segunda-feira, 15 de junho de 2015

Ganhar a lotaria

Era uma vez um garoto obeso e introvertido que aceitou o desafio de experimentar jogar andebol. Tinha sete ou oito anos, era muito alto para a idade mas mal sabia correr e pegar numa bola.
Não creio que os primeiros treinos o tivessem entusiasmado muito, mas a insistência dos pais e a permanente presença do avô, motorista, guarda-costas, amigo e companheiro incentivador e persistente, ajudaram-no a não desistir antes de perceber que só podia dar três passos com a bola na mão, uma das regras elementares.
A experiência transformou-se em vício, os colegas de equipa em amigos, alguns deles com todo o ar de serem amigos para a vida, os treinos e os jogos multiplicaram-se com pelo menos duas fases na vida em que jogava em quatro equipas diferentes em simultâneo: duas no escalão dele (A e B), ocasionalmente, no escalão acima e ainda na Selecção Distrital de Lisboa.
Esta actividade implicou muita deslocação, muito quilómetro, muito fim-de-semana passado em pavilhões desportivos ao longo deste país, e também no estrangeiro, principalmente durante o período em que pertenceu à Distrital de Lisboa e à Selecção Nacional.
Eu deitava jogos e pavilhões pelos olhos mas não faltava a um jogo, de Norte a Sul, batia palmas com convicção e prazer. Lembro uma ocasião, não sei já onde, quando foram para intervalo a perder por nove golos. Ganharam o jogo…
Lembro-me dele marcar trinta, sim trinta, golos por jogo, beneficiando da altura que tinha, lembro-me de ter ido uma vez para o estágio da Selecção Nacional e ter perdido o comboio a meio do percurso e de como me telefonou orgulhoso da forma como tinha resolvido a questão, enquanto outros pais me ligavam em stress a perguntar E agora? E eu, lampeira, Agora? O meu filho resolveu…
Lembro-me de o ver chorar com derrotas, mas só guardo fotografias com medalhas, medalhas às quais vamos juntar a que ganhou este fim-de-semana, Campeão Nacional, outra vez.
O rapazinho gordo transformou-se num adolescente vigoroso e ontem foi já um homem de barba rija que disputou um jogo foi muito emotivo, não tanto por ser para o título, mas por tudo indicar ser o último oficial… durante a partida, e percebendo que seriam campeões novamente, foram-me passando os últimos treze ou catorze anos pela frente, litros de transpiração, roupa a ser lavada à pressa para o próximo jogo, as estradas de Portugal, mesmo as mais pitorescas em busca do pavilhão perdido, os outros pais, igualmente incansáveis, pequenos-almoços, almoços, lanches, jantares e ceias, em carros próprios, em autocarros ou de comboio, a vir dormir a casa e a dormir onde calhava para estar lá à hora do jogo, fosse o jogo onde fosse.
Nos últimos dois anos perdi alguns, os que se disputaram mais longe, fruto da incapacidade de me deslocar e pagar combustível e portagens, refeições e estadias, mas estive sempre com ele, desde a hora do início até ao telefonema, seco, se tivessem sido derrotados, eufórico se tivessem ganho, telefonema esse que, normalmente, servia também para combinar a hora a que o iria buscar a Lisboa, regressado daqui e dalém. E eu lá ia, quantas vezes a levantar-me da cama ao toque da entrada da mensagem – tou entrar lisboa – quantas vezes de pijama, mas vínhamos sempre a conversar, foi assim, foi assado.
É claro que ontem me fartei de gritar no jogo – apesar de a vitória estar garantida por uma diferença enorme de golos ainda antes do intervalo – mas também me fartei de chorar, o que criou uma bizarra oscilação emocional.
Nunca ganhei a lotaria, mas se um dia acontecer não acredito que me sinta mais feliz e emocionada que agora.

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