sexta-feira, 6 de maio de 2016

A mota nova

Vasculhada a net na secção da segunda mão, encontrou-se coisa válida a relativos poucos quilómetros de casa, Setúbal. Já lá tinhamos ido há uns dias ver para crer, deixámos o sinal, não de trânsito mas em notas e hoje fomos buscá-la.
O meu filho apanhou-me de carro antes do almoço no centro de Lisboa, que a coisa não se prolongaria pela tarde, era missão de toca e foge. Era... mas não foi.
Parámos a meio para abastecer o carrito de combustível e o malandro negou a mexer-se dali para fora. A nosso lado, um carro da polícia cargado de resplandecentes rapazes com uniforme lá deram uma ajuda ao empurrão, mas nada.
Resolvidos a chamar o reboque, de repente, o rapaz põe-se a trabalhar, nós todos sorridentes, estrada fora tipo Kerouac, a caminho de Setúbal.
Chegados ao local ainda faltava um retoque, isto e aquilo, pois que não faz mal, vamos almoçar aqui ao lado e já voltamos. Íamos, mas não fomos, porque o carro, definitivamente se negou a trabalhar e aí sim, veio o reboque e levou-o para a barriga de uma oficina. Ficámos apeados, mais eu que ele, pois a ideia era ele levar a mota, o que veio a acontecer minutos depois. 
Bom, mas lembrei-me que o seguro devia providenciar um táxi, liguei, confirmei que assim era, dei a morada do local onde estava, tudo certo e direito e fiquei à espera.
Esperei, esperei, esperei e meia hora depois voltei a ligar informando que ainda ali estava, tendo-me sido dado o número do taxista que, contactado, me disse que estava a chegar às portagens vindo de Lisboa. De Lisboa? Bom, ok, eles lá sabem.
Chegado o táxista, abrandou do lado contrário da via e pregou-me um grito assustador, o meu nome ali a ser expelido no meio da rua, a chegar a Tróia o eco, quem sabe com ares de trovão. Sim, sou eu, vamos lá. 
Dentro da viatura misturavam-se os gritos, sendo o condutor surdo como uma pedra a lembrar o melhor de Raul Solnado, na cena que, depois de cair uma bomba, o avô surdo saia da casa de banho e pedia zangado, que não batessem com as portas.
A custo, a muito custo, continha o riso enquanto a paisagem passava a grande velocidade a caminho de Lisboa, tendo a conversa sido reduzida a zero até à entrada na capital, quando nova cena digna de registo aconteceu.
Subindo às Amoreiras, e informando o GPS vire aqui, vire acolá, o taxista deu em carregar com o dedo no aparelho, enquanto dizia: Tu devias falar e não falas porquê?
O pobre GPS devia ir todo encolhido, ele que tão diligentemente continuava a debitar matéria, perfeitamente audível para mim no banco traseiro, mas incapaz de perfurar a surdez do homem que continuava a massacrar o ecrãn com dedadas furiosas. Fiquei sem saber o que lhe dizer, tanto mais que a qualquer sonido meu ele voltava-se ligeiramente para trás e emitia um forte QUÉ? a que eu respondia, repetindo-me, nem sempre com eficácia. Resolvi não dizer nada e ele desistiu de torturar o bicho, desligando-o. 
Muito depois chegámos so destino e, aproveitando um sinal encarnado, disse-lhe que ficava ali. A resposta dele deixou-me uns décimos de segundo estupefacta e não foi pelo tom elevado: Eu pensei que a senhora me ia oferecer um cafézinho. Fingi-me de surda, atirei um boa tarde enquanto saia e bati com a porta. 
Por esta altura já a mota estava em casa, percurso bem feito e em segurança, amanhã é a minha vez!

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