama bem alto, impõe, ordena que façam a única coisa pensável, que se amem. Uns obedecem, outros acendem outro cigarro… e a trovoada insiste, insiste, insiste, sem se cansar, autoritária e sorri a quem lhe obedece, caminhando para outras paragens e deixando o sono tomar o seu lugar.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Eu tenho dois amores

Há alguns meses mudei de director. Porém, o anterior continua a pedir trabalho como se estivesse em funções e disputa acerrimamente com o actual responsável, uma das minhas áreas de actividade, tanto mais que ele é o verdadeiro entendido na matéria. Face à legalidade de um e aos conhecimentos de outro, juntos concordaram em criar um tempo de passagem em que ambos terão uma palavra a dizer. Aparentemente tomaram a decisão certa, mas criam-se situações que vão do dramático ao cómico e nunca sei a quem dou primeiro conhecimento de qualquer coisa, a quem peço primeiro uma assinatura, quem tem a primeira palavra e, principalmente, quem tem a última e até nos e-mails se questiona quem vem em primeiro lugar.
Andamos sempre confusos para cá e para lá, fazemos e refazemos, ouvimos daqui e dali e, conclusão, nem gregos nem troianos ficam satisfeitos e nós ficamos com a profunda sensação de inutilidade e enormes quantidades de energia desperdiçadas!
As coisas já não estão fáceis, a crise agudiza-se, as relações entre as pessoas deterioram-se e é tempo de fazermos brainstorming e não de queliziarmos uns com os outros!
O cansaço e a fartura que isto arrasta são incomportáveis e davam para uma peça de teatro onde muita gente se reveria, tenho a certeza. Quanto mais tempo ficaremos nestes entretantos sem chegarmos aos finalmentes? Irra!

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Comboios da minha vida

16 anos foi o maior período em que vivi na mesma casa. A trinta metros da linha do comboio e a cem da estação, íamos à janela para ver se o meu pai vinha naquele comboio ou não e saíamos de casa para o apanhar quando as campainhas começavam a tocar.
Viver lado a lado com a rotina dos horários da passagem dos comboios era absolutamente normal. Quando mudámos de casa quis o destino que a linha do Oeste ficasse a poucos metros na janela da cozinha. Da janela da casa seguinte via-se a cerca de cem passos. Anos e algumas casas mais tarde, voltei a uma casa que distava os mesmos cem metros da estação e hoje estou a cem metros da linha férrea, embora Entre-Estações, como se fosse uma réplica humana de Entre-Campos.
Numa ocasião, há muitos anos, vieram uns primos lá do Alentejo com consultas e exames médicos marcados num qualquer hospital e hospedaria marcada em nossa casa. Quando nos levantámos de manhã estavam as criaturas com o estenderete do sofá cama já arranjado, cobertores dobrados e eles sentados a olhar para o vazio, com cara de quem tinha feito uma directa.
Dados os bons dias e os cumprimentos perguntámos a que se deviam aquelas caras. Responderam que não conseguiram dormir com o barulho. Barulho? Que barulho? Ninguém ouvira nada. Apesar do sono lá arranjaram convicção e força para imitar o barulho que se ouvia, aí de vinte em vinte minutos ou de meia em meia, hora, eles não sabiam ao certo, mas tinham a certeza que era um grande barulho, um barulho barulhento e rugidor. Mas que mistério! Como é que um barulho assim só os acordara a eles e nós, cinco pessoas, não ouvíramos nada?
Já não sei quem foi que se lembrou então dos comboios, aos quais estávamos habituados e que passavam por nós sem nos beliscarem o sono.
Durante anos era o meio de transporte de eleição de quem morava na linha de Sintra como eu: portas abertas e gente pendurada nos degraus era um cenário completamente normal, enquanto lá dentro os passageiros seguiam ensanduichados e colados uns aos outros. A estação de Queluz era um susto: entravam os queluzes, como lhes chamávamos, à força toda e as carruagens já cheias ficavam irrespiráveis.
Devido à falta de segurança e ao facto de as pessoas andarem literalmente de fora do comboio, os acidentes sucediam-se e um colega meu perdeu uma perna nestas brincadeiras.
Muitas das visitas aos meus avós no Alentejo eram feitas de comboio até Lisboa, barco até ao Barreiro, outro comboio até Beja, depois de automotora até Moura e, finalmente, de camioneta até à aldeia; a automotora era uma coisa cónica afunilada, vermelha e branca, muito fumarenta, ruidosa e com bancos de sumapau, como se dizia na altura.
Hoje viajo com alguma frequência no Alfa para ir a Coimbra e já não uso o comboio diariamente nas deslocações para o trabalho, mas guardo memórias de viagens fabulosas no sul da Polónia em direcção a Zakopane, pela Itália, Finlândia ou em Inglaterra, sem falar na volta do Tua, impressionante, e muitas, quase todas, as linhas de Portugal.
Viajar de comboio tem um romantismo que nenhum outro transporte consegue atingir, principalmente se os companheiros de viagem forem gente simpática.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Dias Difíceis

Edith, a mãe de All in the family, perguntava um dia ao seu inesquecível marido Archie Bunker se o período designado, para as mulheres, como menopause, nos homens seria womanpause. Infelizmente a piada não faz sentido em português e a maioria das menopausas não têm sequer piada em qualquer local do mundo. Mas fazem parte da vida.
Ao longo dos anos as meninas eram ensinadas a não falar de certas coisas e se hoje em dia os namorados e maridos vão ao supermercado comprar tampões com a naturalidade de quem compra uma garrafa de água, isso nem sempre assim foi.
Sangue a jorrar dos pipis era tabu e a palavra menstruação evitada a todo o custo. Não sendo uma palavra bonita mas sempre é melhor que qualquer alternativa – à excepção do período – como o clássico Chico, expressão péssima e cuja origem desconheço.
Mas se na adolescência nos ensinavam a calar e a esconder conversas menstruais, porque ao fim e a ao cabo de sexo se tratava, ainda hoje pouco se fala da menopausa. Os calores são causados por um andamento mais rápido, as hemorragias devem ter a ver com qualquer coisa não se sabe bem o quê, a irritabilidade é da falta de férias e muitas outras desculpas porque no fundo as mulheres envergonham-se de estar na menopausa como as raparigas se envergonhavam de estar menstruadas.
A menstruação era associada a qualquer coisa suja, porca e a menopausa é sinal de velhice, quanto menos se falar do assunto melhor! Mais ainda, - e isto dá-me uma vontade de rir especial – eram assuntos sussurrantes, que deslizavam nas conversas mas em voz baixa, para que ninguém ouvisse.
Hoje já não é bem assim e as raparigas afirmam estar com o período com naturalidade e os tampões não andam escondidos no fundo das malas. Isto lembra-me a mala da minha irmã onde desde há anos mora uma caixa de tampax que sempre que se gasta é imediatamente substituída por outra!
O ciclo fecha-se com a actuação da menopausa que dá vontade de muita coisa, mas não de bater palmas. As mulheres falam dela ainda em meias palavras, através de olhares cúmplices que esclarecem as outras sobre o motivo do mal-estar ou dos calores e só diante do senhor doutor é que as palavras são ditas, embora de olhar recolhido e preso ao linóleo do chão, que isto de falar destas coisas, mesmo com médicos, ainda tem que se lhe diga!

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Solidão

Zeus condenou o gigante Atlas a carregar o mundo nas costas para a eternidade.
Há pessoas que se assemelham ao Atlas, não por carregarem o mundo, mas por arrastarem a solidão.
Essa solidão adensa-se por exemplo em salas de espera de hospitais, onde chega a tornar-se sólida, mesmo que as pessoas estejam habituadas a estar sós. Até podem ter companhia, mas estando acompanhadas, estão sozinhas, como se estivessem num deserto ventoso onde o vento não se decide para onde soprar e as empurra para todos os lados, tentando deixá-las cair.
As dores e o mal-estar que sentem não são nada, comparados com a tristeza de terem que se encostar ao vazio de uma cadeira de hospital, de fazerem um chá sozinhas, de se esforçarem aos limites para ir à farmácia.
Mesmo que os amigos se ofereçam para fazerem certas coisas, para fazerem companhia, estão no lugar que lhes compete, de ajudar. Só isso, mas falta fazer muito mais.
Lembro-me que quando era casada o meu marido agia como se fosse um médico frio e distante que mede a febre, estica a palma da mão autoritária com os medicamentos, corre as cortinas e cria a penumbra para descansar. Nunca me passou a mão pela cabeça, numa carícia de desejos de melhoras, nunca se deixou ficar ao meu lado deixando o silêncio mostrar como queria que eu melhorasse.
É verdade que não tinha que me preocupar com horários de medicamentos porque sabia que ele não se esqueceria, as refeições eram adequadas, bastava eu levantar-me para ir à casa de banho e quando regressava já a cama estava feita de novo, era perfeito como enfermeiro, mas deixava a desejar como marido.
O sol hoje espoja-se com intensidade nas esquinas dos prédios e da memória como se quisesse desfazer o negro da solidão, mas não consegue, será sempre fraco demais. É quente mas não tem o toque da pele, faz-nos transpirar mas não respira, faz companhia mas não resgata da solidão.
O ar de Verão que o dia hoje trás vestido remete para dias felizes de férias e praia e viagens e passeios e cumplicidades. Remete para o passado.
Oiço as acusações de estar silenciosa e sei que são verdadeiras, mas há momentos tão fundos, tão tristes e infelizes que me obrigo a não trazer seja quem for para dentro deste abismo.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Odeio greves!

Actualmente e desde há algum tempo só uso diariamente o metro. Porém, desde há semanas (que me parecem uma eternidade) que ando a saltar do metro para o comboio e vice-versa, e vice-versa também para os utilizadores do comboio. Porquê? Por causa das malditas greves!
Como só tenho passe de metro, quando os senhores metropolitanistas fazem greve, lá tenho que comprar bilhete de comboio e já perdi a conta às vezes em que isso aconteceu ultimamente.
Acreditem que respeito imenso os funcionários, entre os quais tenho primos, amigos e conhecidos, mas já chega!
Acho que devem ganhar três vezes mais – É três vezes mais que querem? Seja! E se não for, desculpem ai, é que estou tão cansada de me levantar ainda mais cedo, de chegar a casa ainda mais tarde por causa das vossas greves, que talvez me baralhe! – sou solidária com o aumento dos descansos, estou cansada de ler e-mails onde afirmam que não recebem os três mil euros que se diz que recebem e também estou cansada de não vos ver marcar greves nos inícios do mês… porque será…?
A bem da verdade, as empresas acabam a brincar com os clientes – que não têm grande remédio senão ser clientes deles – pois enquanto não andam não têm que fazer manutenção nas linhas, não pagam ordenados, não há acidentes, não têm que pagar seguros e o pessoal vai comprando uns bilhetes no vizinho metro quando são os comboios a parar e na amiga CP quando é o metropolitano a fechar portas.
A clientela obrigatória compra o passe sem o qual não passa nas maquinetas – já agora façam aquilo também para gordos que vocês não discriminam o dinheiro que recebem também não o devem fazer nos passageiros! – e depois anda a comprar bilhetes avulso noutros meios de transporte o mês inteiro.
Por amor de Deus, Alá, Buda, Júpiter, Ganesha e todos os que queiram parem com isso que já não se aguenta.
Nós valemos assim tão pouco que não se importem que viajemos enlatados, com pessoas a sentirem-se mal dia após dia devido aos apertos, com outros a saírem magoados de virem com as costas apoiadas nos ferros a viagem inteira e outras situações semelhantes? Para falar com franqueza a aquisição do bilhete supõe umas determinadas condições e se essas condições não estão reunidas, nem por sombras, então podemos não comprar bilhete…
Senhores maquinistas, revisores, factores e outros funcionários dos transportes, a paciência tem limites, ao contrário da vossa incompreensão para com os passageiros que são obrigados no início de cada mês a comprar passe!

O anúncio

Este texto podia chamar-se Crónica Anunciada da Publicação dum Anúncio, mas ficava com ar de aliteração.
Disseram-me que iam publicar um anúncio num jornal nacional sobre mim. Primeiro pensei que brincavam. Depois percebi que era a sério e tentei saber o que diria. Fiquei no escuro. Até ontem, quando o li.
Não, não vou reproduzi-lo aqui. Não é bonito andarmos a mostrar os elogios que recebemos. Mas não podia passar sem falar dele. O autor do anúncio é amizade recente e distamos muitas centenas de quilómetros, mas sentimo-nos próximos e aquece-nos o fogo de muita coisa em comum.
Confesso estar habituada a que me façam elogios profissionais, um ou outro sobre o que escrevo, sobre a beleza e /ou diversidade dos meus sapatos e/ou malas, sobre as diferentes cores de cabelo que vou usando, sobre os pratos que vou inventando e, porque não dizê-lo se é verdade, sobre as pernas.
Mas, à excepção dos meus amigos I. e V., que exageram francamente nos elogios à minha pessoa, raros, raríssimos, são os que ouço, os que vejo manifestados.
Ora o anúncio vem em sentido contrário e faz-me um elogio a mim pessoa, toda, inteira.
Nos elogios que costumo ouvir eu sou uma figurante: são os sapatos que são bonitos, é o comer que é bom, é o trabalho que está bem feito; por acaso, eu também ando por ali, mas é por acaso.
O anúncio deu-me vontade de rir, como uma camponesa se rirá se se vir vestida de festa, vendo-se deslumbrante, brilhante, exuberante. É claro que salta logo a pergunta, Mas aquela sou eu? Ou são os olhos de outrem que assim me vêm?
Deliciada com a surpresa, encantada com a leitura, deitei a perguntas para trás das costas e deixei-me envolver em sorrisos.
Obrigada.

O par de sapatos

Através do Criar Afectos os meus pais foram no fim-de-semana em passeio a Viana do Castelo.
Sábado às seis da manhã estavam pontuais no local de encontro, meteram-se na cáminete e lá foram eles mais uma mão cheia de amigos e companheiros. Cantaram até à rouquidão fado, pimbas, cantigas regionais e tudo o que se lembraram. Chegados a Viana foram depositados à porta do hotel com hora marcada para a recolha dos convivas, que o Museu da Ourivesaria já esperava por eles.
O atropelo da subida para os quartos não deve ter sido muito grande porque aquela malta já não tem idade para correrias mas, segundo o relato, rapidamente subiram, abriram as malas para esticarem os fatos, as sedas, os lamés e lantejoulas que usariam no baile que se seguiria ao jantar nessa noite.
Não conheço alguém tão vaidoso como a minha mãe e imaginei logo que levaria na bagagem roupa suficiente para uma tournée de seis meses à Austrália e que faria as delícias e a inveja das amigas.
No caminho trajaram roupa prática, ele ténis e ela botas de caminhar, onde os atacadores ligavam com os brincos e nada ficava ao acaso, cinto, meias, colares, tudo a condizer.
Ora quando chegaram e ela abriu o baú e começaram a sair saias e lenços como pombas de dentro da cartola de um mágico, saiu também um par de sapatos para o meu pai usar no jantar dessa noite que deviam ser calçados com o belo fato desportivo que lhe dá um ar jovial e descontraído. O pior foi só então ela ter reparado que um sapato era preto, quadrado na biqueira e outro castanho e bem redondo!
Ao telefone o meu pai contou-me o disparate a rir-se e dizia que talvez os calçasse, sim, porque felizmente, ela não trouxera os dois do mesmo pé!
Resta dizer que o homem foi ao jantar de ténis porque não encontraram uma casa aberta para comprar um par de sapatos, mas quem o conhece sabe que ele adorou a cena, não se importou nada e agora vai gozar o pratinho até à exaustão…

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Juntam-se todas as cores e fazem-se sorrisos

Juntam-se todas as cores e fazem-se risos
Que não se cansam e nem adormecem
Faltam promessas que não amanhecem
Lambuzam-se olhares que ficam cativos

Olhares que brilham ainda sem sisos
Enquanto os adultos, todos, endoidecem
Enquanto as esperanças, todas, desfalecem
Mesmo com tantos, ai tantos avisos

São empurradas para um incerto futuro
Por mãos que não deviam sair do leme
Distribuindo amor, carinho e certezas

Mas caminham ignorantes rumo ao escuro
Não acreditando que alguém as algeme
São apenas crianças, não têm impurezas

quinta-feira, 31 de março de 2011

Peregrinando...

As peregrinações, à imagem de muitas coisas, já não são o que eram. Que eu saiba há três modalidades de peregrinar a Fátima, e falo de Fátima por ser o expoente máximo das peregrinações em Portugal:
1. O Método Profissional da Fé
2. O Método Pedro Caldeira
3. O Método Tradicional.

O Método Profissional da Fé, que também se podia chamar Método de Aluguer, consiste em pagar a alguém para que faça a peregrinação por nós; assim, alugamos os sapatos, pernas e corpo de outrem que fará o caminho por quem fez a promessa. É uma criativa saída para a crise, onde se pede tanto, imagino eu que os Santos andem numa lufa-lufa com listas intermináveis de pedidos e estas pessoas, os Profissionais da Fé, estão dispostos a pagar promessas por procuração, desde que lhes paguem a eles em dinheiro.
O Método Pedro Caldeira, que também pode ser chamado Método das Prestações, foi publicitado quando se constou que o ex-famoso corrector teria feito a promessa de ir a pé a Fátima, em troca duma graça, dum pedido para a sua vida, tal como o fazem milhares e milhares de pessoas. A estória não teria história não se desse o caso de ele ter feito uma peregrinação completamente fora dos padrões tradicionais: todos os dias caminhava uns determinados quilómetros e ao fim da caminhada alguém o ia buscar e ele regressava confortavelmente a casa, à sua caminha, à sua família, ao seu meio. No dia seguinte, sentado no fofinho da sua viatura, era levado até ao local onde tinha terminado no dia anterior e daí andava mais meia dúzia de quilómetros e a coisa repetia-se.
O Método Tradicional é uma maçada de sacrifício, dores de pés e contacto com gentes coloridas nas pernoitas sabe-se lá onde. É usado só pelos pobres e por aqueles que acreditam e interiorizam verdadeiramente que estão a pagar a promessa.
Aqui não se farão apreciações sobre se as peregrinações devem ou não ser feitas, mas apenas me rebolarei no ridículo de quem sabe que tem que pagar a promessa, mas inventa de tudo para se livrar desse compromisso.
Os dois primeiros métodos podem ter muitos nomes, mas não são peregrinações e o primeiro então, lembra-me aqueles alunos que mandam outros fazer o exame por si, o que pode ser definido numa só palavra: trafulhice! Há quem a defenda, é certo, mas também é verdade que a lei consagra que todos sem excepção devem ter uma defesa, logo, há advogados para tudo.
O segundo método lembra-me analogias, como por exemplo, chegar a casa e comer qualquer coisa não é jantar, ir para a rua de pijama não é estar-se vestido, embora não se esteja nu, alinhar palavras atrás umas outras não é escrever, fazer uma peregrinação não é dar uns passeios ao fim de semana.
Pedir é fácil, cumprir o quer se prometeu, que o diga o Governo, não é bem a mesma coisa e por alguma razão diz o povo que de boas intenções está o inferno cheio.
Com franqueza afirmo que não percebo estes pretensos peregrinos que querem mas não querem, vão mas não vão, pagam mas não pagam, mas uma coisa é certa, assim que se apanham com a graça pedida e obtida arranjam esquemas para minimizar a sua parte do acordo e cumpri-la com o mínimo dos sacrifícios, aos bocadinhos aos fins-de-semana que tirar dias de férias para pagar promessas nem pensar.
Esqueceram que o pedido era de monta, se não o fosse não teriam recorrido aos serviços das promessas, e já com o servicinho feito, fazem caretas ao caminho, planeiam pequenos passeios que não lhes desarranjem a vida e assim se fazem as modernas peregrinações. Mais, até há os que se arrependem e ficam chateados com a necessidade de mais aquele pagamento, como eu fiquei esta semana quando fui pagar o IMI!
Ora bolas, agora tenho que ir fazer uma caminhada enorme… tenho que ir já comprar uns Hush Puppies novos que os Manolos não ficam bem com as jeans que comprei na Prada…
Onde está o sacrifício que se oferece em troca da dádiva? Onde está a concentração no pagamento que se está a efectuar? Onde estão as dores semelhantes às de Cristo quando deu a vida pela humanidade? Onde está a fé? Onde está o ‘estar’ em comunidade nas noites em albergues para peregrinos? Estes são alguns dos argumentos que me apresentam para fazer peregrinações, a malta do Método Tradicional.
A peregrinação sentida sai da pele de quem a faz e deixa cicatrizes e não fotografias para mostrar mais tarde, como se tivessem ido fazer uma excursão.
Caminhadas também eu faço aos fins-de-semana, mas não são peregrinações! É assim que vivem a fé? É assim que querem conquistar, pelo exemplo? É assim que dão o exemplo aos filhos? Que de atitudes exemplares se faz a vida, seja em matéria religiosa ou outra qualquer.
À preguiça e indolência que se instalou também neste campo da fé eu sugiro que possam ir ainda mais longe e, tendo em conta que de Lisboa a Fátima são 147 quilómetros, (quem for de outros locais deverá medir a respectiva distância) deixo aqui a seguinte sugestão:
Cada ‘peregrino’ deve arranjar um pedómetro, que mede a quantidade de passos dados, e deve colocá-lo num braço, por exemplo. Como o passo médio das pessoas tem cerca de 75 centímetros, é só fazer as contas de quantos passos equivalem à distância entre a sua casa e Fátima e completar essa distância! Quem viver em Lisboa deve dar 195 951 passos. Ora com idas e vindas nos transportes de e para o trabalho, com idas ao supermercado, ao cinema, um ou outro passeiozito ao fim-de-semana, mais umas visitas a casa de amigos, está feita a coisa.
Aqueles que tiverem de facto pressa e desejarem cumprir a promessa mais rapidamente ainda podem deixar os carros longe da porta dos supermercados, da porta dos prédios dos amigos ou familiares que visitem e caminharem ao longo das carruagens do metro ou do comboio e assim farão mais passos ao longo do dia.
Mais simples que isto nem saltar à corda!

Toda esta dissertação foi causada pela descoberta de que uma pessoa muito querida e amiga está a fazer uma peregrinação no Método das Prestações: todos os fins-de-semana anda qualquer coisita. Quando me contou fiquei boquiaberta e estupefacta com tamanha fé, que a leva a fazer semelhante promessa, e com tamanha cara de pau, que a leva a cumpri-la de semelhante forma, sem convicção alguma.
Quando perdemos as convicções, o que resta…?

quarta-feira, 30 de março de 2011

Criar Afectos

Há anos atrás, a minha irmã e eu deliciávamo-nos com uma brincadeira que consistia em pôr a minha mãe a ler os genéricos dos filmes. Ela proferia palavras inexistentes, lendo em inglês como sabia o português, a longa lista de palavras com nomes de realizadores, actores, fotógrafos, músicos, produtores e um sem fim de outros intervenientes e funções, e nós produzíamos gargalhadas com tal energia que dava para alimentar um qualquer electrodoméstico.
Mesmo antes, na nossa infância e adolescência havia sempre um livro na mesa-de-cabeceira da minha mãe, em cima da toalha da praia ou no sofá, e se havia qualquer coisa onde não se poupava dinheiro, era em livros e isso é qualquer coisa que nunca poderemos agradecer.
Ao longo dos anos fomos vendo-a desinteressar-se da leitura, do cinema, dos teatros de revista. Quer a minha irmã quer eu somos grandes leitoras, sôfregas, ansiosas, insatisfeitas, lendo os mesmos livros, discutindo-os e, regra geral, com iguais preferências e atribuímos a falta de interesse da nossa mãe pela leitura à redução da capacidade de concentração, ao excesso de entrega aos netos, ao nascer de outros interesses (ou desinteresses) próprios da idade.
As maleitas do meu pai ao longo da vida não ajudaram em nada e ela ficava exausta com tanta consulta, operação, medicamentos, preocupações, sustos, hospitais e outros que tais.
Mas de repente, como um bilhete de lotaria que nos vem parar às mãos sem que fossemos nós a querer comprá-lo, eis que as coisas mudam de figura!
O Projecto Criar Afectos entrou na nossa vida por volta do Natal e talvez por isso, nós achemos que foi uma bela prenda, porque milagre foi com certeza.
Por entre várias coisas, tantas que preciso duma agenda para me orientar, o meu pai deixou de se queixar das dores, fazem imensos planos para eles próprios, sem inclusão de filhas nem netos, o que prova que têm vida própria, e a minha mãe voltou a ler.
Ela não sabe, nunca saberá, por muitas palavras que use para lho dizer, a alegria que isso me proporciona, porque quem não lê, não tem essa consciência, mas é mais pobre que os que se dedicam a essa tarefa.
Ler é dos mais maravilhosos mundos que se podem descobrir e a leitura pode até ser uma forma de vida, que o diga eu que comecei a ler aos quatro ou cinco anos e nunca mais parei.
Orgulho-me imenso quando o meu filho brinca e me diz que eu não devo ser muito esperta porque entrei na escola aos seis anos e nunca mais saí!, para designar o vício que tenho em aprender, em saber coisas novas, em conhecer mais e mais e mais. Nunca me canso. E também por isso nunca aceitei muito bem que alguém tão próximo de mim não tivesse um bocadinho, ainda que pequeno, deste meu vício.
Mas agora tudo mudou, o que só prova que se aprende até morrer, que há provérbios populares que não ditam a verdade e que, na minha opinião, nem sequer há burros velhos! Só é velho quem quer e nessa matéria Parabéns à Dona Prata que velha é coisa que ela nunca há-de ser!
Há pessoas mais ou menos abertas à vida e a vida é dum tamanho gigantesco, só temos que ter os olhos abertos, dormir pouco e estar atentos. Teremos muito tempo para dormir quando morrermos!
Por entre danças e cantorias, passeios e novas amizades, teatros e piscinas, cuja saudabilidade é excepcional, o facto de a minha mãe voltar a ler é o que me dá mais descanso. Sei que assim ela terá sempre um amigo à sua espera.

segunda-feira, 28 de março de 2011

O mistério das horas

Ontem acordei com o telefone a tocar. Tentei a minha melhor voz de super acordada para não ter que entrar em explicações do, sabes, é que estou adoentada, por isso dormi até mais tarde, o que tenho?, nada de especial, uma constipação e etecetera e logo do outro lado que também já tinham tido, e este tempo é o que provoca e toda esta conversa que eu detesto! Assim, atendi como se andasse em labuta há horas. Enquanto falava levantei-me e fui à cozinha, pelo canto do olho o relógio ditou-me as horas, lá desliguei e ao fazê-lo, casualmente, olhei as horas do telefone que não coincidiam com as da cozinha. Ora, eu vivo com os pés na lua, mas ainda não cheguei ao ponto de ter dois fusos horários dentro da minha casa! Meia a dormir, fui ver as horas no outro telefone: estava certo com o relógio da cozinha. Já um pouco mais acordada com o mistério, fui ver a televisão: estava certa com o primeiro telefone.
Facilmente cheguei à conclusão certa: o meu filho tinha andado a brincar com os relógios lá de casa, atrasando uns ou adiantando outros, o sono ainda não me permitia ter a certeza.
Orientada pelas horas da televisão, a que resolvi dar mais crédito, sonambulei pela casa até serem horas do jogo do Duarte que tinha saído cedo para ir estudar com o pai. No regresso do jogo a caminho de casa vejo que o relógio do carro marca quatro horas e tal. Impossível! O jogo tinha começado às três, logo deviam ser cerca das cinco e meia. Incomodada com aquela cena, sem dar a conhecer pelo tom de voz que se preparava, no mínimo, um ataque nuclear, pergunto as horas ao meu pai que segue ao meu lado, imune ao desastre atómico que se prepara. Ele lá se estica devagar, tão devagar, que foi a minha mãe lá do banco de trás que acabou por dizer as horas: cinco e meia, acrescentando:
- Já mudaram as horas nos relógios? A hora mudou esta noite.
- Ai sim? – digo eu com o ar mais distraído que consegui arranjar, como se aquele assunto não me interessasse nem dissesse respeito.
Estávamos salvos!

quinta-feira, 24 de março de 2011

É assim

A rapariga opta por ficar em pé, embora existam bastantes lugares vagos. É nova, ronda os vintes e poucos. Contenho-me para não lhe dizer que se grave a si própria: iria poder contar as inúmeras vezes que disse é assim. Iria poder verificar que repetiu a mesma conversa dezenas de vezes e não me parecia que do outro lado a interlocutora fosse mouca.
Queremos que os outros nos ouçam mas devíamos, de vez em quando, só de vem em quandinho, ouvirmo-nos também. Talvez nos calássemos ou pelo menos pensássemos duas vezes antes de abrir a boca. Se o fizéssemos tenho a certeza que havia pessoas que acabavam logo ali com a amizade que têm consigo próprias, olhariam em volta tentando perceber se alguém as teria ouvido e teriam rezado para que todos estivessem desatentos.

Pregar aos carris do metro

Com o nariz a pingar e lenços de papel espalhados pelos bolsos entro no metro a ansiar por chegar a casa. A plataforma quase vazia informa-me que acabou de passar um comboio. Sento-me à espera do próximo entre um homem e uma mulher sem qualquer característica que os distinga de milhões de outros por esse planeta fora. Calados, contemplamos as pessoas que chegam e se instalam na plataforma, à espera também.
De repente, sem qualquer aviso prévio o homem desata a gritar:
- A Santa Casa da Misericórdia deve-me seis mil euros! Há cinco anos que me devem o dinheiro e até agora nada.
Os barulhos normais do metro asfixiam-se perante o grito, que continua:
- Comprei a raspadinha e estavam lá, cinco ferraduras! E dizia seis mil euros! Cinco anos! E nada!
As pessoas que se tinham voltado na sua direcção inicialmente já estão de costas outra vez.
- E depois aquele assalto ao banco! Mas o meu irmão tem culpa nisto porque ele estava lá quando foi o assalto ao banco e não me disse nada. Calou-se bem caladinho! Bem caladinho é que ele se calou. Ora ele devia ter-me dito que assaltaram o banco, se fosse eu tinha-lhe dito a ele! E agora a Santa Casa nada! Caladinha também.
As cabeças esticam-se em direcção ao escuro do túnel, como se assim o comboio viesse mais depressa.
- Seis mil euros! É quanto me devem! Que azar o banco ter sido assaltado logo no dia em que lá deixei a raspadinha. Que azar. Santa Casa, estás a ouvir, deves-me seis mil euros. Há cinco anos.
E mais não soube porque o comboio chegou e o barulho abafou os gritos do homem, que ficou sentado nos bancos da plataforma, com certeza à espera que o comboio se fosse embora para continuar a pregação.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Sopa da Pedra

Há bilhetes de avião entre cidades europeias e do Norte de África a 5 euros!
Isto dito assim, faz-nos correr a casa a buscar os óculos de sol e partir em direcção ao Porto, que os voos saem da Invicta, e voar como se não houvesse amanhã.
Porém, isto é como a Sopa da Pedra: aos 5, aos 6 ou aos 8 euros, os bilhetes mais baratos, temos que juntar as taxas administrativas, a bagagem, os sacos de fraldas, as guitarras, enfim, todo o tipo de pertence, taxado sem esquecimentos. O transporte de um objecto musical pode custar-nos 50 aérios! Ora que gaita, já uma pessoa não pode viajar com o seu acordeão!
Cada 20 quilos de maletas são mais 50 euros, e como gostamos de andar sempre aos pares, já lá vão vinte contos, que eu gosto da moeda antiga. Cada quilo a mais custa 20 euros, independentemente do destino, ao contrário da TAP que tem taxas variáveis e que em Portugal e Espanha se ficam pelos 5 euros por quilo a mais.
Como nada é deixado ao caso, se quisermos que nos mandem um sms a confirmar o número do voo, é mais um euro!
Escusado será dizer que os ditos bilhetes são em dias seleccionados, a horas fora do relógio e voam para aeroportos dos quais nunca se ouviu falar, e dos quais temos que nos deslocar em comboio, autocarro ou táxi (livra!) para os centros das cidades, fazendo a ampulheta do valor gasto encher a cada minuto.
Mas o que me aborreceu mesmo, o que me deixou fora de mim quase a cair, que me provocou uma tristeza profunda, uma consternação sem limites foi ler nas condições sobre os Artigos Proibidos de transportar que, para além das cinzas humanas, também não se podiam transportar troféus de pesca! Isto é inadmissível!
Uma pessoa já não pode viajar com a sua navalhita, anda com frascos de shampoos e pastas de dentes da Barbie, não pode comprar uma espingarda para oferecer aos afilhados e agora não podemos transportar os troféus de pesca! Onde é que isto já se viu? Por este caminho, garanto-vos, vão deixar de ter clientes!

quinta-feira, 10 de março de 2011

As minhas obrigações

É minha obrigação cuidar de todo o bem-estar do meu filho, mas também fazê-lo ver as suas responsabilidades, conversar com ele, ouvi-lo e entende-lo. Também é minha obrigação cuidar dos meus pais, providenciar para que em casa não falte o essencial, ter comer no frigorífico e na despensa, ter as contas em dia.
É minha obrigação sorrir aos meus amigos, aos verdadeiros, aqueles que dia após dia se preocupam comigo e mo manifestam em gestos e não só em palavras que, essas, leva-as o vento.
É minha obrigação ter a casa limpa, preocupar-me com a minha família, ter o meu trabalho em ordem, respeitar o meu chefe, ajudar os meus funcionários, colaborar com colegas.
É minha obrigação dar o lugar a quem mais precise nos meios de transporte, andar com roupa limpa, alimentar-me em condições, ir com regularidade ao médico, lembrar-me do aniversário dos amigos, ser cordial com as pessoas, beber muita água.
É minha obrigação ajudar quem precise, estar informada sobre o panorama nacional e mundial, aprender todos os dias uma coisa nova, ensinar todos os dias uma coisa nova, não desperdiçar recursos de água, poupar luz, evitar fotocopiar e imprimir, gerir as horas, ter os papéis arrumados, saber onde estão as coisas, manter as unhas limpas, ter as respostas aos e-mails em dia, colocar-me no lugar dos outros antes de opinar, pensar antes de falar, valorizar o trabalho alheio, enriquecer o meu trabalho, não deixar para amanhã o que posso fazer hoje.
É minha obrigação andar bem-disposta e sorridente, contribuir para o bem-estar dos que me rodeiam, saber mudar o tinteiro da impressora, elogiar a comida que me põem à frente, não desvalorizar alguém, observar tudo de ângulos diferentes, não me deitar tarde, saber mudar pneus, conhecer os limites de velocidade e respeitá-los, não dar erros, saber ouvir.
É minha obrigação morrer deixando um rasto de vida arrumada.
Será?

quarta-feira, 9 de março de 2011

Paz à sua alma

Como disse a minha irmã morreu uma árvore da nossa família, a Tia Josefa.
O que nos ligava era uma sucessão de momentos únicos que aconteciam sempre que a visitávamos, coisa que durante muitos anos fazíamos com muita frequência pois, se não chegasse o facto de os meus avós viverem com ela, era mais do que suficiente ela ser a mana querida do meu pai, a mana Zefa, dedicação que se entendia também à minha mãe.
A Tia Josefa era doméstica mas o sonho da vida dela era ter sido enfermeira e não havia ocupação que lhe encaixasse melhor. Embora vivesse em Lisboa há séculos nunca perdeu o sotaque alentejano e era com ele que nos contava histórias de antigamente, do meu pai, da família e de pessoas que desconhecíamos mas que, a meio da história, já considerávamos primos. O uso de palavras tipicamente alentejanas que há muito não ouvíamos ou que desconhecíamos por completo fazia-nos rir à gargalhada, e não deixávamos de confirmar uma e outra vez que ela era irmã do nosso pai pois para contar qualquer coisa da infância lá na terra ela recuava até às Invasões Francesas.
Como irmã mais velha duma prole de sete filhos onde o meu pai ocupa o lugar do mais novo, era delirante ouvi-la chamar a um homem de sessenta anos, o meu caçula. Durante muitos anos brincávamos com a existência da Gazeta, que correspondia à rede telefónica de informações da qual a minha mãe também participava e que dava notícias sobre aniversários da família – coisa que a Tia Josefa tinha na ponta da língua desde os irmãos até aos netos dos irmãos e que nós nunca sabíamos – passando por doenças em primeira mão e respectivas curas!
A Tia Josefa tinha sempre, mas sempre, uma nota para nos dar que nos arrancava um sorriso de agradecimento, mas na verdade era ela quem a merecia, como pagamento daqueles momentos inesquecíveis, onde não faltava uma visita guiada pelos novos elementos da família através de fotografias que todos fazíamos questão em lhe oferecer, sabendo que ela gostava.
Muitas vezes o meu pai aparecia de surpresa, coisa que antigamente se fazia e que nós não gostávamos, pois se ele telefonasse a avisar que iríamos, sabíamos que a Tia Josefa nos daria aquilo com que salivávamos sempre que falávamos dela: o bolo de chifon! Venham pasteleiros dos quatro cantos do mundo imitar o bolo de chifon se conseguirem!
Tudo isto junto, e muito mais, dá a dimensão da eternidade de certas pessoas.
Apesar dela ser a mais velha, os outros não são propriamente rapazes novos e as cabeças falham cada vez mais: todas as minhas tias foram unânimes em afirmar que eu era a sobrinha mais bonita, mas estava eu a convencer-me disso e a sorrir interiormente com a conquista quando uma delas me disse repetidamente que eu estava muito crescida! Ora tendo em conta que tenho 45 anos, achei por bem não colocar a faixa da mais bela pois a apreciação podia estar um bocadinho deslocada. Só um bocadinho…
Acho que a Tia Josefa nunca se apercebeu da dimensão em que entrava nas nossas conversas, mesmo quando lho dizíamos ela achava que exagerávamos. Mas a verdade é que a árvore mais velha da nossa floresta, com todos os defeitos e virtudes como qualquer um de nós, era uma presença viva e com vida própria. Ainda o é na nossa memória porque há coisas que não se apagam.

quinta-feira, 3 de março de 2011

O Império de Bale

Gosto quase tanto de cinema como de ler. Tal como os livros, há filmes que vejo duas, três, quatro e mais vezes. É como tomar banho numa enorme banheira com água morninha, imagem do início dos inícios dos tempos para qualquer pessoa. Nasce-se ali. Renasce-se ali.
Também por influência da mediatização dos filmes nesta altura do ano, tenho ido ao cinema com mais regularidade, que o mesmo é dizer, ver dois filmes de empreitada, com intervalo para um cigarro e esticanço de pernas. Até agora não me arrependi e só me aborrece é dar-me a fome a meio! Aprendi a ir ao cinema sozinha, coisa que antigamente me deixava um sabor amargo nas palavras, nos risos ou nos choros que queria partilhar e não tinha com quem. Agora habituei-me.
É tão difícil escolher um filme… ou mesmo dois ou três. Ou meia dúzia. Talvez seja mais fácil eleger personagens. Não sei, que digo eu, parvoíces. Mas uma coisa tenho como certa, há anos atrás encontrei um certo Jim, na altura com doze ou treze anos e voltei a vê-lo agora, já adulto, embora com a maturidade dum consumidor de crack. Não me admirei pois quem tem uma infância daquelas, adivinha-se-lhe um futuro complicado, deslocado.
O jovem Jim que vivia no conforto do bairro diplomático em Xangai e que teve que se desenvencilhar sozinho no meio duma guerra, criando uma pessoa única, duma força incalculável e, não obstante, que me parecia só existir por fora, completamente esburacado por dentro, como um queijo suíço ou um fato insuflado de ar, gastos os músculos e até os ossos naquela sobrevivência diária onde até é difícil pensar na palavra esperança, muito mais difícil ainda dizê-la, com medo que até o conceito desapareça e nem sequer nos reste a possibilidade de pensar nela. A corajosa mediação de conflitos com os japoneses, a conquista de comida para se manter vivo e o adiar do fim da guerra permitem-nos observar o processo de avanço da loucura dum rapaz que nunca deixou de o ser e de adorar aviões.
As cicatrizes desse rapaz ao longo da vida seriam incalculáveis e não me espantei por o ver transformado num lutador que se viciou em crack. Ninguém me convence do contrário, é o mesmo gajo, embora tenha mudado de nome e apareça agora como Dicky Eklund.
Já me tentaram convencer que aquilo é uma interpretação, mas eu não acredito: não é possível que seja, é ele mesmo, com todos os traços que a vida lhe foi fazendo; há interpretações impossíveis e aquela é uma delas, de modo que só resta uma alternativa, ser ele próprio.
Há filmes com pessoas dentro, sem personagens. São como cometas que só aparecem de tempos a tempos e há quem passe uma vida sem ver um único. Para além de Dicky Eklund, assim de repente lembro-me de Newland Archer, Karen Blixen ou John Nash.
Na cena final quando Newland espera que ela vá à janela a tela jorra emoção que se nos agarra à pele para sempre; quando Karen pede para dançar e afirma que quando tudo está mal, faz o exercício de tentar piorar ainda mais, a dor que sentimos no peito é lancinante, espetada por um desespero que não achamos possível; as discussões de Nash com os seus eternos acompanhantes, esbracejando e querendo afugentá-los, são duma dimensão onde a interpretação não chega.
Como nos livros, há títulos que esqueço, mas há nomes que vivem comigo para sempre.

quarta-feira, 2 de março de 2011

A carta

Recebi uma carta. Li-a e reli-a.
Qualquer um dos meus poucos amigos se a lesse convencer-se-iam que tinha sido eu a escrevê-la.
É sobre livros, sobre febre de leitura, sobre frustração de não poder ler mais, de não conseguir.
É sobre este vício do qual tanta vez falo e que me acompanha desde que aprendi a ler.
É sobre os amigos tão preciosos vestidos de capa dura ou capa mole, quantas vezes maiores e melhores do que os que têm pernas.
É sobre magia, sobre riqueza acumulada, sobre sabedoria, sobre tudo e sobre nada.
É sobre cumplicidades, como as que se estabelecem mudas entre pessoas que têm as mesmas doenças e conhecem o outro. Sabem o que pensa e o que sente.
É sobre insatisfação e desassossegos de quem permanentemente conversa com vivos e mortos, se ri e chora em viagens sem fim, nunca acabadas, cada qual a melhor, a mais bela, todas melhores e belas porque são diferentes. Mas são nossas, fazem parte dos trilhos que percorremos. São cicatrizes perpétuas.
A carta é sobre o amor. Amor incondicional, amor para sempre, amor fraterno por desconhecidos que rapidamente se tornam melhores amigos e nos esperam diariamente sem pedir nada em troca.
Não tivesse eu tanto azar aos amores e responderia a esta carta apenas com uma pergunta: queres casar comigo?

terça-feira, 1 de março de 2011

Pensamentos soltos

A propósito do fim dos saldos, que foi ontem, e do início das promoções, que é hoje, ouvi no rádio que desde o Natal se tem verificado um número assustador de encerramento de portas no comércio em Portugal. Muito provavelmente é a minha estupidez natural a falar, mas eu não compreendo é como é que elas abrem…
Com tanto centro comercial, com tanta loja chinesa, com tantos mercados de rua, a perspectiva de abrir uma loja, fosse do que fosse, assustar-me-ia. Perto do meu local de trabalho há um espaço que já viu vários proprietários, vários ramos, embora todos dentro dos ‘trapos’: de criança, de mulher e, dentro desta roupa específica, de vários géneros. Já aqui falei sobre ela por causa dos preços loucos que fazem concorrência com as lojas de griffe da avenida da Liberdade e com os das lojas em Sunset Boulevard, num local de passagem de pessoas com condição social média baixa. Confesso a minha estupefacção pela teimosia da abertura de novas lojas e não pelo fecho.
O mercado onde compro muita da roupa que uso tem peças lindíssimas e boas e é lá que abasteço a minha febre de sapatos, que podem variar entre 1 e 10 euros o par! É claro que a Zilian tem sapatos de sonho, mas vou sonhando com eles e comprando no mercado do Algueirão, pois assim posso ter vinte pares… ou mais…
A irrealidade de muita boa gente que vai abrindo lojas confunde-me: nenhuma delas vende água de coco no deserto, são iguais umas às outras e, se houver destaque, é por terem preços mais altos que as concorrentes! Alguém me explica isto? Não percebo como nascem ilusões na cabeça das pessoas que as fazem crer que a sua loja terá sucesso, só porque gostam de ter uma loja e criaram as condições para a abrir; para a abrir, mas poucos se preocupam em criar condições para a manter aberta.
O Público de hoje trás uma revista com o sugestivo título Portugal Inovador. Todos os exemplos, desde a medicina aos cabeleireiros, passando pela gestão de restaurantes de fado, têm um investimento que vai muito para além da ideia genial de abrir uma loja de trapos que vai ter coisas lindas de morrer… de morrer sim, economicamente falando.

As fábricas que ontem empregavam os nossos pais que vinham das terrinhas com uma mão à frente e outra atrás, fascinados e medrosos com a grande cidade, são hoje os call centers, os centros comerciais, os balcões de atendimento. Não são cinzentos como o fumo fabril pois as cores da publicidade emolduram-nos e as novas visões do mundo actual retiraram-lhes a perspectiva da sujidade associada às fábricas que produziam unhas negras e mãos encardidas.
Todos se queixam que não há emprego e lá acabam por aceitar um lugar nestas novas fábricas, percebendo que a licenciatura afinal não era o passaporte que julgavam ser, pois ainda não perceberam que as regras mudaram e que é necessário começar a trabalhar cada vez mais cedo para que a experiência acumulada, junta com as habilitações conquistadas e com um futuro repleto ad eternum de formação, lhes proporcione um lugarzinho ao sol. E quem não quiser e não gostar, uma vez que não pode dizer que, se é assim, então não brinco, e não podem voltar para o quentinho do ventre materno, vai continuar a andar a vida inteira à procura de emprego – à procura de trabalho há poucos. Espero que não se lembrem de abrir muitas lojas.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

L de livros e de ladrão...

Há cerca dum mês atrás falava-se de roubo de livros no blog Pó dos Livros. Um dos protagonistas da coisa confessou-se afirmando que o fazia por razões monetárias, e que nunca privava locais privados dos seus bens, mas fazia-o em grandes superfícies. Era noite quando li o post e respondi:

Senhor Ladrão de Livros, também eu guardo um livro roubado: chama-se O bando dos Ayacks, é um livro para adolescentes e eu era adolescente quando o roubei da carrinha da Gulbenkian. No início de cada mês abasteço-me depois de receber o ordenado, como quem vai ao Casal comprar produto. Quem me dera conseguir explicar a necessidae que tenho em ter livros em lê-los, em consumi-los. Vou dar uma ideia que talvez ajude: escrevo neste momento num computador com o ecran todo partido. É o único que tenho em casa. Escrevo cada palavra tentando não errar porque me é difícil ver o que escrevo ou o que leio... tiro umas pelas outras, afasto o olhar para tentar perceber o que leio. Muitos dizem-me que já devia ter comprado outro computador. É verdade. Porém, acabo por gastar o dinheiro todos em meses. Onde? Já se adivinha... para além de leitora, sou bibliotecária e trabalho numa editora. Sempre entre livros. mas nunca me passaria pela cabeça tirar um bit ao Bill Gates. Também sou viciada em viagens e já tenho uma razoável conta de Planeta Terra mas quando entro numa agência de viagens de viagens peço para levar um catálogo, apesar de serem gratuitos.
Imagino-o uma personagem, direi romãntica, do género de quem rouba pão para comer, saído da imaginação dum Dumas, um Miserável... será? Muitas podiam ser as interpretações, as leituras e, concluo, quem sou eu para dizer seja o que for, pois nada disto é um julgamento, logo, não julgo. Apenas comento: sejam os franceses ou os aimoré, o Belmiro ou o João, há sempre solução, há sempre alternativa para não roubar. A menos que se seja um personagem comandado por alguém, apenas fruto da imaginação de outrem, sem vida própria. As nossas acções são comandadas por nós e roubar não é bonito, mesmo que se assine Robin e se namore uma Marion. Se a miúda não o quisesse iria raptá-la...?
O que não falta por aí são Bibliotecas, fica a informação, just in case...

Dois ou três dias depois vi que tinha um e-mail dum desconhecido sobre o assunto Ladrão de Livros. Era ele. Duvidava de mim por ser bibliotecária e editora e ter de comprar livros. Respondi contando a minha relação de paixão com esses objectos, com o seu interior, com a sua alma. Ele respondeu na mesma moeda. Eu voltei a responder. E assim começámos uma troca epistolar entre gente que ama ler. E livros.
E assim descobrimos coincidências, gostos e coisas comuns, se calhar sem serem de espantar, que as pessoas que se banham nestas águas acabam por ser parecidas. E assim fui deixando cair alguma reticência sobre a pessoa dele. E assim venho descobrindo uma pessoa muito parecida comigo, cujo primeiro contacto foi a matar, mas que estou a gostar de conhecer.
Quando escrevo penso se ele estará a prevaricar… de certa forma, sinto-me cúmplice por dar guarida no meu espaço mental a alguém que rouba livros. Por outro lado, surge-me uma certa confusão por gostar de trocar e partilhar ideias com ele. Sensação estranha provocada por um igual. Começo a acreditar que são mais as semelhanças que as diferenças. Há uma certa síndrome de Estocolmo associada a esta estranha relação, escrita, não visual, nada banal.
Eu que tiro sempre o aspecto positivo de tudo e tento esquecer ou minorar as vertentes menos boas das coisas, concluo que estou mais rica desde que o conheci, apesar de me sobrar sempre a pedra no sapato ao lembrar-me da razão por que nos conhecemos…

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

O Médico de Córdova

Feliz o dia em que me sugeriram esta leitura. Lido, está o livro entre muitos mas na prateleira invisível das melhores leituras.
Moisés Maimónides, a Águia da Sinagoga, está na História por ter precedido Tomás de Aquino na conciliação de Aristóteles e da Bíblia. O discurso é em forma de carta dirigida a um ex-aluno e que se prolonga por quase 300 belíssimas páginas em tom sério, mas muito bem-humorado, e com sentenças cheias de significado e que nos fazem pensar muito para além das palavras que lhe servem de suporte, de esqueleto.
O mundo está suspenso da respiração das crianças que vão à escola | A medicina é a ciência da pesagem dos erros, e a arte da escolha entre os riscos e os males | Há aquilo em que creio. Há aquilo em que penso. Há aquilo que faço. Há aquilo por que sofro. | Um pensamento vergonhoso vinha-me ao espírito sempre que passava diante dele: como é que se pode ser refugiado? | O mundo já é muito velho, e, a cada minuto que passa, recomeça | A cozedura das ideias requer mais subtileza que a do pão.
A descrição da preparação da autópsia e a verificação que os órgãos não estavam dispostos de acordo com o que Galeno indicava nos livros, levando o Mestre de Moisés à conclusão que o corpo estava defeituoso, é de levar às lágrimas.
Leitura inspiradora, duma vida atribulada mas verdadeira, uma vida empurrada, como a que está destinada aos judeus. Enquanto livro, é daqueles que o estreitar de páginas não lidas já para o fim nos cria tristeza por sabermos aproximar o epílogo e, aí, lemos mais devagar, lemos duas vezes o mesmo parágrafo, para desacelerar, para prolongar aquela nossa estadia no passado, numa vida, apesar de tudo, invejável.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Conversas banais

Não sei em que estação estou, vou absorvida pela leitura. A repetição de obscenidades, como ladainha de tabuada mete-se-me nos ouvidos. Levanto o olhar, pouco, e dou com ele em dois cavalheiros pouco mais velhos que o meu filho, bonés fundos nas cabeças que se adivinham quase rapadas. Comem sílabas atrás de sílabas, num discurso com palavreado actual. Moderno? Um deles fala do pai que está preso e conta ao outro os planos que tem, com a mãe, para o irem visitar. O outro conta um episódio com ar banal: a gigantesca parvoíce de um terceiro que, imagine-se, se recusou a assaltar um homem. Estavam num café na Damaia e viram o homem pagar puxando de uma nota gorda, guardando troco ainda avultado. Eram três, olharam uns para outros e fizeram menção de seguir o homem. O anormal do grupo disse que roubar, isso, ele não fazia, e foi-se embora. E não é que foi mesmo? A surpresa estava-lhes plantada nas caras. Na deles, na minha, na da mulher que viajava sentada ao meu lado, na meia dúzia que faziam o percurso no raio de audição das vozes.
O meu Médico de Córdova teve que esperar até antes de me deitar para conseguir retomar a leitura.

Olhar versus ver

Desde há vários anos participo com alguma regularidade nos passeios organizados pela SAL, Sistemas de Ar Livre. Os últimos foram sob a égide do conceito ‘Esta Lisboa que eu amo’ e transportaram-nos para uma época pós terramoto até ao século 19.
A menção a valores gastos na época para fazer isto ou aquilo e expressa em contos de réis dá sempre vontade de rir aos participantes. A mim faz-me franzir as sobrancelhas de admiração e, confesso, cria-me uma certa irritação os risinhos da plateia. Porquê? As pessoas ouvem falar dum donativo de quatro contos para o Jardim da Estrela e riem pensando nos vinte euros a que correspondem hoje, sem conseguirem transportar-se verdadeiramente para a época e perceber que era muito, muitíssimo dinheiro. Riem-se como se ririam das partidas que os Três Porquinhos pregaram ao Lobo Mau. Riem-se porque não estão a interiorizar o que lhes é dito e apenas a ouvir. A interiorização das ‘coisas’ é o que nos leva a pensar, para depois reflectir, conduzir raciocínios, concluir, se for o caso.

Passeio Público (Imagem retirada daqui)
 Bem sei que devo ter em conta a heterogeneidade dos participantes, as motivações, o interesse maior por esta questão em vez daquela, bem sei, mas não deixo de pensar como penso e não digo que estou certa, apenas partilho um pensamento.
Eu que trabalho em pleno Marquês de Pombal, e subo e desço a avenida da Liberdade dezenas de vezes no ano, via-a com olhos de ver este sábado pela primeira vez.
Não, não vou com os olhos fechados, e já a tinha olhado muitas vezes, mas nunca a tinha visto. A partir de agora sempre que lhe pisar a calçada fá-lo-ei mais devagar a lembrar, farei curvas até aqui evitadas para ver melhor, pararei mesmo com pressa para readmirar.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Cereja em cima do bolo logo de manhã

Quase às 10 da manhã vou apanhar o metro. A estação está vazia, o café fechado, nem sabia que ao fim de semana aquilo parecia um deserto.
Na plataforma está apenas uma senhora com cerca de sessenta e qualquer coisa anos, aproximo-me e dou os bons os dias que ela retribue. Ouve-se o altifalante avisar sobre as precauções a ter com o que transportamos. A seguir a informação repete-se em inglês e a senhora pergunta-me com ar de espanto:
- Se só aqui estamos nós, p'ra quem falarão eles?

Oh Romeu...

Num concurso de televisão, o apresentador pergunta a Romeu, o concorrente:
- Gosta dos países nórdicos? Conhece algum?
- Sim gosto, mas nunca fui a nenhum.
- E há algum que lhe chame mais a atenção?
- Sim, a República Checa.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

A D. Marta e eu

Há muito, muito tempo tínhamos uma vizinha chamada Marta, mulher da idade da minha mãe, mãe dum amigo, minha grande cúmplice e salvadora em mil ocasiões.
A D. Marta era casada com o Sr. Armando, alfaiate de profissão e dono dum temperamento muito nervoso, de meter medo, apesar do seu pouco mais de metro e meio que ele compensava gritando em bicos de pés. Numa ocasião, tínhamos uma tia lá em casa de visita e incharam-lhe as mãos de tal forma que ficou com um anel a querer perfurar-lhe a carne. Procurou ajuda na casa da D. Marta para tirar o anel e quando nós chegámos a gritaria assustava até as pedras da calçada; o Sr. Armando recorreu a uma falha de sabão para fazer escorrer o anel e, não conseguindo, só viu uma solução: agarrar na enorme e bem afiada tesoura de alfaiate e cortar-lhe o dedo! Os gritos dividiam-se entre a minha tia, apavorada, a D. Marta, chateada e o próprio Armando, em fúria contra um bocado de metal. A cena em si era de loucos: ele tinha metido o braço da pobre mulher por baixo da axila e puxava com uma mão, enquanto a outra brandia a arma! A minha tia empurrava-o e abanava a mão como se estivesse a despedir-se de alguém para a eternidade e teria feito as despedidas do anelar não fosse a Marta que também ajudava, mas só com a voz, pois, esperta, não se chegava muito ao louco guerreiro que agarrado à tesoura fazia-a girar em busca do dedo a decepar. A minha mãe entrou, gritou-lhe o nome de forma sonante e no décimo de segundo que ele afrouxou para ver quem o desafiava, a minha tia escapuliu o braço e escapuliu-se toda da casa para fora. Não sei se lá voltou a entrar, mas sei que se lembra dele sempre que passa em frente a uma ourivesaria.
A adoração que eu sentia pela D. Marta era recíproca, de tal forma que quando o filho lhe apresentou a namorada, com quem depois casou, ela lhe disse alto e bom som, que esperava que ela fosse pelo menos metade de mim. Isto comigo ao lado da rapariga.
Os disparates da D. Marta eram célebres na praceta, mas um deles tomou proporções míticas que fizeram rir a freguesia toda, quando um pedinte lhe bateu à porta e ela lhe disse que dinheiro não lhe dava, mas estava a acabar a sopa e convidava-o a comer; sugeriu-lhe que, se quisesse, que fosse batendo às portas do prédio por ali acima (ela morava no rés do chão) e que quando voltasse, a sopa estaria no prato. O homem agradeceu e ela voltou às suas ocupações deixando a porta encostada para que ele não tivesse que voltar a tocar à campainha: os tempos eram mesmo diferentes! Porém, dois minutos bastaram para se esquecer da combinação e resolveu ir tomar banho. Entretanto, um dos vizinhos entrou no prédio e, passando à sua porta e vendo-a aberta, bateu; como não teve resposta, foi entrando e chamando. Nada. Correu a casa e nada. A única porta fechada era a da casa de banho, onde também bateu, e de onde ela saiu toda nua do meio duma nuvem de vapor, e deixando rasto, com a cabeça tapada por uma toalha ainda a limpar o cabelo, não vendo quem estava diante de si mas, julgando tratar-se do marido, atirando-lhe que fossem para o quarto enquanto os filhos não chegavam! Assim que o homem abriu a boca ela levantou a cabeça e viu que estava na presença, não de um, mas de dois homens e nenhum era o Sr. Armando: o pedinte estava plantado à porta da rua de olhos esbugalhados e nem o vizinho tinha dado conta da presença dele.
Ela grita o nome do vizinho de espanto, mete-se no quarto a galope e o vizinho, puxando da sua autoridade no prédio pergunta ao outro quem é e o que está a fazer ali. A resposta veio… sorridente:
- Ela vai dar-me de comer.
O vizinho achando que a resposta é matreira começa a expulsar o pedinte! Desgrenhada mas já ataviada com um fato de treino, ela saí do quarto ainda a ajeitar-se e esclarece a confusão: o vizinho desculpa-se, o pedinte come a sopa e chega o Sr. Armando, que só mais tarde soube da cena e não sabemos que cenas terá feito.

Hoje levantei-me mais tarde pois tive que atender um problema da casa do meu vizinho, causada pela minha casa de banho, e combinei com o canalizador às nove da manhã. As nossas janelas estão sempre corridas para cima pois dormimos à luz do luar e se for do sol do meio-dia, dá na mesma, pois tanto eu como o Duarte somos de bom dormir.
Tomei banho e saí da casa de banho nua em direcção ao quarto para me vestir. Assim que entrei estava um homem de capacete na marquise do meu quarto a três metros de mim. Fiquei tão espantada que não me mexi por alguns segundos. O homem riu-se, desviou o olhar e continuou a trabalhar. Na verdade, ele não estava na marquise, estava do lado de fora a arranjar o prédio do lado mas a proximidade é tanta que me deu a sensação que ele estava do lado de dentro.
Lá me tapei com uma toalha, fui fechar os estores e, inevitavelmente, lembrei-me da D. Marta…

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Prisão de alta segurança: a Varanda

A Administração da empresa onde trabalho ocupa um andar inteiro. Para além dos senhores administradores há três secretárias cujo posto de trabalho se expande para as varandas, adaptadas a arquivo. Ora as ditas varandas ficam ao fundo dum andar comprido e estreito e imediatamente a seguir às casas de banho, ou seja, quem vai matar a aflição, além de fechar a porta atrás de si, fecha também a porta à frente que dá para a varanda/arquivo.
Uma das secretárias estava em pesquisa aturada no meio duns dossiers com o sol a dar-lhe de chapa na cara, meia ensonada já, e não ouviu a porta da casa de banho fechar-se. Por seu lado, o aflito não fazia ideia que alguém trabalhava na varanda, resultado, fez o xixi e foi embora, mantendo a porta fechada.
A pobre rapariga lá olhou o relógio e viu que já eram mais que horas, deixa-me lá ir embora. Empurrou a porta e nada, estava fechada. Lembrou-se da gaveta de cima onde o telemóvel descansava e suspirou por ele. Bateu na porta e esperou, voltou a bater, a bater, a bater, nunca com muita força pois aquilo é tudo vidro, martelado, é certo, mas vidro. Deu início então a uns gritos, uns chamamentos, uns socorros. O relógio avançava impávido e nada de aparecer vivalma: já todos tinham saído. Abriu a janela e o escuro revelou-lhe que num andar por baixo a luz estava acesa, o que a encorajou a esticar-se e a gritar a plenos pulmões para o ar abaixo de si. A falta de resposta levou-a a concluir, e bem, que alguém se esquecera da luz acesa. Ora bolas!
O sol deu lugar ao fim do dia, frio, desagradável e escuro pois, se quando deu início ao trabalho, não era precisa a luz acesa, agora não via nada e o interruptor ficava do lado de lá das casas de banho. Desligado.
A desgraçada da rapariga estava a ver a vida andar para trás e a pensar no que tinha à mão para partir um vidro sem se magoar e, assim, poder meter a mão e abrir a fechadura, quando ouviu um barulho. Gritou e bateu na porta mas ninguém veio socorrê-la. O desespero fê-la ir às lágrimas olhando a única arma de que dispunha: um lápis. Além disso, começava a inundá-la uma enorme vontade de fazer xixi.
Pensou em usar o cotovelo, virando a cara no sentido contrário ao que iriam os vidros partidos. Deu com ele no vidro martelado com a força que achou suficiente e, para além da asneira que se lhe soltou da garganta, nada mais aconteceu. O raio do vidro era resistente e a dor era enorme. Enquanto amaldiçoava este mundo e o outro ouviu barulho de novo e deu início a outra sessão de gritos que, desta vez, produziram efeitos: a colega que há minutos entrara, quando ouviu a gritaria fugiu, foi procurar um segurança e voltava agora com ele, qual cavaleiro para libertar a dama, na sua altiva torre.
Ufa…

Há bens que vêm por mal ou Porque é que detesto transferências bancárias

Eu digo que sou distraída, os outros chamam-me idiota! Factos: vendi uma casa e não cancelei o contrato da EDP. Resultado, andei a pagar as facturas do consumo de luz de uns desconhecidos durante quase três anos. Agora dei pela coisa e percebi que tenho a receber algumas centenas de euros o que me deixou por um lado, furiosa comigo, pela monumental estupidez, por outro eufórica com a herança e, por outro ainda, com a perspectiva de poder realizar um dos meus maiores sonhos: fazer uma operação para deixar de usar óculos, que adio há anos. E vou continuar a adiar porque a minha casa de banho assim o decidiu.
Eu que gosto tanto dela, que a tenho florida e arrumada, perfumada e colorida e ela faz-me uma destas… sem mais nem porquê, ao abrigo do sigilo dos canos começa a verter água para a casa de banho do tipo de baixo que tem o tecto todo preto!
Chamado o grande especialista na pessoa do senhor canalizador cai-me o veredicto não em cima da cabeça, mas directamente nos bolsos: tenho que partir o chão, que partir azulejos, que mudar a banheira, consertar o tecto da casa do homem e sei lá mais o quê.
Para além de não fazer a operação à vista ainda tenho um gasto exorbitante de lágrimas…

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Volta Bom Senso, estás perdoado!

O Paredão Marítimo, mais conhecido por Paredão do Estoril, vai da praia da Azarujinha em S. João do Estoril até à praia da Conceição em Cascais e garante-nos um horizonte de mar de beleza ímpar, com casarões que remetem para antigas glórias, passando por praias, esplanadas e restaurantes, por equipamentos de treino físico, ocasionalmente, por exposições de arte, aos fins-de-semana por aulas de ginástica organizada, entre várias outras ofertas. É local de eleição de milhares de pessoas, que ali veraneiam 365 dias por ano, faça chuva ou faça sol.
No domingo estava à pinha: ainda se viam muitos casacos de Inverno, bem como ar de arrependimento em quem os levava, mas predominavam as mangas curtas e os calções, peles ansiosas por sol e calor. Na areia encontravam-se alguns mais aventureiros, já de fato de banho, e eu cheia de inveja.
No meio do paredão serpenteiam umas bolas brancas pintadas no chão, já meias apagadas pelas condições climatéricas e por todos quantos ali passam: identificam a via para ciclistas.
Nas múltiplas entradas para o Paredão as placas a informar sobre as regras de condução de bicicletas são meros postes que servem, quando muito, para os cães fazerem xixi: ninguém lhes liga puto! Os ciclistas pedalam à sua livre vontade, alguns a parecerem querer ganhar um qualquer concurso o que, com milhares de pessoas a circular a pé, torna-se potencialmente explosivo para todos, com manobras, derrapagens e travagens dignas de animais selvagens pois, ninguém com massa cinzenta ao nível dos humanos se lembraria de andar ali de bicicleta, num local onde a quantidade de crianças se equipara à dos grãos de areia.
A Tolerância Zero de algumas estradas tem ali uma nova versão que se podia chamar Vigilância Zero: sou utilizadora do Paredão todos os fins-de-semana e nunca vi alguém ser chamado à atenção, muito menos multado. Além disso, as reacções dos ciclistas quando alguém lhes diz alguma coisa, como já era de esperar, são quase sempre difíceis, digamos assim: reclamam, chamam idiota a quem lhes faz o reparo e continuam. Pois claro.
No domingo, mal se conseguia andar com a quantidade de gente, pedi a um casal, cujo pai levava uma criança de tenra idade na parte de trás da bicicleta e que teimava em passar nos intervalos da chuva entre os passeantes, que lesse o sinal. Não sabiam, que desculpasse, pois não voltava a acontecer, e saltaram das bicicletas. Continuei o meu caminho, vi um jovem fazer uma razia a um garoto com cerca de dois anos que andava de triciclo e cujos pais quase tiveram um ataque cardíaco, vi um casal de velhos a ser injuriado porque não se desviou da bicicleta que vinha por trás deles e, quando regressei, encontrei o mesmo casal com a criança de pendura, montados nas suas montadas a furar no meio da multidão…
A bem da verdade, não devia haver só multas para prevaricadores da lei mas também, e o Estado iria encher os cofres, para gente estúpida e anormal.
Compreendo que a Câmara quis agradar a gregos e troianos ao permitir a passagem de bicicletas naquela via, porém, neste momento tudo se resume a uma gigantesca teimosia e falta de óculos. Da mesma forma que há praias que ‘começam’ a época balnear mais cedo pois verificam que a utilização começa mais cedo e, para garantirem as condições de segurança, contratam banheiros a partir de Maio, por exemplo, a Câmara devia verificar que a quantidade de pedestres é de tal forma que não se coaduna com a possibilidade de passagem de bicicletas. Chama-se a isto adaptação à realidade!
Além disso, a marcação da via, é de design é certo, talvez até tenha custado os olhos da cara a alguém e só por isso devíamos olhá-la como obra de arte mas, se o local foi ou é palco de residência de reis, também é local de passagem de plebeus, milhares deles, cujos ténis vão apagando as bolinhas que fazem linhas e se tornam ténues. A intenção era boa se as pessoas soubessem o que é ser civilizado e cumprissem as regras. Assim, as bolinhas marcadoras fazem-me lembrar pérolas que estão a ser deitadas a porcos e depois de uma pessoa ver porcos a andar de bicicleta, já nada nos admira…
Por outro lado, para além de andarmos sempre a olhar para cima do ombro para evitarmos que um ciclista embata connosco, tem que se prestar muita atenção aos cocós dos cães cujos donos deixam por ali, talvez com a esperança que amanhã estejam transformados em estrume, que a pedra é de bom plantio, como toda a gente sabe. Mais ainda, as trelas vão penduradas nas mãozinhas dos donos e os cães considerados perigosos – vi dois no domingo – não têm açaime, caso contrário não poderíamos admirar a bela cremalheira do animal, bem como ficaria diminuída a possibilidade de arrancarem um braço a um qualquer miúdo que por ali ande aos saltos e, como se sabe, estes cãezinhos não gostam de gestos bruscos e atacam quando menos se espera; mas, mais braço menos braço, quem se preocupa com isso? Talvez até lhes arranquem um bocado da cara e a própria boca de modo a calar os miúdos que, como também se sabe, são muito barulhentos!
Onde andará o Bom Senso?

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Cavalo à Solta

Minha laranja amarga e doce
Meu poema feito de gomos de saudade
Minha pena pesada e leve
Secreta e pura
Minha passagem para o breve
Breve instante da loucura
Minha ousadia, meu galope, minha rédia,
Meu potro doido, minha chama,
Minha réstia de luz intensa, de voz aberta
Minha denúncia do que pensa
Do que sente a gente certa
Em ti respiro, em ti eu provo
Por ti consigo esta força que de novo
Em ti persigo, em ti percorro
Cavalo à solta pela margem do teu corpo
Minha alegria, minha amargura,
Minha coragem de correr contra a ternura
Minha laranja amarga e doce
Minha espada, meu poema feito de dois gumes
Tudo ou nada
Por ti renego, por ti aceito
Este corcel que não sussego
À desfilada no meu peito
Por isso digo canção castigo
Amêndoa, travo, corpo, alma
Amante, amigo
Por isso canto, por isso digo
Alpendre, casa, cama, arca do meu trigo
Minha alegria, minha amargura
Minha coragem de correr contra a ternura
Minha ousadia, minha aventura
Minha coragem de correr contra a ternura

Fernando Tordo

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Em Z

Zumbem zagaias em ziguezague
Zarolhos zurram zangados
Zombis zurzidos zombam
Zodíacos zunem zarzuelas
Zepelins e zagalotes zelam as zonas

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Se bem me lembro...

Há muito, muito tempo, eras tu uma criança… não, não bem assim que devia começar, vou tentar de novo.
Há muito tempo, era eu de facto uma criança, quando o meu pai decidiu ensinar a minha mãe a conduzir. Tínhamos um Fiat 850, mais animal de estimação do que carro, numa altura em que se metiam lá dentro sete e oito pessoas e fazíamos o percurso das vizinhanças de Lisboa, onde moram os bons suburbianos, e chegávamos ao Alentejo profundo no meio de cantorias e dormência de pernas.
Num dia de folga levou-a para um arrabalde, onde andavam a construir prédios e já se viam as linhas da rua, fronteiras marcadas a lajes de passeio, com mais de meio metro de altura pois ainda não se tinha alcatroado o pavimento.
Sentou-a no lugar do condutor e, com a mão direita a agarrar a alça por cima da porta para se segurar, por entre ordens de carrega no acelerador devagar e levanta o outro pé ao mesmo tempo, trava, volta a ligar o carro, pára, avança, tudo sequenciado por grandes movimentos para a frente e para trás devido às travagens bruscas, não viu que outro carro se aproximava. Quando deu conta gritou-lhe que travasse!, mas ela carregou no primeiro pedal que os seus delicados pés encontraram e calhou a ser o acelerador. Ele, qual general, repetiu a ordem, ela, qual subalterna inexperiente carregou no erro, que o mesmo é dizer no acelerador e o carro avançou descontrolado. Ele, querendo remediar a tragédia, puxou o volante e atirou um dos seus pés ensapatado por cima da manete das mudanças para carregar no travão, mas não evitou que embatessem nos altos passeios que ali nasciam e em décimos de segundo viram o carro levantar um dos lados e dar uma primeira cambalhota.
Como se sabe, os anos 80 do século passado fizeram parte duma medievalidade onde o cinto de segurança era coisa não obrigatória e que ninguém se lembrava de usar, os bebés seguiam ao colo de suas progenitoras no banco da frente, a indústria das cadeiras e bancos para cómodo e segurança infantil dentro das viaturas era ficção científica, assim como o limite de pessoas dentro de cada carro era estabelecido pelo dono do mesmo ou pela necessidade de transporte da totalidade da família. Isto para dizer que as alminhas não levavam cinto, pois claro.
Experimentaram a montanha russa numa segunda cambalhota, antes mesmo de ser instalada na Feira Popular, sendo empurrados pela força da gravidade dum lado ao outro e, iam a caminho da terceira, quando o bólide assentou de costas numa rocha a meio dum pequeno riacho que ali passava.
Ficaram em posição de desenho animado com braços e pernas ao contrário e valeram-lhe os operários dos prédios em construção que, vendo o aparato da coisa, largaram o que estavam a fazer e correram na direcção do carro, levantando-o em peso e depositando a carcaça em terra firme, não sem antes terem tirado a tropa lá de dentro.
O meu pai estava atónito com o resultado da sua boa acção e só pensava na dificuldade que tinha tido em comprar aquele, como iria arranjar forma de o substituir. Ela, por seu turno, sacudiu-se, deu um jeito ao cabelo e olhou o mostrador do relógio, de marca branca comprado meses antes numa feira por meio tostão ou algo semelhante e disse, alto e bom som:
- Olha, felizmente não parti o relógio.
Levado o resto mortal para a oficina dum amigo, chegaram a casa fora de horas, criando-nos uma ligeira preocupação, nada que se compare às que temos hoje se alguém não nos atende o telemóvel imediatamente, e o meu pai lá nos contou a cena. Quando chegou à parte do relógio, rimo-nos todos, como é óbvio, e ainda hoje, quando ouvimos falar em acidentes de automóvel, perguntamos se o relógio escapou, deixando as pessoas um bocado à toa.
A faceta de instrutor de condução do meu pai teve êxito anos mais tarde comigo. Pelo sim, pelo não, nunca usei relógio.

Da natureza humana

Chego ao parque de estacionamento em cima das sete da tarde pensando se a mochila da ginástica estará no porta-bagagem. Estava. E também estavam dois carros a impedir a saída do meu!
Sem meias demoras chamo a polícia e explico a situação. Que vão mandar já alguém, que espere um bocadinho. O bocadinho foram apenas 10 minutos mas antes veio o proprietário dum dos veículos a quem me dirigi perguntando se achava bem o que fizera, se não via que naquele espaço não passava uma bicicleta muito menos um carro!
A simpatia estava em parte incerta no dia em que o senhor nasceu, a civilidade estava de férias, a cidadania ainda não tinha nascido, o bom senso estava numa brincadeira pegada com o respeito e ninguém deu conta do nascimento do pobre do homem que veio ao mundo sem as mais elementares noções de vida em sociedade, desconhecendo a existência do outro, quiçá, negando-a!
O homem cresceu para mim e em décimos de segundos ficou com mais dois palmos de altura e outros dois de largura e eu, bem, eu meti-me no carro e tranquei a porta enquanto ele dava a volta, praguejando, entrava no seu próprio carro e seguia viagem!
Entretanto chegou um carro da polícia com dois agentes que, verdade seja dita, foram muito rápidos. Expliquei o que acontecera e que os chamara pois nada me dizia se o Lobo Mau que tinha acabado de sair dali chegava em dois minutos ou às duas da manhã. Claro que sim, fez bem em chamar-nos, este aqui vai ser rebocado, e eu com um sorriso compensatório na cara, pois apesar de já conseguir sair, apetecia-me que alguém fosse, bem, não digo crucificado, não cheguemos a tanto, mas açoitado! Como não se usam já os açoites, olha, que lhe rebocassem o carro!
Contei-lhes a atitude do Átila, desfizeram-se em apreciações sobre a natureza humana, respondi-lhes falando dum dos canais de televisão lá de casa, um que dá desportos americanos e onde passam muitos jogos de basebol e filosofei sobre onde poderei comprar equipamento para jogar.
Talvez assim, o Adamastor na próxima vez pense duas vezes antes de querer fazer placagens.
Vai ser já hoje!

Em X

Xadrezes xingam Xás, Xeques e Xerifes
Xeque-mate.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Em V

Vulgares vícios de virgens
Volúpia virtuosa de valentes valetes
Vivem as vítimas vencidas nos versos vaidosos
Vergam-se os vassalos do Verão
Vazias vaidades vasculham o vácuo
Vacinem a velhaca violência, vedem o vento
Vapores vagarosos varrem a vista
Velozes voos vagueiam vacilantes

sábado, 29 de janeiro de 2011

Em U

Urnas urbanas usufruem o Universo ululante, ufano
Ultrapassam as ungidas úlceras
Unguentos umbilicais ultimatam uniões
Urge urrar e urinar uniformemente
Usurparam as úteis utopias
Usaram as untadas unhas
Uníssono, do último ulmeiro

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Anjo da Guarda

Desde há muitos anos que me acontece sempre o mesmo: quando termino um trabalho sinto um vazio. Sinto a satisfação do dever cumprido, o brio profissional vai de fim-de-semana com calma e tranquilidade mas, há umas reticências a seguir ao mas que não consigo preencher. Quando se repete este momento, do fim dum trabalho, duma iniciativa, no caso concreto da organização dum evento científico, e o momento é agora quando escrevo, lembro-me da primeira tarefa que me foi dada neste âmbito.
Era arquivista numa Câmara Municipal da área metropolitana de Lisboa e o director do Departamento de Administração Geral e Finanças pediu-me que executasse uma tarefa que se verificou ter múltiplas vertentes: organizar a mudança do Departamento para outro edifício. Quando alguém perguntou se não havia outra pessoa sem ser a arquivista para fazer o trabalho, ele respondeu que a missão estava a ser dada à pessoa com maior capacidade de organização e, acima de tudo, maior capacidade de gestão do stress que ele conhecia. Fiquei contente ao saber do elogio e deitei mãos à obra.
À primeira vista poder-se-ia pensar que se tratava de organizar a mudança de meia dúzia de secretárias e muitos papéis; nada disso: em primeiro lugar havia que definir os espaços no novo edifício, prepará-los com arquitectos e engenheiros e electricistas e serralheiros e vidreiros e informáticos e decoradores e operários especializados das mais diversas áreas que me ensinaram imenso e a quem estou grata até hoje. Promoveram-se encontros com os responsáveis de cada secção para perceber o que faziam, como faziam, quem atendiam, com o objectivo de funcionalizar e modernizar cada uma, com novos modelos de gestão do espaço, de atendimento dos cidadãos, com (novas) tecnologias. Meses mais tarde é que se fez a mudança para um novo edifício, onde não faltou mobiliário novo, cuja escolha também passou por mim, com concursos públicos pelo meio. A inauguração foi em Maio com pompa e circunstância: no primeiro dia acorreram aos serviços centenas de pessoas, tanto mais que estiveram fechados nas 48 horas antes, para permitir a mudança total, com alguns inconvenientes para a população.
No fim desse dia corri aqueles corredores e aquelas salas como um fantasma: não havia pressas, não havia reuniões, não havia telefonemas, não havia gente a procurar-me nem eu procurava alguém. Estava só eu e o prédio e não conseguia ir embora, alguma coisa me prendia ali, talvez o próprio tempo que lá tinha passado a ver as entranhas das paredes, a passar fibra óptica, a arrumar móveis. A lembrança daqueles momentos é tão nítida que chega a ser assustadora.
A missão estava cumprida e eu perguntava-me inconscientemente, E agora? Onde vou ocupar as 30 horas do meu dia? O que faço para gerir esta tempestade de dinâmica que transporto? A presidência da Câmara nomeou-me responsável do Gabinete de Organização e Informática na esperança que eu introduzisse novos métodos de trabalho, que mudasse procedimentos, que uniformizasse processos documentais. Odiei. Foi o trabalho que menos gostei de fazer, de sempre. Porquê? Talvez por não ter uma data limite, por o desafio não ser efectivamente um desafio, por serem tarefas que corriam ao ritmo do trabalho dos serviços, languidamente…
Felizmente, pouco tempo depois decidiram investir na construção de raiz de uma grande Biblioteca Pública, inaugurada num Novembro soalheiro, e deram-me a tarefa de coordenar os trabalhos: AMEI!
Mais uma vez, depois duma inauguração pública com políticos e milhares (literalmente!) de cidadãos, naquela noite, noite bem avançada, percorri cada sala, cada canto e cada recanto, toquei em cada estante, em cada secretária, em cada sofá, nos computadores, nas antenas dos alarmes, nas maçanetas das portas, como se quisesse deixar a minha impressão digital naquele mundo que iria rapidamente ser abarcado pela realidade dos utilizadores e passar a ser nosso e não apenas meu.
Por esta altura já me tinham dado a organizar eventos como Feiras do Livro, encontros com professores, reuniões culturais, entre outros, e quando saí da Câmara, dois meses depois de ter inaugurado a Biblioteca e ter vindo assumir responsabilidades noutra Biblioteca (não pública), não tardou que me pedissem para organizar um evento, uma exposição. Depois disso vieram os encontros científicos internacionais, como o de hoje, que acabou há uma hora e me deixou exausta. Exausta mas feliz, pela forma como tudo correu. Satisfaço-me imenso interiormente ao passar a vista pelos questionários que pedimos aos participantes para preencher e verificar que consideraram a organização impecável, excelente e que, em termos científicos, as expectativas foram completamente superadas.
Num relance revejo o primeiro encontro com os promotores científicos da coisa, os primeiros e-mails a convidar conferencistas, as respostas, os pedidos de textos e toda a comunicação sequente, que vai num crescendo de trabalho até ao actual momento e por onde passam tarefas como gravação de CD’s com as comunicações, revisões de texto e aprovação das ementas para almoços e jantares, passando pela publicidade, criação de cartazes, publicação de anúncios em jornais, inscrições de participantes e mil pequenas grandes coisas pois, cada minúsculo pormenor pode transformar-se num grande problema se não for devidamente acautelado.
Sentada em frente à secretária a digerir o sucesso do evento já sinto o vazio característico da ocasião: cada conferencista, cada participante, transformou-se em parte de mim, como sempre, mas acaba por vir o afastamento. E agora? O que faço para ocupar as 30 horas do meu dia?
Felizmente, já há outro grande evento na calha e segunda-feira começam os novos trabalhos! Não trabalho sozinha, nunca o fiz e serei incapaz de o fazer, e quero aqui deixar um agradecimento a quem participou neste projecto e especialmente a quem funciona como minha sombra, lembrando-me de certas coisas, antecipando o que vou pedir para fazer, fazendo antes de eu o pedir, mostrando uma atenção a tudo o que sabe que para mim é essencial: Tudo! Mesmo quando eu fico intratável em momentos de stress há uma estrela que me dá sempre luz, nunca me abandona. Obrigada. No fundo, no fundo, não tenho luz própria, é ela que me faz brilhar.