quarta-feira, 12 de junho de 2013

Era uma vez um telemóvel e uma sanita

Há o mar e a areia, a criança e o brinquedo, eu e o livro, o riso e o meu filho. Tudo casamentos de sonho. E depois há a corrida para apanhar o metro e já só lhe vemos o rabo a fugir, um comer salgado, adormecer no sofá e apanhar um torcicolo ou deixar o telefone cair na sanita.
Quanto ao metro, é dominar a pressa ou a ansiedade e esperar pelo próximo; o excesso de sal resolve-se comendo outra coisa; o torcicolo acaba por passar e dá direito a piadas no dia seguinte e o afogamento do telemóvel trata-se de várias maneiras diferentes. Fiquei a saber e partilho.
O Duarte andou meses a poupar para comprar uma artilharia pesada que só falta dar notas. Faz de tudo a maquineta e, parecendo até ter vida própria, saltou para dentro da sanita. Vendo o seu animalzinho de estimação a afogar-se, caiu em lágrimas e o mundo desabou, cumprindo-se assim a profecia, embora atrasada uns meses.
Em conversa com a minha irmã, com tudo em ruínas à minha volta, ouço-a dar-me várias soluções para reanimar o telefone, que começavam todas por lhe dar com o secador de cabelo no máximo.
Da primeira já tinha ouvido falar: separar as peças e metê-las num pacote de arroz para que a humidade desaparecesse.
A segunda passava por ligar o forno e depois de aquecer bem, desligá-lo e deixá-lo arrefecer com o telefone lá dentro.
A terceira era simplesmente metê-lo no microondas.
A quarta era colocá-lo em cima de um candeeiro uma noite inteira, com um pano de permeio.
Enquanto decorria a conversa fazia-se uma tarte no forno, de modo que assim que o desliguei embrulhei o telefone num pano de cozinha e deixei-o lá ficar. Duas horas depois ainda não tinha ressuscitado.
O Duarte passou-o para o microondas e começou por ligá-lo cinco minutos, mais dez, mais dez e desistiu.
Para evitar o gasto de luz optámos pelo pacote de arroz, numa noite que já ai longa. Como gastamos pacotes de cinco quilos, colocámo-lo em cima da mesa da cozinha, aberto de propósito para a operação em causa e vimos desaparecer o telefone como se estivesse a ser engolido por areias movediças. Com esperança fomos dormir.
Na manhã seguinte, e como sempre, saímos à pressa, com um pão numa mão e um iogurte na outra, que bebemos já no metro, e esquecemo-nos do telefone. A meio da manhã liga a minha mãe, em limpezas na nossa casa, e anuncia-me que o almoço do Duarte está pronto e que tem uma surpresa: eu nem imagino o que estava dentro do pacote de arroz que deixámos em cima da mesa para que ela fizesse o almoço!

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