sexta-feira, 31 de maio de 2013

Um dia feliz

Um dos meus livros favoritos em criança era ‘Um dia feliz’, de Enid Blyton. Passava-se a bordo de um navio que, não me lembro porquê, a caminho dos Estados Unidos da América tinha que parar em Kobe no Japão. A mãe e as duas filhas protagonistas da narrativa aproveitam um dia livre fora do barco e aceitam o convite de um velho japonês para passear. Resumindo, foi um dia feliz, da praia ao zoo passando pela cidade.
O meu dia de ontem também daria um livro cujo título podia ser o mesmo. Eu que acredito que a felicidade é a soma de momentos felizes pois o estado permanente de felicidade não existe, ontem acumulei muitos momentos felizes.
Na noite anterior perdi os contactos do telemóvel, não interessa como. Fiquei aborrecida e a pensar que a recuperação nunca seria a cem por cento, consolando-me a pensar que também havia muitos números que não me faziam falta.
No total eram 455 contactos, alguns com números associados, de casa, do trabalho, etc.
Ontem de manhã comecei o dia a escrever uma mensagem que mandei por correio electrónico a centenas de pessoas, explicando em duas palavras o que tinha acontecido e pedindo que, caso continuasse a ser merecedora de confiança, que me enviassem os números de telemóvel. O que aconteceu a seguir, que se estendeu pelo resto do dia e ainda por hoje deixou-me muito emocionada, a pontos de chorar por duas vezes.
As respostas chegaram em catadupa com os números de telefone a serem acompanhados por mensagens de solidariedade pelo sucedido mas, perfeitamente inesperado, com palavras de carinho de pessoas que não vejo há algum tempo, manifestação de saudades, palavras doces e ternurentas que me deixaram babada e de lagriminha ao canto do olho. Mais ainda, este tipo de mensagem vindo de pessoas que vejo regularmente, principalmente a nível profissional, tocou-me em particular.
Chegaram com amor de Moçambique e com corações de antigos namorados, chegaram telefones de casa de pessoas que eu compreenderia que nem me dessem o telemóvel, ilustres e reconhecidas figuras, que nem lhes vejo tempo para falarem aos filhos, põem os seus telefones nas minhas mãos e dizem-me para os usar sempre que precisar, há quem mande os telefones dos cônjuges e as moradas de casa e sempre, sempre com palavras dão afectuosas e meigas que não me contive.
E se vários mandaram os números apenas com um lamento pela situação, muitos outros brincaram com a coisa, alguém ligou e disse que era o pretexto para me convidar a almoçar e até um secretário de estado, a quem eu não mandara a mensagem, adivinhou e ligou-me espontaneamente querendo saber de mim. Aproveitei sorridente para obter tão importante contacto.
E estava eu nesta alegria de me ver pelos olhos de tantas pessoas que assim me tratam quando, sem aviso prévio, chega um amigo de longe a quem abracei efusivamente, matando tantas saudades.
E se tanto não chegasse para me por a cantar, fiquei a saber novas e boas da vida escolar do meu filho que me fizeram suspirar de alívio e bater palmas.
E nadando olimpicamente neste dia de sol – os dias felizes têm sempre sol – partilham comigo informações sobre a minha empresa, que muito me honram pela confiança e responsabilidade.
E empanturrada de alegria e felicidade vem a medalha de ouro, a notícia que se quer e se deseja mas temos receio que não chegue, o fim da ansiedade, a enorme cereja em cima do melhor bolo possível: fico a saber que se fez justiça com uma pessoa muito querida, numa acção contrária ao rumo da maioria das tomadas de decisão, cujo lugar está assegurado no sítio certo porque o profissionalismo, o empenho e a integridade, por vezes, também vingam.
E embora calcasse ténis – havia greve de metro e fiz vários quilómetros a pé – mas sentindo-me com uns saltos mais altos do que aqueles que nunca usarei, e com tudo isto na minha bagagem, desci a avenida da Liberdade. Se alguém viu por lá uma mulher ao fim do dia a cantar, era eu.
Já em casa pensei no euromilhões. Posso não o ter ganho, mas sei qual é o sabor!

3 comentários:

  1. Este interregno fez-te muito bem. A escrita é digna do Nobel! Exige-se a publicação em livro das crónicas deste blogue ou saímos para a rua! Nem que tenhamos de deitar o governo abaixo!

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  2. Vim aqui parar ao seu blogue por causa do livro que fala no princípio do post (tocante, por sinal). Também para mim foi um livro marcante e sempre que tenho um dia feliz me lembro. Só não tenho certeza que fosse da Enid Blyton... não o encontrei em nenhuma pesquisa

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  3. Maria João, parece ser um livro marcante para muitas pessoas. Tenho-o e já o emprestei a um desconhecido - através deste blog - que o copiou e mo devolveu. Estas coisas são de uma imensa ternura... podermos partilhar memórias com pessoas que não conhecemos, é fascinante. Um abraço, AO

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