terça-feira, 11 de junho de 2013

Psicologia familiar

O aspirante a psicólogo lá de casa foi comigo jantar a casa dos avós.
Grandes risadas, mortas as saudades com um frango de fricassé no ponto certo e um arroz refogado à moda da minha avó Nicácia, deixámo-nos ficar à mesa a conversar.
Ele, inchado como um pavão, debitava discurso sobre dislexias, conversa onde aterrámos já não sei como. Falámos do pai, que dizia sempre Checosvoláquia e de um garoto, que conhecemos em tempos quando os meus pais tinham um colégio infantil, e que tinha uma disfunção estranha: pediam-lhe que apontasse o cotovelo e ele assinalava o calcanhar, perguntavam-lhe pelo braço e ele levantava a perna, e por aí fora.
Esta coisa estranha deixava de acontecer quando o gaiato estava dentro da piscina, exercendo a água um efeito tal que ele voltava a colocar as partes do corpo no sítio certo.
O Duarte afirmou que isto não era dislexia e desenrolou um papiro de informação científica, mencionou autores, chegou a pôr-se de pé para melhor explicar à plateia do que falava.
A avó olhava-o embevecida mas sem perceber patavina do que ele dizia.
Às tantas disse que adorava ouvi-lo falar, secundada pelo avô que até tinha lágrimas nos olhos diante de tão eloquente discurso, e acrescentou que precisava de um psicólogo, ao que ele respondeu imediatamente que os psicólogos não podiam exercer em familiares, pois a ética profissional assim o determinava. Perante a cara triste da avó, ele decidiu introduzir mais um ar da sua graça:
- Mas deixa lá avó, não te preocupes, não te posso consultar mas não há nada contra eu receber aquilo que me quiseres dar.

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